domingo, 31 de julho de 2022

Liubliana - 21 - Cuidado Com os Demônios à Noite

 


(Imagem do site Pinterest)


Além do Bosque das Espatódeas há um decrépito cemitério esquecido. Através da cerração verde, Benjamin caminha entre os túmulos; ele carrega o lobo em seus braços. Achando um túmulo plano, ele delicadamente o deita sobre a tampa e o acaricia. Então ele olha para as estrelas e diz:

- Eu amo a noite e sempre suspeitei que um dia ela me mataria... – olhando novamente para o lobo, ele conclui – Mas infelizmente não foi nesta noite.

Benjamin escuta uma arma sendo acionada atrás dele. Olhando para trás, ele se depara com Valentim lhe apontando o belíssimo revólver de prata dos caçadores.

Vendo o lobo deitado sobre o túmulo, ele ordena:

- Explique-se.  

- O senhor é o assistente do Inspetor Hessler, não é? – pergunta ele – Peço que se acalme, por favor. Nós somos iguais, dois operários das fábricas, eu e você.

Valentim se irrita.

- Eu não sou igual a você. – ele aponta a arma para o lobo e pergunta – O que está acontecendo aqui?

Benjamin respira fundo e responde:

- Eu te explicarei tudo, mas antes peço que me prometa uma coisa. Não a machuque.

Valentim se intriga.

- Como é?

- Ela é minha esposa.

Então Valentim arregala os olhos, espantado.

Benjamin continua:

- Eu chamei a Gendarme porque eu queria que a matança acabasse. Eu tive a esperança de que eles tivessem um antídoto que curasse a minha esposa. Após tantas mortes no bairro inglês, alguma coisa tinha de ser feita. Eu não podia mais esperar outra Lua Cheia e não fazer nada. Por isso eu os chamei aqui.

- O senhor não pensou em chamar um médico?

- Eles ririam de mim. Ninguém jamais acredita nessas coisas... – lamenta-se ele – E então eu soube que um inspetor trabalhava com o oculto na Gendarmerie. Pensei que se eu o chamasse aqui, ele poderia trazer mais pessoas para me ajudar. – então ele olha para suas mãos sujas de sangue e conclui – Mas infelizmente as pessoas que ele trouxe não estavam aqui para isso.

Tobias trouxe os Caçadores Britânicos. Os nobres nunca tiveram a intenção de curar clinicamente os licantropos; ao invés eles intentavam caça-los como faziam em seu lazer nos safaris da África.

A estatura do lobo diminuía ao som de ossos se estralando. Então sua pelagem cai e revela uma reles mulher inglesa. Vendo que ela estava nua, Benjamin a veste com seu casaco xadrez. Enquanto ele a veste, Valentim nota que em seu corpo haviam perfurações de bala e cortes de espada; os caçadores a feriram gravemente. Benjamin se entristece, fazendo lágrimas se escorrem de seus olhos.

- A prata é altamente prejudicial aos lobisomens. – afirma ele – Creio que ela não vai sobreviver.

O marido acaricia o rosto da mulher e tira os cabelos de seus olhos. Lágrimas caem em seu corpo. De repente ela sussurra, como se estive sonhando.

- Ela está viva...! – alegra-se ele.

- O que você vai fazer?

- Vou leva-la para casa. Lá eu a aquecerei e tratarei de seus ferimentos.

Pesaroso, Valentim os proíbe.

- Não posso deixa-lo fazer isso. – e então ele aponta sua arma novamente.

Benjamin o entende. Valentim estava preocupado com a matança em Liubliana. Sendo agora da Gendarme, ele não podia deixar isso acontecer. Então o marido pergunta:

- Senhor assistente, até onde o senhor iria para salvar a sua esposa?

Valentim se intriga.

- Do que está falando?

- Eu amo a minha esposa e faria de tudo para protege-la. – olhando para a mulher, ele continua – Mas agora eu preciso salva-la... – e então ele pergunta – O senhor suportaria viver sem o seu amor?

O coração de Valentim se estilhaça. Ele jamais conseguiria viver sem Danica.

- Eu... – ele hesita – Não... Eu não suportaria.

Enfraquecendo-se, sua mão amolece e ele abaixa sua arma. A saudade de Danica doía demais.

- Vocês estão livres para partir. – diz ele – Vão. Mas não deixe a Gendarme encontra-los novamente.

Benjamin sorri.

- Muito obrigado, senhor assistente. – carregando a mulher-lobo nos braços, ele conclui – Nós nos encontraremos novamente.

O marido se referia a retribuir o favor. Valentim assente em silêncio. Então Benjamin carrega sua esposa e ambos desaparecem na noite.

 

§

 

De volta a Zgornji Kašelj, as carruagens médicas ocupam as ruas. Os residentes se aproximam, curiosos para ver o que está acontecendo. 

Valentim está ao lado da maca de Tobias. O inspetor está com suas costas e seus ombros enfaixados. Felizmente o virote não atingiu nenhuma artéria.

Valentim lhe explica o ocorrido. De fato havia um lobisomem em Liubliana. Tobias pondera; suas teorias estavam certas, afinal. Querendo ou não, Valentim também reconheceu isso aquela noite.

Os médicos aparecem com corpos sob os lençóis. Tobias vê aquilo e pergunta:

- Onde estão os Caçadores Britânicos?

- Mortos. – responde ele – Não sobrou nenhum.

O inspetor se consterna.

- Então não era um lobisomem, e sim uma mulher-lobo?

- Sim, e Benjamin era seu marido.

- E onde estão eles agora?

- Eu os deixei fugir.

Tobias se espanta.

- Valentim! Por que o senhor fez isso?!

Ele pondera em silêncio. Benjamin e a mulher-lobo eram casados e se amavam. Ele se identificou com eles em sua busca por Danica e, por esta razão, os deixou fugir.

- Não se preocupe, Hessler. Eles não virão novamente.

Os médicos põem Tobias na carruagem e vão embora. Valentim se despede e fica para trás; ele precisava espairecer seus pensamentos aquela noite.

De repente outra carruagem chega e para ao seu lado. A porta se abre e revela o capitão da Gendarmerie. 

Vendo aquele pandemônio, Vilko caminha furiosamente em direção a Valentim. Com o rosto corado, ele pergunta:

- Foi isso mesmo o que eu ouvi?! Um inspetor ferido, cinco nobres estrangeiros mortos, uma testemunha desaparecida e um maldito lobisomem?!

O capitão bufava ferozmente como o próprio licantropo. Valentim calmamente responde:

- É isso mesmo, capitão. Os almofadinhas morreram e a testemunha desapareceu na floresta. Um lobisomem matou todos.

Levantando as mãos, Vilko se recusa a acreditar.

- Por acaso eu fiquei louco?! Ou o senhor me acha com cara de idiota?! – pergunta ele – Não existe nenhum lobisomem!

O grito do capitão faz Valentim fechar os olhos para se proteger do ar quente.

- Pois eu insisto que existe. – reitera ele – Eu o vi.

- E curiosamente o senhor foi o único a sair de lá ileso, não é? – suspeita ele.

Valentim permanece em silêncio. Apesar das suspeitas do capitão, nenhum homem sozinho podia ter feito aquilo. Cinco homens armados e vestindo armaduras morreram. A não ser que Valentim tivesse força sobre-humana, ou um bando de criminosos com ele, qualquer teoria a seu respeito seria ridícula. 

- Eu vou investigar a fundo esse caso, Valentim, e se o senhor estiver envolvido, eu mesmo assegurarei que o senhor nunca mais saia da prisão, está me ouvindo?! – então Vilko se vira e vai embora.

De repente todos ouvem um lobo uivando ao longe e se assustam. O uivo veio do bosque onde aquela cerração verde maculava as árvores com o seu lamento. Mesmo o capitão se assusta, sentindo o seu sangue gelar de medo. Então um silêncio agourento paira sobre os gendarmes e os médicos, e ninguém ousa quebra-lo.

Enquanto todos olham para a floresta, Valentim chama a seu capitão e diz:

- Ei, capitão. – chama ele – Cuidado com os demônios à noite...  

