domingo, 29 de dezembro de 2024

Shenzhou Wénzi - 09 - Estação Espacial Tiangong

 


(Artista desconhecido)


Órbita da Terra, 30 de novembro de 2460 e.C, ou 511 pós revolução maoísta.

Da cabine do Wénzi, Yang contempla o planeta Terra. Estando a 30 km acima da superfície, o piloto vê aeronaves arrojadas deixando o planeta; eram os veículos oficiais das Nações Unidas.

Após a fuga dos diplomatas, Yang vê massivas aeronaves entrando em órbita; eram as aeronaves tripuladas transportando os civis.

A aeronave presidencial se junta à frota do alto escalão de Shangai e Pequim. Mais tarde se aproxima a nave do Ministério da Defesa. Naves de políticos e de diplomatas também se juntam à frota. Enquanto isso, chefes de Estado de todo o mundo ainda estão deixando o planeta; a fuga da Terra estava longe de acabar.

Na frota, taikonautas fazem a manutenção da nave principal; ela também sofreu danos durante a fuga. Yang se dirige à doca e aporta, o alto escalão chinês o aguada.

O piloto veste suas botas magnéticas e caminha pelo deck principal, com passos precisos simulando a gravidade. Os tripulantes acenam e o cumprimentam alegremente, agradecendo-o por seus esforços combatendo o inimigo.

Mas aquele não era momento para celebrações. Todos lamentam a morte de Junlong. Wénzi era eficaz ao combater os enxames, mas a guerra já cobrava o seu preço.

Li Fen estava de luto. Isolada em seu dormitório, ela chorava a perda de seu pai. Suas próprias lágrimas flutuavam na gravidade zero.

- Li Fen? – chama ele – Posso entrar?

- Vá embora. – responde ela.

Yang não se move. Ele percebe que ela estava abatida e não tinha ninguém para consola-la.

Não sabendo o que responder e não querendo parecer o culpado, Yang comenta:

- Ele não quis minha ajuda, Li Fen. Ele quis cumprir a missão.

O piloto falava a verdade. A tenente-coronel, porém, não demonstra reação. Nenhuma palavra, nenhuma grosseria, nenhum olhar irritado típico de sua personalidade.

Passados alguns segundos em silêncio, Yang decide se afastar. Mas de repente ela diz:

- Lü Dongbin.

Yang se confunde.

- O quê...?

- Meu pai sempre me contava a história de Lü Dongbin. – responde ela, de cabeça baixa – Como na história, meu pai queria que eu compreendesse que todas as coisas na vida são transitórias, e que eu deveria buscar algo mais duradouro na minha existência, como a espiritualidade e a eternidade. – e então ela amargamente sorri – E hoje é o espírito do meu pai que parte para a eternidade.

Li fen chora. Preocupado, Yang tenta consola-la quando alguém os interrompe.

- Piloto Haisheng! O senhor deve se apresentar à sala de guerra imediatamente, sem atrasos.

Contrariado, Yang olha para Li Fen, mas ela simplesmente desvia o olhar em silêncio. Assentindo, o piloto respira fundo e responde:

- Afirmativo, soldado.

 

§

  

Na sala de guerra, Yang se apresenta. O ministro da defesa, o almirante da marinha, o marechal do exército e o almirante da aeronáutica se reúnem, juntamente com outras autoridades do alto escalão chinês.

Primeiramente eles lamentam a perda de Junlong e lhe desejam condolências. O alto escalão sabia da amizade entre Yang e o general.

O ministro da defesa inicia a reunião. Ele informa que a situação com o Yiqún está muito má. A invasão abrange escala global, mas não é isso o que o preocupa. Os enxames estão tomando todas as grandes cidades da China. Pontos estratégicos, vitais para a sobrevivência de seu país, também estão sendo tomados. Se o inimigo continuar avançando, a segurança nacional se desfalecerá.

Yang entende o que o ministro quer dizer. Apesar da invasão alienígena afetar todo o mundo, a China tem muitos inimigos pelo planeta. Um sinal de fraqueza e toda a ordem chinesa cai.

O almirante da aeronáutica e o marechal do exército tomam a palavra. Eles expõem as implicações de um ataque nuclear em solo chinês. A radiação contaminará o meio ambiente e, com a invasão vindo do espaço, eles ainda não podem garantir a segurança do presidente dentro do planeta. O almirante da marinha concorda. Após a missão em Pequim, eles puderam constatar que o inimigo também tinha veículos militares capazes de navegar e mergulhar na água.     

Yang percebe. Nenhum lugar na Terra era seguro. Apenas o espaço se tornara uma opção.

Com a anuência do ministro, o alto escalão decide adiar o lançamento dos mísseis Dongfeng. Eles pretendem garantir a segurança do presidente primeiro.

Tiangong permanecia a primeira opção. Ao consultar o setor de comunicações da nave, o operador retorna com uma resposta desconfortável; a estação espacial Tiangong não responde. Eles insistem por um tempo, mas a estação só devolve a estática e o silêncio. A angústia pesa sobre o alto escalão.

Falhando as tentativas de contato, eles acessam remotamente o setor de segurança da estação. As imagens das câmeras não são boas.

Tiangong estava sendo atacada ferozmente pelos enxames. Mesmo no espaço, as naves humanas não eram páreas para o ágil inimigo. Os sistemas de defesa também não repelem o invasor; elas foram projetadas para uma ameaça terráquea; nenhum engenheiro ou cientista previu que a invasão seria alienígena.

O ataque é rápido e contundente. O sistema de suporte à vida é destruído. O gerador de energia e as câmaras hidropônicas em seguida são arrasadas. O sistema de segurança e as naves humanas são meticulosamente neutralizados pelos enxames. Durante a operação, os enxames bombardeiam prédios inteiros dentro de Tiangong. Pesaroso, Yang vê a estação sucumbir.

- Já vimos o suficiente! – interrompe o ministro, ordenando o fim da reprodução do vídeo.

Yang é convocado para averiguar a estação. Ocupados, nenhum deles teve tempo de solicita-lo um relatório sobre o sucesso da missão em Pequim.

Li Fen também é convocada. Escondida atrás dos militares, Yang nem mesmo viu que ela estava ali. O alto escalão quer que ela prossiga para a missão, auxiliando e fornecendo informação necessária ao piloto. Ousadamente ela protesta.

- Por que eu deveria auxilia-lo? A nave do meu pai – ela se referia ao Shenzhou Wénzi – não precisa de auxiliar de comunicação; ela já tem a IA.

Todos se espantam com sua ousadia. Não era comum na cultura militar chinesa questionar ordens. O ministro sente seu rosto corar.

Os oficiais do Exército esclarecem dizendo que Li Fen é filha do falecido Junlong, e que agora passava por um difícil momento de luto. O ministro da defesa então se contém, mas ainda assim a ignora. Ela continuava escalada para missão.

A reunião estava encerrada. Yang teria apenas três horas para descansar e se preparar para a missão. Ele precisava se apressar.

 

§

 

No espaço, a aeronave de reabastecimento se acopla ao Wénzi. Yang averigua o sistema de navegação e o equipamento; tudo parecia estar em ordem. Em silêncio, ele aguarda ser reabastecido com combustível, munições e ter seu escudo recarregado. No lado de fora, a fuselagem brilhava com a barreira Kinect. 

Terminado o serviço, uma mensagem de voz robótica surge na cabine.

“Instalações de armas concluída. Boa sorte”.

Então a aeronave de reabastecimento se afasta.

Avançando pelo espaço, Yang se dirige à Estação Espacial Tiangong.

Tiangong, ou “Palácio Celestial” em chinês mandarim, foi um programa espacial com diversas etapas em sua história. Inicialmente lançando um módulo menor em 2013, o Tiangong-1, ele foi seguido de módulos maiores capazes de hospedar equipes de taikonautas inteiras no espaço. 

Em 29 de abril de 2021, a estação teve seu primeiro módulo lançado, chamando-se Tianhe, ou “Harmonia dos Céus”. Ele foi seguido por mais dois módulos, o primeiro de nome Wentian, ou “A Busca pelos Céus”, lançado em 24 de julho de 2022, e o segundo de nome Mengtian, ou “Sonhando com os Céus”, lançado em 31 de outubro de 2022.

A partir de então, a estação aumentou de tamanho continuamente até o final do século XX, principalmente após o fim da guerra entre a China e os Estados Unidos em 2041. 

Com o mundo então pacificado sob a nova ordem chinesa, a China pôde se concentrar na exploração espacial. Tiangong era frequentada apenas por taikonautas, mas com seu rápido crescimento, Pequim iniciou um projeto de colonização espacial em larga escala, o primeiro da humanidade.

Tiangong acarretou dezenas de outros projetos ambiciosos da humanidade. Seu crescimento ocasionou a criação do primeiro elevador Terra-Espaço, ligando a superfície à órbita por cabos ultra resistentes. O elevador fornecia recursos e matéria-prima para a estação em expansão, sem a necessidade de foguetes.

Em pouco mais de vinte anos, a estação aumentou 50 mil vezes de tamanho. O que antes era um posto de pesquisa para taikonautas, hoje se tornava o lar de milhares de pessoas. Compartimentos residenciais, pontos de comércio e áreas de lazer foram construídos, assim como jardins hidropônicos, instalações sanitárias e sistemas de suporte à vida, garantindo a sobrevivência de seus residentes.

Cientistas chineses desenvolveram máquinas capazes de simular a gravidade, mantendo sua estabilidade através da centrifugação e do magnetismo.

Chamar Tiangong de estação é apenas um detalhe, um nome oficial de sua origem. Hoje Tiangong é uma verdadeira colônia, abrigando dezenas de milhares de habitantes e tendo seu número estimado em 60 mil.

