Aparecendo em uma
estranha rua, Gunther vê vários prédios de tijolos marrons. Os prédios têm de dois a três
andares e são repletos de janelas nas fachadas. Uma neblina cinzenta espreita a rua, era a fumaça vindo das fábricas. O movimento era intenso, o rapaz vê dezenas
de pessoas e carruagens passando. Os homens vestem ternos, capas e icônicas cartolas. As
mulheres vestem longos vestidos, capas e capuzes com fitas amarradas em seus
queixos.
Mas um outro tipo
de gente lhe chama a atenção.
Ao longe, o rapaz
ouve um apito a vapor. Minutos depois, homens de trajes esfarrapados e
semblantes cansados compõem a multidão. Eles vestem casacos surrados e boinas
de operários. Em seus rostos, um olhar fatigado se esconde atrás de seus
esfiapados bigodes. As mulheres, igualmente cansadas, caminham com lenços
suados, cabelos desarrumados e aventais sujos. Gunther nota que há crianças
também. Tanto meninos quanto meninas, elas caminham ao lado de suas mães, vestindo
um improvisado uniforme de trabalho.
Aquela cena o
deprime. Inevitavelmente o rapaz nota a desigualdade social naquela cidade,
como um concomitante contraste entre as classes.
Os operários
passam por ele de cabeça baixa, cansados e estressados demais para notar sua
presença. Vestindo trajes melhores, dois homens com bengalas e cartolas se
aproximam. Levantando suas cartolas, eles o cumprimentam
dizendo:
- Good afternoon, sir! How are you going? Nice outfits you have, I must say. [1]
Gunther arregala
os olhos. O outro diz:
- Another cold
and foggy day today, isn´t it? I wonder how long will it takes until next
summer...[2]
Paralisado, o
rapaz apenas consegue gesticular que não compreende o que eles
estão falando.
Subitamente, alguém aparece atrás dele e gentilmente o pergunta:
- O que foi,
rapaz? Você não sabe falar inglês?
O rapaz olha para
trás e vê um senhor barbudo, de cabelos grisalhos e um pouco carrancudo sorrir
para ele.
Envergonhado, ele
ia dizer que não fala muito bem aquele idioma. Então a surpresa ecoa por sua cabeça, reverberando como um trovão. Mal conseguindo raciocinar, com muito esforço ele
sussurra:
- Karl Marx...?!
O velho assente
com a cabeça. Falando em inglês, Marx olha para os homens e responde:
- Cavalheiros,
perdoem esse jovem alemão. Ele deve ser novo aqui, um exilado talvez. Vocês
conhecem o meu país. Prússia e sua despótica monarquia...
Os homens sorriem cordialmente. Novamente levantando suas cartolas, eles se despedem e vão embora junto da
multidão.
- E então? –
pergunta ele – O que você faz aqui, meu jovem?
Ainda espantado,
o rapaz responde:
- Marx, eu não
posso acreditar...! O senhor está vivo!
Estranhando-o,
Marx responde:
- Ora, mas é
claro que eu estou vivo!
Gunther não sabe
o que pensar. Lembrando-se rapidamente do que a ideologia marxista causou, as
revoluções, as perseguições e o terror vermelho, o rapaz hesita em se sentir
honrado ou enojado ao conhece-lo.
Percebendo que o
rapaz não reagia, o velho pergunta:
- Vai a algum
lugar?
O rapaz olha ao
redor, não fazendo a mínima ideia de onde estava.
- Eu não sei onde
estou...
Batendo em seu
ombro, Marx responde:
- Você está em
Londres, meu jovem! Não reconhece a paisagem?
- Eu nunca vi
esse lugar antes...
Suspeitando embriaguez,
o velho ri.
- Vamos andando.
Não é elegante caminhar bêbado por aí. Muito embora... – complementa ele,
indicando o caminho – eu mesmo o faça de vez em quando...
Marx ri, expondo
seus dentes amarelados.
Mais adiante, Gunther contempla um modesto prédio londrino de dois andares. Atravessado a rua, o rapaz vê o número do edifício, “28”.