 


sábado, 30 de julho de 2022

Liubliana - 20 - Licantropia

 


(Imagem do site Pinterest)

 

Ao chegar no endereço da testemunha, Tobias observa a casa. Como todas aquelas residências paupérrimas do bairro inglês, o tal Benjamin não possuía luxo algum. Ao contrário, ele dividia o beco com os pertences alheios, o lixo acumulado e o esgoto a céu aberto.

Tobias bate na porta. Atrás dele, os caçadores põem lenços em seus rostos e se enojam, perguntando-se como pode alguém viver daquele jeito. Ignorando-os, o inspetor bate novamente e espera. Ninguém atende.

Valentim se aproxima e comenta:

- Estamos no meio do expediente inspetor. Agora ele deve estar trabalhando.

Então a fechadura se estrala, rangendo a madeira.

- Hi. How may I help you?[1]

Eles viam um homem loiro, em torno de quarenta anos, com a típica aparência de um operário inglês.

- Boa tarde. Eu sou o Inspetor Hessler da Gendarmerie. Por acaso o senhor é o Benjamin?

Percebendo que eles eram gendarmes, o homem responde:

- Oh, sim. Eu me chamo Benjamin, certamente. Podem falar em eslavo do sul se preferirem.

Para a comodidade de Valentim, ele falava a sua língua.

- Senhor Benjamin, estes são os Caçadores Britânicos. Eles vieram da Inglaterra, como o senhor.

Benjamin olhava para cinco homens nobres e requintados.

- Prazer em conhece-los.

Os caçadores sorriem forçosamente.

- O prazer é todo nosso. – responde Hemsworth, controlando a ironia.

- Senhor Benjamin, estou conduzindo uma investigação da gendarme. Um lobisomem foi visto em Zgornji Kašelj e, conforme consta no relatório, o senhor foi a única testemunha. Pode nos dar mais informações?

- É claro. – ele abre sua porta e diz – Entrem, por favor. Sintam-se em casa.

Então um caçador sussurra ao seu companheiro:

- Impossível. – e então ele sorri.

No lado de dentro, eles veem como o inglês vivia em um humilde casebre. Os caçadores se sentem em um pulgueiro. A casa de Valentim era pobre, mas não se aproximava daquela evidente miséria. E assim cada um fazia seu julgamento em silêncio.

- Pode nos contar o ocorrido? – pergunta Tobias.

- Sim. – assente ele – Tudo começou quando eu voltava da fábrica. O trem nos deixa a dois quilômetros daqui e temos de percorrer o restante do trajeto andando. Naquela noite eu estava sozinho e havia pouca iluminação nas ruas. O governo de Carníola nos deixa na escuridão aqui! – reclama ele – Como devem saber, a cidade passa por uma onda de violência. Muitas pessoas estão desaparecendo no bairro inglês, mas as autoridades não fazem nada! A cada semana alguém desaparece ou morre. Muitos são encontrados mortos depois de alguns dias, e é lamentável a Gendarme não fazer nada a respeito...!

- Senhor Benjamin, eu reconhece sua queixa, mas preciso que o senhor mantenho o foco, sim?

Recompondo-se, ele continua:

- Nessa noite, eu vi algo passar debaixo do poste de iluminação. O monstro atravessou a rua e se dirigiu ao Bosque das Espatódeas. A luz esverdeada do Plasma ofuscou sua forma, mas eu pude reconhece-lo. Era um lobisomem que eu via ali.

Hemsworth os interrompe:

- Espere um pouco! O senhor está nos dizendo que seu testemunho se baseia em uma longínqua imagem de um lobo no meio da noite?

Benjamin se mantém firme.

- Muitos ingleses estão sendo sequestrados, não é? E por que seus corpos nunca são encontrados? Muitos também estão sendo assassinados. Por que em seus corpos há tamanha ferocidade nos ferimentos? – pergunta ele – Não seria possível que tenham sido vítimas de um lobisomem do qual eu mesmo o vi?

Os caçadores concordam. Em Londres as vítimas desapareciam por dias, até serem encontradas dilaceradas, como se tivessem sido devoradas por algum monstro.

O líder insiste.

- Inspetor Hessler, eu agradeço o seu trabalho, mas apenas o relato deste homem não será o suficiente! Temos que fazer uma busca de campo!

Tobias se espanta.

- O senhor está precocemente sugerindo uma busca?

- Somos caçadores, não somos?

- Acho que precisaremos de mais informações antes de nos arriscarmos em uma busca no bosque.

- O que foi, inspetor? Está com medo de suas próprias teorias? – provoca ele – Monstros são reais, lembra-se? E é nosso trabalho abatê-los.

- Então o que o senhor sugere?

- Caça-lo. – responde ele, incisivamente – Vamos nos embrenhar na mata e trazer sua cabeça como troféu.

O inspetor se surpreende.

- Sir Hemsworth, não estamos caçando antílopes em uma savana! Liubliana não é nenhum safari africano, como já deve saber.

- Mas de acordo com os relatórios da Gendarme, há muitos assassinos selvagens por aí. – afirma ele – E então? Partimos para a caçada esta noite?

Pressionado, Tobias responde:

- Está bem.

Os caçadores se alegram. Então Hemsworth comenta:

- Ouvi dizer que será Lua Cheia esta noite...

 

§

 

Olhando em seu velho relógio de bolso, Tobias vê que horas são.

“Onze e meia”, vê ele.

O frio da noite assopra em suas roupas e o arrepiam. Valentim está ali também, vestindo um velho casaco surrado. Como Benjamin disse, o bairro inglês à noite era perigoso. A pouca iluminação os deixam tensos e eles podem ver apenas as luzes nas janelas das casas.

Benjamin aparece vestindo um casaco xadrez e uma boina inglesa. Os dois notam que ele estava perfumado e se intrigam, mas ninguém diz nada. 

Ao longe, na rua, eles veem carruagens chegando. Valentim reconhece as luxuosas carruagens dos caçadores. Eles descem de seus veículos vestindo armaduras, portando armas e carregando belos equipamentos de caça. Em seus coldres Valentim vê armas com empunhadura de marfim. Ele sabe que cada uma delas valia uma fortuna. Hemsworth portava uma espada reluzente e ele reconhece a prata. Um caçador portava uma besta com afiados virotes. Realmente eles estavam prontos para caçar.

- Boa noite, Inspetor Hessler.

- Boa noite, Sir Hemsworth.

- O que estes homens fazem aqui? – ele se referia a Valentim e Benjamin.

- Benjamin conhece o bosque e insistiu para nos ajudar na busca. Valentim, como eu já o informei, virá comigo como o meu assistente.

O líder ainda está ressentido devido ao soco. Ele aproveita para provoca-lo, perguntando:

- Se ele é teu assistente, então por que não está armado?

- Como eu também já o informei, ele não é nenhum gendarme. Apenas eu estou autorizado a me armar.

Hemsworth assente.

- O senhor trabalha perigosamente, inspetor. Arriscando a vida de civis...

- Devemos partir agora. – alerta um caçador.

Então todos se preparam e partem para o bosque.

Dez minutos depois eles adentram a floresta. Os caçadores ligam suas lanternas de luz amarela. Mirando a luz na copa das árvores, Valentim via a sinistra aparência da floresta. As espatódeas pareciam abraça-los com seus galhos negros; mais um pouco e suas almas seriam arrancadas por suas garras de madeira.

Vendo Benjamin acompanhar o grupo, Valentim se intriga. Ele era apenas uma testemunha e não deveria estar ali. Ninguém levava as lendas folclóricas a sério e tampouco um operário deveria se importar. Porém ele arriscava sua vida com o entusiástico Tobias e aqueles esnobes ingleses. Mas ele guardava suas suspeitas apenas para si.

A cidade ficava cada vez mais para trás. Apesar de estarem no meio da floresta, o bosque não era tão assustador quanto as encostas do Monte Santa Maria. Valentim se alegra ao saber que não estava lá. Mas então algo chama a sua atenção.

