quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Sonata - 68 - O Ardil de Laura

 


(Artista desconhecido)


As tropas puristas percorrem a superfície do distrito. Eles viam uma área vasta, escura e com passagens estreitas em alguns pontos. Acima, os puristas viam a parte inferior da plataforma da praça. Ela tremia, rangia e soltava poeira, evidenciando que uma feroz batalha ocorria lá em cima.

Diligentemente comandando seus soldados, o líder estabelece o perímetro. As bases das megatorres o cercam, desprovidas de entradas ou janelas. Desde o início, os criadores de Sonata projetaram o nível do solo para ser um local de descarte, por onde percorreriam as instalações sanitárias e de infraestrutura. Nasier detestava a superfície, pois era um local sujo e incompatível com a nobreza de seus ideias.

Enquanto cobrem o território, um grupo de batedores alerta o grupo.

“Senhor Nasier, venha urgente!”.

O líder se intriga.

“O que poderia ser tão grave para eles se alertarem assim?”, se pergunta ele.

Nasier chama a seus seguranças e parte ao seu encontro. Além de algumas passagens estreitas, eles finalmente se deparam com os batedores. Então o líder tem uma imensa surpresa.

Encostado em seu aerocarro, um homem de braços cruzados olhava para eles. O líder exclama:

- Maynard...?!

Um segurança atrás deles comenta:

- Acabou a festa. Alguém convidou o Maynard...

Caído no chão, ele vê um de seus batedores. O purista estava apenas desacordado enquanto os outros apontavam suas armas para o mercenário. 

- O que está fazendo aqui? 

Evasivo, o mercenário responde:

- Boa noite, Nasier. Sempre com essa aparência nazista, não?

Maynard se referia ao uniforme preto, botas de cavalaria e o cabelo cuidadosamente penteado do líder.

- Eu apenas expresso a seriedade dos ideais de pureza humana.

- De qualquer forma... – muda ele de assunto – Eu só vim conversar.

O mercenário se desencosta do carro. Imediatamente os puristas apontam suas armas.

Irritado, Nasier olha para seus batedores e pergunta:

- Por que vocês não trouxeram o mercenário até mim?

Com um pouco de medo, eles respondem:

- Nós íamos fazer isso, senhor. Mas veja o que aconteceu com quem tentou. – eles apontam para o purista desacordado no chão.

Respirando fundo, o líder pergunta:

- Sobre o que você quer falar?

- A superfície é um lugar perigoso. – responde ele, olhando ao redor – E como vocês são bons demais para um lugar com esse, eu pensei em vir ajuda-los.

- Ajudar-nos?!

Então Nasier gargalha.

- Passagens subterrâneas, túneis desativados, comportas industriais, canais poluídos... – lista ele – Aqui não são os níveis superiores, Nasier. Vocês estão em completa desvantagem.

Os puristas se irritam.

- E o que te faz pensar isso?

- Do jeito que vocês cobrem o perímetro, estão deixando vários espaços desprotegidos. De fato, vocês só me encontraram por que eu permiti.

Maynard tinha razão. Os puristas não tinham experiência em combate na superfície.

- Você fala com arrogância, mercenário. Mas ainda não me convenceu a aceitar sua ajuda.

- Shh! – chia ele com o dedo nos lábios – Está ouvindo?

Ninguém ouve nada.

- Do que você está falando?

- Há um trem chegando. Se seus batedores são tão bons quanto diz, eles já encontraram um linha férrea a leste daqui, não é?

Nasier e seus comandantes se entreolham. Eles não encontraram linha alguma.

- Isso é mais um de seus truques?

- Não é nenhum truque.

- É melhor não estar nos enganando, Maynard. Se não eu mando meus androides esmagarem sua cabeça.

O mercenário sorri.

- Sigam-me.

Avançando pela escuridão, eles veem um trem de carga. O trem para em uma estação abandonada e tropas da Polícia Corporativa desembarcam, transportando suprimentos. Database tinha razão, o inimigo realmente usou a superfície para seu esforço de guerra.

O líder desconfia de Maynard, mas ele comprovou suas palavras. Diferente dos puristas, ele parecia conhecer o local. Nasier diz:

- Parece que você estava certo, mercenário. Você pode ficar conosco... Por enquanto.

Esperando o momento certo, Nasier se prepara para atacar. Então um dilema surge em sua mente. Se ele atacar agora, sofrerá muitas baixas, mas cortará as linhas de suprimento inimigas, paralisando a chegada de reforços acima. Se ele não atacar, preservará suas tropas, mas tornará a tomada da Cúpula Corporativa mais custosa, favorecendo o inimigo e desprestigiando a facção. Ele pondera.

Destravando sua arma, ele a mira em seus inimigos. Não foi uma escolha difícil de se fazer. O líder jamais comprometerá sua facção acovardando-se perante o inimigo.

- Eu não faria isso se fosse você.

Nasier pergunta:

- Por que não?

Maynard aponta em direção dos suprimentos. Algumas caixas se desmontam e, revelando robôs compactados, Securitrons se formam e se levantam. Os pesados robôs se enfileiram na plataforma e caminham ao lado das tropas. De olhos arregalados, o líder conta trinta unidades.

- Sugiro que os deixem ir embora. Eles estão indo para o norte e logo eles se encontrarão com os mecanicistas. Eles têm armamento pesado; deixem que se virem com esses robôs.   

- Não deixarei a glória da vitória para aqueles impuros.

- O trem voltará para trazer mais tropas. Há escassez de Securitrons pela cidade, a Rebelião já tomou suas bases e seus locais de produção. O próximo trem não trará mais nenhum, e então vocês atacam.

O líder se intriga.

- Como é que você sabe tudo isso?

- Apenas faça o que eu digo.

Cheio de orgulho, o líder responde:

- Não é você que dá as ordens aqui.

- Nasier, eu só quero que vocês vivam. Não terei mais serviço se as corporações exterminarem a metrópole com o Projeto Gemini. Preciso de vocês vivos para derruba-los e tomarem o poder.

O líder se espanta.

- Por quê?

Exibindo o seu corpo, Maynard diz:

- Está vendo alguma próteses biomecânica aqui?

Então o líder sorri.

Aguardando pacientemente os policiais deixarem a estação, o trem retorna pela linha e parte para buscar mais tropas. Os puristas se levantam e se dirigem para a estação. Eles sabotam a linha, plantando explosivos no início da plataforma. Soldados e androides Advance se posicionam, aguardando a chegada do inimigo.

O trem retorna e se aproxima da armadilha. Nasier pressiona o botão e os explosivos se acionam.

- Protejam-se!

A explosão é tão forte que suspende os vagões no ar. Os vagões tombam e ameaçam cair sobre os próprios puristas. Aparentemente os vagões transportavam armamentos e munições. Em contato com o fogo, um espetáculo de explosões se forma, devastando a estação e iluminando o escuro fosso da superfície.

A labareda se propaga e se levanta até a plataforma da praça acima. Todos se fascinam, admirados com as coloridas luzes se estourando pelos ares como fogos de artifício. O campo de batalha se estremece e Nasier teme que a própria praça caia sobre eles.

Passado o susto, os vagões que resistiram ao ataque se abrem e tropas policiais saem. Os puristas e os policiais ainda estão atordoados, mas não havia tempo a perder. Um novo combate estava prestes a começar.

- Matem todos! – ordena o líder.

Os puristas se levantam e atiram. Os policiais são pegos de surpresa, mas conseguem se proteger atrás das ruínas do trem. Os androides Advance avançam e invadem as linhas inimigas, intimidando-os com sua elevada estatura.

O ataque coordenado da facção faz os policiais recuarem. As armas liberavam fumaça e atiravam para todos os lados. Extasiado, Nasier via os projéteis de pólvora e laser cruzando a escuridão.

Os androides golpeavam os policiais, fazendo-os voar pelos ares. Os policiais atiravam de volta e sangue azul se espirrava de seus ferimentos, entretanto eles não paravam de avançar. Um capitão olha aquilo e exclama:

- Derrubem esses malditos monstros!

Usando bombas, os policiais as atiram nos pés dos androides e as detonam. Os androides tem suas pernas mutiladas e caem, mas não fazem nenhuma expressão de dor. Os policiais se assombram.

Arrastando-se pelo chão, os androides tentam alcança-los. Os policiais atiram em suas cabeças e se espantam ao ver que alguns continuavam avançando. Mas, sucumbindo aos ferimentos, eles se esgotam e finalmente morrem aos seus pés.

- Meu Deus! Mas que mutações desumanas esses fanáticos estão fazendo?! – exclama um policial.

Mas outros androides aparecem e, portando enormes canhões de mão, atiram contra os vagões tombados. Um laser dourado e concentrado atravessa o revestimento de aço, atingindo os policiais e desintegrando-os com o elevadíssimo calor. Nasier se espanta com o espetáculo de destruição.  

