domingo, 30 de abril de 2023

Liubliana - 33 - Sombras do Passado

 


(Artista desconhecido) 


Valentim acorda de repente. Ele estava abraçado àquela que ele tinha de mais precioso, de mais sagrado em sua vida, Danica.

Sua esposa dormia em seus braços. Ela fazia expressões de pranto e aflição, aparentemente sonhando com algo que não era bom. O marido tira o cabelo de seu rosto e a beija na testa, prometendo protege-la de tudo e qualquer coisa, para sempre.

O rejuvenescimento místico havia desaparecido; Danica voltara à sua idade atual. Valentim não se importa, ele continuará amando-a de qualquer jeito; jovem ou de cabelos grisalhos, viva ou em um caixão.

Havia algo errado. Valentim olha ao redor e não vê os cultistas em lugar algum. Mesmo o cadáver do sacerdote havia desaparecido. Mas seu profano talismã mágico permanecia ali, reluzindo sinistramente no chão.

 Então um tremor surge e estremece perigosamente o templo. O Plasma borbulha nas canaletas, agitando-se e perdendo sua coloração verde. As máquinas de tortura se quebram e a enorme estátua de coruja desaba, partindo-se em centenas de pedaços. O templo subterrâneo sofria cataclismos. 

 Levantando-se da mesa sacrificial, Valentim olha para sua esposa. As pedras preciosas a enfeitavam embaixo dela. Um abatimento profundo o aflige. O Plasma se espirrava por toda parte, mas toda a substância não se comparava às lágrimas que vertiam de seu coração.

Delicadamente acordando Danica, ele diz:

- Acorde, meu amor. Nós temos que ir.

A esposa lhe faz um olhar confuso e tenta dizer algo, mas ela perde o equilíbrio e cai nos braços do marido. Valentim prontamente a acode, intentando ir embora em seguida. Mas ele decide fazer algo antes. Ao terminar, ele abraça sua esposa e finalmente a leva para fora.

A escuridão era muito forte; as tochas ao redor brilhavam em um amarelo fraco. Acostumado com o esverdeado Plasma, Valentim se pergunta quanto tempo faz que ele não via a habitual chama amarela do fogo. Então ele ouve sussurros. Adiante alguém pranteava algo, chorando sozinho na escuridão.

Aproximando-se, Valentim tem uma surpresa. Era o capitão Vilko.

O capitão estava sentado no chão, abraçado ao guarda Davud. Vilko chorava e se movia para frente e para trás, agarrado a Davud como se estivesse abraçando a um filho. O guarda não se movia, ele estava inconsciente e uma mancha enorme de sangue ensopava as suas roupas.

- Capitão Vilko? O que você fez?!

Vendo o casal parado à sua frente, Vilko diz:

 - Oh, Valentim...? – surpreende-se – Vejo que você finalmente encontrou a sua esposa...

- Responda-me! – ordena Valentim.

- A minha perda.

A resposta obscura confunde a Valentim.

- O quê?

- O que você faria se sofresse uma perda tão grande que não pudesse recupera-la? – o capitão olha para Danica – Se você perdesse a sua esposa para sempre?

- Do que você está falando?

- Meu filho. – responde ele – Meu filho foi a minha grande perda. – então ele pergunta – Você já ouviu falar do “homem selvagem”?

Valentim assente. O homem selvagem era uma popular lenda na mitologia eslava. A lenda descrevia um homem baixo com barba comprida e cauda, mas haviam várias outras definições. Os ucranianos descreviam um homem velho e coberto de pelos que dava prata àquele que lhe esfregasse o nariz. Nos Urais, os russos os descreviam como homens pequenos, belos, com voz agradável, que viviam em cavernas e prediziam o futuro. Os bielorrussos, por sua vez, os descreviam como canibais de apenas um olho que bebiam o sangue de ovelhas. Ainda haviam mais descrições, mas todas convergiam no selvagem humanoide popularmente conhecido na Europa. Lembrando-se disso tudo, Valentim reconhece que era Danica quem costumava lhe contar as lendas de sua região.   