- Espere um
pouco. – interrompe ele – Por acaso estamos na Dean Street, Soho?
- Sim, por quê?
Novamente Gunther
se estremece em surpresa. Ele vê a História se desenrolar diante dos seus olhos.
Os dois sobem as
escadas até a entrada do apartamento. Ao abrir a porta, o rapaz vê uma sala
escura, bagunçada e com uma camada de pó sobre os móveis. Imediatamente ele
sente o cheiro forte de cigarro, fazendo-o se incomodar. Observando ao redor, ele vê garrafas
vazias de bebidas alcóolicas jogadas pelo chão.
- Sinta-se em
casa. – diz Marx.
“Difícil”, pensa ele.
Indicando-lhe um
sofá, Gunther vê um móvel encardido e empoeirado. Hesitante, ele se senta, mas
com muita relutância em sua mente.
- Desculpe não
poder te oferecer muita coisa. – diz o filósofo – Mas eu estou passando por
algumas dificuldades, como pode ver.
Marx referia-se
aos seus graves problemas financeiros ao longo de sua vida, principalmente na
Inglaterra.
- Não tem
problema. – responde ele.
Uma mulher de longos
cabelos negros aparece e lhe oferece uma xícara de café. O rapaz gentilmente a
aceita.
- Essa é minha
esposa, Jenny.
Apresentando-se,
o rapaz diz:
- Muito prazer. Eu
sou Gunther.
- Prazer. Seja bem-vindo.
Os dois se cumprimentam. Ele se espanta ao conhecer pessoalmente Jenny
von Westphalen, esposa do ilustre Karl Marx.
- Você fuma? – o
filósofo oferece algo em sua mão.
Gunther vê um
cigarro feio e de péssima qualidade. Levantando seu braço, o rapaz responde:
- Obrigado, herr
Marx. Eu não fumo. - mente ele.
Dando de ombros,
o filósofo pega um fósforo, acende seu cigarro e solta uma fumaça de odor terrível.
Naquele momento Jenny
fala com seu marido. Gunther percebe que ela tem um rosto triste e abatido.
- Karl, a comida
acabou e o aluguel está atrasado de novo.
Suas palavras
soam como uma lamentação. O filósofo responde:
- Eu escreverei
para Engels de novo. Mais tarde eu enviarei uma carta.
Sua esposa
assente e, despedindo-se, discretamente se retira.
- Minha esposa
está triste. Ela já perdeu dois filhos e, no nascimento do terceiro, a criança
veio morta ao mundo. – cabisbaixo, ele fuma seu cigarro – Jenny é uma mulher
forte, mas não sei o quanto ela ainda suporta...
Consternado,
Gunther responde:
- Eu lamento,
senhor.
Mudando de
assunto, o filósofo pergunta:
- De onde você é,
meu jovem?
- Sou de Berlim.
- E o que você
faz em Londres?
Improvisando uma resposta, ele diz:
- Vim conhecer aquele
que criou a maior e mais importante ideologia de todos os tempos.
Lisonjeado, Marx ri.
- Por acaso o comunismo
é tão popular assim na Alemanha?
Gunther sorri,
admirando-se do futuro.
- Mais do que o
senhor imagina.
Fumando seu
cigarro, o filósofo comenta:
- Eu tenho plena
certeza de que o proletariado de toda a Europa se unirá um dia, e então
iniciaremos a tão sonhada Revolução. Nós implantaremos o socialismo, derrubando
o sistema capitalista, erradicando a burguesia e abrindo caminho para o
comunismo.
O rapaz se lembra
que foi Marx quem criou o termo “capitalismo”. Até sua criação, os
pensadores se referiam a esse modelo econômico como “liberalismo”.
- Como o senhor
tem tanta certeza?
- O capitalismo é
instável e está sujeito a crises periódicas. O trabalho gera riqueza e o preço
da mercadoria é obrigatoriamente maior do que o preço do trabalho realizado.
