Yang está
desacordado.
O sistema de
navegação de Wénzi está desligado e a cabine está em completa escuridão. Mesmo
o Navcom não funciona; no pequeno visor está escrito: “reiniciando. Por favor,
aguarde”.
De repente dois
drones aparecem. Eles aproximam e afastam suas lentes, tentando captar a misteriosa espaçonave à deriva no meio do espaço.
Os drones ligam
seus holofotes. A forte luz ilumina o piloto desacordado dentro da cabine. Yang
se incomoda e se mexe com a luz ofuscando-o. Ele abre os olhos e põe as mãos
contra a luz para se proteger.
O painel está
todo apagado; Navcom está inoperante. Apertando um botão de emergência, o
sistema se reinicia e o painel se acende. Inúmeras mensagens aparecem no
para-brisa; eram as tentativas de contato dos drones. Yang abre uma delas e se
confunde. A mensagem estava em inglês.
Um minuto depois, uma espaçonave surge por detrás do Wénzi e paira à sua frente. Yang reconhece
uma nave de patrulha. Ele recebe uma solicitação de chamada no canal de
comunicação e, ao atender, alguém na nave lhe falava também em inglês. Yang falava um
pouco da língua, mas não no nível fluente. Ele responde em chinês mandarim e o
outro lado se silencia. Um minuto depois alguém lhe responde também em chinês,
mas com notável sotaque estrangeiro.
- Você está
invadindo espaço restrito. Identifique-se.
Yang olha ao
redor e vê apenas pequenos asteroides à distância. Ele tenta contato com Li
Fen, mas não há resposta.
- Olá. Eu sou o
Tenente Yang Haisheng. Sou piloto da Força Aérea da República Popular da China.
O outro lado se
silencia por um momento.
- O que está
fazendo aqui, tenente?
Desconfiado, Yang
hesita em responder, mas ele sabe que não tem outra opção.
- Eu estava em
Marte. A capital Zhurong foi atacada e invadida por uma frota alienígena e, na fuga, eu acabei me
perdendo no espaço. E foi assim que eu vim parar aqui.
O patrulheiro se
silencia por um minuto.
- Vamos ter que
pedir que nos acompanhe.
Ainda
desconfiado, Yang pergunta:
- Para quê?
- Apenas nos acompanhe,
por favor.
Yang tenta dar
ignição nos motores, mas eles falham.
- Minha nave não
está funcionando.
- Nós já sabemos.
Então ele
percebe. Ele estava sendo observado o tempo todo. Naves rebocadores aparecem e
conectam cabos na fuselagem do Wénzi. Yang se impressiona. Atrás dele havia uma
unidade inteira de combate. Em um eventual ataque, ele não teria chance.
Os conectores se
magnetizam e ele é puxado pelo espaço. Toda a unidade o acompanha ao seu redor,
em uma formação de defesa hostil tanto a um inimigo quanto ao próprio Wénzi.
A escolta avança
pelo espaço e Yang é levado involuntariamente no meio deles. Adiante ele vê
centenas de milhares de rochas flutuando pelo espaço e então ele reconhece: ele estava no
Cinturão de Asteroides.
Na academia de
pilotos Yang se lembra de ter estudado sobre o cinturão. Era uma região do
Sistema Solar entre as órbitas dos planetas Marte e Júpiter. Lá continham vários
asteroides de tamanhos irregulares que, apesar do tamanho, eram menores do que
os planetas do sistema. Em média, os asteroides estavam um milhão de quilômetros um do
outro e cerca de 60% da massa do cinturão se situava ao redor de quatro
asteroides maiores: Ceres, Vesta, Pallas e Hygiea. Apesar de sua extensão,
estimava-se que a massa do cinturão era de apenas 3% a da Lua.
Uma voz surge no
comunicador.
- Piloto
Haisheng. Aqui é o Almirante Jones. Espero que os meus homens tenham te tratado
bem.
A outra voz
também tinha sotaque estrangeiro.
- Almirante
Jones? – pergunta ele – Eu sou seu prisioneiro?
A voz hesita
antes de responder.
- Não. Mas antes
de te libertar, temos que fazer algumas perguntas.
