(Arte de Max Hay)
Sentados em uma plataforma entre os prédios, Nathan e Laura bebem refrigerante. As tubulações ao redor soltam vapor e deixam o ambiente úmido. O barulho das ruas lá embaixo irrita seus ouvidos, mas eles não se importam. De fato, aquele era o mesmo lugar onde Laura o acusou de cometer um atentado terrorista dias atrás.
Diferente daquele
dia, hoje os dois não se acusavam. Desta vez eles conversavam
tranquilamente.
- Obrigado por
vir, Laura. Eu te compraria um presente, mas as lojas lá em cima estão todas
fechadas devido a Rebelião.
A garota
responde:
- Eu entendo. As
corporações foram as responsáveis por tudo isso.
O rapaz se
lamenta.
- Gostaria de não
ter de me tornar o Inimigo de Estado para ter te conhecido.
Ao ouvi-lo, a
garota pergunta:
- Como é ser o
Inimigo de Estado?
O rapaz levanta
as mãos, confuso.
- É estranho.
Nunca entendi por que fazem do Inimigo de Estado um herói suburbano, mas o povo
precisa dele, depositando nele todas as suas esperanças de libertação. E eles
me motivam a continuar lutando. -explica ele - E, você? Como é ser a melhor dos runners?
- As
pessoas veem apenas a emoção de ser uma runner, mas não veem o limo escorregadio
de um parapeito ou os ralados nos braços e nos joelhos...
A garota tinha
músculos torneados em seus braços e coxas. Ele pensa que aquilo pode ser o
efeito de anabolizantes. Um pouco indiscreto, ele pergunta:
- Você já usou
drogas?
Laura sorri.
- O quê?!
- Eu quero
dizer... – corrige-se ele, coçando a nuca – Você já usou entorpecentes ou coisa assim?
- Eu já usei
estimulantes para o condicionamento físico, mas nunca usei entorpecentes. –
esclarece ela – E você?
Laura pergunta, mas
já desconfia da resposta. O inocente Nathan nunca usou ou sequer viu drogas na
sua frente.
- Não. Na verdade
a primeira vez que eu vi isso foi aqui. – responde ele, referindo-se à
superfície – Mas eu costumava beber com os amigos antigamente.
- Então você
gosta de bebidas alcóolicas?
- Não. Eu não
suporto o efeito da embriaguez. A tontura me irrita. Por isso prefiro os
refrigerantes. – e então ele ergue sua latinha.
A garota sorri.
Lembrando-se de seu pai, ela gostaria que ele fosse assim também.
- Mas você nunca
ficou bêbado na vida?
- Ah, sim! Uma
vez fiquei tão bêbado que vomitei no orfanato inteiro. – ri ele.
- Orfanato? –
pergunta ela – Nathan, como os seus pais morreram?
- Foi em uma
operação policial. Meu pai fazia espionagem para a superfície e acabou morto na
operação.
- Sua mãe também
se envolvia com a superfície?
- Não. – responde
ele – Ela era inocente.
Laura se
consterna.
- Lamento.
O rapaz conhece a
história de Laura. Ele sabe sobre Ultra e sua incansável busca por sua mãe. Sem
querer ele reconhece que os dois eram órfãos, mas de jeitos diferentes e unidos pelo
destino.
Database liga
para Nathan. O rapaz ignora.
- Eu também
lamento o desaparecimento de Ultra. - diz ele - Seria uma honra poder conhece-la pessoalmente.
Mas pelo menos eu conheço sua filha, da qual eu amo incondicionalmente e para
sempre.
Nathan a abraça e
beija sua cabeça. Envergonhada, a garota o abraça também.
Database liga
novamente. O rapaz olha para seu celular e novamente o ignora.
- Laura, me
desculpe por perguntar, mas por que você mudou tanto?
Ela se confude.
- Como assim?
- Há poucos dias
você tinha o maior desprezo por mim e de repente você mudou. Aconteceu alguma
coisa?
