domingo, 17 de julho de 2022

Liubliana - 18 - Um Banquete com Vlad, o Empalador

 


(Artista desconhecido)

 

Dois dias se passam.

Valentim estava dolorido e ainda se recuperava de seu ferimento nas costas. Faixas o enrolavam de seu pescoço até os ombros e ele não poderia tomar um banho decente por dias.

Felizmente o revólver do assassino em série, Štephan, era de péssima qualidade. O tiro não atravessou suas costas; a bala havia se alojado superficialmente em sua pele. Os médicos fizeram um ótimo trabalho e Valentim recebeu pontos cirúrgicos. Para sua preocupação, ele foi tratado com remédios feitos à base de Plasma.

 Suportando a dor, ele respira fundo e se alegra; pelo menos não havia morrido naquele horrível calabouço.

Dentro da carruagem, ele era levado pelas ruas de Liubliana. Tobias o convidou à estação e pagou pessoalmente para que um cocheiro o pegasse em sua casa e o levasse para a Gendarmerie. Lisonjeado, ele aceita o convite de bom coração.

Avançando pelas ruas, Valentim vê os caos pela cidade. Vandalismos, saques e violência se alastraram por Liubliana. O Plasma estava afetando-a.

Valentim ouve um barulho nos céus. Para sua surpresa, um dirigível sobrevoava a cidade. Acima das casas e das fábricas, o enorme veículo rondava as ruas, vigiando os cidadãos e mantendo-os em segurança. Ele nunca havia visto aquela máquina antes e se fascinava vendo como algo tão grande podia voar.

Liubliana se tornava uma cidade laboratório dos ingleses. Lá eles testavam suas novas invenções, como máquinas industriais, carruagens autômatas e os dirigíveis. O Plasma as energizava, sendo essencial para o seu funcionamento. Ignorantes demais para compreender, os liublianenses não notavam que Liubliana tomava o lugar de Londres como a cidade-modelo.   

Ao chegar na estação da Gendarmerie, ele é recebido com aplausos e honrarias. Os guardas o saudavam por sua bravura e coragem. Na sala dos inspetores, Tobias e seu capitão o cumprimentam calorosamente. Valentim estava confuso e não sabia o que fazer. Mladen e Davud estavam lá também e o aplaudiam. Ao cumprimenta-los, seu ferimento dói e ele hesita.

Pedindo a atenção de todos, o capitão diz:

- Senhores, este homem salvou a vida do Inspetor Tobias. Se não fosse por sua admirável coragem, um dos nossos inspetores teria morrido. Neste momento tão crítico, termos um cidadão tão valoroso conosco é um privilégio!

Vilko pega uma pequena caixinha e, abrindo-a, revela um linda medalha. Ele a põe em seu pescoço e o parabeniza.

Então Tobias diz:

- Nós temos mais uma surpresa para o senhor. Senhor Valentim, estou convidando-o a se tornar o meu assistente pessoal aqui na Gendarmerie.

- O quê...?! – espanta-se ele. 

- O senhor nos ajudou a resolver o caso e ainda salvou a minha vida. Se não fosse por sua coragem, eu seria mais um daqueles cadáveres no calabouço. Portanto, como forma de gratidão, eu o ofereço este cargo aqui na estação.

Valentim não sabe o que responder. O capitão então diz:

- Hessler me contou sobre sua delicada situação financeira. Nós, aqui da estação, não achamos justo apenas condecora-lo com medalhas. E então o inspetor nos propôs este cargo. Se aceita-lo, o senhor receberá um salário. – e então ele conclui – E assim poderá pagar as suas dívidas.

Enchendo-se de lágrimas, Valentim tenta apertar a mão de Tobias. Porém seu braço dói e ele se encolhe de dor.

- Acalme-se, senhor Valentim. – pede ele – Se não estiver recuperado, poderá voltar mais tarde quando estiver apto.

- Não. – recusa-se ele – Eu estou bem. – tomando fôlego, ele continua – Estou muito grato pela oferta e aceito o cargo. Eu me prontifico a auxiliar a Gendarme o quanto antes.

 Tobias e Vilko se entreolham.

- Eu te disse que ele era durão. – comenta o inspetor.

O capitão pergunta:

- Se me permite perguntar, por que esta avidez para voltar ao trabalho? Por que tanto descaso quanto a própria saúde?

Novamente com sua inabalável convicção, ele responde:

- Nem que um dia eu morra lá fora, eu jamais poderei deixar este mundo. Enquanto eu não encontrar a minha Danica, minha alma jamais poderá descansar em paz.

O capitão assente.

- Pois bem. – olhando para os seus inspetores, ele ordena – Muito bem, homens! Voltem ao trabalho!