Entretanto Tiangong abrigava um segredo. Apesar de pacífica, ela também abriga uma arma letal capaz de destruir a humanidade. O colossal canhão responsável pela vitória sobre os Estados Unidos se encontra em Tiangong. Yu Huang Shang-ti[1], nome do deus mais importante do taoísmo, dá seu nome ao poderoso canhão, uma forma política de dizer que o deus mais poderoso do mundo é chinês. 

Yu Huang, porém, encontra-se adormecido em sua tumba no espaço, aguardando o momento em que será ressuscitado para defender a humanidade.

A estação se aproxima. Yang se impressiona; Tiangong é gigantesca. Semelhante a um cilindro aberto, a estação é considerada a maior obra da humanidade, superando a hegemonia histórica da Muralha da China.

Chegando na estação, Yang vê satélites de comunicação destruídos pelo caminho. Adiante se encontram as docas de aterrisagem. Luzes vermelhas conectadas por cabos guiam seu caminho, como uma pista de pouso. Os portões para o interior estão destruídos, evidenciando a impetuosa invasão.

Ao atravessar os portões da primeira doca, eles se movem com dificuldade, tentando se fechar inutilmente. A passagem a seguir era escura e quadricular. Sistemas de segurança com defeito o detectam e o atacam, identificando o Shenzhou Wénzi como um intruso. Canhões lasers se desacoplam das paredes e atiram contra Yang, assustando-o. Com manobras evasivas, ele ordena:

- Navcom, selecionar o canhão Estrela da Manhã!

- Afirmativo, senhor.

Apertando os gatilhos, os lasers ricocheteiam pelas paredes e destroem os canhões.

Em seguida uma voz surge no comunicador; era Li Fen. Ela diz:

“Piloto Haisheng, prossiga com cuidado. A invasão inimiga pode ter danificado os sistemas de segurança”.

Sorrindo, o piloto responde:

- Percebi...!

Sensores no segundo e último portão da passagem detectam o Wénzi e começam a se fechar. Preocupado, Yang acelera e tenta atravessa-lo a tempo. Wénzi ativa seus propulsores e atravessa por um triz. E assim a doca de entrada era deixada para trás.

O interior da colossal estação se revela. Tiangong era clara e iluminada por dentro, como um salão luminoso. Entretanto, Yang a encontra abandonada e devastada. Não havia sinal de vida nas instalações, e detritos diversos flutuavam pela gravidade zero.

Nas paredes da estação Yang pode ver o quanto Tiangong era grande. Prédios residenciais compunham quarteirões inteiros, interligados com vias de trânsito. Ferrovias de metrô interligavam áreas residenciais e comerciais. Nas zonas comerciais, os prédios eram mais belos e arrojados, tendo fachadas luminosas e letreiros de neon.

Zonas industriais estavam mais adiante; Tiangong produzia componentes eletrônicos e energia solar captada diretamente do espaço. As instalações de suporte à vida estavam ao lado das zonas industriais. Essenciais para o funcionamento da estação, elas forneciam água e alimentos para seus residentes.

Yang mais uma vez se impressiona. Toda aquela estrutura era sustentada sobre si mesma, formando uma circunferência tão enorme que seus habitantes mal sentiam sua curvatura.    

A missão do piloto era averiguar a estação e contatar seus dirigentes. Os prédios administrativos se localizavam mais no interior de Tiangong, mas ele não conseguia vê-los.

- Li Fen, você pode me passar as coordenadas da Ponte de Comando, por favor?

“Navcom não pode fazer isso para você?”, ironiza ela. “‘Herói...’?”.

Com a inesperada resposta, o piloto se desconcentra.

De repente uma plataforma se eleva e Yang grita, puxando rapidamente os lemes. E assim ele salva o Wénzi de ter sua cabine espatifada contra o aço.

- Mas por que você está...

“Piloto Haisheng, prossiga com cuidado. O sistema de infraestrutura automatizado também pode ter sofrido avarias”, diz ela.

Yang olha para baixo e vê plataformas subindo e descendo, indo de uma extremidade a outra na estação. Aquelas plataformas transportavam bens e mercadorias, passando pelo centro do círculo sem a necessidade de percorrer toda a circunferência de Tiangong.

As plataformas estavam transportando canhões e veículos de guerra, mas não eram do inimigo alienígena; era do próprio exército chinês. E agora as plataformas vinham diretamente para ele.

Ao avista-lo, os veículos apontam seus canhões e atiram, atingindo o Wénzi. Navcom informa:

- Escudos a 91%.

Sistemas de segurança, plataformas automatizadas, veículo militares hostis... Ao ver aquilo, Yang só consegue pensar em uma coisa. Ele diz:

- Li Fen, isso não é apenas um mal funcionamento. O inimigo hackeou os sistemas. Ele está usando cyber warfare!

   Cyber warfare é um termo em inglês usado para identificar guerra cibernética, ou seja, quando o inimigo se infiltra nos sistemas de segurança com vírus, reprogramação e espionagem.

Mais plataformas sobem e, ao mesmo tempo, outras descem, como se fosse um sistema de cabeamento funicular. As plataformas trazem veículos e canhões militares, que atiram impiedosamente contra o Wénzi. O piloto se defende bravamente, atirando com seu canhão Estrela de Manhã e devastando os inimigos.

Mas a luta era intensa. Esquivar-se dos tiros, contra-atacar e, enquanto isso, acautelar-se para não se espatifar nas plataformas era uma tarefa que exigia o máximo de suas habilidades. De fato, ele se sentia lutando entre as engrenagens de uma máquina.  

Yang avança. As plataformas subiam e desciam adiante dele. De repente ele vê outra aeronave se aproximando. Como uma colmeia, a aeronave abre sua comporta e libera dezenas de drones, que imediatamente voam em sua direção e o atacam. Ele se surpreende novamente; aqueles eram drones chineses.

Mais aeronaves do tipo colmeia aparecem, liberando seus drones. Yang lutava contra forças de seu próprio país. Os tiros vêm de todos os lados e ele é atingido algumas vezes, mas com poucos danos. 

As plataformas ficam para trás, mas o piloto ainda é obrigado a se desviar das paredes e pilares da própria estação para prosseguir. Apesar de seu colossal tamanho, Tiangong otimizava seus espaços por dentro.  

Das zonas residenciais abaixo, projéteis de energia são disparados. Yang se esquiva, e então ele consegue ver. Ele se aproxima das zonas habitacionais abaixo. Os prédios estão em chamas e os quarteirões estão sendo devastados pelo inimigo.

Eram os enxames.

Os enxames destruíam sistematicamente habitações humanas, embriagados em sua sede de destruição. Quarteirões eram devastados, as vias eram obstruídas pelos detritos e toda a infraestrutura desfalecia, impossibilitando os sobreviventes de fugirem.

Yang sobrevoa as zonas residenciais. O fogo e a fumaça em gravidade zero eram densos e se moviam vagarosamente. A colônia era devastada abaixo. Quem ficasse ia morrer.

Tristemente o piloto percebe; Tiangong estava dominada pelo inimigo. Com os sistemas de segurança hackeados, nem mesmo as aeronaves humanas estavam imunes para combate-los. A cada minuto que se passava, eles perdiam Tiangong.

De repente Yang é severamente atacado. Enxames se elevam dos prédios e as aeronaves colmeias aparecem, vindo do eixo da estação. Wénzi é atingido várias vezes, perdendo a carga de seu escudo. O piloto aperta o gatilho e dispara o Estrela da Manhã, fazendo o ricochete aniquilar tudo em seu caminho, tanto os enxames quanto as colmeias.

Yang percebe que era melhor abater as colmeias antes delas abrirem as comportas, pois a liberação dos drones ameaçavam sublevar seus reflexos. Selecionando seus mísseis, o piloto atira. Por serem lentas, as colmeias não conseguem se esquivar e são abatidas facilmente.

Abaixo, Yang vê sobreviventes fugindo dos prédios. Os enxames atiram nas vias públicas e o rompimento do casco causa despressurização, lançando pessoas à deriva pelo espaço. O piloto se horroriza ao vê-las sufocar até a morte.

Os mais privilegiados conseguem fugir em seus aerocarros. Eles deixam suas residências, mas são abatidos pelos enxames durante a fuga. Alguns escapam do impiedoso inimigo, mas estarão sozinhos no exterior da estação; não há nenhum socorro vindo da Terra.

Os prédios administrativos ainda estão distantes. Yang sobrevoa zonas industriais e é atacado por um novo inimigo. Máquinas de vários braços retráteis, semelhantes a polvos, tentam golpeá-lo; elas esticam seus braços e o piloto se esquiva a tempo. Yang reconhece máquinas humanas. Como gruas e robôs comuns, os chineses as utilizavam para construir e expandir Tiangong.

- Li Fen, os enxames hackearam inclusive máquinas e utilitários industriais! Aqui não é seguro para os humanos! – informa ele.

“Entendido”.

A automatização cobrara seu preço. O que antes foi criado para auxiliar os seres humanos, agora são facilmente hackeados pelos alienígenas. A tecnologia inimiga abrangia a realidade virtual, e códigos de programação eram interpretados e reescritos por eles. Entre um momento e outro, equipamentos com Inteligência Artificial tornavam-se hostis.

Yang atravessa as zonas industriais destruindo gruas e robôs de construção civil.      

Uma gigantesca fenda aparece na lateral estação. Ele vê o exterior lá fora, a Terra podia ser vista. Contemplando o planeta, ele nota seu tom azulado e pacífico em contraste com toda a violência e destruição lá embaixo. Seu mundo era conquistado e destruído. Milhões estava morrendo. Impotente, ele se sente incapaz de fazer nada. Seu coração se emociona.

 - Escudos a 81%.

O Wénzi é atingido. Ele precisa se concentrar.

Ao passar pelas zonas industriais, ele avista os prédios administrativos de Tiangong.

