domingo, 26 de junho de 2022

Liubliana - 17 - A Galeria dos Cadáveres

 


(Autor desconhecido)


Estava uma manhã caótica no centro de Liubliana. As lojas tiveram suas vidraças apedrejadas e suas mercadorias saqueadas. Os donos dos estabelecimentos acusavam-se a si mesmos e muitos se espancavam nas ruas. A Gendarme tentava controlar a confusão e muitos eram levados em custódia. Tobias se estarrece.

Em frente à tabacaria, o inspetor olha para Mirko e diz:

- Obrigado por vir, senhor Mirko. Precisaremos do senhor para nos ajudar a identificar o suspeito.

- De nada, senhor inspetor. O quanto antes encontrarmos minha filha, melhor.

Valentim e Davud também estão presentes. Mladen chega um pouco mais tarde com semblante irritado; ele estava descontente por ter de acompanhar Tobias novamente.

- Bom dia, guarda Mladen. Obrigado por vir.

Ele resmunga:

- E eu tive escolha?

Então a comitiva entra na loja. Atrás do balcão, o vendedor se levanta empunhando um poderoso rifle. Apontando-o para eles, ele exclama:

- O que vocês querem?!

- Lovro! Por favor! – protesta Mladen – Estes são modos de receber os clientes?!

- Guarda Mladen? – reconhece ele – Mil perdões. Veio comprar mais charutos?

- Na verdade, não. Estamos em uma investigação da Gendarmerie.

- Investigação? Do que está falando?

Tocando Mladen no ombro, Tobias diz:

- Obrigado, guarda. Eu assumo daqui. – olhando para o vendedor, ele se apresenta – Bom dia, gospod Lovro. Eu sou o Inspetor Tobias Hessler. Prazer em conhece-lo.

- Ah, um austríaco? – surpreende-se ele – Bom dia, inspetor. O que deseja?

Observando o rifle em suas mãos, ele pergunta:

- Antes de começarmos, me responda um coisa: o senhor tem licença para portar uma arma? Quanto a este rifle, o senhor tem os documentos da mesma?

Lovro se intimida.

- Eu tenho que me defender, senhor inspetor! Olhe lá fora! Está um caos em Liubliana! Saqueadores estão invadindo os comércios; várias lojas foram vandalizadas. Estou fazendo o serviço da Gendarme! – explica ele – Estou tentando me proteger!

Tobias assente.

- Faz ideia da razão desta onda de saques?

- Eu não faço a menor ideia! Mas a cidade entrou em decadência desde a chegada desses ingleses! Esse progresso se revelou a nossa ruína!

Tobias respira fundo. Comentários discriminatórios contra os ingleses estavam cada vez mais comuns, mas os liublianenses falhavam em apontar o verdadeiro culpado pela violência: o Plasma.

- Pois eu vou dizer só uma vez. Eu vou esquecer que o senhor comprou ilegalmente um rifle contrabandeado do exército se responder as minhas perguntas, está bem?

Constrangido, o vendedor responde:

- Está bem.

- Estou atrás de um suspeito de sequestro e, possivelmente, assassinato. Responda-me: o senhor tem recebido em sua loja forasteiros, estrangeiros ou clientes desconhecidos da vizinhança ultimamente?

Lovro sorri.

- Senhor inspetor, apenas olhe para as fábricas lá fora. Eu recebo ingleses, alemães, húngaros, austríacos, judeus e, pela aparência do seu subordinado, bósnios também. O progresso chegou em nossa cidade. Liubliana está passando pela Revolução Industrial.

Tobias assente.

- E o senhor também recebe camponeses?

Lovro sorri mais uma vez.

- Camponeses? O que mais recebo são homens do campo ultimamente! Eles migraram para a cidade para trabalhar nas fábricas. É o êxodo rural, como dizem por aí.

Tobias se convence. Abrindo sua maleta, ele exibe a ponta de um charuto e o pedaço de vestido.

- Encontramos essas pistas no local de desaparecimento da vítima. Minhas investigações concluíram que ele é vendido neste local. E este tecido indica que eram as roupas usadas pela vítima no dia de seu sequestro. Quem quer que a tenha levado passou por aqui antes de praticar o crime, e pode ter passado após comete-lo. Portanto eu vou perguntar mais uma vez: o senhor recebeu camponeses aqui ultimamente?

