domingo, 21 de janeiro de 2024

Shenzhou Wénzi - 06 - Pequim 2460 EC

 


(Arte de Antarik Fox)


Pequim, 2460 EC, ou 511 após a Revolução Maoísta.

Nuvens amarelas encobrem o céu de Pequim. Desde o final do século 20 a cidade sofria com a pesada poluição do ar. A rápida industrialização, propiciada nos anos de 1980 pelo secretário-geral Deng Xiao, obrigou o governo a explorar velhas fontes de energia, como o carvão. A consequência de tal decisão perseguiu a sociedade chinesa por anos. Problemas de saúde estouraram entre os chineses; estatísticas de doenças pulmonares e cardiovasculares surgiram, assim como casos de diabetes, hipertensão e câncer.    

Mas a capital, de até então 100 milhões de habitantes, ainda teria mais um flagelo pela frente.

Em 2040 os Estados Unidos entram em guerra com a China. Os americanos não conseguiram realizar um ataque nuclear, mas suas ogivas foram interceptadas nos céus de Pequim, espalhando radiação na estratosfera.  

Finada a guerra, a radiação permaneceu no céu pequinês. O governo chinês estimou que a contaminação ficaria no ar pelos próximos mil anos, e então eles tiveram uma audaciosa ideia: transferir a sociedade para o subterrâneo de Pequim.

A construção das vastas galerias subterrâneas foi a maior obra que a humanidade já realizou. Abaixo do solo, cerca de 5 mil quilômetros quadrados foram explorados, dando o nascimento a uma nova cidade, com reservatórios de água limpa, ar despoluído, prédios, escolas, mercados e transporte público. Na superfície, apenas serviços essenciais permaneceram, como prédios governamentais e instalações industriais.

Desta maneira, a sociedade pequinesa estava a salvo da contaminação acima.

 

§

 

Enquanto avança pelas nuvens amarelas, Yang se recorda de seu último encontro com Li Fen.

No módulo espacial horas atrás, ele se prepara para a missão. É um pouco difícil se vestir em gravidade zero, mas ele já está acostumado. Ele veste seu avançado traje e segue pelo módulo. Os engenheiros preparam o Wénzi no lado de fora, reparando suas avarias e revisando os sistemas de navegação. Ele pensa como, séculos antes, ser um taikonauta era algo fantástico. Toda a humanidade gostaria de conhecer o espaço, mas hoje aquilo era totalmente corriqueiro e poucos ainda se interessavam pela profissão.

Então ele vê Li Fen passando atrás dele. Apressando-se, ele a alcança e diz:

- Xiàwǔ hǎo[1], Li Fen. Como vai?

Com olhar sério, ela responde:

- Piloto Haisheng? O que quer?

- Na verdade é sobre isso o que eu quero lhe falar. Escute, não precisa me chamar de “Piloto Haisheng” o tempo todo. Somos amigos, lembra-se?

- Amigos? Do que você está falando?

- Nós somos amigos de infância! Não precisa manter a formalidade comigo. Eu não sei por que me chama assim, talvez queira passar uma boa impressão para o Alto Comando, mas não precisa ser tão fria comigo. Nós somos amigos e eu gostaria que continuasse assim.

Apesar do semblante sério, os olhos de Li Fen parecem corar.

- Escute aqui, seu moleque! Nós não somos amigos; nunca fomos! Você é só um batedor de bolas que, por alguma razão, chamou a atenção do meu pai! Ele é seu amigo; não eu. – afirma ela – Você pode continuar se achando um “herói” pelo que fez em Shanghai, mas eu ainda sou sua superiora e é melhor você me tratar como tal, está entendendo?

Yang se espanta.

- Li Fen, por que está falando assim?

- Zhong xiao[2] Li Fen. – corrige ela – E você é só um Zhong Wei[3] aviador. Portanto, me respeite senão você voltará a jogar tênis de mesa para sobreviver, está me ouvindo?

- Mas Li Fen...!

- Eu perguntei, está me ouvindo?! – repete ela, impondo sua autoridade.

Desanimado, Yang respira fundo e responde:

- Sim, Tenente-Coronel.

- Ótimo.

Então Li Fen lhe presta continência e lhe dá as costas, indo embora em seguida.

Yang ouve uma explosão abaixo de sua nave, quebrando-o de sua distração. Navcom informa:

- Yang, detecto presença inimiga na cidade abaixo.