Uma cerração verde se arrasta entre as árvores e os envolve lentamente. Sua coloração incomum os intriga. Tobias pensa ser resíduos de Plasma, mas seu vapor se dissipava e sumia no meio das nuvens. Ali, ao contrário do Plasma, a cerração se concentrava no chão como um gás pesado. 

Eles ouvem o som de corujas e morcegos acima. Querendo quebrar o silêncio, Hemsworth comenta:

- A maldição da licantropia está em muitas culturas, e todas têm suas próprias versões da lenda. Alguns acreditam que os lobisomens têm um vício sanguíneo que os fazem devorar suas vítimas ao farejarem o seu sangue. Outros acreditam que eles vivam dentro dos espelhos, utilizando-os como portais para outra dimensão. Esta última faria sentido no budismo, pois os budistas acreditam na existência do Tyriagyoni, um mundo infernal habitado apenas por feras. Nesse mundo, os humanos renascem como animais e são atacados e comidos por outros mais ferozes e raivosos do que eles. Os renascidos nesse mundo vivem em medo constante, sem habitação segura e sofrendo com as constantes mudanças do ambiente. Tyriagyoni é um mundo bestial de impulso e instinto, onde todos se caçam mutuamente por esporte, pela lei do mais forte e por violência. – virando-se, ele conclui – De qualquer forma, eu não gostaria de renascer nesse inferno budista.

De repente eles ouvem um uivo lupino no meio da floresta. Valentim fica apreensivo e saca seu punhal; Hemsworth ri dele.

- Ele está aqui! Eu sabia! Eu disse que não era apenas um visão! – diz Benjamin.

- Caçadores! Saquem as suas armas! – ordena o líder.

Tobias também se prontifica, empunhando seu belo revólver alemão.

O caçador que porta a besta diz:

- Apareça, monstro! Eu tenho muita prata para você!

Em longos e funestos segundos, apenas a cerração se movia pelas árvores. De repente algo rosna atrás do caçador e o agarra pela armadura. Ele grita e puxa o gatilho, tentando salvar a sua vida. O caçador cai no chão e é arrastado para a mata, arranhando a terra enquanto é puxado para o escuro. Os caçadores se empalidecem de horror.

Vendo como tudo aconteceu muito rápido, Hemsworth exclama:

- Atirem, cavalheiros! Atirem!

Os caçadores atiram indistintamente contra a floresta. As armas disparando e a fumaça liberada subia pelo ar, enchendo seus pulmões de pólvora. Alguns segundos depois eles cessam os tiros.

- Não se preocupem. Nossas armaduras são de prata e, por esta razão, extremamente nocivas ao lobisomem. Se aquela fera pegou nosso companheiro, então ele a feriu também.

- Acho que ele feriu outra pessoa aqui! – alerta Valentim.

Os caçadores miram suas lanternas e encontram o inspetor caído no chão. Em seu ombro havia uma flecha perfurando-o. Para a sorte de Tobias, sua maleta o protegeu no momento do disparo. Do contrário, a flecha o teria transpassado. Um caçador comenta:

- Acho que o nosso companheiro o atingiu acidentalmente enquanto disparava a besta.

Hemsworth concorda.

- Precisamos tira-lo daqui.

- Eu vou. – prontifica-se Valentim.

- Não! – proíbe ele – O senhor está desprotegido e não sabe usar uma arma. Se separar do grupo agora significa a sua morte e a do inspetor. – virando-se para os seus companheiros, ele diz – Bancroft, leve o inspetor para um local seguro.

O caçador assente e carrega Tobias em seu ombro. Valentim se preocupa e então o inspetor diz:

- Não se preocupe, senhor Valentim. Eu ficarei bem. Sugiro que fique com os caçadores até sair da floresta. Estará mais seguro assim.

E então Tobias é levado para longe.

Olhando ao redor, apenas três caçadores restavam. Benjamin parecia não se importar com isso, ao invés ele olhava para a floresta tentando encontrar alguma coisa.

Eles ouvem um uivo à distância e então Benjamin diz:

- O lobisomem está ali! – e então Benjamin parte sozinho pela floresta.

Valentim e os caçadores se estarrecem.

- Mas o que é isto? Este homem é um suicida?! – indigna-se o líder – Cavalheiros, atrás dele!

Os passos no solo lamacento dificultam sua passagem. Eles correm pelas árvores iluminadas pela luz amarela. Os caçadores tropeçam nas raízes e se sujam, mas continuam sua corrida. Valentim tenta enxergar adiante, mas a paisagem era seriamente limitada pela cerração verde.

Uma fera rosna sobre os galhos e os assustam. Ao olhar para cima, um caçador vê um par de olhos brilhantes fitando-o na escuridão. De repente o lobo avança e golpeia sua garganta, rasgando-a com suas garras. O caçador grita e o sangue quente se espirra entre seus dedos, fazendo-o se engasgar e perder a sua voz em soluços. Finalmente, ele cai de joelhos no chão.

Socorrendo-o, seus companheiros tentam estancar o ferimento, mas o corte era profundo demais. Eles assistem seu companheiro morrer enquanto o brilho de seus olhos se desvanecia sob o luar.

Vendo o revólver do falecido no chão, Valentim se aproxima e rapidamente o pega. Hemsworth rapidamente o censura.

- Ei, você! Devolva já esta arma!

- Eu não devolverei nada!

- Eu mandei devolver! – e então o líder avança contra ele.

Valentim lhe aponta a arma para o seu rosto e diz:

- Tente toma-la de mim e eu explodo os seus miolos, “alteza”...

O caçador restante segura seu líder e diz:

- Deixe-o, sir Hemsworth! Estamos sozinhos nesta floresta e há um lobisomem aqui fora. Deixe-o se defender!

O líder forçosamente se contém.

- Está bem, mas eu voltarei para toma-la depois. – ameaça ele.

Enquanto Hemsworth se afasta, Valentim admira o belo revólver prateado em sua mão. Aquilo terá um bom preço no mercado negro, isso se ele sair vivo dali.

Um segundo depois eles ouvem Benjamin chamando-os ao longe. Os caçadores empunham suas lanternas e partem para encontra-lo. Valentim parte também, pois longe daquelas luzes ele estaria em completa escuridão.

Eles parecem ouvir o som de um riacho ao longe. As pesadas armaduras dificultam a corrida e, de repente, o companheiro de Hemsworth tropeça e cai por um barranco. Eles se assustam e veem o caçador rolando irresistivelmente pela ravina até se chocar contra as rochas às margens do riacho.

Todo cansado e ferido, o caçador exclama:

- Me ajudem!

A lanterna do líder pairava no alto do barranco. O caçador respira fundo e se tranquiliza, aguardando seus companheiros chegarem. E então ele ouve passos sobre as pedras.

O caçador se confunde. Hemsworth ainda estava lá em cima e o plebeu Valentim não podia andar no escuro. Todavia alguém se aproximava pelo riacho.

- Sir Hemsworth...? – pergunta ele.

A lua cheia brilhava no céu noturno; toda a paisagem ficava prateada pelo seu majestoso luar. De repente uma figura gigantesca obstrui a sua luz e mira seus olhos nele. O caçador se emudece de horror.

Antes que pudesse dar um grito, o monstro rapidamente morde sua garganta, quebrando seu pescoço como um graveto.

- Sir Coventry! Nos diga onde está!

Mas ao chegar ao riacho, o líder se apavora ao ver um hediondo lobisomem abocanhando um cadáver.

- Atire, homem! Atire!

O líder saca seu rifle e atira. Valentim o acompanha e atira também. O lobisomem uiva e então foge pela mata, desaparecendo entre as árvores.

- Não!

Hemsworth se agacha e encontra o seu companheiro. O sir Coventry estava morto. Ele abaixa a cabeça e se lamenta, chorando em silêncio. Valentim se aproxima e olha também. O pescoço do caçador parecia ter sido virado ao contrário. Ele vira o rosto em aflição.

O lobo uiva ao longe, espantando os pássaros. Valentim pega a lanterna do falecido e diz:

- Pois, é, alteza. Parece que agora somos só nós dois.

- Como ousa debochar da morte de um nobre! – e então o líder intenta ataca-lo.

