(Arte de Cristopher Balaskas)
De volta ao andar
vazio da megatorre, Nathan contempla o Ministério da Propaganda em chamas. A Rebelião
alcançou mais uma vitória aquela noite. Semelhante à invasão dos clérigos, foi
uma vitória relativamente fácil para a Frente Ateísta. Poucas pessoas morreram
no confronto, felizmente. O rapaz se felicita.
Distraído enquanto
olha para o edifício, ele ouve o som de armas se destravando atrás dele. Intrigado,
ele olha para trás e vê o séquito ateísta apontando seus fuzis para o seu
peito. Com o susto, ele levanta os braços.
- O que é que
está havendo aqui?!
Dawkins aparece
em seguida e pergunta:
- Então você pensou
que podia continuar nos enganando, Inimigo de Estado?
O rapaz se
confunde.
- Do que você está
falando?
- Nós sabemos de
toda a verdade, jovem Nathan. Nossos espiões nos deram a informação. Foi você quem
detonou o hospital em nosso território.
Então o rapaz
arregala os olhos.
- Senhor
Dawkins...
- E neste exato
local nós te demos a chance de confessar o seu crime, mas você o omitiu.
Temendo por sua
vida, ele argumenta:
- Como poderia eu
confessar? Eu fui persuadido! Os clérigos o acusaram de explodir uma escola
infantil!
- Não! – desmente
ele – Você queria uma aliança com os clérigos para sua Rebelião!
Então o rapaz
fica sem palavras.
Dawkins continua:
- Naquele
hospital tratávamos dos nossos soldados feridos, além de atender a própria população.
Todavia... – continua ele, mudando de assunto – Vi que você tem talento para o terrorismo, pois não hesitou em pressionar o botão mais uma vez. – o líder lhe mostra o detonador usado
anteriormente.
- Eu não sou um
assassino...
- Mas é um
terrorista. Esta Rebelião fez de você um terrorista... – diz ele – E um
soldado.
- O que quer
dizer?
- Eficiente e sem
escrúpulos, focado em seus objetivos e decidido no que deve ser feito.
Nathan não entende.
“Seria aquilo um elogio?”, pergunta-se ele.
- Eu apenas quero
que essa guerra termine.
- Ela não vai
terminar. E você sabe disso.
Dawkins se
referia à Sonata pós-Rebelião. Enquanto as facções existirem, jamais haverá
paz. Refletindo rapidamente, o rapaz reconhece que, ao se aliar com as facções, ele
escolhia o menos pior. Com as corporações governando, a população temia o extermínio.
Preocupado, o
rapaz pergunta:
- O que vocês vão
fazer comigo?
- Como as religiões falsamente fazem, nós te daremos uma chance de redenção.
Nathan se
confunde.
- Redenção?
- Está vendo
aquela câmera? – ele aponta para uma câmera de segurança no teto – Ela está
registrando todos os seus atos e palavras. Os clérigos te usaram, mas nós não faremos
o mesmo. – pegando um notebook, ele continua – Aqui estão todos os arquivos contendo
a verdade sobre aquele falso atentado terrorista, ocorrido em uma escola no território
dos Clérigos do Recomeço. Envie-os para o ciberespaço. Mostre à metrópole que você
se arrependeu dos seus atos e que se redime mostrando a verdade.
O rapaz vê
documentos, fotos e vídeos sobre o atentado. Apesar das imagens chocantes e de algumas pessoas genuinamente feridas, aquilo foi uma encenação. Mas, lembrando-se de
algo, ele se martiriza por dentro. Diferente da escola, o atentado no hospital foi bem real e mortífero. Olhando para suas mãos, ele as vê sujas de
sangue.
- Está bem. –
responde ele – Eu farei o que me manda.
Em frente à câmera,
Nathan envia os arquivos. Os ateístas se entreolham, satisfeitos. Na manhã
seguinte, os noticiários falarão exaustivamente sobre a revelação.
Encerrado o
envio, eles deixam o local.
No terraço da
megatorre, o rapaz vê uma aeronave de transporte ao lado de seu aerocarro. Dawkins
olha para ele e diz:
- Fico feliz em
saber que você está do nosso lado, Nathan.
O rapaz se
irrita.
- Eu não estou do
seu lado! Eu luto pelo fim das corporações!
- É claro. –
corrige-se ele – De qualquer forma, eu te agradeço por escolher o certo a se
fazer.
Lembrando-se das
armas apontadas para ele, Nathan sorri.
- Eu tinha
escolha?
Então o líder sorri
também.
- Não.
Os soldados
entram na aeronave. Dawkins abre a porta da cabine e, antes de partir, diz:
- De qualquer
forma, eu torço para que você faça parte de nossa respeitável facção.
Os terroristas não
se cansam de tentar manipulá-lo. Suas ideologias eram extremistas e sanguinárias;
eles não hesitariam em derramar o sangue inocente para alcançar seus objetivos. Reconhecendo
essa triste realidade, ele se lamenta.
- Senhor Dawkins,
no universo existe bilhões de estrelas e planetas. No dia em que vocês provarem a existência de outra civilização fora da Terra, sem mais conjecturar como os
cientistas e entusiastas o fazem, eu me juntarei a vocês.
Ao ouvi-lo, o líder entende a ironia. Apesar de toda a tecnologia disponível, a humanidade nunca encontrou, em todos esses anos, um único sinal de vida inteligente fora do planeta. O que a ciência fazia, no máximo, era pura especulação.
- Por sua lógica, eu devo presumir que você se juntará aos Clérigos do Recomeço no dia em que eles
provarem a existência de Deus, estou certo?
Os ateístas riem,
zombando de Nathan. O rapaz simplesmente responde:
- Eu não tenho fé
o bastante para ser ateu.