- Entendido, Navcom. Prepare os armamentos. Nós vamos descer.

Torres de instalações industriais atravessam as nuvens amarelas. Movendo os manches, o piloto mergulha pelos gases tóxicos em direção à cidade. O Wenzí atravessa o véu amarelo e, ao sair, Yang contempla a fascinante capital do mundo.

Pequim estava mergulhada em poluição. Instalações industriais se estendiam por toda parte, com suas chaminés soltando fogo e fumaça. Abaixo, os prédios da velha cidade permaneciam cobertos por um véu de fuligem. Alguns aparentavam funcionamento, mas a maioria parecia desabitado e abandonado há décadas. Yang vê alguns prédios iluminados a frente; eram as sedes dos prédios oficiais do governo.

As avenidas estavam desertas. As árvores arduamente sobreviviam em meio à poluição. Os rios fluíam livremente sem a presença humana. Em contraste com o abandono, Yang vê apenas carros próximos aos prédios oficiais, mas eram poucos.

Yang se impressiona. Era como se a capital chinesa tivesse se tornado um vasto pátio industrial. Poucas vezes ele teve a chance de visitar a cidade durante sua carreira de piloto. Quando veio, ele ficou em bases afastadas, longe do manto tóxico de poluição. Mas agora, ao penetrar o coração da cidade, era como se ele estivesse lhe desvendando segredos.

A megalópole era imensa; Yang passava apenas em seus arrabaldes. Ao se aproximar do centro, ele finalmente vê. Acima das altas torres, os temíveis cruzadores pairavam sobre Pequim. O centro financeiro de negócios estava em chamas. O topo da torre CITIC, também conhecido como “China Zun”, queimava livremente, sem ninguém para apagar o incêndio. A fachada do belíssimo CCTV estava toda quebrada e estilhaçada. A famosa Cidade Proibida, de onde Mao proclamou a Revolução, teve seus telhados bombardeados e arruinados. Lamentavelmente todo o distrito de Chaoyang era dominado pelo inimigo.

Os enxames surgem entre o fogo. Eles flagelavam a cidade com suas bombas de energia, reduzindo-a a cinzas. Yang avista o Grande Salão do Povo, a imponente sede do Parlamento chinês. Baterias de artilharia antiaérea protegiam a entrada, mas eram pouco eficientes contra as ágeis aeronaves alienígenas. O piloto também vê tanques e artilharia antiaérea espalhados pela Praça da Paz Celestial, em sua maioria destruída pelo inimigo. Drones chineses bombardeavam os enxames, providenciando um modesto suporte aéreo. Entretanto, ele não pode ver os caças da Força Aérea em lugar algum.

Yang nota que no topo de um prédio havia artilharias chinesas combatendo os enxames. De repente um facho de laser desce do céu e arrasa o prédio, queimando o equipamento com sua brilhante luz. O piloto olha para cima e se estarrece ao ver que o laser veio de um cruzador.

Diferente dos cruzadores de Shanghai, em Pequim eles atacavam ativamente a cidade. Seu ataque feroz se assemelhava ao fulminante laser do Tiān Jiāng, apelido dado pelo Alto Comando ao general das forças de invasão de sua cidade.

Yang relembra sua missão. Com o Shenzhou Wenzí, ele deve limpar o espaço aéreo de Chaoyang e proteger a fuga do presidente chinês.

- Preparando-me para atacar o inimigo. Câmbio. – informa Yang.

O piloto aperta os botões e destrói três naves alienígenas. Fazendo ousadas manobras, ele persegue um enxame e os aniquila, salvando uma fileira de tanques na rua. Ao vê-lo, as equipes abrem suas escotilhas e acenam, agradecendo ao jovem herói de Shanghai.

No topo de um prédio, uma equipe de artilharia antiaérea sofre para resistir ao inimigo. As bombas de energia se aproximam como esferas da morte, destruindo o equipamento e encurralando-os contra a parede; os enxames brincavam com eles. Mas de repente, se elevando atrás deles, o Wenzí dispara mísseis teleguiados e os pulveriza no ar.

Desta maneira, o Wenzí segue pelo céu de Pequim. Yang salva as equipes de artilharia. Lentas e pesadas, elas não tem a menor chance contra os enxames. Então os soldados hasteiam bandeiras da China sobre os terraços, simbolizando a esperança.