Após alguns minutos, estava tudo acabado. Os puristas saíam vitoriosos de mais um confronto.

Maynard caminha pelo campo de batalha e olha para os policiais mortos. Como Database disse, aqueles não eram policiais comuns, mas sim mercenários arregimentados pelas corporações. Elas estavam convocando os criminosos condenados das penitenciárias para lutar ao seu lado, oferecendo-lhes a chance de libertação caso as corporações vencessem.

Enxugando o suor de sua testa, Maynard sabe que isso jamais aconteceria. As corporações não tem mais nenhuma chance de vencer. A maioria dos policiais comuns abandonaram a luta, preferindo ficar em casa com suas famílias. Ainda assim as corporações partiam ao combate.

“Como um último suspiro de vida de um animal prestes a ser abatido”, reflete ele.

Nasier se aproxima e encontra o mercenário parado em silêncio. O líder diz:

- Eu não me lembro de tê-lo visto combatendo-os conosco.

- Não são policiais. – responde ele – São mercenários pagos pelas corporações.

O líder sorri.

- Quem seria tão tolo de aceitar lutar ao seu lado nesse estágio da Rebelião?

- Criminosos cumprindo pena nas prisões. As autoridades lhes ofereceram a liberdade e, por não saberem o que estava havendo aqui fora, eles aceitaram e acabaram mortos aqui.

Maynard mexe em um corpo com o pé, evidenciando sua morte.

- Falando assim parece até que você se lamenta, mercenário.

Nasier falava com desconfiança, mas Maynard muda de assunto.

- Vamos prosseguir.

Caminhando por caminhos sinuosos, o mercenário percebe que os puristas tinham pouquíssimo conhecimento da área em que se encontravam. Maynard é um profissional pleno e competente. Se ele fosse um purista, ele jamais entraria em um lugar daqueles sem total conhecimento prévio. De fato, os facciosos se comportavam como amadores.

Uma vasta área se aproxima. Eles viam plataformas velhas e enferrujadas e becos escuros pelos cantos. O local parecia abandonado e silencioso, exceto pelos sons perturbadores da batalha acima. Nasier fica apreensivo.

- Espero que saiba para onde está nos levando, Maynard.

Em tom reprobatório, o mercenário responde:

- Não sou eu quem deveria saber.

Ao chegarem no centro da área, uma figura encapuzada pula sobre as plataformas e desce ao piso. Os puristas se intrigam. Maynard se aproxima e diz:

- Laura, eles são todos seus.

- Laura?! – pergunta o líder – O que é que está havendo aqui?

Então a figura tira seu capuz e eles veem o rosto da runner.

Passos são ouvidos e eles veem centenas de soldados correndo nas plataformas. Nos becos, ciborgues enormes aparecem. 

Escoltado por mais soldados, uma pessoa conhecida se revela. Nasier exclama:

- Huxley!

O líder dos Trans-humanistas diz:

- Hora de acertarmos as contas, canalha!

Olhando ao redor, Nasier encontrava-se totalmente cercado. Ele pergunta:

- Maynard! Por quê?!

Mas o mercenário se afasta calmamente, caminhando em silêncio com as mãos nos bolsos.

- Não se preocupe com ele. – interrompe Huxley – O mercenário é um especialista em bombas. Pensei em dar-lhe a sede da Resistência Purista para demolir.

Laura apenas observava em silêncio. Nasier pergunta:

- Lótus, qual é o motivo disso?!

- Não posso permitir que vocês vivam, não após o ataque à Cellgenesis.

- Por quê?!

- Vocês se apoderaram de uma tecnologia perigosa, Nasier. Sonata corre um altíssimo risco com sua facção. Não permitirei que vocês desenvolvam e proliferem mutantes indestrutíveis como o Demiurgo.

O líder se intriga.

- Demiurgo...?!    

- Caso isso aconteça, a Resistência Purista reinará absoluta, esmagando as demais facções, a superfície e promovendo o assassinato de qualquer um que tiver um membro biomecânico implantado em seu corpo.

Nasier arregala os olhos; era exatamente isso o que ele pretendia.

- Então é esse o motivo de sua traição?

Laura se irrita.

- Traição? Eu nunca os servi.

Ele se enfurece.

- Depois de tudo o que fizemos juntos! O resgate de Vertigo, a sabotagem na Bio Prótesis, o roubo na Cellgenesis... Eu poderia tê-la aceitado em nossa facção como os Trans-humanistas fizeram com o seu amigo Vertigo, mas você decidiu se aliar a eles também?

- Eu não me aliei a ninguém. – discorda ela – Eu apenas estou livrando Sonata de uns genocidas como vocês.

- Não somos genocidas! – vocifera ele – Somos idealistas, puristas, higienistas da raça humana! Se você quer ver um genocida, olhe para esses profanadores da fisiologia atrás de você.

Nasier delirava em seu próprio fanatismo ideológico.

A garota retruca:

- Você não é diferente, Nasier! Você é só mais um sociopata pirado que promove sua ideologia obsoleta através do terrorismo. Esses androides hediondos da classe Advance comprovam isso.

O líder perde a paciência. 

- Sua vadia! – insulta ele - Nós poderíamos ter reinado Sonata juntos, mas você decidiu se aliar àquele cão sarnento do Maynard e esses mecanicistas impuros para nos destruir?!

Com frieza, ela diz:

- Ou eram vocês ou era toda a metrópole. Não foi uma escolha difícil a se fazer.

Não havia para onde fugir, eles estavam presos naquela emboscada. Em um ato desesperado, Nasier ordena:

- Atacar!

As facções duelam. Os tiros atravessam o ambiente e atingem os mecanicistas. Alguns cambaleiam mas, protegidos por armaduras e exoesqueletos, eles se recuperam e atiram de volta. Os androides Advance atiram com seus enormes canhões e incineran alguns ciborgues, mas estes também resistem, protegidos por ligas metálicas.

Apesar de sua firme convicção ideológica, os puristas sofriam evidente desvantagem contra seus arqui-inimigos. Membros biônicos, armaduras e ligas metálicas sempre foram superiores à carne e os ossos.

Os trans-humanistas revidam. Como Securitrons, os enormes ciborgues atiram lasers e mísseis, fulminando as tropas puristas. Os androides Advance são atingidos e se explodem, espirrando sangue azul para todos os lados.

Aquela era uma batalha perdida. Nasier tenta se proteger atrás de seus seguranças, mas eles também são mortos na emboscada. Uma fumaça densa se eleva e ele se esgueira para longe, fugindo para salvar a sua vida.

- Isso é pelos puristas! – grita um faccioso com uma granada em sua mão. Ele corre em direção aos mecanicistas e se explode, matando-os consigo.

Escondida em uma plataforma, Laura assiste a tudo de longe. Os Trans-humanistas eram guerreiros excepcionais, pois tinham um admirável poder de fogo e arrasavam a tudo pela frente. Ela percebe que os puristas não tinham a menor chance.  

 Os puristas são exterminados. Uma fumaça negra e um cheiro sufocante de carne queimada paira no ar. Era a carne pura e imaculada que os puristas se orgulhavam de ter.

Huxley se aproxima e observa ao redor. A superfície da Cúpula Corporativa se tornara o cemitério de seus inimigos. Mexendo nos corpos com os pés, ele procura por Nasier. Minutos se passam e ele se frustra, não o encontrando em lugar algum.

- Mas onde é que ele se meteu?

- Senhor! – chama um mecanicista – Avistamos um homem correndo pela superfície ao sul.

Animando-se, o líder comenta:

- É ele!

Nasier corre desesperadamente. Suas roupas refinadas e seu cabelo penteado estão arruinados. Diferente de antes, o purista não demonstra mais repugnância ou elitismo ao caminhar pela superfície. Ao contrário, ele se lança nos becos e canais poluídos, ávido para salvar a sua vida.

À sua frente ele vê a base de uma megatorre. Para sua surpresa havia uma entrada embarricada por madeiras. Chutando-as com toda a sua força, ele adentra e caminha pelo interior do prédio. Havia tanta sujeira ao redor que a própria luz era fraca devido à poeira impregnada nas lâmpadas.

Ratos caminham pelo chão e baratas sobem pelas paredes. Ao seu lado ele vê a entrada de um elevador e pensa aquilo ser um milagre.

“O que eu sou? Um fanático religioso?”, pergunta-se ele, referindo-se aos clérigos. 

Apertando os botões, o velho elevador se ativa e desce ao seu encontro. Nasier ouve os mecanicistas lá fora. Uma voz lhe era familiar. Huxley se empolgava em caça-lo como um animal.

O elevador chega ao térreo e seu sino toca. Os mecanicistas o ouvem e, encontrando-o no interior da megatorre, gritam:

- Lá está ele!

Nasier se lança para dentro segundos antes de ter seu corpo incinerado pelos lasers.

