segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Sonata - 58 - O Acerto de Contas

 



(Arte de Cristopher Balaskas) 


De volta ao andar vazio da megatorre, Nathan contempla o Ministério da Propaganda em chamas. A Rebelião alcançou mais uma vitória aquela noite. Semelhante à invasão dos clérigos, foi uma vitória relativamente fácil para a Frente Ateísta. Poucas pessoas morreram no confronto, felizmente. O rapaz se felicita.

Distraído enquanto olha para o edifício, ele ouve o som de armas se destravando atrás dele. Intrigado, ele olha para trás e vê o séquito ateísta apontando seus fuzis para o seu peito. Com o susto, ele levanta os braços.

- O que é que está havendo aqui?!

Dawkins aparece em seguida e pergunta:

- Então você pensou que podia continuar nos enganando, Inimigo de Estado?

O rapaz se confunde.

- Do que você está falando?

- Nós sabemos de toda a verdade, jovem Nathan. Nossos espiões nos deram a informação. Foi você quem detonou o hospital em nosso território.

Então o rapaz arregala os olhos.

- Senhor Dawkins...

- E neste exato local nós te demos a chance de confessar o seu crime, mas você o omitiu.

Temendo por sua vida, ele argumenta:

- Como poderia eu confessar? Eu fui persuadido! Os clérigos o acusaram de explodir uma escola infantil!

- Não! – desmente ele – Você queria uma aliança com os clérigos para sua Rebelião!

Então o rapaz fica sem palavras.

Dawkins continua:

- Naquele hospital tratávamos dos nossos soldados feridos, além de atender a própria população. Todavia... – continua ele,  mudando de assunto – Vi que você tem talento para o terrorismo, pois não hesitou em pressionar o botão mais uma vez.  – o líder lhe mostra o detonador usado anteriormente.

- Eu não sou um assassino...

- Mas é um terrorista. Esta Rebelião fez de você um terrorista... – diz ele – E um soldado.

- O que quer dizer?

- Eficiente e sem escrúpulos, focado em seus objetivos e decidido no que deve ser feito.

Nathan não entende. “Seria aquilo um elogio?”, pergunta-se ele.

- Eu apenas quero que essa guerra termine.

- Ela não vai terminar. E você sabe disso.

Dawkins se referia à Sonata pós-Rebelião. Enquanto as facções existirem, jamais haverá paz. Refletindo rapidamente, o rapaz reconhece que, ao se aliar com as facções, ele escolhia o menos pior. Com as corporações governando, a população temia o extermínio.

Preocupado, o rapaz pergunta:

- O que vocês vão fazer comigo?

- Como as religiões falsamente fazem, nós te daremos uma chance de redenção.

Nathan se confunde.

- Redenção?

- Está vendo aquela câmera? – ele aponta para uma câmera de segurança no teto – Ela está registrando todos os seus atos e palavras. Os clérigos te usaram, mas nós não faremos o mesmo. – pegando um notebook, ele continua – Aqui estão todos os arquivos contendo a verdade sobre aquele falso atentado terrorista, ocorrido em uma escola no território dos Clérigos do Recomeço. Envie-os para o ciberespaço. Mostre à metrópole que você se arrependeu dos seus atos e que se redime mostrando a verdade.

O rapaz vê documentos, fotos e vídeos sobre o atentado. Apesar das imagens chocantes e de algumas pessoas genuinamente feridas, aquilo foi uma encenação. Mas, lembrando-se de algo, ele se martiriza por dentro. Diferente da escola, o atentado no hospital foi bem real e mortífero. Olhando para suas mãos, ele as vê sujas de sangue.

- Está bem. – responde ele – Eu farei o que me manda.

Em frente à câmera, Nathan envia os arquivos. Os ateístas se entreolham, satisfeitos. Na manhã seguinte, os noticiários falarão exaustivamente sobre a revelação.

Encerrado o envio, eles deixam o local.

No terraço da megatorre, o rapaz vê uma aeronave de transporte ao lado de seu aerocarro. Dawkins olha para ele e diz:

- Fico feliz em saber que você está do nosso lado, Nathan.

O rapaz se irrita.

- Eu não estou do seu lado! Eu luto pelo fim das corporações!

- É claro. – corrige-se ele – De qualquer forma, eu te agradeço por escolher o certo a se fazer.

Lembrando-se das armas apontadas para ele, Nathan sorri.

- Eu tinha escolha?

Então o líder sorri também.

- Não.

Os soldados entram na aeronave. Dawkins abre a porta da cabine e, antes de partir, diz:

- De qualquer forma, eu torço para que você faça parte de nossa respeitável facção.

Os terroristas não se cansam de tentar manipulá-lo. Suas ideologias eram extremistas e sanguinárias; eles não hesitariam em derramar o sangue inocente para alcançar seus objetivos. Reconhecendo essa triste realidade, ele se lamenta.

- Senhor Dawkins, no universo existe bilhões de estrelas e planetas. No dia em que vocês provarem a existência de outra civilização fora da Terra, sem mais conjecturar como os cientistas e entusiastas o fazem, eu me juntarei a vocês.  

Ao ouvi-lo, o líder entende a ironia. Apesar de toda a tecnologia disponível, a humanidade nunca encontrou, em todos esses anos, um único sinal de vida inteligente fora do planeta. O que a ciência fazia, no máximo, era pura especulação.

- Por sua lógica, eu devo presumir que você se juntará aos Clérigos do Recomeço no dia em que eles provarem a existência de Deus, estou certo?