A Ponte de Comando está mais a frente; era um prédio branco com bandeiras da China pintadas em suas fachadas. No topo há uma vasta sala com janelas ao longo de seu comprimento.

Na praça central ele vê uma réplica do primeiro módulo do Tiangong, o Tiangong-1, lançado em 29 de setembro de 2011, ainda com os painéis solares nas laterais.

De repente uma voz surge em seu comunicador.

“Aqui é o almirante Yaping! Estamos sendo atacados! Perdemos o contato com Pequim há três dias! Se você pode me ouvir, responda-me!”.

Abrindo o canal de comunicação, Yang responde:

- Aqui é o Piloto Haisheng do Shenzhou Wénzi! Estou na escuta! Câmbio!

“Shenzhou Wénzi...?”, confunde-se ele. Por ser um projeto ultrassecreto, poucas pessoas ouviram falar dele. Nem mesmo a alta patente tinha conhecimento de sua existência.

O almirante continua:

“Ouça! Estamos sendo atacados por um inimigo desconhecido! Ele hackeou nossos sistemas de segurança e pretende usar o canhão Yu Huang! Precisamos detê-lo enquanto há tempo!”.

Yang se espanta. O lendário canhão seria usado novamente, e desta vez não por mãos humanas.

- Preciso chegar à `Ponte de Comando – responde ele – Minha missão é averiguar a estação e contatar seus dirigentes! Câmbio!”.

Um minuto depois o almirante responde:

“Entendido, Piloto Haisheng! Enviaremos a nossa posição, mas não posso garantir a segurança do espaço aéreo! Os sistemas de segurança atacarão todos que tentarem se aproximar do setor administrativo! Ou mesmo sair! Prossiga com cuidado! Câmbio!”.

Assentindo, Yang responde:

- Entendido, almirante Yaping! Nos vemos aí embaixo! Câmbio!”.

E então ele manobra o Shenzhou Wénzi e se dirige à Ponte de Comando.

 

 



[1] “Augusta personalidade de jade” em chinês

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Shenzhou Wénzi - 08 - A Fuga da Terra

 


(Arte do game Resistance 3)

 

As luzes amarelas e giratórias ficam para trás. Agora o túnel era iluminado unicamente pelos faróis das aeronaves.

Pedindo ao Navcom o status da nave, ele ouve:

- Escudos a 78%.

- Carga energética a 82%.

- Nível de oxigênio a 93%.

- Temperatura a 22°C.

- Canhão Xichang pronto para uso.

O ar pesado e frio do túnel o incomoda. No painel do Wénzi, ainda restavam 126 quilômetros. O tempo estimado era de 47 minutos.

“Uma longa e monótona viagem”, pensa Yang.

De repente é emitido um alerta. Navcom detecta algo a frente.

- Piloto Haisheng, há algo obstruindo o caminho.

- Como assim? Pensei que fôssemos os únicos aqui.

- É algo grande, senhor, pois obstrui toda a passagem.

Yang se assusta.

- O que pode ser tão grande assim...? – pergunta-se ele.

- Detecto sinais de vida inteligente. – complementa ele – Não é humano.

Ao ouvir o Navcom, uma voz no comunicador diz:

“Piloto Haisheng, você recebeu o alerta?”.

- Sim, senhor. O que quer que seja, preparem-se.

Uma luz aparece adiante no túnel. Yang e a comitiva desaceleram suas aeronaves.

A luz se multiplica e de repente uma dezena se acendem, dando-lhes uma ideia de seu imenso tamanho. As luzes se intensificam e ilumina toda a parede do túnel, juntamente com o corpo do misterioso objeto.

Navcom alerta:

- Veículo inimigo adiante! Veículo inimigo adiante!

Movendo suas articulações, o veículo se manobra habilmente como se girasse em torno de seu próprio eixo. Yang reconhece um enorme tanque, mas suas articulações lembravam as de uma aranha. O suposto tanque não tinha esteiras; sob as articulações ele enxerga uma forte luz azul, suspendendo-o alguns centímetros no ar como o magnetismo.  

Sobre a carapaça do enorme tanque se desacopla um enorme canhão de energia. Em seguida buracos menores se abrem, como orifícios metálicos.

O tanque se movimenta ao som de zunidos. Yang nota que ele era movido a energia sólida e consistente, e não a combustão, semelhante ao Shenzhou Wénzi.

O canhão sobre sua carapaça se levanta e aponta para o alto. O piloto se confunde, pois não apontava para eles. Lentamente, no meio do cilindro uma luz branca se forma e de repente é disparada uma colossal carga laser. Yang se espanta; o laser se expandiu de maneira tão inesperada, aumentando seu diâmetro vinte vezes mais do que a saída do canhão.

A violenta potência pulveriza o teto de concreto acima deles, formando uma densa nuvem de poeira. É então que Yang percebe. Não era necessário mirar precisamente neles; o laser ia se expandir tanto que abrangeria tudo em seu caminho.    

O altíssimo calor o afeta. Navcom informa.

- Perigo! Temperatura a 57°C! Iniciando resfriamento de emergência!

Ar gelado é expelido das saídas de ar condicionado. Yang se recupera, pois estava prestes a desmaiar.

- Haisheng para líder da comitiva, vocês estão bem?

Uma voz diferente e exasperada responde:

“Piloto Haisheng! O líder desmaiou! Tire-nos daqui, depressa!”.

Sem tempo para pensar, Yang manobra o Wénzi e acelera, desviando-se do tanque e avançando pelo túnel.

Olhando para o painel, o piloto nota que todas as aeronaves da comitiva estão presentes. Felizmente nenhuma foi destruída. O elusivo tanque fica para trás, desaparecendo-se na imensidão do túnel. Todos se tranquilizam.

Ainda havia um longo caminho pela frente. Confinado em um ambiente escuro e claustrofóbico, Yang se apressa em sair dali. Ele então acelera o Wénzi, intentando a velocidade máxima.

- Piloto Haisheng! Desviar!

Navcom o alerta com tanto ímpeto que o assusta. Os manches viram de repente, escapando de suas mãos. Pela primeira vez Yang percebe; Navcom lhe oferecia assistência de direção emergencial.

- O que houve?!

Mas antes que Navcom pudesse responde-lo, o enorme maciço luminoso passa por debaixo dele, planando sobre a superfície sólida com aterradora velocidade.

Era o tanque inimigo.

A pesada massa de ar se desloca em seguida, passando por ele e desestabilizando-o no ar. Os manches da aeronave se estremecem. O tanque, porém, continuava seguindo em frente, diminuindo sua velocidade apenas para equiparar-se à comitiva.

Para o horror de todos, o enorme e pesado tanque sobe pelas paredes do túnel, flutuando sobre suas articulações mecânicas como se estas se deslizassem sobre o sabão. Então, de seus orifícios metálicos o tanque expele bombas de energia. Yang se empalidece. Saindo em intervalos de três em três, as bombas avançam pelo interior do túnel, indo em sua direção.

Desta vez o piloto não iria utilizar o assistente de direção; ele contaria com seus próprios reflexos.

Yang se desvia habilmente da saraivada de bombas. Acostumado, ele sabe que aqueles projéteis eram numerosos, mas lentos no ar. As bombas não eram ultra rápidas como os foguetes projetados na Terra.

Uma bomba atinge a fuselagem do Wénzi. Navcom imediatamente informa:

- Escudos a 66%.

As três aeronaves da comitiva permanecem atrás de Yang, protegendo-se. Seus veículos não eram rápidos e ágeis como o Wénzi. Então ele percebe. Se o Wénzi caísse, a comitiva estaria perdida.    

Enquanto se desvia das bombas, a luz branca novamente aparece sobre o tanque. Intensificando-se, a luz se aumenta e se aumenta perigosamente, completando sua carga dentro do canhão. Distraído como estava, Yang demora para perceber.

De repente o canhão dispara.

- Cuidado! – exclama ele.

O largo laser avança. Wénzi e duas aeronaves se esquivam, mas uma não consegue se desviar a tempo.

A aeronave imediatamente se explode, sendo fulminada até se tornar uma carcaça vermelha de aço derretido.

Alguém na comitiva exclama, chamando o nome de seu conhecido. Mas nada podia ser feito. A aeronave jazia destruída sob uma nuvem densa de poeira e fumaça.

O tanque se move novamente. As articulações se deslizam pelas paredes arredondadas e sobem mais uma vez. Agora, para o espanto de todos, o pesado tanque estava totalmente de ponta-cabeça.

Mais uma saraivada de bombas se expelem dos orifícios. Yang se esquiva novamente, protegendo o restante da comitiva atrás.

Uma voz no comunicador diz:

“Piloto Haisheng! Eu ordeno que faça alguma coisa!”.

Yang reconhece a voz do presidente.

- Senhor presidente! O espaço é muito estreito. Se eu contra-atacar, a comitiva ficará desprotegida!

“É uma ordem!”.     

Mas quase nada podia ser feito. Para atacar, o piloto precisaria manobrar em um restrito espaço de 50 metros de diâmetro.

Outro estrondo. Mais uma bomba atinge sua fuselagem.  

- Escudos a 58%.

- Navcom, preparar o Canhão Xichang.

O armamento recarrega seu laser e os canhões se desacoplam da fuselagem.

Apertando o gatilho, o azulado laser atravessa o ar, colidindo contra as paredes e se ricocheteando pela imensidão do túnel.

O ambiente se torna um espetáculo de luzes, como uma festa de ano novo. O azul do Xichang, o amarelo das bombas e o vermelho do aço quente se misturam.

O laser do Xichang atinge os orifícios do tanque e os danifica. O inimigo, que tentava preparar outro disparo de seu poderoso canhão, se desestabiliza, interrompendo a carga.