Dentro do elevador, o purista ofega tão intensamente que parece que seu coração vai sair pela boca. Os velhos mecanismos balançam e estralam. Nasier teme que os próprios cabos de aço se rompam na subida. Mas não é isso o que acontece.

O último andar se aproxima, mas não era o topo da megatorre. O purista sai e vê vários sinais de proibida passagem no saguão. Como esperado, o acesso à superfície era restrito. Ele ouve sons de gritos e explosões lá fora. Espiando por uma janela, a batalha por Sonata prosseguia.

Alcançando a saída, ele encontra as portas de entrada abertas e vandalizadas. À sua esquerda ela vê o túnel tomado por barricadas; um confronto ocorria entre policiais e manifestantes. À sua direita ele vê a praça da Cúpula Corporativa; soldados, robôs e ciborgues se confrontavam em uma violentamente. Nasier não tinha para onde ir.

- Parado aí!

Os mecanicistas chegaram. Em pânico, ele corre pelo túnel em direção à Cúpula Corporativa.

A praça estava tomada pelo caos. Acima, aeronaves caíam do céu, mergulhando em chamas pelas alturas. Ao redor, as facções e a polícia se confrontavam em uma batalha que mais se parecia com um banho de sangue. Sem seus fiéis soldados, Nasier se sente desprotegido.

Correndo por entre a fumaça e os cadáveres, uma aeronave cai ao seu lado e se explode, lançando-o pelos ares. Caindo no chão, ele luta para não perder a consciência. 

Nasier vê um Zero japonês coberto de chamas. Em desprezo ele pensa:

“Malditos japoneses! Eles foram os primeiros a seduzir o mundo com sua tecnologia robótica! Eu ainda verei esses porcos sendo expulsos de Sonata...!”.

Mas o purista não viverá tanto.

Enquanto se arrasta para um local seguro, alguém diz:

- Olá, Frank! Estava fugindo de mim?

Homens robóticos aparecem. Virando-se, ele vê Huxley falando com ele.

- Afaste-se de mim, seu verme nojento...!

O mecanicista ri.

- Por todo esse tempo eu o ouvi me chamando assim. E olhe quem hoje se rasteja no chão como um verme.

Nasier cospe sangue e então diz:

- Você é um tolo, Huxley. A runner usou o mercenário... E também vocês... Para nos destruir! Ela não está preocupada com a tecnologia corporativa... Ela age em interesse do Submundo...!

- Está dizendo que caímos no ardil de Laura?

- Sim...! Ela é uma marginal, ardilosa... E criminosa da superfície...! Uma última escória que deve ser extinta...!

Huxley parece considerar suas palavras.

- Então está dizendo que a escória da superfície são os nossos verdadeiros inimigos?

- Sim...!

O líder diz:

- Saiba que eu não fui um tolo, Nasier. Você é quem foi por se apoiar em sua ideologia arcaica de pureza física. Não fui usado pela superfície. Eu os usei. Aquele hacker desprezível muito me serviu quando se vendeu para mim. Você, ao contrário, apenas atraiu a ira da runner mais letal de Sonata. E olha o que te aconteceu. – ele conclui – Que patético...

- Você acha... Que a orgulhosa Resistência Purista... Abriria as portas para uma impura? – pergunta ele – Não somos como vocês... Temos padrões...!

Com ódio no olhar, o mecanicista responde:

- Você invadiu minha sede, Nasier. Danificou minha base e matou meus cadetes. Você, que fala tanto em profanação física, perdoaria o mesmo em sua sede?  

Nasier ri.

- Eu profanei?! – ironiza ele – Sua sede é mais suja do que um esgoto, Huxley! Se alguém foi profanado naquele lugar... Foi eu ao invadi-lo...

Ofendidos, os mecanicistas se enfurecem.

- Pretende ser um elitista até o fim, não é, doutor?

Nasier não responde. Huxley continua.

- Ouvi dizer que os puristas adoravam coletar os trans-humanistas mortos para disseca-los. Creio que não se importará se eu dissecar o seu corpo e empalha-lo como um troféu.

Ao ouvir isto, o purista se desfalece.

- Você não matará apenas a mim, mas ao último suspiro da puríssima essência humana...

Os mecanicistas riem.

Então Huxley aponta sua arma e atira. A bala perfura a cabeça de Nasier, matando-o instantaneamente.

Vendo-o inerte no chão, ele ordena:

- Levem o corpo! 

- Sim, senhor!

Enquanto seus homens o obedecem, o líder guarda sua arma. Ele pondera em silêncio. Os puristas foram exterminados. Havia menos uma facção em Sonata. Huxley sabe o que isso significa; a vitória trans-humanista acarretará uma sequência de eventos no futuro.

Ocupado demais para pensar a respeito, ele apenas respira fundo e vai embora. Ainda havia uma Rebelião no momento. Todo o resto podia esperar.

 

 

sábado, 25 de dezembro de 2021

Sonata - 67 - O Ataque Final

 


(Artista desconhecido)


No Submundo, o ataque final se prepara.

O conselho se reúne para definir a estratégia a seguir na Cúpula Corporativa. Database conversa com os líderes das facções através de seus monitores. Ao ver Nathan pessoalmente com o líder da Design Inteligente, os facciosos protestam.

- Por acaso o Submundo se aliou aos robôs?! – pergunta Huxley.

- Não. Quero dizer... Sim. É difícil dizer... – confunde-se Database.

- Database, se o Submundo se aliou a uma facção, então ele perdeu a neutralidade. – afirma Dawkins.

Uma discussão se inicia. Nathan intervém:

- Líderes facciosos, escutem-me. Eu entendo sua preocupação, mas devo informar que agora o Inimigo de Estado e a Design Inteligente são um.

Tirando o cigarro da boca, o xogum Tokugawa responde:

- Como podem ser um? E por que está tão diferente?

Todos notam como Nathan se portava de um jeito pouco natural.

Ele calmamente responde:

- Eu me encontrei com a deusa dos robôs e criadora do Protótipo #8, Deus Ex Machina. Em troca de sua libertação, ela me concedeu a lealdade da Design Inteligente. Eles servem a mim agora.

Os facciosos se espantam.

- Podem as máquinas se aliarem a um ser humano após tudo o que aconteceu? Quem garante que elas não vão se rebelar contra nós e nos destruir como fizeram anteriormente? – pergunta George.

Desta vez é Apex quem responde:

- Não somos humanos para os enganar e os trair.

Então os líderes se irritam.

- Isso ainda não explica como se tornou essa aberração perante os olhos de Deus. – comenta Jean Baptiste.

Nathan esclarece:

- Eu fui ferido no ataque à Hoverdrive. Os robôs salvaram a minha vida.

- Tornando-o um deles? – insinua Dawkins.

- Tornando-me o chefe da Rebelião.

Então os líderes se calam. Eles resmungam entre si, cheios de desconfiança. Em um covil cheio de assassinos e bandidos, se impondo ele superestimava sua importância.

Um minuto depois Database diz:

- Senhores, eu tenho traçado a estratégia do ataque. Ouçam-me.

No meio de sua sala, um holograma detalhado do mapa da Cúpula Corporativa aparece. O distrito girava lentamente, expondo as passagens e vias entre os prédios.

- Estudando as características e potenciais de cada um, defini os melhores pontos de ataque baseados nos atributos de cada facção. Os Clérigos do Recomeço atacarão pela frente e a Frente Ateísta por trás do edifício corporativo.

- Por que pela frente? – pergunta Jean Baptiste.

- Que melhor maneira de professar publicamente sua fé se não pelos mártires da Rebelião?

Ao ouvi-lo, o bispo concorda sorrindo.

- Você quer que a Frente Ateísta previna um ataque à praça para que esses fanáticos professem sua fé vazia? – irrita-se Dawkins.

- Não. – discorda o chefe – Vocês terão metade do principal distrito de Sonata só para si. De lá vocês poderão propagandear sua mensagem antirreligiosa como bem entenderem.

Dawkins concorda também.

Database continua:

- A Bushido atacará pelo oeste e a 4 de Julho pelo leste.

- Nunca! – protesta Tokugawa, assustando a todos.

- Por quê?

Com sua voz grossa, o samurai responde:

- A Bushido atacará pelo leste, como uma legítima potência oriental.

- Muito bem. – concorda ele – Os tanques M1 avançarão pela praça a oeste enquanto os aviões Zero fornecerão suporte aéreo a leste. Ambas as facções poderão realizar ataques coordenados com os robôs samurais e os howitzers americanos.

- Pretende estrangular o distrito? – pergunta George, referindo-se ao uso de seu poderio militar.

- Exatamente.

Então o americano sorri.

- A superfície é um local isolado e propício ao transporte de munição e tropas. Vamos cortar o fornecimento inimigo. Os Trans-humanistas assegurarão a parte norte e a Resistência Purista tomará a parte sul.

Nasier protesta.

- Pretende nos enviar àquele fosso de esgoto e baratas? O que pensa que somos? Habitantes da superfície?