Os ateístas riem, zombando de Nathan. O rapaz simplesmente responde:

- Eu não tenho fé o bastante para ser ateu.

Então Dawkins entra na aeronave e eles vão embora, deixando-o sozinho.

 

§

 

No Submundo, o rapaz se deita e descansa em sua cama. Pegando seu notebook, ele finalmente acessa os arquivos sobre seus pais.

Seu pai trabalhava na corporação Cybersys. O rapaz descobre que ele presenciara uma greve de funcionários, mas sem ter nenhuma participação nela. Os grevistas reivindicavam melhores direitos trabalhistas, mas foram severamente reprimidos pela Polícia Corporativa. Para fugir da prisão e do eventual banimento, muitos fugiram para a superfície, condenando-se à marginalidade, à revogação de seus direitos civis e à miséria. Isso revoltou seu pai, pois, assim como ele, muitos deles tinham família.

A partir de então seu pai passou a manter contato com a superfície. Ele manteve contato com seus habitantes, os antigos grevistas e sua obscura rede de contrabando ilegal. A princípio ele procurava ajudar os grevistas, mas acabou se envolvendo em um serviço espionagem e troca de informações. Em um ativismo velado, seu pai se tornou um informante infiltrado nos níveis superiores, espionando e até sabotando as corporações.

Sua mãe trabalhava no comércio sonatense. Ela era vendedora em uma simples loja de roupas em um distrito de Sonata. Seu pai a conheceu enquanto contrabandeava roupas para os miseráveis na superfície. Os dois se apaixonaram em seguida, mantendo um relacionamento e, eventualmente, gerando um lindo filho, Nathan.

Apesar de preocupada com o trabalho secreto de seu namorado, sua mãe se impressionou com a grande quantia de dinheiro que ele recebia com a espionagem. Grávida e com a data programada de seu casamento, sua mãe o fez prometer que ele largaria aquele serviço, deixando aquelas atividades criminosas para trás. Seu pai prometeu, mas infelizmente para sua mãe, ele nunca o largou.

Com o constante vazamento de informações e sabotagens no ambiente corporativo, as autoridades desconfiaram. Após uma minuciosa investigação, eles descobriram o envolvimento de seu pai com a superfície. Ele sabotava o desenvolvimento de novos sistemas de monitoramento da população, usados pela polícia. Seu pai também roubava documentos, expondo informações secretas. Ao investigarem o destino desses envios, eles identificam uma base para atividades criminosas localizada em uma casa noturna na superfície.

“Seria esse o Mystique?”, pergunta-se ele.

Nathan não conhece a origem de Database, mas sabe que, das centenas de milhares de criminosos espalhados pela superfície, seu chefe era só mais um. Lembrando-se dos bordeis, bares, pontos de drogas, casas de swing e outros estabelecimentos ilícitos, o Mystique também era só mais um ali embaixo.     

Continuando a leitura, o rapaz vê que as atividades criminosas de seu pai continuaram até seus cinco anos de idade. Ao capturarem um antigo aliado, ele revelou os nomes de todos os envolvidos na espionagem, inclusive o de seu pai. Porém, a notícia da traição veio tarde demais.

Os arquivos revelam que seus pais foram mortos a tiros em uma operação policial bem-sucedida. Nathan lê que eles morreram ao tentarem reagir, o que é uma grande mentira. Com lágrimas ofuscando seus olhos, ele se lembra em detalhes de ver seus pais mortos sobre o chão. Ele se lembra do olhar vazio de sua mãe e o seu pai, todo perfurado e ensanguentado, se despedindo dele e dizendo:

“Vai ficar tudo bem...”.

Então o rapaz chora intensamente, batendo em seu computador e encolhendo-se sobre a cama. As saudades o corroem por dentro, ele sentia muita falta deles. Com um gosto amargo em sua boca, ele sussurra:  

- Vai ficar tudo bem...

 

§

 

Database fuma seu charuto em sua poltrona. O Profeta John August acaba de ligar para ele. Furioso e cheio de ódio, o profeta gritava e esbravejava, irritado com a revelação da verdade sobre o seu falso atentado terrorista. A raiva de John August era tanta que nem parecia que ele pregava sobre a longanimidade e a mansidão.

Fumando mais uma vez, o chefe solta a fumaça.

Os noticiários exibem as imagens. Nathan era a estrela do show mais uma vez. As filmagens de segurança o mostram confessando o atentado a bomba no território dos ateístas, chocando a todos. Em seguida, ele se “redime” expondo os arquivos que comprovam que o atentado dos clérigos era falso. “Pura propaganda”, pensa ele.

“Propaganda”, pensa ele novamente.

Fumando seu charuto, Database se lembra do ministro Sócrates. Ao monitorar a invasão à distância, ele vê que os ateístas o capturaram ainda com vida. Astutamente ele percebe tudo. A Frente Ateísta pretendia usá-lo em sua própria rede de propagandas facciosas. Dawkins era um obcecado pelo materialismo científico. Com o grande conhecimento e experiência de Sócrates, o líder pretendia propagandear suas convicções científicas e antirreligiosas para toda a população.   

“Facciosos e suas limitadas visões de mundo”, pensa ele enquanto fuma mais uma vez.

Então uma imagem em seu monitor chama sua atenção. Nathan chorava em seu quarto. Database sabe do que se trata, o rapaz havia lido os arquivos sobre seus pais. Enquanto assiste, ele não demonstra comoção alguma; ele apenas se certifica de que os arquivos foram devidamente alterados.         

Ao expelir a fumaça, ele diz:

- Engula o choro, Nathan. Este mundo não é para as crianças.

   

  

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...