(Arte de Beeple Crap)
O pai de Laura
chega em seu apartamento. Controlando a tontura, ele tateia a porta e gira a
maçaneta. Ao entrar na sala, ele se depara com a garota deitada em seu quarto.
O velho cheirava
a álcool e a cigarro. A tontura da embriaguez era visível. Prevendo que haveria
uma nova discussão, ele se constrange. Ele não queria fazer Laura se irritar, mas
não é isso o que acontece.
A garota estava
encolhida em sua cama. Enquanto seu pai caminha pelo apartamento, ela sequer
nota sua presença. Preocupado, ele para em frente ao seu quarto e pergunta:
- Olá, filha.
Está tudo bem?
Laura não
responde.
O cheiro em suas
roupas era muito forte e o velho tenta não entrar em seu quarto. Tentando
desviar a atenção, ele comenta:
- Eu adorei o
apartamento novo, filha. Agora temos espaço suficiente para vivermos juntos.
A garota continua
em silêncio. Ao ouvir seu nariz, ele percebe que ela estava chorando.
- Minha filha...
– preocupa-se ele – Você está chorando?
Enxugando as
lágrimas, Laura finalmente diz:
- Vá embora. Eu
quero ficar sozinha.
- O que
aconteceu? – insiste ele.
Virando-se, a
garota diz:
- É o Nathan. Ele
foi ferido gravemente e eu não sei se ele vai sobreviver.
Seu pai era um
velho inválido e alcóolatra e sua memória não funcionava direito. Lembrando-se
do namorado de sua filha, ele pergunta:
- É o Inimigo de
Estado, não é? Ele se feriu?
Laura assente com
a cabeça.
- Ele teve seu corpo partido em pedaços pelos Securitrons...
- Meu Deus...! –
horroriza-se ele.
- Primeiro eu
perdi minha mãe, e agora perderei o meu amor também...
Entristecendo-se,
o velho segura a mão dela.
- Minha filha.
Você não vai perder ninguém! – tranquiliza ele – Tenho certeza que ele é forte
como você e vai sobreviver.
Seu pai não
conhecia a Nathan. Laura tinha vergonha de apresenta-lo ao rapaz. O velho
estava sempre embriagado e nunca parava em casa.
Sentando-se, a
garota pergunta:
- Você tem
certeza?
- Sim! – exclama
ele, empolgado – Ninguém que recebe o amor da poderosa Laura irá desperdiça-lo
morrendo assim.
Laura sorri.
- Obrigado, pai.
O velho sorri
também.
- De nada, filha.
Então os dois se
abraçam calorosamente.
§
Horas mais tarde,
Laura está sozinha sentada sobre o Submundo. Ela está em uma plataforma entre os
prédios, no exato lugar onde ela e o rapaz se encontraram pela última vez.
A garota não quis
chatear seu pai, ela sabe que o estado de Nathan é tão crítico que ninguém que
o tivesse visto teria esperança de vê-lo vivo novamente. Sabendo dessa triste
realidade, ela decidiu se isolar novamente. Após tantos anos crescendo sozinha,
ela se acostumou a lidar com seus problemas assim.
Uma aura pesada
paira sobre a superfície. Ouvindo os operários trabalhando ao longe, eles ainda retiravam os corpos do Mystique. Muita gente morreu aquela noite e seu sangue
parecia ter maculado o lugar para sempre.
Ouvindo alguém
atrás de si, ela se assusta.
- Laura, eu estou
atrapalhando?
Database se
aproximava com dois seguranças. Ela pergunta:
- O que você
quer?
- Conversar. –
responde ele – Eu posso?
O chefe pede
permissão para se aproximar. A garota permite e então Database dispensa seus
seguranças.
- Como está o
Nathan? – pergunta ele.
- Mal. Seu corpo
foi estraçalhado lá em cima. Seu estado é crítico.
Database parece
se consternar.
- Ele vai
sobreviver?
- Eu não sei. A
Design Inteligente sugeriu um tratamento experimental nele, mas me alertou que
poderia haver consequências.
O chefe se
espanta.
- E você confiou
neles?!
- Era a única
chance.
Database, então, assente.
- E como foi a
missão?
- Um sucesso. –
responde ela.
Database se
intriga.
- A Hoverdrive
foi tomada pela Design Inteligente?
- Sim. Apex
sabotou o mainframe da linha de produção e agora todos os robôs trabalham para nós.
Ele sorri,
satisfeito.
- Apesar de eu
odiar os robôs, fico feliz que agora eles lutem pela Rebelião. Bom
trabalho, Lótus.
