quarta-feira, 31 de março de 2021

Tiergarten - 24 - Uma Tarde Com Karl Marx

 


Aparecendo em uma estranha rua, Gunther vê vários prédios de tijolos marrons. Os prédios têm de dois a três andares e são repletos de janelas nas fachadas. Uma neblina cinzenta espreita a rua, era a fumaça vindo das fábricas. O movimento era intenso, o rapaz vê dezenas de pessoas e carruagens passando. Os homens vestem ternos, capas e icônicas cartolas. As mulheres vestem longos vestidos, capas e capuzes com fitas amarradas em seus queixos.

Mas um outro tipo de gente lhe chama a atenção.

Ao longe, o rapaz ouve um apito a vapor. Minutos depois, homens de trajes esfarrapados e semblantes cansados compõem a multidão. Eles vestem casacos surrados e boinas de operários. Em seus rostos, um olhar fatigado se esconde atrás de seus esfiapados bigodes. As mulheres, igualmente cansadas, caminham com lenços suados, cabelos desarrumados e aventais sujos. Gunther nota que há crianças também. Tanto meninos quanto meninas, elas caminham ao lado de suas mães, vestindo um improvisado uniforme de trabalho.

Aquela cena o deprime. Inevitavelmente o rapaz nota a desigualdade social naquela cidade, como um concomitante contraste entre as classes.

Os operários passam por ele de cabeça baixa, cansados e estressados demais para notar sua presença. Vestindo trajes melhores, dois homens com bengalas e cartolas se aproximam. Levantando suas cartolas, eles o cumprimentam dizendo:

- Good afternoon, sir! How are you going? Nice outfits you have, I must say. [1]

Gunther arregala os olhos. O outro diz:

- Another cold and foggy day today, isn´t it? I wonder how long will it takes until next summer...[2]

Paralisado, o rapaz apenas consegue gesticular que não compreende o que eles estão falando.

Subitamente, alguém aparece atrás dele e gentilmente o pergunta:

- O que foi, rapaz? Você não sabe falar inglês?    

O rapaz olha para trás e vê um senhor barbudo, de cabelos grisalhos e um pouco carrancudo sorrir para ele.

Envergonhado, ele ia dizer que não fala muito bem aquele idioma. Então a surpresa ecoa por sua cabeça, reverberando como um trovão. Mal conseguindo raciocinar, com muito esforço ele sussurra:

- Karl Marx...?!

O velho assente com a cabeça. Falando em inglês, Marx olha para os homens e responde:

- Cavalheiros, perdoem esse jovem alemão. Ele deve ser novo aqui, um exilado talvez. Vocês conhecem o meu país. Prússia e sua despótica monarquia...

Os homens sorriem cordialmente. Novamente levantando suas cartolas, eles se despedem e vão embora junto da multidão.

- E então? – pergunta ele – O que você faz aqui, meu jovem?

Ainda espantado, o rapaz responde:

- Marx, eu não posso acreditar...! O senhor está vivo!

Estranhando-o, Marx responde:

- Ora, mas é claro que eu estou vivo!  

Gunther não sabe o que pensar. Lembrando-se rapidamente do que a ideologia marxista causou, as revoluções, as perseguições e o terror vermelho, o rapaz hesita em se sentir honrado ou enojado ao conhece-lo.

Percebendo que o rapaz não reagia, o velho pergunta:

- Vai a algum lugar?

O rapaz olha ao redor, não fazendo a mínima ideia de onde estava.

- Eu não sei onde estou...

Batendo em seu ombro, Marx responde:

- Você está em Londres, meu jovem! Não reconhece a paisagem?

- Eu nunca vi esse lugar antes...

Suspeitando embriaguez, o velho ri.

- Vamos andando. Não é elegante caminhar bêbado por aí. Muito embora... – complementa ele, indicando o caminho – eu mesmo o faça de vez em quando...

Marx ri, expondo seus dentes amarelados.

Mais adiante, Gunther contempla um modesto prédio londrino de dois andares. Atravessado a rua, o rapaz vê o número do edifício, “28”.

- Espere um pouco. – interrompe ele – Por acaso estamos na Dean Street, Soho?

