segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Shenzhou Wénzi - 07 - Missão: Extração


(Arte de Jukka Lehto)

 

Enquanto avançam sobre os canais subterrâneos, algo se movimenta no fundo e então algo acontece. Aeronaves diferentes emergem das águas, atirando para todos os lados e, em seguida, imergindo novamente. Yang e Junlong se esquivam bruscamente, evitando seus projéteis de curso aleatório.

As águas se movem e mais aeronaves emergem, atirando para todos os lados e em seguida imergindo. Os dois se confundem. As aeronaves se assemelhavam a guarda-chuvas e, ao atirarem, seus compartimentos se esvaziavam e elas voltavam para o fundo.

Não havia tempo para reflexão. Yang se prontifica e atira de volta, esquivando-se e contra-atacando. Ele nota que a inusitada arma instalada horas atrás era muito eficaz, e funcionava conforme o esperado. O Canhão Xichang dispara seus lasers azulados e eles ricocheteiam pelo túnel escuro, criando um espetáculo de cores e destruição. De fato, o laser muda de direção várias vezes, tornando a vanguarda perigosa inclusive para as aeronaves aliadas. Para o bem de todos, o Wénzi deveria ficar na dianteira durante a operação.

Yang e Junlog se atentam. A aparição do novo inimigo evidenciava que ele também havia se infiltrado no subterrâneo de Pequim. Agora a segurança de toda a capital estava comprometida; eles precisavam se apressar.

A formidável agilidade do Wénzi novamente se evidencia e o piloto abate muitos inimigos. Junlong, por sua vez, tem dificuldade em sua aeronave anfíbia e fica para trás.

Yang pergunta:

- Senhor, o senhor precisa de ajuda?

“Negativo, tenente Haisheng! Você tem uma missão para cumprir!”.

A aeronave de Junlong é atingida e se sacode no ar.

- Mas, senhor...!

“Saia daqui!”, exclama ele. “Isso é uma ordem!”.

O piloto pensa em voltar, mas o tenente-general conclui:

“Câmbio e desligo”.

Em seguida o canal de comunicação é desligado.

Yang avança destemidamente. Logo os túneis estreitos se alargam e ele contempla a vasta capital subterrânea. Pequim era uma cidade pulsante e colorida. Passarelas elevadas conectavam os prédios, tirando a necessidade dos pedestres de descerem ao nível do solo. O piloto vê praças nos terraços dos edifícios, semelhantes às praças elevadas de Shenzhen.   

Painéis solares captavam a luz através de tubos conectados à superfície. Yang vê lâmpadas de luz ultravioleta nos apartamentos e nas ruas. Aparentemente os pequineses tinham grande preocupação com a falta de luz solar e a umidade.

Veículos elétricos estavam por toda parte. Carros, motos e caminhões, todos os automotores eram movidos a eletricidade e nenhum era movido a combustão, considerado obsoleto pela China. O piloto percebe que a nova capital se esforçava para manter a qualidade do ar.

Algo lhe chama a atenção. Na nova Pequim, ele nota muitas pessoas pelas ruas e passarelas acima. Nem em Hong Kong ele viu tantos prédios reunidos, espremidos no curtíssimo espaço que lhes sobravam. Residências, comércios, escolas e prédios do governo, todos dividiam o pequeno espaço com rígida organização. Em Pequim, a densidade habitacional se aproximava à famigerada cidade murada de Kowloon, demolida entre 1993 e 1994 em Hong Kong.

A área da cidade era imensa. O espaço se assemelhava à famosa “Catedral Subterrânea” de Tóquio, uma megaestrutura que escoava as águas da região metropolitana japonesa. Entretanto, a cidade subterrânea de Pequim era vinte mil vezes maior.   

A população estava alvoroçada e se preparava para evacuar o subsolo. As vias públicas estavam lotadas, mas as autoridades tentavam manter o controle. Diferente de Shanghai que mergulhara no caos, em Pequim ainda havia ordem.

Yang avança por entre as passarelas e prédios. Lá embaixo ele vê alguns prédios do governo e também embaixadas estrangeiras. Diferente da superfície, desolada e contaminada por gases tóxicos, a verdadeira capital do mundo encontrava-se no nível inferior. De fato, Pequim nunca deixou de ser a capital de um império. No passado ela abrigou dinastias; no presente ela abriga um novo império, muito mais vasto e poderoso do que antes, que se estende pelo Sistema Solar.

De repente um ataque acontece.

As fachadas dos prédios se explodem, lançando estilhaços por toda parte. O som ensurdecedor reverbera pelo subterrâneo, apavorando os pequineses. Com o ataque repentino, as suspeitas se comprovam; o inimigo adentrara o subterrâneo. E então o caos se alastra.

Os enxames surgem entre os prédios. Acima e abaixo das passarelas, as fileiras de aeronaves alienígenas sobrevoam a cidade, soltando suas bombas e espalhando a destruição.

Yang se vê cercado de enxames. Sem hesitar, ele aperta o botão e atira, disparando o azulado laser do Canhão Xichang. Como esperado, o laser destrói os inimigos, mas continua seu percurso ricocheteando pelos edifícios. O piloto assiste horrorizado o laser ricochetear e atingir as pessoas abaixo, imediatamente incinerando-as vivas. Yang se paralisa.

