quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Shenzhou Wénzi - 08 - A Fuga da Terra

 


(Arte do game Resistance 3)

 

As luzes amarelas e giratórias ficam para trás. Agora o túnel era iluminado unicamente pelos faróis das aeronaves.

Pedindo ao Navcom o status da nave, ele ouve:

- Escudos a 78%.

- Carga energética a 82%.

- Nível de oxigênio a 93%.

- Temperatura a 22°C.

- Canhão Xichang pronto para uso.

O ar pesado e frio do túnel o incomoda. No painel do Wénzi, ainda restavam 126 quilômetros. O tempo estimado era de 47 minutos.

“Uma longa e monótona viagem”, pensa Yang.

De repente é emitido um alerta. Navcom detecta algo a frente.

- Piloto Haisheng, há algo obstruindo o caminho.

- Como assim? Pensei que fôssemos os únicos aqui.

- É algo grande, senhor, pois obstrui toda a passagem.

Yang se assusta.

- O que pode ser tão grande assim...? – pergunta-se ele.

- Detecto sinais de vida inteligente. – complementa ele – Não é humano.

Ao ouvir o Navcom, uma voz no comunicador diz:

“Piloto Haisheng, você recebeu o alerta?”.

- Sim, senhor. O que quer que seja, preparem-se.

Uma luz aparece adiante no túnel. Yang e a comitiva desaceleram suas aeronaves.

A luz se multiplica e de repente uma dezena se acendem, dando-lhes uma ideia de seu imenso tamanho. As luzes se intensificam e ilumina toda a parede do túnel, juntamente com o corpo do misterioso objeto.

Navcom alerta:

- Veículo inimigo adiante! Veículo inimigo adiante!

Movendo suas articulações, o veículo se manobra habilmente como se girasse em torno de seu próprio eixo. Yang reconhece um enorme tanque, mas suas articulações lembravam as de uma aranha. O suposto tanque não tinha esteiras; sob as articulações ele enxerga uma forte luz azul, suspendendo-o alguns centímetros no ar como o magnetismo.  

Sobre a carapaça do enorme tanque se desacopla um enorme canhão de energia. Em seguida buracos menores se abrem, como orifícios metálicos.

O tanque se movimenta ao som de zunidos. Yang nota que ele era movido a energia sólida e consistente, e não a combustão, semelhante ao Shenzhou Wénzi.

O canhão sobre sua carapaça se levanta e aponta para o alto. O piloto se confunde, pois não apontava para eles. Lentamente, no meio do cilindro uma luz branca se forma e de repente é disparada uma colossal carga laser. Yang se espanta; o laser se expandiu de maneira tão inesperada, aumentando seu diâmetro vinte vezes mais do que a saída do canhão.

A violenta potência pulveriza o teto de concreto acima deles, formando uma densa nuvem de poeira. É então que Yang percebe. Não era necessário mirar precisamente neles; o laser ia se expandir tanto que abrangeria tudo em seu caminho.    

O altíssimo calor o afeta. Navcom informa.

- Perigo! Temperatura a 57°C! Iniciando resfriamento de emergência!

Ar gelado é expelido das saídas de ar condicionado. Yang se recupera, pois estava prestes a desmaiar.

- Haisheng para líder da comitiva, vocês estão bem?

Uma voz diferente e exasperada responde:

“Piloto Haisheng! O líder desmaiou! Tire-nos daqui, depressa!”.

Sem tempo para pensar, Yang manobra o Wénzi e acelera, desviando-se do tanque e avançando pelo túnel.

Olhando para o painel, o piloto nota que todas as aeronaves da comitiva estão presentes. Felizmente nenhuma foi destruída. O elusivo tanque fica para trás, desaparecendo-se na imensidão do túnel. Todos se tranquilizam.

Ainda havia um longo caminho pela frente. Confinado em um ambiente escuro e claustrofóbico, Yang se apressa em sair dali. Ele então acelera o Wénzi, intentando a velocidade máxima.