O capitão continua:

- Quando eu era criança, eu tinha medo de dormir no escuro. Todas as noites alguém aparecia no meu quarto, movendo-se pela escuridão. Sob a luz do luar, alguém atravessava a janela e sacudia suavemente as cortinas. Era o homem selvagem que estava ali. Ele era coberto de pelos e tinha os olhos vermelhos como a brasa. Ele era tão alto que sua cabeça alcançava o teto! – descreve ele – Parado em frente à minha cama, ele esticava os braços e tentava me pegar! E nesse momento eu chorava e gritava de pavor, pedindo desesperadamente por minha mãe! – Vilko deixa sair algumas lágrimas – Eu ia ao quarto dos meus pais e pedia para me deitar com ela, mas meu pai não permitia. Meu pai era muito autoritário e mandava na casa. Ele se responsabilizou por minha educação, mas ele era muito duro e não entendia o meu medo. Desde pequeno, meu pai sempre me destratou, pois ele nunca gostou de mim. 

Então Valentim se consterna. Ele também sofreu com um pai ruim e não consegue evitar sentir pena do capitão.

- E eu o implorava... – diz Vilko, referindo-se ao seu pai – Eu lhe pedia perdão, desculpando-me por não ser valente! Meu pai odiava os covardes e nunca me perdoava por eu ser um também. Mas eu era só uma criança! E meu pai não se importava! Ele me forçava a enfrentar os meus medos. De dia, ele dizia que não me queria, que não me amava... E à noite ele me abandonava, deixando-me para ser atormentado por aquela assombração. E eu dizia: “Pai! Pai! Ele está aqui! O homem selvagem está aqui! Ele veio me pegar!”. Mas meio pai não vinha, pois queria que eu fosse valente e o enfrentasse como um homem! – em lágrimas, ele recorda – E meu pai ouvia tudo do lado de fora, como se tivesse prazer em me ouvir chorar...!

Valentim se indigna.

Com semblante perturbado, o capitão relata:

- O homem selvagem me dizia coisas. Ele dizia que viria à noite para me pegar e me arrastar para as trevas com ele. Arrepiado, eu me escondia debaixo do cobertor e rezava. Meu conhecimento religioso era minúsculo naquele tempo, mas eu pedia para o Deus da igreja para vir me ajudar. E eu gritava para Ele me ouvir, alertando-O que o homem selvagem estava próximo! Mas Ele se fazia de surdo para os meus gritos... – lamenta-se ele – Meu pai debochava de mim lá fora. Eu estava sozinho com aquela coisa no meu quarto. Uma vez o homem selvagem disse: “esta noite eu levarei sua alma diante do seu Deus”.

Vilko respira fundo e continua:

- Então um dia... O homem selvagem desapareceu. Meu quarto não foi mais invadido por essa assombração hedionda. O tempo passou, eu cresci, arrumei um emprego, me casei, mas o trauma nunca me deixou. Minha esposa engravidou e eu tive um lindo filho. Ele era tão alegre e bonito; certamente a coisa mais maravilhosa que eu já tive. – comenta ele – Eu vivia feliz com minha família, até que uma tragédia aconteceu. Minha esposa morreu, vítima de uma terrível febre, uma doença desconhecida na época e que tirou a sua vida. Assim eu fui obrigado a criar sozinho o meu filho. Mas algo no menino me incomodava. Ele então tinha cinco anos e eu o achava fraco, não achando-o valente o suficiente para enfrentar os problemas da vida. Quando criança, eu estive indefeso diante da severidade do meu pai. Sem melhores referências, eu acreditei que sua educação era a correta a se adotar. Eu passei a perseguir o meu filho que, assim como eu, esteve indefeso diante do pai.