A nave se estremece.

"Escudos a 84%".

O susto o acorda novamente. O Wénzi havia sido atingido.

Olhando ao redor, os enxames atacavam impiedosamente. Eles não tinham um alvo específico, apenas atiravam aleatoriamente nas ruas e prédios abarrotadas de pessoas. Yang percebe, eles intentavam cometer um genocídio.

Manobrando o Shenzhou Wénzi, Yang combate os enxames passando por cima e por baixo das passarelas. A aeronave tem alta eficiência com o novo armamento; o tiro ricocheteia pelos prédios e pilares, mas põe em perigo população pega no fogo cruzado.

O piloto é obrigado a ignorar o trágico efeito colateral causado nos civis próximos. Ricocheteando de um lado ao outro, o laser avança pela cidade, destruindo o inimigo e torrando seres humanos. Naquele dia, a morte vinha em uma aeronave humana e tinha seu manto iluminado de azul.

As autoridades oferecem suporte. No topo dos prédios, o exército instala canhões antiaéreos. Na superfície, tanques preparam sua torretas. Porém, os canhões são pouco usados, pois há risco dos tiros danificarem as estruturas urbanas. A defesa ficaria exclusivamente no Wénzi.

Abaixo, a infantaria auxilia na evacuação dos civis. Alguns são impiedosamente bombardeados pelos enxames. Da aeronave, Yang podia ouvir os gritos das vítimas feridas pelo ataque. Sua agonia parte o coração do piloto.

Yang se prontifica para ajudar, mas uma voz surge no comunicador de repente.

“Piloto Haisheng! Aqui é o Tenente-General Junlong”.

- Junlong...?! – espanta-se ele – O senhor está bem?

“Já estive melhor”, responde ele. “Yang, prossiga para o seu objetivo. Repito. Prossiga para o seu objetivo”.

- Mas, senhor! O exército não tem a menor chance lá embaixo!

“É uma ordem, tenente!”.

Contrariado, o piloto acata em silêncio. Junlong sempre foi um bom soldado e nunca descumpriria uma missão.

Sem tempo a perder. Yang manobra o Wénzi e continua seu percurso até o prédio do governo mundial de Pequim.

 

§

 

O prédio do governo era uma réplica adaptada do antigo Zhongananhai[1]. Ao lado, ele também vê o prédio do Parlamento, também uma réplica dos antigos prédios da Praça da Paz Celestial. Na superfície, Yang localiza a escolta oficial do presidente. O Politiburo, oficiais e demais autoridades do governo chinês, querem fugir também e todos estão em pânico.

Seguranças armados formam uma fileira na saída do Parlamento. Aeronaves com fuselagem reforçada pousam por perto, aguardando o embarque dos oficiais. Bombas de energia se explodem ao longe, provocando estrondos e assustando-os. Um tiroteio se forma. Os enxames surgem de repente, serpenteando no ar em voos circulares e atirando suas bombas de energia. Os seguranças respondem atirando com seus fuzis, mas pouco podem fazer contra um inimigo incomum.

A comitiva do Polituburo corre pela superfície se protegendo atrás dos seguranças. Bombas atingem os carros no chão e se explodem, fazendo muitos voarem pelos ares. Em meio às baixas, os oficiais correm desesperados, em pânico tentando alcançar as aeronaves. Quando o último oficial entra, eles fecham as portas e ordenam a decolagem. Os seguranças correm até as aeronaves e estapeiam as portas, implorando para eles abri-las. Mas seu pedido nunca fora atendido. As aeronaves levantam voo e vão embora. Em horror Yang percebe: o Politiburo usou os seguranças como escudo humano e os deixou para trás.  

A escolta do presidente estava logo abaixo. Yang vê seis formidáveis aeronaves de combate. Ele se impressiona com o armamento e a armadura das aeronaves. Aqueles veículos eram admiráveis e não seriam entregues a qualquer piloto. Mesmo Yang, com seu imenso talento, poderia passar a vida inteira tentando uma oportunidade de pilotá-las e, mesmo assim, nunca ser convocado. Mas como o destino é imprevisível a todos os homens, hoje ele pilota uma nave que, provavelmente, não será pilotada por mais ninguém.

O presidente é levado para dentro do carro por um pelotão inteiro do exército. Yang não pode deixar de se impressionar; ele só havia visto o presidente pela televisão. A comitiva de aerocarros forma uma fileira, três na frente e três atrás do carro presidencial. Um canal de comunicação se abre e o Navcom transmite a mensagem.

“Piloto Haisheng, estamos prontos para partir”.

A cidade atrás deles estava mergulhada no caos. Toda aquela pulsante paisagem subterrânea, iluminada por holofotes e painéis de neon, agora era iluminada por fogo de artilharia e explosões. Chamas subiam pelos prédios e escapavam por janelas estilhaçadas. Por entre a negra fumaça e gritos dos inocentes, o numeroso inimigo voava inclemente.