Yang se anima, seus ataques estavam sendo eficazes contra o inimigo.

O tanque continuava seguindo em frente, de ponta-cabeça pelo túnel. Ele cessa a liberação de bombas, parecendo retrair-se para conter os danos. Em seguida o tanque avança em alta velocidade, zunindo pela escuridão. Yang se confunde.

“Ele está fugindo?”, pergunta-se ele.

“Piloto Haisheng, o que houve?”, pergunta o líder da comitiva.

- Eu não sei. Me parece que ele fugiu.

O líder comenta:

“Me parece improvável uma fuga a partir daqui. A única saída está na outra ponta do túnel. Esta é uma rota emergencial”.

- Eu entendo, senhor. Mas se há apenas dois acessos, então como ele entrou aqui em primeiro lugar?

O líder assente.

Enquanto ainda conversam, uma luz aparece repentinamente à frente. Yang se confunde; a luz parecia vir em sentido contrário em velocidade descomunal. E então ele se empalidece; a luz vinha contra eles.

- É o tanque!!

No teto do túnel, o tanque avança e se colide contra uma aeronave da comitiva, atropelando-o com a fúria de um trem-bala.   

Primeiro a aeronave se despedaça em milhares de pedaços. Em seguida uma esfera de chamas a engole, fazendo-a cair em pequenos intervalos de capotamentos até finalmente se arrastar pelo chão. Yang se horroriza; com todos as aeronaves da comitiva abatidas, ele deve proteger o presidente sozinho.

Não havia tempo para se lamentar. Um minuto depois o tanque retorna, movendo-se sinistramente pelas paredes do túnel em um movimento espiral.

Vendo que o tanque subia e descia do teto, Yang é obrigado a contar com os reflexos do líder para se esquivar. Desta vez todos devem ser rápidos.

Algo diferente acontece. O tanque não passa por eles; ao invés ele fica atrás, perseguindo-os como uma fera assassina. E então o inimigo libera suas bombas.

- Senhor, dirija-se para frente do Wénzi! Rápido!

“Afirmativo!”.

- Navcom, consegue apontar o Canhão Xichang para trás?

- Sim, senhor.

Yang ouve o canhão abaixo do Wénzi se mover, girando-se até apontar para trás. O piloto aperta o gatilho e atira, disparando o azulado laser.

Utilizando sua formidável agilidade, o tanque tenta se esquivar, mas nada podia ser feito contra o laser que se ricocheteava pelas paredes, atingindo-o em todos os lados.

Uma das articulações do tanque não suporta os danos e se rompe, desativando o campo magnético de sua ponta. Outra articulação se estoura e se desprende também, comprometendo o veículo.

Yang se anima. Concentrando-se, ele não para de atirar, completamente ignorando os danos das bombas que danificavam o Wénzi simultaneamente.

- Escudos a 49%.

- Escudos a 36%.

Alertas começavam a serem emitidos dentro do Wénzi. Uma luz vermelha e giratória se acende. Se continuasse recebendo danos, Yang estaria em perigo.

O duelo parece favorecer Yang. As articulações do tanque têm mal funcionamento e ele se despenca do teto, caindo de ponta-cabeça como uma tartaruga. 

“Ele foi abatido?”, pergunta o líder.

Yang também observa. O tanque parecia não reagir.

Antes que pudesse responde-lo, as articulações se movem novamente e ele se vira, voltando a ficar em pé. Curtos-circuitos percorriam sua carapaça, as articulações expeliam fumaça e os orifícios estavam destruídos. Mas apesar dos danos, ainda lhe havia vontade de lutar.

O tanque volta a persegui-los com fúria e vingança. Então a luz branca se forma em seu canhão e brilha no escuro ambiente. Sabendo o que aquilo significa, Yang exclama:

- Ele vai atirar! Prepare-se!

O canhão se recarrega e então atira. Yang e a aeronave presidencial se esquivam, mas o magnífico laser se alarga, torrando-os com seu altíssimo calor.

Yang e o líder fogem, acelerando sob o teto que se desabava entre escombros e poeira. O tanque seguia logo atrás, pronto para abate-los.

Quando o laser perde a força, ele se diminui e se apaga lentamente. Aproveitando a chance, Yang aperta o gatilho e dispara o canhão Xichang contra o inimigo. O laser ricocheteia para dentro do canhão do tanque, percorrendo lá dentro. Algo acontece e o canhão inimigo se explode, neutralizando-o completamente.

Agora o tanque estava desarmado. Yang e o líder não comemoram, ao invés eles aceleram e intentam fugir. Mas o inimigo não os deixaria fugir tão facilmente.

Uma reação em cadeia parece ocorrer; rachaduras aparecem na carapaça e fachos de luz e energia iluminam o exterior. O veículo se aproximara de seu estado crítico. Não podendo mais atacar ou subir pelas paredes, o tanque utiliza seu último recurso: ele se arremete contra o inimigo intentando atropela-lo. 

Acelerando, ele avança em velocidade assustadora contra Yang e o líder. O piloto exclama:

- Senhor, fuja! Ele vai explodir!

Acompanhando-os, o tanque intentava se autodestruir e engoli-los na poderosa explosão.

Mas Yang não ia deixar o inimigo destruí-los assim. Fugindo em alta velocidade, ele aperta o gatilho e dispara o canhão Xichang. O laser ricocheteia e penetra as rachaduras da carapaça inimiga. Pedaços se soltam e caem pelo túnel, expondo o interior do veículo e causando pequenas explosões.

Não podendo mais suportar os danos causados pelo Wénzi, o tanque perde a força e se desacelera. Então, precedendo seu fim, uma enorme luz branca surge em seu interior e, em um piscar de olhos, ocorre a devastadora explosão.

O som ensurdecedor reverbera pelo túnel e a tenebrosa onda de fogo avança contra eles. De tão poderosa, Yang pensa ser uma pequena detonação nuclear. Ativando a velocidade máxima, Yang e o líder fogem desesperadamente do fogo e do calor.

O fogo se aproxima. Wénzi sente o deslocamento abrupto de ar e treme, parecendo desfazer-se no ar. A aeronave presidencial também treme, expelindo de suas turbinas a velocidade máxima.

A onda de fogo estava a metros de distância. Sem direção para se propagar, o único caminho era através deles. O calor desgasta Yang, alertas e mais alertas são emitidos na cabine. A luz vermelha e o som alto o irritam, mas não havia tempo para distração.

Milagrosamente, o painel indicava o fim do túnel. Dos alto-falantes, Yang ouve o presidente ordenar desesperadamente que as comportas de aço se abram. O operador no outro lado parece ouvir as comportas se abrem lentamente. O piloto vê a tão esperada luz do dia, agraciando-o como se ele tivesse chegado ao Paraíso.

As aeronaves irrompem pela saída do túnel, como se tivessem sido paridas das entranhas da Terra. Logo atrás a violenta explosão se expande pelo ar, liberando sua fúria em uma enorme bola de fogo.

Yang se alivia. Ele sobreviveu a explosão.

- Essa foi por pouco... – sussurra ele.

Mas o alívio dura pouco também.

Ao ar livre, ele vê a cidade portuária de Tianjin sendo devastada pela invasão. Os enxames bombardeavam os edifícios, reduzindo-os a escombros e poeira. Incêndios se alastravam livremente. Aviões da Força Aérea cruzavam o céu, mas não podiam resistir ao ágil inimigo. No Rio Haihe, a icônica roda gigante Tian Jin Zhi Yan, ponto turístico da cidade desde sua inauguração em 2017, jazia tombada e retorcida sobre a água.

Mensagens chegavam ininterruptamente no comunicador; eram os inúmeros pedidos de socorro do Exército, Aeronáutica e da Marinha. Abatido, Yang percebe. As forças de defesa chinesas estavam esgotadas com a massiva invasão.

Avançando pela cidade, eles chegam ao Porto de Tianjin. O porto era um local movimentado e estratégico, essencial para a economia da China. Sua vastidão o impressiona; contêineres e gruas estavam por toda parte.

Os enxames sobrevoavam o porto, lançando suas bombas. Algumas gruas foram tombadas pelo ataque, derrubando pilhas inteiras de contêineres. No solo, soldados e tanques do exército tentam abatê-los, mas são facilmente vencidos. Yang presenciava um banho de sangue.

No mar, o piloto vê navios da Marinha atirando com seus canhões. Eles miram os ares, mas são lentos demais. Mesmo as imensas metralhadoras montadas não são capazes de abater os enxames do ar. Um a um, os navios são bombardeados na costa, alguns sendo consumidos pelo fogo e outros naufragando na água.

O porto de Tianjin estava completamente dominado pelo inimigo.

O líder da extinta comitiva diz:

“Piloto Haisheng, a cidade caiu! Temos que deixar Tianjin!

- Mas para onde vamos? – pergunta Yang.

“Há um porta-aviões ao norte. Deixarei o presidente lá. O Alto Comando saberá o que fazer”.

Mudando de direção, Yang segue pela rota no Mar Bohai. A aeronave presidencial voa baixo, passando por vários navios tombados e em chamas. Yang segue logo atrás, presenciando a luta de marinheiros feridos e náufragos agarrando-se a botes salva-vidas para sobreviver.

Poucos quilômetros à frente, o piloto avista o porta-aviões na costa de Tianjin. Aviões decolam do colossal veículo enquanto que suas torretas atiram nos enxames. Perto do porta-aviões, mísseis surgem do mar e se ascendem ao céu, voando contra alvos na cidade; eram os submarinos da Marinha chinesa.

Yang se anima. Ele estava prestes a cumprir sua missão, mas ainda havia uma cidade para defender.

Então algo acontece.

Sob o pôr-do-sol, sons perturbadores surgem no céu. Yang se intriga, os sons se assemelhavam ao sopro de trombetas. As nuvens reviravam-se sinistramente, arrastadas por algo muito grande. Todos no mar, desde os combatentes até os náufragos na água, param para ver aquilo.