Ainda em devaneios, o capitão relata:    

- Coisas estranhas começaram a acontecer em nossa casa. Eu acordava todas as noites com os berros do meu filho. Indo ao seu quarto, ele diz que havia alguém lá. Com semblante apavorado, ele descrevia um homem coberto de pelos, com olhos vermelhos e muito alto. Ao ouvi-lo, meus velhos medos despertaram. O homem selvagem retornara, e agora ele buscava o meu filho! Eu me enchi de pavor, eu não tive coragem de enfrentar o homem selvagem. Como meu pai disse, eu não era valente, eu era uma criança covarde indigna de ser amada. Mas meu filho não podia saber disso. Com medo dele descobrir minha verdadeira face, eu escondi ser um covarde e o mandei enfrentar os seus medos sozinho. – lamenta-se ele – Todas as noites meu filho me acordava gritando. Eu me dirigia à porta de seu quarto e, com as mãos trêmulas, não ousava abrir a porta; ao invés eu o deixava para enfrentar aquela coisa sozinho.  

Valentim lhe faz um olhar de reprovação.

- Após algumas noites, meu filho não gritou mais. Havia apenas o silêncio, a espera e o medo. Foi então que eu pensei: “o homem selvagem finalmente o deixou em paz”. Aliviado, eu criei coragem e finalmente abri a porta. Mas o que eu encontrei foi uma grande tragédia. Meu filho estava morto. – revela ele, espantando-o – Eu não sabia, mas ele tinha o coração fraco e não aguentou o pavor. Desesperado, eu abracei meu filho e imediatamente disse: “por favor, acorde!”. Eu o sacudi, sacudi e sacudi, mas ele não acordava. Eu implorei para que ele acordasse, dizendo “por favor, meu filho querido, acorde”. Mas ele não acordou. Lágrimas transbordavam dos meus olhos. O homem selvagem... – soluça ele – havia levado o meu filho embora, conforme ele mesmo prometera que ia me fazer.

Vilko chora por um momento, tomado por uma profunda dor.

- Mas o que vocês queriam que eu fizesse? Meu pai me deixou sozinho para enfrentar o meu medo! Eu era apenas um covarde! Então eu me escondi atrás de sua suposta educação e forcei meu filho a enfrenta-lo também, mesmo eu nunca o tendo feito. – revela ele – Eu pensei que logo o homem selvagem desapareceria novamente, deixando meu filho em paz. Mas não foi isso o que aconteceu. Remorso tomou conta de mim. Eu não pude superar a minha perda. Meu filho estava em algum lugar de onde viera aquela coisa. Ele não morreu de susto, mas fora vítima de minha covardia. Eu era um covarde como o meu próprio pai disse. Então eu fiz uma promessa... Uma marcante promessa enquanto o caixãozinho do meu filho descia à cova. Eu prometi que jamais seria um covarde novamente, e assim eu decidi entrar para a Gendarmerie, seguindo uma profissão marcada pela valentia e pela bravura. 

Enxugando as lágrimas de seus olhos, o capitão revela:

- Anos depois, eu fiquei sabendo da existência de uma estranha seita, um culto a um desconhecido deus pagão. Era o culto de Exúvia. Esperançoso da possibilidade de ter meu filho de volta, eu vendi minha alma a Exúvia, oferecendo inclusive o meu corpo como casca para a sua futura encarnação. – olhando para o casal, ele diz – Sim, Valentim, fui eu quem te guiou esse tempo todo para as mãos de Exúvia.  

Então Valentim se espanta.

Olhando ao redor, o capitão comenta:

- Mas hoje eu me vejo abandonado pelo culto, sendo deixado com meus pecados para trás. Meu filho se foi, e agora eu sei que não o verei jamais. Todo o meu esforço... Toda a minha dedicação... Ignorados. Fui abandonado por Exúvia... E deixado para trás.

O capitão abraça a Davud, profundamente arrependido pelo o que fez.  

Um minuto se passa. Valentim reflete no que acabara de ouvir. Ele foi manipulado e trazido para o templo de Exúvia para consumar o sacrílego ritual. Nada em sua vida seria o mesmo dali por diante.