Os drones tentam, mas não conseguem abater os robustos cruzadores com seus mísseis. Então lasers descem do céu e arrasam a Praça da Paz Celestial, avariando o exército chinês concentrado naquela posição. Preocupado, Yang fala ao comunicador:

- Piloto para base. Eu vou atacar os cruzadores sobre a praça. Câmbio.

“Negativo, tenente”.

Yang se assusta; ele reconhece aquela voz. Ao olhar para o lado, uma brigada de caças cruza o céu. Intrigado, ele pergunta:

- Pode repetir a mensagem, por favor?

“Yang, sou eu, Junlong. É bom estar voando de novo”.

Espantado, ele responde:

- Tenente-General? O senhor voando? Como?

“Com essa guerra, não existem mais pilotos disponíveis, então eu me voluntariei”.

Yang se intriga.

- E eles o deixaram vir?

Junlong humoradamente responde:

“Não”.

Ambos riem.

- Senhor, caças Chengdu e Shenyang não são eficazes contra os enxames. A China precisa empregar novas armas contra os alienígenas, como o Wenzí.

“Ora, deixe esta velha raposa voar!”, pede ele. “Além disso, a China não estava preparada para um inimigo vindo do espaço. Ninguém na Terra poderia prever esta tecnologia alienígena. Coincidentemente, ao projetarmos o Shenzhou Wenzí, nós apenas brincávamos com as novas tecnologias no mercado. A vinda do enxame foi apenas uma coincidência”.

Então Yang reconhece; o verdadeiro herói era Junlong, e não ele.

- Fico feliz em ter um excepcional tutor e um amigo, senhor!

“Sem bajulações!”, ordena ele, brincando. “Piloto Haisheng, você tem novas ordens. O presidente não está aqui; ele está no subsolo. O inimigo conseguiu se infiltrar no nível inferior da cidade. Suas novas ordens são limpar o local e assegurar a fuga do presidente”.

- Entendido. Devo partir imediatamente?

“Ainda não”, responde ele. “Vá para o Aeroporto Internacional de Pequim. Os militares desenvolveram uma nova arma e querem instala-la no Wenzí. Disseram que é ultra eficiente em locais fechados, como o subterrâneo. Li Fen lhe passará as coordenadas”.

Então, sem nenhuma palavra da assistente, Yang recebe a localização. Tratava-se de um hangar oculto no aeroporto da cidade.

- Entendido, senhor. E obrigado.

“Boa sorte, garoto. Me deixe orgulhoso”.

Em seguida Junlong manobra seu caça Chengdu e se afasta.

Yang deixa o espaço aéreo da praça Tiananmen[4]. Enquanto se afasta, a brigada de Junlong combate bravamente os enxames.

O aeroporto se aproxima. O piloto vê os terminais arrasados e em chamas. Os aviões comerciais jaziam destruídos na pista e os hangares tiveram seus telhados derrubados pelas bombas inimigas. Aparentemente os invasores quiseram impedir qualquer chance de fuga dos habitantes.

Uma voz robótica surge em seu comunicador.

“Piloto Haisheng do Shenzhou Wenzí. Entrada permitida”.

Uma escotilha secreta se abre atrás de um hangar. A tampa de concreto da própria pista se move e revela um túnel vertical negro, iluminado por holofotes verdes. Yang se impressiona.

Enquanto desce, a escotilha se fecha e o encerra lá embaixo. Com a invasão, Yang conhecia bases que eram ocultas até a pilotos experientes como ele.

Ao chegar lá embaixo, ele vê uma instalação secreta com centenas de militares e engenheiros. Haviam protótipos de aviões pelo lugar, mas nenhum tão fora do convencional quanto o Wenzí. Ele também vê mísseis balísticos intercontinentais lá embaixo, adormecidos em seus silos como deuses mitológicos hibernando, aguardando o momento de despertarem para punir a humanidade.

“Piloto Haisheng, aqui é Zhang, o engenheiro chefe desta instalação. Bem-vindo à base secreta de Pequim”.

Yang lentamente pousa o Wenzí. Ao descer da nave, os engenheiros se aproximam, cercando-a para vê-la. Eles conversam entre si, uns contemplando e outros admirando a aeronave às suas frentes.

O engenheiro chefe se aproxima e diz:

- Olá, Piloto Haisheng. Prazer em conhece-lo.

Yang tira seu capacete e responde:

- O prazer é todo meu, Zhang.

- Creio que o Tenente-General Junlong já te informou da razão de estar aqui.

