De dentro do ônibus, Gunther observa a paisagem berlinense e, pela janela, vê o imenso Alexanderplatz. Lembrando-se daquela bizarra noite, ele nota
que as construções e edifícios estão em perfeita ordem. A Estação de Trem e a
Torre de Televisão estão intactas, como se nada as tivesse acontecido. O rapaz
se intriga, pois a gigante danificou a estação e estraçalhou o topo da torre,
causando-lhes estragos dos quais demorariam meses para se consertar. Mas as
feridas de Gunther estão em seu corpo, evidenciando que aquela noite foi real,
assim como todos os acontecimentos bizarros nos últimos dias.
Descendo no bairro de Treptow, na região sudeste de Berlim, Gunther
caminha tranquilamente até o famoso Parque Treptower. Era uma bela tarde de
domingo e, em meio aos frequentadores do parque, o rapaz vê uma aglomeração
incomum de pessoas. Aproximando-se, ele vê o que parece ser uma cerimônia de
casamento.
Adiante ele vê um jovem casal diante de um pastor. O pastor
segura uma bíblia e, pregando acerca dos deveres maritais, conduz a cerimônia
para as famílias e os convidados. Gunther se admira que, apesar dos esforços
dos comunistas para estabelecer o ateísmo como “religião” oficial do Estado,
alguns alemães os rejeitaram e conservaram suas raízes cristãs.
- É uma bela tradição, não?
Alguém lhe tira a atenção. Olhando para o lado, ele vê um homem de
aparentemente cinquenta anos sorrindo.
- Desculpe-me, eu não entendi.
- Disse que é uma bela tradição a cerimônia de casamento.
Gunther olha novamente para o casal e assente.
- É sim.
- Perdoe meus maus modos. Eu sou Helmut, sou tio do noivo se casando
ali.
- Eu me chamo Gunther. Meus parabéns pelo seu sobrinho.
Os dois apertam as mãos.
- Veja meu sobrinho. Quis que seu casamento fosse religioso e ministrado
por um pastor protestante. Quanta bobagem! Tudo isso aqui é uma perda de tempo para a
Alemanha Oriental, pois todos nós sabemos que o casamento só é validado por um
tabelião e um juiz. Mas ele insistiu que queria uma cerimônia religiosa sob a
“bênção de Deus”... – comenta ele, em deboche – Esses jovens são tão rebeldes.
- Talvez. – responde Gunther, sem interesse.
- Mas você é jovem também. Diga-me, você é um rebelde? – sem
deixa-lo responder, o homem continua – Pois meu sobrinho está sempre nos
contrariando com suas convicções religiosas chatas. Ele ainda não amadureceu
para perceber que Deus é um conceito burguês e a religião, o ópio do povo.
Então o rapaz se intriga.
- Um conceito burguês? – pergunta ele.
- É claro! Você não acha muita coincidência o Catolicismo ser alvo dos
revolucionários na França, e então os Ortodoxos na Rússia? Mesmo aquele canalha
do Hitler olhava com desconfiança para o Vaticano, mas preferiu não atacar
diretamente a Igreja por possuir em seus exércitos muitos católicos e,
principalmente, protestantes.
Gunther assente com a cabeça, embora pensando no assunto.
Helmut continua:
- Toda a nossa família é comunista, e apoiamos o ateísmo científico
promovido pelo partido nas universidades e repartições públicas. Eu apoio uma
revolução na cultura, como aquele ocorrida na China comunista.
Lembrando-se do assunto, o rapaz lhe faz uma desagradável pergunta:
- Mas a Revolução Cultural maoísta não resultou na morte de milhões?
Sorrindo, o homem responde:
- Mao Tsé-tung estava certo em sua Revolução Cultural. Para os
ocidentais ela fracassou, imputando sobre ele as consequências dessa desastrosa
política. Mas nós, comunistas, sabemos que os verdadeiros culpados foram as
classes reacionárias, conservadoras, infiltradas em seu meio. Elas atrapalharam
a revolução social, conservando tradições burguesas que, lamentavelmente, lá
sobrevivem até hoje. Como a tradição do casamento, por exemplo, da qual nós
hoje a presenciamos.
- É verdade. – concorda ele, sem querer iniciar um debate.
- De fato – continua ele –, se a promovermos sutilmente, gradualmente o
alemão médio se conscientizará, abandonando suas crenças arcaicas e então
seguindo para o ateísmo. Assim conseguiremos arrancar os males do Cristianismo
pela raiz.
- Interessante.
- Mas... – lamenta o homem – Isso ainda é uma realidade distante. As
pessoas não abandonarão suas crenças e superstições do dia para a noite.