E então o mistério se revela. Aeronaves colossais pairam sobre a cidade, sobrevoando o céu de Tianjin. Yang não consegue acreditar nos seus olhos. Pálido de horror, ele avista uma frota de naves com altura de um prédio de cem andares, e comprimento e largura de bairros de inteiros. Mas sua arquitetura era mais medonha. O piloto vê naves pontudas, com diversas asas pontiagudas e luzes verdes ao longo de sua extensa carcaça.   

A maior das aeronaves parecia ser a nave-mãe, mas todas eram tão grandes que Yang acha difícil diferencia-las. Para seu espanto, aquelas naves eram maiores do que o temível cruzador sobre Shangai.

Uma das imensas naves emite um forte brilho de sua abertura inferior. Yang sabe o que isso significa. De repente a nave atira, disparando um devastador raio laser com diâmetro ainda maior do que o laser do vencido tanque. O brilho ofusca seus olhos, fazendo-o se proteger. O raio apunhala o céu e atinge o porta-aviões onde Yang ia pousar.

O laser rasga o convés em dois, derretendo o aço com o calor de mil sóis. Em seguida o porta-aviões entra em colapso e se rompe, combalindo-se em uma devastadora explosão. Yang está boquiaberto.

Como em Shangai, enxames e mais enxames de são liberados das terríveis naves. Seu número excessivo sublevaria o minúsculo Shenzhou Wénzi; o piloto não poderia combatê-los e proteger a aeronave presidencial ao mesmo tempo.

Os enxames avistam o Wénzi e então arremetem contra ele. Não havia para onde fugir, o Wénzi estava com o escudo baixo e precisava ser reabastecido. Ele certamente seria destruído. Naquele momento, Yang enxerga somente o seu fim.

De repente uma aeronave estranha passa por ele, assustando-o. Yang reconhece uma aeronave anfíbia.

“Com licença, Piloto Haisheng! Eu preciso passar!”.

Yang reconhece a voz.

- Tenente-General Junlong?! – espanta-se ele – Como chegou até aqui?!

“Cale a boca e me escute!”, interrompe ele. “Pequim foi tomada e agora também Tianjin! Não há mais local seguro neste país! A única opção é seguir para Tiangong!”.

O piloto se confunde.

- Tiangong...?! Mas ela fica no espaço! E eu não sei se o Wénzi consegue chegar em órbita!”.

“Temos uma missão a cumprir, soldado! Precisamos tirar o presidente em segurança daqui!”.

Yang olha ao redor. Abatendo aviões e bombardeando navios, os enxames se aproximam.

- E como subiremos ao espaço com o inimigo nos perseguindo? Temos que combatê-los primeiro!

“Não se preocupe. Eu vou atrai-los para longe. Você e a aeronave presidencial sigam para Tiangong. E não ouse voltar!”.

   - Mas Junlong...!

Antes que pudesse responde-lo, o tenente-general muda de curso e ataca os enxames, atirando com uma ineficiente metralhadora de helicóptero. Os enxames respondem à provocação, mudando de rumo e perseguindo Junlong. Yang vê o tenente-general sozinho sobre o mar e então decide ajuda-lo. Mas uma voz no comunicador diz:

“Piloto Haisheng! Devemos concluir a missão!”.

Era o líder da extinta comitiva.

- Eu não vou deixa-lo para trás!

“Você recebeu ordens diretas, soldado! Obedeça!”.

Então o piloto hesita. A extração do presidente estava sob sua responsabilidade. Se o presidente morresse, toda a unidade militar e política da China se desfaleceria. Yang seria preso e certamente executado pela Corte Marcial. Seu nome seria infame e ele mancharia a honra da sua família, incluindo seus ancestrais. Yang, sendo um homem adulto, jamais deixaria isso acontecer.

- Sim, senhor. – responde ele, a contragosto.

Yang move os manches e o Wénzi começa a subir.

Um minuto depois, ele ouve um grito no comunicador. Era Junlong.

Olhando para baixo, ele vê a aeronave anfíbia ser rodeada de inimigos. Os enxames atiram suas bombas e as asas da aeronave se despedaçam. Agora nada mais podia salvar Junlong.

- Não! Eu tenho que voltar!

“Negativo, soldado! Cumpra a missão!”.

Para sua surpresa, era Junlong no comunicador.

- Mas, senhor...!

“Ora, você não ouviu o que eu disse hoje pela manhã?”, pergunta ele. “As águas são os formadores de dragões, mas antes eles devem sobreviver a raios caindo do céu”, relembra ele. “Ora, o poderoso laser inimigo não pode ser considerado esse raio do céu?”.

Yang não entende.

- Senhor, esta não é uma boa hora para mitologia! O senhor deve fugir!

Uma explosão é ouvida. A aeronave de Junlong se colapsava aos poucos.  

“Aqui já tem a água...”, diz ele, referindo-se ao mar. “E também já tem o raio...”, ele se refere ao laser da nave-mãe. “E você ainda pensa que eu perderia a chance de me tornar um dragão?”.

E então os enxames desferem o ataque final. A aeronave anfíbia se explode no ar, voando alguns metros em chamas até finalmente se colidir contra as águas abaixo.  

Yang se desespera, pranteando a perda de seu velho amigo.

“Piloto Haisheng! Aqui é Li Fen! O que aconteceu com meu pai?”.

O piloto não consegue responder.

“Yang, responda-me!”.

O piloto se afunda em silêncio.

“Responda-me!!”.

Mas nada seria dito.

Com o luto pesando em seu coração, apenas o silêncio o acompanhava naquele momento, como um inaudível consolador.

Wénzi e a aeronave presidencial apenas prosseguem em seu caminho, assim concluindo a sua fuga da Terra.

  

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Shenzhou Wénzi - 07 - Missão: Extração


(Arte de Jukka Lehto)

 

Enquanto avançam sobre os canais subterrâneos, algo se movimenta no fundo e então algo acontece. Aeronaves diferentes emergem das águas, atirando para todos os lados e, em seguida, imergindo novamente. Yang e Junlong se esquivam bruscamente, evitando seus projéteis de curso aleatório.

As águas se movem e mais aeronaves emergem, atirando para todos os lados e em seguida imergindo. Os dois se confundem. As aeronaves se assemelhavam a guarda-chuvas e, ao atirarem, seus compartimentos se esvaziavam e elas voltavam para o fundo.

Não havia tempo para reflexão. Yang se prontifica e atira de volta, esquivando-se e contra-atacando. Ele nota que a inusitada arma instalada horas atrás era muito eficaz, e funcionava conforme o esperado. O Canhão Xichang dispara seus lasers azulados e eles ricocheteiam pelo túnel escuro, criando um espetáculo de cores e destruição. De fato, o laser muda de direção várias vezes, tornando a vanguarda perigosa inclusive para as aeronaves aliadas. Para o bem de todos, o Wénzi deveria ficar na dianteira durante a operação.

Yang e Junlog se atentam. A aparição do novo inimigo evidenciava que ele também havia se infiltrado no subterrâneo de Pequim. Agora a segurança de toda a capital estava comprometida; eles precisavam se apressar.

A formidável agilidade do Wénzi novamente se evidencia e o piloto abate muitos inimigos. Junlong, por sua vez, tem dificuldade em sua aeronave anfíbia e fica para trás.

Yang pergunta:

- Senhor, o senhor precisa de ajuda?

“Negativo, tenente Haisheng! Você tem uma missão para cumprir!”.

A aeronave de Junlong é atingida e se sacode no ar.

- Mas, senhor...!

“Saia daqui!”, exclama ele. “Isso é uma ordem!”.

O piloto pensa em voltar, mas o tenente-general conclui:

“Câmbio e desligo”.

Em seguida o canal de comunicação é desligado.

Yang avança destemidamente. Logo os túneis estreitos se alargam e ele contempla a vasta capital subterrânea. Pequim era uma cidade pulsante e colorida. Passarelas elevadas conectavam os prédios, tirando a necessidade dos pedestres de descerem ao nível do solo. O piloto vê praças nos terraços dos edifícios, semelhantes às praças elevadas de Shenzhen.   

Painéis solares captavam a luz através de tubos conectados à superfície. Yang vê lâmpadas de luz ultravioleta nos apartamentos e nas ruas. Aparentemente os pequineses tinham grande preocupação com a falta de luz solar e a umidade.

Veículos elétricos estavam por toda parte. Carros, motos e caminhões, todos os automotores eram movidos a eletricidade e nenhum era movido a combustão, considerado obsoleto pela China. O piloto percebe que a nova capital se esforçava para manter a qualidade do ar.

Algo lhe chama a atenção. Na nova Pequim, ele nota muitas pessoas pelas ruas e passarelas acima. Nem em Hong Kong ele viu tantos prédios reunidos, espremidos no curtíssimo espaço que lhes sobravam. Residências, comércios, escolas e prédios do governo, todos dividiam o pequeno espaço com rígida organização. Em Pequim, a densidade habitacional se aproximava à famigerada cidade murada de Kowloon, demolida entre 1993 e 1994 em Hong Kong.

A área da cidade era imensa. O espaço se assemelhava à famosa “Catedral Subterrânea” de Tóquio, uma megaestrutura que escoava as águas da região metropolitana japonesa. Entretanto, a cidade subterrânea de Pequim era vinte mil vezes maior.   

A população estava alvoroçada e se preparava para evacuar o subsolo. As vias públicas estavam lotadas, mas as autoridades tentavam manter o controle. Diferente de Shanghai que mergulhara no caos, em Pequim ainda havia ordem.