Então a condecoração se encerra e todos voltam aos seus afazeres.

Levando-o para a sala de evidências, Tobias abre uma pasta e lhe explica os detalhes do trabalho. Ele lhe revela os horários, as rotinas e as obrigações. Aparentemente o trabalho na Gendarmerie envolvia muita burocracia. Felizmente ele não teria de escrever, seu analfabetismo o impediria, mas ele teria de organizar os arquivos. Valentim receberia um salário modesto, porém o suficiente para sobreviver.

Por último, o inspetor diz:

- Senhor Valentim, o senhor não trabalhará hoje. Vá para casa e se recupere. Descanse um pouco e então volte amanhã.

Ele protesta.

- Inspetor, o tempo que perdemos...

- Eu sei! – interrompe ele, prevendo-o – Nós vamos encontrar a sua esposa, está bem? Isso eu o prometo. Mas preciso do senhor recuperado para investigar comigo. – despedindo-o, ele diz – Dispensado.

Valentim forçosamente acata, mas ele estava feliz. Trabalhando para o dócil Tobias, ele fará de tudo para encontrar Danica.

Agradecendo-o, Valentim se vira e finalmente vai embora.

Enquanto deixa a estação, ele pensa a respeito. Valentim agora tinha um objetivo e um emprego, e ambos o direcionavam diretamente para sua busca pela sua esposa. Suas saudades corroíam o seu coração; sua preocupação esmagava a sua mente. Além de sua imensa coragem e férrea hombridade, o amor era a sua principal motivação, pois como disse Aristóteles, “o amor é formado por uma única alma habitando dois corpos”.     

“Eu vou encontra-la, Danica”, pensa ele. “Esteja onde estiver”.

 

§

 

Anoitece em Liubliana.

Valentim tem um sonho estranho. Ele sonha estar no ano de 1462 na Valáquia. Olhando ao redor, ele se vê em uma hedionda floresta. Nela haviam corpos empalados por toda parte, alinhados e erigidos pela mata como se fossem árvores. Os moribundos agonizavam e definhavam com toras atravessando os seus corpos. Mesmo os corvos pousavam sobre eles para devorarem a carcaça. Então Valentim se apressa e corre para deixar aquela floresta dos empalados para trás.

No final do caminho ele encontra a famosa Târgoviște[1], capital da antiga Valáquia. A cidade vivia uma perseguição promovida por seu próprio governante, o voivoda[2] Vlad III. Valentim sabe de quem se trata, era Vlad Țepeș[3], o famigerado Vlad, o Empalador.

Em seu sonho, Valentim sabia o que havia acontecido. Em sua invasão da Bulgária, Vlad capturou turcos e os búlgaros e os trouxe para Târgoviște. Lá ele os arregimentou e os empalou, cravando enormes estacas em seus ventres. Vlad também empalou seus concidadãos, acusando-os de serem traidores e simpatizantes do Império Otomano.

Valentim sobreviveu à perseguição, mas teve sua casa pilhada e queimada. Ele estava sujo e ferido, e cambaleava pela folhagem. Adiante, ele vê uma tenda com os nobres e os cavaleiros participando de um delicioso banquete. No meio da mesa ele vê um nobre de bigode e longos cabelos negros; ele vestia um requintado chapéu de joias e um belíssimo uniforme vermelho. Valentim o reconhece, era o temível Vlad, o Empalador. 

Vlad comia tranquilamente enquanto assistia os soldados empalarem seus inimigos. Os turcos imploravam por suas vidas, dizendo:

- Merhamet![4]

E então eles eram brutalmente encravados de cima para baixo pelos valaquianos.

Os cidadãos de Târgoviște também eram trazidos. Eles eram impiedosamente empalados, acusados pelo voivoda de traição. Arrastadas pelos cabelos, as mulheres também eram trazidas. Em horror, Valentim assiste elas sendo empaladas, algumas juntas de seus próprios filhos. Ele nota que as crianças eram tão novas que ainda amamentavam.

O exército percorria as ruas de Târgoviște a procura de mais pilares e vigas de madeira. Desmontando as casas, eles talhavam as pontas e preparavam novas estacas para continuarem aquele festival de execuções.

Ninguém era poupado. Vlad executava todo aquele que ele suspeitava de ter conspirado a favor de Mehmed II[5].

O som dos empalados gritando e agonizando fazia a mente de Valentim delirar. Homens, mulheres e crianças morriam impiedosamente assassinados pela mão de ferro de Vlad Țepeș. E então ele nota Valentim parado ali.

Valentim estava faminto. Ele olha fixamente para o banquete, salivando e cobiçando seus deliciosos pratos. Ele vê carne assada, saladas, frutas e vinhos. No meio da mesa ele vê um porco com uma maçã em sua boca. Seu estômago ronca, desejando participar do banquete com o voivoda.