Então, com olhar férreo, o inclemente Valentim responde:

- Suas escolhas e seu passado não são problemas meus.

Tirando a faixa da cabeça de Davud, Valentim lhe dá as costas e também o deixa para trás.

Enquanto Vilko lamenta seu terrível ato, Davud abre os olhos; ele milagrosamente ainda estava vivo. O guarda sussurra:

- Vejo Al Buraq voando ao meu lado... – ele sorri – Ela é tão linda... – lágrimas se escorrem de seus olhos – Ela é tão linda...!

Então a morte chega e esmaga a todos os seus instintos, apagando o brilho de seus olhos. Davud sucumbe e amolece, morrendo nos braços do capitão.

As paredes tremem e uma enxurrada de água surge nas rachaduras. Em seguida o teto cede e o templo desaba, soterrando-os para sempre.   

 


domingo, 16 de abril de 2023

Liubliana - 32 - Danica no Templo Subterrâneo

 


(Artista desconhecido)


Sussurros e preces ecoam pelo escuro. Valentim caminha totalmente nu pela misteriosa congregação do subterrâneo. De repente cultistas com capuzes vermelhos e corpos formosos se aproximam; Valentim reconhece mulheres. Elas o vestem com um exótico manto marrom, cujo tecido lembravam penas.

Há um altar adiante. Valentim enxerga uma mesa, provavelmente erigida ali para os sacrifícios. Ele se impressiona ao ver pedras preciosas adornando seu contorno, com ouro, esmeraldas, safiras e rubis. De tão larga, ele pensa ser uma cama, mas não consegue ter certeza devido à fumaça dos incensos.

Diante do altar, um sacerdote o aguarda. Ele vestia um belíssimo manto púrpura, que reluzia como a capa dos reis. Em suas mãos haviam anéis de preciosas joias. Em seu pescoço Valentim vê um distinto colar, que pendurava um talismã mágico de brilho profano. A face do sacerdote era muito pálida, tão branca quanto a neve. A coloração era tão anormal que ele parecia ter lepra.

O sacerdote se apresenta:

- Saudações, senhor Valentim. Bem-vindo ao templo de Exúvia.

Valentim inquire incisivamente:

- O que vocês querem de mim?

- Reencarnação. – responde o sacerdote, de imediato – O retorno de Exúvia, o nosso deus.

Valentim se confunde.

- Exúvia...?

Sorrindo, o sacerdote calmamente responde:

- Exúvia é um deus elementar e natural cujas raízes se perdem nas brumas do próprio tempo. Seu culto se manteve vivo no paganismo de nossa província, apesar dos esforços da Igreja de tentar erradica-lo. Desejamos reencarnar o nosso deus, e para isso precisamos da sua ajuda.  

- Minha ajuda?

- A hora da reencarnação se aproxima; mais uma de muitas ao longo das incontáveis eras. Nós preparamos a terra para o seu retorno, abrindo as portas do tenebroso abismo. O Plasma sobe das profundezas e encharca a terra, infectando-a como o miasma dos cadáveres. Com o abismo aberto, a própria realidade se curva, mesclando os mundos, confundindo as mentes e tornando a fantasia real.

Então Valentim percebe. De fato, o Plasma era alucinógeno e provocava alucinações, como Tobias disse. Os cultistas abriram os portões do abismo e, com isso, trouxeram os espíritos das profundezas. Assim muitas aparições eram monstros reais, como a Succubus nos telhados, Caronte no Rio Liublianica e a mulher-lobo no Bosque das Espatódeas.  

O sacerdote continua:

- Liubliana é o berço de Exúvia, e o Plasma o maravilhoso líquido que o alimenta no útero. 

Valentim se indigna.

- Maravilhoso?! Essa substância maldita amaldiçoou a cidade, mergulhando-a em um poço de sofrimento e violência!

- Um presságio do que virá. – responde ele, sem se importar – Exúvia é uma divindade de vingança e rigor, e virá para cobrar o que a humanidade tem feito com sua substância sagrada. A violência é só o começo.

