segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Shenzhou Wénzi - 04 - Provação


 

(Arte de Antarik Fox)


Dos subterrâneos da montanha de Xiaodian, uma escotilha se abre e Wénzi aparece.

O canal de comunicação recebe um chamado e Navcom transmite a mensagem ao capacete de Yang.

“Piloto Haisheng, aqui é o Tenente-General Junlong. Sua missão é repelir o invasor alienígena e liberar Shanghai. Repito: repelir o invasor alienígena e liberar Shanghai. Me deixe orgulhoso, filho. Câmbio e desligo”.

- Filho...? – repete Yang, sorrindo.

De fato, Junlong tinha grande estima pelo jovem piloto, pois mesmo passados tantos anos o tenente-general o estimava como um filho que ele nunca teve.

“Piloto Haisheng, aqui é sua assistente de comunicações, a Coronel Li Fen Junlong. Devo lembra-lo que Wénzi possui alta manobrabilidade e pode se movimentar livremente para qualquer direção. Os propulsores são rotativos e estão instalados por todo o corpo da nave. Também devo alertar que paradas bruscas e arrancadas podem provocar tontura e desmaios, mas isso não é problema para um piloto experiente como você, não é mesmo?”.

Yang percebe o tom provocativo na voz da mulher. Aparentemente ela quer descontar nele sua frustração por não ter sido escalada para pilotar o Wénzi.

- Afirmativo, coronel.

“Câmbio e desligo”.

Outra voz, uma mais formal e robótica, surge nos fones de seu capacete. Ele reconhece a Inteligência Artificial Navcom.

- Inimigo a um minuto, senhor.    

- Como está o status da nave, Navcom?

- Tanque de combustível cheio. Reservatório de oxigênio cheio. Nível de suporte a vida cheio. Saúde do piloto, ok. Armamentos carregados e prontos para atirar, senhor.

Respirando fundo, Yang se tranquiliza dizendo:

- Que os deuses me ajudem.

Dizer aquilo foi algo confuso para o jovem piloto, pois ele era um ateísta e, quanto as religiões, ele seguia as diretrizes do Partido. Para o governo, as religiões eram movimentos potencialmente sediciosas e o Partido condenava suas organizações, classificando-as como supersticiosas.

Uma densa fumaça de incêndio encobre o centro financeiro de Shanghai. Ao atravessa-la, Yang encontra a cidade devastada pelos enxames. Aqueles cruzadores espaciais hediondos ainda pairavam no alto, como se fossem deuses malignos vindos do abismo mais profundo do cosmos.

Enquanto avança, prédios cedem e desabam sobre si mesmos. Yang percebe em pânico que ainda haviam pessoas dentro dos edifícios. Junlong tinha razão, o preço da espera veio ao custo de milhares de vidas humanas.

Circulando ao redor dos prédios, os enxames surgem no meio do fogo. Aquela era a hora da verdade. Com o inimigo a vista, o tão aguardado momento chegara; Wénzi finalmente seria usado em combate.

Yang atira e se surpreende. As metralhadoras eram leves e o empuxo não afetava o voo. As naves inimigas sofrem dano e se explodem, sendo abatidas uma a uma.

A alta capacidade de manobra dos alienígenas se revela e os enxames se curvam no ar. Enquanto elas se esquivam e se esgueiram, Yang esterça os manches e corrige bruscamente sua trajetória. A virada foi tão improvável que qualquer aeronave de caça teria se despedaçado em seu lugar.

Yang segue o inimigo pelo interior dos prédios. Tanto o enxame quanto Wénzi eram minúsculos e podiam entrar facilmente em passagens estreitas. Enquanto segue o inimigo, Yang passa por apartamentos e escritórios. Aquilo era surreal para Yang, pois em seu voo eles atropelavam escrivaninhas e computadores.

- Legal! – extasia-se ele.

Atirando sua metralhadora, o enxame é abatido impiedosamente. O inimigo se esquiva e tenta se esgueirar por outras passagens, mas logo percebe que havia perdido sua vantagem.

Do enxame, aquelas bombas de energia são lançadas. Yang as reconhece da última vez. Seu súbito tiro pode confundir até os pilotos experientes. Ele se esquiva habilmente, mas percebe espantado que as mesmas manobras evasivas seriam impossíveis em um avião comum.

O primeiro enxame é destruído; Yang se manteve firme em seu encalço e não os deixou escapar. Animado, ele enxuga o suor de sua testa.

Ascendendo o Wénzi ao céu, ele olha para a cidade e percebe: ainda haviam dezenas de enxames pelos prédios.

De repente uma explosão balança a lateral da nave. Olhando para a direita, uma daquelas bombas de energia o haviam atingido. Para sua sorte, os escudos de Kinect o protegeram.

- Fomos atingidos, senhor. – informa Navcom.

- Qual é a magnitude dos danos?

- Mínimos, senhor.

Um enxame se elevava dos prédios e o perseguia no céu. Yang vira o Wénzi e desce em um rasante. O inimigo o persegue tenazmente; acelerando a nave, o piloto se esquiva dos outdoors e painéis de neon. Bombas de energia são lançadas, mas se explodem pelas fachadas de concreto e vidro; elas não conseguiam alcançar Yang.     

Na superfície havia a avenida Wusong. Carros e mais carros engarrafavam o trânsito; os habitantes estavam desesperados para deixar a cidade. Um casal aguarda em seu carro quando, repentinamente, o Shenzhou Wénzi desce embicado em sua direção. O casal grita e, no último segundo, o Wénzi muda de direção, assoprando seus propulsores e levantando uma onda de poeira no trânsito.