- Piloto Haisheng! Desviar!

Navcom o alerta com tanto ímpeto que o assusta. Os manches viram de repente, escapando de suas mãos. Pela primeira vez Yang percebe; Navcom lhe oferecia assistência de direção emergencial.

- O que houve?!

Mas antes que Navcom pudesse responde-lo, o enorme maciço luminoso passa por debaixo dele, planando sobre a superfície sólida com aterradora velocidade.

Era o tanque inimigo.

A pesada massa de ar se desloca em seguida, passando por ele e desestabilizando-o no ar. Os manches da aeronave se estremecem. O tanque, porém, continuava seguindo em frente, diminuindo sua velocidade apenas para equiparar-se à comitiva.

Para o horror de todos, o enorme e pesado tanque sobe pelas paredes do túnel, flutuando sobre suas articulações mecânicas como se estas se deslizassem sobre o sabão. Então, de seus orifícios metálicos o tanque expele bombas de energia. Yang se empalidece. Saindo em intervalos de três em três, as bombas avançam pelo interior do túnel, indo em sua direção.

Desta vez o piloto não iria utilizar o assistente de direção; ele contaria com seus próprios reflexos.

Yang se desvia habilmente da saraivada de bombas. Acostumado, ele sabe que aqueles projéteis eram numerosos, mas lentos no ar. As bombas não eram ultra rápidas como os foguetes projetados na Terra.

Uma bomba atinge a fuselagem do Wénzi. Navcom imediatamente informa:

- Escudos a 66%.

As três aeronaves da comitiva permanecem atrás de Yang, protegendo-se. Seus veículos não eram rápidos e ágeis como o Wénzi. Então ele percebe. Se o Wénzi caísse, a comitiva estaria perdida.    

Enquanto se desvia das bombas, a luz branca novamente aparece sobre o tanque. Intensificando-se, a luz se aumenta e se aumenta perigosamente, completando sua carga dentro do canhão. Distraído como estava, Yang demora para perceber.

De repente o canhão dispara.

- Cuidado! – exclama ele.

O largo laser avança. Wénzi e duas aeronaves se esquivam, mas uma não consegue se desviar a tempo.

A aeronave imediatamente se explode, sendo fulminada até se tornar uma carcaça vermelha de aço derretido.

Alguém na comitiva exclama, chamando o nome de seu conhecido. Mas nada podia ser feito. A aeronave jazia destruída sob uma nuvem densa de poeira e fumaça.

O tanque se move novamente. As articulações se deslizam pelas paredes arredondadas e sobem mais uma vez. Agora, para o espanto de todos, o pesado tanque estava totalmente de ponta-cabeça.

Mais uma saraivada de bombas se expelem dos orifícios. Yang se esquiva novamente, protegendo o restante da comitiva atrás.

Uma voz no comunicador diz:

“Piloto Haisheng! Eu ordeno que faça alguma coisa!”.

Yang reconhece a voz do presidente.

- Senhor presidente! O espaço é muito estreito. Se eu contra-atacar, a comitiva ficará desprotegida!

“É uma ordem!”.     

Mas quase nada podia ser feito. Para atacar, o piloto precisaria manobrar em um restrito espaço de 50 metros de diâmetro.

Outro estrondo. Mais uma bomba atinge sua fuselagem.  

- Escudos a 58%.

- Navcom, preparar o Canhão Xichang.

O armamento recarrega seu laser e os canhões se desacoplam da fuselagem.

Apertando o gatilho, o azulado laser atravessa o ar, colidindo contra as paredes e se ricocheteando pela imensidão do túnel.

O ambiente se torna um espetáculo de luzes, como uma festa de ano novo. O azul do Xichang, o amarelo das bombas e o vermelho do aço quente se misturam.

O laser do Xichang atinge os orifícios do tanque e os danifica. O inimigo, que tentava preparar outro disparo de seu poderoso canhão, se desestabiliza, interrompendo a carga.

