segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Sonata - 59 - Mystique


(Arte de Max Hay)


Sentados em uma plataforma entre os prédios, Nathan e Laura bebem refrigerante. As tubulações ao redor soltam vapor e deixam o ambiente úmido. O barulho das ruas lá embaixo irrita seus ouvidos, mas eles não se importam. De fato, aquele era o mesmo lugar onde Laura o acusou de cometer um atentado terrorista dias atrás.

Diferente daquele dia, hoje os dois não se acusavam. Desta vez eles conversavam tranquilamente.

- Obrigado por vir, Laura. Eu te compraria um presente, mas as lojas lá em cima estão todas fechadas devido a Rebelião.

A garota responde:

- Eu entendo. As corporações foram as responsáveis por tudo isso.

O rapaz se lamenta.

- Gostaria de não ter de me tornar o Inimigo de Estado para ter te conhecido. 

Ao ouvi-lo, a garota pergunta:

- Como é ser o Inimigo de Estado?  

O rapaz levanta as mãos, confuso.

- É estranho. Nunca entendi por que fazem do Inimigo de Estado um herói suburbano, mas o povo precisa dele, depositando nele todas as suas esperanças de libertação. E eles me motivam a continuar lutando. -explica ele - E, você? Como é ser a melhor dos runners?

  - As pessoas veem apenas a emoção de ser uma runner, mas não veem o limo escorregadio de um parapeito ou os ralados nos braços e nos joelhos...

A garota tinha músculos torneados em seus braços e coxas. Ele pensa que aquilo pode ser o efeito de anabolizantes. Um pouco indiscreto, ele pergunta:

- Você já usou drogas?

Laura sorri.

- O quê?!

- Eu quero dizer... – corrige-se ele, coçando a nuca – Você já usou entorpecentes ou coisa assim?

- Eu já usei estimulantes para o condicionamento físico, mas nunca usei entorpecentes. – esclarece ela – E você?

Laura pergunta, mas já desconfia da resposta. O inocente Nathan nunca usou ou sequer viu drogas na sua frente.

- Não. Na verdade a primeira vez que eu vi isso foi aqui. – responde ele, referindo-se à superfície – Mas eu costumava beber com os amigos antigamente.

- Então você gosta de bebidas alcóolicas?

- Não. Eu não suporto o efeito da embriaguez. A tontura me irrita. Por isso prefiro os refrigerantes. – e então ele ergue sua latinha.

A garota sorri. Lembrando-se de seu pai, ela gostaria que ele fosse assim também.

- Mas você nunca ficou bêbado na vida?

- Ah, sim! Uma vez fiquei tão bêbado que vomitei no orfanato inteiro. – ri ele.

- Orfanato? – pergunta ela – Nathan, como os seus pais morreram?

- Foi em uma operação policial. Meu pai fazia espionagem para a superfície e acabou morto na operação.

- Sua mãe também se envolvia com a superfície?

- Não. – responde ele – Ela era inocente.

Laura se consterna.

- Lamento.

O rapaz conhece a história de Laura. Ele sabe sobre Ultra e sua incansável busca por sua mãe. Sem querer ele reconhece que os dois eram órfãos, mas de jeitos diferentes e unidos pelo destino.

Database liga para Nathan. O rapaz ignora.

- Eu também lamento o desaparecimento de Ultra. - diz ele - Seria uma honra poder conhece-la pessoalmente. Mas pelo menos eu conheço sua filha, da qual eu amo incondicionalmente e para sempre.

Nathan a abraça e beija sua cabeça. Envergonhada, a garota o abraça também.

Database liga novamente. O rapaz olha para seu celular e novamente o ignora.

- Laura, me desculpe por perguntar, mas por que você mudou tanto?

Ela se confude.

- Como assim?

- Há poucos dias você tinha o maior desprezo por mim e de repente você mudou. Aconteceu alguma coisa?