A nave arremete novamente e deixa rapidamente o local. O enxame, que seguia logo atrás, não consegue frear a tempo e colide contra os carros e os prédios, provocando uma série de explosões. O casal de habitantes se salva, mas assiste atônito os carros e as pessoas serem devastadas pelo fogo.

Yang volta às alturas. O segundo enxame havia sido destruído. Olhando ao redor, ele encontra um terceiro bombardeando um edifício. Ao recarregar suas armas, ele avança contra o inimigo.

Ativando seus mísseis teleguiados, Yang os espera se concentrarem e então atira. Os mísseis voam espiralados pelo ar e atingem o enxame. Algumas naves sobrevivem ao impacto, mas outras descem em chamas e colidem contra os prédios, fazendo-os se fragmentarem. Yang assiste horrorizado os escombros caírem e esmagarem as pessoas no trânsito lá embaixo.

Os inimigos restantes tentam se replicar e fugir, mas o piloto os segue logo atrás. Os tiros de metralhadora atingem as naves inimigas, interrompendo o seu voo. Algumas colidem contra os prédios e outras caem desgovernadas, atingindo os carros nas ruas. Naquela batalha Yang percebe que, mesmo abatidas, as naves eram como adagas dilacerando o peito dos incautos chineses.

Havia morte em toda parte, mas não era o momento para se lamentar. Avistando o quarto enxame, Yang se anima. Com Wénzi em seu comando, o inimigo podia ser abatido.

De repente aviões passam ao seu lado, assustando-o. Yang olha ao redor e reconhece caças da Kōngjūn.   

O canal de comunicação é aberto.

“Piloto Haisheng, aqui é o líder da Esquadrilha Um. Viemos aqui para auxilia-lo em combate”.

- Vocês não haviam sido tirados de serviço? – pergunta ele.

“Fomos chamados de volta. O Alto Comando quer vê-lo em ação, senhor. Viemos para te dar cobertura”.

- Cobertura? Mas eu não preciso de cobertura! Apenas o Shenzhou Wénzi tem chance de acabar com o Yīqún!

“Negativo, senhor! Seu alvo foi mudado para os cruzadores espaciais. O Alto Comando os quer fora de operação imediatamente. Nós assumiremos os enxames daqui”.

Yang não entende. Os caças rápidos e pesados são poderosos, mas ineficazes contra o habilidoso inimigo. De qualquer forma, ele não pode desobedecer a uma ordem superiora.

Desta maneira, a batalha contra a frota alienígena muda de rumo.

Os cruzadores estão a dois mil pés do solo. Enquanto tenta se direcionar, o quarto enxame o intercepta e atira suas bombas contra ele. Yang se esquiva em um piscar de olhos; seus reflexos do tênis de mesa se provam essenciais para ele. 

Antes que pudesse contra-atacar, os caças atiram seus mísseis e os atingem, dispersando-os.

- Obrigado. – agradece Yang.

O piloto de caça lhe faz o sinal do polegar em pé.

Com a batalha comandada pela esquadrilha lá embaixo, Yang continua a subir ao nível dos cruzadores.   

As nuvens cinzentas dos incêndios ofuscam sua vista, mas ainda é possível ver. Os cruzadores eram imensos e flutuavam ao lado das nuvens brancas da troposfera. Yang conta cinco daquelas imensas aeronaves.

Ao se aproximar da primeira, Yang é recebido com fogo de artilharia. Do corpo do cruzador, canhões se formam e atiram contra ele, disparando uma saraivada de bombas semelhante às dos enxames. O piloto se esquiva habilmente, movendo-se para todas as direções. Tais manobras seriam impossíveis para os aviões de caça da Força Aérea, mas além da manobrabildade, os reflexos do piloto eram necessários. E assim os reflexos de Yang se comprovam cruciais para a missão.

Prontificando seus mísseis, Yang os mira sobre os canhões e atira. Quatro mísseis voam em direção ao alvo; um é atingido pela bomba de energia e se explode e os outros seguem espiralados até o cruzador. O impacto atinge o inimigo, abrindo buracos em sua carcaça.

Mais bombas são lançadas, tornando o espaço aéreo um inferno de balas. Yang carrega mais mísseis e, esperando o momento certo, os atira. As explosões abrem buracos na fuselagem do cruzador, provocando incêndios no lado de dentro.

Neste momento Yang percebe: o inimigo tinha defesas ineficazes contra o Wénzi. Deixando de atirar, o cruzador parece incapacitado. Intentando eliminar os outros quatro, Yang não perde tempo e o deixa para trás.

O próximo cruzador o recebe com a mesma intensidade de bombas. Yang muda de armamentos e pretende provocar um incêndio mais rápido no inimigo. Ele carrega bombas de fósforo branco incendiárias, e se prepara para lança-las do bordo inferior de sua nave.

Fazendo um rasante sobre o cruzador, Yang aperta o botão e libera o lançamento das bombas. As bombas atingem o alvo e imediatamente se incendeiam, multiplicando-se como clusters[1].

O material volátil do cruzador é atingido pelo fogo e se explode, incapacitando-o juntamente com o primeiro.

Yang se anima. Carecendo escudos e defesas apropriadas, os cruzadores se mostram vulneráveis. O sucesso da missão se aproxima.

Então algo inesperado acontece.

Todos os cruzadores, incluindo os incapacitados, abrem suas comportas e liberam novas ondas de enxames. Shanghai, que já sucumbia com os existentes, recebe dezenas de outros inimigos. Yang assiste em choque aquelas naves hediondas descerem e devastarem a cidade. Ele sabe o que aquilo significa; os caças da Força Aérea jamais conseguirão resistir ao inimigo. 

- Eles serão dizimados...! – consterna-se ele.

Navcom diz:

- Piloto Haisheng, recalculando sua probabilidade de vitória, de 78 sua probabilidade cai para 12%.