Pressionado, o vendedor se irrita.

- Eu não sei! Há milhares de fumantes em Liubliana! Preciso que o senhor seja mais específico!

- Um homem do vilarejo de Šmartno pod Šmarno Goro, de nome Štephan, alegando vir à cidade para visitar a sua mãe doente. O desaparecimento ocorreu há seis dias, mas ele pode ter voltado para comprar mais charutos.

- Eu... – o vendedor se esforça para lembrar.

- Senhor Lovro, pense! Enquanto perdemos tempo aqui, a vida da vítima corre perigo!

Então ele milagrosamente se lembra de algo.

- Espere! Eu recebi alguém de Šmartno pod Šmarno Goro semana passada.

Tobias se interessa.

- E o que ele disse?

- Ele disse algo sobre sua mãe ter problemas de saúde. Me parece que ele não podia fumar em casa porque ela não estava bem.

- E onde ele se hospedava?

- Há duas quadras daqui.

Anotando tudo em sua caderneta, Tobias pergunta:

- Mais alguma coisa?

- Não, isso é tudo.

Fechando-a, o inspetor diz:

- Muito obrigado, gospod Lovro. O senhor foi muito útil.

Enquanto caminham para fora, o vendedor pergunta:

- O senhor vai se esquecer do meu pequeno problema com a arma, não é?

Fazendo expressão de dúvida, Tobias responde:

- Que arma?

Então eles deixam a loja.

O inspetor olha para Mirko e diz:

- Se minhas suspeitas estiverem corretas, o suspeito realmente é o agricultor que mora no vilarejo e trabalha em sua fazenda. Segundo Lovro, ele mora aqui perto e compra regularmente na tabacaria. Ele fez disso o seu hábito.   

- Você tem certeza, Hessler? Há centenas de fumantes aqui, e você está se baseando em uma simples ponta de charuto. – pergunta Mladen.

- Eu não sei, guarda. Mas se eu estiver errado, teremos de procurar por mais pistas. É isso o que o senhor quer? Voltar àquela floresta?

Então todo o grupo se arrepia.

- Acho que sua pista basta.

- Foi o que eu pensei.

A comitiva sobe na carruagem e se aperta nos bancos. O cocheiro bate as rédeas e avança pelas ruas.

Vendo as carruagens motorizadas no trânsito, Tobias comenta:

- Essas carruagens são o futuro do transporte urbano.

Ao ouvi-lo, Mladen ri.

- Essas geringonças desajeitadas? Pois eu creio que não, Hessler!

Davud pergunta:

- A Gendarmerie as receberá no departamento?

Tobias faz uma expressão de dúvida.

- Após a derrota para os prussianos, eu duvido que o império tenha verba para isso.

Então eles prosseguem ao seu destino.

 

§

 

O quarteirão tinha belas casas de telhados vermelhos. Abordando os vizinhos, Tobias e seus companheiros perguntam sobre a residência do suspeito. A maioria não conhecia nenhum camponês, mas eles não desistem.

Abordando um homem, o inspetor pergunta:

- Com licença, cidadão. Por acaso o senhor conhece um sujeito que trabalha com agricultura e que, recentemente, veio a este bairro visitar sua mãe doente?

O homem franze a testa.

- Lamento, meu jovem. Eu não o conheço.

Meia hora se passa. Mesmo Valentim começa a se cansar. A busca se mostrava infrutífera.

Mirko se dirige a algumas senhoras em suas janelas. Chamando-as, ele cita o nome de seu empregado e de sua mãe. Elas o ouvem e imediatamente se lembram. Para o alívio do grupo, as senhoras o conheciam.

- Pode nos dizer onde sua mãe mora?

- Ela não mora nesta rua. – diz uma delas – O senhor deve procurar na rua de trás.

Tobias se intriga. Na rua de trás moravam apenas eslovacos e nenhum natural de Carníola.

- Está bem. – responde Mirko – Eu vos agradeço, minhas senhoras. Tenham um bom dia.

