sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Tiergarten - 12 - O Casamento Socialista

 


De dentro do ônibus, Gunther observa a paisagem berlinense e, pela janela, vê o imenso Alexanderplatz. Lembrando-se daquela bizarra noite, ele nota que as construções e edifícios estão em perfeita ordem. A Estação de Trem e a Torre de Televisão estão intactas, como se nada as tivesse acontecido. O rapaz se intriga, pois a gigante danificou a estação e estraçalhou o topo da torre, causando-lhes estragos dos quais demorariam meses para se consertar. Mas as feridas de Gunther estão em seu corpo, evidenciando que aquela noite foi real, assim como todos os acontecimentos bizarros nos últimos dias.

Descendo no bairro de Treptow, na região sudeste de Berlim, Gunther caminha tranquilamente até o famoso Parque Treptower. Era uma bela tarde de domingo e, em meio aos frequentadores do parque, o rapaz vê uma aglomeração incomum de pessoas. Aproximando-se, ele vê o que parece ser uma cerimônia de casamento.

Adiante ele vê um jovem casal diante de um pastor. O pastor segura uma bíblia e, pregando acerca dos deveres maritais, conduz a cerimônia para as famílias e os convidados. Gunther se admira que, apesar dos esforços dos comunistas para estabelecer o ateísmo como “religião” oficial do Estado, alguns alemães os rejeitaram e conservaram suas raízes cristãs.    

- É uma bela tradição, não?

Alguém lhe tira a atenção. Olhando para o lado, ele vê um homem de aparentemente cinquenta anos sorrindo.

- Desculpe-me, eu não entendi.

- Disse que é uma bela tradição a cerimônia de casamento.

Gunther olha novamente para o casal e assente.

- É sim.

- Perdoe meus maus modos. Eu sou Helmut, sou tio do noivo se casando ali.

- Eu me chamo Gunther. Meus parabéns pelo seu sobrinho.

Os dois apertam as mãos.

- Veja meu sobrinho. Quis que seu casamento fosse religioso e ministrado por um pastor protestante. Quanta bobagem! Tudo isso aqui é uma perda de tempo para a Alemanha Oriental, pois todos nós sabemos que o casamento só é validado por um tabelião e um juiz. Mas ele insistiu que queria uma cerimônia religiosa sob a “bênção de Deus”... – comenta ele, em deboche – Esses jovens são tão rebeldes.

- Talvez. – responde Gunther, sem interesse.

- Mas você é jovem também. Diga-me, você é um rebelde? – sem deixa-lo responder, o homem continua – Pois meu sobrinho está sempre nos contrariando com suas convicções religiosas chatas. Ele ainda não amadureceu para perceber que Deus é um conceito burguês e a religião, o ópio do povo.

Então o rapaz se intriga.

- Um conceito burguês? – pergunta ele.

- É claro! Você não acha muita coincidência o Catolicismo ser alvo dos revolucionários na França, e então os Ortodoxos na Rússia? Mesmo aquele canalha do Hitler olhava com desconfiança para o Vaticano, mas preferiu não atacar diretamente a Igreja por possuir em seus exércitos muitos católicos e, principalmente, protestantes.

Gunther assente com a cabeça, embora pensando no assunto.

Helmut continua:

- Toda a nossa família é comunista, e apoiamos o ateísmo científico promovido pelo partido nas universidades e repartições públicas. Eu apoio uma revolução na cultura, como aquele ocorrida na China comunista.

Lembrando-se do assunto, o rapaz lhe faz uma desagradável pergunta:

- Mas a Revolução Cultural maoísta não resultou na morte de milhões?

Sorrindo, o homem responde:

- Mao Tsé-tung estava certo em sua Revolução Cultural. Para os ocidentais ela fracassou, imputando sobre ele as consequências dessa desastrosa política. Mas nós, comunistas, sabemos que os verdadeiros culpados foram as classes reacionárias, conservadoras, infiltradas em seu meio. Elas atrapalharam a revolução social, conservando tradições burguesas que, lamentavelmente, lá sobrevivem até hoje. Como a tradição do casamento, por exemplo, da qual nós hoje a presenciamos.

- É verdade. – concorda ele, sem querer iniciar um debate.

- De fato – continua ele –, se a promovermos sutilmente, gradualmente o alemão médio se conscientizará, abandonando suas crenças arcaicas e então seguindo para o ateísmo. Assim conseguiremos arrancar os males do Cristianismo pela raiz.

- Interessante.