Yang se anima, seus ataques estavam sendo eficazes contra o inimigo.

O tanque continuava seguindo em frente, de ponta-cabeça pelo túnel. Ele cessa a liberação de bombas, parecendo retrair-se para conter os danos. Em seguida o tanque avança em alta velocidade, zunindo pela escuridão. Yang se confunde.

“Ele está fugindo?”, pergunta-se ele.

“Piloto Haisheng, o que houve?”, pergunta o líder da comitiva.

- Eu não sei. Me parece que ele fugiu.

O líder comenta:

“Me parece improvável uma fuga a partir daqui. A única saída está na outra ponta do túnel. Esta é uma rota emergencial”.

- Eu entendo, senhor. Mas se há apenas dois acessos, então como ele entrou aqui em primeiro lugar?

O líder assente.

Enquanto ainda conversam, uma luz aparece repentinamente à frente. Yang se confunde; a luz parecia vir em sentido contrário em velocidade descomunal. E então ele se empalidece; a luz vinha contra eles.

- É o tanque!!

No teto do túnel, o tanque avança e se colide contra uma aeronave da comitiva, atropelando-o com a fúria de um trem-bala.   

Primeiro a aeronave se despedaça em milhares de pedaços. Em seguida uma esfera de chamas a engole, fazendo-a cair em pequenos intervalos de capotamentos até finalmente se arrastar pelo chão. Yang se horroriza; com todos as aeronaves da comitiva abatidas, ele deve proteger o presidente sozinho.

Não havia tempo para se lamentar. Um minuto depois o tanque retorna, movendo-se sinistramente pelas paredes do túnel em um movimento espiral.

Vendo que o tanque subia e descia do teto, Yang é obrigado a contar com os reflexos do líder para se esquivar. Desta vez todos devem ser rápidos.

Algo diferente acontece. O tanque não passa por eles; ao invés ele fica atrás, perseguindo-os como uma fera assassina. E então o inimigo libera suas bombas.

- Senhor, dirija-se para frente do Wénzi! Rápido!

“Afirmativo!”.

- Navcom, consegue apontar o Canhão Xichang para trás?

- Sim, senhor.

Yang ouve o canhão abaixo do Wénzi se mover, girando-se até apontar para trás. O piloto aperta o gatilho e atira, disparando o azulado laser.

Utilizando sua formidável agilidade, o tanque tenta se esquivar, mas nada podia ser feito contra o laser que se ricocheteava pelas paredes, atingindo-o em todos os lados.

Uma das articulações do tanque não suporta os danos e se rompe, desativando o campo magnético de sua ponta. Outra articulação se estoura e se desprende também, comprometendo o veículo.

Yang se anima. Concentrando-se, ele não para de atirar, completamente ignorando os danos das bombas que danificavam o Wénzi simultaneamente.

- Escudos a 49%.

- Escudos a 36%.

Alertas começavam a serem emitidos dentro do Wénzi. Uma luz vermelha e giratória se acende. Se continuasse recebendo danos, Yang estaria em perigo.

O duelo parece favorecer Yang. As articulações do tanque têm mal funcionamento e ele se despenca do teto, caindo de ponta-cabeça como uma tartaruga. 

“Ele foi abatido?”, pergunta o líder.

Yang também observa. O tanque parecia não reagir.

Antes que pudesse responde-lo, as articulações se movem novamente e ele se vira, voltando a ficar em pé. Curtos-circuitos percorriam sua carapaça, as articulações expeliam fumaça e os orifícios estavam destruídos. Mas apesar dos danos, ainda lhe havia vontade de lutar.

O tanque volta a persegui-los com fúria e vingança. Então a luz branca se forma em seu canhão e brilha no escuro ambiente. Sabendo o que aquilo significa, Yang exclama:

- Ele vai atirar! Prepare-se!

O canhão se recarrega e então atira. Yang e a aeronave presidencial se esquivam, mas o magnífico laser se alarga, torrando-os com seu altíssimo calor.