Então a comitiva se dirige ao seu novo destino.

Na rua de trás ninguém falava o eslavo do sul, mas eles conseguiam se entender. Mladen pergunta aos cidadãos pelo suspeito e, de repente, um punhado de crianças rodeia o velho guarda.

- Com licença, pirralhos. Estou procurando por um camponês forasteiro. Vocês o viram?

- O senhor está procurando por um camponês? – pergunta um menino.

- Sim. Onde eu posso encontra-lo?

- E por que quer encontra-lo?

- Investigação criminal.

Então as crianças se interessam.

- Ele vive em uma casa velha e desarrumada. – revela uma menina – Se ele não morasse lá, nós acharíamos que ela está abandonada.

- É verdade! – diz outro menino – Abandonada e mal assombrada também!

Então as crianças sentem medo.

- Podem nos levar até lá?

- Meu pai disse para não falarmos com estranhos! – adverte uma menina.

- Eu não sou nenhum estranho! Não estão vendo que eu sou da Gendarme?!

- O senhor vai prendê-lo?

Mladen ri.

- Eu ainda não sei, seus diabinhos. Agora me levem até aquela casa e parem de me perturbar, sim?

As crianças lhe indicam a casa e vão junto com ele. Elas caminhavam determinadas, como se fossem paladinos em sua luta do bem contra o mal. Mladen sorri.

A casa era velha e mal cuidada. Como a maioria das casas em Liubliana, era um sobrado de arquitetura barroca e várias janelas. O guarda podia ver teias de aranha nos cantos e grama crescendo nas frestas da calçada. A madeira apodrecida denotava anos de abandono.

A comitiva se aproxima e, ao vê-la, Davud comenta:

- Quem quer que viva lá dentro a trata com total negligência.

Tobias diz:

- Lembrem-se que o suspeito tem uma mãe idosa e doente. Ela vive sozinha em sua casa enquanto o filho trabalha longe no campo. Vamos nos aprofundar no caso antes de começar com os julgamentos precipitados, está bem?

O inspetor se aproxima e bate na porta. Minutos se passam e ninguém atende.

- Será que não tem ninguém em casa? – pergunta Davud.

- Impossível. A mãe está doente e não pode sair.

- Então por que não atende?

Uma das crianças pergunta:

- Quer que eu pule lá dentro? A janela está velha e, com uma bela pedrada, a vidraça se quebrará.

O inspetor ri.

- Não, mas eu tenho outro pedido. Voltem para as suas mães, sim? Este lugar é perigoso e vocês podem se machucar.

Então as crianças se afastam, mas ficam à distância observando-os.

- Inspetor Tobias, a porta está destrancada. – indica Valentim, abrindo a maçaneta.

A comitiva se espanta. Diariamente Liubliana recebia imigrantes de todas as partes do império. Roubos e furtos eram comuns para sobreviver na cidade, e deixar os imóveis abertos era um convite para ter sua casa saqueada por ladrões.

Tobias desconfia. Ele sabia que Valentim era um artesão que trabalhou com dobradiças e fechaduras a vida inteira. Aproximando-se, ele discretamente pergunta:

- Senhor Valentim, esta porta não estava realmente destrancada, não é mesmo?

Estufando o peito, ele responde:

- Eu te disse que nada ia ficar em meu caminho, muito menos uma reles porta com uma fechadura de péssima qualidade.

Então o inspetor sorri.

- Ei, Hessler! Você vai entrar? – pergunta Mladen – Não vamos precisar de um mandado?

Hesitante, ele responde:

- O senhor tem razão. Nós não temos autorização para...

Mas Valentim se vira e entra na casa, invadindo-a sem a menor preocupação com a lei. Ele percorre a casa com inabalável determinação, lançando olhares atentos sobre todos os cômodos. Tobias o segue logo atrás, tentando exaustivamente contê-lo. Valentim sobe as escadas, intentando olhar lá em cima. De repente ele entra em um quarto e, subitamente, para em sua porta, petrificado.

O inspetor o seguia logo atrás, preocupado com aquela incursão ilegal. Ele diz:

- Valentim, o senhor está cometendo um infração! Eu o ordeno que pare e... – e então ele se petrifica também.

