(Arte de Antarik Fox)
Pequim, 2460 EC,
ou 511 após a Revolução Maoísta.
Nuvens amarelas
encobrem o céu de Pequim. Desde o final do século 20 a cidade sofria com a
pesada poluição do ar. A rápida industrialização, propiciada nos anos de 1980
pelo secretário-geral Deng Xiao, obrigou o governo a explorar velhas fontes de energia,
como o carvão. A consequência de tal decisão perseguiu a sociedade chinesa por
anos. Problemas de saúde estouraram entre os chineses; estatísticas de doenças
pulmonares e cardiovasculares surgiram, assim como casos de diabetes,
hipertensão e câncer.
Mas a capital, de
até então 100 milhões de habitantes, ainda teria mais um flagelo pela frente.
Em 2040 os
Estados Unidos entram em guerra com a China. Os americanos não conseguiram
realizar um ataque nuclear, mas suas ogivas foram interceptadas nos céus de
Pequim, espalhando radiação na estratosfera.
Finada a guerra,
a radiação permaneceu no céu pequinês. O governo chinês estimou que a
contaminação ficaria no ar pelos próximos mil anos, e então eles tiveram uma
audaciosa ideia: transferir a sociedade para o subterrâneo de Pequim.
A construção das
vastas galerias subterrâneas foi a maior obra que a humanidade já realizou. Abaixo
do solo, cerca de 5 mil quilômetros quadrados foram explorados, dando o
nascimento a uma nova cidade, com reservatórios de água limpa, ar despoluído,
prédios, escolas, mercados e transporte público. Na superfície, apenas serviços
essenciais permaneceram, como prédios governamentais e instalações industriais.
Desta maneira, a
sociedade pequinesa estava a salvo da contaminação acima.
§
Enquanto avança
pelas nuvens amarelas, Yang se recorda de seu último encontro com Li Fen.
No módulo
espacial horas atrás, ele se prepara para a missão. É um pouco difícil se
vestir em gravidade zero, mas ele já está acostumado. Ele veste seu avançado
traje e segue pelo módulo. Os engenheiros preparam o Wénzi no lado de fora,
reparando suas avarias e revisando os sistemas de navegação. Ele pensa como,
séculos antes, ser um taikonauta era algo fantástico. Toda a humanidade gostaria
de conhecer o espaço, mas hoje aquilo era totalmente corriqueiro e poucos ainda
se interessavam pela profissão.
Então ele vê Li
Fen passando atrás dele. Apressando-se, ele a alcança e diz:
- Xiàwǔ hǎo[1],
Li Fen. Como vai?
Com olhar sério,
ela responde:
- Piloto
Haisheng? O que quer?
- Na verdade é
sobre isso o que eu quero lhe falar. Escute, não precisa me chamar de “Piloto
Haisheng” o tempo todo. Somos amigos, lembra-se?
- Amigos? Do que você
está falando?
- Nós somos
amigos de infância! Não precisa manter a formalidade comigo. Eu não sei por que
me chama assim, talvez queira passar uma boa impressão para o Alto Comando, mas
não precisa ser tão fria comigo. Nós somos amigos e eu gostaria que continuasse
assim.
Apesar do
semblante sério, os olhos de Li Fen parecem corar.
- Escute aqui,
seu moleque! Nós não somos amigos; nunca fomos! Você é só um batedor de bolas
que, por alguma razão, chamou a atenção do meu pai! Ele é seu amigo; não eu. –
afirma ela – Você pode continuar se achando um “herói” pelo que fez em
Shanghai, mas eu ainda sou sua superiora e é melhor você me tratar como tal,
está entendendo?
Yang se espanta.
- Li Fen, por que
está falando assim?
- Zhong xiao[2]
Li Fen. – corrige ela – E você é só um Zhong
Wei[3]
aviador. Portanto, me respeite senão você voltará a jogar tênis de mesa para
sobreviver, está me ouvindo?
- Mas Li Fen...!
- Eu perguntei,
está me ouvindo?! – repete ela, impondo sua autoridade.
Desanimado, Yang
respira fundo e responde:
- Sim,
Tenente-Coronel.
- Ótimo.
Então Li Fen lhe
presta continência e lhe dá as costas, indo embora em seguida.
Yang ouve uma
explosão abaixo de sua nave, quebrando-o de sua distração. Navcom informa:
- Yang, detecto
presença inimiga na cidade abaixo.
- Entendido,
Navcom. Prepare os armamentos. Nós vamos descer.
Torres de instalações
industriais atravessam as nuvens amarelas. Movendo os manches, o piloto
mergulha pelos gases tóxicos em direção à cidade. O Wenzí atravessa o véu
amarelo e, ao sair, Yang contempla a fascinante capital do mundo.