- Sim, por quê?

Novamente Gunther se estremece em surpresa. Ele vê a História se desenrolar diante dos seus olhos.

Os dois sobem as escadas até a entrada do apartamento. Ao abrir a porta, o rapaz vê uma sala escura, bagunçada e com uma camada de pó sobre os móveis. Imediatamente ele sente o cheiro forte de cigarro, fazendo-o se incomodar. Observando ao redor, ele vê garrafas vazias de bebidas alcóolicas jogadas pelo chão.

- Sinta-se em casa. – diz Marx.

“Difícil”, pensa ele.

Indicando-lhe um sofá, Gunther vê um móvel encardido e empoeirado. Hesitante, ele se senta, mas com muita relutância em sua mente.

- Desculpe não poder te oferecer muita coisa. – diz o filósofo – Mas eu estou passando por algumas dificuldades, como pode ver.

Marx referia-se aos seus graves problemas financeiros ao longo de sua vida, principalmente na Inglaterra.

- Não tem problema. – responde ele.

Uma mulher de longos cabelos negros aparece e lhe oferece uma xícara de café. O rapaz gentilmente a aceita.

- Essa é minha esposa, Jenny.

Apresentando-se, o rapaz diz:

- Muito prazer. Eu sou Gunther.

- Prazer. Seja bem-vindo.

 Os dois se cumprimentam. Ele se espanta ao conhecer pessoalmente Jenny von Westphalen, esposa do ilustre Karl Marx.

- Você fuma? – o filósofo oferece algo em sua mão.

Gunther vê um cigarro feio e de péssima qualidade. Levantando seu braço, o rapaz responde:

- Obrigado, herr Marx. Eu não fumo. - mente ele. 

Dando de ombros, o filósofo pega um fósforo, acende seu cigarro e solta uma fumaça de odor terrível.

Naquele momento Jenny fala com seu marido. Gunther percebe que ela tem um rosto triste e abatido.

- Karl, a comida acabou e o aluguel está atrasado de novo.

Suas palavras soam como uma lamentação. O filósofo responde:

- Eu escreverei para Engels de novo. Mais tarde eu enviarei uma carta.

Sua esposa assente e, despedindo-se, discretamente se retira.

- Minha esposa está triste. Ela já perdeu dois filhos e, no nascimento do terceiro, a criança veio morta ao mundo. – cabisbaixo, ele fuma seu cigarro – Jenny é uma mulher forte, mas não sei o quanto ela ainda suporta...

Consternado, Gunther responde:

- Eu lamento, senhor.

Mudando de assunto, o filósofo pergunta:

- De onde você é, meu jovem?

- Sou de Berlim.

- E o que você faz em Londres?

Improvisando uma resposta, ele diz:

- Vim conhecer aquele que criou a maior e mais importante ideologia de todos os tempos.

Lisonjeado, Marx ri.

- Por acaso o comunismo é tão popular assim na Alemanha?

Gunther sorri, admirando-se do futuro.

- Mais do que o senhor imagina.

Fumando seu cigarro, o filósofo comenta:

- Eu tenho plena certeza de que o proletariado de toda a Europa se unirá um dia, e então iniciaremos a tão sonhada Revolução. Nós implantaremos o socialismo, derrubando o sistema capitalista, erradicando a burguesia e abrindo caminho para o comunismo.

O rapaz se lembra que foi Marx quem criou o termo “capitalismo”. Até sua criação, os pensadores se referiam a esse modelo econômico como “liberalismo”.

- Como o senhor tem tanta certeza?

- O capitalismo é instável e está sujeito a crises periódicas. O trabalho gera riqueza e o preço da mercadoria é obrigatoriamente maior do que o preço do trabalho realizado. Essa diferença entre o custo e o preço seria o lucro da burguesia, o excedente lucrativo pelo trabalho. A isso eu chamo de “mais-valia”. Seu valor estaria sujeito à diminuição devido ao investimento contínuo em novas tecnologias. A burguesia fomentaria crises econômicas para refrear essa diminuição de lucros, assim protegendo seu capital e empobrecendo o proletariado. O crescimento econômico, assim como suas crises, seriam um ciclo engendrado para manter o domínio da classe burguesa sobre o capital.   