Yang treme.

O terceiro cruzador avista o Wénzi e atira. Distraído ao ver a nova onda de enxames, uma bomba atinge a nave e a estremece. De repente os enxames se aproximam e atiram também, atingindo-o com sua bomba de energia. Um alarme soa dentro da cabine, despertando-o de seu transe.

- Piloto Haisheng, escudos estão a 56%.

Navcom o alertava com a tranquilidade de uma máquina.

Yang manobra e se afasta dos cruzadores. Agora ele tem que fugir de seus tiros e dos enxames logo atrás.

“Senhor, o que é que está havendo?! Estávamos combatendo o Yīqún, mas agora outros apareceram! Não podemos manter o combate com esse número elevado!”.

O piloto de caça falava com ele. Yang ia responder quando ouve uma explosão sobre os prédios.

“Fui atingido! Fui atingido! Aaaaaaaaaaaaaahhh...!”.

O caça se transforma em uma bola de fogo e se explode no ar.

- Não!!! – grita ele.

O inimigo inunda o espaço aéreo. Yang deve se afastar imediatamente se quiser viver.

Lá embaixo, os novos enxames continuam sua devastação. Shanghai ardia em chamas. Incapazes de combater o ágil inimigo, os caças são abatidos um a um. A população, que antes tentava fugir, agora se desespera nas avenidas, correndo freneticamente pelo trânsito e tentando sobreviver.

Yang se afasta dos cruzadores, mas os enxames ainda o perseguiam. Ele desce ao nível dos prédios e se esgueira dentro dos andares. Simulando a estratégia inimiga, ele invade escritórios e se desvia de pilares e mobílias. Algumas vezes ele tem de abrir passagem nas paredes com seus mísseis.

Uma voz surge em seu canal de comunicação. Era Li Fen.

“Piloto Haisheng...”.

- Me chame de Yang! – exclama ele, esquivando-se desesperadamente dos obstáculos à sua frente.

“A missão falhou; o inimigo é numeroso demais. Você tem novas ordens. O Alto Comando quer acesso seguro ao espaço durante a sua fuga da Terra”.

- O quê?! – protesta ele – Eu estou sozinho aqui embaixo! Eu não faço milagres!

Ignorando-o, Li Fen responde:

“Câmbio e desligo”.

Entrando em um túnel, Yang passa pelo engarrafamento de carros e a população alvoroçada. O enxame o segue logo atrás e atira suas bombas, atingindo os carros e causando explosões. Assim mais vítimas eram feitas pelo flagelo alienígena.

Yang conhecia aquele túnel; ele terminava em uma bifurcação em T. Movendo os manches, ele pede aceleração máxima.

Os propulsores brilham em um azul hipnótico, provocando um assovio agudo. Tendo em seu banco de dados o mapa da região, Navcom alerta:

- Piloto Haisheng...

- Me chame de Yang, você também!

- Iminência de colisão adiante. Sugiro desaceleração.

- Não! – nega ele – Potência máxima!

O Wénzi voa pelo túnel. Ao chegar ao fim, Yang vira bruscamente o manche. A pressão centrífuga é tão grande que a carcaça da nave se estrala e ele sente que vai desmaiar. Ele muda de direção ao ar livre e continua seu voo. O enxame atrás dele não consegue frear a tempo e se espatifa no prédio à frente, destruindo uma a uma as suas naves.

- Navcom! Relatório de armamentos, agora!

- Munição de metralhadora a 60%. Mísseis teleguiados a 40%. Bombas de fósforo branco a 75%.

- Isso deve dar! – afirma ele.

Yang arremete e segue em direção aos cruzadores novamente. Preocupado, Navcom informa:

- Piloto Haisheng...

- Como é? – interrompe ele.

- Yang... Vejo que se dirige novamente aos cruzadores inimigos. Devo relembra-lo que suas chances de vitória são de 12%.

- Não importa. – responde ele – Sou um soldado e tenho que cumprir minha missão.

Wénzi sobe ao céu. Ao olhar para os lados, Yang percebe que os enxames não o seguem mais. Aparentemente eles se ocupavam de destruir a cidade, como se desejassem uma devastação sistemática.

Yang se aproxima dos cruzadores restantes e prepara suas armas. Utilizando seus reflexos e sua raiva, ele atira contra o terceiro cruzador. Os mísseis perfuram sua fuselagem e a explosão provoca uma reação em cadeia. Uma série de explosões internas se sucedem e o casco se parte em dois, fazendo a enorme nave ir abaixo. O cruzador se choca contra um bairro residencial e devasta as casas ao redor, ardendo-as com o fogo titânico.

Mais dois cruzadores restam. Yang lança suas bombas no quarto inimigo e o assiste queimar. As chamas dançantes o hipnotizam e então ele é atingido por um tiro de canhão. O tranco é tão forte que lhe causa dores no corpo.

- Yang, o escudo está em 9%. Temo que se o próximo tiro for desta magnitude, ele atravessará nossa fuselagem e nos abaterá.

- Então que a boa sorte esteja com a gente!

O intrépido piloto manobra sua nave e se dirige ao último cruzador. Ele é logo recebido pela artilharia inimiga. Cerrando os dentes, Yang se esquiva freneticamente de um lado ao outro. De repente ele dispara seus mísseis e, para o seu assombro, eles são abatidos no ar. Ao disparar outra vez, Navcom o informa que acabara o estoque. Apenas as bombas incendiárias restaram, mas para usá-las ele teria de se aproximar dos canhões ativos. Yang se preocupa.

Controlando o medo, ele faz um exercício mental. Yang mentaliza o cruzador como uma mesa de tênis e, ao invés de bombas, os canhões lançam bolas, mas desta vez ele não deveria rebatê-las e sim se esquivar delas. Preparando-se, ele se lança ao inimigo.