- Sim, senhor.

Indicando o caminho, o chefe dos engenheiros diz:

- Acompanhe-me, por favor.

Os dois então andam pela instalação subterrânea. Zhang comenta:

- No centro espacial de Xichang, nossa equipe desenvolveu um armamento inovador nunca antes testado em combate. Ele foi projetado para ser usado em ambientes fechados, confinados por paredes duras, como o concreto, ou mesmo a rocha, como as cavernas. – indicando um equipamento sobre a mesa, ele continua – O armamento dispara lasers que ricocheteiam contra as paredes, avançando em trajetórias distintas, mas sempre em frente contra o inimigo. Deixe-me fazer uma demonstração.

Zhang ativa o equipamento. Ao concentrar uma fortíssima luz em sua ponta, o cano dispara contra um estreito túnel artificial. Yang vê impressionado o laser batendo nas paredes e então prosseguindo novamente, mudando apenas de trajetória, mas nunca de direção.

- Incrível...!

- Obviamente não colocaremos um protótipo tão pequeno em sua nave. Ao contrário, aqui nós temos algo mais adequado para elevar o Wenzí ao seu mais alto potencial.

Ao olhar para trás, Yang vê engenheiros soldando e parafusando estruturas complementares, adaptando-as na fuselagem do Shenzhou Wenzí. Em seguida os engenheiros se aproximam com o novo armamento. Yang vê dois dispositivos cônicos, formando dois longos canos, um em cada lado da nave. 

- Utilize-o com cuidado, Piloto Haisheng. Por ter um ricochete altamente letal, o laser pode causar fogo amigo. Na esquadrilha é aconselhável que você vá na frente.

Com olhar ainda surpreso, Yang responde:

- Sim, senhor. Obrigado, senhor.

 

§

 

Yang retorna à superfície.

Ao passar pela escotilha, aviões de caça e naves do enxame cruzam o céu; a batalha continua no ar.

As nuvens amarelas obstruem a luz do sol, mas o piloto pode ver. A brigada de Junlong lutava bravamente, apesar da evidente desvantagem tecnológica. Yang percebe que, sem a ajuda dos canhões antiaéreos sobre os prédios, os caças já teriam sido abatidos facilmente. Enfrentar os enxames com caças era desastroso, não importava o quão avançados fossem.

- Tenente-General Junlong, solicito permissão para auxiliá-lo em combate.

“Negativo, Piloto Haisheng! Você deve seguir imediatamente para o subterrâneo de Pequim”.

- Mas e quanto a aeronáutica e o exército?

“Eles assumem daqui. Agora apresse-se! A comporta logo vai se abrir”.

Li Fen lhe passa as coordenadas. Yang então segue para os arredores de Pequim. Lá ele se depara com um paredão rochoso na montanha. De repente uma porta gigantesca se abre, soprando o gás amarelo da atmosfera para longe. Enquanto se abre, uma luz giratória vermelha ofusca sua vista, mas ele consegue ver. O interior era vasto e escuro, cuja profundidade lhe era intimidadora.

Alguém no comunicador diz:

“Piloto Haisheng! Entre, por favor. Esta comporta não pode ficar aberta por muito tempo”.

Yang passa pela enorme entrada e desce em direção às entranhas da Terra.

Mais abaixo, ele ouve sons de água jorrando em torrentes. Navcom liga automaticamente as luzes e o piloto vê reservatórios de água contidas em grossas paredes de concreto. Ao observar bem, ele reconhece canais subterrâneos; era o abastecimento de Pequim.

De repente a voz de Junlong surge no comunicador.

“Yang, você sabe como surgem os dragões?”.

Intrigado com a súbita pergunta, ele responde:

- Não, senhor.

“Na mitologia chinesa, a água é a formadora dos dragões. Eles não nascem assim, mas têm sua origem nos peixes e nas serpentes dos rios. Esses animais se tornam dragões a partir de descargas elétricas vindas do céu, como raios. Estas descargas são o último estágio antes de se tornar um dragão, e se o peixe ou a serpente sobreviver, ele efetivamente se torna um”.

Fazendo uma breve pausa, ele continua.

“Diferente das mitologias ocidentais, na China os dragões não são maus. Aqui eles são benevolentes e protetores, e cada um tem uma função específica, prestando auxílio para aqueles que os invocam”.  

- Muito interessante, senhor. – responde Yang.