- Espere! – exclama ele – Ouça-me agora! O lobo está ferido e o seu uivo foi de dor. Se a prata realmente lhe for nociva, ele agora está vulnerável.

- O que pretende, plebeu?

- Agora podemos abatê-lo.

Levantando-se, Hemsworth se recompõe e concorda. Em silêncio, ele segue o seu caminho.

A noite se esfriava. Os dois se embrenham na mata a procura do sangue do lobo. De repente eles ouvem um chamado, mas não era o de Benjamin. Valentim olha para trás e vê uma luz de lanterna se aproximando; era o caçador que resgatou Tobias.

- Sir Hemsworth, eu estou aqui! – revela-se ele – Como está a caçada?

- Tivemos duas baixas. – lamenta o líder.

O caçador se consterna.

- Senhor, sugiro mudar a estratégia. Temos que plantar armadilhas!

Pedindo-lhes espaço, o caçador abre uma armadilha de urso e a põe no chão.    

- Ótima ideia, Sir Frankland. O senhor tem mais?

Abrindo uma bolsa, o caçador responde:

- Muito mais!

Eles estabelecem um perímetro e assentam mais armadilhas pelo local; dez no total. Finada a tarefa, o líder orienta ficarem de costas uns para os outros e vigiarem o movimento dos galhos. Ele diz:

- Fiquem juntos. Os lobisomens podem farejar nosso cheiro e ouvir nossas batidas cardíacas. Ao ouvirem uma armadilha se ativando, atirem imediatamente. Essas feras são rápidas e podem alcança-lo em um piscar de olhos.

Alguns minutos se passam. A tensão e a ansiedade aumentam, tirando-lhes a concentração. Finalmente uma armadilha se ativa e Frankland atira com seu rifle. Estranhamente eles não ouvem nenhum uivo.

- Mantenham a calma. – ordena Hemsworth – Pode ter sido um cervo.

E então um focinho se aproxima Frankland, bufando e salivando raivosamente. Ele se vira e, de olhos arregalados, olha para cima; um enorme lobisomem preto o encarava.

- Corram!

No susto, todos se dispersam e correm pela floresta. A confusão se forma. Valentim corre pela mata e tropeça em um pedra, caindo em seguida. Hemsworth também corre, confuso com o ocorrido. O caçador tenta fugir do monstro e então pisa em uma armadilha, ativando-a sob o seu pé.

O ferro se crava em sua perna, esmagando os ossos de sua canela. Frankland cai no chão e agoniza. Mesmo a armadura não conseguiu suportar a pressão. Ele tenta afastar os aros, mas era muito apertado para abri-la. Agonizando, ele sua frio e luta para não perder o controle. Então algo acontece.

O lobisomem aparece sobre ele e o golpeia, fazendo-o cair para trás. A armadura contém o golpe e, pegando seu rifle, ele atira. A bala atinge a barriga do monstro, fazendo-o se encurvar. Recuperando-se rápido como um relâmpago, o lobo avança novamente cheio de fúria em seu olhar.

Valentim ouve gritos e o som desconcertante de ossos se quebrando ao longe. Ele ainda está caído entre os arbustos, mas consegue ver.

Benjamin caminha sorrateiramente pela floresta. Agachando-se ao lado de Frankland, ele parece esperar algo. De repente uma enorme sombra preta se esgueira atrás dele e se levanta. Valentim arregala os olhos. Estranhamente Benjamin não teme por sua vida; ao invés ele se mantém em pé, corajosamente encarando o monstro.

O inglês diz:

- Vamos! Me transforme!

O lobo se aproxima. Ele era tão grande que podia arrancar a cabeça de Benjamin com uma mordida. O lobo o fareja e, ao sentir seu cheiro, se vira e vai embora. Então Benjamin cai de joelhos e chora tristemente:

- Eu te imploro... Lance o teu feitiço sobre mim...!

Valentim se intriga.

Um minuto depois, Hemsworth se aproxima e encontra Benjamin ao lado de Frankland. Ao se deparar com seu companheiro morto, o líder abaixa a sua cabeça.

- Eu lamento muito. – diz o inglês – Eu o encontrei aqui enquanto procurava pelos senhores.

Hemsworth se silencia. Em pé ao lado de seu companheiro, ele reconhece; apenas ele havia sobrado. Valentim se aproxima e também vê o caçador morto. A caçada havia se tornado uma tragédia. 

 O líder respira fundo. Cerrando os seus punhos, seu rosto parece corar.  Estranhando o comportamento do líder, Valentim teme que ele perca o controle. Então Hemsworth diz:

- Esta não é mais uma caçada. – afirma ele – Agora estou aqui por Vingança! – e então ele desembainha sua espada prateada.

Valentim pergunta:

- O que vai fazer, Hemsworth?

- Eu vou caçar esse monstro.

Ele se espanta.

- Por acaso o senhor ficou louco?

Ignorando-o, o líder lhes dá as costas e vai embora.

Valentim e Benjamin o seguem pela floresta. Mais adiante eles chegam a uma clareira e encontram Hemsworth lá no meio, longe das armadilhas e das árvores. Furioso, ele diz:

- Apareça! Aqui você não pode mais se esconder sobre as árvores! Enfrente-me pela frente como um homem!

O líder manuseava habilmente a sua espada, fazendo-a brilhar sob o luar. Ele olhava ao redor, corajosamente desafiando o monstro para o combate. Valentim e Benjamin o observavam, temerosos de acompanha-lo naquele duelo absurdo.

Eles ouvem um uivo entre as árvores e se atentam. O lobisomem estava próximo.

- Vamos, apareça! – ordena o líder – Eu estou pronto para mata-lo aqui mesmo!

No outro lado da clareira, o monstro aparece. Ele se sacudia, expelindo o sangue de sua pelagem. Então o lobo caminha de quatro sobre as suas patas, indo para o centro da clareira. Hemsworth ergue sua espada e vocifera cheio de ódio:

- Você pensa que eu tenho medo?! Em Londres eu matei dezenas de monstros como você! Como ousa pensar que pode derrotar um nobre!

Mas o lobo apenas bufa e o rodeia pelo gramado. O lobo se levanta e o líder hesita; sua estatura era de dois homens em pé.

Hemsworth ataca corajosamente. Ele golpeia com sua espada, mas o lobo se esquiva com extrema rapidez. O líder ataca repetidamente, mas era como se estivesse lutando com um fantasma. Ele muda sua estratégia e, fingindo golpear para um lado, golpeia o outro. O lobo se confunde e é atingido, tendo seu tórax cortado pela espada.

Uivando de dor, o lobo cambaleia. Valentim aproveita o momento e saca sua arma, preparando-se para atirar. Prestes a apertar o gatilho, algo bate em sua cabeça e ele desmaia.

Hemsworth tenta dar o golpe final, mas o lobo se esquiva e golpeia seu braço, quebrando-o. O líder grita. Ele tenta trocar a espada de mãos, mas era tarde demais. O lobisomem se levanta e crava suas garras em seu peito, atravessando a armadura e retalhando o seu coração.

De olhos arregalados, o líder tosse sangue. Seu vigor desaparece e seu corpo se enfraquece nos braços do monstro. Percebendo o fim do duelo, ele larga a sua espada. Estava tudo acabado. E assim chega ao fim a existência dos orgulhos Caçadores Britânicos.

Mas apesar do duelo ter acabado, a luta estava longe de terminar.

O lobo está ferido e se arrasta de volta para a floresta. O duelo, os tiros e a prata o feriram e ele lutava para salvar a sua vida.

A consciência lentamente retorna. Valentim abre os olhos e vê Benjamin seguindo o monstro entre as árvores. Então ele se levanta e, recuperando a sua arma, o segue pela escuridão.   

 

 



[1] “Olá. Como posso ajudá-lo?” é inglês

domingo, 24 de julho de 2022

Liubliana - 19 - Os Caçadores Britânicos

 


(Imagem do game The Order 1886)


A estação da Gendarmerie está habitualmente movimentada. Com a alta dos crimes, os guardas têm muito trabalho nas ruas. Os investigadores estão tão atarefados que trabalham dia e noite para resolver seus casos. Muitos suspeitos são interrogados, mas todos alegam ter tido uma explosão de raiva durante o delito, ficando perigosamente irascíveis.