Assentindo, o rapaz pergunta:

- E como o senhor imagina a destruição desse ciclo?

- Veja, os meios de produção e o comércio dos quais a burguesia se sustenta surgiu no feudalismo. Em certo momento, os meios de produção se desenvolveram de tal forma que não eram mais compatíveis com o sistema feudal. Ao ser derrubado, o feudalismo foi substituído pela livre concorrência. O novo sistema criou uma constituição política adaptada para atender aos interesses da classe burguesa. Um movimento similar ocorre diante de nossos olhos. A força de trabalho não mais serve às condições da burguesia; ao contrário, ela se tornou tão poderosa a ponto de sublevar seu sistema e impor uma nova ordem, ameaçando a propriedade privada e sua exploração. 

Refletindo, Gunther reconhece que, de fato, a burguesia derrubou os obsoletos sistemas econômicos da Europa, principalmente após a Revolução Francesa. Passando pelo mercantilismo, com sua desigual relação entre metrópole e colônia, a burguesia alcançou o liberalismo econômico moderno, estabelecendo um comércio de livre concorrência, apesar da concorrência ser entre os próprios burgueses.

- O senhor identifica essa ruptura de sistemas com a Revolução Industrial?

- Certamente! – responde Marx – O desenvolvimento da indústria moderna arranca dos pés da burguesia a sua própria fundação, da qual ela produz e se apropria do que é produzido. O que a burguesia produz, sobretudo, são seus próprios coveiros. Sua queda e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis.

Marx estava convicto que, assim como os burgueses derrubaram seus antigos senhores feudais, o proletariado derrubará seus atuais senhores burgueses. Para ele, era iminente uma luta de classes.

- Gostaria que houvessem ideias pacíficas e não violentas para a sociedade em transição. - comenta Gunther. 

- Mas isso é uma grande besteira!

O filósofo se irrita, fazendo-o se assustar.

- Por quê?

- A transição de uma sociedade jamais será pacífica! Não importa o quão pacífica a ideia seja! Acreditar nisso é pura idiotice!

O rapaz não consegue entender a razão de tanta grosseria. De fato, Marx tinha um temperamento difícil, sendo rude e estúpido até com seu melhor amigo, o Engels.

- Eu não entendi.

- O proletariado jamais terá suas ideias ouvidas! Em todas as épocas, as ideias da classe dominante eram as ideias dominantes, isso é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força intelectual dominante. Não importa o quão brilhante seja o intelecto do proletário, nessa sociedade ele jamais será ouvido.

Nesse momento, Gunther percebe que a luta de classes também abrangia os círculos intelectuais.

- Há esperança para o proletário que deseja trilhar o caminho do intelecto para a mudança da sociedade?

- Muito pouca. – responde ele – Além de excluído, o proletariado também sofre com o que chamo de “alienação” do trabalho. O capitalismo media as relações trabalhistas através de commodities, incluindo a força de trabalho que é comprada e vendida no mercado. A possibilidade de alguém vender sua força de trabalho é um sinal de alienação de sua própria natureza e capacidade de mudar o mundo. Eu chamo tal ato de “fetichismo das commodities”, da qual a mercadoria produzida, ou commodities, parece ter vida própria e os humanos produtores se adaptam a elas. 

- Está dizendo que, para sobreviverem, os proletários alienam a si mesmo, sua força de trabalho e sua consciência?

- Exatamente. Os burgueses os alienam deliberadamente para que nunca se revoltem, assim não irrompendo uma luta de classes.

Achando aquilo tudo muito interessante, Gunther pergunta:

- Herr Marx, o que é uma luta de classes?

- O destino inevitável da sociedade capitalista. A História de toda sociedade até hoje é a história da luta de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestres e companheiros, em uma palavra, opressores e oprimidos, sempre estiveram em constante oposição uns aos outros, envolvidos em uma luta ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta. Eis aí a base da minha ideologia.