Algumas pessoas se agarrarão a elas a ponto de morrerem por isso. Infelizmente,
até algumas que amamos, como o meu sobrinho ali. Eu o vi crescer e o
carreguei nos meus braços. Me parte o coração que ele, no inevitável processo revolucionário
predito por Karl Marx, seria meu inimigo que devesse ser abatido.
Nesse momento, o rapaz se espanta.
- Ora, essa! Aí está você incomodando os outros com suas políticas de
novo?
Alguém se aproxima. Gunther vê outro homem, de aparentemente a mesma
idade de Helmut, se aproximar.
- Boa tarde, Fritz. Embora a tarde estivesse melhor sem você.
- Não se incomode com ele, meu rapaz. Helmut é mais um caso de Síndrome
de Estocolmo, alguém que teve parentes massacrados pelos russos no passado e
hoje apoia suas políticas absurdas. – virando-se para Gunther, ele se apresenta
– Eu sou Fritz. Sou tio da noiva ali à frente.
“Outro tio?”, pergunta-se Gunther, surpreso.
- O que quer dizer com políticas absurdas, Herr Fritz?
- Você realmente acredita que o comunismo funciona ou apenas finge ser
um bolchevique alemão?
Helmut se irrita, deixando seu rosto corar.
- Eu não preciso fingir nada. Acredito realmente que o socialismo
funcione e que são pessoas como você que o atrapalham de ir em frente.
- Se funciona, então por que é chamado de utópico? Por que todos que o
implantaram deturparam o seu próprio criador? Se é um processo sociológico e
natural, então por que devemos doutrinar seus militantes desde crianças?
- Para impedir que seja destruído por fascistas como você!
Fritz ri.
- O fascismo também é utópico, meu amigo. Do contrário, não precisaria
obrigatoriamente fazer guerra para subsistir.
Helmut se confunde, seu conhecimento não vai tão longe. Ele decide rir.
- Então... – pergunta Fritz – Do que falavam, meu jovem? Burguesia?
Religião? Comunismo?
- Falávamos de religião. – responde Gunther.
- Qual delas? O Cristianismo? O que falavam da mais bela e tradicional
instituição europeia?
- Falávamos exatamente disso. – interrompe Helmut – Sobre os efeitos maléficos
da tradição.
Sorrindo, Fritz pergunta mais uma vez:
- O que pode ser tão maléfico sobre a tradição religiosa?
Por alguma razão os dois olham para Gunther. Pressionado, ele se vê
obrigado a responder:
- Helmut dizia que o casamento era uma tradição religiosa que
atrapalhava o progresso socialista.
- Pois eu devo discorda-lo, Herr Helmut! – responde Fritz, encarando-o.
– O casamento existe há milhares de anos e inclusive é realizado em países
socialistas, como a Alemanha!
- Milhares de anos? Então de onde ele surgiu? Ou, mais precisamente,
quando?
- No princípio da raça humana, quando Deus, em Gênese 2:24, disse: “o
homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só
carne”.
Helmut ri.
- Não me venha com suas superstições bíblicas de pouca ou nenhuma base
científica, Fritz. Daqui a pouco você me dirá que foi em um jardim paradisíaco
de cobras falantes. O casamento não condiz com uma sociedade saudável e
socialista, pois vai diretamente contra o caminho do progresso. Nós, comunistas,
acreditamos que o casamento é, e sempre foi, uma instituição falida.
O outro tio se intriga.
- Por quê?
- Porque nós, comunistas, não aceitamos que as mulheres devam se
acorrentar perpetuamente no patriarcado burguês do ocidente. Queremos dar
direitos a elas, liberdade, voto, empoderamento... Queremos que elas tenham
poder sobre o próprio corpo através do aborto, do divórcio e da rejeição à
castidade. Desprezamos a virgindade, pois ela é superestimada pelo patriarcado
machista. Na verdade, tudo o que lhes aprisionar, combateremos.
Surpreso, Fritz retruca:
- Do jeito que fala, parece que a virgindade feminina é muito
importante. Estamos em um mundo moderno, Helmut. Tanto os homens quanto as
mulheres não se importam mais com isso.
- Mas se importam, meu amigo. Veja o vestido de sua sobrinha. Qual é sua
cor?
Nisso, Fritz e Gunther olham novamente para a noiva. Os dois, então,
notam seu belíssimo vestido branco.
- É apenas um tradicional vestido de casamento.
- Sim, uma tradição cujo branco simboliza a pureza. E o que essa pureza
significa?
Gunther começa a entender. Então ele percebe que, de fato, o casamento
superestima a virgindade feminina. Mas, para sua surpresa, o tio da noiva ri.
