segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Sonata - 59 - Mystique


(Arte de Max Hay)


Sentados em uma plataforma entre os prédios, Nathan e Laura bebem refrigerante. As tubulações ao redor soltam vapor e deixam o ambiente úmido. O barulho das ruas lá embaixo irrita seus ouvidos, mas eles não se importam. De fato, aquele era o mesmo lugar onde Laura o acusou de cometer um atentado terrorista dias atrás.

Diferente daquele dia, hoje os dois não se acusavam. Desta vez eles conversavam tranquilamente.

- Obrigado por vir, Laura. Eu te compraria um presente, mas as lojas lá em cima estão todas fechadas devido a Rebelião.

A garota responde:

- Eu entendo. As corporações foram as responsáveis por tudo isso.

O rapaz se lamenta.

- Gostaria de não ter de me tornar o Inimigo de Estado para ter te conhecido. 

Ao ouvi-lo, a garota pergunta:

- Como é ser o Inimigo de Estado?  

O rapaz levanta as mãos, confuso.

- É estranho. Nunca entendi por que fazem do Inimigo de Estado um herói suburbano, mas o povo precisa dele, depositando nele todas as suas esperanças de libertação. E eles me motivam a continuar lutando. -explica ele - E, você? Como é ser a melhor dos runners?

  - As pessoas veem apenas a emoção de ser uma runner, mas não veem o limo escorregadio de um parapeito ou os ralados nos braços e nos joelhos...

A garota tinha músculos torneados em seus braços e coxas. Ele pensa que aquilo pode ser o efeito de anabolizantes. Um pouco indiscreto, ele pergunta:

- Você já usou drogas?

Laura sorri.

- O quê?!

- Eu quero dizer... – corrige-se ele, coçando a nuca – Você já usou entorpecentes ou coisa assim?

- Eu já usei estimulantes para o condicionamento físico, mas nunca usei entorpecentes. – esclarece ela – E você?

Laura pergunta, mas já desconfia da resposta. O inocente Nathan nunca usou ou sequer viu drogas na sua frente.

- Não. Na verdade a primeira vez que eu vi isso foi aqui. – responde ele, referindo-se à superfície – Mas eu costumava beber com os amigos antigamente.

- Então você gosta de bebidas alcóolicas?

- Não. Eu não suporto o efeito da embriaguez. A tontura me irrita. Por isso prefiro os refrigerantes. – e então ele ergue sua latinha.

A garota sorri. Lembrando-se de seu pai, ela gostaria que ele fosse assim também.

- Mas você nunca ficou bêbado na vida?

- Ah, sim! Uma vez fiquei tão bêbado que vomitei no orfanato inteiro. – ri ele.

- Orfanato? – pergunta ela – Nathan, como os seus pais morreram?

- Foi em uma operação policial. Meu pai fazia espionagem para a superfície e acabou morto na operação.

- Sua mãe também se envolvia com a superfície?

- Não. – responde ele – Ela era inocente.

Laura se consterna.

- Lamento.

O rapaz conhece a história de Laura. Ele sabe sobre Ultra e sua incansável busca por sua mãe. Sem querer ele reconhece que os dois eram órfãos, mas de jeitos diferentes e unidos pelo destino.

Database liga para Nathan. O rapaz ignora.

- Eu também lamento o desaparecimento de Ultra. - diz ele - Seria uma honra poder conhece-la pessoalmente. Mas pelo menos eu conheço sua filha, da qual eu amo incondicionalmente e para sempre.

Nathan a abraça e beija sua cabeça. Envergonhada, a garota o abraça também.

Database liga novamente. O rapaz olha para seu celular e novamente o ignora.

- Laura, me desculpe por perguntar, mas por que você mudou tanto?

Ela se confude.

- Como assim?

- Há poucos dias você tinha o maior desprezo por mim e de repente você mudou. Aconteceu alguma coisa?

Assim como Nathan, a Rebelião também ensinou à Laura coisas sobre si mesma. Conhece-lo foi mais um passo para se identificar com sua mãe. A garota não admitia, mas assim como Ultra, elas se atraíam por homens pacatos e fracos.

Não querendo desaponta-lo com essas palavras, ela simplesmente responde:

- Se minha mãe estivesse aqui, ela ia gostar que ficássemos juntos. 

Então o rapaz sorri.

Um minuto se passa. Segurando a mão da garota, Nathan diz:

- Laura, me desculpe por ter cometido aquele atentado terrorista.

A garota demora um pouco para se lembrar.

- Está falando do hospital que você explodiu com os clérigos?

- Sim.

Laura era uma mulher fria e implacável. Ela já matou dezenas de pessoas em sua vida. Todavia ela considerava o terrorismo um ato covarde do qual ela jamais praticaria.

- Tudo bem. Eu te desculpo. Isso é passado agora.

Apesar das poucas palavras, a garota sabe que eles estão no meio de uma Rebelião. Muita coisa ruim pode acontecer quando a violência se torna a única linguagem que a sociedade entende.

De repente alguém aparece no terraço. Olhando para o lado, o rapaz vê três seguranças acompanhando Database. 

Com olhar sério, o chefe diz:

- Nathan, me desculpe por interrompê-los, mas eu estou tentando falar com você e não estou conseguindo.

O rapaz olha para seu aparelho e, de fato, haviam várias chamadas de seu chefe.

- Algum problema, Database?

- Sim. Preciso que você venha comigo.

Incomodado, ele olha para a garota. Ela, porém, se levanta e diz:

- Não tem problema. Eu precisava mesmo ir ver meu pai. Até mais, Nathan.

Em seguida ela beija sua boca. Database e os seguranças se espantam. Em todos esses anos na superfície, eles jamais viram a runner se apaixonar por alguém.

O rapaz, por outro lado, sente como se estivesse no céu, apesar de estar no nível mais baixo da metrópole.

- Me acompanhe, por favor.

Escoltando-o ao Submundo, eles entram em sua sala e o chefe fecha a porta. Ligando seus monitores, Database lhe mostra algumas imagens.

- Nathan, nossos hackers identificaram o envio desses e-mails para o seu computador. O que não sabemos é como o remetente fez isso, pois sua conta é conhecida apenas para nós e as facções.

O rapaz vê apenas textos ininteligíveis na tela. Intrigado, ele pergunta:

- Essas mensagens são criptografadas?

Com semblante sério, ele responde:

- Exato.

Revelando as imagens, o rapaz vê fotos grotescas de Vertigo morto, caído entre alguns potes de vidro. Para o seu horror, havia um buraco de bala horrível em sua cabeça. Com aquela sanguinolência toda, o rapaz desvia o olhar.  

- Isso não é tudo. Veja.

Sobre as fotos, uma mensagem aparece. Ele lê:

“Inimigo de Estado, você é o próximo”.

Com a ameaça, o rapaz treme.

- Database, quem foi que mandou isso?

- Não sabemos. Desconfio que o autor tenha acesso a informações secretas, concedidas pelas próprias corporações. – respirando fundo, ele conclui – Temo que elas tenham enviado um especialista, um tipo mais arrojado de assassino, exclusivamente para te matar.

Então Nathan arregala os olhos.

- Eu devo me esconder e não participar mais da Rebelião?