Yang se esquiva das bombas. Navcom emite sirenes e alertas; apenas um tiro lhe será fatal. Yang grita e, abrindo as comportas, libera o lançamento das bombas.

A chama se forma sobre o cruzador e o fósforo corrói sua carcaça. Um minuto depois o fogo corrosivo alcança os materiais voláteis e uma reação em cadeia se forma, explodindo todo o seu interior e partindo-o em dois.

O quinto cruzador desce em chamas pelo céu, colidindo-se contra uma avenida cheia de carros. A provação de Shenzhou Wénzi estava concluída; a nave e seu piloto passaram no teste.

Chineses e alienígenas queimavam lá embaixo, mas pelo menos a ameaça da invasão estava contida.

Ou pelo menos era isso o que Yang pensava.

 

 



[1] Nome dado a bombas de dispersão em inglês

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Shenzhou Wénzi - 03 - Shenzhou Wénzi

 


(Arte do game Cygni All Guns Blazing)

 

Base secreta subterrânea em Shanghai. 10:17 da manhã, apenas duas horas após a invasão.

O alto comando do Exército, da Marinha e da Aeronáutica se reúnem no subterrâneo de Dachang. Os relatórios chegavam constantemente. A invasão alienígena estava sobre as principais cidades chinesas. Aparentemente o inimigo mirou a cabeça da civilização humana, e esta cabeça era a China.

Pequim estava furiosa. O Ministério da Defesa pedia a liberação do uso do armamento termonuclear. Eles intentavam fulminar o invasor com o fogo radioativo, nem que para isso eles tivessem que devastar centros urbanos inteiros.

Os generais viam como a situação era má. Pequim, Shanghai, Chongqing, Hong Kong, Chengdu, Guangzhou, Cantão... Todas as maiores cidades da China continental eram atacadas, e os chineses estavam perdendo. Mas para que o Ministério da Defesa pudesse usar seu arsenal nuclear, eles precisavam da liberação do alto comando de Shanghai.

Enquanto caminham pelo subterrâneo de Dachang, o Tenente-General Junlong discursa:

- Generais, antes de revelar meu projeto eu devo lhes contar a história da superação chinesa. Em 1958, durante o famoso programa “O Grande Salto Adiante” de Mao Zedong, a China exterminou os pardais, retratados pelo governo como uma das quatro pestes. A campanha ficou conhecida como “As Quatro Pestes”, com o governo promovendo o extermínio de ratos, moscas, mosquitos e pardais. – começa ele – A campanha se revelou um desastre, provocando a quase extinção dos pardais, a proliferação dos gafanhotos e o desequilíbrio ambiental. Por estas razões, o governo foi obrigado a abandonar a campanha.

Parando em frente a uma porta de aço anti ataque nuclear, ele passa seu olho em um scanner e continua:

- Mas a China superou esta adversidade, pois antes os pardais foram tirados do ar, mas hoje nossos caças e drones nos dão a superioridade aérea.

Então eles passam pela porta e continuam caminhando.

  - O programa espacial chinês começou em 1956, mas foi apenas em 1970 que lançamos nosso primeiro satélite ao espaço, o Dong Fang Hong 1[1]. Mais tarde, em 1993, é fundada a Administração Espacial Nacional da China, uma agência subalterna ao Ministério da Indústria e da Tecnologia da Informação. Em 2007 a China lança seu foguete Longa Marcha 3A, carregando a sonda espacial Chang’e, nome da deusa chinesa da Lua. A Chang’e orbitou a Lua e completou a missão lunar, tornando-se, desta maneira, um sucesso.

Parando em uma guarita de soldados, ele continua:

- Em 2020 a China lança seu foguete Longa Marcha 5, carregando a sonda Tianwen[2] 1 e o veículo motorizado Zhurong[3]. Em 2021 a espaçonave chega à Marte, e três meses depois o veículo Zhurong toca a superfície daquele planeta. Esta notável façanha torna a China a terceira nação a pousar em Marte e a estabelecer comunicação a partir da superfície marciana, junto com a União Soviética e os Estados Unidos.  

 Os soldados lhes permitem passagem.

- Em 2003, Yang Liwei foi ao espaço a bordo da Shenzhou 5, se tornando a primeira pessoa a subir pelo programa espacial chinês. Esta façanha fez da China o terceiro país a lançar humanos no espaço, e de maneira independente. Em 2008, Zhai Zhigang foi o primeiro taikonauta a realizar a caminhada espacial; Zhigang participava da missão Shenzhou 7. Em 2012 Liu Yang se torna a primeira mulher a ir ao espaço e também a primeira a entrar na estação espacial Tiangong 1; Yang tripulava a Shenzhou 7. Em 2021, Wang Yaping se torna a primeira chinesa a realizar a caminhada espacial; ela tripulava a Shenzhou 13.   

Atravessando um salão abarrotado de computadores e técnicos de comunicação, Junlong diz:

- Em 1998 surgiu o famoso termo “taikonauta”. O jornalista chinês malaio, Chiew Lee Yih, usou essa palavra pela primeira vez em grupos de notícias. De acordo com o jornal Diário do Povo, o termo reúne “naut”, que significa marinho em grego, e “taik”, derivado de “taikong”, ou “espaço” em chinês. Assim, “taikonauta” designa os astronautas chineses.

O grupo chega a um vasto hangar subterrâneo.

- Não apenas os taikonautas entraram para a História ao colocarem a China no grupo das potências espaciais, mas também seus admiráveis transportes. Me refiro ao Shenzhou. No chinês mandarim clássico, o significado literal da palavra é “Barca Divina”, ou “A barca divina no Rio Celestial”, que se trata da Via Láctea, a nossa galáxia.