Assim como
Nathan, a Rebelião também ensinou à Laura coisas sobre si mesma. Conhece-lo foi
mais um passo para se identificar com sua mãe. A garota não admitia, mas assim
como Ultra, elas se atraíam por homens pacatos e fracos.
Não querendo
desaponta-lo com essas palavras, ela simplesmente responde:
- Se minha mãe
estivesse aqui, ela ia gostar que ficássemos juntos.
Então o rapaz
sorri.
Um minuto se
passa. Segurando a mão da garota, Nathan diz:
- Laura, me
desculpe por ter cometido aquele atentado terrorista.
A garota demora
um pouco para se lembrar.
- Está falando do
hospital que você explodiu com os clérigos?
- Sim.
Laura era uma
mulher fria e implacável. Ela já matou dezenas de pessoas em sua vida. Todavia ela considerava o terrorismo um ato covarde do qual ela jamais praticaria.
- Tudo bem. Eu te desculpo. Isso é passado agora.
Apesar das poucas
palavras, a garota sabe que eles estão no meio de uma Rebelião. Muita coisa
ruim pode acontecer quando a violência se torna a única linguagem que a
sociedade entende.
De repente alguém
aparece no terraço. Olhando para o lado, o rapaz vê três
seguranças acompanhando Database.
Com olhar sério, o chefe diz:
- Nathan, me
desculpe por interrompê-los, mas eu estou tentando falar com você e não estou conseguindo.
O rapaz olha para
seu aparelho e, de fato, haviam várias chamadas de seu chefe.
- Algum problema, Database?
- Sim. Preciso
que você venha comigo.
Incomodado, ele
olha para a garota. Ela, porém, se levanta e diz:
- Não tem
problema. Eu precisava mesmo ir ver meu pai. Até mais, Nathan.
Em seguida ela beija sua boca. Database e os seguranças se espantam. Em todos esses anos na
superfície, eles jamais viram a runner se apaixonar por alguém.
O rapaz, por
outro lado, sente como se estivesse no céu, apesar de estar no nível mais baixo
da metrópole.
- Me acompanhe,
por favor.
Escoltando-o ao Submundo, eles entram em sua sala e o chefe fecha a porta. Ligando
seus monitores, Database lhe mostra algumas imagens.
- Nathan, nossos
hackers identificaram o envio desses e-mails para o seu computador. O que não
sabemos é como o remetente fez isso, pois sua conta é conhecida apenas para nós
e as facções.
O rapaz vê apenas
textos ininteligíveis na tela. Intrigado, ele pergunta:
- Essas mensagens são criptografadas?
Com semblante
sério, ele responde:
- Exato.
Revelando as
imagens, o rapaz vê fotos grotescas de Vertigo morto, caído entre alguns potes
de vidro. Para o seu horror, havia um buraco de bala horrível em sua cabeça.
Com aquela sanguinolência toda, o rapaz desvia o olhar.
- Isso não é
tudo. Veja.
Sobre as fotos,
uma mensagem aparece. Ele lê:
“Inimigo de
Estado, você é o próximo”.
Com a ameaça, o
rapaz treme.
- Database, quem
foi que mandou isso?
- Não sabemos.
Desconfio que o autor tenha acesso a informações secretas, concedidas pelas
próprias corporações. – respirando fundo, ele conclui – Temo que elas tenham
enviado um especialista, um tipo mais arrojado de assassino, exclusivamente
para te matar.
Então Nathan
arregala os olhos.
- Eu devo me
esconder e não participar mais da Rebelião?
- Não. Esse
assassino não te pegaria lá em cima. Ele quer acabar com o problema pela raiz.
– fazendo outra pausa, ele conclui – Desconfio que ele virá te pegar aqui.
O rapaz treme
novamente.
- Mas chefe,
estamos em um local altamente protegido. Você acha que o assassino seria ousado
o bastante para nos atacar aqui embaixo?
Meneando
negativamente a cabeça, Database responde:
- Você não me
entendeu. Estamos falando de um especialista. Com informações privilegiadas e
abundantes recursos, ele o encontraria onde estivesse. Ele já pode estar aqui,
na verdade.