Valentim assiste a tudo em silêncio. O som dos gendarmes conversando e o cheiro de cigarro no ar o adaptavam ao novo ambiente. De banho tomado e cabelo penteado, ele aguarda o início do expediente em seu novo emprego.

Vendo-o na recepção entre os civis e os delinquentes, Tobias o chama.

- Senhor Valentim! Por aqui, por favor!

Ele caminha até o inspetor e o cumprimenta:

- Bom dia, Inspetor Tobias.

- Bom dia, Valentim. Como está o ferimento?

- Eu não tenho tempo para nenhum ferimento.

Tobias sorri, contrariado.

- Está bem. Deixe-me acompanha-lo para a sala de evidências, sim?

Então os dois sobem as escadas.

Sobre a mesa do inspetor, Valentim vê várias pilhas de papeis. Aqueles eram documentos referentes às investigações da estação. Valentim percebe que o trabalho da Gendarmerie envolvia muita burocracia.

Tobias lhe indica as pastas das quais os documentos deveriam ser guardados. Em seguida ele pede para ele organizar as caixas de evidências físicas. Valentim trabalha com muita rapidez e empenho. Vendo como ele finalizava tudo rapidamente, Tobias se impressiona. Deixando a sala, o inspetor pega um pano e um esfregão e muito temerosamente diz:

- Senhor Valentim... Eu preciso que o senhor... – e então ele hesita.

- Eu o quê?

- Que o senhor... – ele engole em seco e conclui – Faça a faxina da sala para mim.

Tobias se empalidece e espera um esporro daquele bruto homem. Mas ele, estranhando o pedido, lhe faz um olhar intrigado e se silencia. Então calmamente Valentim pega os itens de limpeza e, sem se importar com o pedido, limpa a sala em silêncio. Tobias se espanta.

Enquanto Valentim limpa, o inspetor se impressiona. Com suas mãos calejadas e acostumadas ao trabalho duro, Valentim limpava o lugar com muita competência. Ao contrário do que Tobias pensou, seu assistente era um homem muito responsável e trabalhador. Ao observa-lo, o inspetor percebe que ele não escolhia os serviços; ele executava fiel e dedicadamente qualquer um.

Tobias veio de uma situação financeira muito melhor que a de Valentim. Na Áustria, ele nunca passou fome e nem teve de trabalhar em uma degradante fábrica para sobreviver. Observando seus trajes, Tobias nunca usou nada parecido com aqueles farrapos de Valentim. Mas Valentim transmitia uma força que ele nunca havia visto antes. Ele estava perante um homem de aço, alguém de determinação férrea que perigo nenhum poderia conter.

“Nem mesmo uma bala para salvar a minha vida”, pensa ele.

Então Tobias sorri. Ele fica feliz por Deus ter colocado alguém tão corajoso para protege-lo aquele dia. Virando-se, ele volta a trabalhar em silêncio.

 

§

 

Ao meio-dia eles almoçam na sala de evidências. Tobias reparte sua comida com seu assistente. Valentim vê um pote com tiras de repolho, batata cozida, molho de vinho e temperos. Estranhando aquela comida, ele se pergunta se aquilo era o famoso chucrute que os alemães comiam tanto.

De repente o capitão Vilko entra na sala e diz:

- Inspetor, você não vai acreditar. Há outros que também acreditam nas suas fantasias.

Tobias se intriga.

- Do que o senhor está falando, capitão?

- Recebemos relatos de que um lobisomem foi visto aqui em Liubliana.

- Um lobisomem?! – interessa-se ele.

- De alguma maneira a notícia se espalhou e chegou aos ouvidos das autoridades britânicas. Eles enviaram uma equipe de especialistas, um bando de malucos especializados em assuntos paranormais lá em Londres. Conheça os Caçadores Britânicos.

Voltando ao corredor, o capitão chama alguém e um grupo de homens entram na sala. Tobias e Valentim viam cinco ingleses com finas roupas e olhares altivos. Suas roupas eram requintados uniformes com luvas e botas; seus cabelos eram cuidadosamente penteados e seus rostos devidamente barbeados. Alguns portavam bengalas, mas não era devido a nenhuma deficiência nas pernas e sim à peculiar moda inglesa. Um deles segurava um relógio de bolso e outro usava um monóculo. E assim Tobias os reconhece; eles eram da nobreza britânica.

O líder do grupo se apresenta:

- Boa tarde, senhores. Eu sou o Sir Hemsworth. Nós somos os Caçadores Britânicos. Creio que o seu capitão já os tenha dito.

Hemsworth falava com forte sotaque inglês. Um pouco sem jeito, Tobias responde:

- Boa tarde, senhor Hemsworth. Prazer em conhece-lo.

O capitão diz:

- Um suposto lobisomem foi visto no Bosque das Espatódeas. Fica a leste da cidade em Zgornji Kašelj, no bairro dos ingleses.

- Bosque das Espatódeas?

- Um operário inglês, de nome Benjamin, alega que sua esposa tenha desaparecido lá na noite do avistamento. Ele teme que ela tenha sido levada pelo monstro, ou mesmo morta por ele. Aqui está a pasta contendo maiores informações. – então ele lhe entrega a pasta – Estes senhores o auxiliarão em sua busca. Este é o seu novo caso, Hessler. Me deixe orgulhoso.

Virando-se, o capitão Vilko deixa a sala.

Sozinhos com os nobres, os dois se acanham. Perto deles, Tobias e Valentim eram dois cães esfarrapados comendo sua ração deprimente sem usar talheres decentes. Os nobres lhes lançavam olhares altivos, julgando-os pela sua baixa posição social. Tobias era um inspetor jovem e inexperiente demais para se dar crédito. Valentim, por outro lado, se aproximava de um mendigo de tão miserável. Em silêncio os nobres sentem um misto de nojo e pena deles.

Por fim, o líder dos caçadores comenta:

- É deveras fascinante a Gendarmerie de seu país, inspetor. E posso ver que os senhores são dois excelentes gendarmes.

- Oh, não! – corrige Tobias – Este não é um gendarme; ele é meu assistente. Seu nome é Valentim. 

Hemsworth sorri com desprezo. Valentim se incomoda e o encara de volta com um fogo no olhar. Se o nobre o insultasse, ele o esfaquearia ali mesmo, sangrando-o até a morte como um porco. Sentindo o perigo, o líder tira o sorriso do rosto e desvia o olhar.

Outro caçador pergunta:

- Ouvimos dizer que o senhor é um especialista em casos paranormais, Inspetor Hessler, e que tem uma intrigante teoria sobre o misticismo do Plasma. Isto é verdade?

- Bem, eu não sou nenhum especialista, mas, de fato, tenho minhas teorias quanto a substância. Creio que...

- Nós trabalhamos com atividades paranormais na Inglaterra – interrompe o líder – e posso afirmar que o progresso e a indústria trouxeram o paganismo do campo para a cidade. Foi como se operariado tivesse trazido suas crenças diabólicas em suas bagagens.

Um caçador diz:

- Vemos que Carníola passa pelo mesmo êxodo rural. Operários de todo o império vêm para Liubliana para trabalhar e, coincidentemente, criaturas lendárias começam a aparecer. Nossa teoria é de que a profanação de vossas ruas seja responsabilidade da ralé.

Tobias se ofende.

- Respeitosamente, senhores, eu não creio seja necessário o elitismo contra as classes mais baixas. O Plasma é o verdadeiro culpado.

- Plasma?! – ironiza um caçador – Inspetor, o Plasma é uma fonte de energia natural como o vapor e o carvão. Devemos lembra-lo que, antes da invenção das máquinas, Londres era uma cidade segura, habitada por burgueses e nobres de alta classe. Os burgueses trouxeram essa gente para o coração do nosso império – diz ele, referindo-se a Londres – mas é responsabilidade da nobreza mantê-la limpa. Afinal, não queremos outro Oliver Cromwell em nossas ruas...

