(Artista desconhecido)
Dois dias se
passam.
Valentim estava
dolorido e ainda se recuperava de seu ferimento nas costas. Faixas o enrolavam
de seu pescoço até os ombros e ele não poderia tomar um banho decente por dias.
Felizmente o revólver
do assassino em série, Štephan, era de péssima qualidade. O tiro não atravessou
suas costas; a bala havia se alojado superficialmente em sua pele. Os médicos
fizeram um ótimo trabalho e Valentim recebeu pontos cirúrgicos. Para sua preocupação,
ele foi tratado com remédios feitos à base de Plasma.
Suportando a dor, ele respira fundo e se
alegra; pelo menos não havia morrido naquele horrível calabouço.
Dentro da
carruagem, ele era levado pelas ruas de Liubliana. Tobias o convidou à estação
e pagou pessoalmente para que um cocheiro o pegasse em sua casa e o levasse para
a Gendarmerie. Lisonjeado, ele aceita o convite de bom coração.
Avançando pelas
ruas, Valentim vê os caos pela cidade. Vandalismos, saques e violência se
alastraram por Liubliana. O Plasma estava afetando-a.
Valentim ouve um
barulho nos céus. Para sua surpresa, um dirigível sobrevoava a cidade. Acima
das casas e das fábricas, o enorme veículo rondava as ruas, vigiando os
cidadãos e mantendo-os em segurança. Ele nunca havia visto aquela máquina antes
e se fascinava vendo como algo tão grande podia voar.
Liubliana se
tornava uma cidade laboratório dos ingleses. Lá eles testavam suas novas invenções,
como máquinas industriais, carruagens autômatas e os dirigíveis. O Plasma as
energizava, sendo essencial para o seu funcionamento. Ignorantes demais para
compreender, os liublianenses não notavam que Liubliana tomava o lugar de
Londres como a cidade-modelo.
Ao chegar na
estação da Gendarmerie, ele é recebido com aplausos e honrarias. Os guardas o
saudavam por sua bravura e coragem. Na sala dos inspetores, Tobias e seu
capitão o cumprimentam calorosamente. Valentim estava confuso e não sabia o que
fazer. Mladen e Davud estavam lá também e o aplaudiam. Ao cumprimenta-los, seu
ferimento dói e ele hesita.
Pedindo a atenção
de todos, o capitão diz:
- Senhores, este
homem salvou a vida do Inspetor Tobias. Se não fosse por sua admirável coragem,
um dos nossos inspetores teria morrido. Neste momento tão crítico, termos um
cidadão tão valoroso conosco é um privilégio!
Vilko pega uma
pequena caixinha e, abrindo-a, revela um linda medalha. Ele a põe em seu
pescoço e o parabeniza.
Então Tobias diz:
- Nós temos mais
uma surpresa para o senhor. Senhor Valentim, estou convidando-o a se tornar o
meu assistente pessoal aqui na Gendarmerie.
- O quê...?! –
espanta-se ele.
- O senhor nos
ajudou a resolver o caso e ainda salvou a minha vida. Se não fosse por sua
coragem, eu seria mais um daqueles cadáveres no calabouço. Portanto, como forma
de gratidão, eu o ofereço este cargo aqui na estação.
Valentim não sabe
o que responder. O capitão então diz:
- Hessler me
contou sobre sua delicada situação financeira. Nós, aqui da estação, não
achamos justo apenas condecora-lo com medalhas. E então o inspetor nos propôs
este cargo. Se aceita-lo, o senhor receberá um salário. – e então ele conclui –
E assim poderá pagar as suas dívidas.
Enchendo-se de
lágrimas, Valentim tenta apertar a mão de Tobias. Porém seu braço dói e ele se
encolhe de dor.
- Acalme-se,
senhor Valentim. – pede ele – Se não estiver recuperado, poderá voltar mais
tarde quando estiver apto.
- Não. –
recusa-se ele – Eu estou bem. – tomando fôlego, ele continua – Estou muito
grato pela oferta e aceito o cargo. Eu me prontifico a auxiliar a Gendarme o
quanto antes.
Tobias e Vilko se entreolham.
- Eu te disse que
ele era durão. – comenta o inspetor.
O capitão
pergunta:
- Se me permite
perguntar, por que esta avidez para voltar ao trabalho? Por que tanto descaso
quanto a própria saúde?
Novamente com sua
inabalável convicção, ele responde:
- Nem que um dia
eu morra lá fora, eu jamais poderei deixar este mundo. Enquanto eu não
encontrar a minha Danica, minha alma jamais poderá descansar em paz.
O capitão
assente.
- Pois bem. –
olhando para os seus inspetores, ele ordena – Muito bem, homens! Voltem ao
trabalho!
Então a
condecoração se encerra e todos voltam aos seus afazeres.