De fato, seu tutor era muito erudito na cultura chinesa.

Um minuto depois, algo acontece. Um ruído diferente surge junto com o fluxo das águas. Ao olhar para o lado, o piloto vê uma aeronave anfíbia voando sobre os canais. Então a voz no comunicador diz:

“Olá de novo, Yang”.

Intrigado, o piloto pergunta:

- Junlong?!

A aeronave se aproxima do Wenzí. Os holofotes na carenagem o ofuscam, mas ele consegue ver. Junlong estava lá dentro, em pé atrás dos assentos dos condutores na cabine.

Surpreso, Yang pergunta:

- Junlong, o que está fazendo aqui?

Sorrindo, o tenente-general leva seu comunicador ao rosto e responde:

- Você pensou que eu perderia a chance de me tornar um dragão?

 

          



[1] “Boa tarde” em chinês

[2] “Tenente-Coronel” em chinês

[3] “Primeiro-Tenente” em chinês

[4] “Paz celestial” em chinês

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Shenzhou Wénzi - 05 - Tiān Jiāng


(Artista desconhecido)
 

Yang verifica seus estoques. Os armamentos haviam se esgotado; o combustível estava a meio reservatório e as cargas de escudo estavam perigosamente baixas. Ainda haviam enxames lá embaixo; para combatê-los, ele solicita a Li Fen a aeronave de reabastecimento. 

Minutos depois a interessante aeronave chega. Yang vê o que o Alto Comando chama de “módulo de reabastecimento”. O módulo plaina no ar semelhante ao Wénzi; ele também era movida a propulsores ao longo de sua fuselagem. Parando abaixo de sua nave, o módulo estica braços retráteis e abre os compartimentos. Em seguida, os braços se aproximam e repõem os armamentos. Yang os ouve sendo instalados abaixo de si. Um braço retorna trazendo mais um recurso; desta vez eram as cargas do escudos Kinect. Yang ouve o som das cargas energizarem o corpo da nave.

Por último, um mangote se conecta ao reservatório de combustível e o abastece. Como nos foguetes, o Wénzi é movido a propelente, este desenvolvido especialmente para a nave. Diferente dos propelentes do século 20 e 21, o propelente do Wénzi não e cancerígeno e, se exposto ao ser humano, tem índice mínimo de letalidade, tudo para garantir a saúde do piloto no interior da aeronave.

De repente algo acontece; Navcom emite um sirene de alerta. Assustando, Yang o ouve repetidamente dizer:

- Aeronave imensa se aproximando! Repito! Aeronave imensa se aproximando...!

O piloto olha ao redor, mas não entende. Os dois cruzadores restantes plainavam no ar, mas estavam danificados e fora de operação, ficando apenas a soltar fumaça pela atmosfera. Então as nuvens se reviram no céu, sendo arrastadas por algo espantosamente grande atrás delas.

“Piloto Haisheng! Esta mensagem é para informar que uma aeronave muito grande acaba de penetrar a órbita terrestre. O Alto Comando pede precaução”.

Sussurrando, Yang responde:

- Afirmativo, assistente Li Fen... Eu estou vendo esta aeronave agora mesmo...

Um cruzador maior aparece. O piloto vê uma aeronave massiva de fuselagem curvilínea e ramificações como patas em seu entorno. Sua cor era temivelmente negra e ele projetava uma larga sombra na cidade. De maneira aproximada, o cruzador se assemelhava a um caranguejo.      

Por seu tamanho e aparência nefasta, Yang estima ser a aeronave do general alienígena, aquele responsável pela invasão de Shanghai.   

“Piloto Haisheng, detecto a aeronave próxima da sua posição! Informe!” – ordena Li Fen.

Ainda perplexo, Yang responde:

- Vejo um enorme cruzador, tão grande quanto uma nuvem negra de tempestade! Estranhamente ele se parece com um pángxiè[1].

O cruzador se aproxima do Wénzi. Yang percebe que, de fato, sua nave se parecia com um mosquito perto daquela fortaleza aérea. Centenas de torretas são visíveis acima e abaixo da aeronave; em suas patas haviam imensos propulsores e um enorme canhão de energia no meio de seu corpo. Estranhamente ele não vê portas ou janelas; era como se o cruzador se selasse completamente ao entrar em combate.

De sua carenagem, um scanner laser faz uma varredura no pequeno Wénzi. A luz vermelha percorre o interior da cabine e ofusca os olhos de Yang. Petrificado, ele não sabe o que fazer.