Os generais se deparam com uma aeronave oculta sob lonas.

- Senhores, eu vos apresento o Wénzí[4].

Cientistas vestindo roupas e toucas brancas semelhante a cirurgiões tiram as lonas e revelam o protótipo de Junlong.

Intrigados, os generais contemplam a estranha espaçonave às suas frentes. Eles viam o que parecia ser um pequeno avião de cabine arredondada, asas retráteis e propulsores na fuselagem. Eles viam metralhadoras e canhões, como se fossem numerosos ferrões em uma única abelha. Mas o formato da nave era o que mais os intrigavam. Parecia-se com um inseto, mas não exatamente uma abelha; eles viam a um mosquito.

Junlong descreve o protótipo.

- Generais, este é o nosso novo protótipo, o Shenzhou 800. O protótipo é compatível com diversos armamentos, como a metralhadora Vulcan, raio laser, carregador de fóton, ogivas atômicas, lançamento de bombas, mísseis teleguiados e bombas incendiárias. Todos estes armamento podem ser equipado e assimilados pelo computador de bordo.

Os generais duvidam, sussurrando entre si. Eles têm dificuldade em acreditar que uma única nave pode fazer tudo aquilo.

- E por falar em computador de bordo, a nave conta com uma Inteligência Artificial avançada, desenvolvida especialmente para auxiliar o piloto durante a pilotagem e o combate. Com a avançada IA, a nave assimila e adapta inclusive a tecnologia do inimigo.

Neste momento, os generais se espantam.

- Como a nave foi projetada para voar por longos períodos, embutimos um sistema de reabastecimento em pleno voo. Um módulo de reabastecimento se conecta ao protótipo, mas não apenas o abastece. Desenvolvemos um sistema para que o módulo também realize a troca de armamentos no decorrer das missões, assim garantindo uma vantagem estratégica.

Extasiados, os generais batem palmas para o tenente-general e sua aeronave.

Alguém pergunta:

- O senhor disse que já tem alguém para pilotar o protótipo?

- Sim. – confirma ele – O piloto se chama Yang Haisheng e já está a caminho.

E então Li Fen, filha de Junlong, se incomoda.

Outro general diz:

- Pois diga-o para se apressar. O Alto Comando aguarda nossa liberação para lançar os mísseis Dongfeng[5]!

Junlong se preocupa. Se o seu protótipo falhar, o Alto Comando lançará bombas termonucleares no céu e no espaço, contaminando centros urbanos para sempre.

- Estou trabalhando nisso, senhor.

 

§

 

Finada a reunião, Junlong aguarda. Da janela de seu escritório, ele observa o Shenzhou Wénzi lá embaixo. O tenente-general está apreensivo. Os generais o pressionam; a cada minuto Shanghai é dizimada lá em cima. Ele pede paciência, mas a espera é terrível. Os minutos custam centenas de vidas.

- Se apresse, Yang! – sussurra ele.

Então alguém atrás dele abre a porta.

- Pai, posso falar com você?

Virando-se, ele vê Li Fen.

- O que foi, filha?

- Por que o senhor não me escalou? Por que o senhor convocou Yang Haisheng?

- Do que está falando, querida?

- Eu sou a pessoa que deve pilotar o Shenzhou Wénzi! – exclama ela.

Junlong se assusta.

- Não diga bobagem, Li Fen! Eu jamais a convocaria para pilotar o Wénzi!

- Por que não?!

Então ele hesita.

- Você não tem a experiência necessária em combate.

- É mentira! – exclama ela, novamente – É porque o senhor não quer me pôr em perigo, não é?

Li Fen está certa. Junlong jamais a colocaria em perigo.

- Li Fen, ouça... – diz ele, respirando fundo – Preciso de um piloto experiente para pilotar a nave. Lembre-se que é um protótipo. O risco é alto e muita coisa pode dar errado durante o voo.

- Como pode dar errado? O protótipo tem uma IA avançada para auxiliar na navegação!

- Não é tão simples. A segurança e integridade do conjunto piloto/aeronave também precisam de auxílio humano, mas remoto.

- Então está dizendo que, além da IA, o protótipo também precisa de um auxiliar de comunicação?

Junlong se surpreende. Além de ambiciosa, sua filha também sempre foi perspicaz.

- Sim.

Li Fen insiste:

- Eu sei que posso pilotar o Wénzi! Independente de qualquer risco!

Cansado de discutir, Junlong tem uma ideia.

- Coronel Li Fen Junlong, você está convocada para auxiliar o piloto Yang Haisheng na navegação do Shenzhou Wénzi.

Sua filha protesta.

- Eu, uma auxiliar de voo?! – indigna-se ela – Eu não quero auxiliar! Eu quero pilotar aquela nave!

- Mas não vai! Você o auxiliará a distância, fora da área de combates.

- Mas, pai...!

- Me deixe orgulhoso, coronel! – interrompe ele. Então ele se vira e, juntando suas mãos nas costas, ele conclui – Dispensada.

 

§

 

Yang atravessou uma Shanghai em ruínas. Os cruzadores espaciais pairam sobre a cidade e os enxames de naves reduzem os edifícios a escombros. Incêndios se alastram pelos bairros e carros com famílias inteiras são deixados nas rodovias sem socorro.

Felizmente para Yang, o subterrâneo de Shanghai está intacto. Oculto estrategicamente, os níveis inferiores agora são usados pelos militares para deslocamento de armamentos e inteligência.

Soldados e engenheiros trabalham ao longo dos túneis. Câmaras e mais câmaras surgem pelos trilhos enquanto Yang avança de trem. Apesar da infeliz tragédia na superfície, ali embaixo Yang se sente em segurança.

Mas não por muito tempo.