O rapaz reflete. Para Marx e Engels, ideologia significa as ideias que refletiam os interesses de uma classe específica em um período específico da História, mas que seus contemporâneos a viam como universal e eterna. Os filósofos argumentavam que tais ideias não eram apenas meias verdades, mas que também serviam como uma importante função política. O controle que uma classe exercia sobre os meios de produção não incluíam apenas a produção de alimentos ou bens manufaturados, mas também a produção de ideias. Elas influenciavam a classe subalterna a adotarem ideias contrárias aos seus interesses, como a religião. 

- O senhor crê que a religião seja uma ferramenta burguesa para controlar a classe operária?

- O Estado e a sociedade produzem a religião. Ela é a teoria geral desse mundo, a sua sanção moral e sua base geral de consolação e justificação. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma das situações sem alma. A religião é o ópio do povo.

Apesar de já conhecer a citação, Gunther se assusta ao ouvi-la de seu autor. Marx continua:

- A abolição da religião, enquanto felicidade ilusória dos homens, é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito de sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que precisa de ilusões. A crítica da religião liberta o homem da ilusão, de modo que pense, atue e configure a sua realidade como um homem que perdeu as ilusões e reconquistou a razão, a fim de que ele gire em torno de si mesmo e, assim, em volta do seu verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório que gira em volta do homem enquanto ele não circula em torno de si mesmo. A tarefa da filosofia é desmascarar a auto-alienação humana nas suas formas mais sagradas.

O rapaz assente, pensando a respeito. Ao criticar a religião, Marx se assemelhava a Nietzsche, do qual, ao atacar a base moral da sociedade, atacava também a religião, assim propondo uma mudança.

Então o filósofo começa a tossir fortemente, tão forte a ponto de engasgar. Preocupado, o rapaz se levanta, intentando ajuda-lo. Marx acena com a mão, acalmando-o.

- Não se preocupe. Eu estou bem.

Gunther percebe que, além da poeira, aquele apartamento também denotava doença. Jenny permanecia deitada no outro quarto onde sua empregada, Lenchen, cuidava dela. Então o rapaz se lembra. A saúde daquela família era muito frágil, talvez devido à precariedade financeira. Infelizmente Jenny partiria primeiro, deixando o velho Marx sozinho e amargurado até o final de sua vida.

- O senhor quer água?

- Quero sim, obrigado.

O rapaz lhe dá uma caneca com água. O filósofo diz:

- Reconheço que meus problemas de saúde nunca foram capazes de sufocar minha paixão por filosofia.

Sendo um apreciador da dialética de Hegel, o filósofo sincretizou as teorias hegelianas com suas próprias, criando o que chamava de materialismo dialético.

- Creio que os filósofos clássicos foram muito importantes para o senhor, não?

- Os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras. O que importa é modifica-lo! – exclama ele, empolgado.

- É por isso que o senhor é ferrenhamente contra a propriedade privada?

- Eu quero abolir a propriedade privada! Mas em nossa sociedade, ironicamente ela já está abolida para nove décimos de seus membros.

Marx se refere à gritante desigualdade social sob o liberalismo.

- O senhor tem razão. Há muita pobreza disseminada por aí. Mas a classe dominante não permitirá ser expropriada passivamente. Eles resistirão. E o único meio de libertar a classe operária é através da Revolução, como o senhor disse.

- As revoluções são a locomotiva da História. – responde ele, convictamente – E em nosso tempo, os trabalhadores não têm nada a perder em uma revolução comunista a não ser suas correntes.

Inspirando-se, o rapaz pergunta:

- Deixe-me perguntar uma coisa. O senhor se refere ao proletariado industrial em oposição ao sistema estatal burguês, mas e quanto às demais classes? Quero dizer, e quanto às regiões, e até países, mais atrasados que ainda não alcançaram maturação social suficiente a ponto de se industrializarem?

Calmamente o filósofo responde:

- O destino de todas as sociedades é a industrialização. A sociedade está passando por uma silenciosa revolução, da qual ela deve ser submetida, sem tomar conhecimento da existência humana que ela destrói. As classes e as nacionalidades fracas demais para dominar as novas condições de vida, devem ceder. Mas, citando principalmente o economista David Ricardo, pode haver algo mais pueril e míope do que os pontos de vista dos economistas que acreditam, sinceramente, que esse lastimável estado transitório não significa nada além da adaptação da sociedade às propensões aquisitivas dos capitalistas?