- Mas... – lamenta o homem – Isso ainda é uma realidade distante. As pessoas não abandonarão suas crenças e superstições do dia para a noite. Algumas pessoas se agarrarão a elas a ponto de morrerem por isso. Infelizmente, até algumas que amamos, como o meu sobrinho ali. Eu o vi crescer e o carreguei nos meus braços. Me parte o coração que ele, no inevitável processo revolucionário predito por Karl Marx, seria meu inimigo que devesse ser abatido.

Nesse momento, o rapaz se espanta.

- Ora, essa! Aí está você incomodando os outros com suas políticas de novo?

Alguém se aproxima. Gunther vê outro homem, de aparentemente a mesma idade de Helmut, se aproximar.

- Boa tarde, Fritz. Embora a tarde estivesse melhor sem você.

- Não se incomode com ele, meu rapaz. Helmut é mais um caso de Síndrome de Estocolmo, alguém que teve parentes massacrados pelos russos no passado e hoje apoia suas políticas absurdas. – virando-se para Gunther, ele se apresenta – Eu sou Fritz. Sou tio da noiva ali à frente.

“Outro tio?”, pergunta-se Gunther, surpreso.

- O que quer dizer com políticas absurdas, Herr Fritz?   

- Você realmente acredita que o comunismo funciona ou apenas finge ser um bolchevique alemão?

Helmut se irrita, deixando seu rosto corar.

- Eu não preciso fingir nada. Acredito realmente que o socialismo funcione e que são pessoas como você que o atrapalham de ir em frente.

- Se funciona, então por que é chamado de utópico? Por que todos que o implantaram deturparam o seu próprio criador? Se é um processo sociológico e natural, então por que devemos doutrinar seus militantes desde crianças?

- Para impedir que seja destruído por fascistas como você!

Fritz ri.

- O fascismo também é utópico, meu amigo. Do contrário, não precisaria obrigatoriamente fazer guerra para subsistir.

Helmut se confunde, seu conhecimento não vai tão longe. Ele decide rir.

- Então... – pergunta Fritz – Do que falavam, meu jovem? Burguesia? Religião? Comunismo?

- Falávamos de religião. – responde Gunther.

- Qual delas? O Cristianismo? O que falavam da mais bela e tradicional instituição europeia?

- Falávamos exatamente disso. – interrompe Helmut – Sobre os efeitos maléficos da tradição.

Sorrindo, Fritz pergunta mais uma vez:

- O que pode ser tão maléfico sobre a tradição religiosa?

Por alguma razão os dois olham para Gunther. Pressionado, ele se vê obrigado a responder:

- Helmut dizia que o casamento era uma tradição religiosa que atrapalhava o progresso socialista.

- Pois eu devo discorda-lo, Herr Helmut! – responde Fritz, encarando-o. – O casamento existe há milhares de anos e inclusive é realizado em países socialistas, como a Alemanha!

- Milhares de anos? Então de onde ele surgiu? Ou, mais precisamente, quando?

- No princípio da raça humana, quando Deus, em Gênese 2:24, disse: “o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne”.  

Helmut ri.

- Não me venha com suas superstições bíblicas de pouca ou nenhuma base científica, Fritz. Daqui a pouco você me dirá que foi em um jardim paradisíaco de cobras falantes. O casamento não condiz com uma sociedade saudável e socialista, pois vai diretamente contra o caminho do progresso. Nós, comunistas, acreditamos que o casamento é, e sempre foi, uma instituição falida.

O outro tio se intriga.

- Por quê?

- Porque nós, comunistas, não aceitamos que as mulheres devam se acorrentar perpetuamente no patriarcado burguês do ocidente. Queremos dar direitos a elas, liberdade, voto, empoderamento... Queremos que elas tenham poder sobre o próprio corpo através do aborto, do divórcio e da rejeição à castidade. Desprezamos a virgindade, pois ela é superestimada pelo patriarcado machista. Na verdade, tudo o que lhes aprisionar, combateremos.

Surpreso, Fritz retruca:

- Do jeito que fala, parece que a virgindade feminina é muito importante. Estamos em um mundo moderno, Helmut. Tanto os homens quanto as mulheres não se importam mais com isso.

- Mas se importam, meu amigo. Veja o vestido de sua sobrinha. Qual é sua cor?

Nisso, Fritz e Gunther olham novamente para a noiva. Os dois, então, notam seu belíssimo vestido branco.

- É apenas um tradicional vestido de casamento.

- Sim, uma tradição cujo branco simboliza a pureza. E o que essa pureza significa?     

Gunther começa a entender. Então ele percebe que, de fato, o casamento superestima a virgindade feminina. Mas, para sua surpresa, o tio da noiva ri.