Os dois viam a uma senhora morta sobre a cama. A mulher estava fria e ressecada, deitada debaixo dos cobertores como se estivesse em seu repouso eterno sobre a cama.

Os demais se aproximam e veem também. Davud se vira e põe a mão na boca, atordoado com o cheiro. Mladen também se afasta, pegando seu isqueiro e acendendo um cigarro. Mirko se mantém imóvel; após tantos anos ele já havia se acostumado com a morte.

- Quem será que é esta mulher? – pergunta Tobias.

- É a mãe de Štephan. – responde Mirko.

- Por que este louco manteria a própria mãe morta dentro de casa? – pergunta Valentim.

- Talvez ele não tenha lidado com o fato dela ter morrido, e isto o enlouqueceu. – sugere Tobias – Veja como ele a tratou com carinho. – o inspetor indica a coberta cuidadosamente posta e os travesseiros perfeitamente alinhados – O suspeito deve ter feito deste quarto o seu santuário.

Mirko nota os lábios ressecados mostrando os dentes. Ele comenta:

- Eu não me atreveria a tirar os cobertores; eles devem estar ocultando a podridão lá embaixo.

Olhando ao redor, Tobias encontra uma lamparina alimentada por Plasma. Ele diz:

- Ainda há combustível. O suspeito ainda frequenta o local. Tomem cuidado.

Saindo do quarto, eles fecham a porta.

De repente eles escutam um som no andar de baixo e se assustam; tinha mais alguém lá dentro.

Davud e Mladen sacam seus porretes e descem as escadas em silêncio. Ao chegar na sala, eles não encontram ninguém. Mladen se dirige à cozinha e Davud ao quintal; também estavam vazios. O inspetor checa o banheiro e se intriga.

“Se não há ninguém aqui embaixo, então de onde veio o barulho?”, pergunta-se ele.

Valentim caminha sobre o assoalho, provocando o ruído dos passos. Então ele se dirige à cozinha e o assoalho soa diferente, como se houvesse uma tampa abaixo dele. Ele se intriga. Tateando o piso, Valentim encontra uma espécie de alça.  

“É um alçapão!”, pensa ele.

Pegando o porrete de Mladen, ele o passa pela alça e a puxa, revelando um escuro fosso. A comitiva se espanta.

O úmido fosso tinha uma rústica escada de barras de aço na parede. O interior era escuro e frio, mas eles podiam ouvir ruídos vindos lá de baixo. De repente eles ouvem o ecoar de um gemido e suas peles se arrepiam.

Um pouco sem jeito, Tobias pergunta:

- Precisamos investigar lá embaixo. Voluntários?

Todos se silenciam. Corajosamente levantando a mão, Valentim diz:

- Eu vou.

- Está muito escuro, inspetor. Vamos precisar de uma lamparina. – alerta Davud.

- É claro. Há uma no quarto da mãe falecida. Alguém pode pega-la para mim?

Novamente eles se silenciam; ninguém queria retornar ao quarto do cadáver. Mas então Mirko se voluntaria.

- Eu pegarei.

Tobias sorri.

- Muito obrigado, senhor Mirko.

Um minuto depois Valentim desce pelo fosso.

Ao chegar lá embaixo, ele ilumina as paredes de pedra com a luz verde. Seus passos ecoam pela escuridão e o deixam apreensivo. O ar pesado e gélido tenta sufoca-lo, mas nada ia fazê-lo desistir.

Havia algo no fim do túnel; um pequeno ponto de luz amarelada emerge das sombras. Ele investiga e encontra uma galeria subterrânea iluminada por tochas. O cheiro nauseante de algo químico misturado com podridão sobe em suas narinas. Estranhamente ele pensa ter entrado em uma catacumba.

Gemidos são ouvidos e lhe dão arrepios; alguém sussurrava na escuridão. Ele ouve os gemidos novamente e reconhece uma voz de mulher. Imediatamente ele se desespera.

“Danica!”.

Valentim avança destemidamente e encontra uma sala maior lá embaixo. Ao iluminar com a lamparina, ele se estarrece. Haviam dezenas de corpos de mulheres espalhados pelo chão. Elas estavam despidas e mutiladas, e algumas pregadas nas paredes.