Pequim estava
mergulhada em poluição. Instalações industriais se estendiam por toda parte,
com suas chaminés soltando fogo e fumaça. Abaixo, os prédios da velha cidade
permaneciam cobertos por um véu de fuligem. Alguns aparentavam funcionamento,
mas a maioria parecia desabitado e abandonado há décadas. Yang vê alguns
prédios iluminados a frente; eram as sedes dos prédios oficiais do governo.
As avenidas
estavam desertas. As árvores arduamente sobreviviam em meio à poluição. Os rios
fluíam livremente sem a presença humana. Em contraste com o abandono, Yang vê
apenas carros próximos aos prédios oficiais, mas eram poucos.
Yang se
impressiona. Era como se a capital chinesa tivesse se tornado um vasto pátio
industrial. Poucas vezes ele teve a chance de visitar a cidade durante sua
carreira de piloto. Quando veio, ele ficou em bases afastadas, longe do manto
tóxico de poluição. Mas agora, ao penetrar o coração da cidade, era como se ele
estivesse lhe desvendando segredos.
A megalópole era
imensa; Yang passava apenas em seus arrabaldes. Ao se aproximar do centro, ele
finalmente vê. Acima das altas torres, os temíveis cruzadores pairavam sobre
Pequim. O centro financeiro de negócios estava em chamas. O topo da torre
CITIC, também conhecido como “China Zun”, queimava livremente, sem ninguém para
apagar o incêndio. A fachada do belíssimo CCTV estava toda quebrada e
estilhaçada. A famosa Cidade Proibida, de onde Mao proclamou a Revolução, teve
seus telhados bombardeados e arruinados. Lamentavelmente todo o distrito de
Chaoyang era dominado pelo inimigo.
Os enxames surgem
entre o fogo. Eles flagelavam a cidade com suas bombas de energia, reduzindo-a
a cinzas. Yang avista o Grande Salão do Povo, a imponente sede do Parlamento
chinês. Baterias de artilharia antiaérea protegiam a entrada, mas eram pouco
eficientes contra as ágeis aeronaves alienígenas. O piloto também vê tanques e
artilharia antiaérea espalhados pela Praça da Paz Celestial, em sua maioria
destruída pelo inimigo. Drones chineses bombardeavam os enxames, providenciando
um modesto suporte aéreo. Entretanto, ele não pode ver os caças da Força Aérea
em lugar algum.
Yang nota que no
topo de um prédio havia artilharias chinesas combatendo os enxames. De repente
um facho de laser desce do céu e arrasa o prédio, queimando o equipamento com sua
brilhante luz. O piloto olha para cima e se estarrece ao ver que o laser veio
de um cruzador.
Diferente dos
cruzadores de Shanghai, em Pequim eles atacavam ativamente a cidade. Seu ataque
feroz se assemelhava ao fulminante laser do Tiān
Jiāng, apelido dado pelo Alto Comando ao general das forças de invasão de
sua cidade.
Yang relembra sua
missão. Com o Shenzhou Wenzí, ele deve limpar o espaço aéreo de Chaoyang e
proteger a fuga do presidente chinês.
- Preparando-me
para atacar o inimigo. Câmbio. – informa Yang.
O piloto aperta
os botões e destrói três naves alienígenas. Fazendo ousadas manobras, ele
persegue um enxame e os aniquila, salvando uma fileira de tanques na rua. Ao
vê-lo, as equipes abrem suas escotilhas e acenam, agradecendo ao jovem herói de
Shanghai.
No topo de um
prédio, uma equipe de artilharia antiaérea sofre para resistir ao inimigo. As
bombas de energia se aproximam como esferas da morte, destruindo o equipamento
e encurralando-os contra a parede; os enxames brincavam com eles. Mas de
repente, se elevando atrás deles, o Wenzí dispara mísseis teleguiados e os
pulveriza no ar.
Desta maneira, o
Wenzí segue pelo céu de Pequim. Yang salva as equipes de artilharia. Lentas e
pesadas, elas não tem a menor chance contra os enxames. Então os soldados
hasteiam bandeiras da China sobre os terraços, simbolizando a esperança.
Os drones tentam,
mas não conseguem abater os robustos cruzadores com seus mísseis. Então lasers
descem do céu e arrasam a Praça da Paz Celestial, avariando o exército chinês
concentrado naquela posição. Preocupado, Yang fala ao comunicador:
- Piloto para
base. Eu vou atacar os cruzadores sobre a praça. Câmbio.
“Negativo,
tenente”.
Yang se assusta;
ele reconhece aquela voz. Ao olhar para o lado, uma brigada de caças cruza o
céu. Intrigado, ele pergunta:
- Pode repetir a
mensagem, por favor?