- Não. Esse assassino não te pegaria lá em cima. Ele quer acabar com o problema pela raiz. – fazendo outra pausa, ele conclui – Desconfio que ele virá te pegar aqui.

O rapaz treme novamente.

- Mas chefe, estamos em um local altamente protegido. Você acha que o assassino seria ousado o bastante para nos atacar aqui embaixo?

Meneando negativamente a cabeça, Database responde:

- Você não me entendeu. Estamos falando de um especialista. Com informações privilegiadas e abundantes recursos, ele o encontraria onde estivesse. Ele já pode estar aqui, na verdade.

Database insinua que todos ali podem ser suspeitos.

Sentando-se no sofá, Nathan enxuga o suor de sua testa.

- O que eu devo fazer então, chefe?

Database nota como o rapaz implorava por uma esperança. Ele sorri por dentro, esperando o momento certo de arranca-la impiedosamente.

- Não há o que fazer.

- O quê?! – exclama ele.

- Não há como fugir de um caçador obstinado e experiente.

O rapaz não consegue acreditar no que ouve. Ao finalmente conquistar Laura, a expectativa da morte vem e lhe assombra.

- O Submundo vai me deixar morrer?!

- Não, exatamente.

Ele se intriga.

- O que quer dizer?

- O especialista tem apenas uma fraqueza: o ataque. No ataque ele se revela. No planejamento, ele se esconde. Infelizmente para a vítima, quando o ataque vier será tarde demais.

Nathan se espanta.

- Esta é sua fraqueza?!

Sentando-se em sua poltrona, o chefe fuma seu charuto. Observando o desespero do rapaz, ele diz:

- Resista ao terror psicológico, Nathan. Essa é sua arma. Quando o assassino vier ao ataque, nós estaremos lá.

O rapaz não consegue deixar de se sentir vulnerável na situação.

- Mas, Database...

- Dispensado. 


§

 

Duas noites se passam. O rapaz permanece trancado em seu quarto. Ele não falou mais com Laura, ele não quis preocupa-la.

“Como se ela temesse alguma coisa...”, pensa ele.

O Submundo está em estado de alerta, porém ele acha muito estranho que os corredores estejam tão vazios. Database está ausente, ele foi ao Mystique resolver assuntos pessoais, provavelmente o contrabando ilegal e o comércio de entorpecentes.

De repente Nathan ouve o som de vazamento. Intrigado, ele olha para cima e vê a grade do ar condicionado. Não havia nada de anormal. O som fica mais alto e, ao olhar novamente, um gás esverdeado invadia seu quarto.

- Gás! – exclama ele.

Database lhe envia uma mensagem em seu celular. Nela dizia: “fuja!”

Apavorado, o rapaz abre a porta e corre pelo Submundo.

Uma sirene toca. Percorrendo o local, ele o encontra estranhamente vazio. Sem conseguir evitar, um medo sinistro toma sua mente. Então uma voz no alto-falante diz:

“Segurança comprometida! Deixem o local imediatamente!”.

O gás parece colorir a vista. Olhando para as salas e os corredores, o rapaz vê aquele tom esverdeado em toda parte. Ao inala-lo, o efeito o desestabiliza e ele começa a tossir.

A escada para a saída se aproxima. Ao subi-la, ele irrompe pela porta, caindo no escuro beco. Prestes a sucumbir sob o efeito do gás, ele se arrasta pelo chão, não se importando com a sujeira. Aerocarros atravessam os estreitos espaços entre as megatorres. Preocupado, o rapaz se pergunta onde estavam os runners.  

Pessoas desconhecidas correm pelos terraços. Elas vestem capuzes pretos e portam rifles de assalto. Encontrando o rapaz, eles apontam suas armas e atiram, fazendo Nathan correr sob o ricocheteio das balas.

Avançando pelo beco, ele se espanta ao ver a saída obstruída com uma pilha de lixo. Só havia uma saída restante, uma sinuosa passagem à sua esquerda. 

Correndo pelos detritos, ele se agarra a uma tela de arame e tenta não desmaiar, ele estava zonzo e precisava  recuperar o fôlego. Os encapuzados se aproximam. Vendo uma porta aberta, ele encontra um salão abandonado. Sem pensar duas vezes, o rapaz entra para escapar da chuva de balas.

Pisando sobre o entulho, o rapaz corre pelo escuro ambiente. Havia uma escada velha e enferrujada ao longe. Olhando para trás, ele ouve os atiradores se aproximando. Atravessando o salão, ele sobe as escadas e alcança o telhado. Nathan descobre que estava se afastando cada vez mais das partes iluminadas e povoadas da superfície. Sem tempo a perder, ele continua seu caminho.

Tiros são disparados ao longe. Finalmente os runners haviam chegado e agora trocavam tiros com os invasores. O rapaz se alivia.

  Distraído, ele não percebe a presença de objetos azulados e metálicos no telhado. Ao pisar neles, uma onda de choque se levanta e eletrocuta seu corpo, fazendo-o gritar. Uma voz familiar diz:

- Peguei!

Imobilizado no chão, o rapaz luta para não perder a consciência. Um homem de sobretudo se aproxima e para ao seu lado. O desconhecido pisa em seu peito, fazendo-o acordar.

- Boa noite, Nathan. Lembra-se de mim?

Aerocarros sobrevoam ao redor com holofotes acoplados em suas latarias, iluminando o escuro fosso. O rapaz enxerga o homem acima e, em prantos, sussurra:

- Detetive Burton...?!

O detetive sorri.

Nathan se lembra daquele psicótico policial. Foi ele que mobilizou um batalhão inteiro para capturar o rapaz em Blue Giant, o distrito dos robôs.

- Eu estive te procurando, sabia? Infelizmente eu não pude captura-lo na superfície da Cúpula Corporativa. Os ateístas chegaram antes.

O rapaz se lembra daquele dia. Intrigado, ele não se lembra de ter visto Burton em lugar algum.

- Você estava lá?

Burton continua:

- E seu amigo Vertigo me ajudou também, se é que posso chama-lo assim. O traidor não se importava com você; ele era só mais um que te usava em seus próprios interesses. Se você não for tão burro quanto eu penso, creio que já percebeu isso.

- Então foi você que matou o Vertigo, não foi?

- Eu te fiz um favor. Ele te usou, então eu o usei para chegar até você.

Nathan se espanta como o detetive sabia tanto a seu respeito.

- Durante todo esse tempo você esteve por perto...

- Ah, sim...! – anima-se ele – Acredite, garoto. Eu estava mais perto do que imagina.

Mais policiais se aproximam. Com olhares furiosos, eles lhe apontam suas armas.

- O que vocês vão fazer comigo?

- Vamos captura-lo e leva-lo às autoridades.

O rapaz sorri.

- Autoridades?! Nós já destruímos tudo pelo caminho. De que autoridade você está falando?

- As corporações, é claro. Mas primeiro, nós vamos nos divertir um pouco.

O rapaz sente medo.

- Do que está falando?

Então Burton chuta suas costelas, fazendo-o se contorcer de dor.

- Isso é por fugir de Blue Giant! – ele chuta novamente – Isso é pelo Ministro Arquimedes! – ele dá outro chute – E isso é pelo Ministério de Segurança Pública! – mais um chute – E isso pelo Ministério da Informação!