Mirando seu holofote, ele nota que algumas vítimas nas paredes ainda estavam vivas. Suas bocas estavam amordaçadas e elas tentavam gritar por socorro, mas apenas saíam gemidos. Valentim se apavora ao ver que algumas tiveram seus olhos arrancados por objetos afiados.

Controlando-se, ele avança lentamente. À sua direita ele encontra uma pilha de cadáveres esquartejados, com braços e pernas mutilados por toda parte. Ele vê homens ali também, mas eram apenas garotos indefesos, pegos e levados para aquele calabouço. O sangue pegajoso grudava-se nas solas de suas botas, fazendo-o se desequilibrar. De olhos arregalados, ele segura o grito.

Mesmo o forte Valentim não suportava ver tudo aquilo. Sua sanidade se enfraquecia e começava a se fragmentar. A carne debaixo da pele era mais aterradora do que se pensava; os ossos se misturavam às vísceras e expunham os órgãos. Sendo decente a vida toda, ele nunca viu a intimidade de outras mulheres, mas ali suas vaginas estavam todas expostas, despidas para quem quisesse ver. Nem mesmo um açougueiro suportaria aquilo, a carnificina era forte demais. Suando frio, Valentim estava à beira de um colapso nervoso.

De repente ele ouve alguém chorar. Aproximando-se de um altar, ele ouve:

- Valerija! Como eu te amei! Como eu te amei tanto...!

Apagando a lamparina, Valentim se esconde em um canto. Um homem se lamentava, dizendo:

- Como eu te amei, Valerija! E você me rejeitou! Por que me rejeitou?! Eu te mostrei tudo! Eu te mostrei minha verdadeira face! E por que você não me amou, Valerija? Por que você não me amou...?

Valentim nota que ele falava para um compartimento de vidro semelhante a um aquário. Havia um líquido em seu interior, mas ele não consegue enxergar nada dentro.

- E então eu te amarrei, te amordacei e te pendurei para te contemplar e te ter. Eu cortei os seus braços e suas pernas; eu derramei o seu sangue por toda parte. Minha faca penetrou os seus ossos e eu arranquei a sua espinha dorsal! Sua estonteante beleza foi retirada. Eu a desfigurei para ter redimir! – exclama ele – E ainda assim você não me amou...

O homem chora novamente, distraído em suas lamentações.

De repente Tobias e os guardas aparecem.

- Parado! – ordena ele – Fique onde está!

Assustado, o homem se vira e é surpreendido pelos invasores.

- Quem são vocês?!

- Seu doente psicopata! O que você fez?! – Tobias olhava enojado para os cadáveres.

Ainda tenso, o homem não sabe o que responder. Valentim estava ao seu lado e ele não o havia notado ali.

- Eu não sei do que está falando...

De repente ele mexe em sua cintura e saca um revólver. Reconhecendo a arma, Valentim corre em direção a Tobias e grita:

- Cuidado!

O homem atira. Valentim protege Tobias e a bala atinge as suas costas, fazendo ambos caírem no chão em seguida.

Irado, Mladen saca sua pistola e atira de volta. O homem é atingido no ombro e cai contra a parede. Davud corre em sua direção e o desarma, rendendo-o.  

- Senhor Valentim! O senhor está bem? – exclama Tobias.

Mas Valentim estava encolhido no chão. Ele respirava fundo e tentava suportar a dor.

- Guarda Davud! Chame ajuda! Rápido!

O jovem guarda intenta deixar a galeria. Então algo acontece.

Mirko aparece e pergunta:

- O que houve? Vocês encontraram a minha filha?

Mas tudo o que o velho via eram cadáveres em toda parte. Então algo à sua frente chama a sua atenção. Ajustando sua visão ao escuro, ele pergunta:

- Štephan...?

Seu empregado o encarava no chão. Ele segurava seu ombro e sangue se escorria por suas roupas.

- Senhor Mirko, eu disse para o senhor esperar lá em cima. É para a sua segurança. – diz Tobias.