O subterrâneo secreto da base de Dachang é vasto. Junlong se reúne com a alta cúpula militar de Shanghai em sua sala. Ao olhar para cima, o jovem piloto o vê reunido com os generais. Eles lançam olhares desconfiados para Yang, e apenas seu tutor Junlong punha suas esperanças nele. Apreensivo, Yang percebe que uma grande responsabilidade repousava em seus ombros.

A Shenzhou Wénzi é fascinante. Yang nunca viu uma nave tão incrível quanto aquela. Sua tecnologia, seus armamentos e seu formato... Aquele design lhe lembrava um mosquito. Tudo em Wénzi era tão incrível que ele a compara com as próprias naves alienígenas. 

Yang veste um uniforme de piloto diferente. Parecia-se com um traje de taikonauta, mas mais compacto e cheio de sensores que transmitiam suas condições físicas ao computador de bordo.

Ao entrar na cabine, uma voz masculina e computadorizada o cumprimenta.

- Zǎoshang hǎo[6], piloto Haisheng. Eu me chamo Navcom; sou a Inteligência Artificial da Shenzhou Wénzi e vou auxilia-lo na navegação da nave. Prazer em conhece-lo.

- Bom dia, Navcom. – responde ele, sorrindo.

Ao colocar o capacete, uma voz feminina fala com ele. Yang reconhece uma voz familiar.

“Haisheng? Piloto Yang Haisheng...?”

- Li Fen, é você?

“Olá, Piloto Haisheng. Aqui é a Coronel Li Fen Junlong. Eu serei sua assistente de comunicações entre o Wénzi e o quartel-general”.

Li Fen lhe falava em um tom frio e muito formal para velhos conhecidos. Neste momento, Yang percebe sua profunda insatisfação.

As informações no visor de seu capacete lhe davam a impressão de poder pilotar a nave com meros comandos da mente. O enorme vidro da cabine o lembrava o das cabines dos helicópteros. Dentro do Wénzi, Yang se sentia suspenso no ar sem nem mesmo ter saído do chão.

Os técnicos no hangar lhe dão a liberação para ligar a nave. Não era necessário nenhum treinamento para pilota-lo; não havia tempo. Apesar da vasta experiência em voo do jovem piloto, a única coisa que o Wénzi necessitava era da maior virtude do ser humano: a coragem.

Yang inicia os motores e os propulsores se acionam. Naquele momento ele sente que o Wénzi era incrivelmente leve. Dois manches controlavam a nave; neles haviam botões para o disparo das armas e a decolagem. Ao apertar os botões, o Wénzi imediatamente deixa o solo, suspendendo-se a poucos centímetros no ar. Para voar, a nave não necessitava de pista de pouso ou de espaço ao ar livre.   

A liberação para sair foi dada. Os técnicos e engenheiros se reúnem para ver o protótipo partir. Eles querem ver seu ousado projeto finalmente ser usado em uma missão.

Uma porta de aço se abre e revela um túnel subterrâneo. Yang se surpreende, pois o túnel era estreito demais para aviões comuns. Mas Wénzi estava muito longe de ser um avião comum. Antes que pudesse partir, alguém aparece no alto do hangar e o encara.

Em uma plataforma elevada, o Tenente-General Junlong se põe diante de Yang. Três segundos depois, o militar honrosamente lhe bate continência. Comovido por tamanha demonstração de respeito, Yang se endireita e bate continência também.  

Finado a honrosa troca de gestos, Yang move os manches e deixa o hangar.

  



[1] “O leste é vermelho nº1” em chinês

[2] “Questões Celestiais” em chinês

[3] “Zhurong” é o deus do fogo na mitologia chinesa

[4] “Mosquito” em chinês

[5] “Vento Oriental” em chinês

[6] “Bom dia” em chinês

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Shenzhou Wénzi - 02 - A Invasão de Shanghai

 


(Imagem do filme chinês "Shanghai Fortress")


O ano é 2460 e.C, ou 511 pós revolução maoísta.

No século 25, a nova sede da ONU localiza-se em Pequim, mas é fortemente controlada pela China.

Yang Haisheng é um jovem piloto de caça na Kōngjūn[1] chinesa. Com apenas dezoito anos ele se tornou campeão de tênis de mesa, trazendo orgulho para o seu país, e sua grande façanha atraiu a atenção de homens poderosos no alto escalão militar chinês.

Zhōng jiàng[2] Junlong, comandante da base aérea em Shangai, aprecia o esporte e o elogia por seus bons reflexos, assim convidando-o para ser piloto na Força Aérea. Yang se sente lisonjeado, pois ele era só mais um dentre milhões de chineses residindo a cidade, e nunca pensou que algo que ele fazia por diversão lhe fosse abrir portas. E com tamanha oportunidade, o humilde rapaz aceita o convite. Desta maneira ele passa a ter perspectiva de futuro.

Na academia de pilotos, Yang conhece Li Fen, filha de Junlong. Eles nunca foram amigos, mas devido a sua proximidade com o Tenente General, Yang a via esporadicamente na base aérea de Dachang.

Yang se lembra que Junlong costumava contar histórias mitológicas à sua filha. Segundo Junlong, a mitologia chinesa era radicalmente diferente das do Ocidente. Na China, os dragões e deuses eram seres benéficos, diferentes dos deuses vingativos e egoístas da mitologia grega, principalmente. Sendo um patriota, o Tenente General tinha um profundo conhecimento cultural de seu país, incluindo o confucionismo, o taoísmo e a mitologia.

Li Fen chorava pois queria ser uma oficial da Força Aérea como seu pai. Preocupado com a ambição inabalável de sua filha, Junlong lhe conta a história de Lü Dongbin, um dos Oito Imortais da mitologia chinesa.