- Está enganado, Herr Helmut. A tradição do vestido branco não se trata da virgindade da noiva, mas do casamento de três rainhas. Pode ter começado no século XIV com a rainha da Escócia, Mary Stuart, que usou o branco em homenagem à cor do seu brasão de família. Ou no século XVII, quando a rainha da França, Maria de Médici, usou branco em contraste com os vestidos escuros, comuns da época. Mas a versão mais conhecida é a da rainha da Inglaterra, no século XIX, quando Vitória usou branco, coroa de flores e véu.

Novamente para Helmut, lhe falta conhecimento.

- Está me dizendo que o vestido branco é proveniente de três rainhas?

- Há a versão do casamento de Napoleão Bonaparte com Josefina também.

- Não, eu não creio que isso seja verdade. – desmente ele – Afinal, em sua Bíblia diz que fornicação é pecado, citando as obras da carne como imorais, impuras e libertinas.

Helmut cita a passagem de Gálatas 5:19. Para a surpresa de Fritz, o tio do noivo tinha conhecimento bíblico.

- Pode ser. Mas nesse caso o branco do vestido é só uma cor, não simbolizando coisa alguma. Se tivesse, os indianos não o teriam como cor do luto e da morte.

- Então, se sua sobrinha quisesse trocar a cor para se casar de preto, você concordaria?

- Nunca! – exclama Fritz.

Os dois se silenciam por um minuto. Gunther pensa que eles chegaram a um impasse.

- Mas o fato é – continua Helmut – que o casamento é uma tradição judaico-cristã absorvida maravilhosamente bem pela burguesia machista. Era tão patriarcal que na maioria das vezes era arranjado, sem possibilidade de escolha dos envolvidos. E reitero que, nos tempos bíblicos, não era o noivo e sim a noiva quem deveria dar um dote à família do noivo. Ora, essa... – zomba ele – A noiva presenteando o noivo para o casamento?!

Fritz se irrita. Dessa vez é ele quem sente seu rosto corar.

- Como você mesmo disse, eram outros tempos. Seu sobrinho não foi forçado a se casar e tampouco minha sobrinha pagou algum dote à sua família. Isso não existe mais na Alemanha, e talvez no ocidente inteiro!

- Sim. Agradeça a nós, os progressistas.

Aviltado, Fritz lhe lança um olhar de repulsa.

- Ora, se o progressismo significa dissolver o casamento com divórcios, libertinagens e abortos, logo não haverá geração alguma para a sociedade progredir... E nem o Muro de Berlim será necessário, pois não haverá ninguém mais para fugir!    

Então Fritz gargalha, debochando do seu amigo. Gunther não aguenta e ri também, ele odiava o Muro de Berlim.

- Entenda, eu não sou contrário ao casamento, desde que ele seja nos moldes socialistas.

- Um casamento socialista?! – ri Fritz – Mas que diabos é isso?

- Um igualitário, progressista e anti burguês.

- Ou seja, sem filhos por que vocês defendem o aborto, sem fidelidade, por que vocês defendem a liberdade sexual e sem duração, por que vocês defendem o divórcio.  

- E por que isso tanto te incomoda? Por que um livro super antigo disse que era “pecado”?

Era exatamente isso o que Fritz acreditava.

- Sim. É sobre ele que eu baseio a minha fé.

- Como pode ter tanta certeza de sua veracidade? Então se eu pegar o “O Capital” de Karl Marx e sacraliza-lo, logo ele se torna um livro religioso também?

- A Bíblia orienta os fieis a obedecerem suas regras. Vocês, comunistas, além de quererem destruí-las, querem substitui-las por outras. Como o casamento, por exemplo, do qual querem torna-lo um ato político.

Essa era exatamente a intenção de Helmut, incentivar a união ideológica dos casais. Entretanto, ele sabia que tal coisa seria impossível com o Cristianismo em seu caminho. Por essa razão, ele acreditava que deveria haver cooperação. Ele então diz:

- Queira você saber que os comunistas nunca quiseram extirpar o Cristianismo da Alemanha Oriental, pelo contrário, os procuraram para que ajudassem a construir juntos o socialismo. Nós buscamos cooperação! – assegura ele – Mas são vocês que, incessantemente, lutam contra nossa sociedade justa e igualitária com seu ódio reacionário.

- Sim, e o ateio de fogo nas igrejas ortodoxas na União Soviética comprovam seu amor. – ironiza Fritz – Além do mais, foi você quem atacou ideologicamente algo tão belo e amável como o casamento.