Yang avança por entre as passarelas e prédios. Lá embaixo ele vê alguns prédios do governo e também embaixadas estrangeiras. Diferente da superfície, desolada e contaminada por gases tóxicos, a verdadeira capital do mundo encontrava-se no nível inferior. De fato, Pequim nunca deixou de ser a capital de um império. No passado ela abrigou dinastias; no presente ela abriga um novo império, muito mais vasto e poderoso do que antes, que se estende pelo Sistema Solar.

De repente um ataque acontece.

As fachadas dos prédios se explodem, lançando estilhaços por toda parte. O som ensurdecedor reverbera pelo subterrâneo, apavorando os pequineses. Com o ataque repentino, as suspeitas se comprovam; o inimigo adentrara o subterrâneo. E então o caos se alastra.

Os enxames surgem entre os prédios. Acima e abaixo das passarelas, as fileiras de aeronaves alienígenas sobrevoam a cidade, soltando suas bombas e espalhando a destruição.

Yang se vê cercado de enxames. Sem hesitar, ele aperta o botão e atira, disparando o azulado laser do Canhão Xichang. Como esperado, o laser destrói os inimigos, mas continua seu percurso ricocheteando pelos edifícios. O piloto assiste horrorizado o laser ricochetear e atingir as pessoas abaixo, imediatamente incinerando-as vivas. Yang se paralisa.

A nave se estremece.

"Escudos a 84%".

O susto o acorda novamente. O Wénzi havia sido atingido.

Olhando ao redor, os enxames atacavam impiedosamente. Eles não tinham um alvo específico, apenas atiravam aleatoriamente nas ruas e prédios abarrotadas de pessoas. Yang percebe, eles intentavam cometer um genocídio.

Manobrando o Shenzhou Wénzi, Yang combate os enxames passando por cima e por baixo das passarelas. A aeronave tem alta eficiência com o novo armamento; o tiro ricocheteia pelos prédios e pilares, mas põe em perigo população pega no fogo cruzado.

O piloto é obrigado a ignorar o trágico efeito colateral causado nos civis próximos. Ricocheteando de um lado ao outro, o laser avança pela cidade, destruindo o inimigo e torrando seres humanos. Naquele dia, a morte vinha em uma aeronave humana e tinha seu manto iluminado de azul.

As autoridades oferecem suporte. No topo dos prédios, o exército instala canhões antiaéreos. Na superfície, tanques preparam sua torretas. Porém, os canhões são pouco usados, pois há risco dos tiros danificarem as estruturas urbanas. A defesa ficaria exclusivamente no Wénzi.

Abaixo, a infantaria auxilia na evacuação dos civis. Alguns são impiedosamente bombardeados pelos enxames. Da aeronave, Yang podia ouvir os gritos das vítimas feridas pelo ataque. Sua agonia parte o coração do piloto.

Yang se prontifica para ajudar, mas uma voz surge no comunicador de repente.

“Piloto Haisheng! Aqui é o Tenente-General Junlong”.

- Junlong...?! – espanta-se ele – O senhor está bem?

“Já estive melhor”, responde ele. “Yang, prossiga para o seu objetivo. Repito. Prossiga para o seu objetivo”.

- Mas, senhor! O exército não tem a menor chance lá embaixo!

“É uma ordem, tenente!”.

Contrariado, o piloto acata em silêncio. Junlong sempre foi um bom soldado e nunca descumpriria uma missão.

Sem tempo a perder. Yang manobra o Wénzi e continua seu percurso até o prédio do governo mundial de Pequim.

 

§

 

O prédio do governo era uma réplica adaptada do antigo Zhongananhai[1]. Ao lado, ele também vê o prédio do Parlamento, também uma réplica dos antigos prédios da Praça da Paz Celestial. Na superfície, Yang localiza a escolta oficial do presidente. O Politiburo, oficiais e demais autoridades do governo chinês, querem fugir também e todos estão em pânico.

Seguranças armados formam uma fileira na saída do Parlamento. Aeronaves com fuselagem reforçada pousam por perto, aguardando o embarque dos oficiais. Bombas de energia se explodem ao longe, provocando estrondos e assustando-os. Um tiroteio se forma. Os enxames surgem de repente, serpenteando no ar em voos circulares e atirando suas bombas de energia. Os seguranças respondem atirando com seus fuzis, mas pouco podem fazer contra um inimigo incomum.

A comitiva do Polituburo corre pela superfície se protegendo atrás dos seguranças. Bombas atingem os carros no chão e se explodem, fazendo muitos voarem pelos ares. Em meio às baixas, os oficiais correm desesperados, em pânico tentando alcançar as aeronaves. Quando o último oficial entra, eles fecham as portas e ordenam a decolagem. Os seguranças correm até as aeronaves e estapeiam as portas, implorando para eles abri-las. Mas seu pedido nunca fora atendido. As aeronaves levantam voo e vão embora. Em horror Yang percebe: o Politiburo usou os seguranças como escudo humano e os deixou para trás.  

A escolta do presidente estava logo abaixo. Yang vê seis formidáveis aeronaves de combate. Ele se impressiona com o armamento e a armadura das aeronaves. Aqueles veículos eram admiráveis e não seriam entregues a qualquer piloto. Mesmo Yang, com seu imenso talento, poderia passar a vida inteira tentando uma oportunidade de pilotá-las e, mesmo assim, nunca ser convocado. Mas como o destino é imprevisível a todos os homens, hoje ele pilota uma nave que, provavelmente, não será pilotada por mais ninguém.

O presidente é levado para dentro do carro por um pelotão inteiro do exército. Yang não pode deixar de se impressionar; ele só havia visto o presidente pela televisão. A comitiva de aerocarros forma uma fileira, três na frente e três atrás do carro presidencial. Um canal de comunicação se abre e o Navcom transmite a mensagem.

“Piloto Haisheng, estamos prontos para partir”.

A cidade atrás deles estava mergulhada no caos. Toda aquela pulsante paisagem subterrânea, iluminada por holofotes e painéis de neon, agora era iluminada por fogo de artilharia e explosões. Chamas subiam pelos prédios e escapavam por janelas estilhaçadas. Por entre a negra fumaça e gritos dos inocentes, o numeroso inimigo voava inclemente.

 Yang diz:

- Líder da escolta, não podemos voltar pela cidade! Não posso garantir a segurança da comitiva por ali!

“Negativo, piloto! Iremos tomar outro rumo”.

- Outro rumo?

Navcom recebe o download de uma rota alternativa, um rota de fuga secreta a ser usada apenas pela comitiva presidencial. No painel do Wénzi, Yang reconhece um túnel sinuoso escondido abaixo de milhões de toneladas de concreto de toda Pequim.

Liderados por Yang, eles seguem em direção do túnel secreto.

Enxames aparecem, mas o piloto os combate bravamente. O Canhão Xichang novamente comprova seu valor, ricocheteando pelas paredes e confundindo o inimigo. Atrás, a comitiva segue Yang, mas tem certa dificuldade em acompanhar a manobrabilidade aguda do Wénzi.

Os lasers do Canhão Xichang ricocheteiam pelas passarelas abarrotadas. Muitas pessoas são atingidas, sendo fulminadas pelo quentíssimo calor. Outros tiros ricocheteiam e entram pelas janelas dos edifícios, vitimando dezenas de inocentes lá dentro.

Uma voz conhecida surge no comunicador:

“Piloto Haisheng! Aqui é o Secretário Geral do Partido! Ordeno que pare com essa carnificina agora!”.

Yang sente um frio na barriga.

- Senhor Presidente...?! Eu...

“Ordeno que controle o seu gatilho, piloto!”.

Respirando fundo, Yang responde:

- Senhor, eu não posso! A trajetória do laser não pode ser controlada!

De fato, o Canhão Xichang tinha a função de exterminar, não distinguindo o que estava a sua frente.

Pelo teto da vasta cidade, haviam enormes hélices em constante movimento. Elas forneciam ar para a cidade e outras sugavam para fora o calor, como um exaustor. Ao sobrevoar uma hélice, Yang sente a poderosa corrente de ar empurrando-o para baixo. Em outra hélice, o piloto tem que se acautelar para não ser sugado para cima. Os enxames, por serem menores e mais leves, perdem o controle e se chocam contra as hélices, explodindo e danificando as instalações de exaustão.

Navcom indica precisamente o caminho. Yang ataca e é atacado, com dezenas de bombas de energia cruzando sua vista. Tremores abalam a fuselagem do Wénzi; ele estava sendo atingido.

“Escudos a 78%”.

“Piloto Haisheng, o espaço aéreo ainda está muito carregado. Preciso que o torne seguro imediatamente!”. – diz o líder da comitiva.

Sem opções, Yang é forçado a contra-atacar. O belíssimo laser ricocheteia por toda parte, ferindo e fulminando dezenas de pessoas lá embaixo.

A rota de fuga presidencial os levam para uma maciça comporta, semelhante à dos abrigos nucleares. Ao aproximar-se, luzes amarelas giram e uma sirene de alerta soa. A comporta era tão pesada que seu simples movimento estremecia o chão e as paredes ao redor.

A comitiva aguarda a comporta se abrir e Yang combate os enxames logo atrás, abatendo-os sem dificuldade. As numerosas bombas voam por toda parte, atingindo algumas aeronaves da comitiva. Além do Wénzi, as aeronaves humanas não podiam resistir ao inimigo.

“Piloto Haisheng, a comporta se abriu. Entre antes que ela se feche!”.

Manobrando o Wénzi, Yang se dirige à pequena abertura da comporta, uma pequena fenda aberta o suficiente para a aeronave presidencial passar. Quatro aeronaves da comitiva combatiam bravamente o inimigo, apesar de sua evidente desvantagem. Subitamente a comporta começa a se fechar. Os pilotos se desesperam, eles estavam sendo deixados para trás. Alguns se arremetem contra a fenda, mas era tarde demais. A fenda se fecha e a aeronave se choca contra o maciço de aço, causando uma enorme explosão.

