domingo, 12 de dezembro de 2021

Sonata - 65 - Poder de Fogo Superior

 


(Arte de Beeple Crap)


O pai de Laura chega em seu apartamento. Controlando a tontura, ele tateia a porta e gira a maçaneta. Ao entrar na sala, ele se depara com a garota deitada em seu quarto.

O velho cheirava a álcool e a cigarro. A tontura da embriaguez era visível. Prevendo que haveria uma nova discussão, ele se constrange. Ele não queria fazer Laura se irritar, mas não é isso o que acontece.

A garota estava encolhida em sua cama. Enquanto seu pai caminha pelo apartamento, ela sequer nota sua presença. Preocupado, ele para em frente ao seu quarto e pergunta:

- Olá, filha. Está tudo bem?

Laura não responde.

O cheiro em suas roupas era muito forte e o velho tenta não entrar em seu quarto. Tentando desviar a atenção, ele comenta:

- Eu adorei o apartamento novo, filha. Agora temos espaço suficiente para vivermos juntos.

A garota continua em silêncio. Ao ouvir seu nariz, ele percebe que ela estava chorando.

- Minha filha... – preocupa-se ele – Você está chorando?

Enxugando as lágrimas, Laura finalmente diz:

- Vá embora. Eu quero ficar sozinha.

- O que aconteceu? – insiste ele.

Virando-se, a garota diz:

- É o Nathan. Ele foi ferido gravemente e eu não sei se ele vai sobreviver.

Seu pai era um velho inválido e alcóolatra e sua memória não funcionava direito. Lembrando-se do namorado de sua filha, ele pergunta:

- É o Inimigo de Estado, não é? Ele se feriu?

Laura assente com a cabeça.

- Ele teve seu corpo partido em pedaços pelos Securitrons...

- Meu Deus...! – horroriza-se ele.

- Primeiro eu perdi minha mãe, e agora perderei o meu amor também...

Entristecendo-se, o velho segura a mão dela.

- Minha filha. Você não vai perder ninguém! – tranquiliza ele – Tenho certeza que ele é forte como você e vai sobreviver.

Seu pai não conhecia a Nathan. Laura tinha vergonha de apresenta-lo ao rapaz. O velho estava sempre embriagado e nunca parava em casa.

Sentando-se, a garota pergunta:

- Você tem certeza?

- Sim! – exclama ele, empolgado – Ninguém que recebe o amor da poderosa Laura irá desperdiça-lo morrendo assim.

Laura sorri.

- Obrigado, pai.

O velho sorri também.

- De nada, filha.

Então os dois se abraçam calorosamente.

 

§

 

Horas mais tarde, Laura está sozinha sentada sobre o Submundo. Ela está em uma plataforma entre os prédios, no exato lugar onde ela e o rapaz se encontraram pela última vez.

A garota não quis chatear seu pai, ela sabe que o estado de Nathan é tão crítico que ninguém que o tivesse visto teria esperança de vê-lo vivo novamente. Sabendo dessa triste realidade, ela decidiu se isolar novamente. Após tantos anos crescendo sozinha, ela se acostumou a lidar com seus problemas assim.

Uma aura pesada paira sobre a superfície. Ouvindo os operários trabalhando ao longe, eles ainda retiravam os corpos do Mystique. Muita gente morreu aquela noite e seu sangue parecia ter maculado o lugar para sempre.

Ouvindo alguém atrás de si, ela se assusta.

- Laura, eu estou atrapalhando?

Database se aproximava com dois seguranças. Ela pergunta:

- O que você quer?

- Conversar. – responde ele – Eu posso?

O chefe pede permissão para se aproximar. A garota permite e então Database dispensa seus seguranças.

- Como está o Nathan? – pergunta ele.

- Mal. Seu corpo foi estraçalhado lá em cima. Seu estado é crítico.

Database parece se consternar.

- Ele vai sobreviver?

- Eu não sei. A Design Inteligente sugeriu um tratamento experimental nele, mas me alertou que poderia haver consequências.

O chefe se espanta.

- E você confiou neles?!

- Era a única chance.

Database, então, assente.

- E como foi a missão?

- Um sucesso. – responde ela.

Database se intriga.

- A Hoverdrive foi tomada pela Design Inteligente?

- Sim. Apex sabotou o mainframe da linha de produção e agora todos os robôs trabalham para nós.

Ele sorri, satisfeito.  

- Apesar de eu odiar os robôs, fico feliz que agora eles lutem pela Rebelião. Bom trabalho, Lótus.