Yang e o líder fogem, acelerando sob o teto que se desabava entre escombros e poeira. O tanque seguia logo atrás, pronto para abate-los.

Quando o laser perde a força, ele se diminui e se apaga lentamente. Aproveitando a chance, Yang aperta o gatilho e dispara o canhão Xichang contra o inimigo. O laser ricocheteia para dentro do canhão do tanque, percorrendo lá dentro. Algo acontece e o canhão inimigo se explode, neutralizando-o completamente.

Agora o tanque estava desarmado. Yang e o líder não comemoram, ao invés eles aceleram e intentam fugir. Mas o inimigo não os deixaria fugir tão facilmente.

Uma reação em cadeia parece ocorrer; rachaduras aparecem na carapaça e fachos de luz e energia iluminam o exterior. O veículo se aproximara de seu estado crítico. Não podendo mais atacar ou subir pelas paredes, o tanque utiliza seu último recurso: ele se arremete contra o inimigo intentando atropela-lo. 

Acelerando, ele avança em velocidade assustadora contra Yang e o líder. O piloto exclama:

- Senhor, fuja! Ele vai explodir!

Acompanhando-os, o tanque intentava se autodestruir e engoli-los na poderosa explosão.

Mas Yang não ia deixar o inimigo destruí-los assim. Fugindo em alta velocidade, ele aperta o gatilho e dispara o canhão Xichang. O laser ricocheteia e penetra as rachaduras da carapaça inimiga. Pedaços se soltam e caem pelo túnel, expondo o interior do veículo e causando pequenas explosões.

Não podendo mais suportar os danos causados pelo Wénzi, o tanque perde a força e se desacelera. Então, precedendo seu fim, uma enorme luz branca surge em seu interior e, em um piscar de olhos, ocorre a devastadora explosão.

O som ensurdecedor reverbera pelo túnel e a tenebrosa onda de fogo avança contra eles. De tão poderosa, Yang pensa ser uma pequena detonação nuclear. Ativando a velocidade máxima, Yang e o líder fogem desesperadamente do fogo e do calor.

O fogo se aproxima. Wénzi sente o deslocamento abrupto de ar e treme, parecendo desfazer-se no ar. A aeronave presidencial também treme, expelindo de suas turbinas a velocidade máxima.

A onda de fogo estava a metros de distância. Sem direção para se propagar, o único caminho era através deles. O calor desgasta Yang, alertas e mais alertas são emitidos na cabine. A luz vermelha e o som alto o irritam, mas não havia tempo para distração.

Milagrosamente, o painel indicava o fim do túnel. Dos alto-falantes, Yang ouve o presidente ordenar desesperadamente que as comportas de aço se abram. O operador no outro lado parece ouvir as comportas se abrem lentamente. O piloto vê a tão esperada luz do dia, agraciando-o como se ele tivesse chegado ao Paraíso.

As aeronaves irrompem pela saída do túnel, como se tivessem sido paridas das entranhas da Terra. Logo atrás a violenta explosão se expande pelo ar, liberando sua fúria em uma enorme bola de fogo.

Yang se alivia. Ele sobreviveu a explosão.

- Essa foi por pouco... – sussurra ele.

Mas o alívio dura pouco também.

Ao ar livre, ele vê a cidade portuária de Tianjin sendo devastada pela invasão. Os enxames bombardeavam os edifícios, reduzindo-os a escombros e poeira. Incêndios se alastravam livremente. Aviões da Força Aérea cruzavam o céu, mas não podiam resistir ao ágil inimigo. No Rio Haihe, a icônica roda gigante Tian Jin Zhi Yan, ponto turístico da cidade desde sua inauguração em 2017, jazia tombada e retorcida sobre a água.

Mensagens chegavam ininterruptamente no comunicador; eram os inúmeros pedidos de socorro do Exército, Aeronáutica e da Marinha. Abatido, Yang percebe. As forças de defesa chinesas estavam esgotadas com a massiva invasão.