- Não seria porque o casamento atrapalha a igualdade social, sobretudo, das mulheres?

Após a pergunta também irônica, Gunther se cansa. Ele percebe que não estava na presença de dois intelectuais defendendo suas posições políticas, mas de dois idiotas que, por orgulho ou estupidez, jamais iriam concordar um com o outro. Irritado, ele se afasta.

Ao longe, Gunther vê o lindo casal colocando as alianças. Em seguida o pastor diz: “pode beijar a noiva”. O noivo a beija e os convidados riem de alegria, batendo palmas e liberando pombos em seguida.

De mãos dadas, os recém-casados caminham entre os convidados sob uma chuva de grãos de arroz. Ao olhar bem, o rapaz percebe que não é arroz de verdade. Com a escassez de alimentos, não era prudente desperdiça-los assim. 

Gunther se emociona, eles pareciam muito felizes. Ele bate palmas também, genuinamente feliz pela união do casal.

Atrás dele, ele ouve Fritz exclamar:

- Ora, como é que eu vou saber? Pergunte a um teólogo! – e então ele se afasta.

Para o azar do rapaz, Helmut se aproxima outra vez.

- Você viu que maus modos? Tudo por que eu o perguntei quem valida a veracidade bíblica. Ninguém pode validar, não é verdade?

Gunther não compreende.

- Como assim?

- Veja, Marx, a Alemanha e o socialismo são algo que eu posso ver. Estão evidentes aqui. – reforça ele – Entretanto, quem já viu Deus? Ou os profetas? Ou mesmo – dessa vez o homem faz um olhar maldoso – esse Jesus Cristo que eles insistem tanto em crer?

Pensando bem, o rapaz responde:

- Faz sentido.

- É claro que sim! Na verdade, poderíamos falar a tarde inteira sobre isso.

Assustando-se, Gunther rapidamente responde:

- Desculpe-me, mas eu tenho que ir.

Dando-lhe as costas, ele vai embora. Helmut nem mesmo tem a chance de lhe dizer tchau.

 

§

 

Após passar a tarde no Parque Treptower, Gunther volta para casa. Ao abrir a porta, ele encontra seu apartamento escuro e silencioso, já havia anoitecido em Berlim. Assim que ele liga a luz, o telefone toca.    

- Alô?

- Oi, Gunther. Foi lindo o casamento, não?

- Você estava lá? Estava me espionando?

- Eu estava lá, mas não estava te espionando.

- Estava perto, longe? Como eu não consegui te ver?

- Eu estava perto, mais perto do que você pensa.

- Como pode ser isso? – intriga-se ele – O que a Stasi quer comigo? Ou a KGB? Eu não fiz nada!

- Entenda... Eu não estava longe. Eu estava em você.

O rapaz não compreende.

- Eu devo estar ficando louco...

Gunther pensa estar sofrendo de esquizofrenia. A voz, porém, novamente é evasiva ao responder:

- O casamento é realmente uma coisa bonita. Quase chorei ao ver a felicidade dos dois. Fico feliz que, em um mundo onde existam casamentos arranjados, forçados e até polígamos, alguns ainda conservem em sua base o amor.

O rapaz concorda. Ele amava ardentemente Anneliese.

- Acho que sim.

- Você deveria se casar um dia. Talvez alivie essa tristeza que sente em seu coração.

Suspirando, o rapaz responde:

- Como eu poderia? Quem eu amo me rejeitou. E pelo rumo que minha vida tomou, não tenho certeza se alguém se interessará por um pirado que conversa sozinho ao telefone.

Então o rapaz toca o telefone com mais firmeza, confirmando se o aparelho realmente existe.

A voz responde:

- Não importa quem seja, o casamento é sagrado e deve ser tratado assim.  

Lembrando-se da conversa entre Helmut e Fritz, o rapaz pergunta:

- Você acredita nisso?

Desafiante, a voz retruca:

- Você acredita?

“Sim”, grita o rapaz em seu âmago, mas ele prefere não responder. Ele diz:

- Sem os profetas, anjos ou Jesus Cristo para nos responder, é difícil ter certeza.

- Mas ainda temos os teólogos, não é mesmo?

- Você acha que suas respostas seriam satisfatórias?

- É nossa única chance.

Ponderando, Gunther responde:

- Talvez você tenha razão.

- Então um teólogo possa te responder?

- Sim, eu acho.

- Está bem.

De repente, Gunther sente um sono profundo e adormece, caindo inerte em sua cama.

No mesmo momento, a luz da torre de vigia passa por sua janela, iluminando timidamente os cantos escuros.