O detetive continua chutando e pisoteando-o. Ele se vinga por cada dano causado em Sonata.

O rapaz suspira e ofega de dor. Sangue se escorre de sua boca e nariz. Vendo as feridas se abrirem em seu rosto, os policiais são obrigados a intervir.

- Detetive Burton, já chega!

O irascível Burton responde:

- Por acaso vocês se esqueceram das centenas de policiais mortos na Rebelião? Se esqueceram quem é o culpado?

Então os próprios policias se irritam, olhando furiosos para Nathan. Com seus cassetetes e suas botas, os policiais espancam o rapaz no chão. Ele tenta se defender, mas tem seu corpo pisoteado por todos os lados.

Ocupados espancando o rapaz, eles não percebem a aproximação de um objeto redondo atrás deles. Ao tocar o pé de um policial, ele olha para trás e o reconhece. Ele exclama:

- É uma bomba!

O grupo se intriga e então ela se explode no telhado. Burton consegue se proteger, mas seus companheiros caem feridos com estilhaços perfurando seus corpos. Em horror ele reconhece os danos, tratava-se de uma granada de pregos.

Os policiais agonizam no chão. A bomba foi projetada como uma arma não-letal, indicada para a neutralização do inimigo e não seu extermínio. Burton se assusta e se arrasta pelo telhado, procurando por sua arma. Então alguém aparece.

Vestindo um casaco marrom, uma calça jeans e um tênis oitentista, um homem com uma escopeta se aproxima. Nathan o reconhece. Sorrindo com seus dentes encharcados de sangue, ele sussurra:

- Maynard...!

O detetive se intriga.

- O que você disse, rapaz?!

Um policial ferido tenta atacar o mercenário. Sem olha-lo nos olhos, Maynard aponta sua arma e atira em seu peito, terminando sua vida. Recarregando-a, ele responde:

- O rapaz disse Maynard.

Nathan sorri novamente.

- Então você é o lendário mercenário Maynard que todos falam? Famoso por espalhar o caos pela cidade e nunca ser pego?

Sem demonstrar reação, o mercenário responde:

- Deve ser um outro Maynard.

- Oh, mas não é! – desmente ele – Eu li seus arquivos. Sabotagem da torre de transmissão da Cybersys, extração do Inimigo de Estado de uma prisão de segurança máxima, confronto a mão armada com a polícia e com as facções... – lista ele – Por que será que sempre quando há desordem você está envolvido?

Ainda sério, ele diz:

- Deve ser uma coincidência.

- Ora, você só sabe dizer isso?!

Nathan tem vontade de gargalhar, mas a cada riso suas costelas doem.

- Eu vim levar o rapaz. Sugiro que você se afaste.

O detetive ri em desprezo.

- Eu não tenho medo de você!

- Mas deveria.

Então os dois se encaram ferozmente. O tempo parece se desacelerar.

A fama de Burton o precede, ele era o policial mais eficiente na caça aos terroristas. A fama de Maynard também; ele era uma lenda viva. Naquele momento, o rapaz testemunhava o duelo de gigantes.

Burton saca sua arma e atira. O escudo do mercenário se ativa e ele se prepara para atirar de volta. O detetive lança granadas sobre o telhado e se abaixa. As bombas se explodem e o telhado cede, derrubando os três lá embaixo.

O detetive tenta fugir para reagrupar-se com os policiais e replanejar sua estratégia. Maynard atira nele, fazendo os projéteis soltarem faíscas pelas paredes. Burton corre pelos becos e alcança uma escada de incêndio. Ao subi-la, ele se encontra novamente nos terraços dos prédios decrépitos. Ele corre e pula pelos terraços, ignorando a altura.

Burton recarrega sua arma, ele tinha apenas uma pistola automática. O mercenário se aproxima, portando sua poderosa escopeta. Se o detetive não se reagrupar, ele estará em séria desvantagem.

Maynard chega ao terraço. Pegando um radar detector de batidas cardíacas, ele caminha pelo local. Ao longe, os policiais e os runners se digladiavam. Devido ao tiroteio, ele tinha que se cuidar para não ser atingido por uma bala perdida.

O detector indicava que havia alguém três terraços a frente. Avançando, ele se depara com uma caixa d’água vazia. Apontando sua arma, ele atira contra a madeira, fazendo-a se estraçalhar. Um gato mia e foge pela noite, assustado com o tiro.

“Era apenas um gato”, pensa ele.

Felizmente o gato não se feriu.

- Ei, mercenário!

Maynard se vira e é atingido por uma paulada nas costas, fazendo-o se contorcer de dor. Burton bate novamente e o mercenário cai, soltando sua arma. O detetive olha para ele, sorrindo.

- Por acaso pensa que eu sou algum imbecil? – pergunta ele – Eu sei tudo sobre você, agente Maynard. Você tem muitos recursos, mas nunca espera um combate desarmado.

O mercenário tenta pegar sua arma, mas o detetive a chuta para longe.

- As corporações me pediram o Inimigo de Estado vivo. Felizmente eles não falaram nada sobre você.

Burton saca sua arma e se prepara para executá-lo. De repente o mercenário lhe dá uma rasteira e ele cai, fazendo a arma disparar acidentalmente.

- Você está errado, detetive Burton. Eu sempre espero tudo.

Levantando a manga de sua jaqueta, Maynard revela uma enorme lâmina embutida ao redor de seu antebraço. Deslizando-a para cima, o mercenário a crava na perna de Burton, fazendo-o gritar. O detetive se defende chutando seu rosto. Atordoado, Maynard cai de costas.

Burton pega sua arma e se vira, pronto para atirar. O mercenário, por sua vez, havia sumido.

Mancando pelo terraço, o detetive estanca o sangramento com a mão. Burton já havia perdido uma perna durante o ataque terrorista da Bushido. Com a outra perna ferida, ele temia se tornar um ciborgue estabanado.

“Isso se eu sair vivo daqui”, pensa ele.

Então Maynard se levanta e atira com sua escopeta. O detetive se abaixa e se protege atrás de um parapeito. Os dois trocam tiros arrastando-se pelo terraço. Eles se escondem atrás de obstáculos até encontrar um ponto de vantagem.

O detector de Maynard se confunde, há muito barulho ali. Arrastando-se aleatoriamente, ele ouve alguém atrás dele e, ao se virar, toma um tiro no peito.

- Hah! – alegra-se ele – Você não sabe lutar sem seus brinquedos, não é?! Você é uma fraude!

O escudo não se ativou adequadamente. A bala atinge o mercenário e ele segura a ferida, sujando sua mão de sangue.

O detetive se aproxima exultante. Apontando sua arma, ele diz:

- Nem tente me derrubar. Eu conheço seus truques.

Encolhido sobre o chão, Maynard responde:

- Conheça mais esse.

Abrindo sua mão ensanguentada, ele lhe revela um minúsculo detonador. O detetive se confunde. Ao pressiona-lo, uma sequência de explosões se aproximam e então atingem Burton, lançando-o pelos ares.

Ao cair, Burton vê suas roupas queimadas pela explosão. Ele entende o que aconteceu. Maynard lançou minúsculas bombas pelo terraço, deixando-as em seu percurso para prevenir que fosse atacado pelas costas.