Avançando pela cidade, eles chegam ao Porto de Tianjin. O porto era um local movimentado e estratégico, essencial para a economia da China. Sua vastidão o impressiona; contêineres e gruas estavam por toda parte.

Os enxames sobrevoavam o porto, lançando suas bombas. Algumas gruas foram tombadas pelo ataque, derrubando pilhas inteiras de contêineres. No solo, soldados e tanques do exército tentam abatê-los, mas são facilmente vencidos. Yang presenciava um banho de sangue.

No mar, o piloto vê navios da Marinha atirando com seus canhões. Eles miram os ares, mas são lentos demais. Mesmo as imensas metralhadoras montadas não são capazes de abater os enxames do ar. Um a um, os navios são bombardeados na costa, alguns sendo consumidos pelo fogo e outros naufragando na água.

O porto de Tianjin estava completamente dominado pelo inimigo.

O líder da extinta comitiva diz:

“Piloto Haisheng, a cidade caiu! Temos que deixar Tianjin!

- Mas para onde vamos? – pergunta Yang.

“Há um porta-aviões ao norte. Deixarei o presidente lá. O Alto Comando saberá o que fazer”.

Mudando de direção, Yang segue pela rota no Mar Bohai. A aeronave presidencial voa baixo, passando por vários navios tombados e em chamas. Yang segue logo atrás, presenciando a luta de marinheiros feridos e náufragos agarrando-se a botes salva-vidas para sobreviver.

Poucos quilômetros à frente, o piloto avista o porta-aviões na costa de Tianjin. Aviões decolam do colossal veículo enquanto que suas torretas atiram nos enxames. Perto do porta-aviões, mísseis surgem do mar e se ascendem ao céu, voando contra alvos na cidade; eram os submarinos da Marinha chinesa.

Yang se anima. Ele estava prestes a cumprir sua missão, mas ainda havia uma cidade para defender.

Então algo acontece.

Sob o pôr-do-sol, sons perturbadores surgem no céu. Yang se intriga, os sons se assemelhavam ao sopro de trombetas. As nuvens reviravam-se sinistramente, arrastadas por algo muito grande. Todos no mar, desde os combatentes até os náufragos na água, param para ver aquilo.

E então o mistério se revela. Aeronaves colossais pairam sobre a cidade, sobrevoando o céu de Tianjin. Yang não consegue acreditar nos seus olhos. Pálido de horror, ele avista uma frota de naves com altura de um prédio de cem andares, e comprimento e largura de bairros de inteiros. Mas sua arquitetura era mais medonha. O piloto vê naves pontudas, com diversas asas pontiagudas e luzes verdes ao longo de sua extensa carcaça.   

A maior das aeronaves parecia ser a nave-mãe, mas todas eram tão grandes que Yang acha difícil diferencia-las. Para seu espanto, aquelas naves eram maiores do que o temível cruzador sobre Shangai.

Uma das imensas naves emite um forte brilho de sua abertura inferior. Yang sabe o que isso significa. De repente a nave atira, disparando um devastador raio laser com diâmetro ainda maior do que o laser do vencido tanque. O brilho ofusca seus olhos, fazendo-o se proteger. O raio apunhala o céu e atinge o porta-aviões onde Yang ia pousar.

O laser rasga o convés em dois, derretendo o aço com o calor de mil sóis. Em seguida o porta-aviões entra em colapso e se rompe, combalindo-se em uma devastadora explosão. Yang está boquiaberto.

Como em Shangai, enxames e mais enxames de são liberados das terríveis naves. Seu número excessivo sublevaria o minúsculo Shenzhou Wénzi; o piloto não poderia combatê-los e proteger a aeronave presidencial ao mesmo tempo.

Os enxames avistam o Wénzi e então arremetem contra ele. Não havia para onde fugir, o Wénzi estava com o escudo baixo e precisava ser reabastecido. Ele certamente seria destruído. Naquele momento, Yang enxerga somente o seu fim.

De repente uma aeronave estranha passa por ele, assustando-o. Yang reconhece uma aeronave anfíbia.