A garota se irrita. O chefe levanta as mãos, se desculpando em silêncio.

Laura diz:

- Espero que sua Rebelião não coloque novos facínoras no poder.

Intrigado, Database pergunta:

- O que quer dizer?

A garota parecia perturbada com alguma coisa, mas não era com Nathan. Percebendo sua preocupação, o chefe pergunta:

- Algum problema?

- Database, para que serve aquele Protótipo #9 em seu laboratório? O que são esses protótipos, exatamente?

Com olhar perspicaz, ele sorri.

- Digamos que Sonata é pequena demais para mim e as corporações. Há tanto espaço lá fora. Por que não explora-lo?

Laura não entende do que ele estava falando. Ela continua:

- Não sei se é prudente brincar com essa biotecnologia, Database. Esses androides sobre-humanos são uma ameaça muito grande. Eu temo que eles não possam ser detidos.

- E por que os deteríamos?

- Com o retorno do Projeto Gemini, acho que já há androides demais espalhados por aí.

Olhando para a garota, o chefe pergunta:

- O que você está tentando dizer, Laura?

Respirando fundo, ela diz:

- Promete guardar segredo?

Então Database sorri.

 

§

 

Na noite seguinte, Laura dirige pelo céu de Sonata. Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, não havia tempo a perder. Ela pediu um aerocarro emprestado para Database. Após o ataque ao Mystique, poucos haviam sobrado no Submundo, então o chefe lhe oferece um aerocarro velho e barulhento, mas ainda assim funcional. A garota poderia usar sua aeromoto, mas ela a havia vendido para pagar o aluguel de seu novo apartamento.

Chovia em Sonata. Voando pelas vias virtuais, os faróis iluminavam as megatorres e passarelas no escuro.

“A Rebelião tornou a vida na metrópole insuportável”, pensa ela. “Se as corporações não forem expulsas do poder, a ordem nunca voltará nessa cidade”.

De fato, Sonata havia chegado a um ponto de inflexão. Ou a população encerrava a Rebelião, ou apenas um caminho seria viável às corporações: o Projeto Gemini.

“Não serei substituída por nenhum androide genocida”, pensa ela. “Eu já estou farta de ser uma excluída da sociedade”.

Então ela avança pela cidade.

Meia hora depois, ela estaciona seu aerocarro no distrito de Servidão, Setor I. Entrando em uma megatorre, ela liga sua lanterna e anda pelas escadarias. Após os clérigos cortarem o fornecimento de eletricidade na cidade, a população se esforçava para sobreviver nos distritos.

Laura chega ao andar correto e caminha pelo corredor. Diferente da superfície, nos níveis superiores os prédios eram limpos e organizados, o que tornava o local muito agradável.

Ao parar em frente a uma porta, ela se certifica do endereço procurado. A porta estava trancada, como esperado, mas Laura não precisa de nenhuma chave. Ela hackeia o painel de segurança e entra.

A garota vê um apartamento unicelular comum, entretanto haviam dezenas de caixas com materiais bélicos pelo chão. Pegando um papel, ela escreve o local e o horário marcado e o deixa sobre a mesa. Em seguida, ela se vira e vai embora.

- É melhor você estar certo, Database. – sussurra ela para si mesma – Eu não gosto de me envolver com esse tipo de gente.

Voltando ao aerocarro, ela o encontra estacionado ao longe. Porém, um poste de iluminação estava aceso acima como um farol no meio da escuridão. Parando ao lado do veículo, ela destrava a porta e então percebe que ela já estava aberta. Ela se intriga.

Atrás dela, uma voz na escuridão diz:

- Diga-me, Laura. O que você quer comigo?

A runner se assusta. Virando-se, ela vê um homem encostado de braços cruzados em outro aerocarro.

- Maynard...?!

O mercenário se aproxima. Parando sob a luz, ele pergunta:

- Você queria me ver?

Impressionada, a garota diz:

- Como veio tão rápido? Como sabia que eu estava aqui?

Maynard ergue a sobrancelha. Naquele negócio, se cuidar fazia parte da profissão. Laura mais do que ninguém sabia disso.

Desistindo da resposta, ela continua:

- Maynard, eu preciso de ajuda.

O mercenário ri.

- Você precisando de ajuda?!

- É pelo bem de Sonata.

Olhando ao redor, ele responde:

- Eu não consigo mais encontrar nada de bom aqui.     