Database insinua que todos ali podem ser suspeitos.
Sentando-se no
sofá, Nathan enxuga o suor de sua testa.
- O que eu devo
fazer então, chefe?
Database nota
como o rapaz implorava por uma esperança. Ele sorri por dentro, esperando o
momento certo de arranca-la impiedosamente.
- Não há o que
fazer.
- O quê?! –
exclama ele.
- Não há como fugir de
um caçador obstinado e experiente.
O rapaz não
consegue acreditar no que ouve. Ao finalmente conquistar Laura, a expectativa
da morte vem e lhe assombra.
- O Submundo vai
me deixar morrer?!
- Não,
exatamente.
Ele se intriga.
- O que quer
dizer?
- O especialista
tem apenas uma fraqueza: o ataque. No ataque ele se revela. No planejamento,
ele se esconde. Infelizmente para a vítima, quando o ataque vier será tarde
demais.
Nathan se
espanta.
- Esta é sua
fraqueza?!
Sentando-se em
sua poltrona, o chefe fuma seu charuto. Observando o desespero do rapaz, ele
diz:
- Resista ao
terror psicológico, Nathan. Essa é sua arma. Quando o assassino vier ao ataque,
nós estaremos lá.
O rapaz não consegue
deixar de se sentir vulnerável na situação.
- Mas,
Database...
- Dispensado.
§
Duas noites se
passam. O rapaz permanece trancado em seu quarto. Ele não falou mais com Laura,
ele não quis preocupa-la.
“Como se ela
temesse alguma coisa...”, pensa ele.
O Submundo está
em estado de alerta, porém ele acha muito estranho que os corredores estejam
tão vazios. Database está ausente, ele foi ao Mystique resolver assuntos
pessoais, provavelmente o contrabando ilegal e o comércio de entorpecentes.
De repente Nathan
ouve o som de vazamento. Intrigado, ele olha para cima e vê a grade do ar
condicionado. Não havia nada de anormal. O som fica mais alto e, ao olhar
novamente, um gás esverdeado invadia seu quarto.
- Gás! – exclama ele.
Database lhe envia uma mensagem em seu celular. Nela dizia: “fuja!”
Apavorado, o
rapaz abre a porta e corre pelo Submundo.
Uma sirene toca. Percorrendo
o local, ele o encontra estranhamente vazio. Sem conseguir evitar, um medo sinistro toma sua mente. Então uma voz no alto-falante diz:
“Segurança
comprometida! Deixem o local imediatamente!”.
O gás parece
colorir a vista. Olhando para as salas e os corredores, o rapaz vê aquele tom
esverdeado em toda parte. Ao inala-lo, o efeito o desestabiliza e ele começa a tossir.
A escada para a
saída se aproxima. Ao subi-la, ele irrompe pela porta, caindo no escuro beco. Prestes a sucumbir sob o efeito do gás, ele se arrasta pelo chão,
não se importando com a sujeira. Aerocarros atravessam os estreitos espaços
entre as megatorres. Preocupado, o rapaz se pergunta onde estavam os runners.
Pessoas desconhecidas
correm pelos terraços. Elas vestem capuzes pretos e portam rifles de assalto. Encontrando
o rapaz, eles apontam suas armas e atiram, fazendo Nathan correr sob o
ricocheteio das balas.
Avançando pelo beco, ele se espanta ao ver a saída obstruída com uma pilha de lixo. Só havia uma saída restante, uma sinuosa passagem à sua esquerda.
Correndo pelos detritos, ele se
agarra a uma tela de arame e tenta não desmaiar, ele estava zonzo e precisava recuperar o fôlego. Os encapuzados se aproximam. Vendo uma porta aberta, ele encontra um salão abandonado. Sem pensar duas
vezes, o rapaz entra para escapar da chuva de balas.
Pisando sobre o
entulho, o rapaz corre pelo escuro ambiente. Havia uma escada velha e
enferrujada ao longe. Olhando para trás, ele ouve os atiradores se aproximando.