 Yang diz:

- Líder da escolta, não podemos voltar pela cidade! Não posso garantir a segurança da comitiva por ali!

“Negativo, piloto! Iremos tomar outro rumo”.

- Outro rumo?

Navcom recebe o download de uma rota alternativa, um rota de fuga secreta a ser usada apenas pela comitiva presidencial. No painel do Wénzi, Yang reconhece um túnel sinuoso escondido abaixo de milhões de toneladas de concreto de toda Pequim.

Liderados por Yang, eles seguem em direção do túnel secreto.

Enxames aparecem, mas o piloto os combate bravamente. O Canhão Xichang novamente comprova seu valor, ricocheteando pelas paredes e confundindo o inimigo. Atrás, a comitiva segue Yang, mas tem certa dificuldade em acompanhar a manobrabilidade aguda do Wénzi.

Os lasers do Canhão Xichang ricocheteiam pelas passarelas abarrotadas. Muitas pessoas são atingidas, sendo fulminadas pelo quentíssimo calor. Outros tiros ricocheteiam e entram pelas janelas dos edifícios, vitimando dezenas de inocentes lá dentro.

Uma voz conhecida surge no comunicador:

“Piloto Haisheng! Aqui é o Secretário Geral do Partido! Ordeno que pare com essa carnificina agora!”.

Yang sente um frio na barriga.

- Senhor Presidente...?! Eu...

“Ordeno que controle o seu gatilho, piloto!”.

Respirando fundo, Yang responde:

- Senhor, eu não posso! A trajetória do laser não pode ser controlada!

De fato, o Canhão Xichang tinha a função de exterminar, não distinguindo o que estava a sua frente.

Pelo teto da vasta cidade, haviam enormes hélices em constante movimento. Elas forneciam ar para a cidade e outras sugavam para fora o calor, como um exaustor. Ao sobrevoar uma hélice, Yang sente a poderosa corrente de ar empurrando-o para baixo. Em outra hélice, o piloto tem que se acautelar para não ser sugado para cima. Os enxames, por serem menores e mais leves, perdem o controle e se chocam contra as hélices, explodindo e danificando as instalações de exaustão.

Navcom indica precisamente o caminho. Yang ataca e é atacado, com dezenas de bombas de energia cruzando sua vista. Tremores abalam a fuselagem do Wénzi; ele estava sendo atingido.

“Escudos a 78%”.

“Piloto Haisheng, o espaço aéreo ainda está muito carregado. Preciso que o torne seguro imediatamente!”. – diz o líder da comitiva.

Sem opções, Yang é forçado a contra-atacar. O belíssimo laser ricocheteia por toda parte, ferindo e fulminando dezenas de pessoas lá embaixo.

A rota de fuga presidencial os levam para uma maciça comporta, semelhante à dos abrigos nucleares. Ao aproximar-se, luzes amarelas giram e uma sirene de alerta soa. A comporta era tão pesada que seu simples movimento estremecia o chão e as paredes ao redor.

A comitiva aguarda a comporta se abrir e Yang combate os enxames logo atrás, abatendo-os sem dificuldade. As numerosas bombas voam por toda parte, atingindo algumas aeronaves da comitiva. Além do Wénzi, as aeronaves humanas não podiam resistir ao inimigo.

“Piloto Haisheng, a comporta se abriu. Entre antes que ela se feche!”.

Manobrando o Wénzi, Yang se dirige à pequena abertura da comporta, uma pequena fenda aberta o suficiente para a aeronave presidencial passar. Quatro aeronaves da comitiva combatiam bravamente o inimigo, apesar de sua evidente desvantagem. Subitamente a comporta começa a se fechar. Os pilotos se desesperam, eles estavam sendo deixados para trás. Alguns se arremetem contra a fenda, mas era tarde demais. A fenda se fecha e a aeronave se choca contra o maciço de aço, causando uma enorme explosão.

Yang assiste àquilo com espanto, mas não pode fazer nada. As únicas vidas que importavam era a do alto escalão.

Passado o perigo, o piloto olha para frente e contempla a rota de fuga presidencial. Um vasto túnel negro se revela. Luzes amarelas e giratórias se acendem nas paredes, revelando um túnel de aproximadamente 50 metros de diâmetro.  

O silêncio era assustador. Lá dentro, tudo era tão calmo e escuro que não parecia haver uma terrível invasão ocorrendo logo atrás. Desta vez, a segurança parecia ser garantida.

“Piloto Haisheng, devemos prosseguir! Será uma longa viagem pela frente!”.

Ao ouvir o líder da comitiva, o piloto pergunta:

- Para onde o túnel nos leva?

“Para próximo do Porto de Tianjin”.

Yang se impressiona. A distância entre Pequim e a cidade de Tianjin são de quase 140 quilômetros; um pouco mais se considerarem até o porto.

As duas aeronaves de escolta restantes se posicionam em formação, com a aeronave presidencial protegida atrás. Yang toma a frente e então avança, guiando-os pelo longo túnel e deixando a Pequim subterrânea para trás.

 

 

 



[1] “Mares médio e do sul” em chinês

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...