- Então vocês realmente são os responsáveis pela onda de crime lá em cima. Tobias estava certo. 

- Exúvia pretende reencarnar, e voltar do sono profundo da morte. Nós, seus fiéis servos, viemos tentando reencarná-lo desde então. Nós usamos o robô dos ingleses, reanimando-o com o Plasma e usando a Cabala judaica no processo. Mas nossa tentativa fracassou.

Valentim se lembra. O Golem robô foi descartado e abandonado nas ruas após o fracasso. E assim ele causou dor e sofrimento para os judeus.

- Eu tentei reencarná-lo no útero de uma meretriz londrina, realizando a profecia da Prostituta da Babilônia descrita no livro das Revelações. Mas tu e teu amigo inspetor frustraram os meus planos.

O sacerdote se referia a ex-prostituta Madelaine Smith, escolhida por aquele sacrílego culto para gerar o deus Exúvia. 

- Por último, nós tentamos reencarná-lo em nós mesmos, oferecendo nossos corpos para possessão ou sacrifício, mas nenhum de nós era digno de abrigar sua fulminante presença divina.

O sacerdote gesticula, pedindo-o para olhar ao redor. Valentim percebe que todos eles, inclusive os penitentes nas máquinas de tortura, tinham a aparência mórbida de leprosos. Os cultistas foram possuídos por Exúvia, e todos acabaram drenados pelo deus. Após definharem e morrerem, eles se tornaram seus escravos para sempre.  

- No passado, Exúvia foi o lendário dragão que hoje repousa sobre a ponte. Porém hoje ele não é mais o dragão. Hoje ele é as corujas. – revela ele.

“As corujas...?”, pensa Valentim. Nesse momento lhe ocorre que as corujas são um presságio de morte. Segundo a crença popular, se a pessoa avistar uma coruja, algum conhecido seu morrerá. Para o assombro de Valentim, ele vem avistando corujas desde o desaparecimento de Danica. Como um mal agouro, elas vêm perseguindo-o desde então.

O sacerdote diz:

- As corujas devem gerar um filho. Mas para tanto, a coruja marrom deve se alinhar aos segredos negros da noite. Só assim ela poderá gerar o filho, cuja concepção usurpa a natureza de Deus. Tu, Valentim, és a coruja marrom.

Apontando para o seu manto, o sacerdote lhe revela o seu destino. Então Valentim entende por que eles o despiram e o vestiram com aquela roupa.

- Entretanto... – continua ele – É necessário a coruja branca para que a cópula seja completa. Tua esposa, Valentim, é a encarnação da coruja branca.

Então o fogo e a fumaça se dissipam e Valentim reconhece uma mulher deitada na mesa sacrificial. Imediatamente ele se desespera. Era Danica.

- Danica!

Valentim não consegue acreditar nos seus olhos. Sua esposa estava bem ali, deitada à sua frente. Ele treme e se confunde. Após meses procurando, ele nunca perdeu a esperança de encontrá-la, nem que a encontrasse morta. Mas ela estava bem ali, diante de seus olhos. Ofegante, ele não sabe o que fazer.

O marido se intriga. Danica estava seminua, vestindo apenas um leve vestido branco e deitada sobre a mesa. Estranhamente ela parecia estar sonolenta e entorpecida.

Então ele brada:

- Desgraçados! O que vocês fizeram a ela?!

Valentim tenta socorrer sua esposa. O sacerdote, porém, o proíbe.

- Detenham-no! – então dezenas de cultistas aparecem no ar, cercando Valentim e segurando os seus braços.

- Me soltem!

- O senhor não é digno de toca-la! E tampouco será tua a honra de concebê-la! O senhor fracassou em hospedar o deus! – acusa ele – Sendo assim, Exúvia não habitará o seu corpo, mas depois se servirá de sua carcaça!