De repente uma interferência surge em seu comunicador, quebrando-o de seu transe. Uma voz aguda e um pouco gutural fala em um idioma ininteligível. Pela primeira vez desde a invasão de Shanghai, Yang ouve a voz do invasor alienígena.

Confuso com a estranha mensagem, Yang ouve um ruído metálico vindo do cruzador e então percebe: ele estava apontando seus canhões para o Wénzi. Tiros são disparados e então o céu se enche das bombas de energia. Os canhões disparavam coordenadamente, com fileiras atirando enquanto outras se recarregavam. Assustando-se, Yang se depara com uma avalanche de projéteis; ele novamente estava em um inferno de balas.

Movendo os manches em um impulso, ele se esquiva rapidamente. Centenas de bombas voavam pelo ar. Esquivando-se freneticamente, ele novamente percebe: no controle do Wénzi, os reflexos eram imprescindíveis.

Algumas bombas o atinge, trepidando-o e fazendo Navcom emitir um aviso. Para seu alívio, os escudos Kinect absorviam o impacto, com as bombas lhe causando poucos danos.

Evadindo do topo da aeronave, Yang busca abrigo em seu bordo inferior. Ele se espanta ao constatar que ali embaixo também haviam canhões, e todos apontavam para ele. O piloto não podia continuar apenas se esquivando, ele tinha de contra-atacar imediatamente.

Yang pensa. A metralhadora faria pouco dano na fuselagem metálica do cruzador. As bombas apenas teriam vantagem se fosse lançados em cima. Então ele escolhe. Os mísseis podem ser interceptados pelas bombas antes de chegarem ao alvo, mas era sua única opção ali embaixo.

Carregando seus armamentos, ele se aproxima do cruzador e atira. Os mísseis avançam furiosamente pelo ar; alguns são abatidos, infelizmente, mas outros atingem os canhões. A explosão danifica as torretas, tirando-as de operação.

Ainda se desviando dos tiros, Yang faz um voo espiralado e aperta os botões. Mais mísseis são lançados e atingem o bordo inferior da aeronave. As explosões alcançam o estoque de munições e causam uma reação em cadeia, abrindo um rasgo no cruzador.

O espaço aéreo ali embaixo se alivia. Yang pode voar com mais calma, mas ainda não era o momento para descansar.

Enquanto retorna para a parte superior, uma das patas do cruzador se estica e o atinge. Yang grita; o impacto é tão forte que o Wénzi poderia se despedaçar. Navcom imediatamente o alerta:

- Yang, o disparador de mísseis foi danificado e está fora de operação. Tempo de reparo estimado: cinco minutos. Escudos Kinect a 53%.

O piloto se surpreende; o imenso cruzador usava seu próprio corpo para atacar. Perplexo, ele percebe que, em combate, o invasor usava táticas não convencionais e desconhecidas no planeta Terra.

“Piloto Haisheng, eu ouvi um grito! O que houve?”.

- Li Fen, o cruzador pode atacar utilizando sua própria fuselagem! Eles não são como nós!

O jovem piloto quer dizer que utilizar o corpo da aeronave em pleno voo para bater nos inimigos significa morte certa. Li Fen, sendo também uma piloto, sabe disso.

A assistente demora um pouco para responder.

“Entendido. Eu informarei o Alto Comando. Câmbio e desligo”.

E então Yang vê o cruzador movendo suas patas articuladas como um imenso caranguejo. Em meio a centenas de bombas de energia, ele teria de tomar cuidado para não ser abatido com um golpe.

Olhando bem, Yang identifica mangueiras nas articulações das patas. Ele seleciona sua metralhadora e alinha o Wénzi. Apertando o botão, os projéteis cruzam o céu e atingem as mangueiras. Para a surpresa do piloto, os tiros abrem furos nas mangueiras e óleo se espirra, contaminando as nuvens. Um míssil bem dado ali romperia as patas da aeronave. Ele se alegra.

Voando sobre a nave, Yang nota uma luz forte e amarelada emanando do canhão no meio do cruzador. Ocupado demais com as patas e as bombas, ele não tem tempo de lhe dar atenção. De repente um raio concentrado e intenso passa por detrás do Wénzi. O calor infernal o aflige e Navcom imediatamente intervém, liberando ar gelado na cabine.