- Camponês! Aproxime-se!

Assustando-se, ele olha para a mesa e vê o soberano chamando-o.

- Pois não, meu senhor?

No sonho, Valentim sabia como tratar com um nobre.

Com voz altiva e autoritária, o voivoda pergunta:

- O senhor está com fome?

A fome de Valentim era tão grande que ele parecia não ter comido há dias.

- Muita, meu senhor.

- Pois sente-se à mesa! – convida ele – Coma! Meus generais lhe trarão uma cadeira.

Então os nobres lhe indicam um assento e ele se senta. No começo Valentim hesita em tocar no banquete, mas o voivoda o aguarda pacientemente, encarando-o com uma taça de vinho em sua mão.

Sem nenhuma cerimônia, Valentim estica seus braços e come vorazmente. Ele devora o pernil tão rápido como se fosse um cão de rua. O vinho estava muito saboroso e a salada estava temperada com óleo de azeite. Em toda a sua vida ele nunca havia comido algo tão delicioso, tampouco participado do banquete dos nobres.

Enquanto Valentim come, Vlad Țepeș o encara em silêncio, parecendo pensar alguma coisa. Um minuto depois ele pergunta:

- Está satisfeito?

Valentim levanta sua cabeça. Ele sente o vinho e a saliva se escorrerem por sua barba.

- Sim, meu senhor. – responde ele, cuspindo alguns pedaços de comida.

- O senhor me acha um tirano cruel, não é?

Intrigando-se, ele responde:

- De certo que não, meu senhor! O senhor é um herói e o libertador da nação!

Vlad assente em silêncio.

- E o que achou de meus métodos? É esta uma punição justa aos meus inimigos? – ele se referia aos empalamentos.

Valentim acha tudo aquilo uma perversão bárbara oriunda da cabeça de um louco e doente. Entretanto, ele responde:

- Não, meu senhor. O senhor deve fazer o que for preciso para defender o seu trono.

Vlad sorri arrogantemente, satisfeito com sua resposta.

- O senhor ainda procura por Danica, não é?

Ele se espanta. Por alguma razão, o voivoda sabia de sua esposa desaparecida. Temoroso, Valentim não ousa pergunta-lo como ele sabia daquilo. Ao invés, ele apenas responde:

- Sim, meu senhor.

- Pois eu tenho más notícias para o senhor. – diz ele, com sua voz cruel – Sua Danica está morta. Eu descobri isso enquanto atravessava a Valáquia.

Valentim arregala os olhos.

- Oh, meu Deus...! – e então ele solta as fatias de porco, com as mãos trêmulas.

- Os turcos fizeram isso. – revela ele – Os exércitos de Mehmed atravessaram o Danúbio e invadiram o principado, arrasando cidades e vilas pelo caminho. Ninguém foi poupado; idosos, mulheres e crianças, todos morreram pelas mãos do tirânico sultão. Temo que sua esposa tenha sido violada sob a posse deles.

E então Valentim chora intensamente, desesperado pelo destino terrível de sua esposa. O voivoda o observa chorar em silêncio, sorrindo enquanto bebe seu vinho. O voivoda se silencia, observando o ódio crescer em seu peito.

De repente soldados se aproximam. Eles se curvam e apresentam alguns prisioneiros para o despótico Vlad.

- Voivoda, encontramos estes turcos escondidos na cidade. O que devemos fazer com eles?

Vlad sorri. Vendo como Valentim bufava de ódio, ele pergunta:

- Camponês, o que acha que devemos fazer a estes homens?

Com o sangue fervendo em suas veias, ele responde:

- Empale-os!

Então Vlad Țepeș gargalha. Gesticulando a seus soldados, ele se vira e ordena a seus generais:

- Vamos! Comam! Comam! Vamos celebrar a morte destes invasores...!

E assim todos voltam a comer e se esbanjar tranquilamente.

 

§

 

Valentim acorda em um grito.

Olhando ao redor, ele vê o quarto escuro iluminado pela fraca luz da lamparina. No pé da cama, ele enxerga um par de olhos e seu coração gela. A aparição abre as asas e voa em direção à janela, deixando a casa e sumindo pela noite. Confuso, Valentim reconhece uma coruja.

Ele se levanta e rapidamente fecha a janela. Assustado, ele se lembra que a havia fechado aquela noite.

 

 



[1] Da língua romena, lê-se “Tergovishte”

[2] Príncipe em romeno

[3] Lê-se “Tsiepesh” em romeno, “empalador” em português

[4] Misericórdia em turco

[5] O sultão otomano daquele período

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...