 

 

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Tiergarten - 11 - Otto von Bismarck

 

Sentando no sofá, Gunther assiste à televisão na sala de estar. Dias se passaram desde o bizarro incidente em Alexanderplatz e, ainda devastado pela humilhante rejeição de Anneliese, ele faz de seu apartamento uma caverna onde ele definha bem devagar.

Na televisão passa uma reportagem sobre Otto von Bismarck, o famoso Chanceler de Ferro, fundador da atual Alemanha. Na reportagem, ele vê os monumentos históricos em sua homenagem e se surpreende ao saber que um deles se situa no Tiergarten, no lado ocidental de Berlim.

“Novamente o Tiergarten”, pensa ele. Sua mãe está lá agora. “Tão perto e tão longe”, ele reflete. Gunther sabe que, para um rapaz problemático como ele, atravessar o muro seria impossível.

Na reportagem, ele vê que Bismarck era um brilhante diplomata prussiano que, em 1871, unificou Confederação Alemã sob um único império, o recém-nascido Império Alemão. Sob suas mazelas, ele provocou três decisivas guerras, habilmente manipulando antigos aliados, criando novos e envolvendo a Europa em uma série de alianças diplomáticas tão complexas que apenas ele podia manter.

“Longe de ser um ditador e defensor do totalitarismo, Bismarck era fiel à realeza prussiana e um ardente patriota. Não surpreendentemente, foi uma grande inspiração para o futuro Führer”, comenta a narradora da interessante reportagem.  

Com a cabeça apoiada em sua mão, Gunther se assusta ao ouvir o telefone tocar em seu quarto. Ao atende-lo, o rapaz diz:

- Alô?

- Olá, Gunther. Como vai?

- Mal. – responde ele, brevemente.

- Estou preocupada com você. Liguei para saber se está bem.

- Minha mãe foi embora e o amor de minha vida me rejeitou. É óbvio que não estou bem.

- Gostaria de conversar a respeito?

-Não.

Alguns segundos se passam até a voz falar novamente.

- Tudo bem. Conversaremos outra hora. De qualquer forma, há alguém em sua porta. Você deveria ir atender.

O rapaz se intriga.

- Do que está falando? Não há ninguém em minha porta. – então ele ouve a campainha tocar – Ora, você adivinhou de novo, não? Quem está lá desta vez?

Mas a voz se silencia e ele só ouve estática.

Desligando o telefone, ele caminha até a sala. O rapaz se surpreende ao ver que a porta já estava aberta e que o inusitado visitante o encarava com um olhar altivo e exuberante. Paralisado de susto, Gunther pergunta quase aos sussurros:

- Otto von Bismarck...?!

O Chanceler de Ferro sorri e responde:

- Wie geht´s es dir, mein Junge?[1]

Bismarck era um homem alto, pois tinha quase o tamanho da porta. Ele veste um lindo uniforme azul cheio de insígnias e botões. Em sua mão ele segura o famoso elmo prussiano com uma lança em seu topo. O rapaz vê seu volumoso bigode e nota como os olhos dele são um pouco esbugalhados.

- Que tipo de caserna é essa? Então é assim que agora acomodam a soldadesca? – pergunta Bismarck?

Gunther demora a entender.

- Não, senhor. Eu não sou um soldado e tampouco aqui é uma caserna. Aqui é minha casa.    

- Está me dizendo que fui enviado à... – o chanceler olha de cima a baixo o apartamento – “casa” de um cidadão comum? Do populacho?

O rapaz se ofende. Bismarck ainda conservava sua raiz aristocrática de um genuíno junker[2].

- Não sei o que quer dizer com isso, mas o senhor está na República Democrática Alemã, e aqui todos somos iguais no socialismo.

Gunther sabe que seu argumento é pura mentira, pois é o partido quem detém e manda em tudo. Ainda assim, é muito eficaz no debate contra os nobres, capitalistas e burgueses.

Erguendo a sobrancelha, Bismarck se silencia. Olhando ao redor, ele fareja algo e pergunta:

- Por acaso isso é café? Vamos, meu jovem, pegue um pouco para mim. – então rudemente, mas sem perder a elegância, o chanceler entra em sua casa.

Minutos se passam. Enquanto o rapaz gentilmente prepara o café na cozinha, o chanceler permanece em pé na sala. Ele olha ao redor com notável curiosidade, admirando-se do baixíssimo conforto da casa de Gunther.

Entregando-lhe uma xícara, o rapaz o pergunta:

- Não quer se sentar?