Então Dawkins
entra na aeronave e eles vão embora, deixando-o sozinho.
§
No Submundo, o
rapaz se deita e descansa em sua cama. Pegando seu notebook, ele finalmente
acessa os arquivos sobre seus pais.
Seu pai trabalhava
na corporação Cybersys. O rapaz descobre que ele presenciara uma greve de
funcionários, mas sem ter nenhuma participação nela. Os grevistas reivindicavam
melhores direitos trabalhistas, mas foram severamente reprimidos pela Polícia
Corporativa. Para fugir da prisão e do eventual banimento, muitos fugiram para a superfície, condenando-se à marginalidade, à revogação de seus
direitos civis e à miséria. Isso revoltou seu pai, pois, assim como ele, muitos deles tinham família.
A partir de então
seu pai passou a manter contato com a superfície. Ele manteve contato com seus
habitantes, os antigos grevistas e sua obscura rede de contrabando ilegal. A princípio
ele procurava ajudar os grevistas, mas acabou se envolvendo em um serviço espionagem
e troca de informações. Em um ativismo velado, seu pai se tornou um informante
infiltrado nos níveis superiores, espionando e até sabotando as corporações.
Sua mãe trabalhava
no comércio sonatense. Ela era vendedora em uma simples loja de roupas em um
distrito de Sonata. Seu pai a conheceu enquanto contrabandeava roupas para os miseráveis
na superfície. Os dois se apaixonaram em seguida, mantendo um relacionamento e,
eventualmente, gerando um lindo filho, Nathan.
Apesar de
preocupada com o trabalho secreto de seu namorado, sua mãe se impressionou com
a grande quantia de dinheiro que ele recebia com a espionagem. Grávida e com a
data programada de seu casamento, sua mãe o fez prometer que ele largaria
aquele serviço, deixando aquelas atividades criminosas para trás. Seu pai
prometeu, mas infelizmente para sua mãe, ele nunca o largou.
Com o constante
vazamento de informações e sabotagens no ambiente corporativo, as autoridades
desconfiaram. Após uma minuciosa investigação, eles descobriram o envolvimento
de seu pai com a superfície. Ele sabotava o desenvolvimento de novos sistemas
de monitoramento da população, usados pela polícia. Seu pai também
roubava documentos, expondo informações secretas. Ao investigarem o destino
desses envios, eles identificam uma base para atividades criminosas localizada
em uma casa noturna na superfície.
“Seria esse o
Mystique?”, pergunta-se ele.
Nathan não conhece
a origem de Database, mas sabe que, das centenas de milhares de criminosos espalhados
pela superfície, seu chefe era só mais um. Lembrando-se dos bordeis, bares, pontos
de drogas, casas de swing e outros estabelecimentos ilícitos, o Mystique também
era só mais um ali embaixo.
Continuando a
leitura, o rapaz vê que as atividades criminosas de seu pai continuaram até
seus cinco anos de idade. Ao capturarem um antigo aliado, ele revelou os nomes
de todos os envolvidos na espionagem, inclusive o de seu pai. Porém, a notícia
da traição veio tarde demais.
Os arquivos
revelam que seus pais foram mortos a tiros em uma operação policial
bem-sucedida. Nathan lê que eles morreram ao tentarem reagir, o que é uma
grande mentira. Com lágrimas ofuscando seus olhos, ele se lembra em detalhes
de ver seus pais mortos sobre o chão. Ele se lembra do olhar vazio de sua mãe e o seu pai, todo perfurado e
ensanguentado, se despedindo dele e dizendo:
“Vai ficar tudo bem...”.
Então o rapaz
chora intensamente, batendo em seu computador e encolhendo-se sobre a cama. As
saudades o corroem por dentro, ele sentia muita falta deles. Com
um gosto amargo em sua boca, ele sussurra:
- Vai ficar tudo
bem...
§
Database fuma seu
charuto em sua poltrona. O Profeta John August acaba de ligar para ele. Furioso
e cheio de ódio, o profeta gritava e esbravejava, irritado com a revelação
da verdade sobre o seu falso atentado terrorista. A raiva de John August era
tanta que nem parecia que ele pregava sobre a longanimidade e a mansidão.
Fumando mais uma
vez, o chefe solta a fumaça.
Os noticiários exibem
as imagens. Nathan era a estrela do show mais uma vez. As filmagens de segurança o mostram confessando o atentado a bomba no território dos ateístas,
chocando a todos. Em seguida, ele se “redime” expondo os arquivos que comprovam
que o atentado dos clérigos era falso. “Pura propaganda”, pensa ele.
“Propaganda”,
pensa ele novamente.
Fumando seu
charuto, Database se lembra do ministro Sócrates. Ao monitorar a invasão à
distância, ele vê que os ateístas o capturaram ainda com vida. Astutamente ele
percebe tudo. A Frente Ateísta pretendia usá-lo em sua própria rede de
propagandas facciosas. Dawkins era um obcecado pelo materialismo científico. Com
o grande conhecimento e experiência de Sócrates, o líder pretendia propagandear
suas convicções científicas e antirreligiosas para toda a população.
“Facciosos e suas
limitadas visões de mundo”, pensa ele enquanto fuma mais uma vez.
Então uma imagem
em seu monitor chama sua atenção. Nathan chorava em seu quarto. Database sabe
do que se trata, o rapaz havia lido os arquivos sobre seus pais. Enquanto assiste,
ele não demonstra comoção alguma; ele apenas se certifica de que os arquivos
foram devidamente alterados.
Ao expelir a
fumaça, ele diz:
- Engula o choro,
Nathan. Este mundo não é para as crianças.
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