Database se irrita, pois o elitismo preconceituoso dos puristas atacava os runners e o próprio Submundo.

- Não, senhor Nasier. As tropas puristas e os androides Advance têm maior mobilidade nos espaços confinados da superfície. Os Trans-humanistas tem armamento pesado e maior poder de fogo. Eles estarão lá para garantir que o inimigo não nos surpreenda.

Nasier se silencia. Ele não está satisfeito e suspeita do silêncio de Huxley.  

- E quanto ao Inimigo de Estado? – pergunta George – Onde ele estará durante a invasão?

- Nathan e os robôs entrarão no confronto ao lado dos Clérigos do Recomeço. Após aquele atentado no hospital dos ateístas, acredito que uni-los recupere a credibilidade dos clérigos e do Inimigo do Estado perante o povo.

Com olhar sério, Dawkins comenta:

- Você faz um jogo perigoso, Database. Unindo desafetos e inimigos mortais no mesmo front...

O chefe evasivamente responde:

- Como eu disse anteriormente, montei a estratégia baseando-me nas características e potenciais de cada um.

Desconfiado, Tokugawa pergunta:

- E quem te fez o general de todos nós?   

- O Submundo apresenta apenas uma sugestão. As facções são livres para modificar ou apresentar um melhor modelo a seguir. Mas devo alerta-los que não temos muito tempo. Enquanto discutimos aqui, o inimigo se reorganiza e se fortalece. Devemos atacar imediatamente.

O chefe falava de maneira perspicaz, manipulando as facções para fazer o que ele queria. Incitando a urgência do ataque, os líderes se desencorajavam e seguiam a seus planos.

Em tom irônico, Huxley pergunta:

- Eu não ouvi o papel dos runners em sua estratégia. Eles ficarão de expectadores na sua Rebelião?

O trans-humanista insinuava que os marginais de Database foram aniquilados no ataque ao Mystique.

Inesperadamente Nathan responde:

- Nenhum outro jovem será usado e morto na Rebelião novamente. Não mais será derramado sangue inocente. Daqui para frente, a Design Inteligente substituirá os runners na Rebelião.

Com a nova imposição de Nathan, os líderes novamente se surpreendem.  

Ainda insinuante, Huxley faz outra pergunta:

- Antes eu não confiava nos robôs, mas agora eu tenho dúvidas em continuar confiando no próprio Inimigo de Estado. Afinal, ele libertou o supercomputador responsável pelo Projeto Gemini.

O rapaz é incisivo ao responder.

- Não foi Deus Ex Machina a responsável pelo Projeto Gemini e sim a própria humanidade. E é muito irônico você não confiar nos robôs quando é a sua facção que defende a união dos seres orgânicos com as máquinas...

Então todos riem de Huxley, fazendo-o se irritar.

Database informa:

- É importante que o povo esteja presente na queda das corporações. Eu convocarei uma manifestação hoje à noite.

Os líderes concordam. Lembrando-se da enorme carga sobre a praça, Dawkins comenta:

- Espero que a plataforma não ceda.

 

§

 

Nathan e os robôs viajam em silêncio. A frota dos clérigos voa ao lado. Em meio a explosões da bateria antiaérea, as aeronaves se aproximavam da Cúpula Corporativa.

Os Zeros japoneses cruzam o céu. Os antiaéreos da polícia tentam abate-los, mas são fulminados pelo tiroteio coordenado dos howitzers americanos. Olhando pelo para-brisa, Nathan via o topo das megatorres sendo desintegrado pelos canhões.

O corte de energia afetou inclusive o distrito sede do governo. Os prédios administrativos e as vias públicas estavam escuras, mas naquela noite tudo era assustadoramente iluminado pelo fogo das armas. Tiros de canhões e lasers atravessavam o horizonte como relâmpagos brutais de guerra.

Abaixo, o rapaz vê barricadas e incêndios. Os manifestantes ocupavam os túneis e plataformas, atirando coquetéis Molotov contra a polícia. Como antes, havia muitas pichações e vandalismo pelo distrito. Lendo o seu nome nas paredes, o rapaz percebe que os cidadãos iam empolgados lutar ao lado de Nathan, seu libertador. 

Ao chegar na praça, as aeronaves se abrem e as tropas desembarcam. O rapaz a contempla por um momento. A Cúpula Corporativa o recebia novamente. Aquele prédio alto e espelhado, de arquitetura futurista, pairava a sua frente como um imponente gigante. Há um mês, o gigante ameaçava esmaga-lo sob seus pés. Hoje será Nathan a tentar esmaga-lo.

“Fatalismo”, como diria Database.

Os Clérigos do Recomeço avançam com seus paladinos. Com um carro parecido com os dos papas do passado, o Profeta Jean Baptiste os acompanha, protegido por suas inusitadas freiras de uniformes sensuais. Os clérigos portam estátuas e estandartes, como se a invasão fosse uma procissão religiosa.     

Nathan pode ver que os clérigos os odeiam, mas ele não se importa. Eles os enganaram no atentado a bomba e o manipularam na sabotagem da Electro Core. Se sua fé tiver de se basear em terrorismo, assassinatos e mentiras, ser odiado pelos clérigos lhe será uma honra.

A polícia resistia aos ataques, mas era sobrecarregada pelo impetuoso inimigo. As viaturas policiais caiam flamejantes do céu, como estrelas cadentes em sua mortal descida. Aninhados nos edifícios próximos, os policiais atiravam de pontos específicos, ceifando a vida dos facciosos pegos pelos tiros de sniper.

Então a cabeça de um robô se explode ao seu lado. Vendo-o caído em meio a descargas elétricas, Apex diz:

- Mestre Nathan, aqui não é seguro. Devemos nos apressar até a cúpula.

Rodeando-o, os robôs o cercam e o conduzem pelas barricadas inimigas.

A vasta plataforma tremia sob seus pés. Olhando para a direita, ele vê uma divisão inteira de blindados se aproximando. Eram os tanques M1 americanos. Esmagando as barricadas sob suas esteiras, os tanques miram seus canhões na cúpula e atiram, estraçalhando sua fachada de vidro.

Aeronaves tripuladas pousam no topo da cúpula e desembarcam suas tropas. Nathan via policiais e mercenários, aqueles que ainda ousavam defender a tirania corporativa. Os Zeros tentam abate-los, mas as baterias antiaéreas eram muito intensas.

Securitrons marcham no flanco esquerdo e atiram em um inimigo oculto. De repente o rapaz vê terríveis samurais se aproximando e golpeando-os com suas espadas. Eram os robôs da Bushido.

Os franco-atiradores eliminavam os clérigos, fazendo-os soltar seus santos e estandartes. Mas outros, cheios de fervor fanático, os pegavam do chão e continuavam a marcha, louvando seus hinos sagrados. Apesar da perda de seus homens, eles pareciam não se importar. Nathan, então, diz:

- Apex, divida as tropas em pequenos grupos e cace esses snipers pelo distrito.

Calculando em um piscar de olhos, o líder responde:

- Mestre Nathan, devo informar que nossa eficiência em combate será maior com maior contingente.

O rapaz assente. Pegando seu rádio, ele pensa em chamar os americanos. Então alguém o interrompe.

- Oh, não se preocupe, meu filho. Eu ajudarei os robôs.

Intrigado, Nathan olha para o lado e vê o Profeta Jean Baptiste falando com ele.

Os paladinos se aproximam. Na ponta de seus fuzis ele vê terços enrolados nos canos.  

- Não. Eu rejeito a sua ajuda.

O profeta se intriga.

- Mas por quê?

O rapaz expusera a verdade sobre as insídias desta facção duas vezes. Esperando um acerto de contas, ele não arriscará a integridade de seus robôs ao seu lado.

- Não confiarei meus robôs a vocês.

Com olhar sádico, Jean Baptiste sorri.      

- Ora, você conviveu tanto com os robôs que se tornou um deles? – pergunta ele, olhando para o seu corpo.

- Sim, pois todas as vezes em que nos encontramos, eles não me enganaram.

O profeta se irrita.

- Então deixe-me retificar os meus erros. Permita que o poder de Deus opere em nosso favor esta noite.

Desconfiado, o rapaz pergunta:

- Por que quer nos ajudar, realmente?

- Por retribuição. Que melhor forma de se redimir do que o arrependimento com obras?

Meneando negativamente a cabeça, Nathan mantém sua firmeza.

- Não. – responde ele – Não aceitarei a sua ajuda.

Cerrando os dentes, o profeta aponta o dedo para o rapaz e diz:

- Você ainda vai se arrepender, meu filho. Ninguém que rejeita a palavra de um santo subsiste. Aprenderá que nosso Deus é amor, mas também é justiça!

O rapaz consegue ver os anéis de pedras brilhantes nos dedos de Jean Baptiste. Então o profeta se vira e continua seu caminho.

Explosões são ouvidas atrás da cúpula; os ateístas encontravam feroz resistência. Procurando pelos americanos, o rapaz se afasta dos clérigos e pega o seu rádio.