Bismarck olha para o sofá e, contendo a repulsão, educadamente o responde:

- Obrigado, meu jovem. Estou bem em pé.

O chanceler bebe um gole e, ao perceber a péssima qualidade do café, imediatamente sente vontade de vomitar. De maneira hilária, ele elegantemente se contém. Gunther, que já estava acostumado com o gosto amargo, não se incomoda mais. Ele então tem a noção pessimista de que já havia se acostumado com o sabor amargo de sua vida. Encarando o rapaz, Bismarck pergunta:

- Por que está triste, meu jovem?

Gunther não sabe por onde começar.

- O senhor não entenderia.

Desta vez é Bismarck quem se ofende. O chanceler era orgulhoso demais para aceitar que não entendia alguma coisa. Ele se sente desafiado a ajuda-lo.

- Está tendo problemas no amor, não é?

O rapaz se espanta com a intuição dele.

- Como o senhor sabe?

- Sou um homem velho, mas ainda conservo minha intuição e vigor. E por falar em vigor, você não demonstra nenhum esmorecendo assim.

- O que quer dizer?

- Você não tem a mínima postura de um conquistador. O conquistador deve combater e subjugar seus inimigos, e não ser subjugado por eles. E os prussianos mostraram ao mundo que, aos inimigos vencidos, só devemos lhes dar os olhos para que eles possam chorar.

Gunther se assusta com tamanha frieza. Entretanto, foi essa mesma frieza que possibilitou a unificação da antiga Confederação Alemã.

- Não se trata de uma questão militar conquistar o coração de minha amada. Há problemas maiores dos quais eu, um simples cidadão do lado oriental de Berlim, possa resolver.

- Ora, levante-se, homem! – brada Bismarck, assustando-o – Você é um orgulhoso soldado alemão, alguém capaz de mudar o destino da Europa para sempre!

Definitivamente, a Alemanha mudou o destino da Europa para sempre, mas não como o orgulhoso Bismarck imagina.

- O senhor não entende. A barreira que me impede de conquistar minha amada não é tão simples como pensa.

- Meu jovem, eu não conheço a palavra barreira. O Reino da Dinamarca tentou me parar, e então o Império Austro-Húngaro, e por último os nossos rivais franceses. E o que aconteceu com eles? Foram esmagados um por um.

Novamente o rapaz se assusta. Bismarck não esconde seu caráter belicista. Então ele diz:

- O senhor era um hábil e experiente diplomata. Sendo assim, como pode falar tão naturalmente em guerra?

O chanceler sorri, demonstrando a altivez de quem sabe muito mais do que aparenta.

- Meu jovem, a diplomacia sem armas é como a música sem instrumentos. E como eu já disse uma vez, a política não se faz com discursos, festas populares e canções; ela se faz apenas com “sangue e ferro”.

Imediatamente o rapaz se lembra do famoso discurso do “sangue e ferro” de Bismarck. Naquela ocasião, o patriótico chanceler surpreendeu os liberais, que defendiam a unificação alemã em um único Estado, com um discurso belicista, pró-monárquico e conservador.

O rapaz se empolga. Aproveitando a ocasião única, ele o pergunta:

- Como pôde contrariar o liberais em 1862? No momento o senhor não acreditava que a Confederação Alemã poderia ser melhor se fosse parlamentarista? Ou melhor, republicana?

Ao ouvi-lo, o chanceler se indigna.

- Eu sou o Príncipe Bismarck de Schönhausen, um nobre, político, monarquista e amo o meu rei! Você realmente acha que eu andaria com os cães republicanos?! – vocifera ele – Aliás, quando politicamente se diz que está em acordo com uma ideia, isso significa que não se tem a menor intenção de pô-la em prática.

Raciocinando, Gunther comenta:

- Isso me parece um pouco maquiavélico.

- Talvez. – responde o chanceler, rindo – Entenda que fazer política em cima de princípios é o mesmo que caminhar por uma trilha estreita na floresta, carregando uma vara longa entre os dentes.

O rapaz amigavelmente ri, admirando a habilidade e esperteza do velho Bismarck.

- Gostaria de ter sua habilidade política no amor.

- Você tem certeza? Desta maneira você seria dono de um bordel, ou teria o seu próprio harém!

O riso faz o rapaz cuspir o café na mobília. Bismarck também ri, mexendo seu bigode grisalho e volumoso. “O chanceler era mesmo um velho soberbo”, pensa o rapaz.

Passados alguns segundos, o rapaz bebe outro gole de seu café. O chanceler bebe também, embora disfarçando heroicamente sua repulsão. No breve silêncio, Gunther reconhece que não ri há dias.