A garota se
irrita. O chefe levanta as mãos, se desculpando em silêncio.
Laura diz:
- Espero que sua
Rebelião não coloque novos facínoras no poder.
Intrigado,
Database pergunta:
- O que quer
dizer?
A garota parecia
perturbada com alguma coisa, mas não era com Nathan. Percebendo sua preocupação,
o chefe pergunta:
- Algum problema?
- Database, para
que serve aquele Protótipo #9 em seu laboratório? O que são esses protótipos,
exatamente?
Com olhar
perspicaz, ele sorri.
- Digamos que
Sonata é pequena demais para mim e as corporações. Há tanto espaço lá fora. Por
que não explora-lo?
Laura não entende
do que ele estava falando. Ela continua:
- Não sei se é
prudente brincar com essa biotecnologia, Database. Esses androides
sobre-humanos são uma ameaça muito grande. Eu temo que eles não possam ser
detidos.
- E por que os
deteríamos?
- Com o retorno
do Projeto Gemini, acho que já há androides demais espalhados por aí.
Olhando para a
garota, o chefe pergunta:
- O que você está
tentando dizer, Laura?
Respirando fundo,
ela diz:
- Promete guardar
segredo?
Então Database
sorri.
§
Na noite
seguinte, Laura dirige pelo céu de Sonata. Com tanta coisa acontecendo ao mesmo
tempo, não havia tempo a perder. Ela pediu um aerocarro emprestado para
Database. Após o ataque ao Mystique, poucos haviam sobrado no Submundo, então o
chefe lhe oferece um aerocarro velho e barulhento, mas ainda assim funcional. A
garota poderia usar sua aeromoto, mas ela a havia vendido para pagar o aluguel
de seu novo apartamento.
Chovia em Sonata.
Voando pelas vias virtuais, os faróis iluminavam as megatorres e passarelas no
escuro.
“A Rebelião
tornou a vida na metrópole insuportável”, pensa ela. “Se as corporações não
forem expulsas do poder, a ordem nunca voltará nessa cidade”.
De fato, Sonata
havia chegado a um ponto de inflexão. Ou a população encerrava a Rebelião, ou
apenas um caminho seria viável às corporações: o Projeto Gemini.
“Não serei
substituída por nenhum androide genocida”, pensa ela. “Eu já estou farta de ser
uma excluída da sociedade”.
Então ela avança
pela cidade.
Meia hora depois,
ela estaciona seu aerocarro no distrito de Servidão, Setor I. Entrando em uma
megatorre, ela liga sua lanterna e anda pelas escadarias. Após os clérigos
cortarem o fornecimento de eletricidade na cidade, a população se esforçava
para sobreviver nos distritos.
Laura chega ao
andar correto e caminha pelo corredor. Diferente da superfície, nos níveis
superiores os prédios eram limpos e organizados, o que tornava o local muito
agradável.
Ao parar em
frente a uma porta, ela se certifica do endereço procurado. A porta estava
trancada, como esperado, mas Laura não precisa de nenhuma chave. Ela hackeia o
painel de segurança e entra.
A garota vê um
apartamento unicelular comum, entretanto haviam dezenas de caixas com materiais
bélicos pelo chão. Pegando um papel, ela escreve o local e o horário marcado e
o deixa sobre a mesa. Em seguida, ela se vira e vai embora.
- É melhor você estar certo, Database. – sussurra ela para si mesma – Eu não gosto de me envolver com
esse tipo de gente.
Voltando ao aerocarro,
ela o encontra estacionado ao longe. Porém, um poste de iluminação estava aceso
acima como um farol no meio da escuridão. Parando ao lado do veículo, ela
destrava a porta e então percebe que ela já estava aberta. Ela se intriga.
Atrás dela, uma
voz na escuridão diz:
- Diga-me, Laura.
O que você quer comigo?
A runner se
assusta. Virando-se, ela vê um homem encostado de braços cruzados em outro
aerocarro.
- Maynard...?!
O mercenário se
aproxima. Parando sob a luz, ele pergunta:
- Você queria me
ver?
Impressionada, a
garota diz:
- Como veio tão
rápido? Como sabia que eu estava aqui?
Maynard ergue a
sobrancelha. Naquele negócio, se cuidar fazia parte da profissão. Laura mais do
que ninguém sabia disso.
Desistindo da
resposta, ela continua:
- Maynard, eu preciso de ajuda.
O mercenário ri.
- Você precisando
de ajuda?!
- É pelo bem de
Sonata.
Olhando ao redor,
ele responde:
- Eu não consigo
mais encontrar nada de bom aqui.