- Está enganado, Herr Helmut. A tradição do vestido branco não se trata
da virgindade da noiva, mas do casamento de três rainhas. Pode ter começado no
século XIV com a rainha da Escócia, Mary Stuart, que usou o branco em homenagem
à cor do seu brasão de família. Ou no século XVII, quando a rainha da França, Maria
de Médici, usou branco em contraste com os vestidos escuros, comuns da época. Mas
a versão mais conhecida é a da rainha da Inglaterra, no século XIX, quando
Vitória usou branco, coroa de flores e véu.
Novamente para Helmut, lhe falta conhecimento.
- Está me dizendo que o vestido branco é proveniente de três rainhas?
- Há a versão do casamento de Napoleão Bonaparte com Josefina também.
- Não, eu não creio que isso seja verdade. – desmente ele – Afinal, em
sua Bíblia diz que fornicação é pecado, citando as obras da carne como imorais,
impuras e libertinas.
Helmut cita a passagem de Gálatas 5:19. Para a surpresa de Fritz, o tio
do noivo tinha conhecimento bíblico.
- Pode ser. Mas nesse caso o branco do vestido é só uma cor, não
simbolizando coisa alguma. Se tivesse, os indianos não o teriam como cor do luto
e da morte.
- Então, se sua sobrinha quisesse trocar a cor para se casar de preto,
você concordaria?
- Nunca! – exclama Fritz.
Os dois se silenciam por um minuto. Gunther pensa que eles chegaram a um
impasse.
- Mas o fato é – continua Helmut – que o casamento é uma tradição
judaico-cristã absorvida maravilhosamente bem pela burguesia machista. Era tão
patriarcal que na maioria das vezes era arranjado, sem possibilidade de escolha
dos envolvidos. E reitero que, nos tempos bíblicos, não era o noivo e sim a
noiva quem deveria dar um dote à família do noivo. Ora, essa... – zomba ele – A
noiva presenteando o noivo para o casamento?!
Fritz se irrita. Dessa vez é ele quem sente seu rosto corar.
- Como você mesmo disse, eram outros tempos. Seu sobrinho não foi
forçado a se casar e tampouco minha sobrinha pagou algum dote à sua família.
Isso não existe mais na Alemanha, e talvez no ocidente inteiro!
- Sim. Agradeça a nós, os progressistas.
Aviltado, Fritz lhe lança um olhar de repulsa.
- Ora, se o progressismo significa dissolver o casamento com divórcios,
libertinagens e abortos, logo não haverá geração alguma para a sociedade
progredir... E nem o Muro de Berlim será necessário, pois não haverá ninguém mais
para fugir!
Então Fritz gargalha, debochando do seu amigo. Gunther não aguenta e ri
também, ele odiava o Muro de Berlim.
- Entenda, eu não sou contrário ao casamento, desde que ele seja nos
moldes socialistas.
- Um casamento socialista?! – ri Fritz – Mas que diabos é isso?
- Um igualitário, progressista e anti burguês.
- Ou seja, sem filhos por que vocês defendem o aborto, sem fidelidade,
por que vocês defendem a liberdade sexual e sem duração, por que vocês defendem
o divórcio.
- E por que isso tanto te incomoda? Por que um livro super antigo disse
que era “pecado”?
Era exatamente isso o que Fritz acreditava.
- Sim. É sobre ele que eu baseio a minha fé.
- Como pode ter tanta certeza de sua veracidade? Então se eu pegar o “O
Capital” de Karl Marx e sacraliza-lo, logo ele se torna um livro religioso
também?
- A Bíblia orienta os fieis a obedecerem suas regras. Vocês, comunistas,
além de quererem destruí-las, querem substitui-las por outras. Como o
casamento, por exemplo, do qual querem torna-lo um ato político.
Essa era exatamente a intenção de Helmut, incentivar a união ideológica dos
casais. Entretanto, ele sabia que tal coisa seria impossível com o Cristianismo
em seu caminho. Por essa razão, ele acreditava que deveria haver cooperação. Ele
então diz:
- Queira você saber que os comunistas nunca quiseram extirpar o
Cristianismo da Alemanha Oriental, pelo contrário, os procuraram para que ajudassem
a construir juntos o socialismo. Nós buscamos cooperação! – assegura ele – Mas
são vocês que, incessantemente, lutam contra nossa sociedade justa e
igualitária com seu ódio reacionário.
- Sim, e o ateio de fogo nas igrejas ortodoxas na União Soviética
comprovam seu amor. – ironiza Fritz – Além do mais, foi você quem atacou
ideologicamente algo tão belo e amável como o casamento.