Assim como Nathan, a Rebelião também ensinou à Laura coisas sobre si mesma. Conhece-lo foi mais um passo para se identificar com sua mãe. A garota não admitia, mas assim como Ultra, elas se atraíam por homens pacatos e fracos.

Não querendo desaponta-lo com essas palavras, ela simplesmente responde:

- Se minha mãe estivesse aqui, ela ia gostar que ficássemos juntos. 

Então o rapaz sorri.

Um minuto se passa. Segurando a mão da garota, Nathan diz:

- Laura, me desculpe por ter cometido aquele atentado terrorista.

A garota demora um pouco para se lembrar.

- Está falando do hospital que você explodiu com os clérigos?

- Sim.

Laura era uma mulher fria e implacável. Ela já matou dezenas de pessoas em sua vida. Todavia ela considerava o terrorismo um ato covarde do qual ela jamais praticaria.

- Tudo bem. Eu te desculpo. Isso é passado agora.

Apesar das poucas palavras, a garota sabe que eles estão no meio de uma Rebelião. Muita coisa ruim pode acontecer quando a violência se torna a única linguagem que a sociedade entende.

De repente alguém aparece no terraço. Olhando para o lado, o rapaz vê três seguranças acompanhando Database. 

Com olhar sério, o chefe diz:

- Nathan, me desculpe por interrompê-los, mas eu estou tentando falar com você e não estou conseguindo.

O rapaz olha para seu aparelho e, de fato, haviam várias chamadas de seu chefe.

- Algum problema, Database?

- Sim. Preciso que você venha comigo.

Incomodado, ele olha para a garota. Ela, porém, se levanta e diz:

- Não tem problema. Eu precisava mesmo ir ver meu pai. Até mais, Nathan.

Em seguida ela beija sua boca. Database e os seguranças se espantam. Em todos esses anos na superfície, eles jamais viram a runner se apaixonar por alguém.

O rapaz, por outro lado, sente como se estivesse no céu, apesar de estar no nível mais baixo da metrópole.

- Me acompanhe, por favor.

Escoltando-o ao Submundo, eles entram em sua sala e o chefe fecha a porta. Ligando seus monitores, Database lhe mostra algumas imagens.

- Nathan, nossos hackers identificaram o envio desses e-mails para o seu computador. O que não sabemos é como o remetente fez isso, pois sua conta é conhecida apenas para nós e as facções.

O rapaz vê apenas textos ininteligíveis na tela. Intrigado, ele pergunta:

- Essas mensagens são criptografadas?

Com semblante sério, ele responde:

- Exato.

Revelando as imagens, o rapaz vê fotos grotescas de Vertigo morto, caído entre alguns potes de vidro. Para o seu horror, havia um buraco de bala horrível em sua cabeça. Com aquela sanguinolência toda, o rapaz desvia o olhar.  

- Isso não é tudo. Veja.

Sobre as fotos, uma mensagem aparece. Ele lê:

“Inimigo de Estado, você é o próximo”.

Com a ameaça, o rapaz treme.

- Database, quem foi que mandou isso?

- Não sabemos. Desconfio que o autor tenha acesso a informações secretas, concedidas pelas próprias corporações. – respirando fundo, ele conclui – Temo que elas tenham enviado um especialista, um tipo mais arrojado de assassino, exclusivamente para te matar.

Então Nathan arregala os olhos.

- Eu devo me esconder e não participar mais da Rebelião?

- Não. Esse assassino não te pegaria lá em cima. Ele quer acabar com o problema pela raiz. – fazendo outra pausa, ele conclui – Desconfio que ele virá te pegar aqui.

O rapaz treme novamente.

- Mas chefe, estamos em um local altamente protegido. Você acha que o assassino seria ousado o bastante para nos atacar aqui embaixo?

Meneando negativamente a cabeça, Database responde:

- Você não me entendeu. Estamos falando de um especialista. Com informações privilegiadas e abundantes recursos, ele o encontraria onde estivesse. Ele já pode estar aqui, na verdade.