Levando-o para a
sala de evidências, Tobias abre uma pasta e lhe explica os detalhes do
trabalho. Ele lhe revela os horários, as rotinas e as obrigações. Aparentemente
o trabalho na Gendarmerie envolvia muita burocracia. Felizmente ele não teria
de escrever, seu analfabetismo o impediria, mas ele teria de organizar os
arquivos. Valentim receberia um salário modesto, porém o suficiente para
sobreviver.
Por último, o
inspetor diz:
- Senhor Valentim,
o senhor não trabalhará hoje. Vá para casa e se recupere. Descanse um pouco e
então volte amanhã.
Ele protesta.
- Inspetor, o
tempo que perdemos...
- Eu sei! –
interrompe ele, prevendo-o – Nós vamos encontrar a sua esposa, está bem? Isso
eu o prometo. Mas preciso do senhor recuperado para investigar comigo. –
despedindo-o, ele diz – Dispensado.
Valentim
forçosamente acata, mas ele estava feliz. Trabalhando para o dócil Tobias, ele
fará de tudo para encontrar Danica.
Agradecendo-o,
Valentim se vira e finalmente vai embora.
Enquanto deixa a
estação, ele pensa a respeito. Valentim agora tinha um objetivo e um emprego, e
ambos o direcionavam diretamente para sua busca pela sua esposa. Suas saudades
corroíam o seu coração; sua preocupação esmagava a sua mente. Além de sua
imensa coragem e férrea hombridade, o amor era a sua principal motivação, pois como
disse Aristóteles, “o amor é formado por uma única alma habitando dois corpos”.
“Eu vou
encontra-la, Danica”, pensa ele. “Esteja onde estiver”.
§
Anoitece em
Liubliana.
Valentim tem um
sonho estranho. Ele sonha estar no ano de 1462 na Valáquia. Olhando ao redor,
ele se vê em uma hedionda floresta. Nela haviam corpos empalados por toda
parte, alinhados e erigidos pela mata como se fossem árvores. Os moribundos
agonizavam e definhavam com toras atravessando os seus corpos. Mesmo os corvos
pousavam sobre eles para devorarem a carcaça. Então Valentim se apressa e corre
para deixar aquela floresta dos empalados para trás.
No final do
caminho ele encontra a famosa Târgoviște[1],
capital da antiga Valáquia. A cidade vivia uma perseguição promovida por seu
próprio governante, o voivoda[2]
Vlad III. Valentim sabe de quem se trata, era Vlad Țepeș[3],
o famigerado Vlad, o Empalador.
Em seu sonho,
Valentim sabia o que havia acontecido. Em sua invasão da Bulgária, Vlad
capturou turcos e os búlgaros e os trouxe para Târgoviște. Lá ele os
arregimentou e os empalou, cravando enormes estacas em seus ventres. Vlad
também empalou seus concidadãos, acusando-os de serem traidores e simpatizantes
do Império Otomano.
Valentim
sobreviveu à perseguição, mas teve sua casa pilhada e queimada. Ele estava sujo
e ferido, e cambaleava pela folhagem. Adiante, ele vê uma tenda com os nobres e
os cavaleiros participando de um delicioso banquete. No meio da mesa ele vê um
nobre de bigode e longos cabelos negros; ele vestia um requintado chapéu de joias
e um belíssimo uniforme vermelho. Valentim o reconhece, era o temível Vlad, o
Empalador.
Vlad comia
tranquilamente enquanto assistia os soldados empalarem seus inimigos. Os turcos
imploravam por suas vidas, dizendo:
- Merhamet![4]
E então eles eram
brutalmente encravados de cima para baixo pelos valaquianos.
Os cidadãos de Târgoviște
também eram trazidos. Eles eram impiedosamente empalados, acusados pelo voivoda
de traição. Arrastadas pelos cabelos, as mulheres também eram trazidas. Em horror,
Valentim assiste elas sendo empaladas, algumas juntas de seus próprios filhos. Ele
nota que as crianças eram tão novas que ainda amamentavam.
O exército
percorria as ruas de Târgoviște a procura de mais pilares e vigas de madeira.
Desmontando as casas, eles talhavam as pontas e preparavam novas estacas para
continuarem aquele festival de execuções.
Ninguém era
poupado. Vlad executava todo aquele que ele suspeitava de ter conspirado a
favor de Mehmed II[5].
O som dos
empalados gritando e agonizando fazia a mente de Valentim delirar. Homens,
mulheres e crianças morriam impiedosamente assassinados pela mão de ferro de
Vlad Țepeș. E então ele nota Valentim parado ali.
Valentim estava
faminto. Ele olha fixamente para o banquete, salivando e cobiçando seus
deliciosos pratos. Ele vê carne assada, saladas, frutas e vinhos. No meio da mesa
ele vê um porco com uma maçã em sua boca. Seu estômago ronca, desejando
participar do banquete com o voivoda.