O caçador se referia ao político e militar puritano responsável pela guerra civil na Inglaterra do século 17. Cromwell derrubou a monarquia e instaurou a república cem anos antes da própria Revolução Francesa. Mas a instabilidade política resultante e as disputas entre as facções pelo poder o fizeram dissolver várias vezes o Parlamento, concentrando em si todo o poder e criando o título de Lorde Protetor eterno. E assim se iniciou um período ditatorial na Inglaterra.

Hemsworth diz:

- Em meus safaris pela África, eu aprendi algo, Inspetor. As classes baixas são como os animais selvagens nas savanas. Se o senhor não tomar cuidado, elas o atacarão. Seu único propósito é servir às classes dominantes. Portanto, para a manutenção da ordem natural das coisas, elas devem ser mantidas acorrentadas em seu jugo servil.

Mais uma vez Tobias se ofende com seu elitismo. Lembrando-se de algo, ele comenta:

- Não concordo com seu ponto de vista, Sir Hemsworth, mas devo alerta-lo de uma coisa. Mesmo o animal mais fraco lutará pela sobrevivência quando acuado. Quando a opressão é forte demais, até os plebeus do operariado se insurgirão. Na verdade, é isto o que vem ocorrendo na Inglaterra, não é mesmo? Com o surgimento dos movimentos socialistas e comunistas em seu país?

- Os socialistas?! – ri ele – Ora, aqueles são uns vagabundos famintos que querem tomar a riqueza da burguesia para viver sem trabalhar! Deixe-os amargar à sombra das classes dominantes, Inspetor Hessler. Deixe-os superestimarem sua débil importância. Não há de que se preocupar! Isto eu o garanto!

Tobias meneia negativamente a cabeça.

- Espero que esteja certo, Sir caçador.

O líder então pergunta:

- Devemos investigar o caso, não? 

- É claro. – prontifica-se Tobias. Abrindo a pasta, o inspetor expõe os relatórios sobre a mesa. Lendo-os atentamente, ele diz – O lobisomem foi visto no distrito de Zgornji Kašelj. O local é conhecido pelas linhas ferroviárias e o bairro inglês.

- Faz sentido. – comenta um caçador – Os operários vivem próximo às linhas inglesas para trabalhar. Eles vieram para Carníola para assentar os trilhos.

Tobias concorda.

- Além da garagem de trens há um bosque conhecido como Bosque das Espatódeas. Este foi o local do avistamento do lobisomem.

Escutando tudo atentamente, Valentim os interrompe para perguntar:

- Inspetor, o que é espatódea?

Os caçadores riem. Tobias pede silêncio e responde:

- É uma árvore nativa da África tropical conhecida por suas flores campanuladas de cor vermelha e laranja. O nome deriva-se da palavra grega spathe, em referência ao cálice em forma de espádice.   

Valentim finge entender. Ele não sabe o que é campanula ou espádice, mas se lembra da famosa árvore com flores alaranjadas em forma de cálices com água em seu interior.

- Continuando, um inglês chamado Benjamin viu o monstro e afirma que sua esposa foi raptada por ele.

Hemsworth faz um olhar de desconfiança.

- Inspetor, tenho minhas dúvidas nesta parte. Este é realmente um caso paranormal ou de infidelidade no casamento? Em Londres, quem vê um lobisomem morre, ou sai gravemente ferido. Eles não sequestram mulheres! – exclama ele – Sem falar que aquele que é ferido por este monstro e vive, absorve para si a maldição.

Desta vez Tobias é obrigado a apelar para a razão.

- Senhores, ainda não sabemos se realmente se trata de um lobisomem. A cidade está um caos e há inúmeros casos de violência nesses bairros. Este pode ser o relato de um alcoólatra ou mesmo de um esquizofrênico.

Os caçadores se entreolham.

- Inspetor Hessler, tanto a ciência quanto a religião atribuem sintomas à licantropia. A hipertricose, por exemplo, é uma doença extremamente rara conhecida por fazer crescer pelos em diversas partes do corpo, inclusive na face. Na Bíblia, mais especificamente no livro de Daniel, encontramos o relato do rei Nabucodonosor, do qual teve o seu coração “trocado” pelo de um de animal e ficou sete anos vivendo no campo, tendo o corpo molhado pelo orvalho e comendo capim com os bois. Diz a Bíblia que pelos cresceram em seu corpo como as penas das águias, e suas unhas ficaram grandes como as das aves. – descreve Hemsworth – Ou também no Evangelho de Marcos, sobre a passagem do famoso gadareno. Possuído de espíritos imundos, ele habitava nos sepulcros, quebrava cadeias de ferro com as próprias mãos e feria-se com pedras... Quanto a esquizofrenia, ela é uma doença psiquiátrica que se caracteriza pela perda de contato com a realidade. A pessoa sofre de letargia ou, nos exemplos mais clássicos, tem alucinações e delírios. Citando a hipertricose, o rei Nabucodonosor e o gadareno, pode uma única pessoa ter tudo isso? Todos os sintomas em uma só? – ironiza ele – Pelos na face, unhas de ave, força para quebrar o ferro...? Não seria possível que estejamos tratando não de uma doença clínica, mas de um legítimo caso sobrenatural?

Ao ouvi-lo, o inspetor se empolga. Apesar das perspectivas diferentes, finalmente alguém acreditava que a aparição de monstros era real.

- Concordo com o seu ponto de vista – responde ele – Mas ainda creio que o Plasma tenha catalisado a vinda dos monstros para esta dimensão.

- Mesmo um homem que é puro e faz suas orações à noite se tornará um lobo. – comenta um caçador – Há relatos da aparição dos lobisomens muito antes da descoberta do Plasma. Se alguém for mordido por um lobo e sobreviver, a maldição do lobo se apoderará dele. A vítima se transformará a cada lua cheia; uma fera demoníaca e sanguinária, sem compaixão por seus próprios entes queridos. Esta besta irracional só será libertada de seu tormento com uma única solução: balas de prata.

Outro caçador complementa:

- O senhor pode usar espadas ou adagas também, desde que sejam de prata. Mas o combate próximo com estas feras é morte certa. Prefira combate-las a distância, e tenha uma boa pontaria. Erros podem ser fatais.

Tobias pergunta:

- Mas apenas a morte as cura da maldição? Não há um antídoto que as liberte?

- Temo que não, Inspetor Hessler – responde o caçador – A maldição termina junto com sua vida.

Então o inspetor sente pena das vítimas.

Vendo como ele estava pesaroso, o líder diz:

- Não fique abatido, inspetor. O mundo é mais impiedoso e cruel do que imagina. Como diria Shakespeare, “o inferno está vazio; os demônios estão aqui”.

Tobias assente e volta a averiguar os documentos.

- Aqui consta o endereço do tal Benjamin. Ele mora em Zgornji Kašelj e trabalha na companhia ferroviária inglesa. Devemos encontra-lo lá.

Então Hemsworth pergunta:

- E o que estamos esperando?

 

§

 

Da janela da carruagem, Valentim e Tobias veem os caçadores dirigindo suas modernas carruagens automóveis. Aquelas eram carruagens velozes e macias, muito diferentes das desajeitadas e obsoletas movidas a cavalos. Valentim pensa como cada uma delas devia valer uma fortuna. Apenas o valor de uma resolveria sua vida, e aqueles esnobes usavam o dinheiro para comprar veículos e ostenta-los nas ruas. Amargurado, ele via como a vida era injusta.

Ao chegar em Zgornji Kašelj, eles veem casebres e becos onde os trabalhadores moravam. Varais e roupas cruzavam os becos e crianças brincavam nas ruas. As mulheres conversavam e lavavam as roupas, ocupadas em seus afazeres domésticos. Por não falar inglês, Valentim prefere permanecer em silêncio.

Os caçadores faziam olhares de desprezo. Olhando para as crianças, um deles comenta:

- Veja estes pequenos vadios. O lugar deles é trabalhando nas fábricas como seus pais.

Ao ouvi-lo, Valentim se indigna.

Eles entram no beco e Valentim percebe que o chão era de terra lamacenta. Vendo as condições precárias em que aqueles ingleses viviam, ele se entristece. Nem mesmo ele vivia em tamanha miséria.