- General Washington, responda.

“Prossiga, Nathan!”.

- Preciso de ajuda para eliminar os ninhos de franco-atiradores pelo distrito.

“É claro. Venha para o flanco oeste, estaremos aguardando”.

Nathan atravessa a praça escoltado pelos seus robôs.    

No lado oeste, os dirigentes americanos coordenavam o ataque atrás de seus poderosos tanques. Pelo caminho o rapaz vê barricadas e pilhas de entulho onde policiais e manifestantes se digladiavam. Coquetéis Molotov são lançados na praça. As chamas se levantam e ofuscam a visão. Incapaz de distinguir seus alvos, Nathan aponta sua arma e atira, fuzilando a todos à sua frente.

No outro lado do confronto, George ouve os tiros e se intriga. Estarrecido, ele vê o rapaz matando friamente tanto policiais quanto civis. O general arregala os olhos.

O rapaz avança com o dedo no gatilho. Os robôs atiram também, indiferentes à decisão do novo líder. A cada passo mais pessoas eram atingidas, caindo ensanguentadas no chão.

Os americanos ouviam gritos de espanto e surpresa. As garrafas de gasolina se estouram e uma labareda brilhante se eleva, queimando as barricadas. De repente o rapaz aparece entre as chamas, caminhando tranquilamente por entre os corpos.

George se espanta. Vendo as dezenas de corpos pelo chão. Nathan havia cometido um massacre. O general não sabe, mas após o rompimento com Laura, Nathan não era mais o mesmo.

De roupas levemente queimadas, mas impávidos como leões, os robôs se aproximam. General Washington não consegue distinguir o rapaz. Ele via apenas um homem de aparência robótica e bizarra. Ele pergunta: 

- Meu Deus, Nathan! O que fizeram a você?

Sem demonstrar reação, ele responde:

- Não temos tempo para conversa, George. Preciso de sua ajuda.

- Ok. – controla-se ele – Do que você precisa?

- Os policiais empregaram franco-atiradores. Eles estão escondidos pelo distrito. Preciso de homens para elimina-los.

Assentindo, ele responde:

- Pegue trinta e os leve com vocês. Mas vou logo avisando que os túneis estão tomados de policiais e manifestantes. Vocês não conseguirão passar!

- Eu não os acompanharei. – diz o rapaz – Meu destino é a Cúpula Corporativa.

George não compreende.

Agora em outra posição da praça, Nathan se protege em uma barricada e observa ao redor. Os ateístas enfrentavam um pesado contra-ataque atrás do edifício corporativo. As tropas de Dawkins lutavam bravamente, apesar de resistirem sozinhos ao bombardeio policial.

- Você viu aqueles engomadinhos? Pensam que são assassinos profissionais! – diz George, referindo-se ao seu terno e gravata.

Em frente ao prédio, os clérigos lutam sem cessar. Então os franco-atiradores disparam novamente, abatendo-os de longe. Mesmo o carro de Jean Baptiste é atingido mas, protegido atrás dos vidros à prova de balas, ele não se importa com a morte de seus homens.

Nathan diz:

- General Washington, paralise as suas tropas. Temos que esperar as equipes neutralizarem os franco-atiradores.

George e seus subordinados se entreolham. Eles estavam se convencendo de que o rapaz era um robô.

- Tenho uma ideia melhor.

Pegando seu comunicador, o general emite as novas ordens. Os tanques se viram e, ao invés de fulminarem a fachada da cúpula, eles viram suas torretas e atiram contra os edifícios próximos. Um espetáculo de explosões se forma, espirrando pedaços de vidro e fumaça.

- Isso irá distrai-los.

Então, pouco a pouco eles veem fumaça azul se expelir das janelas. Os robôs, com o auxílio dos americanos, sinalizavam que haviam neutralizados os franco-atiradores. Mas ainda haviam mais por perto.

Atrás dos ateístas, manifestantes irrompem dos túneis. Eles correm ensandecidos pela praça, carregando faixas e bandeiras com o rosto de Nathan. Os manifestantes imprudentemente passam pelas barricadas e são abatidos pelos policiais, alguns sendo metralhados e outros explodidos por bombas.

Apex pergunta:

- Devemos impedi-los?

Apático, o rapaz responde:

- Não. Deixe-os avançarem. Eles criarão a distração necessária para o avanço dos ateístas.

Estarrecendo-se, George se aproxima e diz:

- Nathan, está tudo bem com você? Eu não estou te reconhecendo. Você está dizendo que é para deixar aqueles manifestantes morrerem?

Ele simplesmente responde:

- Sim.

- E o que aconteceu com aquele discurso de que "nenhum sangue inocente será derramado novamente na Rebelião"?

- Depende de mim o cessar desse derramamento. Compaixão geral e irrestrita apenas atrasará o seu esperado fim.

- Estas pessoas carregam o seu nome nos cartazes! Delas você não tem compaixão?

- Você é líder de uma facção terrorista. Você teve compaixão dos inocentes que você matou?

Sacudindo-o pelos ombros, o general pergunta:

- Mas o que há de errado com você?! Os robôs arrancaram o seu cérebro e o jogaram fora?!  

Os robôs apontam suas armas para George. Nathan os contém.

- Independente do que aconteça, a Rebelião termina esta noite.

Explosões são ouvidas sob a praça. A Resistência Purista e os Trans-humanistas combatiam o inimigo lá embaixo.

- Nathan, proteja o povo!

- Ou eu sou Nathan ou eu sou o Inimigo de Estado. Não posso ser ambos.

- Mas Nathan...!

Antes que possa responde-lo, o rapaz se vira e vai embora.

 

 

 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Sonata - 66 - O Retorno de Nathan

 


(Arte de Max Hay)


Sentada novamente sobre o Submundo, Laura reflete sobre o dia anterior. Faz três dias que ela não tem notícia de Nathan. Diferente dos humanos, os robôs nunca dão satisfações de seus assuntos. Não importa quantas mensagens ela envie, eles nunca respondem.

Database se aproxima novamente. Debruçando-se no parapeito, ele fuma seu charuto e pergunta:

- Laura, aquilo era mesmo o certo a ser feito?

O chefe se referia ao seu plano.

- Absoluta.

- Se formos descobertos, perderemos a neutralidade do Submundo e toda a Rebelião se acabará.

- Não interessa. – responde ela – Se aquela tecnologia for usada, restará apenas uma facção em Sonata, e eles não pensarão duas vezes em cometer um genocídio.

Database fuma mais uma vez.

- Deixe as facções se matarem. Por enquanto precisamos delas para derrotar um inimigo em comum.

- Por acaso pensa que eu sou burra? – pergunta ela, irritada – Eu sei que você manipula todo o mundo, mas essas pessoas você não conseguirá manipular. Se o que eu temo acontecer, não haverá mais facções, corporações ou a superfície. Estou tentando evitar que uns loucos e depravados tenham o absoluto poder!

O chefe assente, expelindo a fumaça.

- Está bem. Eu confio em você.

Um minuto se passa. Database pergunta:

- Como está o Nathan?

Desanimando-se, ela enxuga as lágrimas de seus olhos.

- Eu não sei. Não tenho recebido nenhuma notícia dele.

Fazendo um olhar preocupado, o chefe pensa a respeito.

- Será que ele morreu?

A garota se irrita. Database tenta reformular suas palavras.

- Quero dizer, os robôs estão tratando dele, não é? Eu quis saber se eles realmente conseguiram e se Nathan ainda está vivo.

Laura não sabe o que responder.

- Eu não sei...

Percebendo que a garota estava muito abalada, o chefe fuma mais uma vez e então diz:

- Estarei em minha sala se precisar de mim.

Então ele se vira e vai embora.

A garota fica sozinha novamente. Enquanto pensa em sua vida, ela vê os vapores subindo e as pessoas conversando lá embaixo. Heroicamente, os habitantes da superfície tentavam retomar as suas vidas. Apesar da terrível matança de dias atrás, eles não amoleceram e Laura os admira por isso. Ela sabe que viver na superfície era conviver com as dificuldades e os problemas o tempo todo.

“Afinal de contas, somos um povo duro, resiliente e acostumado às adversidades”, reconhece ela. A própria runner era um exemplo disso.

Uma hora se passa. Ainda sozinha, ela anseia por notícias do rapaz.

O vento sopra por seu sobretudo e ela sente frio. Cansada, ela respira fundo e se prepara para ir embora. Então algo acontece.

- Laura...

A garota se assusta. Olhando para o terraço, ela vê um homem caminhando com dificuldade. Cheia de surpresa, ela pergunta:

- Nathan...?!  

O rapaz se aproxima. Laura nota que ele vestia roupas velhas e largas.

Com voz um pouco fraca, Nathan se apoia no corrimão e a chama:

- Laura...