“Yang, sou eu,
Junlong. É bom estar voando de novo”.
Espantado, ele
responde:
-
Tenente-General? O senhor voando? Como?
“Com essa guerra,
não existem mais pilotos disponíveis, então eu me voluntariei”.
Yang se intriga.
- E eles o
deixaram vir?
Junlong humoradamente
responde:
“Não”.
Ambos riem.
- Senhor, caças
Chengdu e Shenyang não são eficazes contra os enxames. A China precisa empregar
novas armas contra os alienígenas, como o Wenzí.
“Ora, deixe esta
velha raposa voar!”, pede ele. “Além disso, a China não estava preparada para
um inimigo vindo do espaço. Ninguém na Terra poderia prever esta tecnologia
alienígena. Coincidentemente, ao projetarmos o Shenzhou Wenzí, nós apenas
brincávamos com as novas tecnologias no mercado. A vinda do enxame foi apenas
uma coincidência”.
Então Yang
reconhece; o verdadeiro herói era Junlong, e não ele.
- Fico feliz em ter
um excepcional tutor e um amigo, senhor!
“Sem bajulações!”,
ordena ele, brincando. “Piloto Haisheng, você tem novas ordens. O presidente
não está aqui; ele está no subsolo. O inimigo conseguiu se infiltrar no nível inferior
da cidade. Suas novas ordens são limpar o local e assegurar a fuga do
presidente”.
- Entendido. Devo
partir imediatamente?
“Ainda não”,
responde ele. “Vá para o Aeroporto Internacional de Pequim. Os militares
desenvolveram uma nova arma e querem instala-la no Wenzí. Disseram que é ultra
eficiente em locais fechados, como o subterrâneo. Li Fen lhe passará as
coordenadas”.
Então, sem
nenhuma palavra da assistente, Yang recebe a localização. Tratava-se de um
hangar oculto no aeroporto da cidade.
- Entendido,
senhor. E obrigado.
“Boa sorte,
garoto. Me deixe orgulhoso”.
Em seguida Junlong
manobra seu caça Chengdu e se afasta.
Yang deixa o
espaço aéreo da praça Tiananmen[4].
Enquanto se afasta, a brigada de Junlong combate bravamente os enxames.
O aeroporto se
aproxima. O piloto vê os terminais arrasados e em chamas. Os aviões comerciais
jaziam destruídos na pista e os hangares tiveram seus telhados derrubados pelas
bombas inimigas. Aparentemente os invasores quiseram impedir qualquer chance de
fuga dos habitantes.
Uma voz robótica
surge em seu comunicador.
“Piloto Haisheng
do Shenzhou Wenzí. Entrada permitida”.
Uma escotilha
secreta se abre atrás de um hangar. A tampa de concreto da própria pista se
move e revela um túnel vertical negro, iluminado por holofotes verdes. Yang se
impressiona.
Enquanto desce, a
escotilha se fecha e o encerra lá embaixo. Com a invasão, Yang conhecia bases
que eram ocultas até a pilotos experientes como ele.
Ao chegar lá
embaixo, ele vê uma instalação secreta com centenas de militares e engenheiros.
Haviam protótipos de aviões pelo lugar, mas nenhum tão fora do convencional
quanto o Wenzí. Ele também vê mísseis balísticos intercontinentais lá embaixo,
adormecidos em seus silos como deuses mitológicos hibernando, aguardando o
momento de despertarem para punir a humanidade.
“Piloto Haisheng,
aqui é Zhang, o engenheiro chefe desta instalação. Bem-vindo à base secreta de
Pequim”.
Yang lentamente
pousa o Wenzí. Ao descer da nave, os engenheiros se aproximam, cercando-a para
vê-la. Eles conversam entre si, uns contemplando e outros admirando a aeronave
às suas frentes.
O engenheiro
chefe se aproxima e diz:
- Olá, Piloto
Haisheng. Prazer em conhece-lo.
Yang tira seu
capacete e responde:
- O prazer é todo
meu, Zhang.
- Creio que o
Tenente-General Junlong já te informou da razão de estar aqui.
- Sim, senhor.
Indicando o
caminho, o chefe dos engenheiros diz:
- Acompanhe-me,
por favor.
Os dois então
andam pela instalação subterrânea. Zhang comenta:
- No centro
espacial de Xichang, nossa equipe desenvolveu um armamento inovador nunca antes
testado em combate. Ele foi projetado para ser usado em ambientes fechados,
confinados por paredes duras, como o concreto, ou mesmo a rocha, como as
cavernas. – indicando um equipamento sobre a mesa, ele continua – O armamento
dispara lasers que ricocheteiam contra as paredes, avançando em trajetórias
distintas, mas sempre em frente contra o inimigo. Deixe-me fazer uma
demonstração.