Essa diferença entre o custo e o preço seria o lucro da burguesia, o excedente
lucrativo pelo trabalho. A isso eu chamo de “mais-valia”. Seu valor estaria
sujeito à diminuição devido ao investimento contínuo em novas tecnologias. A
burguesia fomentaria crises econômicas para refrear essa diminuição de lucros,
assim protegendo seu capital e empobrecendo o proletariado. O crescimento
econômico, assim como suas crises, seriam um ciclo engendrado para manter o
domínio da classe burguesa sobre o capital.
Assentindo, o
rapaz pergunta:
- E como o senhor
imagina a destruição desse ciclo?
- Veja, os meios
de produção e o comércio dos quais a burguesia se sustenta surgiu no feudalismo.
Em certo momento, os meios de produção se desenvolveram de tal forma que não
eram mais compatíveis com o sistema feudal. Ao ser derrubado, o feudalismo foi
substituído pela livre concorrência. O novo sistema criou uma constituição política adaptada para atender aos interesses da classe burguesa. Um
movimento similar ocorre diante de nossos olhos. A força de trabalho não mais serve
às condições da burguesia; ao contrário, ela se tornou tão poderosa a ponto de
sublevar seu sistema e impor uma nova ordem, ameaçando a propriedade privada e
sua exploração.
Refletindo,
Gunther reconhece que, de fato, a burguesia derrubou os obsoletos sistemas
econômicos da Europa, principalmente após a Revolução Francesa. Passando pelo
mercantilismo, com sua desigual relação entre metrópole e colônia, a burguesia
alcançou o liberalismo econômico moderno, estabelecendo um comércio de livre
concorrência, apesar da concorrência ser entre os próprios burgueses.
- O senhor
identifica essa ruptura de sistemas com a Revolução Industrial?
- Certamente! –
responde Marx – O desenvolvimento da indústria moderna arranca dos pés da
burguesia a sua própria fundação, da qual ela produz e se apropria do que é
produzido. O que a burguesia produz, sobretudo, são seus próprios coveiros. Sua
queda e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis.
Marx estava
convicto que, assim como os burgueses derrubaram seus antigos senhores
feudais, o proletariado derrubará seus atuais senhores burgueses. Para ele, era
iminente uma luta de classes.
- Gostaria que
houvessem ideias pacíficas e não violentas para a sociedade em transição. - comenta Gunther.
- Mas isso é uma
grande besteira!
O filósofo se
irrita, fazendo-o se assustar.
- Por quê?
- A transição de
uma sociedade jamais será pacífica! Não importa o quão pacífica a ideia seja!
Acreditar nisso é pura idiotice!
O rapaz não
consegue entender a razão de tanta grosseria. De fato, Marx tinha um
temperamento difícil, sendo rude e estúpido até com seu melhor amigo, o Engels.
- Eu não
entendi.
- O proletariado
jamais terá suas ideias ouvidas! Em todas as épocas, as ideias da classe
dominante eram as ideias dominantes, isso é, a classe que é a força material
dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força intelectual dominante. Não
importa o quão brilhante seja o intelecto do proletário, nessa sociedade ele jamais será ouvido.
Nesse momento, Gunther percebe que a luta de classes também abrangia os círculos intelectuais.
- Há esperança
para o proletário que deseja trilhar o caminho do intelecto para a mudança da
sociedade?
- Muito pouca. –
responde ele – Além de excluído, o proletariado também sofre com o que chamo de “alienação” do trabalho.
O capitalismo media as relações trabalhistas através de commodities, incluindo
a força de trabalho que é comprada e vendida no mercado. A possibilidade de
alguém vender sua força de trabalho é um sinal de alienação de sua própria
natureza e capacidade de mudar o mundo. Eu chamo tal ato de “fetichismo das
commodities”, da qual a mercadoria produzida, ou commodities, parece ter vida
própria e os humanos produtores se adaptam a elas.
- Está dizendo
que, para sobreviverem, os proletários alienam a si mesmo, sua força de
trabalho e sua consciência?
- Exatamente. Os
burgueses os alienam deliberadamente para que nunca se revoltem, assim não
irrompendo uma luta de classes.
Achando aquilo
tudo muito interessante, Gunther pergunta:
- Herr Marx, o
que é uma luta de classes?