Desconcertado, Gunther apenas responde:

- Eu não sei.

- Na Grã-Bretanha – continua ele – o funcionamento desse processo é mais transparente. A aplicação da ciência moderna remove a terra dos seus habitantes, mas os concentra em cidades industriais.

Gunther entende que Marx enxerga a industrialização de todas as sociedades como inevitável. Ele discorda dos economistas, que afirmavam ser aquilo uma evolução do capitalismo, mas defendia que aquele processo provocaria uma transformação profunda na sociedade através da Revolução.

O filósofo tosse novamente, reclinando-se esgotado em sua poltrona. O rapaz deve deixá-los descansar agora.

Diferente do que Gunther pensou, não foi um monstro que criou a ideologia funesta do comunismo, mas uma pessoa normal, com problemas normais, como qualquer outro. Vê-lo definhar ali, com problemas de saúde, o intriga. Aquele homem, tossindo e ofegando à sua frente, foi o responsável pelo maior desastre sociopolítico do século XX, com um número de mortos se aproximando dos 100 milhões. Entretanto, ao analisarem o socialismo teorizado e o socialismo implantado, alguns estudiosos afirmam que, se Karl Marx estivesse vivo, ele não seria marxista.

“É como se comparar a teoria da república de Platão com sua atual implantação realizada”, pensa ele. “A realizada é defeituosa e radicalmente diferente”. Mas, como Philip Scheidemann lhe disse, a república platônica é, tanto quanto o comunismo marxista, uma utopia.

“Isso significa que erramos ao tentar implanta-las?”, pergunta-se ele.    

Gunther se confunde. “Matar Karl Marx preveniria um futuro sangrento? Certamente que não, pois na quarta dimensão inúmeros futuros existiriam”, reconhece ele. E o rapaz tornaria o filósofo um mártir, morto ao defender sua própria ideologia.

“Não, eu não faria isso”, pensa ele.

Marx foi um anticristo para alguns e um salvador para outros. Mas o que Gunther vê é um velho doente e miserável, vítima de seu próprio fervor político.

Mas sua ideologia claramente defendia o uso da violência, a revolucionária luta de classes e a ditadura do proletariado. “Sua revolução traria justiça para os oprimidos, mas até que ponto?”. A planificação econômica e o modelo autossustentável não erradicaram a pobreza, ao contrário, a multiplicaram.

“De quem é a culpa? Para onde foi a riqueza dos nobres, burgueses e eclesiásticos, supostamente intentada a saciar a fome dos miseráveis?”, pergunta-se ele. “Seus célebres sucessores, Lênin, Mao, Kim... aplicaram suas teorias sociopolíticas, e todos eles resultaram em desastrosos fracassos. Será que todos eles o deturparam?”. Gunther não sabe dizer.

De qualquer forma, uma coisa o rapaz reconhece. Apesar de todos os esforços, erros e acertos, ele afirma para si mesmo:

“Não se produz riqueza dividindo-a!”.

 

 



[1] “Boa tarde, senhor! Como vai? Belos trajes, eu devo dizer.” em inglês.  

[2] “Outro dia frio e nebuloso, não? Me pergunto quanto tempo até o próximo verão...”

terça-feira, 23 de março de 2021

Tiergarten - 23 - O Turista Brasileiro

 


Agora Gunther sabia como ser mais forte, ele havia se tornado um Übermensch. Ele sente como se tivesse se livrado de um enorme peso em suas costas. Libertado dos grilhões das falsas moralidades, a moralidade de escravo, ele reflete sobre os valores que acaba de absorver.

“Não mais eu irei me constranger por minha superioridade. Não mais eu deixarei que sufoquem meus talentos, não mais permitirei que apaguem meu brilho. Na busca por meu objetivo, eu brilharei mais que o sol”.

Está um dia frio em Berlim, apesar de ensolarada sob o céu azul.