Mas o velho o ignora e continua andando. Havia algo naquele aquário. Olhando bem, ele reconhece o corpo de uma garota, tão jovem que mal completara vinte anos. Seu corpo estava cortado e inteiramente desmembrado, mas sua face ele pôde reconhecer. Petrificando-se de pavor, ele fracamente sussurra:

- Valerija...?

- Gospod Mirko... Eu posso explicar...!

Mas ele o ignora. Olhando novamente, não lhe restavam mais dúvidas; era a sua filha lá dentro. Ele enche seus pulmões e brada veementemente, fazendo o seu grito ecoar por aquele calabouço.

- Nããããããããoooo...!

Caindo de joelhos, Mirko fecha seus olhos e chora dolorosamente.

- Por favor, me escute! – suplica Štephan – Eu a amava!

Mirko arfava intesamente, bradando e expelindo a fúria de um pai que perdera a sua filha.

- Valerijaaaaaa...!

- Senhor Mirko, ela me rejeitou! Se ela tivesse me aceitado, não teria terminado assim! – explica ele – Eu não tive escolha!

No meio dos corpos havia um pesado martelo de ferro. Pegando-o, Mirko se aproxima de Štephan e o levanta. O assassino tenta se proteger, mas é golpeado na cabeça. O som do crânio se trincando como um vaso cerâmico lhes dá aflição. Mirko bate novamente e sangue se espirra para todos os lados. E então ele bate de novo, e de novo e de novo até a tampa de sua cabeça se soltar e ele esmagar o seu cérebro.

Tobias tenta conte-lo, mas Mladen o proíbe. Meneando negativamente a cabeça, o guarda tenta dizê-lo que nada podia conter a fúria de um pai vingando a morte de um filho.

Finado aquele espetáculo de fúria, Mirko se senta no chão e chora aos soluços. As lágrimas rolavam em seu rosto como se o Rio Liublianica tivesse encontrado outra nascente.

Mladen se aproxima e tenta consola-lo. À sua frente ele contemplava o cadáver de Štephan; seus olhos saltaram para fora e o gosmento cérebro se escorria do buraco. Realmente um horror.

E assim terminava a busca por Valerija.

 

§

 

Horas mais tarde, o inspetor e seu capitão se reúnem no necrotério do hospital. Tobias escreve seu relatório em silêncio e então o capitão diz:

- Pelo o que a investigação descobriu, haviam dezenas de outras vítimas lá embaixo, a maioria mulheres.

O inspetor responde:

- Sim, senhor capitão. Já identifiquei quatorze. Todas estavam na lista de pessoas desaparecidas.

O capitão faz um olhar pesaroso. Ele não esperava encontra-las assim.

Aproximando-se do corpo, ele levanta o lençol.

- Que tremenda bagunça, não? – comenta ele, referindo-se à violência de sua morte. 

- Sim, senhor capitão.

- Segundo consta em seu relatório, o suspeito morreu acidentalmente em sua galeria subterrânea. Isso é verdade?

- Sim, senhor. – confirma ele – O teto cedeu e o atingiu em cheio. Ele não teve a mínima chance.

O capitão desconfia. A face de Štephan estava irreconhecível.

- Ouça, Hessler. Eu estou na Gendarme há quase trinta anos e aprendi algumas coisas nesse meio tempo. Essas marcas não me parecem de tijolos caindo, mas de golpes contundentes de alguma ferramenta de ferro. Há algo que queira me dizer?

Com semblante frio como o gelo. Tobias nega.

- Não, senhor.

O capitão respira fundo.

- Está bem, inspetor. Parabéns pelo seu trabalho. Vejo-o na estação amanhã. – e então ele vai embora.

Um minuto depois, Tobias também vai embora. O inspetor se orgulhava de seu trabalho bem feito, mas em seu semblante ele não estava feliz. Muita violência havia ocorrido; ele não dormiria bem esta noite. Mas amanhã seria outro dia e ele seguiria normalmente com sua vida.

As portas se fecham e as luzes se apagam, confinando o cadáver à mesma escuridão que ele impusera às suas vítimas. O culpado foi punido; a justiça foi servida.

Um último pensamento vem à mente de Tobias e ele diz:

- Caso encerrado.

 

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...