- O destino
inevitável da sociedade capitalista. A História de toda sociedade até hoje é a
história da luta de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e
servo, mestres e companheiros, em uma palavra, opressores e oprimidos, sempre
estiveram em constante oposição uns aos outros, envolvidos em uma luta
ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta. Eis aí a base da minha ideologia.
O rapaz reflete.
Para Marx e Engels, ideologia significa as ideias que refletiam os interesses
de uma classe específica em um período específico da História, mas que seus
contemporâneos a viam como universal e eterna. Os filósofos argumentavam que
tais ideias não eram apenas meias verdades, mas que também serviam como uma
importante função política. O controle que uma classe exercia sobre os meios de
produção não incluíam apenas a produção de alimentos ou bens manufaturados, mas
também a produção de ideias. Elas influenciavam a classe subalterna a adotarem
ideias contrárias aos seus interesses, como a religião.
- O senhor crê que
a religião seja uma ferramenta burguesa para controlar a classe operária?
- O Estado e a
sociedade produzem a religião. Ela é a teoria geral desse mundo, a sua sanção
moral e sua base geral de consolação e justificação. A religião é o suspiro da
criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma das situações sem
alma. A religião é o ópio do povo.
Apesar de já
conhecer a citação, Gunther se assusta ao ouvi-la de seu autor.
Marx continua:
- A abolição da
religião, enquanto felicidade ilusória dos homens, é a exigência da sua
felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito de sua
condição é o apelo para abandonarem uma condição que precisa de ilusões. A
crítica da religião liberta o homem da ilusão, de modo que pense, atue e
configure a sua realidade como um homem que perdeu as ilusões e reconquistou a
razão, a fim de que ele gire em torno de si mesmo e, assim, em volta do seu
verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório que gira em volta do homem
enquanto ele não circula em torno de si mesmo. A tarefa da filosofia é
desmascarar a auto-alienação humana nas suas formas mais sagradas.
O rapaz assente,
pensando a respeito. Ao criticar a religião, Marx se assemelhava a Nietzsche,
do qual, ao atacar a base moral da sociedade, atacava também a religião, assim propondo uma mudança.
Então o filósofo
começa a tossir fortemente, tão forte a ponto de engasgar. Preocupado, o rapaz
se levanta, intentando ajuda-lo. Marx acena com a mão, acalmando-o.
- Não se
preocupe. Eu estou bem.
Gunther percebe que, além da poeira, aquele apartamento também denotava doença. Jenny permanecia deitada no outro quarto onde sua empregada, Lenchen, cuidava dela. Então o rapaz se lembra. A saúde daquela família era muito frágil, talvez devido à precariedade financeira. Infelizmente Jenny partiria primeiro, deixando o velho Marx sozinho e amargurado até o final de sua vida.
- O senhor quer água?
- Quero sim,
obrigado.
O rapaz lhe dá
uma caneca com água. O filósofo diz:
- Reconheço que
meus problemas de saúde nunca foram capazes de sufocar minha paixão por
filosofia.
Sendo um
apreciador da dialética de Hegel, o filósofo sincretizou as teorias hegelianas
com suas próprias, criando o que chamava de materialismo dialético.
- Creio que os
filósofos clássicos foram muito importantes para o senhor, não?
- Os filósofos limitaram-se
a interpretar o mundo de diversas maneiras. O que importa é modifica-lo! – exclama
ele, empolgado.
- É por isso que
o senhor é ferrenhamente contra a propriedade privada?
- Eu quero abolir
a propriedade privada! Mas em nossa sociedade, ironicamente ela já está abolida para nove
décimos de seus membros.
Marx se refere à
gritante desigualdade social sob o liberalismo.
- O senhor tem
razão. Há muita pobreza disseminada por aí. Mas a classe dominante não permitirá
ser expropriada passivamente. Eles resistirão. E o único meio de libertar a
classe operária é através da Revolução, como o senhor disse.
- As revoluções
são a locomotiva da História. – responde ele, convictamente – E em nosso tempo,
os trabalhadores não têm nada a perder em uma revolução comunista a não ser
suas correntes.