A garota se levanta e corre em sua direção. Emocionada, ela sorri e o abraça, feliz em vê-lo novamente.

- Nathan... Você já está bem! E melhorou tão rápido! – surpreende-se ela – Eu não acredito!

A garota não esperava vê-lo em menos de seis meses.

No alto dos prédios havia pouca luz e a penumbra estava por toda parte, tornando difícil a vista.

- Laura... – responde ele, fragilmente – Eu senti tanto a sua falta...

A garota o abraça fortemente. Então ela percebe algo. O rapaz estava incrivelmente frio. Soltando-o, ela se afasta e pergunta:

- Nathan... Você está bem?

E então, ao olhar para o seu rosto, ela pode ver. O rapaz tinha enxertos em seu rosto. Olhando para o seu peito, ela vê os enxertos se estendendo para ambos os braços. Laura tira o seu casaco e nota que seus braços eram biomecânicos, e não apenas o seu braço direito como antes do acidente. Tocando suas pernas, ela nota que ambas eram biomecânicas também, rígidas e frias como as de um cadáver.

Espantada, ela exclama:

- O que os robôs fizeram com você?!

Respirando fundo, ele responde:

- Eles restauraram o meu corpo... E me trouxeram de volta à vida...

Mas não era isso o que Laura via. Conectada à sua pele orgânica por pontos cirúrgicos, uma pele sintética, plástica e cinzenta cobria o seu corpo. Por baixo daquela derme, a garota via fios e cabos entrelaçados entre os seus nervos, misturando fios e carne.

 Cheia de repugnância, ela diz:

- Eles te transformaram em um monstro...!

- Não! – protesta ele – Eles me salvaram e me curaram!

- Curaram?! – indaga-se ela – Eles não te curaram, eles mataram o paciente e o remontaram como uma máquina!

- Apex disse que você concordou com o método experimental...

De fato, os robôs tiveram a anuência de Laura para o tratamento.

- Eu não sabia... – sussurra ela.

Atordoada, a garota se afasta. Então ela percebe que Nathan estava descalço e que seus pés eram metálicos como os de um robô.

Temendo que ela o rejeite, o rapaz abre os braços e diz:

- Me dê um abraço...

Então seu peito se abre e sua pele se estica, separando os pontos e revelando uma enorme cicatriz. Laura se enoja.

- Afaste-se de mim!

Nathan arregala os olhos.

- O que disse?

- Fique longe de mim!

- Laura...?! – espanta-se ele.

- Nathan... – sussurra ela – Eu não sei o que fizeram com você, mas não é esse o homem que eu quero ter.

- Mas Laura... – insiste ele – Eu te amo... Eu te amo tanto...

Quanto mais o rapaz respirava, mais os cabos elétricos se mexiam sob sua pele. Mesmo sua voz saía um pouco robótica. O que a garota via era um ciborgue, meio homem, meio máquina, restaurado rudimentarmente para se parecer um robô.

- Não... – responde ela – Você não é mais o mesmo Nathan que eu conheci.

- Por favor...

O rapaz se aproxima. Esquivando-se, a garota puxa o seu casaco e o arranca, revelando o seu corpo. Agora despido, ela conseguia ver a face da abominação. Nathan era um misto de fios e cabos, pele e carne.

- Me desculpe... – responde ela, contemplando-o – Me desculpe...

Virando-se, a garota intenta ir embora. O rapaz a interrompe.

- Segure minha mão, Laura, e me diga que em mim não existe mais o calor do amor que eu sinto por você...

Cedendo à sua apelação, ela lentamente estica seu braço. Porém, antes de toca-lo, ela hesita. Os olhos de Nathan brilhavam de forma incomum, como se ele estivesse desperto pela metade.

- Como eu poderia tocar uma pele tão fria, ou abraçar uma máquina? – pergunta ela – É você mesmo que está aí ou, atrás de seus olhos, existe um computador calculando minhas escolhas e estimando minhas respostas?

O rapaz suplica:

- Por favor... Pegue minha mão e sinta se meu amor por você se exauriu...

Mas, negando-se, Laura diz:

- Me desculpe.

Então ela se vira e vai embora.

Incapaz de segui-la, o rapaz dá dois passos e tropeça, caindo de joelhos na plataforma. Esticando seu braço, com muito esforço ele grita:

- Laura...!

Mas sua voz sai fraca e sem fôlego. De repente sua visão se embaça e pixels aparecem. Seu coração se acelera e descoordena seu marca-passos. Afligido por uma dor terrível, ele sentia o furacão de suas emoções.

A tristeza o castiga por dentro. Todos os programas instalados em seu cérebro para aprimorar seu suporte a vida se confundem. O homem compreendia a dor, mas a máquina não. Entretanto, ela se adapta e o corresponde conforme suas leituras neuroquímicas.   

Todo o corpo se contorce. Sua mente cai em uma espiral de desorientação. A dor se intensifica. Sem forças para resisti-la, Nathan desaba e chora intensamente.

E então, pela primeira vez, o rapaz chorava as lágrimas de um robô.

 

§

 

Correndo sobre os prédios, Laura percorre a superfície. Confusa, ela pensa sobre o encontro com o rapaz. Nathan retornara com a aparência de um morto-vivo ressuscitado pelas máquinas. Cheia de repugnância, ela via nele apenas um ciborgue.

A garota pula sobre os terraços. Ela era um ser humano genuíno, alguém com emoções e sentimentos verdadeiros. Porém, ela não podia mais dizer o mesmo de Nathan. Para ela, o rapaz se tornara um robô que até podia sentir o calor e o frio, mas nunca o fogo e o gelo.

Era noite em Sonata. Laura olha para cima e vê as enormes megatorres alcançando o céu. Muitas foram as noites em que ela se aventurou pela metrópole. Não era apenas por camuflagem que ela escolhia as missões noturnas, mas também para se proteger do calor do sol. Durante o dia, sua pele se queimava e o calor a desgastava. Ela não podia se arriscar e se escorregar do alto de um prédio por estar com as mãos cobertas de suor.

“Esperando pela noite, eu me escondia do dia”, pensa ela.

A garota se acostumou a se esconder de tudo o que a expunha e a enfraquecia. Nathan, por sua vez, expôs seus sentimentos e a enfraqueceu. Então ela pensa:

“Estaria eu me escondendo dele agora?”.

 

§

  

Escorado na plataforma, Nathan tem dificuldade em se levantar. Seus membros funcionavam perfeitamente, mas ele não os sentia. A dormência em seus braços e pernas lhe causavam desorientação.

Informações aparecem em sua vista como se ele estivesse usando um óculos com identificador aeroespacial. Seu rosto estava ressecado pelas lágrimas e sua pele orgânica se retraía, puxando a pele artificial. Era como se, em seu rosto, houvesse uma fita adesiva.

Desanimado, ele fecha os olhos. Nathan não sabe mais se é um humano. Metade homem, metade máquina, ele se pergunta se ainda tem uma alma.

“Uma alma plástica”, pensa ele. “Mas uma alma plástica que ama”.

O vento sopra frio na superfície. O rapaz percebe que agora captava as sensações do corpo de um modo diferente. Ele ainda sentia o frio, mas o frio piorava ao saber que Laura se foi.

Descendo do telhado, ele cambaleia pelos becos escuros e procura pela garota.

“Laura...”, pensa ele. “Volte para mim...”.

Cada passo é uma tentativa desajeitada de se movimentar. Seu corpo estava quase irreconhecível, mas seus sentimentos pela garota continuavam os mesmos. Ele pensa:

“Por favor, Laura, olhe nos meus olhos e me diga que tudo o que vivemos não mais importa... Me diga que tudo o que tínhamos acabou...”.

O rapaz jamais se esquecerá do que os dois viveram juntos. Ele não consegue encontrar um momento em sua vida em que ele esteve mais feliz.

“Deixe eu te mostrar que, atrás dessa aparência robótica, ainda existe um homem que te ama intensamente e para sempre”.

Talvez com seu apelo ele consiga fazer a garota mudar de ideia. Mas Laura não era alguém que mudava de ideia; na verdade ela continuava a mesma. O coração da garota era mais gelado que o couro sintético de Nathan.

A rejeição não seria fácil de lidar. Laura se foi e ele teme que ela não voltará. O rapaz poderia culpar a Apex, mas sabe que, se não fosse pela Design Inteligente, ele não estaria vivo naquele momento.

“Se é que eu posso chamar isso de vida?”, pergunta-se ele.

Por Laura ele se lançaria no fogo. Ela, por outro lado, o deixaria lá queimando sozinho. A garota se foi e seu espaço foi preenchido pela dor. Desanimando-se, ele se encosta em uma parede e chora.

“Eu te amo tanto... Por quê?”.

Nathan sabe que ela não ouvirá os seus lamentos. Para Laura, robôs não têm sentimentos. O rapaz morreu no instante em que os robôs decidiram cuidar dele. Reconhecendo essa triste verdade, ele sussurra:

- Volte para mim... – suas pernas cedem e ele cai de joelhos – Por favor, eu imploro... Volte para mim...