As mulheres veem aqueles estranhos passando ali e se intrigam. Algumas crianças falavam com eles, mas Tobias não entendia bem. Os caçadores nem mesmo as olham nos olhos, ignorando-as como se estivessem na presença de animais.

Tobias carregava sua mala com seu equipamento. Sentindo desconforto, ele tem dificuldade em carrega-la. De repente ele tropeça e cai de joelhos, sujando suas roupas e fazendo as crianças rirem dele.

Indignado, Hemsworth olha para os dois e diz:

- Ora, mas para que serve teu assistente, Inspetor Hessler?! Por acaso ele está aqui só para passear contigo?

Tobias se intriga.

- Ele está se recuperando de um ferimento, Sir Hemsworth. Ele se feriu ao tentar salvar a minha vida.

- Pois ele parece muito bem para mim. – discorda ele – Mande-o carregar sua bagagem... E peça-o para engraxar seus sapatos também. Talvez o serviço de assistente seja demais para este execrável plebeu.

Como um relâmpago, Valentim avança contra o líder e o esmurra no queixo, fazendo-o cair contra seus companheiros, atordoado. Percebendo que Hemsworth se levantava com a intenção de revida-lo, Valentim pega seu punhal e tenta golpear sua garganta. Tobias se apavora e, agarrando seu braço no último segundo, exclama:

- Valentim!

Ele rosnava como um cão raivoso.

- Solte-me, Tobias! Este homem me insultou!

- Valentim, estes homens são poderosos! O senhor já teve problemas com os burgueses! Não queira ter com os nobres também!

Recobrando a consciência, Valentim abaixa o braço. O inspetor tinha razão; arrumar mais problemas naquele momento apenas atrasaria sua busca por Danica.

Os caçadores também seguram Hemsworth, contendo-o. Então Valentim aponta o dedo para o seu rosto e diz:

- Não importa quanto dinheiro tenha, o teu sangue é vermelho como o meu e isto não te faz melhor do que ninguém. Se o senhor me insultar de novo, eu o esquartejo com uma faca cega e envio os pedaços para cada membro da sua “nobre família real”, está me ouvindo?

Então Valentim se vira e continua seu caminho.

Os caçadores olham atônitos, espantados com o temperamento de Valentim. Então um caçador sorri para os seus companheiros e diz:

- Acho que já temos o nosso primeiro suspeito para o lobisomem...!

 

 

domingo, 17 de julho de 2022

Liubliana - 18 - Um Banquete com Vlad, o Empalador

 


(Artista desconhecido)

 

Dois dias se passam.

Valentim estava dolorido e ainda se recuperava de seu ferimento nas costas. Faixas o enrolavam de seu pescoço até os ombros e ele não poderia tomar um banho decente por dias.

Felizmente o revólver do assassino em série, Štephan, era de péssima qualidade. O tiro não atravessou suas costas; a bala havia se alojado superficialmente em sua pele. Os médicos fizeram um ótimo trabalho e Valentim recebeu pontos cirúrgicos. Para sua preocupação, ele foi tratado com remédios feitos à base de Plasma.

 Suportando a dor, ele respira fundo e se alegra; pelo menos não havia morrido naquele horrível calabouço.

Dentro da carruagem, ele era levado pelas ruas de Liubliana. Tobias o convidou à estação e pagou pessoalmente para que um cocheiro o pegasse em sua casa e o levasse para a Gendarmerie. Lisonjeado, ele aceita o convite de bom coração.

Avançando pelas ruas, Valentim vê os caos pela cidade. Vandalismos, saques e violência se alastraram por Liubliana. O Plasma estava afetando-a.

Valentim ouve um barulho nos céus. Para sua surpresa, um dirigível sobrevoava a cidade. Acima das casas e das fábricas, o enorme veículo rondava as ruas, vigiando os cidadãos e mantendo-os em segurança. Ele nunca havia visto aquela máquina antes e se fascinava vendo como algo tão grande podia voar.

Liubliana se tornava uma cidade laboratório dos ingleses. Lá eles testavam suas novas invenções, como máquinas industriais, carruagens autômatas e os dirigíveis. O Plasma as energizava, sendo essencial para o seu funcionamento. Ignorantes demais para compreender, os liublianenses não notavam que Liubliana tomava o lugar de Londres como a cidade-modelo.   

Ao chegar na estação da Gendarmerie, ele é recebido com aplausos e honrarias. Os guardas o saudavam por sua bravura e coragem. Na sala dos inspetores, Tobias e seu capitão o cumprimentam calorosamente. Valentim estava confuso e não sabia o que fazer. Mladen e Davud estavam lá também e o aplaudiam. Ao cumprimenta-los, seu ferimento dói e ele hesita.

Pedindo a atenção de todos, o capitão diz:

- Senhores, este homem salvou a vida do Inspetor Tobias. Se não fosse por sua admirável coragem, um dos nossos inspetores teria morrido. Neste momento tão crítico, termos um cidadão tão valoroso conosco é um privilégio!

Vilko pega uma pequena caixinha e, abrindo-a, revela um linda medalha. Ele a põe em seu pescoço e o parabeniza.

Então Tobias diz:

- Nós temos mais uma surpresa para o senhor. Senhor Valentim, estou convidando-o a se tornar o meu assistente pessoal aqui na Gendarmerie.

- O quê...?! – espanta-se ele. 

- O senhor nos ajudou a resolver o caso e ainda salvou a minha vida. Se não fosse por sua coragem, eu seria mais um daqueles cadáveres no calabouço. Portanto, como forma de gratidão, eu o ofereço este cargo aqui na estação.

Valentim não sabe o que responder. O capitão então diz:

- Hessler me contou sobre sua delicada situação financeira. Nós, aqui da estação, não achamos justo apenas condecora-lo com medalhas. E então o inspetor nos propôs este cargo. Se aceita-lo, o senhor receberá um salário. – e então ele conclui – E assim poderá pagar as suas dívidas.

Enchendo-se de lágrimas, Valentim tenta apertar a mão de Tobias. Porém seu braço dói e ele se encolhe de dor.

- Acalme-se, senhor Valentim. – pede ele – Se não estiver recuperado, poderá voltar mais tarde quando estiver apto.

- Não. – recusa-se ele – Eu estou bem. – tomando fôlego, ele continua – Estou muito grato pela oferta e aceito o cargo. Eu me prontifico a auxiliar a Gendarme o quanto antes.

 Tobias e Vilko se entreolham.

- Eu te disse que ele era durão. – comenta o inspetor.

O capitão pergunta:

- Se me permite perguntar, por que esta avidez para voltar ao trabalho? Por que tanto descaso quanto a própria saúde?

Novamente com sua inabalável convicção, ele responde:

- Nem que um dia eu morra lá fora, eu jamais poderei deixar este mundo. Enquanto eu não encontrar a minha Danica, minha alma jamais poderá descansar em paz.

O capitão assente.

- Pois bem. – olhando para os seus inspetores, ele ordena – Muito bem, homens! Voltem ao trabalho!

Então a condecoração se encerra e todos voltam aos seus afazeres.

Levando-o para a sala de evidências, Tobias abre uma pasta e lhe explica os detalhes do trabalho. Ele lhe revela os horários, as rotinas e as obrigações. Aparentemente o trabalho na Gendarmerie envolvia muita burocracia. Felizmente ele não teria de escrever, seu analfabetismo o impediria, mas ele teria de organizar os arquivos. Valentim receberia um salário modesto, porém o suficiente para sobreviver.

Por último, o inspetor diz:

- Senhor Valentim, o senhor não trabalhará hoje. Vá para casa e se recupere. Descanse um pouco e então volte amanhã.

Ele protesta.

- Inspetor, o tempo que perdemos...

- Eu sei! – interrompe ele, prevendo-o – Nós vamos encontrar a sua esposa, está bem? Isso eu o prometo. Mas preciso do senhor recuperado para investigar comigo. – despedindo-o, ele diz – Dispensado.

Valentim forçosamente acata, mas ele estava feliz. Trabalhando para o dócil Tobias, ele fará de tudo para encontrar Danica.

Agradecendo-o, Valentim se vira e finalmente vai embora.