Database insinua que todos ali podem ser suspeitos.

Sentando-se no sofá, Nathan enxuga o suor de sua testa.

- O que eu devo fazer então, chefe?

Database nota como o rapaz implorava por uma esperança. Ele sorri por dentro, esperando o momento certo de arranca-la impiedosamente.

- Não há o que fazer.

- O quê?! – exclama ele.

- Não há como fugir de um caçador obstinado e experiente.

O rapaz não consegue acreditar no que ouve. Ao finalmente conquistar Laura, a expectativa da morte vem e lhe assombra.

- O Submundo vai me deixar morrer?!

- Não, exatamente.

Ele se intriga.

- O que quer dizer?

- O especialista tem apenas uma fraqueza: o ataque. No ataque ele se revela. No planejamento, ele se esconde. Infelizmente para a vítima, quando o ataque vier será tarde demais.

Nathan se espanta.

- Esta é sua fraqueza?!

Sentando-se em sua poltrona, o chefe fuma seu charuto. Observando o desespero do rapaz, ele diz:

- Resista ao terror psicológico, Nathan. Essa é sua arma. Quando o assassino vier ao ataque, nós estaremos lá.

O rapaz não consegue deixar de se sentir vulnerável na situação.

- Mas, Database...

- Dispensado. 


§

 

Duas noites se passam. O rapaz permanece trancado em seu quarto. Ele não falou mais com Laura, ele não quis preocupa-la.

“Como se ela temesse alguma coisa...”, pensa ele.

O Submundo está em estado de alerta, porém ele acha muito estranho que os corredores estejam tão vazios. Database está ausente, ele foi ao Mystique resolver assuntos pessoais, provavelmente o contrabando ilegal e o comércio de entorpecentes.

De repente Nathan ouve o som de vazamento. Intrigado, ele olha para cima e vê a grade do ar condicionado. Não havia nada de anormal. O som fica mais alto e, ao olhar novamente, um gás esverdeado invadia seu quarto.

- Gás! – exclama ele.

Database lhe envia uma mensagem em seu celular. Nela dizia: “fuja!”

Apavorado, o rapaz abre a porta e corre pelo Submundo.

Uma sirene toca. Percorrendo o local, ele o encontra estranhamente vazio. Sem conseguir evitar, um medo sinistro toma sua mente. Então uma voz no alto-falante diz:

“Segurança comprometida! Deixem o local imediatamente!”.

O gás parece colorir a vista. Olhando para as salas e os corredores, o rapaz vê aquele tom esverdeado em toda parte. Ao inala-lo, o efeito o desestabiliza e ele começa a tossir.

A escada para a saída se aproxima. Ao subi-la, ele irrompe pela porta, caindo no escuro beco. Prestes a sucumbir sob o efeito do gás, ele se arrasta pelo chão, não se importando com a sujeira. Aerocarros atravessam os estreitos espaços entre as megatorres. Preocupado, o rapaz se pergunta onde estavam os runners.  

Pessoas desconhecidas correm pelos terraços. Elas vestem capuzes pretos e portam rifles de assalto. Encontrando o rapaz, eles apontam suas armas e atiram, fazendo Nathan correr sob o ricocheteio das balas.

Avançando pelo beco, ele se espanta ao ver a saída obstruída com uma pilha de lixo. Só havia uma saída restante, uma sinuosa passagem à sua esquerda. 

Correndo pelos detritos, ele se agarra a uma tela de arame e tenta não desmaiar, ele estava zonzo e precisava  recuperar o fôlego. Os encapuzados se aproximam. Vendo uma porta aberta, ele encontra um salão abandonado. Sem pensar duas vezes, o rapaz entra para escapar da chuva de balas.

Pisando sobre o entulho, o rapaz corre pelo escuro ambiente. Havia uma escada velha e enferrujada ao longe. Olhando para trás, ele ouve os atiradores se aproximando. Atravessando o salão, ele sobe as escadas e alcança o telhado. Nathan descobre que estava se afastando cada vez mais das partes iluminadas e povoadas da superfície. Sem tempo a perder, ele continua seu caminho.