- Camponês!
Aproxime-se!
Assustando-se,
ele olha para a mesa e vê o soberano chamando-o.
- Pois não, meu
senhor?
No sonho,
Valentim sabia como tratar com um nobre.
Com voz altiva e
autoritária, o voivoda pergunta:
- O senhor está
com fome?
A fome de Valentim
era tão grande que ele parecia não ter comido há dias.
- Muita, meu
senhor.
- Pois sente-se à
mesa! – convida ele – Coma! Meus generais lhe trarão uma cadeira.
Então os nobres
lhe indicam um assento e ele se senta. No começo Valentim hesita em tocar no
banquete, mas o voivoda o aguarda pacientemente, encarando-o com uma taça de
vinho em sua mão.
Sem nenhuma
cerimônia, Valentim estica seus braços e come vorazmente. Ele devora o pernil
tão rápido como se fosse um cão de rua. O vinho estava muito saboroso e a
salada estava temperada com óleo de azeite. Em toda a sua vida ele nunca havia
comido algo tão delicioso, tampouco participado do banquete dos nobres.
Enquanto Valentim
come, Vlad Țepeș o encara em silêncio, parecendo pensar alguma coisa. Um minuto
depois ele pergunta:
- Está
satisfeito?
Valentim levanta sua
cabeça. Ele sente o vinho e a saliva se escorrerem por sua barba.
- Sim, meu
senhor. – responde ele, cuspindo alguns pedaços de comida.
- O senhor me
acha um tirano cruel, não é?
Intrigando-se,
ele responde:
- De certo que
não, meu senhor! O senhor é um herói e o libertador da nação!
Vlad assente em
silêncio.
- E o que achou
de meus métodos? É esta uma punição justa aos meus inimigos? – ele se referia
aos empalamentos.
Valentim acha tudo
aquilo uma perversão bárbara oriunda da cabeça de um louco e doente. Entretanto,
ele responde:
- Não, meu
senhor. O senhor deve fazer o que for preciso para defender o seu trono.
Vlad sorri
arrogantemente, satisfeito com sua resposta.
- O senhor ainda
procura por Danica, não é?
Ele se espanta.
Por alguma razão, o voivoda sabia de sua esposa desaparecida. Temoroso,
Valentim não ousa pergunta-lo como ele sabia daquilo. Ao invés, ele apenas
responde:
- Sim, meu
senhor.
- Pois eu tenho
más notícias para o senhor. – diz ele, com sua voz cruel – Sua Danica está
morta. Eu descobri isso enquanto atravessava a Valáquia.
Valentim arregala
os olhos.
- Oh, meu
Deus...! – e então ele solta as fatias de porco, com as mãos trêmulas.
- Os turcos
fizeram isso. – revela ele – Os exércitos de Mehmed atravessaram o Danúbio e
invadiram o principado, arrasando cidades e vilas pelo caminho. Ninguém foi
poupado; idosos, mulheres e crianças, todos morreram pelas mãos do tirânico
sultão. Temo que sua esposa tenha sido violada sob a posse deles.
E então Valentim chora
intensamente, desesperado pelo destino terrível de sua esposa. O voivoda o
observa chorar em silêncio, sorrindo enquanto bebe seu vinho. O voivoda se
silencia, observando o ódio crescer em seu peito.
De repente soldados
se aproximam. Eles se curvam e apresentam alguns prisioneiros para o despótico
Vlad.
- Voivoda,
encontramos estes turcos escondidos na cidade. O que devemos fazer com eles?
Vlad sorri. Vendo
como Valentim bufava de ódio, ele pergunta:
- Camponês, o que
acha que devemos fazer a estes homens?
Com o sangue
fervendo em suas veias, ele responde:
- Empale-os!
Então Vlad Țepeș
gargalha. Gesticulando a seus soldados, ele se vira e ordena a seus generais:
- Vamos! Comam!
Comam! Vamos celebrar a morte destes invasores...!
E assim todos
voltam a comer e se esbanjar tranquilamente.
§
Valentim acorda
em um grito.
Olhando ao redor,
ele vê o quarto escuro iluminado pela fraca luz da lamparina. No pé da cama,
ele enxerga um par de olhos e seu coração gela. A aparição abre as asas e voa
em direção à janela, deixando a casa e sumindo pela noite. Confuso, Valentim
reconhece uma coruja.
Ele se levanta e
rapidamente fecha a janela. Assustado, ele se lembra que a havia fechado aquela
noite.
[1] Da
língua romena, lê-se “Tergovishte”
[2]
Príncipe em romeno
[3]
Lê-se “Tsiepesh” em romeno, “empalador” em português
[4]
Misericórdia em turco
[5] O
sultão otomano daquele período

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