Enquanto deixa a estação, ele pensa a respeito. Valentim agora tinha um objetivo e um emprego, e ambos o direcionavam diretamente para sua busca pela sua esposa. Suas saudades corroíam o seu coração; sua preocupação esmagava a sua mente. Além de sua imensa coragem e férrea hombridade, o amor era a sua principal motivação, pois como disse Aristóteles, “o amor é formado por uma única alma habitando dois corpos”.     

“Eu vou encontra-la, Danica”, pensa ele. “Esteja onde estiver”.

 

§

 

Anoitece em Liubliana.

Valentim tem um sonho estranho. Ele sonha estar no ano de 1462 na Valáquia. Olhando ao redor, ele se vê em uma hedionda floresta. Nela haviam corpos empalados por toda parte, alinhados e erigidos pela mata como se fossem árvores. Os moribundos agonizavam e definhavam com toras atravessando os seus corpos. Mesmo os corvos pousavam sobre eles para devorarem a carcaça. Então Valentim se apressa e corre para deixar aquela floresta dos empalados para trás.

No final do caminho ele encontra a famosa Târgoviște[1], capital da antiga Valáquia. A cidade vivia uma perseguição promovida por seu próprio governante, o voivoda[2] Vlad III. Valentim sabe de quem se trata, era Vlad Țepeș[3], o famigerado Vlad, o Empalador.

Em seu sonho, Valentim sabia o que havia acontecido. Em sua invasão da Bulgária, Vlad capturou turcos e os búlgaros e os trouxe para Târgoviște. Lá ele os arregimentou e os empalou, cravando enormes estacas em seus ventres. Vlad também empalou seus concidadãos, acusando-os de serem traidores e simpatizantes do Império Otomano.

Valentim sobreviveu à perseguição, mas teve sua casa pilhada e queimada. Ele estava sujo e ferido, e cambaleava pela folhagem. Adiante, ele vê uma tenda com os nobres e os cavaleiros participando de um delicioso banquete. No meio da mesa ele vê um nobre de bigode e longos cabelos negros; ele vestia um requintado chapéu de joias e um belíssimo uniforme vermelho. Valentim o reconhece, era o temível Vlad, o Empalador. 

Vlad comia tranquilamente enquanto assistia os soldados empalarem seus inimigos. Os turcos imploravam por suas vidas, dizendo:

- Merhamet![4]

E então eles eram brutalmente encravados de cima para baixo pelos valaquianos.

Os cidadãos de Târgoviște também eram trazidos. Eles eram impiedosamente empalados, acusados pelo voivoda de traição. Arrastadas pelos cabelos, as mulheres também eram trazidas. Em horror, Valentim assiste elas sendo empaladas, algumas juntas de seus próprios filhos. Ele nota que as crianças eram tão novas que ainda amamentavam.

O exército percorria as ruas de Târgoviște a procura de mais pilares e vigas de madeira. Desmontando as casas, eles talhavam as pontas e preparavam novas estacas para continuarem aquele festival de execuções.

Ninguém era poupado. Vlad executava todo aquele que ele suspeitava de ter conspirado a favor de Mehmed II[5].

O som dos empalados gritando e agonizando fazia a mente de Valentim delirar. Homens, mulheres e crianças morriam impiedosamente assassinados pela mão de ferro de Vlad Țepeș. E então ele nota Valentim parado ali.

Valentim estava faminto. Ele olha fixamente para o banquete, salivando e cobiçando seus deliciosos pratos. Ele vê carne assada, saladas, frutas e vinhos. No meio da mesa ele vê um porco com uma maçã em sua boca. Seu estômago ronca, desejando participar do banquete com o voivoda.

- Camponês! Aproxime-se!

Assustando-se, ele olha para a mesa e vê o soberano chamando-o.

- Pois não, meu senhor?

No sonho, Valentim sabia como tratar com um nobre.

Com voz altiva e autoritária, o voivoda pergunta:

- O senhor está com fome?

A fome de Valentim era tão grande que ele parecia não ter comido há dias.

- Muita, meu senhor.

- Pois sente-se à mesa! – convida ele – Coma! Meus generais lhe trarão uma cadeira.

Então os nobres lhe indicam um assento e ele se senta. No começo Valentim hesita em tocar no banquete, mas o voivoda o aguarda pacientemente, encarando-o com uma taça de vinho em sua mão.

Sem nenhuma cerimônia, Valentim estica seus braços e come vorazmente. Ele devora o pernil tão rápido como se fosse um cão de rua. O vinho estava muito saboroso e a salada estava temperada com óleo de azeite. Em toda a sua vida ele nunca havia comido algo tão delicioso, tampouco participado do banquete dos nobres.

Enquanto Valentim come, Vlad Țepeș o encara em silêncio, parecendo pensar alguma coisa. Um minuto depois ele pergunta:

- Está satisfeito?

Valentim levanta sua cabeça. Ele sente o vinho e a saliva se escorrerem por sua barba.

- Sim, meu senhor. – responde ele, cuspindo alguns pedaços de comida.

- O senhor me acha um tirano cruel, não é?

Intrigando-se, ele responde:

- De certo que não, meu senhor! O senhor é um herói e o libertador da nação!

Vlad assente em silêncio.

- E o que achou de meus métodos? É esta uma punição justa aos meus inimigos? – ele se referia aos empalamentos.

Valentim acha tudo aquilo uma perversão bárbara oriunda da cabeça de um louco e doente. Entretanto, ele responde:

- Não, meu senhor. O senhor deve fazer o que for preciso para defender o seu trono.

Vlad sorri arrogantemente, satisfeito com sua resposta.

- O senhor ainda procura por Danica, não é?

Ele se espanta. Por alguma razão, o voivoda sabia de sua esposa desaparecida. Temoroso, Valentim não ousa pergunta-lo como ele sabia daquilo. Ao invés, ele apenas responde:

- Sim, meu senhor.

- Pois eu tenho más notícias para o senhor. – diz ele, com sua voz cruel – Sua Danica está morta. Eu descobri isso enquanto atravessava a Valáquia.

Valentim arregala os olhos.

- Oh, meu Deus...! – e então ele solta as fatias de porco, com as mãos trêmulas.

- Os turcos fizeram isso. – revela ele – Os exércitos de Mehmed atravessaram o Danúbio e invadiram o principado, arrasando cidades e vilas pelo caminho. Ninguém foi poupado; idosos, mulheres e crianças, todos morreram pelas mãos do tirânico sultão. Temo que sua esposa tenha sido violada sob a posse deles.

E então Valentim chora intensamente, desesperado pelo destino terrível de sua esposa. O voivoda o observa chorar em silêncio, sorrindo enquanto bebe seu vinho. O voivoda se silencia, observando o ódio crescer em seu peito.

De repente soldados se aproximam. Eles se curvam e apresentam alguns prisioneiros para o despótico Vlad.

- Voivoda, encontramos estes turcos escondidos na cidade. O que devemos fazer com eles?

Vlad sorri. Vendo como Valentim bufava de ódio, ele pergunta:

- Camponês, o que acha que devemos fazer a estes homens?

Com o sangue fervendo em suas veias, ele responde:

- Empale-os!

Então Vlad Țepeș gargalha. Gesticulando a seus soldados, ele se vira e ordena a seus generais:

- Vamos! Comam! Comam! Vamos celebrar a morte destes invasores...!

E assim todos voltam a comer e se esbanjar tranquilamente.

 

§

 

Valentim acorda em um grito.

Olhando ao redor, ele vê o quarto escuro iluminado pela fraca luz da lamparina. No pé da cama, ele enxerga um par de olhos e seu coração gela. A aparição abre as asas e voa em direção à janela, deixando a casa e sumindo pela noite. Confuso, Valentim reconhece uma coruja.

Ele se levanta e rapidamente fecha a janela. Assustado, ele se lembra que a havia fechado aquela noite.

 

 



[1] Da língua romena, lê-se “Tergovishte”

[2] Príncipe em romeno

[3] Lê-se “Tsiepesh” em romeno, “empalador” em português

[4] Misericórdia em turco

[5] O sultão otomano daquele período

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...