- Mas diga-me, meu jovem. O que te impede de conquistar essa musa da qual está me falando?

- Como eu disse, o senhor não entenderia. Aliás, acho que é algo que não vai querer saber.

- O que pode ser tão complicado assim para eu não entender?

- Imagine que tudo o que o senhor conquistou na vida de repente se voltasse para confronta-lo de uma só vez.

- Pois então me diga o que é.

- Senhor Bismarck, eu faço isso para priva-lo da decepção.

- Então me diga!

- Não tenho certeza se irá agrada-lo.

O chanceler perde a paciência.

- Por mil demônios, diga logo o que é!  

Irritado, o rapaz responde:

- O que me impede é a própria Alemanha!

Então Bismarck arregala os olhos, calando-se por alguns segundos. Surpreso, ele passa a mão em seu rosto e olha para os lados.

- Como pode ser isso? Como a Alemanha é a causa de seu infortúnio?

Respirando fundo, o rapaz enxuga o suor de sua testa e responde:

- O senhor se lembra que mandou prender os comunistas, fechando seus diretórios e criminalizando seus partidos? Pois então, hoje eles não apenas governam um terço da Alemanha como também instauram uma república em seu lugar. A monarquia prussiana que o senhor conhecia não existe mais.

O queixo de Bismarck parece cair com a terrível notícia. Ainda formulando as palavras, ele se enrola para perguntar:

- Mas... e quanto ao seguro social que eu estabeleci para apaziguá-los...?

O chanceler se refere ao extraordinário seguro do Estado implantado em 1880 para dar ajuda financeira aos trabalhadores afastados por doença, acidentes e aos aposentados em geral. De fato, ele foi o primeiro governante no mundo a implanta-lo em um país.   

- Bem... isso não foi o suficiente para refrear o ímpeto revolucionário pela Europa e pelo mundo. E tem mais – continua Gunther – a outra parte da Alemanha hoje é governada pelos liberais republicanos, aqueles que outrora o senhor também combateu.

- O quê?! – exclama ele, de repente percorrendo com passos pesados a sala – Que espécie de república podre e corrompida é essa governada liberais e comunistas?

- Na verdade... – começa o rapaz – são duas repúblicas. Veja.

Gunther se levanta e caminha até a janela. Afastando a cortina, ele pede para o chanceler ver.

- Por Deus! Mas que abominação execrável é essa?!

Bismarck contempla em desgosto o cinzento Muro de Berlim mutilando a cidade em dois.

- Estamos no lado comunista. Bem... – corrige ele – Socialista se estivermos falando tecnicamente. E é esse o meu problema. Estamos em um Estado prisão que impede os cidadãos de saírem, e os que querem ficar são militantes ideológicos fanáticos do partido, capazes de fuzilar seus próprios compatriotas para impedi-los de ir.

- E é por isso que esse muro hediondo está aí? – pergunta Bismarck.

- Sim.

O chanceler fica em silêncio por um momento. Em desgosto, ele vê seu trabalho desfeito e a Alemanha novamente fragmentada e desunida.

- Meu Deus – sussurra ele – Como isso foi acontecer?

- Após sua... – o rapaz ia dizer morte, mas soaria um tanto esquisito sendo que ele está parado bem ali na sua frente – destituição... do cargo de chanceler, a Alemanha causou duas grandes guerras... E perdeu as duas.

- O quê?! – brada Bismarck novamente, encarando-o furiosamente nos olhos – A Alemanha derrotada?! Impossível! Depois de todo o trabalho que eu tive de assegurar que isso jamais aconteceria!

O chanceler bate violentamente seu punho na parede, cheio de indignação em sua voz.

- Lamento.

Ocultando seu rosto contra a parede, Bismarck pergunta ao rapaz:

- Quem foi o responsável por essa humilhação?

Gunther ia responder Hitler, mas sabe que originalmente não foi ele. Na verdade, Hitler foi consequência das decisões imprudentes de outro mau líder.

- Kaiser Wilhelm II.

- Filho de uma... – o chanceler diz um palavrão – E eu o avisei que ele traria tragédia à toda nação!

De fato, Bismarck alertou que as ações de Wilhelm colocariam a Alemanha em uma guerra contra dois fronts.

Tentando acalma-lo, o rapaz diz:

- Não foi só culpa do kaiser. Outros monarcas também tiveram planos ambiciosos para a...

- O Kaiser Wilhelm era um patife! – brada ele, ignorando-o – Um moleque insensato e arrogante aproveitando-se do poder conquistado por outros!