Yang assiste àquilo com espanto, mas não pode fazer nada. As únicas vidas que importavam era a do alto escalão.

Passado o perigo, o piloto olha para frente e contempla a rota de fuga presidencial. Um vasto túnel negro se revela. Luzes amarelas e giratórias se acendem nas paredes, revelando um túnel de aproximadamente 50 metros de diâmetro.  

O silêncio era assustador. Lá dentro, tudo era tão calmo e escuro que não parecia haver uma terrível invasão ocorrendo logo atrás. Desta vez, a segurança parecia ser garantida.

“Piloto Haisheng, devemos prosseguir! Será uma longa viagem pela frente!”.

Ao ouvir o líder da comitiva, o piloto pergunta:

- Para onde o túnel nos leva?

“Para próximo do Porto de Tianjin”.

Yang se impressiona. A distância entre Pequim e a cidade de Tianjin são de quase 140 quilômetros; um pouco mais se considerarem até o porto.

As duas aeronaves de escolta restantes se posicionam em formação, com a aeronave presidencial protegida atrás. Yang toma a frente e então avança, guiando-os pelo longo túnel e deixando a Pequim subterrânea para trás.

 

 

 



[1] “Mares médio e do sul” em chinês

domingo, 21 de janeiro de 2024

Shenzhou Wénzi - 06 - Pequim 2460 EC

 


(Arte de Antarik Fox)


Pequim, 2460 EC, ou 511 após a Revolução Maoísta.

Nuvens amarelas encobrem o céu de Pequim. Desde o final do século 20 a cidade sofria com a pesada poluição do ar. A rápida industrialização, propiciada nos anos de 1980 pelo secretário-geral Deng Xiao, obrigou o governo a explorar velhas fontes de energia, como o carvão. A consequência de tal decisão perseguiu a sociedade chinesa por anos. Problemas de saúde estouraram entre os chineses; estatísticas de doenças pulmonares e cardiovasculares surgiram, assim como casos de diabetes, hipertensão e câncer.    

Mas a capital, de até então 100 milhões de habitantes, ainda teria mais um flagelo pela frente.

Em 2040 os Estados Unidos entram em guerra com a China. Os americanos não conseguiram realizar um ataque nuclear, mas suas ogivas foram interceptadas nos céus de Pequim, espalhando radiação na estratosfera.  

Finada a guerra, a radiação permaneceu no céu pequinês. O governo chinês estimou que a contaminação ficaria no ar pelos próximos mil anos, e então eles tiveram uma audaciosa ideia: transferir a sociedade para o subterrâneo de Pequim.

A construção das vastas galerias subterrâneas foi a maior obra que a humanidade já realizou. Abaixo do solo, cerca de 5 mil quilômetros quadrados foram explorados, dando o nascimento a uma nova cidade, com reservatórios de água limpa, ar despoluído, prédios, escolas, mercados e transporte público. Na superfície, apenas serviços essenciais permaneceram, como prédios governamentais e instalações industriais.

Desta maneira, a sociedade pequinesa estava a salvo da contaminação acima.

 

§

 

Enquanto avança pelas nuvens amarelas, Yang se recorda de seu último encontro com Li Fen.

No módulo espacial horas atrás, ele se prepara para a missão. É um pouco difícil se vestir em gravidade zero, mas ele já está acostumado. Ele veste seu avançado traje e segue pelo módulo. Os engenheiros preparam o Wénzi no lado de fora, reparando suas avarias e revisando os sistemas de navegação. Ele pensa como, séculos antes, ser um taikonauta era algo fantástico. Toda a humanidade gostaria de conhecer o espaço, mas hoje aquilo era totalmente corriqueiro e poucos ainda se interessavam pela profissão.

Então ele vê Li Fen passando atrás dele. Apressando-se, ele a alcança e diz:

- Xiàwǔ hǎo[1], Li Fen. Como vai?

Com olhar sério, ela responde:

- Piloto Haisheng? O que quer?

- Na verdade é sobre isso o que eu quero lhe falar. Escute, não precisa me chamar de “Piloto Haisheng” o tempo todo. Somos amigos, lembra-se?

- Amigos? Do que você está falando?

- Nós somos amigos de infância! Não precisa manter a formalidade comigo. Eu não sei por que me chama assim, talvez queira passar uma boa impressão para o Alto Comando, mas não precisa ser tão fria comigo. Nós somos amigos e eu gostaria que continuasse assim.

Apesar do semblante sério, os olhos de Li Fen parecem corar.

- Escute aqui, seu moleque! Nós não somos amigos; nunca fomos! Você é só um batedor de bolas que, por alguma razão, chamou a atenção do meu pai! Ele é seu amigo; não eu. – afirma ela – Você pode continuar se achando um “herói” pelo que fez em Shanghai, mas eu ainda sou sua superiora e é melhor você me tratar como tal, está entendendo?

Yang se espanta.

- Li Fen, por que está falando assim?

- Zhong xiao[2] Li Fen. – corrige ela – E você é só um Zhong Wei[3] aviador. Portanto, me respeite senão você voltará a jogar tênis de mesa para sobreviver, está me ouvindo?

- Mas Li Fen...!

- Eu perguntei, está me ouvindo?! – repete ela, impondo sua autoridade.

Desanimado, Yang respira fundo e responde:

- Sim, Tenente-Coronel.

- Ótimo.

Então Li Fen lhe presta continência e lhe dá as costas, indo embora em seguida.

Yang ouve uma explosão abaixo de sua nave, quebrando-o de sua distração. Navcom informa:

- Yang, detecto presença inimiga na cidade abaixo.

- Entendido, Navcom. Prepare os armamentos. Nós vamos descer.

Torres de instalações industriais atravessam as nuvens amarelas. Movendo os manches, o piloto mergulha pelos gases tóxicos em direção à cidade. O Wenzí atravessa o véu amarelo e, ao sair, Yang contempla a fascinante capital do mundo.

Pequim estava mergulhada em poluição. Instalações industriais se estendiam por toda parte, com suas chaminés soltando fogo e fumaça. Abaixo, os prédios da velha cidade permaneciam cobertos por um véu de fuligem. Alguns aparentavam funcionamento, mas a maioria parecia desabitado e abandonado há décadas. Yang vê alguns prédios iluminados a frente; eram as sedes dos prédios oficiais do governo.

As avenidas estavam desertas. As árvores arduamente sobreviviam em meio à poluição. Os rios fluíam livremente sem a presença humana. Em contraste com o abandono, Yang vê apenas carros próximos aos prédios oficiais, mas eram poucos.

Yang se impressiona. Era como se a capital chinesa tivesse se tornado um vasto pátio industrial. Poucas vezes ele teve a chance de visitar a cidade durante sua carreira de piloto. Quando veio, ele ficou em bases afastadas, longe do manto tóxico de poluição. Mas agora, ao penetrar o coração da cidade, era como se ele estivesse lhe desvendando segredos.

A megalópole era imensa; Yang passava apenas em seus arrabaldes. Ao se aproximar do centro, ele finalmente vê. Acima das altas torres, os temíveis cruzadores pairavam sobre Pequim. O centro financeiro de negócios estava em chamas. O topo da torre CITIC, também conhecido como “China Zun”, queimava livremente, sem ninguém para apagar o incêndio. A fachada do belíssimo CCTV estava toda quebrada e estilhaçada. A famosa Cidade Proibida, de onde Mao proclamou a Revolução, teve seus telhados bombardeados e arruinados. Lamentavelmente todo o distrito de Chaoyang era dominado pelo inimigo.

Os enxames surgem entre o fogo. Eles flagelavam a cidade com suas bombas de energia, reduzindo-a a cinzas. Yang avista o Grande Salão do Povo, a imponente sede do Parlamento chinês. Baterias de artilharia antiaérea protegiam a entrada, mas eram pouco eficientes contra as ágeis aeronaves alienígenas. O piloto também vê tanques e artilharia antiaérea espalhados pela Praça da Paz Celestial, em sua maioria destruída pelo inimigo. Drones chineses bombardeavam os enxames, providenciando um modesto suporte aéreo. Entretanto, ele não pode ver os caças da Força Aérea em lugar algum.

Yang nota que no topo de um prédio havia artilharias chinesas combatendo os enxames. De repente um facho de laser desce do céu e arrasa o prédio, queimando o equipamento com sua brilhante luz. O piloto olha para cima e se estarrece ao ver que o laser veio de um cruzador.

Diferente dos cruzadores de Shanghai, em Pequim eles atacavam ativamente a cidade. Seu ataque feroz se assemelhava ao fulminante laser do Tiān Jiāng, apelido dado pelo Alto Comando ao general das forças de invasão de sua cidade.

Yang relembra sua missão. Com o Shenzhou Wenzí, ele deve limpar o espaço aéreo de Chaoyang e proteger a fuga do presidente chinês.

- Preparando-me para atacar o inimigo. Câmbio. – informa Yang.

O piloto aperta os botões e destrói três naves alienígenas. Fazendo ousadas manobras, ele persegue um enxame e os aniquila, salvando uma fileira de tanques na rua. Ao vê-lo, as equipes abrem suas escotilhas e acenam, agradecendo ao jovem herói de Shanghai.

No topo de um prédio, uma equipe de artilharia antiaérea sofre para resistir ao inimigo. As bombas de energia se aproximam como esferas da morte, destruindo o equipamento e encurralando-os contra a parede; os enxames brincavam com eles. Mas de repente, se elevando atrás deles, o Wenzí dispara mísseis teleguiados e os pulveriza no ar.

Desta maneira, o Wenzí segue pelo céu de Pequim. Yang salva as equipes de artilharia. Lentas e pesadas, elas não tem a menor chance contra os enxames. Então os soldados hasteiam bandeiras da China sobre os terraços, simbolizando a esperança.