Lü Dongbin era um homem erudito que vivia para transmitir o conhecimento taoísta para iluminar as pessoas. Certa noite, enquanto cozinhava uma sopa, Lü Dongbin caiu no sono e adormeceu, tendo um interessante sonho. No sonho ele teve uma ascensão meteórica, chegando ao cargo de Primeiro Ministro, casando-se com a filha do imperador e tendo dois filhos. Seu sucesso atraiu a inveja da corte e ele foi falsamente caluniado, sendo traído por sua esposa, tendo seus filhos mortos por bandidos e ultimamente sendo exilado do país. A rápida ascensão chega a um triste fim, pois o sábio erudito morre miseravelmente na sarjeta.      

Li Fen não entende o que seu pai quer dizer, e então ele explica. Lü Dongbin acorda e se assusta ao ver que sua sopa começara a ferver, então ele reflete como uma vida inteira pode se passar dentro de um sonho no pequeno espaço de tempo em que a água começa a ferver. Neste momento Zhongli Quan, um outro imortal, aparece e lhe revela que foi ele quem lhe colocou esse sonho. Zhongli Quan queria que ele compreendesse que todas as coisas na vida são transitórias e que ele deveria buscar algo mais duradouro em sua existência, como a espiritualidade e a eternidade.

Junglong conclui dizendo que sua filha não queria a carreira militar por vocação, mas para seguir os passos do pai. O Tenente General adverte que a carreira militar é perigosa e que ela pode se ferir nos numerosos conflitos pelo mundo. Preocupado, o pai a aconselha a procurar carreiras que a levassem à erudição e ao conhecimento. Li Fen protesta, mas não é ouvida pelo pai. 

 

§

 

Dia 26 de novembro de 2460 (511 no calendário revolucionário chinês). 8:04 da manhã.

Alarmes soam por toda Shangai. No distrito financeiro de Pudong, as pessoas olham para o céu e se perguntam: “não é esta a sirene de ataque aéreo?”.

Sobre os prédios aparecem enormes aeronaves, tão colossais que as próprias nuvens se deformavam enquanto elas passavam.

 Yang Haisheng reconhece cruzadores espaciais, mas sua aparência era tão estranha que ele não se lembra ter visto tal formato na base aérea. Eram aeronaves pretas e roxas, semelhantes a couraçados com o formato insectóide.   

Nos telões dos prédios, as emissoras estatais interrompem sua programação para noticiar as estranhas aeronaves. Nas bases militares, os comandantes exclamavam enfurecidos pedindo esclarecimentos sobre quem ou o que era aquela frota. Mas os esclarecimentos viriam tarde demais.

Ainda confusos, os chineses estavam diante de um novo inimigo; uma raça não-humana. Aquela era a invasão de um inimigo desconhecido, e ele enviara sua frota para Shanghai.

A frota projeta assustadoras sombras pela cidade. Descendo à altura do prédio Torre de Shanghai, os cruzadores abrem suas comportas e os chineses veem o que parecem ser morcegos pendurados em seu interior. De repente os “morcegos” se soltam e revelam ser minúsculas naves, voando em conjunto como drones.

Separando-se em pequenos grupos, as estranhas naves rasgam o céu em voos espiralados. De repente as naves lançam bombas e destroem a fachada dos edifícios, causando grande pânico e confusão com o súbito ataque.

Os cidadãos, que observavam tudo nas ruas, se desesperam e correm, fugindo do inimigo desconhecido. Destroços caem dos prédios como uma avalanche de concreto fragmentado e vidros estilhaçados, ferindo os cidadãos nas ruas e causando vítimas fatais.

O ataque é rápido e ordenado. O enxame de naves voa em espiral soltando bombas, como serpentes voadoras portadoras da destruição. Os edifícios são arrasados e destruídos; as fachadas de vidro se estilhaçam e a estrutura se abala. Incêndios aparecem e alguns prédios desabam, levantando uma onda monstruosa de poeira pelas ruas.        

As forças armadas emitem o ordem e os militares se prontificam para o combate. Na base aérea de Dachang, o jovem Yang corre apressadamente pela pista de pouso. Subindo em seu caça aéreo Chengdu J-200, ele fecha a cabine e recebe a permissão para decolar.

Um minuto depois, Yang e mais cinco outros caças voam em formação sobre Shanghai. Os colossais cruzadores os assombram; nem no espaço eles viram naves tão grandes assim. O alto comando não autorizou ataca-las; eles pretendem estuda-las primeiro. Mirando os enxames, a formação se separa e cada caça persegue o seu alvo.  

Yang persegue aqueles grupos espiralados. Ele coloca as minúsculas naves no alvo e se prepara para atirar. O computador de seu caça tem dificuldade para travar o alvo, pois as naves são numerosas e confundem o visor. Yang finalmente atira e o míssil destrói alguns inimigos, rompendo o que parece ser um cordão. Para sua surpresa, outras naves surgem do próprio enxame e restauram o rompimento, como se tivessem se multiplicado.

Aquela espiral aérea arremete contra Yang e o ataca. Eles soltam suas bombas e o jovem piloto se esquiva por um triz. Ele nota que aquelas não eram bombas comuns, mas esferas de energia pura altamente voláteis. Realizando manobras evasivas, ele se afasta daquele enxame.

Enquanto pilota, ele nota como o inimigo combatia. As minúsculas naves não voavam como os caças chineses; era como se elas flutuassem no ar sustentadas por propulsores magnéticos. Devido ao seu alto número, ele não podia ver como elas atiravam aquelas bombas de energia esférica; Yang vê apenas um enxame espiralado serpenteando o ar, provocando hipnose em sua vítima. O lançamento das bombas ocorria tão rápido que era quase impossível de se esquivar. Mais uma vez, os reflexos de Yang o favoreciam.