Burton se repreende por dentro. Em seus dois ataques ele previu seu adversário, e nos dois ele estava errado. O detector não estava funcionando, então o mercenário teve que se adaptar.

“Genial”, reconhece ele. “Simples, porém genial...”.

Maynard se levanta e se aproxima com sua escopeta. O detetive diz:

- Você é esperto, mercenário... Mas não é só você que tem truques debaixo da manga.

Ele se intriga.

- O que quer dizer?

- Por acaso não se perguntou por que os policiais não apareceram aqui?

O mercenário não responde. Ele estimou que Burton não os tivesse alcançado a tempo.

O detetive continua:

- As corporações não querem apenas o Inimigo de Estado, elas querem acabar com a Rebelião. Para isso, eles querem erradicar toda a sua rede de operação na superfície. 

- Rede de  operação?

- Você foi inesperado, Maynard. Não contei que você se envolvesse com uns marginais desse nível – cheio de desprezo, ele se referia à superfície – Mas eu devo te dizer uma coisa... Esta operação ainda não terminou!

Um poderoso estrondo é ouvido, estremecendo todo o quarteirão. Assustado, o mercenário olha para o lado e vê uma enorme labareda se levantando na direção da rua. Maynard reconhece o local, ali ficava o Mystique. Em seguida aparecem dezenas de viaturas policiais com as sirenes ligadas e colorindo o ambiente.

Maynard finalmente percebe. Ele estava no meio de uma invasão.

Burton ri.

- Se você quiser salvar esses viciados e vagabundos, sugiro que comece a correr.

O mercenário pondera.

- Não. – responde ele – Primeiro você vem comigo.

Então ele o agarra pelas roupas e o leva dali.

 

 



segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Sonata - 58 - O Acerto de Contas

 



(Arte de Cristopher Balaskas) 


De volta ao andar vazio da megatorre, Nathan contempla o Ministério da Propaganda em chamas. A Rebelião alcançou mais uma vitória aquela noite. Semelhante à invasão dos clérigos, foi uma vitória relativamente fácil para a Frente Ateísta. Poucas pessoas morreram no confronto, felizmente. O rapaz se felicita.

Distraído enquanto olha para o edifício, ele ouve o som de armas se destravando atrás dele. Intrigado, ele olha para trás e vê o séquito ateísta apontando seus fuzis para o seu peito. Com o susto, ele levanta os braços.

- O que é que está havendo aqui?!

Dawkins aparece em seguida e pergunta:

- Então você pensou que podia continuar nos enganando, Inimigo de Estado?

O rapaz se confunde.

- Do que você está falando?

- Nós sabemos de toda a verdade, jovem Nathan. Nossos espiões nos deram a informação. Foi você quem detonou o hospital em nosso território.

Então o rapaz arregala os olhos.

- Senhor Dawkins...

- E neste exato local nós te demos a chance de confessar o seu crime, mas você o omitiu.

Temendo por sua vida, ele argumenta:

- Como poderia eu confessar? Eu fui persuadido! Os clérigos o acusaram de explodir uma escola infantil!

- Não! – desmente ele – Você queria uma aliança com os clérigos para sua Rebelião!

Então o rapaz fica sem palavras.

Dawkins continua:

- Naquele hospital tratávamos dos nossos soldados feridos, além de atender a própria população. Todavia... – continua ele,  mudando de assunto – Vi que você tem talento para o terrorismo, pois não hesitou em pressionar o botão mais uma vez.  – o líder lhe mostra o detonador usado anteriormente.

- Eu não sou um assassino...

- Mas é um terrorista. Esta Rebelião fez de você um terrorista... – diz ele – E um soldado.

- O que quer dizer?

- Eficiente e sem escrúpulos, focado em seus objetivos e decidido no que deve ser feito.

Nathan não entende. “Seria aquilo um elogio?”, pergunta-se ele.

- Eu apenas quero que essa guerra termine.

- Ela não vai terminar. E você sabe disso.

Dawkins se referia à Sonata pós-Rebelião. Enquanto as facções existirem, jamais haverá paz. Refletindo rapidamente, o rapaz reconhece que, ao se aliar com as facções, ele escolhia o menos pior. Com as corporações governando, a população temia o extermínio.

Preocupado, o rapaz pergunta:

- O que vocês vão fazer comigo?

- Como as religiões falsamente fazem, nós te daremos uma chance de redenção.

Nathan se confunde.

- Redenção?

- Está vendo aquela câmera? – ele aponta para uma câmera de segurança no teto – Ela está registrando todos os seus atos e palavras. Os clérigos te usaram, mas nós não faremos o mesmo. – pegando um notebook, ele continua – Aqui estão todos os arquivos contendo a verdade sobre aquele falso atentado terrorista, ocorrido em uma escola no território dos Clérigos do Recomeço. Envie-os para o ciberespaço. Mostre à metrópole que você se arrependeu dos seus atos e que se redime mostrando a verdade.

O rapaz vê documentos, fotos e vídeos sobre o atentado. Apesar das imagens chocantes e de algumas pessoas genuinamente feridas, aquilo foi uma encenação. Mas, lembrando-se de algo, ele se martiriza por dentro. Diferente da escola, o atentado no hospital foi bem real e mortífero. Olhando para suas mãos, ele as vê sujas de sangue.

- Está bem. – responde ele – Eu farei o que me manda.

Em frente à câmera, Nathan envia os arquivos. Os ateístas se entreolham, satisfeitos. Na manhã seguinte, os noticiários falarão exaustivamente sobre a revelação.

Encerrado o envio, eles deixam o local.

No terraço da megatorre, o rapaz vê uma aeronave de transporte ao lado de seu aerocarro. Dawkins olha para ele e diz:

- Fico feliz em saber que você está do nosso lado, Nathan.

O rapaz se irrita.

- Eu não estou do seu lado! Eu luto pelo fim das corporações!

- É claro. – corrige-se ele – De qualquer forma, eu te agradeço por escolher o certo a se fazer.

Lembrando-se das armas apontadas para ele, Nathan sorri.

- Eu tinha escolha?

Então o líder sorri também.

- Não.

Os soldados entram na aeronave. Dawkins abre a porta da cabine e, antes de partir, diz:

- De qualquer forma, eu torço para que você faça parte de nossa respeitável facção.

Os terroristas não se cansam de tentar manipulá-lo. Suas ideologias eram extremistas e sanguinárias; eles não hesitariam em derramar o sangue inocente para alcançar seus objetivos. Reconhecendo essa triste realidade, ele se lamenta.

- Senhor Dawkins, no universo existe bilhões de estrelas e planetas. No dia em que vocês provarem a existência de outra civilização fora da Terra, sem mais conjecturar como os cientistas e entusiastas o fazem, eu me juntarei a vocês.  

Ao ouvi-lo, o líder entende a ironia. Apesar de toda a tecnologia disponível, a humanidade nunca encontrou, em todos esses anos, um único sinal de vida inteligente fora do planeta. O que a ciência fazia, no máximo, era pura especulação.

- Por sua lógica, eu devo presumir que você se juntará aos Clérigos do Recomeço no dia em que eles provarem a existência de Deus, estou certo?

Os ateístas riem, zombando de Nathan. O rapaz simplesmente responde:

- Eu não tenho fé o bastante para ser ateu.