- Mas que
perguntas? Eu estou à deriva aqui! Eu já respondi tudo o que sei!
O almirante parece sorrir.
- Acalme-se,
tenente. Você está em uma zona restrita. Queremos saber como a descobriu e,
principalmente, quem te enviou.
- Zona restrita?
Do que está falando? O Sistema Solar é administrado diretamente pela República
Popular da China! Administrações estrangeiras são exercidas sob a permissão
direta de Pequim, e apenas para pesquisa.
Yang não conhece
muito os detalhes políticos, mas sabe que as fronteiras do domínio chinês se
estendem por todo o Sistema Solar.
A voz responde em
tom obscuro:
- Aqui nós não
respondemos a Pequim.
A escolta
continua levando-o pelo cinturão de asteroides. Ele tenta arduamente ligar o
comunicador, mas não havia o menor sinal. Seus misteriosos captores hackearam o
equipamento e os desligaram. Contatar Li Fen e o Alto Comando era inútil.
Yang vê aqueles asteroides
no espaço. Eles eram compostos de minerais e flutuavam no vácuo. O piloto pensa
como aquele emaranhado de rochas era o remanescente de um planeta não formado.
De maneira interessante, ele pensa como era necessário uma quantidade imensa de
matéria para um planeta se forma, criando sua própria gravidade e vencendo a
deriva cósmica do espaço.
Mais naves
aparecem e voam ao redor. Naquela região desolada, Yang percebe que não estava
sozinho. Algumas tinham canhões e Yang reconhece naves militares. Ele se
preocupa, pois teme sofrer um ataque em uma emboscada.
Para sua
surpresa, as naves também vão embora e então ele percebe. Tanto a escolta
quanto os viajantes habitavam aquela parte do cinturão; todos
pertenciam ao mesmo grupo.
O tráfego
espacial fica mais intenso. Algumas rochas flutuam de maneira incomum e Yang se
intriga. Ao ver melhor, ele percebe que não eram rochas e sim satélites
artificiais, ou como o Guoanbi os chamava, satélites espiões. Não importa onde
eventuais invasores estivessem, eles seriam detectados por eles.
- Vocês são
paramilitares...!
- Paramilitares
talvez, mas sobretudo, civis. – corrige a voz.
Yang se distrai
com a estranha paisagem; ele deveria estar próximo de um posto espacial muito
movimentado, apesar de que ali não deveria haver nenhum. Então a voz comenta:
- É notável como
a mitologia grega influenciou o Ocidente. Áreas do conhecimento como a
filosofia e a matemática, a física e a biologia, têm origem no vocabulário
grego. Também é o caso do relacionamento dos humanos consigo mesmo e com a
sociedade, como a ética, a política e a democracia. Os termos técnicos e
científicos que deram nome a diferentes teorias filosóficas, muitas derivadas
dos mitológicos contos gregos... Herança esta que permaneceu no pensamento
ocidental nos influenciando por mais de 3500 anos.
“Nós...?”,
pergunta-se Yang.
- E então surgiram
os romanos. O império romano dominou por séculos a Grécia, política e
militarmente, mas se adaptou aos modelos gregos culturalmente. Nem mesmo a
queda do império romano no séc. V, e a ascensão do cristianismo na Idade Média, foram o suficiente para derrubar a influência dos gregos. No séc. XV, a
mitologia grega ganhou novamente força com o surgimento do Renascentismo.
O piloto, sendo
um natural do oriente, não estava entendendo muito do que o almirante estava
falando.
- As obras de
Homero, conhecidas como a "Ilíada" e a "Odisseia", e a de
Hesíodo, "Teogonia", serviram de fonte para a origem do imaginário
ocidental. Essas três obras podem ser consideradas as fontes básicas para o
conhecimento da mitologia grega. A "Teogonia" narra a origem dos
deuses. A "Ilíada" e a "Odisseia" tratam de aventuras de
heróis, respectivamente Aquiles e Odisseu, acompanhadas da participação dos
deuses em ambas as narrativas. E entre os famosos mitos narrados pelos antigos
gregos, o meu preferido é o de Belerofonte.
Neste momento a
voz assume um novo tom.