“Negar a vida não me fará mais forte. Como me fortalecerei rejeitando minha vitalidade? Deixarei cada célula de meu corpo obedecer aos impulsos de minha natureza, regida pela perpétua vontade de poder”.

Para Gunther, os comunistas obedeceram à vontade de poder em seu objetivo irrefreável de começar a Revolução, inclusive tornando-se superiores na abolição dos valores morais da antiga sociedade “burguesa”. Entretanto, eles cometeram um erro gravíssimo. Em sua ideologia, os comunistas negam o egoísmo da natureza humana, tornando-se eles mesmos egoístas e traindo os ideais do proletariado.

“Eles falharam em rescrever a moralidade, e agora os heróis se tornaram os vilões”.

Gunther está decidido a destruir esse sistema na Alemanha, não só por amor, mas pela libertação de seu povo, subjugado por uma engenharia social falha da qual o aprisiona e o oprime.

“O vigor da Revolução se tornou a ditadura da opressão”, pensa ele. “A abolição de Deus abriu o caminho para a tomada do poder pelo partido, e esse partido tomou o lugar de Deus, redefinindo a moralidade de escravo e o Estado sendo o novo senhor”.

Como disse o próprio Lênin:

“Usaremos o idiota útil na linha de frente. Incitaremos o ódio entre as classes. Destruiremos a sua base moral, a família e a espiritualidade. Comerão as migalhas que caírem de nossas mesas. O Estado será Deus”.

O extremismo ideológico sempre levou os revolucionários a destruírem a moralidade e a Deus. Em seu lugar, um Estado falho, sanguinário e opressivo surgia, governado pelo Velho Homem ao invés do Super Homem.

“Sacrificam os dissidentes políticos no tribunal revolucionário, assim como os hereges nas fogueiras da Inquisição”.

Cheio de desprezo, o rapaz continua sua caminhada, com mil pensamentos em sua cabeça.

Percorrendo a extensa Unter den Linden, ele novamente chega à Marx-Engels Platz, no coração de Berlim Oriental. No outro lado da rua, o rapaz vê o Palast der Republik, mas não é para lá que ele se dirige. Na verdade, após voltar ao passado, vivenciar violentos eventos históricos e até ser morto, ele prefere ficar bem longe daquele lugar.

Atravessando a avenida, ele caminha sobre a praça adornada com duas grandes estátuas, as de Engels e Marx. Adiante, ele vê o magnífico Altes Museum[1] e a suntuosa Berliner Dom[2] , a catedral protestante de arquitetura barroca e renascentista.

Na praça haviam muitos turistas. Gunther se intriga, pois sempre acreditou que era muito difícil conseguir um visto de entrada na RDA. Devido a constante espionagem da Guerra Fria, ele mantinha essa opinião.

“Talvez seja só minha impressão”, pensa ele. “Afinal, Alexanderplatz era visitada por turistas todos os dias”.

Um homem tira fotos do museu no meio da praça. Aproximando-se, ele vê um homem de calça boca de sino, camisa xadrez dentro da calça e barba e cabelo um pouco compridos. Ao avista-lo, o homem o reconhece.

- Guten Tag, amigo! Lembra-se de mim? Nós conversamos brevemente em frente ao Palast der Republik. – pergunta o homem, sorrindo.

O rapaz sorri e o cumprimenta.

- Sim, eu me lembro. Como vai?

- Estou muito bem. Eu me chamo Luiz Carlos. Não me lembro se já me apresentei antes.

- Eu sou Gunther.

Eles se apertam as mãos. Olhando ao redor, o homem comenta:

- Linda essa praça, não? Berlim Oriental é uma cidade muito bonita, parabéns.

Gunther nota sua dificuldade em pronunciar a língua alemã.

- De onde você é, amigo?

- Sou do Brasil.

O rapaz se espanta. É a primeira vez que ele conversa com alguém de tão longe.

- Meu Deus! Eu nem sei onde seu país fica...

Luiz Carlos sorri.

- Fica na América do Sul.

Ponderando, o rapaz se lembra que a maioria dos nazistas fugiu para a América do Sul.

- E o que faz na Alemanha Oriental, herr Luiz?