Atravessando o salão, ele sobe as escadas e alcança o telhado. Nathan descobre
que estava se afastando cada vez mais das partes iluminadas e povoadas da
superfície. Sem tempo a perder, ele continua seu caminho.
Tiros são disparados
ao longe. Finalmente os runners haviam chegado e agora trocavam tiros com os
invasores. O rapaz se alivia.
Distraído,
ele não percebe a presença de objetos azulados e metálicos no telhado. Ao pisar
neles, uma onda de choque se levanta e eletrocuta seu corpo, fazendo-o gritar. Uma
voz familiar diz:
- Peguei!
Imobilizado no
chão, o rapaz luta para não perder a consciência. Um homem de sobretudo se
aproxima e para ao seu lado. O desconhecido pisa em seu peito, fazendo-o
acordar.
- Boa noite,
Nathan. Lembra-se de mim?
Aerocarros
sobrevoam ao redor com holofotes acoplados em suas latarias, iluminando o escuro fosso. O rapaz enxerga o homem acima e, em prantos, sussurra:
- Detetive
Burton...?!
O detetive sorri.
Nathan se lembra
daquele psicótico policial. Foi ele que mobilizou um batalhão inteiro para capturar o
rapaz em Blue Giant, o distrito dos robôs.
- Eu estive te
procurando, sabia? Infelizmente eu não pude captura-lo na superfície da Cúpula
Corporativa. Os ateístas chegaram antes.
O rapaz se lembra
daquele dia. Intrigado, ele não se lembra de ter visto Burton em lugar algum.
- Você estava lá?
Burton continua:
- E seu amigo
Vertigo me ajudou também, se é que posso chama-lo assim. O traidor não se
importava com você; ele era só mais um que te usava em seus próprios interesses. Se você
não for tão burro quanto eu penso, creio que já percebeu isso.
- Então foi você que
matou o Vertigo, não foi?
- Eu te fiz um
favor. Ele te usou, então eu o usei para chegar até você.
Nathan se espanta
como o detetive sabia tanto a seu respeito.
- Durante todo
esse tempo você esteve por perto...
- Ah, sim...! – anima-se
ele – Acredite, garoto. Eu estava mais perto do que imagina.
Mais policiais se
aproximam. Com olhares furiosos, eles lhe apontam suas armas.
- O que vocês vão
fazer comigo?
- Vamos
captura-lo e leva-lo às autoridades.
O rapaz sorri.
- Autoridades?! Nós já destruímos tudo pelo caminho. De que autoridade você está falando?
- As corporações,
é claro. Mas primeiro, nós vamos nos divertir um pouco.
O rapaz sente
medo.
- Do que está
falando?
Então Burton chuta suas costelas, fazendo-o se contorcer de dor.
- Isso é por
fugir de Blue Giant! – ele chuta novamente – Isso é pelo Ministro Arquimedes! –
ele dá outro chute – E isso é pelo Ministério de Segurança Pública! – mais um
chute – E isso pelo Ministério da Informação!
O detetive continua
chutando e pisoteando-o. Ele se vinga por cada dano causado em Sonata.
O rapaz suspira e
ofega de dor. Sangue se escorre de sua boca e nariz. Vendo as feridas se
abrirem em seu rosto, os policiais são obrigados a intervir.
- Detetive
Burton, já chega!
O irascível Burton
responde:
- Por acaso vocês se
esqueceram das centenas de policiais mortos na Rebelião? Se esqueceram quem
é o culpado?
Então os próprios
policias se irritam, olhando furiosos para Nathan. Com seus cassetetes e suas botas, os policiais espancam o rapaz no chão. Ele tenta se defender,
mas tem seu corpo pisoteado por todos os lados.
Ocupados espancando
o rapaz, eles não percebem a aproximação de um objeto redondo atrás deles. Ao tocar
o pé de um policial, ele olha para trás e o reconhece. Ele exclama:
- É uma bomba!
O grupo se
intriga e então ela se explode no telhado. Burton consegue
se proteger, mas seus companheiros caem feridos com
estilhaços perfurando seus corpos. Em horror ele reconhece os danos, tratava-se
de uma granada de pregos.