Então ele ouve uma voz familiar atrás de si. Valentim se vira e, surpreso, reconhece o guarda Davud no meio da congregação. A visão torna-se confusa e ele pensa ter ouvido um pedido de ajuda. Mas naquele momento nada podia ser feito.

Os cultistas entoam um tenebroso cântico e o som abafa a voz de Davud. Mas já era tarde demais para o jovem guarda. Com sua esposa em perigo à sua frente, nada faria Valentim parar.  

O ritual supremo começa. Enquanto Valentim luta bravamente para se desvencilhar dos cultistas, o sacerdote se dirige à mesa sacrificial. O sacerdote se despe e se põe entre as pernas de Danica, preparando-se para copular com ela.

Perante sua esposa, o sacerdote acaricia seu corpo e seus os seios. Valentim se enche de ódio e desespero. Ele grita, brada e vocifera, mas nada conseguia fazer detido pelos cultistas.

Então algo acontece.

Uma fúria mística cresce no corpo do marido e se expele de seus flamejantes olhos. O sangue ferve e percorre seus braços, tão quente que poderia derreter as próprias veias. Seu ódio era tão grande que ele sente que podia quebrar correntes com as próprias mãos. Mas não eram correntes que ele queria quebrar; eram os ossos daquele homem.

A magnífica força sobe por seus braços e ele se solta dos cultistas, empurrando-os para longe. Ele corre em direção à mesa e encontra uma pedra no chão. O reverberar do cântico era infernal; os cultistas se extasiavam enquanto prosseguia o ritual macabro. Valentim não se distrai; a iminência de assistir sua esposa ser violada por um estranho lhe era intolerável.

Pegando a pedra, ele se lança sobre a mesa e agarra o pescoço do sacerdote. O homem estava sobre Danica e prestes a consuma-la. Então o golpe atinge o seu crânio e abre um enorme buraco. O sacerdote cai ao lado de Danica, mas Valentim não está satisfeito. Ele bate de novo, e de novo, e de novo, até sua cabeça se assemelhar a um saco de couro molhado.  

Valentim bramava como um leão. O sangue do sacerdote jorrava pela mesa, se escorrendo por pequenos entalhes místicos e formando desenhos. Os caminhos são preenchidos e então algo se ativa, acendendo a mesa como se ela fosse energizada por Plasma.

Os cultistas mudam o cântico e parecem comemorar algo. Tardiamente Valentim percebe. O sacerdote não intentava consumar Danica; aquilo era um ardil para Valentim mata-lo e realizar o sacrifício que alimentaria o deus com seu sangue. O sacerdote era a oferenda.

Aquela luz brilha e muda de aspecto. Passando do verde para o branco, a mesa sacrificial o ofusca por alguns instantes e então algo inacreditável acontece. Valentim olha para sua esposa e se espanta. Ela havia ficado vinte anos mais jovem.

Enquanto contempla o corpo de Danica rejuvenescido à sua frente, o espírito de Exúvia surge e possui o corpo de Valentim. Agora cheio de vigor divino, o marido olha para a mesa e encontra o olhar sensual e cheio de desejo de sua esposa, convidando-o para copular. Como um animal, ele se lança sobre Danica, que o recebe com a intensidade de uma pantera selvagem. Em meio a arranhões, mordidas e muita saliva, os dois copulam sobre a mesa sacrificial do templo.

 Os cultistas entoam seus cânticos. As chamas se atiçam, dançando sobre os castiçais e produzindo um clarão. A enorme estátua da coruja parece ganhar vida, pois os encara com olhares assustadores.        

Após um amor intenso e um violento pulsar, a cópula finalmente se encerra. Valentim cai ao lado da esposa e ofega constantemente, suando em exaustão. Atrás deles a congregação rejubilava; mesmo os penitentes nas máquinas de tortura se arrastavam para o altar, oferecendo-se para servi-los. Os cultistas sabem do que se trata. O ritual havia sido consumado.

 Danica concebe e um filho é gerado em seu ventre. Era a reencarnação do deus Exúvia.

 

 

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