Então Dawkins entra na aeronave e eles vão embora, deixando-o sozinho.

 

§

 

No Submundo, o rapaz se deita e descansa em sua cama. Pegando seu notebook, ele finalmente acessa os arquivos sobre seus pais.

Seu pai trabalhava na corporação Cybersys. O rapaz descobre que ele presenciara uma greve de funcionários, mas sem ter nenhuma participação nela. Os grevistas reivindicavam melhores direitos trabalhistas, mas foram severamente reprimidos pela Polícia Corporativa. Para fugir da prisão e do eventual banimento, muitos fugiram para a superfície, condenando-se à marginalidade, à revogação de seus direitos civis e à miséria. Isso revoltou seu pai, pois, assim como ele, muitos deles tinham família.

A partir de então seu pai passou a manter contato com a superfície. Ele manteve contato com seus habitantes, os antigos grevistas e sua obscura rede de contrabando ilegal. A princípio ele procurava ajudar os grevistas, mas acabou se envolvendo em um serviço espionagem e troca de informações. Em um ativismo velado, seu pai se tornou um informante infiltrado nos níveis superiores, espionando e até sabotando as corporações.

Sua mãe trabalhava no comércio sonatense. Ela era vendedora em uma simples loja de roupas em um distrito de Sonata. Seu pai a conheceu enquanto contrabandeava roupas para os miseráveis na superfície. Os dois se apaixonaram em seguida, mantendo um relacionamento e, eventualmente, gerando um lindo filho, Nathan.

Apesar de preocupada com o trabalho secreto de seu namorado, sua mãe se impressionou com a grande quantia de dinheiro que ele recebia com a espionagem. Grávida e com a data programada de seu casamento, sua mãe o fez prometer que ele largaria aquele serviço, deixando aquelas atividades criminosas para trás. Seu pai prometeu, mas infelizmente para sua mãe, ele nunca o largou.

Com o constante vazamento de informações e sabotagens no ambiente corporativo, as autoridades desconfiaram. Após uma minuciosa investigação, eles descobriram o envolvimento de seu pai com a superfície. Ele sabotava o desenvolvimento de novos sistemas de monitoramento da população, usados pela polícia. Seu pai também roubava documentos, expondo informações secretas. Ao investigarem o destino desses envios, eles identificam uma base para atividades criminosas localizada em uma casa noturna na superfície.

“Seria esse o Mystique?”, pergunta-se ele.

Nathan não conhece a origem de Database, mas sabe que, das centenas de milhares de criminosos espalhados pela superfície, seu chefe era só mais um. Lembrando-se dos bordeis, bares, pontos de drogas, casas de swing e outros estabelecimentos ilícitos, o Mystique também era só mais um ali embaixo.     

Continuando a leitura, o rapaz vê que as atividades criminosas de seu pai continuaram até seus cinco anos de idade. Ao capturarem um antigo aliado, ele revelou os nomes de todos os envolvidos na espionagem, inclusive o de seu pai. Porém, a notícia da traição veio tarde demais.

Os arquivos revelam que seus pais foram mortos a tiros em uma operação policial bem-sucedida. Nathan lê que eles morreram ao tentarem reagir, o que é uma grande mentira. Com lágrimas ofuscando seus olhos, ele se lembra em detalhes de ver seus pais mortos sobre o chão. Ele se lembra do olhar vazio de sua mãe e o seu pai, todo perfurado e ensanguentado, se despedindo dele e dizendo:

“Vai ficar tudo bem...”.

Então o rapaz chora intensamente, batendo em seu computador e encolhendo-se sobre a cama. As saudades o corroem por dentro, ele sentia muita falta deles. Com um gosto amargo em sua boca, ele sussurra:  

- Vai ficar tudo bem...

 

§

 

Database fuma seu charuto em sua poltrona. O Profeta John August acaba de ligar para ele. Furioso e cheio de ódio, o profeta gritava e esbravejava, irritado com a revelação da verdade sobre o seu falso atentado terrorista. A raiva de John August era tanta que nem parecia que ele pregava sobre a longanimidade e a mansidão.

Fumando mais uma vez, o chefe solta a fumaça.

Os noticiários exibem as imagens. Nathan era a estrela do show mais uma vez. As filmagens de segurança o mostram confessando o atentado a bomba no território dos ateístas, chocando a todos. Em seguida, ele se “redime” expondo os arquivos que comprovam que o atentado dos clérigos era falso. “Pura propaganda”, pensa ele.

“Propaganda”, pensa ele novamente.

Fumando seu charuto, Database se lembra do ministro Sócrates. Ao monitorar a invasão à distância, ele vê que os ateístas o capturaram ainda com vida. Astutamente ele percebe tudo. A Frente Ateísta pretendia usá-lo em sua própria rede de propagandas facciosas. Dawkins era um obcecado pelo materialismo científico. Com o grande conhecimento e experiência de Sócrates, o líder pretendia propagandear suas convicções científicas e antirreligiosas para toda a população.   

“Facciosos e suas limitadas visões de mundo”, pensa ele enquanto fuma mais uma vez.

Então uma imagem em seu monitor chama sua atenção. Nathan chorava em seu quarto. Database sabe do que se trata, o rapaz havia lido os arquivos sobre seus pais. Enquanto assiste, ele não demonstra comoção alguma; ele apenas se certifica de que os arquivos foram devidamente alterados.         

Ao expelir a fumaça, ele diz:

- Engula o choro, Nathan. Este mundo não é para as crianças.

   

  

 

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Sonata - 57 - O Método Revolucionário

 


(Arte de Banszi)


O combate aéreo prosseguia com força total. As viaturas de polícia e os aerocarros da facção trocavam tiros e voavam desordenadamente, tornando o espaço aéreo perigosíssimo.

Mas Dawkins não se importava com isso. Emitindo a ordem ao seu motorista, o aerocarro avança imprudentemente pelo céu.

Os aerocarros voam ao redor atirando para todos os lados. Nathan se assusta e teme ser explodido em uma colisão. Então uma viatura voa em sua direção e se desvia por um triz. Ele exclama:

- Mas que inferno!

Ao ouvi-lo, o líder ri.

- Inferno...?! – ironiza ele – Por acaso você acredita nessa fantasia, Nathan?

O rapaz não responde. Acima, tiros são disparados e um aercarro se explode. Dawkins continua:

- No mundo pre-catástrofe, todas as maiores religiões tinham seu próprio inferno. Não é estranho que, em crenças baseadas no amor divino, haja um local de eterno sofrimento para aqueles que não o amam?

Um aerocarro passa e atira contra eles, atingindo toda a lataria do veículo. O rapaz grita:

- Cuidado!

- E por que toda religião tem um inferno? – pergunta ele – Se elas são baseadas no amor, por que quem não segue as regras é lançado lá para queimar para sempre? Esta é a justiça divina?

Uma viatura tromba contra eles, desestabilizando-os.

- Senhor Dawkins, temos que voltar!

- Se houvesse alguma justiça, esse deus respeitaria o livre arbítrio no mundo. E, certamente, o inferno não seria esse abismo terrível criado para o tormento daqueles que o rejeitam.

No escuro blecaute, Nathan via os projéteis atravessarem o céu. De repente um tiro atinge o para-brisa, trincando-o.