Os policiais
agonizam no chão. A bomba foi projetada como uma arma não-letal, indicada para
a neutralização do inimigo e não seu extermínio. Burton se assusta e se arrasta pelo
telhado, procurando por sua arma. Então alguém aparece.
Vestindo um
casaco marrom, uma calça jeans e um tênis oitentista, um homem com uma escopeta se aproxima. Nathan o reconhece. Sorrindo com seus dentes encharcados
de sangue, ele sussurra:
- Maynard...!
O detetive se
intriga.
- O que você disse,
rapaz?!
Um policial
ferido tenta atacar o mercenário. Sem olha-lo nos olhos, Maynard aponta sua arma e atira em seu peito, terminando sua vida. Recarregando-a,
ele responde:
- O rapaz disse
Maynard.
Nathan sorri
novamente.
- Então você é o lendário
mercenário Maynard que todos falam? Famoso por espalhar o caos pela cidade e nunca ser pego?
Sem demonstrar reação, o mercenário responde:
- Deve ser um
outro Maynard.
- Oh, mas não é! –
desmente ele – Eu li seus arquivos. Sabotagem da torre de transmissão da
Cybersys, extração do Inimigo de Estado de uma prisão de segurança máxima,
confronto a mão armada com a polícia e com as facções... – lista ele – Por
que será que sempre quando há desordem você está envolvido?
Ainda sério, ele diz:
- Deve ser uma coincidência.
- Ora, você só
sabe dizer isso?!
Nathan tem
vontade de gargalhar, mas a cada riso suas costelas doem.
- Eu vim levar o
rapaz. Sugiro que você se afaste.
O detetive ri em
desprezo.
- Eu não tenho
medo de você!
- Mas deveria.
Então os dois se
encaram ferozmente. O tempo parece se desacelerar.
A fama de Burton
o precede, ele era o policial mais eficiente na caça aos terroristas. A fama de
Maynard também; ele era uma lenda viva. Naquele momento, o rapaz testemunhava o
duelo de gigantes.
Burton saca sua
arma e atira. O escudo do mercenário se ativa e ele se prepara para atirar de
volta. O detetive lança granadas sobre o telhado e se abaixa. As bombas se
explodem e o telhado cede, derrubando os três lá embaixo.
O detetive tenta
fugir para reagrupar-se com os policiais e replanejar sua estratégia. Maynard atira
nele, fazendo os projéteis soltarem faíscas pelas paredes. Burton corre pelos
becos e alcança uma escada de incêndio. Ao subi-la, ele se encontra novamente
nos terraços dos prédios decrépitos. Ele corre e pula
pelos terraços, ignorando a altura.
Burton recarrega
sua arma, ele tinha apenas uma pistola automática. O mercenário se aproxima,
portando sua poderosa escopeta. Se o detetive não se reagrupar, ele estará em
séria desvantagem.
Maynard chega ao
terraço. Pegando um radar detector de batidas cardíacas, ele caminha pelo
local. Ao longe, os policiais e os runners se digladiavam. Devido ao tiroteio,
ele tinha que se cuidar para não ser atingido por uma bala perdida.
O detector
indicava que havia alguém três terraços a frente. Avançando, ele se depara com
uma caixa d’água vazia. Apontando sua arma, ele atira contra a madeira, fazendo-a se estraçalhar. Um gato mia e foge pela noite, assustado com o tiro.
“Era apenas um
gato”, pensa ele.
Felizmente o gato
não se feriu.
- Ei, mercenário!
Maynard se vira e
é atingido por uma paulada nas costas, fazendo-o se contorcer de dor. Burton
bate novamente e o mercenário cai, soltando sua arma. O detetive olha para
ele, sorrindo.
- Por acaso pensa
que eu sou algum imbecil? – pergunta ele – Eu sei tudo sobre você, agente
Maynard. Você tem muitos recursos, mas nunca espera um combate desarmado.
O mercenário
tenta pegar sua arma, mas o detetive a chuta para longe.
- As corporações me
pediram o Inimigo de Estado vivo. Felizmente eles não falaram nada sobre você.