- Essa cidade tem muitos segredos. Alguns dão poder demais nas mãos de uns loucos.

- Do que está falando?

Então a runner fala de seu plano ao mercenário. Arregalando os olhos, ele responde:

- Pelo o que me diz, me parece que você quer manter o status quo.

- Talvez, mas não é apenas pelo equilíbrio de poder, mas pela sobrevivência de todos nós.

- Então, além do Projeto Gemini, eu devo me preocupar com isso?

- Eu te garanto, Maynard. Se essa tecnologia for usada, essa facção terá um poder interminável.

O mercenário assente.

- E como vão me pagar? Da última vez que eu vi, o dinheiro de Database voou pelos ares como confete.

- Ele ainda tem seus recursos. – afirma ela – E então? Vai me ajudar ou não?

Abanando seu casaco, ele diz:

- Está bem. Eu ajudo vocês.

Laura se felicita. Pretendendo entrar em seu aerocarro, o mercenário a interrompe.

- A propósito, como está o seu namorado? Ouvi dizer que fizeram picadinho do nosso “pet da Rebelião”.

Irando-se, Laura fecha os punhos e lhe dá um soco na boca. Maynard enfia a mão em seu casaco e a garota se alerta, sacando sua arma em seguida. Porém, o mercenário havia pegado apenas um lenço.

- Cuidado com essa arma, moça. – diz ele – Você pode machucar alguém.

Então o mercenário calmamente enxuga o sangue em seus lábios.

 

§

 

No dia seguinte, Maynard e Laura partem para o distrito de Entropia, Setor T. A garota disse que iria sozinha em seu aerocarro, mas o mercenário insistiu que ela deixasse aquela “lata velha” para trás. “Em meu aerocarro é mais seguro”, disse ele. E, de fato, o aerocarro de Maynard era uma admirável máquina velada de guerra.

 Enquanto avançam pelas instalações industriais, dezenas de mensagens aparecem no celular da garota. Os líderes da facções cobravam Database e ele pedia pressa. Os principais alvos foram tomados. Todos esperavam o ataque final na Cúpula Corporativa. Mas, conforme o plano de Laura, o ataque tinha que esperar.

A sede dos Trans-humanistas se aproxima. Laura está tensa, pois da última vez que esteve ali ela quase explodiu o lugar todo.

- Não se preocupe. – diz Maynard – Tenho certeza que eles aceitarão sua proposta com muito agrado. Não tenha medo.

Com semblante sério, ela responde:

- Eu não tenho medo de nada.

O mercenário ri.

Descendo com o aerocarro, eles estacionam no pátio e se dirigem para o galpão. Os Trans-humanistas os aguardam, mas a garota percebe que havia rancor em seu olhar.

Um mecanicista diz:

- Foi muita audácia tê-la trazido para cá, Maynard.

Não se importando com isso, ele responde:

- Aquela era outra luta, rapazes. Sem ressentimentos, está bem?

Então os facciosos os conduzem para dentro da sede. Enquanto descem, Laura percebe que eles haviam restaurado os danos estruturais causados por ela em sua invasão, mas ainda haviam estragos.

O grupo caminha pelo laboratório oculto dos Trans-humanistas. Os facciosos param o que estão fazendo e olham raivosos para ela. Era como se eles esperassem a ordem para carboniza-la com seus lasers.  

Ciborgues enormes se põem em seu caminho e a encaram. Pegando sua arma, Laura se prontifica. Então os ciborgues se viram e vão embora.

“Esses fanáticos me enojam”, pensa ela.

Huxley os aguarda em sua sala. Ao entrarem, os facciosos fecham a porta. O líder, então, diz:

- É melhor ter um bom motivo para estar aqui, garota. Se não esta sala será o último lugar que você verá com vida.

- Ora, esses são modos de tratar uma visita? – pergunta Maynard – Nós estamos aqui para falar de negócios.

- Que negócios? – duvida Huxley – Poderia haver negócios paralelos no meio de uma rebelião?

Laura intervém:

- Desde que os negócios envolvam a sobrevivência dos Trans-humanistas, sim.

- Do que é que você está falando?

A runner revela seu plano, expondo os riscos e justificando suas intenções. Os mecanicistas ouvem com muita atenção, apesar de lhe demonstrarem desprezo.

Huxley comenta:

- Muito interessante o que disse, Lótus, mas por que deveríamos confiar em você?

- Após sequestrarem o Nathan e tentarem fazer dele um assassino, eu poderia perguntar o mesmo.