- O inferno não é um lugar e sim uma ferramenta, jovem Nathan! As religiões não são baseadas no amor e sim no medo! Essa é a verdade que os crentes e os supersticiosos não admitem.

A visibilidade estava seriamente comprometida, mas nenhum dos ateístas pareciam se importar.

- Temos que sair daqui! – apela ele.

- Todas as religiões se utilizam do medo, este é seu ardil! Primeiro elas te convencem de que você é doente, um infiel maculado pelo pecado original... E depois lhe revelam que apenas eles têm a cura para o seu intrínseco defeito: a conversão, o batismo, o autossacrifício... Então eles te coagem a manter essa salvação, porque ela tem um preço para deus: um décimo do seu dinheiro em uma igreja para sempre. E você sabe o que eles fazem para manter esses pobres coitados presos a essa rasa crença?

Tiros atingem a porta ao lado de Nathan. Se não fosse pelo vidro a prova de balas, ele estaria morto naquele momento.

- Senhor Dawkins!

- Exatamente! – exclama ele, ignorando-o – A ameaça do terrível inferno, o castigo eterno para aqueles que praticarem a apostasia. Por esta razão os séculos passados foram marcados pelas perseguições, inquisições, cismas e guerras santas. Porque, quando o medo do castigo eterno não mais funciona, é necessário puni-los aqui mesmo na Terra, onde tudo existe e é real. Milhares morreram nas fogueiras e ao fio da espada, decapitados nas jihads.

Um aerocarro se explode à sua frente, ofuscando-o com o clarão. O veículo treme e atravessa as chamas, assustando-o. Temendo que o calor chegasse ao tanque de combustível, o rapaz teme morrer queimado.

- Nós vamos morrer! – grita ele.

- Vamos! – concorda o líder, totalmente tomado em seus argumentos – Todos vamos um dia! Se permitirmos, a superstição religiosa vai nos matar. Não devemos dar poder aos ignorantes! Seu fanatismo é brutal e sem limites. Como disse Voltaire: “aquele que te convence a acreditar em absurdos também te convence a cometer atrocidades”.

Suando em desespero, o rapaz sente que está em um Zero com o líder da Bushido. “Isto é um ataque suicida!”, pensa ele.

Outra viatura se tromba contra seu aerocarro. Olhando para o lado, Nathan ouve a sirene e vê as luzes coloridas iluminarem o interior do veículo. Ele se espanta ao ver dois policiais mortos na viatura, caídos em seus bancos.

Dawkings continua:

- Não há inferno. Não há Paraíso. Não há diabo. Não há deus. Não há nenhuma dessas crenças limitantes! Há apenas o Universo, o equilíbrio e a matéria que vemos e percebemos. Os mistérios são as respostas que ainda não temos, como a matéria e energia negra. Todo o mais é pura ignorância e superstição.   

Alguns andares do Ministério da Propaganda estavam em chamas. Ao longe, o rapaz via aeronaves pousarem em seu terraço. Apesar do intenso combate aéreo, as forças policiais pareciam oferecer pouca resistência. Mas ainda não era o momento para tranquilidade. Olhando para seu motorista, o líder ordena:

- Aumente a velocidade.

O ateísta pisa no acelerador e o aerocarro avança perigosamente contra o edifício. Nathan se desespera mais uma vez.

- Isto é suicídio!

- Não se não morrermos no fim!

Atravessando o céu, eles passam por viaturas e aerocarros vindos de todos os lados e atirando uns contra os outros. O rapaz consegue ouvir dezenas de balas atingindo a lataria e os vidros, mas não era isso que o preocupava. A fachada do prédio se aproxima. Ele consegue ver as pessoas lá dentro correndo para longe, afastando-se do aerocarro ateísta. Então ele se choca contra uma janela e a estoura em milhares de pedaços. O veículo adentra o prédio, atropelando inúmeras mesas de escritório espalhadas pelo andar. O rapaz via mesas, cadeiras e computadores se colidindo contra o para-brisa, espalhando canetas e papéis. Após alguns segundos, o aerocarro aterrissa, se arrastando pelo andar. E assim eles encerram aquela incursão insana.

Dawkins deixa o aerocarro e os ateístas o acompanham com armas em mãos. Policiais ouvem o barulho e vêm ao seu encontro. Como se estivesse enfurecido, o líder aponta sua arma e exclama:

- Atacar!

Os ateístas atiram freneticamente, liberando as cápsulas vazias e espalhando-as pelo escritório. Os policiais revidam, protegendo-se atrás das mobílias. Balas atingem as luzes e o ambiente fica no escuro, iluminado apenas pelos disparos incessantes das armas de fogo.

Após alguns minutos, os policiais perdem o confronto. Mesmo em menor número, os soldados da facção eram muito organizados.  

Vendo que o rapaz ainda estava apavorado dentro do veículo, o líder diz:

- E agora, Nathan? Vai me dizer que foi um milagre que o salvou?

Ofegante, ele não consegue se mexer. Dawkins o agarra pelas roupas e o arranca dali. Em seguida ele diz:

- Vamos, meu jovem. Este confronto ainda não acabou.

Avançando pelo local, eles se encontram com os demais ateístas espalhados pelo interior do prédio. Os policiais e os seguranças tentavam repelir os invasores, mas eles eram muitos. As metralhadoras de teto e os bots de segurança ofereciam certa resistência, mas eram facilmente sabotados pelos hackers da facção.

Alguns andares estavam em chamas, totalmente devastados pelas bombas. Os espiões ateístas a implantaram dias atrás, preparando o ataque surpresa. Os defensores não contaram com isso, tendo suas defesas irremediavelmente enfraquecidas pela facção. Para Nathan, a vitória facciosa era uma questão de tempo.

Enquanto avançam, muitos policiais erguiam as mãos e se rendiam. Ao se lembrar dos sanguinários líderes das outras facções, o rapaz esperava um banho de sangue. Mas não foi isso o que aconteceu. Os ateístas os capturam e os escoltam para fora do edifício. Nathan se confunde.   

Aproximando-se, o líder ordena:

- Rápido, levem-nos para as aeronaves tripuladas e os tirem daqui!

O rapaz não entende por que Dawkins demonstra misericórdia, mas não havia tempo para pensar a respeito. Tiros são ouvidos no andar de cima. Pegando uma arma no chão, ele se prepara para o confronto. Então o líder diz:

- Espere um pouco, meu jovem. Isto aí não é brinquedo.

Nathan se intriga.

- Por que me diz isso? Eu sei me virar!

- Não. – proíbe ele – Eu tenho meus soldados para te proteger. Apenas os siga e fique longe dos confrontos.

- Você vai me deixar desarmado no meio de uma invasão?

Meneando negativamente a cabeça, o líder responde:

- Para você esta é sua Rebelião, mas aqui esta batalha é nossa. Nós somos a Frente Ateísta, senhor Nathan. Não seremos usados pelo Submundo.

Tomando a arma de sua mão, Dawkins dá as costas e continua seu caminho.

A facção continua avançando. Os policiais resistem, mas são derrotados pelo caminho. Os sobreviventes são levados para fora, capturados pelos facciosos. Então um ateísta se aproxima e diz:

- Senhor Dawkins, nós encontramos a sala do ministro.