Ainda parado em frente à janela, o rapaz vê Bismarck andar pela sala e se lamuriar. Enquanto o chanceler oculta sua tristeza, Gunther tem a impressão de ver as lágrimas de um nobre.

Voltando ao sofá, o rapaz se senta. Entretanto, o orgulhoso Bismarck continua em pé.

- Você tinha razão em tentar me prevenir.

Gunther se consterna.

- Me desculpe.

- De qualquer forma... – continua ele – Se o amor que sente for maior que o meu pela Alemanha, e se, para conquista-la, você tiver que destruir essa maldita república, faça! – ordena Bismarck, assustando-o.

- Mas o senhor é um ferrenho patriota. Como pode me pedir isso?

- Se essa humilhante ruína for o meu país, eu não quero viver nele mais.

O rapaz retruca.

- Minha amada é uma militante comunista. Ela jamais aceitaria que eu destruísse a Alemanha socialista.

- Sua amada é comunista? – pergunta ele, altivamente – Então ela já a destruiu. – complementa o chanceler, racional e frio – Lembre-se: a política é a arte do impossível. Não seria o mesmo para algo igualmente complexo como o amor?

Ao ouvi-lo, Gunther reflete. O chanceler tem razão.

- Falando assim, parece que eu tenho o poder em minhas mãos... – ironiza Gunther, rebaixando a si mesmo.

Bismarck lhe faz um olhar incisivo. Narcisista como era, manipulador e fortemente vingativo, ele balança negativamente a cabeça, não acreditando na moleza de caráter do rapaz à sua frente.

- Você não precisa ser um aristocrata ou tampouco um chanceler para alcançar o poder. Por acaso aqueles vira-latas comunistas eram nobres quando conquistarem-no?

O rapaz se confunde.

- Acho que não.

- Então nunca mais diga que você não tem o poder em suas mãos. O poder já é seu quando você parte em sua busca e é dever seu conquista-lo, não importa como.

Então Gunther se silencia novamente, perdido em pensamentos. Bismarck aproveita o momento para perguntar:

- E por falar em mulheres, responda-me algo, meu jovem. A minha amada esposa, Johanna, também está aqui?

O chanceler se refere a Johanna von Puttkamer, a duquesa de Lauenburg, intencionalmente exibindo a nobreza de sua mulher. O rapaz se intriga, afinal o mesmo Bismarck que fala pomposo de seu casamento foi o mesmo que se envolveu amorosamente com Marie von Thadden e a princesa russa Katharina Orlova. Por fim, ele responde:

- Bem... – começa ele – a sua esposa morreu há muitos anos, como já deve saber. Desculpe-me, mas eu não a vi.

Ao ouvi-lo, Bismarck põe rudemente seu pé sobre o sofá e, colocando a mão nos olhos, chora tristemente. Nesse momento o rapaz percebe: o chanceler se corroía em saudades.

O inusitado encontro lhe é revelador. Gunther não sabe mais o que acreditar, a realidade se alterna, traz os mortos de volta. Mas uma coisa não podia voltar dos mortos, a Alemanha forte e extensa conquistada por Bismarck. Mesmo o último resquício da Prússia, o amado reino do chanceler, foi perdida para sempre com a invasão dos russos. Mas isso parece ter pouca importância para ele agora.  

O poderoso Bismarck, conquistador do centro da Europa, chora de saudades da esposa. Gunther percebe que sem ele, com sua personalidade truculenta e arrogante, jamais existiria uma Alemanha unificada. Na verdade, o que se conhece hoje como Alemanha, seria uma amálgama de 39 reinos distintos unidos fragilmente pela podre Confederação Alemã. Entretanto, sem ele também não existiriam a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.

Longe de ser uma bênção para o seu povo, ele também não foi uma maldição. É sabido que Hitler olhava fixamente para o seu retrato no fundo de seu bunker, antes da queda de Berlim. Hitler fracassou em seu intento. Quanto a Bismarck, pode-se dizer o mesmo?

“Que se dane!”, pensa Gunther. Sem o Chanceler de Ferro não existiria o Kaiser Wilhelm II, e sem o Kaiser não existira o Führer, e sem o Führer não existiria uma Alemanha mutilada e governada por, quem diria, os comunistas.

Muitos preferem – e até adoram – odiar a Hitler. Gunther concorda, mas após um olhar minucioso na história ele não vê outra opção senão também declarar:

“Odeiem a Bismarck!”.

 


[1] “Como vai, meu jovem?” em alemão

[2] Termo prussiano para nobres proprietários de terra e representantes do governo.

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

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