Tiros são disparados ao longe. Finalmente os runners haviam chegado e agora trocavam tiros com os invasores. O rapaz se alivia.

  Distraído, ele não percebe a presença de objetos azulados e metálicos no telhado. Ao pisar neles, uma onda de choque se levanta e eletrocuta seu corpo, fazendo-o gritar. Uma voz familiar diz:

- Peguei!

Imobilizado no chão, o rapaz luta para não perder a consciência. Um homem de sobretudo se aproxima e para ao seu lado. O desconhecido pisa em seu peito, fazendo-o acordar.

- Boa noite, Nathan. Lembra-se de mim?

Aerocarros sobrevoam ao redor com holofotes acoplados em suas latarias, iluminando o escuro fosso. O rapaz enxerga o homem acima e, em prantos, sussurra:

- Detetive Burton...?!

O detetive sorri.

Nathan se lembra daquele psicótico policial. Foi ele que mobilizou um batalhão inteiro para capturar o rapaz em Blue Giant, o distrito dos robôs.

- Eu estive te procurando, sabia? Infelizmente eu não pude captura-lo na superfície da Cúpula Corporativa. Os ateístas chegaram antes.

O rapaz se lembra daquele dia. Intrigado, ele não se lembra de ter visto Burton em lugar algum.

- Você estava lá?

Burton continua:

- E seu amigo Vertigo me ajudou também, se é que posso chama-lo assim. O traidor não se importava com você; ele era só mais um que te usava em seus próprios interesses. Se você não for tão burro quanto eu penso, creio que já percebeu isso.

- Então foi você que matou o Vertigo, não foi?

- Eu te fiz um favor. Ele te usou, então eu o usei para chegar até você.

Nathan se espanta como o detetive sabia tanto a seu respeito.

- Durante todo esse tempo você esteve por perto...

- Ah, sim...! – anima-se ele – Acredite, garoto. Eu estava mais perto do que imagina.

Mais policiais se aproximam. Com olhares furiosos, eles lhe apontam suas armas.

- O que vocês vão fazer comigo?

- Vamos captura-lo e leva-lo às autoridades.

O rapaz sorri.

- Autoridades?! Nós já destruímos tudo pelo caminho. De que autoridade você está falando?

- As corporações, é claro. Mas primeiro, nós vamos nos divertir um pouco.

O rapaz sente medo.

- Do que está falando?

Então Burton chuta suas costelas, fazendo-o se contorcer de dor.

- Isso é por fugir de Blue Giant! – ele chuta novamente – Isso é pelo Ministro Arquimedes! – ele dá outro chute – E isso é pelo Ministério de Segurança Pública! – mais um chute – E isso pelo Ministério da Informação!

O detetive continua chutando e pisoteando-o. Ele se vinga por cada dano causado em Sonata.

O rapaz suspira e ofega de dor. Sangue se escorre de sua boca e nariz. Vendo as feridas se abrirem em seu rosto, os policiais são obrigados a intervir.

- Detetive Burton, já chega!

O irascível Burton responde:

- Por acaso vocês se esqueceram das centenas de policiais mortos na Rebelião? Se esqueceram quem é o culpado?

Então os próprios policias se irritam, olhando furiosos para Nathan. Com seus cassetetes e suas botas, os policiais espancam o rapaz no chão. Ele tenta se defender, mas tem seu corpo pisoteado por todos os lados.

Ocupados espancando o rapaz, eles não percebem a aproximação de um objeto redondo atrás deles. Ao tocar o pé de um policial, ele olha para trás e o reconhece. Ele exclama:

- É uma bomba!

O grupo se intriga e então ela se explode no telhado. Burton consegue se proteger, mas seus companheiros caem feridos com estilhaços perfurando seus corpos. Em horror ele reconhece os danos, tratava-se de uma granada de pregos.