“Com licença, Piloto Haisheng! Eu preciso passar!”.

Yang reconhece a voz.

- Tenente-General Junlong?! – espanta-se ele – Como chegou até aqui?!

“Cale a boca e me escute!”, interrompe ele. “Pequim foi tomada e agora também Tianjin! Não há mais local seguro neste país! A única opção é seguir para Tiangong!”.

O piloto se confunde.

- Tiangong...?! Mas ela fica no espaço! E eu não sei se o Wénzi consegue chegar em órbita!”.

“Temos uma missão a cumprir, soldado! Precisamos tirar o presidente em segurança daqui!”.

Yang olha ao redor. Abatendo aviões e bombardeando navios, os enxames se aproximam.

- E como subiremos ao espaço com o inimigo nos perseguindo? Temos que combatê-los primeiro!

“Não se preocupe. Eu vou atrai-los para longe. Você e a aeronave presidencial sigam para Tiangong. E não ouse voltar!”.

   - Mas Junlong...!

Antes que pudesse responde-lo, o tenente-general muda de curso e ataca os enxames, atirando com uma ineficiente metralhadora de helicóptero. Os enxames respondem à provocação, mudando de rumo e perseguindo Junlong. Yang vê o tenente-general sozinho sobre o mar e então decide ajuda-lo. Mas uma voz no comunicador diz:

“Piloto Haisheng! Devemos concluir a missão!”.

Era o líder da extinta comitiva.

- Eu não vou deixa-lo para trás!

“Você recebeu ordens diretas, soldado! Obedeça!”.

Então o piloto hesita. A extração do presidente estava sob sua responsabilidade. Se o presidente morresse, toda a unidade militar e política da China se desfaleceria. Yang seria preso e certamente executado pela Corte Marcial. Seu nome seria infame e ele mancharia a honra da sua família, incluindo seus ancestrais. Yang, sendo um homem adulto, jamais deixaria isso acontecer.

- Sim, senhor. – responde ele, a contragosto.

Yang move os manches e o Wénzi começa a subir.

Um minuto depois, ele ouve um grito no comunicador. Era Junlong.

Olhando para baixo, ele vê a aeronave anfíbia ser rodeada de inimigos. Os enxames atiram suas bombas e as asas da aeronave se despedaçam. Agora nada mais podia salvar Junlong.

- Não! Eu tenho que voltar!

“Negativo, soldado! Cumpra a missão!”.

Para sua surpresa, era Junlong no comunicador.

- Mas, senhor...!

“Ora, você não ouviu o que eu disse hoje pela manhã?”, pergunta ele. “As águas são os formadores de dragões, mas antes eles devem sobreviver a raios caindo do céu”, relembra ele. “Ora, o poderoso laser inimigo não pode ser considerado esse raio do céu?”.

Yang não entende.

- Senhor, esta não é uma boa hora para mitologia! O senhor deve fugir!

Uma explosão é ouvida. A aeronave de Junlong se colapsava aos poucos.  

“Aqui já tem a água...”, diz ele, referindo-se ao mar. “E também já tem o raio...”, ele se refere ao laser da nave-mãe. “E você ainda pensa que eu perderia a chance de me tornar um dragão?”.

E então os enxames desferem o ataque final. A aeronave anfíbia se explode no ar, voando alguns metros em chamas até finalmente se colidir contra as águas abaixo.  

Yang se desespera, pranteando a perda de seu velho amigo.

“Piloto Haisheng! Aqui é Li Fen! O que aconteceu com meu pai?”.

O piloto não consegue responder.

“Yang, responda-me!”.

O piloto se afunda em silêncio.

“Responda-me!!”.

Mas nada seria dito.

Com o luto pesando em seu coração, apenas o silêncio o acompanhava naquele momento, como um inaudível consolador.

Wénzi e a aeronave presidencial apenas prosseguem em seu caminho, assim concluindo a sua fuga da Terra.

  

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...