Mas, enquanto ele chora, as pessoas passam e o ignoram, pensando ele ser só mais um mendigo digno de pena da superfície.

 

 

 

domingo, 12 de dezembro de 2021

Sonata - 65 - Poder de Fogo Superior

 


(Arte de Beeple Crap)


O pai de Laura chega em seu apartamento. Controlando a tontura, ele tateia a porta e gira a maçaneta. Ao entrar na sala, ele se depara com a garota deitada em seu quarto.

O velho cheirava a álcool e a cigarro. A tontura da embriaguez era visível. Prevendo que haveria uma nova discussão, ele se constrange. Ele não queria fazer Laura se irritar, mas não é isso o que acontece.

A garota estava encolhida em sua cama. Enquanto seu pai caminha pelo apartamento, ela sequer nota sua presença. Preocupado, ele para em frente ao seu quarto e pergunta:

- Olá, filha. Está tudo bem?

Laura não responde.

O cheiro em suas roupas era muito forte e o velho tenta não entrar em seu quarto. Tentando desviar a atenção, ele comenta:

- Eu adorei o apartamento novo, filha. Agora temos espaço suficiente para vivermos juntos.

A garota continua em silêncio. Ao ouvir seu nariz, ele percebe que ela estava chorando.

- Minha filha... – preocupa-se ele – Você está chorando?

Enxugando as lágrimas, Laura finalmente diz:

- Vá embora. Eu quero ficar sozinha.

- O que aconteceu? – insiste ele.

Virando-se, a garota diz:

- É o Nathan. Ele foi ferido gravemente e eu não sei se ele vai sobreviver.

Seu pai era um velho inválido e alcóolatra e sua memória não funcionava direito. Lembrando-se do namorado de sua filha, ele pergunta:

- É o Inimigo de Estado, não é? Ele se feriu?

Laura assente com a cabeça.

- Ele teve seu corpo partido em pedaços pelos Securitrons...

- Meu Deus...! – horroriza-se ele.

- Primeiro eu perdi minha mãe, e agora perderei o meu amor também...

Entristecendo-se, o velho segura a mão dela.

- Minha filha. Você não vai perder ninguém! – tranquiliza ele – Tenho certeza que ele é forte como você e vai sobreviver.

Seu pai não conhecia a Nathan. Laura tinha vergonha de apresenta-lo ao rapaz. O velho estava sempre embriagado e nunca parava em casa.

Sentando-se, a garota pergunta:

- Você tem certeza?

- Sim! – exclama ele, empolgado – Ninguém que recebe o amor da poderosa Laura irá desperdiça-lo morrendo assim.

Laura sorri.

- Obrigado, pai.

O velho sorri também.

- De nada, filha.

Então os dois se abraçam calorosamente.

 

§

 

Horas mais tarde, Laura está sozinha sentada sobre o Submundo. Ela está em uma plataforma entre os prédios, no exato lugar onde ela e o rapaz se encontraram pela última vez.

A garota não quis chatear seu pai, ela sabe que o estado de Nathan é tão crítico que ninguém que o tivesse visto teria esperança de vê-lo vivo novamente. Sabendo dessa triste realidade, ela decidiu se isolar novamente. Após tantos anos crescendo sozinha, ela se acostumou a lidar com seus problemas assim.

Uma aura pesada paira sobre a superfície. Ouvindo os operários trabalhando ao longe, eles ainda retiravam os corpos do Mystique. Muita gente morreu aquela noite e seu sangue parecia ter maculado o lugar para sempre.

Ouvindo alguém atrás de si, ela se assusta.

- Laura, eu estou atrapalhando?

Database se aproximava com dois seguranças. Ela pergunta:

- O que você quer?

- Conversar. – responde ele – Eu posso?

O chefe pede permissão para se aproximar. A garota permite e então Database dispensa seus seguranças.

- Como está o Nathan? – pergunta ele.

- Mal. Seu corpo foi estraçalhado lá em cima. Seu estado é crítico.

Database parece se consternar.

- Ele vai sobreviver?

- Eu não sei. A Design Inteligente sugeriu um tratamento experimental nele, mas me alertou que poderia haver consequências.

O chefe se espanta.

- E você confiou neles?!

- Era a única chance.

Database, então, assente.

- E como foi a missão?

- Um sucesso. – responde ela.

Database se intriga.

- A Hoverdrive foi tomada pela Design Inteligente?

- Sim. Apex sabotou o mainframe da linha de produção e agora todos os robôs trabalham para nós.

Ele sorri, satisfeito.  

- Apesar de eu odiar os robôs, fico feliz que agora eles lutem pela Rebelião. Bom trabalho, Lótus.

A garota se irrita. O chefe levanta as mãos, se desculpando em silêncio.

Laura diz:

- Espero que sua Rebelião não coloque novos facínoras no poder.

Intrigado, Database pergunta:

- O que quer dizer?

A garota parecia perturbada com alguma coisa, mas não era com Nathan. Percebendo sua preocupação, o chefe pergunta:

- Algum problema?

- Database, para que serve aquele Protótipo #9 em seu laboratório? O que são esses protótipos, exatamente?

Com olhar perspicaz, ele sorri.

- Digamos que Sonata é pequena demais para mim e as corporações. Há tanto espaço lá fora. Por que não explora-lo?

Laura não entende do que ele estava falando. Ela continua:

- Não sei se é prudente brincar com essa biotecnologia, Database. Esses androides sobre-humanos são uma ameaça muito grande. Eu temo que eles não possam ser detidos.

- E por que os deteríamos?

- Com o retorno do Projeto Gemini, acho que já há androides demais espalhados por aí.

Olhando para a garota, o chefe pergunta:

- O que você está tentando dizer, Laura?

Respirando fundo, ela diz:

- Promete guardar segredo?

Então Database sorri.

 

§

 

Na noite seguinte, Laura dirige pelo céu de Sonata. Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, não havia tempo a perder. Ela pediu um aerocarro emprestado para Database. Após o ataque ao Mystique, poucos haviam sobrado no Submundo, então o chefe lhe oferece um aerocarro velho e barulhento, mas ainda assim funcional. A garota poderia usar sua aeromoto, mas ela a havia vendido para pagar o aluguel de seu novo apartamento.

Chovia em Sonata. Voando pelas vias virtuais, os faróis iluminavam as megatorres e passarelas no escuro.

“A Rebelião tornou a vida na metrópole insuportável”, pensa ela. “Se as corporações não forem expulsas do poder, a ordem nunca voltará nessa cidade”.

De fato, Sonata havia chegado a um ponto de inflexão. Ou a população encerrava a Rebelião, ou apenas um caminho seria viável às corporações: o Projeto Gemini.

“Não serei substituída por nenhum androide genocida”, pensa ela. “Eu já estou farta de ser uma excluída da sociedade”.

Então ela avança pela cidade.

Meia hora depois, ela estaciona seu aerocarro no distrito de Servidão, Setor I. Entrando em uma megatorre, ela liga sua lanterna e anda pelas escadarias. Após os clérigos cortarem o fornecimento de eletricidade na cidade, a população se esforçava para sobreviver nos distritos.

Laura chega ao andar correto e caminha pelo corredor. Diferente da superfície, nos níveis superiores os prédios eram limpos e organizados, o que tornava o local muito agradável.

Ao parar em frente a uma porta, ela se certifica do endereço procurado. A porta estava trancada, como esperado, mas Laura não precisa de nenhuma chave. Ela hackeia o painel de segurança e entra.

A garota vê um apartamento unicelular comum, entretanto haviam dezenas de caixas com materiais bélicos pelo chão. Pegando um papel, ela escreve o local e o horário marcado e o deixa sobre a mesa. Em seguida, ela se vira e vai embora.

- É melhor você estar certo, Database. – sussurra ela para si mesma – Eu não gosto de me envolver com esse tipo de gente.

Voltando ao aerocarro, ela o encontra estacionado ao longe. Porém, um poste de iluminação estava aceso acima como um farol no meio da escuridão. Parando ao lado do veículo, ela destrava a porta e então percebe que ela já estava aberta. Ela se intriga.

Atrás dela, uma voz na escuridão diz:

- Diga-me, Laura. O que você quer comigo?

A runner se assusta. Virando-se, ela vê um homem encostado de braços cruzados em outro aerocarro.

- Maynard...?!

O mercenário se aproxima. Parando sob a luz, ele pergunta:

- Você queria me ver?

Impressionada, a garota diz:

- Como veio tão rápido? Como sabia que eu estava aqui?

Maynard ergue a sobrancelha. Naquele negócio, se cuidar fazia parte da profissão. Laura mais do que ninguém sabia disso.

Desistindo da resposta, ela continua:

- Maynard, eu preciso de ajuda.

O mercenário ri.

- Você precisando de ajuda?!