O líder sorri.

- Aquilo foi necessário. Ele me agradecerá depois. - tranquiliza ele - E por falar nele, onde está o Inimigo de Estado? Por que ele não veio aqui pessoalmente?

Desta vez é Maynard quem intervém.

- Há uma Rebelião lá fora, Huxley. Ele está ocupado. Aliás, aquele garoto é inocente demais para os nossos assuntos. Deixe-o pensar que é o “Salvador de Sonata”.

Os mecanicistas concordam.

- Eu ainda não sei se devemos confiar em você, garota. Primeiro você invade minha sede, depois explode a Bio Prótesis, frustrando os meus planos. Você tem sido um problema constante para a minha facção. Talvez eu devesse te exterminar aqui mesmo.

Os trans-humanistas destravam suas armas. Laura se irrita.

- Por acaso eu devo te lembrar que você traiu um encontro diplomático com o Inimigo de Estado? Ou pior, que você doutrinou o meu amigo, fazendo-o se infiltrar no Submundo como seu espião?

Huxley ri.

- Doutrinar?! Ele se ofereceu para entrar em nosso grupo por conta própria. Eu apenas vi vantagem nisso. Fiz o que era melhor para mim.

- E, ao tentar resgata-lo, eu fiz o mesmo. – responde ela, referindo-se à invasão da sede trans-humanista.

- Você trouxe nossos arquinimigos para cá, garota. Para isso não há perdão.

- Eu fui enganada também. Vertigo nos traiu. Eu não teria feito nada disso se eu soubesse antes.

- Oh, então você foi a vítima? – ironiza ele – Minha sede foi invadida, meus soldados foram mortos, mas a vítima aqui foi você?!

Todos riem. Porém, Laura muito sabiamente responde:

- Ambos fomos.

Então o líder se cala.

Alguns segundos depois, Huxley pergunta:

- Como eu me certificarei de que você não nos atacará novamente?

- Ataca-los me custou caro. Os puristas me obrigaram a explodir a Bio Prótesis e a roubar a tecnologia da Cellgenesis. Com o Vertigo morto, sua traição foi revelada. Não pretendo me expor novamente.

Maynard os interrompe:

- Huxley, vocês tomaram a Bio Prótesis, mas ainda há muitos drones, canhões e, principalmente, Securitrons pela cidade. Ao explodir o prédio, Laura também danificou as linhas de produção. Talvez isso tenha sido o melhor para a Rebelião.

Ao ouvi-los, o líder acha aquilo muito razoável.

- Vocês podem estar certos. – responde ele, por fim.

Em seguida o líder conversa com seus subordinados, estipulando um possível acordo com o Submundo.

Minutos se passam. Impaciente, a garota pergunta:

- Vocês vão aceitar ou não?

Irritado, Huxley responde:

- Sim, mas nunca mais se meta com os Trans-humanistas novamente, ou será sua última vez. – ameaça ele, apontando o dedo para ela – E mande lembranças para o seu namorado.

Laura se intriga.

- Como você sabe que ele é o meu namorado?

O líder sorri.

- Vocês, jovens, são tão ingênuos. Você realmente acha que o Nathan se arriscaria tanto se não fosse para impressionar alguém? – pergunta ele – Você é a única pessoa que ele se importa. Salvar Sonata é secundário.

Maynard concorda em silêncio.

- Você quer saber o que eu realmente acho? – pergunta ela – Que vocês deveriam cuidar de suas vidas!

Então todos aqueles homens mais experientes e mais velhos gargalham, não dando a mínima para ela.

 

§

 

No lado de fora, Maynard e Laura retornam para o aerocarro. Então ele diz:

- Eu até estava torcendo para que ele não aceitasse o acordo. Se o que planeja der certo, haverá menos ação em Sonata.

Intrigada, a runner pergunta:

- Que tipo de ação está falando?

- As facções são ótimos clientes. Se o terrorismo diminuir, haverá menos ação... – explica ele – E menos diversão também.

O mercenário lamenta a possível queda do terrorismo. Laura se indigna.

- Você pode ser uma maníaco homicida que vive da violência e da miséria alheia por aí, Maynard, mas eu e o Nathan acreditamos na paz!

Ao dizer aquilo, Laura não reconhecia a si mesma. Ela estava começando a soar como o Nathan. 

- Ora, mas eu acredito na paz. – responde ele, despreocupadamente – Na paz através do poder de fogo superior.

 

 

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