- Estou fazendo um turismo pelo Leste Europeu. Visitei a União Soviética, a Polônia, os países bálticos e agora tenho a honra de visitar a Alemanha! Esperei ansiosamente para conhecer seu país! Uma nação maculada pela ideologia nazifascista, mas finalmente liberta de seus algozes burgueses pelo heroísmo dos russos proletários e bolcheviques!

Gunther se intriga com a empolgação do homem.

- Suponho que você seja um comunista?

- Com muito orgulho, camarada! Sou um comunista de coração! Inclusive meu nome foi inspirado em Luiz Carlos Prestes, o famoso “cavaleiro da esperança”. Ele foi membro do Partido Comunista Brasileiro, marido da ativista Olga Benário e líder da Coluna Prestes.

O rapaz pergunta:

- Coluna Prestes?

- Sim. Um movimento político e militar dos anos 20 que reivindicava o voto secreto, a educação pública, o combate a injustiça social e a erradicação da miséria no Brasil. Eles combatiam o regime burguês e oligárquico da época, composto de uma corja de bandidos latifundiários e exploradores dos trabalhadores rurais do nosso país.

Próximo à Karl Liebknecht Strasse, Gunther nota que o governo atual homenageava os antigos heróis comunistas. Interessando-se no assunto, o rapaz pergunta:

- Esse homem deve ser considerado um herói em seu país. Por acaso seu povo celebra sua morte? 

Com forte sotaque português, o turista responde:

- Não, ele não está morto! – sorri ele – Na verdade, ele esteve exilado na União Soviética e regressou há alguns anos ao Brasil. Inclusive visitou seu glorioso país em 1959, durante o governo Ulbricht.

- Exilado? – pergunta ele – O que aconteceu?

- Diferente do seu país, que se livrou do fascismo, meu país está no caminho reverso, sofrendo com o governo fascista de uma ditadura militar.

Gunther se espanta. Ele achou que o último governo fascista tivesse terminado na Espanha de Francisco Franco.

- Isso é horrível! – lamenta-se ele – Imagino que os fascistas estejam destruindo a democracia com sua ditadura.

- Com certeza! Através de um sistema eleitoral fraudulento, eles elegeram o quarto ditador.

Então o rapaz se intriga.

- Elegeram...?

- Sim. Nosso parlamento ainda elege um presidente através do voto secreto.

- Parlamento? – surpreende-se ele – O ditador de vocês não fechou o Congresso?

- Os militares o dissolveram algumas vezes, estabelecendo Atos Institucionais que censuravam direitos civis e políticos quando convenientemente necessário. Há anos exigimos as eleições diretas em um movimento conhecido como “Diretas Já!”, mas somos continuamente ignorados pelo Congresso.

- Seu país vive uma ditadura, mas seu Congresso funciona há anos?

- Exatamente.

Gunther acha aquilo muito estranho de entender. “Como pode uma ditadura permitir o funcionamento do parlamento e eleger seu quarto presidente?”.

- Você disse que elegeram seu quarto presidente. Nesse caso, seu país teve um aumento contínuo das forças armadas em detrimento da infraestrutura?

- Não exatamente. As polícias ganharam amplos poderes, em especial para perseguir opositores, mas o exército não tem intenções belicistas no continente. Na verdade, os militares entregaram o Brasil ao capital estrangeiro, atraindo inúmeras empresas de alta tecnologia e gerando empregos. Eles também construíram a maior usina hidroelétrica do mundo, assim como uma extensa ponte de 12 quilômetros sobre o mar ligando o Rio de Janeiro a Niterói. Nunca o país teve um salto tão grande na economia.

O rapaz franze a testa, admirado.

- Mas o capital estrangeiro é controlado pelo corporativismo, típico dos regimes fascistas? – pergunta ele.

Luiz Carlos pondera. No corporativismo, as relações empregador e empregado eram intermediadas pelo Estado. As empresas produziam o que lhes eram ordenado, greves eram ilegais e os sindicatos controlados ou impedidos de existirem. Por fim, ele responde:

- Não. Em meu país as empresas funcionam normalmente, os empregados têm excelentes direitos trabalhistas e os sindicatos são permitidos. Devido a essa não intervenção econômica, houve um aumento expressivo da classe média e da qualidade de vida. Porém, às vezes ocorrem algumas greves organizadas pela oposição.