Uma explosão é ouvida ao seu lado. Próximo ao edifício Torre Pérola Oriental, um caça chinês é abatido. Yan se consterna; o piloto não foi capaz de resistir ao hipnótico ataque.

O novo inimigo tem um modo diferente de dog fight[3]. Voando em grupos ordenados, eles encobrem o espaço aéreo com suas minúsculas naves, atacando em espiral como enxames.

O combate aéreo prossegue. Os caças chineses, sustentados pela força das turbinas, são incapazes de acompanhar as manobras fechadas do inimigo. Surpreso, Yang sussurra:

- Eles não são inimigos comuns. Eles são alienígenas!

Os caças são abatidos um a um. Em sua nova forma de combater, os enxames sobrecarregam e desgastam a esquadra chinesa. Alguns são atingidos pelas bombas de energia e outros não conseguem se esquivar, colidindo-se contra os enxames. Yang vê estarrecido os enxames se restaurarem e os caças sendo destruídos.

O computador de seu caça tem dificuldade em travar apenas um inimigo. Os mísseis se comprovam lentos e ineficientes, e a metralhadora é simplesmente inútil. Em poucos minutos, o combate deixa de ser defensivo para ser por sobrevivência.   

Surgindo abaixo de si, os enxames arremetem contra Yang. Ele se esquiva e sente as naves passando pela fuselagem de raspão. Os prédios estavam em chamas e alguns desabavam produzindo terríveis sons. Sirenes de emergência eram ouvidas lá embaixo... Sobrepujado, o piloto sabe que se continuar ali será o seu fim.

Recebendo a ordem em seu rádio, ele escuta: “recuar!”.

Novamente evadindo, ele se afasta do centro financeiro de Shanghai e voa para a base aérea de Dachang. Ao chegar lá, ele tem uma terrível surpresa; a base estava tomada pelo inimigo. Cruzadores alienígenas sobrevoavam a pista e os enxames dizimavam os hangares. Temendo por sua aeronave, ele dá meia volta e se dirige à outra pista de voo: a base aérea na nova província chinesa de Taiwan.

E assim o jovem piloto realiza sua fuga de Shanghai.

 

§

 

Do estreito de Taiwan, o alto comando da Força Aérea vê Shanghai ser subjugada e destruída. Desde a Segunda Guerra Mundial que Shanghai não era conquistada, e sua humilhante derrota afeta o orgulho chinês.

Em meio a imagens confusas de incêndios e desabamentos, os generais veem enxames de minúsculas naves atravessando a fumaça e a poeira. Acima, os silenciosos cruzadores observavam, imponentes, suas naves causarem a destruição.

Relatórios e mais relatórios chegam à mesa. Os generais olham estarrecidos para os números; a perda material e em vidas foram enormes. Zhōng jiàng Junlong informa que, com seu modelo de combate, caças e drones não podem enfrentar os enxames.

- Yīqún[4]...? – perguntam os generais.

 E assim o novo inimigo fica apelidado “enxame”.

Os generais argumentam que a aerodinâmica inimiga era tão avançada que só poderia ser uma raça alienígena. Aeronaves movidas a turbinas não teriam chance contra eles, e a única esperança era combater o inimigo no espaço. Mas havia um problema. Os cruzadores patrulhavam o céu e o Exército de Liberação Popular da China tinha a obrigação de proteger seus cidadãos na Terra.

Com tecnologia inferior e presos na Terra, o alto comando não sabe o que fazer. Então Junlong toma a palavra e diz:

- Existe um protótipo experimental, um novo tipo de aeronave de combate... Semelhante ao enxame... – informa ele.

Intrigados, os generais perguntam:

- Semelhante ao enxame?

- Sim. Com propulsores antigravitacionais e manobrabilidade revolucionários. Mas ele foi abandonado há alguns anos.

Ainda intrigados, eles perguntam:

- Por que ele foi abandonado?

- Por ser fase de teste, há um enorme risco de lesão grave e até morte do piloto.

Um dos generais pergunta:

- O senhor acredita que esse protótipo possa nos dar vantagem ao combater o inimigo?

- Bem, o protótipo nunca foi usado em combate. Apesar de possuir um computador de bordo avançado que auxilia na navegação, o alto risco com a vida do piloto desencoraja a realização de testes. Por estes motivos, eu não sei dizer, senhor.

Então o alto comando discute o assunto. Apesar do risco, eles precisam de todos os recursos possíveis para conter a invasão. Eles estavam dispostos a sacrificar uma vida no processo, pois argumentavam que este é o destino esperado de um militar chinês que escolheu servir ao seu país.

- Apenas o melhor dos melhores pode pilotar esse protótipo. – comenta um general – Alguém com um corpo saudável e habilidade  impecável para suporta-lo.

- Há milhares de bons pilotos na China continental, general. Mas temo que a quantidade esteja diminuindo enquanto falamos.

- Não podemos permitir que nossa última esperança recaia nas mãos de um piloto inexperiente.

Então uma mensagem chega ao celular de Junlong. Seus subordinados informam que seu pupilo, Yang Haisheng, acaba de chegar à base aérea de Taiwan. Para sua surpresa, Haisheng saíra ileso do primeiro ataque da invasão. Então ele divaga por um momento.

Percebendo seu silêncio, o alto comando olha para Junlong e pergunta:

- Zhōng jiàng, o senhor conhece alguém que possa pilotar o protótipo?

Endireitando-se, Junlong imponentemente responde:

- Eu conheço alguém.

  

  



[1] Força aérea em chinês

[2] Tenente General em chinês

[3] Termo ocidental (briga de cachorro em inglês) para o combate próximo de aeronaves militares.

[4] Enxame em chinês

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...