- Essa cidade tem
muitos segredos. Alguns dão poder demais nas mãos de uns loucos.
- Do que está
falando?
Então a runner
fala de seu plano ao mercenário. Arregalando os olhos, ele responde:
- Pelo o que me
diz, me parece que você quer manter o status quo.
- Talvez, mas não
é apenas pelo equilíbrio de poder, mas pela sobrevivência de todos nós.
- Então, além do
Projeto Gemini, eu devo me preocupar com isso?
- Eu te garanto,
Maynard. Se essa tecnologia for usada, essa facção terá um poder interminável.
O mercenário
assente.
- E como vão me
pagar? Da última vez que eu vi, o dinheiro de Database voou pelos ares como
confete.
- Ele ainda tem
seus recursos. – afirma ela – E então? Vai me ajudar ou não?
Abanando seu
casaco, ele diz:
- Está bem. Eu
ajudo vocês.
Laura se
felicita. Pretendendo entrar em seu aerocarro, o mercenário a interrompe.
- A propósito,
como está o seu namorado? Ouvi dizer que fizeram picadinho do nosso “pet da
Rebelião”.
Irando-se, Laura
fecha os punhos e lhe dá um soco na boca. Maynard enfia a mão em seu casaco e a
garota se alerta, sacando sua arma em seguida. Porém, o mercenário havia pegado
apenas um lenço.
- Cuidado com
essa arma, moça. – diz ele – Você pode machucar alguém.
Então o
mercenário calmamente enxuga o sangue em seus lábios.
§
No dia seguinte,
Maynard e Laura partem para o distrito de Entropia, Setor T. A garota disse que
iria sozinha em seu aerocarro, mas o mercenário insistiu que ela deixasse
aquela “lata velha” para trás. “Em meu aerocarro é mais seguro”, disse ele. E,
de fato, o aerocarro de Maynard era uma admirável máquina velada de guerra.
Enquanto avançam pelas instalações industriais,
dezenas de mensagens aparecem no celular da garota. Os líderes da facções
cobravam Database e ele pedia pressa. Os principais alvos foram tomados. Todos esperavam
o ataque final na Cúpula Corporativa. Mas, conforme o plano de Laura, o ataque
tinha que esperar.
A sede dos
Trans-humanistas se aproxima. Laura está tensa, pois da última vez que esteve
ali ela quase explodiu o lugar todo.
- Não se
preocupe. – diz Maynard – Tenho certeza que eles aceitarão sua proposta com
muito agrado. Não tenha medo.
Com semblante
sério, ela responde:
- Eu não tenho
medo de nada.
O mercenário ri.
Descendo com o
aerocarro, eles estacionam no pátio e se dirigem para o galpão. Os Trans-humanistas
os aguardam, mas a garota percebe que havia rancor em seu olhar.
Um mecanicista
diz:
- Foi muita audácia
tê-la trazido para cá, Maynard.
Não se importando
com isso, ele responde:
- Aquela era
outra luta, rapazes. Sem ressentimentos, está bem?
Então os
facciosos os conduzem para dentro da sede. Enquanto descem, Laura percebe que
eles haviam restaurado os danos estruturais causados por ela em sua invasão,
mas ainda haviam estragos.
O grupo caminha
pelo laboratório oculto dos Trans-humanistas. Os facciosos param o que estão fazendo
e olham raivosos para ela. Era como se eles esperassem a ordem para
carboniza-la com seus lasers.
Ciborgues enormes
se põem em seu caminho e a encaram. Pegando sua arma, Laura se prontifica. Então
os ciborgues se viram e vão embora.
“Esses fanáticos me
enojam”, pensa ela.
Huxley os aguarda
em sua sala. Ao entrarem, os facciosos fecham a porta. O líder, então, diz:
- É melhor ter um
bom motivo para estar aqui, garota. Se não esta sala será o último lugar que você
verá com vida.
- Ora, esses são modos
de tratar uma visita? – pergunta Maynard – Nós estamos aqui para falar de
negócios.
- Que negócios? –
duvida Huxley – Poderia haver negócios paralelos no meio de uma rebelião?
Laura intervém:
- Desde que os
negócios envolvam a sobrevivência dos Trans-humanistas, sim.
- Do que é que você
está falando?
A runner revela
seu plano, expondo os riscos e justificando suas intenções. Os mecanicistas
ouvem com muita atenção, apesar de lhe demonstrarem desprezo.
Huxley comenta:
- Muito
interessante o que disse, Lótus, mas por que deveríamos confiar em você?
- Após
sequestrarem o Nathan e tentarem fazer dele um assassino, eu poderia perguntar
o mesmo.