- Ótimo. – alegra-se ele – Nos leva até lá.

Subindo as escadas, o rapaz nota que o combate aéreo se encerrara lá fora. Sons de fogos de artifício são ouvidos. Olhando pela janela, ele vê uma multidão ensandecida atear fogo na entrada do edifício. Nathan sabe do que se trata. Database convocara uma manifestação em frente ao ministério.

“Essas pessoas são escudo humano para os confrontos”, pensa ele. “Database as usa estrategicamente, arriscando suas vidas para o progresso da Rebelião”.

Lembrando-se do quão imoral era o mundo da superfície e das facções, o rapaz se enoja.

“São bandidos, eles são todos uns bandidos!”, pensa ele. Nathan sente desprezo ao reconhecer essa verdade.

Os ateístas se concentram em frente à sala do ministro. Um faccioso empunha um lança-mísseis e atira, explodindo a porta em centenas de pedaços. Enquanto a poeira se eleva, eles comemoram acaloradamente. Então algo acontece.

Inesperadamente dois Securitrons saem pela passagem. Ativando seus canhões de ombro e girando suas metralhadoras, os robôs atiram contra os invasores. Como bonecos de pano, os ateístas caem um a um, impiedosamente metralhados pelas balas. Atirando com seus canhões, os robôs lançam seus mísseis e eles se explodem nas paredes, pulverizando o andar.

Exasperado, o líder diz:

- Preparem os lança-mísseis! Vamos nos organizar!

No último momento, os ateístas sofriam pesadas baixas. Eles estava embriagados pela vitória fácil, sendo pegos desprevenidos pela última defesa corporativa.

A poeira abaixa e o rapaz vê dezenas de cadáveres pelo chão. Nenhum dos soldados resistiu ao ataque surpresa. Os sobreviventes corriam de um lado ao outro, atordoados pelas explosões. Então o líder diz:

- Jovem Nathan, você já atirou com um desse?

Dawkins lhe mostrava um moderno lança-mísseis. O rapaz responde:

- Não, senhor.

- Então hoje é seu dia de sorte. Mire naqueles robôs e atire!

O rapaz se confunde.

- O que aconteceu com aquela conversa de que as armas não são brinquedos e que seus soldados estão aqui para me proteger?

- Eles estão a caminho. – assegura ele – Agora atire, meu jovem! Por acaso você quer morrer aqui?

Outra explosão é ouvida, levantando uma nuvem de poeira. Os robôs avançavam pelos detritos e pelos soldados caídos. Nathan pergunta:

- E por que você não atira...?

Mas, ao olhar ao redor, o líder havia desaparecido.

O rapaz levanta a arma e a acha incrivelmente leve. Espiando por cima da mobília, ele vê os Securitrons atirando incessantemente pelo escritório. Esperando o tempo de resfriamento de suas armas, Nathan se levanta e empunha seu lança-mísseis no ombro. O visor se trava em seu alvo e atira, liberando toda a bateria de mísseis de seu compartimento.

O empuxo repentino o desequilibra e ele cai no chão. Os mísseis voam e então se explodem contra o Securitron, neutralizando-o e destruindo-o. O rapaz se levanta e comemora, feliz com seu sucesso. Mas ainda havia outro vindo em sua direção.

- Ei, garoto! Se abaixe!

Um ateísta o empurra e se deita sobre ele, protegendo-o das novas explosões. Ao final do impacto, o rapaz estava atordoado e coberto de poeira. O robô restante havia atirado contra eles.

Enquanto a poeira se abaixa, um homem aparece entre os detritos e, empunhando outro lança-mísseis, atira contra o inexorável robô. Os mísseis são disparados sequencialmente e se explodem contra o inimigo, despedaçando-o e tombando-o em meio a descargas elétricas. Então o homem gargalha.

A poeira se dissipa e o rapaz consegue vê-lo. Aquele homem era Dawkins.

- Senhor Dawkins! – alegra-se ele – Eu pensei que tivesse me abandonado!

O líder sorri e responde:

- Quem você pensa que eu sou? O seu deus?

Finado o confronto, o rapaz pensa no que aconteceu. A batalha pelo ministério já estava vencida, mas os policiais lançaram um último ataque desesperado para protege-lo. Os Securitrons não iam vencer o confronto, mas dificultariam a vitória inimiga. De maneira heroica, eles apenas adiavam o inevitável fim.

Invadindo a sala do ministro, eles o encontram sentado tranquilamente à sua mesa. Sem mais esperanças de sair vivo dali, ele aproveitava seu último momento para tomar seu uísque.

Os ateístas avançam com seus fuzis apontados para ele. O ministro diz:

- Boa noite, senhores.

O líder responde:

- Ministro Sócrates.

- Se vão me matar, me deixem tomar meu uísque antes.

Dawkins levanta o braço e pede para todos abaixarem suas armas.

- Tenho algumas perguntas antes.

- Para mim?! – intriga-se ele – E que importância tem esse ministério para sua facção?

- Muita. – esclarece ele – Mais do que imagina.

- Pois, sente-se então! – responde ele, indicando uma poltrona – O senhor quer um uísque?

O ministro pega um copo e o serve.

- Sem gelo, por favor.

- Ora, para que mais gelo nesse coração gelado, não? – brinca ele.

Como um paspalho no meio de uma situação séria, o rapaz ri. Imediatamente os ateístas olham para ele, fazendo-o segurar o riso.

- Você deve ser o Nathan, não? O famoso Inimigo de Estado?

Um pouco sem jeito, ele responde:

- Sim.

- Eu te vi não prisão, sabia? Eu estava lá quando o ministro Galileu o interrogava. – bebendo seu uísque, ele pergunta – Me diga uma coisa, Inimigo de Estado. O que aconteceu com o meu amigo?

O rapaz lamenta.

- Ele está morto. Foi decapitado pelos samurais da Bushido.

Ao ouvi-lo, o ministro assente com a cabeça. Friamente ele reconhece que não havia esperança para ele.

Dawkins pergunta:

- Ministro Sócrates, recentemente foi revelado sobre o Protótipo #8, o Projeto Gemini e os arquivos ultrassecretos do Ministério da Informação. As corporações conspiravam contra o povo, inclusive sujeitando-o ao genocídio. O senhor tinha conivência com isso?

- E isso importa? – responde ele, desafiante – Está vendo estes soldados? Eu sou um soldado também, mas das corporações. Estamos em lados opostas de uma guerra, nada mais.

Em silêncio, Nathan acha admirável sua resposta.

- Se não fosse pelo Inimigo de Estado, nós morreríamos por envenenamento, banimento ou pior. Sabendo de tamanha atrocidade, como pôde continuar defendendo o regime?

- Atrocidade...?! – ironiza ele – Olhe ao redor, senhor Dawkins. Meus policiais e seguranças estão mortos aqui! Muitos eram inocentes, inclusive pais de família que, infelizmente, não voltarão para casa hoje à noite.   

Sócrates tentava apelar para o lado emocional. O rapaz desconfia, pois muitos que combatiam eram mercenários inescrupulosos que se interessavam apenas pelo dinheiro.

- As suas propagandas se espalharam por toda a metrópole, consolidando o regime e ocultando a corporação fundadora, Sonata. Diga-me: como conseguiu controlar a população por tanto tempo?