Os policiais agonizam no chão. A bomba foi projetada como uma arma não-letal, indicada para a neutralização do inimigo e não seu extermínio. Burton se assusta e se arrasta pelo telhado, procurando por sua arma. Então alguém aparece.

Vestindo um casaco marrom, uma calça jeans e um tênis oitentista, um homem com uma escopeta se aproxima. Nathan o reconhece. Sorrindo com seus dentes encharcados de sangue, ele sussurra:

- Maynard...!

O detetive se intriga.

- O que você disse, rapaz?!

Um policial ferido tenta atacar o mercenário. Sem olha-lo nos olhos, Maynard aponta sua arma e atira em seu peito, terminando sua vida. Recarregando-a, ele responde:

- O rapaz disse Maynard.

Nathan sorri novamente.

- Então você é o lendário mercenário Maynard que todos falam? Famoso por espalhar o caos pela cidade e nunca ser pego?

Sem demonstrar reação, o mercenário responde:

- Deve ser um outro Maynard.

- Oh, mas não é! – desmente ele – Eu li seus arquivos. Sabotagem da torre de transmissão da Cybersys, extração do Inimigo de Estado de uma prisão de segurança máxima, confronto a mão armada com a polícia e com as facções... – lista ele – Por que será que sempre quando há desordem você está envolvido?

Ainda sério, ele diz:

- Deve ser uma coincidência.

- Ora, você só sabe dizer isso?!

Nathan tem vontade de gargalhar, mas a cada riso suas costelas doem.

- Eu vim levar o rapaz. Sugiro que você se afaste.

O detetive ri em desprezo.

- Eu não tenho medo de você!

- Mas deveria.

Então os dois se encaram ferozmente. O tempo parece se desacelerar.

A fama de Burton o precede, ele era o policial mais eficiente na caça aos terroristas. A fama de Maynard também; ele era uma lenda viva. Naquele momento, o rapaz testemunhava o duelo de gigantes.

Burton saca sua arma e atira. O escudo do mercenário se ativa e ele se prepara para atirar de volta. O detetive lança granadas sobre o telhado e se abaixa. As bombas se explodem e o telhado cede, derrubando os três lá embaixo.

O detetive tenta fugir para reagrupar-se com os policiais e replanejar sua estratégia. Maynard atira nele, fazendo os projéteis soltarem faíscas pelas paredes. Burton corre pelos becos e alcança uma escada de incêndio. Ao subi-la, ele se encontra novamente nos terraços dos prédios decrépitos. Ele corre e pula pelos terraços, ignorando a altura.

Burton recarrega sua arma, ele tinha apenas uma pistola automática. O mercenário se aproxima, portando sua poderosa escopeta. Se o detetive não se reagrupar, ele estará em séria desvantagem.

Maynard chega ao terraço. Pegando um radar detector de batidas cardíacas, ele caminha pelo local. Ao longe, os policiais e os runners se digladiavam. Devido ao tiroteio, ele tinha que se cuidar para não ser atingido por uma bala perdida.

O detector indicava que havia alguém três terraços a frente. Avançando, ele se depara com uma caixa d’água vazia. Apontando sua arma, ele atira contra a madeira, fazendo-a se estraçalhar. Um gato mia e foge pela noite, assustado com o tiro.

“Era apenas um gato”, pensa ele.

Felizmente o gato não se feriu.

- Ei, mercenário!

Maynard se vira e é atingido por uma paulada nas costas, fazendo-o se contorcer de dor. Burton bate novamente e o mercenário cai, soltando sua arma. O detetive olha para ele, sorrindo.

- Por acaso pensa que eu sou algum imbecil? – pergunta ele – Eu sei tudo sobre você, agente Maynard. Você tem muitos recursos, mas nunca espera um combate desarmado.

O mercenário tenta pegar sua arma, mas o detetive a chuta para longe.

- As corporações me pediram o Inimigo de Estado vivo. Felizmente eles não falaram nada sobre você.