- Filho do deus
Poseidon, Belerofonte foi enviado por Lobates, rei de Lídia, para matar
Quimera, um terrível monstro que soltava fogo pela boca e pelo nariz. Em
Corinto, o vidente Polyeidos lhe revela que ele precisaria do auxílio do mítico
cavalo Pégaso para derrotar o monstro. Enquanto dormia no templo de Atena, a
deusa lhe aparece em sonho e lhe entrega a rédea de ouro, necessária para domar
o animal. Então, montado sobre o Pégaso, Belerofonte parte em busca de Quimera
para confronta-lo.
O piloto não
conhecia aquele mito e não entende por que o almirante estava lhe contando
aquilo.
- Quimera era uma
grande besta que possuía cabeça de leão e corpo de cabra. Em sua cauda havia uma
cabeça de dragão. Com sua lança, Belerofonte mata o terrível monstro e, assim,
se torna vitorioso.
O tráfego
espacial se intensifica ao seu redor.
- Orgulhoso deste
e de outros feitos, Belerofonte decide voar até o Monte Olimpo montado em seu
cavalo Pégaso. Zeus, ofendido por sua ousadia, envia um vespa para picar o
cavalo, causando a queda de Belerofonte dos céus.
Yang pode ver que
um enorme asteroide se aproxima.
- O fim de
Belerofonte é controverso. Algumas narrativas dizem que, após a queda, ele
morreu. Outros dizem que ele caiu sobre espinhos e se tornou cego. Por último,
conta-se que ele se tornou um mendigo aleijado, procurando pelo Pégaso pelo
resto de sua vida.
Luzes parecem
indicar o caminho, como uma via espacial.
- Este mito me
fascina porque os Estados Unidos, assim como Belerofonte, realizou grandes
feitos enquanto existiram. Ambos ascenderam ao topo e, movidos pela arrogância,
tentaram se tornar “deuses” do mundo. E ambos caíram. – lamenta-se ele.
O piloto nota que
o asteroide era incomum, pois tinha um longo formato cilíndrico e as
espaçonaves sumiam em sua superfície.
- Mas as vida não
é um mito, tenente. E eu tenho a esperança de que os Estados Unidos recuperarão
seu glorioso Pégaso e derrotarão esse terrível Quimera que hoje governa a
Terra.
O asteroide se
aproxima perigosamente. Mais um pouco e ele e toda a escolta se espatifarão
contra a superfície. Mas então toda superfície desaparece e, de repente, Yang
se vê no meio de uma colossal estação espacial no meio do Cinturão de
Asteroides.
Yang vê milhares
de letreiros de neon espalhados por vias espaciais dentro da estação. Ele vê
nomes de fast-foods famosos, estúdios de cinema, filmes, propagandas de
produtos, e várias outras coisas sendo transmitidas em enormes telões.
Espaçonaves arrojadas aparecem ao seu lado, tão belas que mais se pareciam carros esportivos do século 21. O piloto se impressiona.
Em seguida passam
espaçonaves policiais, com suas giratórias luzes coloridas. Linhas de metrô interligam um
setor ao outro da estação, com seus vagões cheios de
passageiros. Espaçonaves amarelas voam de um lado ao outro; Yang reconhece táxis.
Milhares de pessoas passeavam nas vias públicas, fazendo compras, tirando fotos
e se divertindo. Os setores tinham nomes de famosas cidades americanas, como
Nova Iorque, Los Angeles, São Francisco e Houston.
A estação pulsava
com vida e energia. O ambiente alegre e colorido era contagiante. Yang não pode
fazer nada a não ser se deixar envolver por aquela animação.
Extasiado, Yang
percebe. O sonho americano não havia morrido.
A escolta
atravessa uma barreira de Kinect e aporta em uma doca de pouso. A cabine do
Wénzi se abre sozinha e militares armados levam Yang pelo hangar.
Ao longe ele vê cinco homens; um era o oficial da estação e os outros quatro eram seus seguranças. O piloto se aproxima e vê um homem alto e negro aguardando-o; ele vestia uma requintada farda branca.
Ao se aproximar,
o oficial lhe estende a mão e diz:
- Olá, Tenente. Bem-vindo a
Belerofonte.