O ministro põe sua mão sob a mesa. Os ateístas se alertam e apontam suas armas. Acalmando-os, Sócrates abre sua gaveta e revela um pequeno estojo de charutos. Com um isqueiro, ele o acende e começa a fumar. O rapaz percebe que uísque e charutos eram hábitos comuns entre os poderosos, um vício elegante por assim dizer.

- E como o senhor controla a população do seu distrito, senhor Dawkins? Por acaso essas armas apontadas para o meu rosto são de brinquedo?

Então o líder entende. Aquele ministério propagava o medo.

- Isso não é o bastante. Se o governo tivesse mais armas, vocês estariam vencendo a Rebelião.  

Expelindo fumaça, o ministro responde:

- É como Sun Tzu disse: “a suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar”. Se não fosse o Inimigo de Estado, nosso governo duraria um milênio.

“Genial!”, pensa Nathan.

Mudando de assunto, Dawkins pergunta:

- O senhor promovia o ateísmo e o Estado antirreligioso em seu ministério?

Sócrates se encosta em sua poltrona. 

- Em nossa sociedade materialista apenas um deus deve existir, o "panteão" corporativo. É para a segurança de todos. Mesmo o Sócrates, do qual eu empresto o nome, foi acusado de corromper a juventude e de propagar o ateísmo. Apesar de serem falsas as acusações, foi o suficiente para desestabilizar a ordem e causar um clamor em Atenas. Não queremos dar a liberdade religiosa ao povo, porque o povo adorará aos seus deuses e deixarão de obedecer a nós, seus verdadeiros governantes.

O líder sorri, parecendo se alegrar com sua resposta.

- Então as propagandas criadas neste ministério serviam apenas para a manutenção do regime? Não correspondiam, muitas vezes, com a própria verdade? – o líder se referia às frases induzindo o povo à obediência, ao consumo e ao trabalho.

Sócrates sorri.

- Ora, mas que pergunta mais ingênua! Por acaso o senhor exporia as fragilidades de sua facção?

- Mas o senhor espalhou mentiras pela metrópole, enganando o povo e fazendo-os acreditar que vocês mantinham o poder absoluto, que o banimento era uma lenda urbana e que a vida no exterior não existia. E recentemente descobrimos que nos infectavam pela água e pelos alimentos. O senhor não sente vergonha?

Meneando negativamente a cabeça, Sócrates responde:

- Quando se quer vender algo, a propaganda é a alma do negócio. Nós demos ao povo exatamente o que ele queria ouvir; que as corporações tinham tudo sob controle. Havia ditadura, mas havia fartura. Havia autoritarismo, mas havia ordem. Havia opressão, mas havia trabalho. Ninguém passava necessidades, a não ser, é claro, esses marginais da superfície.

- O senhor vendia uma mentira.

- Como disse Joseph Goebbels: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Antes da Rebelião, alguém ousava questionar as corporações?

Sócrates citava o ministro da propaganda nazista. De fato, as corporações aprenderam bem com o totalitarismo.

- Então o Ministério da Propaganda era uma ferramenta de controle, uma coerção social?

- É uma metrópole populosa, senhor Dawkins. O senhor poderia controla-la com um efetivo correspondente a um décimo de sua população?

Colocando a mão no queixo, o líder se silencia, parecendo pensar um pouco. Passado um minuto, ele finalmente diz:

- Certo. Podem leva-lo.

O ministro se confunde. Colocando as mãos sobre a mesa, ele pergunta:

- Espere um pouco. Vocês não vão me matar?

Desta vez é Dawkins quem bebe o uísque, apreciando-o em seguida.

- Não.

- O que vocês vão fazer então?

- Nós temos outros planos.  

Lembrando-se de Galileu, o ministro teme por sua integridade física.

- Que tipo de planos?

- Não se preocupe. O senhor não está falando com nenhum selvagem dos tempos feudais aqui. – olhando para seus soldados, o líder ordena – Podem leva-lo.

Então os ateístas o seguram pelos braços e o levam dali. Nathan vê tudo aquilo e também se confunde, se perguntando o que acontecerá a seguir.

Ao pegarem espólios da luxuosa sala de Sócrates, os facciosos deixam o lugar. Dawkins se aproxima e diz:

- Hora de ir.

Enquanto sobe as escadas, o rapaz se enche de perguntas. Distraído, ele não percebe que os ateístas olhavam afoitos para ele.

No terraço, os facciosos tripulavam as aeronaves e se preparavam para ir embora. O líder o espera ao lado de uma aeronave. Novamente sem sua eloquência, ele diz:

- Você está cheio de dúvidas, não é? Lembra-se que eu disse ter muita coisa em comum com os soviéticos?

Com um pouco de frio, o rapaz responde:

- Sim.

- O que você chama de Rebelião, eu chamo de Revolução. Não há método mais eficiente de arregimentar o povo do que convencê-lo de que o antigo regime é pior do que se aventurar na instauração de um novo. E que melhor método do que a propaganda?

Intrigado, Nathan pergunta:

- O que quer dizer?

- Como o pai da Revolução, Vladimir Lênin, disse: “usaremos o idiota útil na linha de frente. Incitaremos o ódio de classes. Destruiremos sua base moral, a família e a espiritualidade. Comerão as migalhas que caírem de nossas mesas. O Estado será Deus”.

Nathan se horroriza.

- Está querendo transformar o povo em uma classe odiosa, uns “idiotas úteis”?

Apontando para as plataformas abaixo, ele responde:

- Eles já odeiam seus governantes, mas não os nobres ou os burgueses dos tempos czaristas, mas as corporações.

Então o rapaz ouve o vandalismo e os rojões se estourando lá embaixo.

- Logo o senhor falando em fundar um Estado na figura de Deus.

- Talvez o profeta John August esteja certo e a humanidade tenha a necessidade de adorar algo. Eu os darei algo para adorar; o Estado fundado por nós, a Frente Ateísta.

- Então é isso? O senhor quer fundar um Estado ateísta nos moldes leninistas?

- Por que a surpresa? Não é nenhum absurdo o que pretendo. Mesmo Einstein elogiou Lênin.

O líder se referia à famosa citação de Einstein em 1925, dizendo: “eu honro a Lênin como um homem que se sacrificou completamente e devotou toda sua energia à realização da justiça social. Eu não considero seus métodos praticáveis, mas uma coisa é certa: homens de seu tipo são os guardiões e restauradores da consciência humana”.

O rapaz insiste.

- Dawkins, a História mostrou que o socialismo não dá certo. Milhões morreram.

- Oh, eu não sou um socialista! – ri ele – Eu sou um ateísta, senhor Nathan! Um autêntico homem de ciência! O que tenho em comum com esses homens é o ateísmo, e sua forma mais moderada, o agnosticismo. Maynard Keynes, Milton Friedman e Friedrich Hayek eram todos agnósticos. Mesmo Adam Smith foi acusado de agnosticismo um dia. E eles eram todos economistas liberais.

Com muita desconfiança o rapaz finge entender. 

As aeronaves fecham suas portas e começam a partir. Dawkins e um punhado de ateístas ficam para trás, confundindo-o. Então os soldado o cercam e o líder diz:

- Vamos, Nathan. Vamos conversar um pouco.

 

 

 

 

 

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