Zhang ativa o
equipamento. Ao concentrar uma fortíssima luz em sua ponta, o cano dispara
contra um estreito túnel artificial. Yang vê impressionado o laser batendo nas
paredes e então prosseguindo novamente, mudando apenas de trajetória, mas nunca
de direção.
- Incrível...!
- Obviamente não
colocaremos um protótipo tão pequeno em sua nave. Ao contrário, aqui nós temos
algo mais adequado para elevar o Wenzí ao seu mais alto potencial.
Ao olhar para
trás, Yang vê engenheiros soldando e parafusando estruturas complementares,
adaptando-as na fuselagem do Shenzhou Wenzí. Em seguida os engenheiros se
aproximam com o novo armamento. Yang vê dois dispositivos cônicos, formando
dois longos canos, um em cada lado da nave.
- Utilize-o com
cuidado, Piloto Haisheng. Por ter um ricochete altamente letal, o laser pode
causar fogo amigo. Na esquadrilha é aconselhável que você vá na frente.
Com olhar ainda
surpreso, Yang responde:
- Sim, senhor. Obrigado,
senhor.
§
Yang retorna à
superfície.
Ao passar pela
escotilha, aviões de caça e naves do enxame cruzam o céu; a batalha continua no
ar.
As nuvens
amarelas obstruem a luz do sol, mas o piloto pode ver. A brigada de Junlong
lutava bravamente, apesar da evidente desvantagem tecnológica. Yang percebe
que, sem a ajuda dos canhões antiaéreos sobre os prédios, os caças já teriam
sido abatidos facilmente. Enfrentar os enxames com caças era desastroso, não
importava o quão avançados fossem.
- Tenente-General
Junlong, solicito permissão para auxiliá-lo em combate.
“Negativo, Piloto
Haisheng! Você deve seguir imediatamente para o subterrâneo de Pequim”.
- Mas e quanto a
aeronáutica e o exército?
“Eles assumem
daqui. Agora apresse-se! A comporta logo vai se abrir”.
Li Fen lhe passa
as coordenadas. Yang então segue para os arredores de Pequim. Lá ele se depara
com um paredão rochoso na montanha. De repente uma porta gigantesca se abre,
soprando o gás amarelo da atmosfera para longe. Enquanto se abre, uma luz giratória
vermelha ofusca sua vista, mas ele consegue ver. O interior era vasto e escuro,
cuja profundidade lhe era intimidadora.
Alguém no comunicador
diz:
“Piloto Haisheng!
Entre, por favor. Esta comporta não pode ficar aberta por muito tempo”.
Yang passa pela
enorme entrada e desce em direção às entranhas da Terra.
Mais abaixo, ele
ouve sons de água jorrando em torrentes. Navcom liga automaticamente as luzes e
o piloto vê reservatórios de água contidas em grossas paredes de concreto. Ao observar
bem, ele reconhece canais subterrâneos; era o abastecimento de Pequim.
De repente a voz
de Junlong surge no comunicador.
“Yang, você sabe
como surgem os dragões?”.
Intrigado com a
súbita pergunta, ele responde:
- Não, senhor.
“Na mitologia
chinesa, a água é a formadora dos dragões. Eles não nascem assim, mas têm sua
origem nos peixes e nas serpentes dos rios. Esses animais se tornam dragões a
partir de descargas elétricas vindas do céu, como raios. Estas descargas são o
último estágio antes de se tornar um dragão, e se o peixe ou a serpente
sobreviver, ele efetivamente se torna um”.
Fazendo uma breve
pausa, ele continua.
“Diferente das
mitologias ocidentais, na China os dragões não são maus. Aqui eles são
benevolentes e protetores, e cada um tem uma função específica, prestando auxílio
para aqueles que os invocam”.
- Muito
interessante, senhor. – responde Yang.
De fato, seu tutor
era muito erudito na cultura chinesa.
Um minuto depois,
algo acontece. Um ruído diferente surge junto com o fluxo das águas. Ao olhar
para o lado, o piloto vê uma aeronave anfíbia voando sobre os canais. Então a
voz no comunicador diz:
“Olá de novo,
Yang”.
Intrigado, o
piloto pergunta:
- Junlong?!
A aeronave se
aproxima do Wenzí. Os holofotes na carenagem o ofuscam, mas ele consegue ver. Junlong
estava lá dentro, em pé atrás dos assentos dos condutores na cabine.
Surpreso, Yang
pergunta:
- Junlong, o que
está fazendo aqui?
Sorrindo, o tenente-general
leva seu comunicador ao rosto e responde:
- Você pensou que
eu perderia a chance de me tornar um dragão?