- É pelo bem de Sonata.

Olhando ao redor, ele responde:

- Eu não consigo mais encontrar nada de bom aqui.     

- Essa cidade tem muitos segredos. Alguns dão poder demais nas mãos de uns loucos.

- Do que está falando?

Então a runner fala de seu plano ao mercenário. Arregalando os olhos, ele responde:

- Pelo o que me diz, me parece que você quer manter o status quo.

- Talvez, mas não é apenas pelo equilíbrio de poder, mas pela sobrevivência de todos nós.

- Então, além do Projeto Gemini, eu devo me preocupar com isso?

- Eu te garanto, Maynard. Se essa tecnologia for usada, essa facção terá um poder interminável.

O mercenário assente.

- E como vão me pagar? Da última vez que eu vi, o dinheiro de Database voou pelos ares como confete.

- Ele ainda tem seus recursos. – afirma ela – E então? Vai me ajudar ou não?

Abanando seu casaco, ele diz:

- Está bem. Eu ajudo vocês.

Laura se felicita. Pretendendo entrar em seu aerocarro, o mercenário a interrompe.

- A propósito, como está o seu namorado? Ouvi dizer que fizeram picadinho do nosso “pet da Rebelião”.

Irando-se, Laura fecha os punhos e lhe dá um soco na boca. Maynard enfia a mão em seu casaco e a garota se alerta, sacando sua arma em seguida. Porém, o mercenário havia pegado apenas um lenço.

- Cuidado com essa arma, moça. – diz ele – Você pode machucar alguém.

Então o mercenário calmamente enxuga o sangue em seus lábios.

 

§

 

No dia seguinte, Maynard e Laura partem para o distrito de Entropia, Setor T. A garota disse que iria sozinha em seu aerocarro, mas o mercenário insistiu que ela deixasse aquela “lata velha” para trás. “Em meu aerocarro é mais seguro”, disse ele. E, de fato, o aerocarro de Maynard era uma admirável máquina velada de guerra.

 Enquanto avançam pelas instalações industriais, dezenas de mensagens aparecem no celular da garota. Os líderes da facções cobravam Database e ele pedia pressa. Os principais alvos foram tomados. Todos esperavam o ataque final na Cúpula Corporativa. Mas, conforme o plano de Laura, o ataque tinha que esperar.

A sede dos Trans-humanistas se aproxima. Laura está tensa, pois da última vez que esteve ali ela quase explodiu o lugar todo.

- Não se preocupe. – diz Maynard – Tenho certeza que eles aceitarão sua proposta com muito agrado. Não tenha medo.

Com semblante sério, ela responde:

- Eu não tenho medo de nada.

O mercenário ri.

Descendo com o aerocarro, eles estacionam no pátio e se dirigem para o galpão. Os Trans-humanistas os aguardam, mas a garota percebe que havia rancor em seu olhar.

Um mecanicista diz:

- Foi muita audácia tê-la trazido para cá, Maynard.

Não se importando com isso, ele responde:

- Aquela era outra luta, rapazes. Sem ressentimentos, está bem?

Então os facciosos os conduzem para dentro da sede. Enquanto descem, Laura percebe que eles haviam restaurado os danos estruturais causados por ela em sua invasão, mas ainda haviam estragos.

O grupo caminha pelo laboratório oculto dos Trans-humanistas. Os facciosos param o que estão fazendo e olham raivosos para ela. Era como se eles esperassem a ordem para carboniza-la com seus lasers.  

Ciborgues enormes se põem em seu caminho e a encaram. Pegando sua arma, Laura se prontifica. Então os ciborgues se viram e vão embora.

“Esses fanáticos me enojam”, pensa ela.

Huxley os aguarda em sua sala. Ao entrarem, os facciosos fecham a porta. O líder, então, diz:

- É melhor ter um bom motivo para estar aqui, garota. Se não esta sala será o último lugar que você verá com vida.

- Ora, esses são modos de tratar uma visita? – pergunta Maynard – Nós estamos aqui para falar de negócios.

- Que negócios? – duvida Huxley – Poderia haver negócios paralelos no meio de uma rebelião?

Laura intervém:

- Desde que os negócios envolvam a sobrevivência dos Trans-humanistas, sim.

- Do que é que você está falando?

A runner revela seu plano, expondo os riscos e justificando suas intenções. Os mecanicistas ouvem com muita atenção, apesar de lhe demonstrarem desprezo.

Huxley comenta:

- Muito interessante o que disse, Lótus, mas por que deveríamos confiar em você?

- Após sequestrarem o Nathan e tentarem fazer dele um assassino, eu poderia perguntar o mesmo.

O líder sorri.

- Aquilo foi necessário. Ele me agradecerá depois. - tranquiliza ele - E por falar nele, onde está o Inimigo de Estado? Por que ele não veio aqui pessoalmente?

Desta vez é Maynard quem intervém.

- Há uma Rebelião lá fora, Huxley. Ele está ocupado. Aliás, aquele garoto é inocente demais para os nossos assuntos. Deixe-o pensar que é o “Salvador de Sonata”.

Os mecanicistas concordam.

- Eu ainda não sei se devemos confiar em você, garota. Primeiro você invade minha sede, depois explode a Bio Prótesis, frustrando os meus planos. Você tem sido um problema constante para a minha facção. Talvez eu devesse te exterminar aqui mesmo.

Os trans-humanistas destravam suas armas. Laura se irrita.

- Por acaso eu devo te lembrar que você traiu um encontro diplomático com o Inimigo de Estado? Ou pior, que você doutrinou o meu amigo, fazendo-o se infiltrar no Submundo como seu espião?

Huxley ri.

- Doutrinar?! Ele se ofereceu para entrar em nosso grupo por conta própria. Eu apenas vi vantagem nisso. Fiz o que era melhor para mim.

- E, ao tentar resgata-lo, eu fiz o mesmo. – responde ela, referindo-se à invasão da sede trans-humanista.

- Você trouxe nossos arquinimigos para cá, garota. Para isso não há perdão.

- Eu fui enganada também. Vertigo nos traiu. Eu não teria feito nada disso se eu soubesse antes.

- Oh, então você foi a vítima? – ironiza ele – Minha sede foi invadida, meus soldados foram mortos, mas a vítima aqui foi você?!

Todos riem. Porém, Laura muito sabiamente responde:

- Ambos fomos.

Então o líder se cala.

Alguns segundos depois, Huxley pergunta:

- Como eu me certificarei de que você não nos atacará novamente?

- Ataca-los me custou caro. Os puristas me obrigaram a explodir a Bio Prótesis e a roubar a tecnologia da Cellgenesis. Com o Vertigo morto, sua traição foi revelada. Não pretendo me expor novamente.

Maynard os interrompe:

- Huxley, vocês tomaram a Bio Prótesis, mas ainda há muitos drones, canhões e, principalmente, Securitrons pela cidade. Ao explodir o prédio, Laura também danificou as linhas de produção. Talvez isso tenha sido o melhor para a Rebelião.

Ao ouvi-los, o líder acha aquilo muito razoável.

- Vocês podem estar certos. – responde ele, por fim.

Em seguida o líder conversa com seus subordinados, estipulando um possível acordo com o Submundo.

Minutos se passam. Impaciente, a garota pergunta:

- Vocês vão aceitar ou não?

Irritado, Huxley responde:

- Sim, mas nunca mais se meta com os Trans-humanistas novamente, ou será sua última vez. – ameaça ele, apontando o dedo para ela – E mande lembranças para o seu namorado.

Laura se intriga.

- Como você sabe que ele é o meu namorado?

O líder sorri.

- Vocês, jovens, são tão ingênuos. Você realmente acha que o Nathan se arriscaria tanto se não fosse para impressionar alguém? – pergunta ele – Você é a única pessoa que ele se importa. Salvar Sonata é secundário.

Maynard concorda em silêncio.

- Você quer saber o que eu realmente acho? – pergunta ela – Que vocês deveriam cuidar de suas vidas!

Então todos aqueles homens mais experientes e mais velhos gargalham, não dando a mínima para ela.

 

§

 

No lado de fora, Maynard e Laura retornam para o aerocarro. Então ele diz:

- Eu até estava torcendo para que ele não aceitasse o acordo. Se o que planeja der certo, haverá menos ação em Sonata.

Intrigada, a runner pergunta:

- Que tipo de ação está falando?

- As facções são ótimos clientes. Se o terrorismo diminuir, haverá menos ação... – explica ele – E menos diversão também.

O mercenário lamenta a possível queda do terrorismo. Laura se indigna.

- Você pode ser uma maníaco homicida que vive da violência e da miséria alheia por aí, Maynard, mas eu e o Nathan acreditamos na paz!

Ao dizer aquilo, Laura não reconhecia a si mesma. Ela estava começando a soar como o Nathan. 

- Ora, mas eu acredito na paz. – responde ele, despreocupadamente – Na paz através do poder de fogo superior.

 

 

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