Burton saca sua
arma e se prepara para executá-lo. De repente o mercenário lhe dá uma rasteira e
ele cai, fazendo a arma disparar acidentalmente.
- Você está
errado, detetive Burton. Eu sempre espero tudo.
Levantando a manga de sua jaqueta, Maynard revela uma enorme lâmina embutida ao redor de seu antebraço. Deslizando-a para cima, o mercenário a crava na perna de Burton, fazendo-o gritar. O detetive se defende chutando seu rosto. Atordoado, Maynard cai de costas.
Burton pega sua
arma e se vira, pronto para atirar. O mercenário, por sua vez, havia sumido.
Mancando pelo
terraço, o detetive estanca o sangramento com a mão. Burton já havia
perdido uma perna durante o ataque terrorista da Bushido. Com a outra perna
ferida, ele temia se tornar um ciborgue estabanado.
“Isso se eu sair
vivo daqui”, pensa ele.
Então Maynard se
levanta e atira com sua escopeta. O detetive se abaixa e se protege atrás de um
parapeito. Os dois trocam tiros arrastando-se pelo terraço. Eles se escondem atrás de obstáculos até encontrar um
ponto de vantagem.
O detector de
Maynard se confunde, há muito barulho ali. Arrastando-se aleatoriamente, ele
ouve alguém atrás dele e, ao se virar, toma um tiro no peito.
- Hah! – alegra-se
ele – Você não sabe lutar sem seus brinquedos, não é?! Você é uma fraude!
O escudo não se
ativou adequadamente. A bala atinge o mercenário e ele segura a ferida, sujando sua mão de sangue.
O detetive se
aproxima exultante. Apontando sua arma, ele diz:
- Nem tente me
derrubar. Eu conheço seus truques.
Encolhido sobre o
chão, Maynard responde:
- Conheça mais
esse.
Abrindo sua mão
ensanguentada, ele lhe revela um minúsculo detonador. O detetive se confunde.
Ao pressiona-lo, uma sequência de explosões se aproximam e então atingem
Burton, lançando-o pelos ares.
Ao cair, Burton
vê suas roupas queimadas pela explosão. Ele entende o que aconteceu. Maynard lançou
minúsculas bombas pelo terraço, deixando-as em seu percurso para prevenir que
fosse atacado pelas costas.
Burton se
repreende por dentro. Em seus dois ataques ele previu seu adversário, e nos
dois ele estava errado. O detector não estava funcionando, então o mercenário teve que se adaptar.
“Genial”, reconhece
ele. “Simples, porém genial...”.
Maynard se
levanta e se aproxima com sua escopeta. O detetive diz:
- Você é esperto,
mercenário... Mas não é só você que tem truques debaixo da manga.
Ele se intriga.
- O que quer
dizer?
- Por acaso não se
perguntou por que os policiais não apareceram aqui?
O mercenário não responde.
Ele estimou que Burton não os tivesse alcançado a tempo.
O detetive
continua:
- As corporações não
querem apenas o Inimigo de Estado, elas querem acabar com a Rebelião. Para isso, eles querem erradicar toda a sua rede de operação na superfície.
- Rede de operação?
- Você foi
inesperado, Maynard. Não contei que você se envolvesse com uns marginais desse nível
– cheio de desprezo, ele se referia à superfície – Mas eu devo te dizer uma coisa... Esta operação ainda não terminou!
Um poderoso
estrondo é ouvido, estremecendo todo o quarteirão. Assustado, o mercenário olha
para o lado e vê uma enorme labareda se levantando na direção da rua. Maynard reconhece
o local, ali ficava o Mystique. Em seguida aparecem dezenas de viaturas
policiais com as sirenes ligadas e colorindo o ambiente.
Maynard finalmente
percebe. Ele estava no meio de uma invasão.
Burton ri.
- Se você quiser salvar esses viciados e vagabundos, sugiro que comece a correr.
O mercenário
pondera.
- Não. – responde
ele – Primeiro você vem comigo.
Então ele o agarra pelas roupas e o leva dali.