- Não seria porque o casamento atrapalha a igualdade social, sobretudo,
das mulheres?
Após a pergunta também irônica, Gunther se cansa. Ele percebe que não
estava na presença de dois intelectuais defendendo suas posições políticas, mas
de dois idiotas que, por orgulho ou estupidez, jamais iriam concordar um com o
outro. Irritado, ele se afasta.
Ao longe, Gunther vê o lindo casal colocando as alianças. Em seguida o
pastor diz: “pode beijar a noiva”. O noivo a beija e os convidados riem de
alegria, batendo palmas e liberando pombos em seguida.
De mãos dadas, os recém-casados caminham entre os convidados sob uma
chuva de grãos de arroz. Ao olhar bem, o rapaz percebe que não é
arroz de verdade. Com a escassez de alimentos, não era prudente desperdiça-los
assim.
Gunther se emociona, eles pareciam muito felizes. Ele bate palmas
também, genuinamente feliz pela união do casal.
Atrás dele, ele ouve Fritz exclamar:
- Ora, como é que eu vou saber? Pergunte a um teólogo! – e então ele se
afasta.
Para o azar do rapaz, Helmut se aproxima outra vez.
- Você viu que maus modos? Tudo por que eu o perguntei quem valida a
veracidade bíblica. Ninguém pode validar, não é verdade?
Gunther não compreende.
- Como assim?
- Veja, Marx, a Alemanha e o socialismo são algo que eu posso ver. Estão
evidentes aqui. – reforça ele – Entretanto, quem já viu Deus? Ou os profetas?
Ou mesmo – dessa vez o homem faz um olhar maldoso – esse Jesus Cristo que eles
insistem tanto em crer?
Pensando bem, o rapaz responde:
- Faz sentido.
- É claro que sim! Na verdade, poderíamos falar a tarde inteira sobre
isso.
Assustando-se, Gunther rapidamente responde:
- Desculpe-me, mas eu tenho que ir.
Dando-lhe as costas, ele vai embora. Helmut nem mesmo tem a chance de
lhe dizer tchau.
§
Após passar a tarde no Parque Treptower, Gunther volta para casa. Ao
abrir a porta, ele encontra seu apartamento escuro e silencioso, já havia
anoitecido em Berlim. Assim que ele liga a luz, o telefone toca.
- Alô?
- Oi, Gunther. Foi lindo o casamento, não?
- Você estava lá? Estava me espionando?
- Eu estava lá, mas não estava te espionando.
- Estava perto, longe? Como eu não consegui te ver?
- Eu estava perto, mais perto do que você pensa.
- Como pode ser isso? – intriga-se ele – O que a Stasi quer comigo? Ou a
KGB? Eu não fiz nada!
- Entenda... Eu não estava longe. Eu estava em você.
O rapaz não compreende.
- Eu devo estar ficando louco...
Gunther pensa estar sofrendo de esquizofrenia. A voz, porém, novamente é
evasiva ao responder:
- O casamento é realmente uma coisa bonita. Quase chorei ao ver a
felicidade dos dois. Fico feliz que, em um mundo onde existam casamentos
arranjados, forçados e até polígamos, alguns ainda conservem em sua base o
amor.
O rapaz concorda. Ele amava ardentemente Anneliese.
- Acho que sim.
- Você deveria se casar um dia. Talvez alivie essa tristeza que sente em
seu coração.
Suspirando, o rapaz responde:
- Como eu poderia? Quem eu amo me rejeitou. E pelo rumo que minha vida
tomou, não tenho certeza se alguém se interessará por um pirado que conversa
sozinho ao telefone.
Então o rapaz toca o telefone com mais firmeza, confirmando se o
aparelho realmente existe.
A voz responde:
- Não importa quem seja, o casamento é sagrado e deve ser tratado assim.
Lembrando-se da conversa entre Helmut e Fritz, o rapaz pergunta:
- Você acredita nisso?
Desafiante, a voz retruca:
- Você acredita?
“Sim”, grita o rapaz em seu âmago, mas ele prefere não responder. Ele
diz:
- Sem os profetas, anjos ou Jesus Cristo para nos responder, é difícil
ter certeza.
- Mas ainda temos os teólogos, não é mesmo?
- Você acha que suas respostas seriam satisfatórias?
- É nossa única chance.
Ponderando, Gunther responde:
- Talvez você tenha razão.
- Então um teólogo possa te responder?
- Sim, eu acho.
- Está bem.
De repente, Gunther sente um sono profundo e adormece, caindo inerte em
sua cama.
No mesmo momento, a luz da torre de vigia passa por sua janela,
iluminando timidamente os cantos escuros.