O líder sorri.
- Aquilo foi
necessário. Ele me agradecerá depois. - tranquiliza ele - E por falar nele, onde está o Inimigo de
Estado? Por que ele não veio aqui pessoalmente?
Desta vez é
Maynard quem intervém.
- Há uma Rebelião
lá fora, Huxley. Ele está ocupado. Aliás, aquele garoto é inocente demais para os
nossos assuntos. Deixe-o pensar que é o “Salvador de Sonata”.
Os mecanicistas
concordam.
- Eu ainda não sei
se devemos confiar em você, garota. Primeiro você invade minha sede, depois
explode a Bio Prótesis, frustrando os meus planos. Você tem sido um problema
constante para a minha facção. Talvez eu devesse te exterminar aqui mesmo.
Os trans-humanistas
destravam suas armas. Laura se irrita.
- Por acaso eu
devo te lembrar que você traiu um encontro diplomático com o Inimigo de Estado?
Ou pior, que você doutrinou o meu amigo, fazendo-o se infiltrar no Submundo
como seu espião?
Huxley ri.
- Doutrinar?! Ele
se ofereceu para entrar em nosso grupo por conta própria. Eu apenas vi vantagem
nisso. Fiz o que era melhor para mim.
- E, ao tentar resgata-lo,
eu fiz o mesmo. – responde ela, referindo-se à invasão da sede trans-humanista.
- Você trouxe
nossos arquinimigos para cá, garota. Para isso não há perdão.
- Eu fui enganada
também. Vertigo nos traiu. Eu não teria feito nada disso se eu soubesse antes.
- Oh, então você foi
a vítima? – ironiza ele – Minha sede foi invadida, meus soldados foram mortos, mas
a vítima aqui foi você?!
Todos riem. Porém, Laura muito sabiamente responde:
- Ambos fomos.
Então o líder se
cala.
Alguns segundos
depois, Huxley pergunta:
- Como eu me
certificarei de que você não nos atacará novamente?
- Ataca-los me
custou caro. Os puristas me obrigaram a explodir a Bio Prótesis e a roubar a
tecnologia da Cellgenesis. Com o Vertigo morto, sua traição foi revelada. Não pretendo
me expor novamente.
Maynard os
interrompe:
- Huxley, vocês tomaram
a Bio Prótesis, mas ainda há muitos drones, canhões e, principalmente, Securitrons pela cidade. Ao explodir o prédio, Laura também danificou as linhas
de produção. Talvez isso tenha sido o melhor para a Rebelião.
Ao ouvi-los, o
líder acha aquilo muito razoável.
- Vocês podem
estar certos. – responde ele, por fim.
Em seguida o
líder conversa com seus subordinados, estipulando um possível acordo com o
Submundo.
Minutos se
passam. Impaciente, a garota pergunta:
- Vocês vão
aceitar ou não?
Irritado, Huxley responde:
- Sim, mas nunca
mais se meta com os Trans-humanistas novamente, ou será sua última vez. – ameaça ele,
apontando o dedo para ela – E mande lembranças para o seu namorado.
Laura se intriga.
- Como você sabe
que ele é o meu namorado?
O líder sorri.
- Vocês, jovens, são tão ingênuos. Você realmente acha que o Nathan se arriscaria tanto se não fosse
para impressionar alguém? – pergunta ele – Você é a única pessoa que ele se
importa. Salvar Sonata é secundário.
Maynard concorda
em silêncio.
- Você quer saber
o que eu realmente acho? – pergunta ela – Que vocês deveriam cuidar de suas
vidas!
Então todos
aqueles homens mais experientes e mais velhos gargalham, não dando a mínima para ela.
§
No lado de fora,
Maynard e Laura retornam para o aerocarro. Então ele diz:
- Eu até estava
torcendo para que ele não aceitasse o acordo. Se o que planeja der certo,
haverá menos ação em Sonata.
Intrigada, a
runner pergunta:
- Que tipo de ação
está falando?
- As facções são ótimos
clientes. Se o terrorismo diminuir, haverá menos ação... – explica ele – E menos diversão
também.
O mercenário lamenta a possível queda do terrorismo. Laura se indigna.
- Você pode ser
uma maníaco homicida que vive da violência e da miséria alheia por aí, Maynard, mas eu e
o Nathan acreditamos na paz!
Ao dizer aquilo,
Laura não reconhecia a si mesma. Ela estava começando a soar como o Nathan.
- Ora, mas eu acredito na paz. – responde ele, despreocupadamente – Na paz através do poder de fogo superior.
Nenhum comentário:
Postar um comentário