O laser colossal atinge os prédios lá embaixo, pulverizando-os como se uma criança brincasse com uma lupa gigante. Yang fica boquiaberto.   

O piloto não pode deixar aquele raio atingir sua nave. O assombroso poder do laser arrasa prédios de concreto e aço. Se atingi-lo, o Wénzi se consumirá no ar.

Ponderando, ele reconhece. Com as patas do cruzador ativas, aproximar-se do canhão laser seria impossível. Ele é obrigado a atirar nos pontos fracos das articulações, isso enquanto se esquiva das bombas de energia.

Em seu voo, ele usa sua metralhadora. Os tiros são ineficazes; as balas ricocheteiam no corpo metálico da aeronave, mas ele não tem escolha, o disparador de mísseis ainda não estava reparado.     

Enquanto se desvia das bombas, ele se alegra ao ver que as patas danificadas perdiam a força e se movimentavam lentamente. Então ele ouve outro som.

O enorme canhão se energiza e dispara o laser. Yang move os manches e tira o Wénzi da trajetória. O laser continua seu caminho e torra outra parte da cidade abaixo. Agora os incêndios estavam por toda parte.

- Yang, disparador de mísseis reparado com sucesso.

A voz robótica de Navcom surge como a de um anjo salvador.

- Obrigado, Navcom.

Aproximando-se das patas danificadas, Yang é atingido algumas vezes, mas continua obstinado ao seu alvo. Apertando os botões, ele atira os mísseis e se afasta. As explosões são fortes e capazes de romper a articulação do cruzador. A pata se desconecta e se solta do corpo da nave, caindo livremente pelo céu e se espatifando no trânsito lá embaixo.

O canhão se energiza novamente e o cruzador atira. O raio mortal passa pelo Wénzi e devasta a cidade, desta vez pulverizando os prédios do distrito de Minhang. As outras patas defendiam o canhão. Yang não tinha tempo a perder; o laser estava reduzindo Shanghai a cinzas.

Avançando sobre o cruzador, Yang é atingido mais vezes. Wénzi trepidava e balançava; ao mesmo tempo, Navcom lhe informava os danos.

“Escudos a 47%”.

“Escudos a 39%”.

“Escudos a 31%”.

Seus mísseis voam pelo ar. A explosão desconecta outra pata e ele cai na cidade.

Assim Yang prossegue em combate, esquivando-se das bombas, do raio mortal e dos golpes do próprio cruzador. Mais patas são destruídas, abrindo caminho para o canhão. Mas ainda não era seguro ataca-lo. Os canhões menores o atrapalhavam com sua saraivada de bombas. Ele tinha de neutraliza-los primeiro.

Sobrevoando o cruzador, ele espera o raio laser e então avança entre as bombas. Selecionando suas bombas de fósforo branco, ele aperta o botão e então as libera pelo topo da aeronave inimiga.

As explosões devastam os canhões, soltando uma asfixiante fumaça branca em seguida. Enquanto o fósforo corrói o metal, Yang constata: tanto as patas quanto seus canhões menores não lhe representavam mais ameaça.

Manobrando o Wénzi, Yang se dirige ao canhão laser e se prepara. O laser novamente é disparado, provocando a pulverização de mais um prédio cheio de inocentes. Yang nota que o canhão não podia mais lhe fazer mal algum, pois voava por detrás dele e além de seu alcance.

Selecionando seus mísseis, Yang aponta para a base do terrível canhão e atira. As explosões iluminam o céu, alcançando as cargas de energia dentro do cruzador. Um fogo intenso incendeia seu interior e uma fumaça preta se exala pelas nuvens. O canhão se deforma e se tomba, desconectando-se em uma sequência de explosões destruidoras.

O cruzador entra em estado crítico. Quem quer que fosse seu comandante, padecia nas enormes temperaturas provocadas pelos incêndios. E então algo imprevisível acontece.

Após os danos, compartimentos se abrem e expõem os núcleos de energia dentro do cruzador. Yang vê gigantescos condutores brilhantes percorrendo a aeronave. Ele estima que o comandante abriu os compartimentos para liberar o calor, mas sua abertura seria fatídica.

Yang seleciona suas bombas e, fazendo um perigoso rasante sobre a aeronave inimiga, as libera sobre os núcleos de energia.

Antes que pudesse contemplar o efeito das bombas, uma ofuscante luz afeta os seus olhos e ele grita, tapando-os com as mãos. A explosão dos núcleos é tão forte que se assemelha à detonação de uma bomba nuclear. O clarão o cega momentaneamente e ele apenas ouve sons abafados implodindo o cruzador por dentro.