Burton saca sua arma e se prepara para executá-lo. De repente o mercenário lhe dá uma rasteira e ele cai, fazendo a arma disparar acidentalmente.

- Você está errado, detetive Burton. Eu sempre espero tudo.

Levantando a manga de sua jaqueta, Maynard revela uma enorme lâmina embutida ao redor de seu antebraço. Deslizando-a para cima, o mercenário a crava na perna de Burton, fazendo-o gritar. O detetive se defende chutando seu rosto. Atordoado, Maynard cai de costas.

Burton pega sua arma e se vira, pronto para atirar. O mercenário, por sua vez, havia sumido.

Mancando pelo terraço, o detetive estanca o sangramento com a mão. Burton já havia perdido uma perna durante o ataque terrorista da Bushido. Com a outra perna ferida, ele temia se tornar um ciborgue estabanado.

“Isso se eu sair vivo daqui”, pensa ele.

Então Maynard se levanta e atira com sua escopeta. O detetive se abaixa e se protege atrás de um parapeito. Os dois trocam tiros arrastando-se pelo terraço. Eles se escondem atrás de obstáculos até encontrar um ponto de vantagem.

O detector de Maynard se confunde, há muito barulho ali. Arrastando-se aleatoriamente, ele ouve alguém atrás dele e, ao se virar, toma um tiro no peito.

- Hah! – alegra-se ele – Você não sabe lutar sem seus brinquedos, não é?! Você é uma fraude!

O escudo não se ativou adequadamente. A bala atinge o mercenário e ele segura a ferida, sujando sua mão de sangue.

O detetive se aproxima exultante. Apontando sua arma, ele diz:

- Nem tente me derrubar. Eu conheço seus truques.

Encolhido sobre o chão, Maynard responde:

- Conheça mais esse.

Abrindo sua mão ensanguentada, ele lhe revela um minúsculo detonador. O detetive se confunde. Ao pressiona-lo, uma sequência de explosões se aproximam e então atingem Burton, lançando-o pelos ares.

Ao cair, Burton vê suas roupas queimadas pela explosão. Ele entende o que aconteceu. Maynard lançou minúsculas bombas pelo terraço, deixando-as em seu percurso para prevenir que fosse atacado pelas costas.

Burton se repreende por dentro. Em seus dois ataques ele previu seu adversário, e nos dois ele estava errado. O detector não estava funcionando, então o mercenário teve que se adaptar.

“Genial”, reconhece ele. “Simples, porém genial...”.

Maynard se levanta e se aproxima com sua escopeta. O detetive diz:

- Você é esperto, mercenário... Mas não é só você que tem truques debaixo da manga.

Ele se intriga.

- O que quer dizer?

- Por acaso não se perguntou por que os policiais não apareceram aqui?

O mercenário não responde. Ele estimou que Burton não os tivesse alcançado a tempo.

O detetive continua:

- As corporações não querem apenas o Inimigo de Estado, elas querem acabar com a Rebelião. Para isso, eles querem erradicar toda a sua rede de operação na superfície. 

- Rede de  operação?

- Você foi inesperado, Maynard. Não contei que você se envolvesse com uns marginais desse nível – cheio de desprezo, ele se referia à superfície – Mas eu devo te dizer uma coisa... Esta operação ainda não terminou!

Um poderoso estrondo é ouvido, estremecendo todo o quarteirão. Assustado, o mercenário olha para o lado e vê uma enorme labareda se levantando na direção da rua. Maynard reconhece o local, ali ficava o Mystique. Em seguida aparecem dezenas de viaturas policiais com as sirenes ligadas e colorindo o ambiente.

Maynard finalmente percebe. Ele estava no meio de uma invasão.

Burton ri.

- Se você quiser salvar esses viciados e vagabundos, sugiro que comece a correr.

O mercenário pondera.

- Não. – responde ele – Primeiro você vem comigo.

Então ele o agarra pelas roupas e o leva dali.

 

 



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