Os drones tentam, mas não conseguem abater os robustos cruzadores com seus mísseis. Então lasers descem do céu e arrasam a Praça da Paz Celestial, avariando o exército chinês concentrado naquela posição. Preocupado, Yang fala ao comunicador:

- Piloto para base. Eu vou atacar os cruzadores sobre a praça. Câmbio.

“Negativo, tenente”.

Yang se assusta; ele reconhece aquela voz. Ao olhar para o lado, uma brigada de caças cruza o céu. Intrigado, ele pergunta:

- Pode repetir a mensagem, por favor?

“Yang, sou eu, Junlong. É bom estar voando de novo”.

Espantado, ele responde:

- Tenente-General? O senhor voando? Como?

“Com essa guerra, não existem mais pilotos disponíveis, então eu me voluntariei”.

Yang se intriga.

- E eles o deixaram vir?

Junlong humoradamente responde:

“Não”.

Ambos riem.

- Senhor, caças Chengdu e Shenyang não são eficazes contra os enxames. A China precisa empregar novas armas contra os alienígenas, como o Wenzí.

“Ora, deixe esta velha raposa voar!”, pede ele. “Além disso, a China não estava preparada para um inimigo vindo do espaço. Ninguém na Terra poderia prever esta tecnologia alienígena. Coincidentemente, ao projetarmos o Shenzhou Wenzí, nós apenas brincávamos com as novas tecnologias no mercado. A vinda do enxame foi apenas uma coincidência”.

Então Yang reconhece; o verdadeiro herói era Junlong, e não ele.

- Fico feliz em ter um excepcional tutor e um amigo, senhor!

“Sem bajulações!”, ordena ele, brincando. “Piloto Haisheng, você tem novas ordens. O presidente não está aqui; ele está no subsolo. O inimigo conseguiu se infiltrar no nível inferior da cidade. Suas novas ordens são limpar o local e assegurar a fuga do presidente”.

- Entendido. Devo partir imediatamente?

“Ainda não”, responde ele. “Vá para o Aeroporto Internacional de Pequim. Os militares desenvolveram uma nova arma e querem instala-la no Wenzí. Disseram que é ultra eficiente em locais fechados, como o subterrâneo. Li Fen lhe passará as coordenadas”.

Então, sem nenhuma palavra da assistente, Yang recebe a localização. Tratava-se de um hangar oculto no aeroporto da cidade.

- Entendido, senhor. E obrigado.

“Boa sorte, garoto. Me deixe orgulhoso”.

Em seguida Junlong manobra seu caça Chengdu e se afasta.

Yang deixa o espaço aéreo da praça Tiananmen[4]. Enquanto se afasta, a brigada de Junlong combate bravamente os enxames.

O aeroporto se aproxima. O piloto vê os terminais arrasados e em chamas. Os aviões comerciais jaziam destruídos na pista e os hangares tiveram seus telhados derrubados pelas bombas inimigas. Aparentemente os invasores quiseram impedir qualquer chance de fuga dos habitantes.

Uma voz robótica surge em seu comunicador.

“Piloto Haisheng do Shenzhou Wenzí. Entrada permitida”.

Uma escotilha secreta se abre atrás de um hangar. A tampa de concreto da própria pista se move e revela um túnel vertical negro, iluminado por holofotes verdes. Yang se impressiona.

Enquanto desce, a escotilha se fecha e o encerra lá embaixo. Com a invasão, Yang conhecia bases que eram ocultas até a pilotos experientes como ele.

Ao chegar lá embaixo, ele vê uma instalação secreta com centenas de militares e engenheiros. Haviam protótipos de aviões pelo lugar, mas nenhum tão fora do convencional quanto o Wenzí. Ele também vê mísseis balísticos intercontinentais lá embaixo, adormecidos em seus silos como deuses mitológicos hibernando, aguardando o momento de despertarem para punir a humanidade.

“Piloto Haisheng, aqui é Zhang, o engenheiro chefe desta instalação. Bem-vindo à base secreta de Pequim”.

Yang lentamente pousa o Wenzí. Ao descer da nave, os engenheiros se aproximam, cercando-a para vê-la. Eles conversam entre si, uns contemplando e outros admirando a aeronave às suas frentes.

O engenheiro chefe se aproxima e diz:

- Olá, Piloto Haisheng. Prazer em conhece-lo.

Yang tira seu capacete e responde:

- O prazer é todo meu, Zhang.

- Creio que o Tenente-General Junlong já te informou da razão de estar aqui.

- Sim, senhor.

Indicando o caminho, o chefe dos engenheiros diz:

- Acompanhe-me, por favor.

Os dois então andam pela instalação subterrânea. Zhang comenta:

- No centro espacial de Xichang, nossa equipe desenvolveu um armamento inovador nunca antes testado em combate. Ele foi projetado para ser usado em ambientes fechados, confinados por paredes duras, como o concreto, ou mesmo a rocha, como as cavernas. – indicando um equipamento sobre a mesa, ele continua – O armamento dispara lasers que ricocheteiam contra as paredes, avançando em trajetórias distintas, mas sempre em frente contra o inimigo. Deixe-me fazer uma demonstração.

Zhang ativa o equipamento. Ao concentrar uma fortíssima luz em sua ponta, o cano dispara contra um estreito túnel artificial. Yang vê impressionado o laser batendo nas paredes e então prosseguindo novamente, mudando apenas de trajetória, mas nunca de direção.

- Incrível...!

- Obviamente não colocaremos um protótipo tão pequeno em sua nave. Ao contrário, aqui nós temos algo mais adequado para elevar o Wenzí ao seu mais alto potencial.

Ao olhar para trás, Yang vê engenheiros soldando e parafusando estruturas complementares, adaptando-as na fuselagem do Shenzhou Wenzí. Em seguida os engenheiros se aproximam com o novo armamento. Yang vê dois dispositivos cônicos, formando dois longos canos, um em cada lado da nave. 

- Utilize-o com cuidado, Piloto Haisheng. Por ter um ricochete altamente letal, o laser pode causar fogo amigo. Na esquadrilha é aconselhável que você vá na frente.

Com olhar ainda surpreso, Yang responde:

- Sim, senhor. Obrigado, senhor.

 

§

 

Yang retorna à superfície.

Ao passar pela escotilha, aviões de caça e naves do enxame cruzam o céu; a batalha continua no ar.

As nuvens amarelas obstruem a luz do sol, mas o piloto pode ver. A brigada de Junlong lutava bravamente, apesar da evidente desvantagem tecnológica. Yang percebe que, sem a ajuda dos canhões antiaéreos sobre os prédios, os caças já teriam sido abatidos facilmente. Enfrentar os enxames com caças era desastroso, não importava o quão avançados fossem.

- Tenente-General Junlong, solicito permissão para auxiliá-lo em combate.

“Negativo, Piloto Haisheng! Você deve seguir imediatamente para o subterrâneo de Pequim”.

- Mas e quanto a aeronáutica e o exército?

“Eles assumem daqui. Agora apresse-se! A comporta logo vai se abrir”.

Li Fen lhe passa as coordenadas. Yang então segue para os arredores de Pequim. Lá ele se depara com um paredão rochoso na montanha. De repente uma porta gigantesca se abre, soprando o gás amarelo da atmosfera para longe. Enquanto se abre, uma luz giratória vermelha ofusca sua vista, mas ele consegue ver. O interior era vasto e escuro, cuja profundidade lhe era intimidadora.

Alguém no comunicador diz:

“Piloto Haisheng! Entre, por favor. Esta comporta não pode ficar aberta por muito tempo”.

Yang passa pela enorme entrada e desce em direção às entranhas da Terra.

Mais abaixo, ele ouve sons de água jorrando em torrentes. Navcom liga automaticamente as luzes e o piloto vê reservatórios de água contidas em grossas paredes de concreto. Ao observar bem, ele reconhece canais subterrâneos; era o abastecimento de Pequim.

De repente a voz de Junlong surge no comunicador.

“Yang, você sabe como surgem os dragões?”.

Intrigado com a súbita pergunta, ele responde:

- Não, senhor.

“Na mitologia chinesa, a água é a formadora dos dragões. Eles não nascem assim, mas têm sua origem nos peixes e nas serpentes dos rios. Esses animais se tornam dragões a partir de descargas elétricas vindas do céu, como raios. Estas descargas são o último estágio antes de se tornar um dragão, e se o peixe ou a serpente sobreviver, ele efetivamente se torna um”.

Fazendo uma breve pausa, ele continua.

“Diferente das mitologias ocidentais, na China os dragões não são maus. Aqui eles são benevolentes e protetores, e cada um tem uma função específica, prestando auxílio para aqueles que os invocam”.  

- Muito interessante, senhor. – responde Yang.

De fato, seu tutor era muito erudito na cultura chinesa.

Um minuto depois, algo acontece. Um ruído diferente surge junto com o fluxo das águas. Ao olhar para o lado, o piloto vê uma aeronave anfíbia voando sobre os canais. Então a voz no comunicador diz:

“Olá de novo, Yang”.

Intrigado, o piloto pergunta:

- Junlong?!

A aeronave se aproxima do Wenzí. Os holofotes na carenagem o ofuscam, mas ele consegue ver. Junlong estava lá dentro, em pé atrás dos assentos dos condutores na cabine.

Surpreso, Yang pergunta:

- Junlong, o que está fazendo aqui?

Sorrindo, o tenente-general leva seu comunicador ao rosto e responde:

- Você pensou que eu perderia a chance de me tornar um dragão?

 

          



[1] “Boa tarde” em chinês

[2] “Tenente-Coronel” em chinês

[3] “Primeiro-Tenente” em chinês

[4] “Paz celestial” em chinês

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...