E assim Yang vence o cruzador com formato de caranguejo. Em chamas, o inimigo se desaba do céu, caindo livremente até se espatifar nas águas do Rio Huangpu.       

Um silêncio triunfante paira no ar. Yang flutua nas nuvens, cansado, mas satisfeito com o que fizera.

Um minuto depois, uma mensagem chega ao seu comunicador.

“Piloto Haisheng? Está na escuta? Piloto Haisheng? Responda-me!”.

Limpando os olhos, Yang responde:

- Estou na escuta, assistente Li Fen! Pode falar!

“Abortar a missão! Eu repito: abortar a missão!”.

- O quê?! Do que está falando? Câmbio.

“A missão fracassou! A invasão não está no fim! Você deve recuar!”.

Yang ainda não consegue entender, mas não era mais necessário o entendimento.

Olhando para cima, mais dez cruzadores descem pelo céu. Yang se estarrece. Sabendo da quantidade exorbitante de enxames que viriam, ele reconhece: não havia mais esperança.

E assim ele responde:

- Afirmativo, assistente Li Fen! Eu vou recuar...!

Abalado, ele manobra o Wénzi e foge da cidade, abandonando Shanghai.

 

§

 

O Alto Comando deixa definitivamente Shanghai para trás. Da janela da nave, o Tenente General Junlong contempla a devastação de sua cidade. Shanghai havia sucumbido ao inimigo e agora agonizava em chamas. Os demais generais também se lamentam, mas todos mantém seu silêncio férreo, rígidos em postura militar, diante da maior hecatombe na cidade desde a Segunda Guerra Mundial.

As naves tripuladas ascendem pelas nuvens e atravessam a mesosfera, chegando finalmente em órbita. Do espaço, o Alto Comando tem o escopo real da invasão; todo o leste da China era devastado pelo invasor alienígena. As maiores cidades caíam sob seu poder superior.

Uma hora depois, o Shenzhou Wénzi se aproxima e se atraca à nave lá fora. O espaço não era um local seguro; eles precisam se apressar.

Em uma sala de guerra improvisada, Yang e os generais estudam o Yiqún. Eles constatam que os cruzadores não eram exatamente naves de combate, e sim transportadores de enxames. Os cruzadores não esperavam um contra-ataque, sobretudo de naves como o Wénzi, e não estavam preparadas para o confronto.

O Alto Comando também constata a soberba dos alienígenas, pois eles desprezavam a resistência terráquea, esta liderada pela China. Os invasores contavam apenas com sua superioridade tecnológica e bélica para a invasão. Por esta razão, seus cruzadores não possuíam qualquer escudo ou barreira de energia, e estavam inteiramente vulneráveis a ataques surpresa vindos dos humanos.

Yang comenta que suas armas foram altamente eficazes contra o inimigo, e que conseguiu abater cruzadores imensos com armamentos comuns. Os enxames, embora numerosos, não conseguiram abatê-lo, pois sua vantagem era sobre os aviões de caça convencionais. Para a humanidade, o Wénzi foi seu maior trunfo.

O jovem piloto também comenta sobre a voz alienígena no seu comunicador. Ele a descreve com confusão e dificuldade, pois nunca havia ouvido algo tão distinto. Ele a descreve como palavras formadas por algo além das cordas vocais.

Uma chamada de emergência interrompe a reunião. O Alto Comando de Shanghai recebia uma ligação diretamente de Pequim.

Pequim estava satisfeita com o sucesso do Wénzi, mas não era o suficiente para conter a invasão. O Ministério da Defesa Nacional pretende bombardear o espaço aéreo das grandes cidades. Eles querem usar mísseis balísticos carregados com ogivas termonucleares nos foguetes Dongfeng. Hologramas se formam sobre a mesa para todos visualizarem. Mas antes de iniciarem o ataque, Pequim ordena a extração do Presidente em segurança, e para limpar o caminho eles solicitam o apoio do Wénzi.

Os generais recebem a ordem, respondendo em seguida ao Ministro:

- Shi de xiānshēng![2]

Todos se prontificam; não havia tempo a perder.

Então Yang veste seu capacete e se prepara para a missão.

 



[1] “Caranguejo” em chinês

[2] “Sim, senhor” em chinês

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...