Inspirando-se, o
rapaz pergunta:
- Deixe-me
perguntar uma coisa. O senhor se refere ao proletariado industrial em oposição
ao sistema estatal burguês, mas e quanto às demais classes? Quero dizer, e
quanto às regiões, e até países, mais atrasados que ainda não alcançaram
maturação social suficiente a ponto de se industrializarem?
Calmamente o
filósofo responde:
- O destino de
todas as sociedades é a industrialização. A sociedade está passando por uma
silenciosa revolução, da qual ela deve ser submetida, sem tomar conhecimento da
existência humana que ela destrói. As classes e as nacionalidades fracas
demais para dominar as novas condições de vida, devem ceder. Mas, citando
principalmente o economista David Ricardo, pode haver algo mais pueril e míope
do que os pontos de vista dos economistas que acreditam, sinceramente, que
esse lastimável estado transitório não significa nada além da adaptação da
sociedade às propensões aquisitivas dos capitalistas?
Desconcertado, Gunther apenas responde:
- Eu não sei.
- Na Grã-Bretanha
– continua ele – o funcionamento desse processo é mais transparente. A
aplicação da ciência moderna remove a terra dos seus habitantes, mas os concentra em cidades industriais.
Gunther entende
que Marx enxerga a industrialização de todas as sociedades como inevitável. Ele
discorda dos economistas, que afirmavam ser aquilo uma evolução do capitalismo,
mas defendia que aquele processo provocaria uma transformação profunda na sociedade
através da Revolução.
O filósofo tosse
novamente, reclinando-se esgotado em sua poltrona. O rapaz deve
deixá-los descansar agora.
Diferente do que
Gunther pensou, não foi um monstro que criou a ideologia
funesta do comunismo, mas uma pessoa normal, com problemas normais, como qualquer
outro. Vê-lo definhar ali, com problemas de saúde, o intriga. Aquele homem, tossindo
e ofegando à sua frente, foi o responsável pelo maior desastre sociopolítico do
século XX, com um número de mortos se aproximando dos 100 milhões. Entretanto,
ao analisarem o socialismo teorizado e o socialismo implantado, alguns estudiosos
afirmam que, se Karl Marx estivesse vivo, ele não seria marxista.
“É como se
comparar a teoria da república de Platão com sua atual implantação realizada”, pensa ele. “A realizada é defeituosa e radicalmente diferente”. Mas, como Philip Scheidemann lhe disse, a república platônica é, tanto quanto o
comunismo marxista, uma utopia.
“Isso significa
que erramos ao tentar implanta-las?”, pergunta-se ele.
Gunther se
confunde. “Matar Karl Marx preveniria um futuro sangrento? Certamente que não, pois
na quarta dimensão inúmeros futuros existiriam”, reconhece ele. E o rapaz tornaria o filósofo um mártir, morto ao defender sua própria ideologia.
“Não, eu não
faria isso”, pensa ele.
Marx foi um anticristo para alguns e um salvador para outros. Mas o que Gunther vê
é um velho doente e miserável, vítima de seu próprio fervor político.
Mas sua ideologia
claramente defendia o uso da violência, a revolucionária luta de classes e a
ditadura do proletariado. “Sua revolução traria justiça para os oprimidos, mas
até que ponto?”. A planificação econômica e o modelo autossustentável não
erradicaram a pobreza, ao contrário, a multiplicaram.
“De quem é a
culpa? Para onde foi a riqueza dos nobres, burgueses e eclesiásticos, supostamente intentada a saciar a fome dos miseráveis?”,
pergunta-se ele. “Seus célebres sucessores, Lênin, Mao, Kim... aplicaram suas
teorias sociopolíticas, e todos eles resultaram em desastrosos fracassos. Será
que todos eles o deturparam?”. Gunther não sabe dizer.
De qualquer
forma, uma coisa o rapaz reconhece. Apesar de todos os esforços, erros e
acertos, ele afirma para si mesmo:
“Não se produz
riqueza dividindo-a!”.