Mais uma vez, Gunther se espanta.

- Vocês têm uma oposição?!

- Sim, tanto civil quanto política. Nossa militância inclusive conta com guerrilheiros armados, treinados em Cuba para derrubar esse governo golpista.

- Meu Deus! Então vocês estão à beira de uma guerra civil! O que aconteceu para o seu país chegar a esse ponto?

- Nosso presidente, João Goulart, sofreu um golpe de Estado. Na noite do dia 31 de março os militares saíram de seus quarteis e sitiaram a cidade do Rio de Janeiro, onde se encontrava nosso presidente. Eles exigiram sua renúncia e ele foi obrigado a fugir. Isso ocorreu na manhã do 1º de abril, o dia dos tolos, nome sugestivo à burguesia que apoia esses golpistas.

- Mas seu presidente não reagiu ao golpe? Ele simplesmente deixou o poder?

- Infelizmente, mas foi melhor assim. Se ele convocasse uma resistência, haveria uma sangrenta e duradoura guerra civil. O presidente tinha o apoio da militância e dos sindicatos. Os golpistas, da CIA e dos Estados Unidos. Seria um massacre.

Gunther concorda. E então ele pergunta:

- E qual foi o motivo por trás do golpe?

- Goulart era favorável aos governos comunistas de países como a China, Cuba e União Soviética. Ele inclusive conheceu pessoalmente Mao Zedong, Nikita Khrushchov e Che Guevara. Em suas reformas políticas, o presidente tentou promover a reforma agrária, expropriando terras improdutivas em prol das famílias de baixa renda. Ele também propôs a reforma fiscal, limitando o lucro do capital estrangeiro. Houve a reforma eleitoral, legalizando o Partido Comunista e o voto de analfabetos, e a reforma bancária, permitindo o acesso ao crédito aos pequenos produtores. Isso enfureceu a elite conservadora, da qual via ameaçada a manutenção da propriedade privada. A elite passou a financiar manifestações populares, conclamando ao exército para que fizesse uma intervenção militar.     

- De fato, vejo que o presidente deposto era um verdadeiro herói da classe operária. Os guerrilheiros lutam para restitui-lo ao cargo?

- Não.

Com a inesperada resposta, o rapaz se confunde.

- Então eles lutam para restabelecer a democracia?

- Também não.

- O quê? – confunde-se ele.

- A guerrilha não luta por democracia, mas para implantar a ditadura do proletariado.

Dessa vez, Gunther deixa escapar um sorriso.

- Eu acho que não entendi.

- Como eu disse antes, os guerrilheiros lutam contra uma ditadura militar fascista em nosso país. Se obtiverem sucesso, aboliremos a opressão e a censura do nosso povo.

- Mas lhes foi tirada a liberdade de expressão?

- Não.

- Não?

- Quero dizer, os militares perseguem quem faz críticas ao regime, classificando-os como subversivos. Muitos são torturados e mortos nos porões das delegacias.

- Que horror! E quem são esses perseguidos pelo regime?

- Comunistas, estudantes, jornalistas e qualquer simpatizante das guerrilhas.

- Entendi. Os russos deveriam financiar esses guerrilheiros. Como eles se mantém na luta?

- Roubando cargas em rodovias, ligando-se ao tráfico de drogas e assaltando bancos. Eles também invadem quarteis atrás de armas.

O rapaz arregala os olhos. As ações guerrilheiras se assemelhavam a de bandidos.

- Bem, roubar armas é necessário quando o governo proíbe sua venda.

- Na verdade, eles não proíbem.

Novamente Gunther se desconcerta.

- A ditadura militar permite a venda de armas em seu país?

- Sim e também o porte. Devido a isso, nunca antes o índice de crimes esteve tão baixo.

- Será mesmo? Devido à censura na imprensa, talvez os números sejam falsificados.

- Mas lá ainda existe a liberdade de imprensa. Pelo menos limitada a interesses políticos.

O rapaz coça sua cabeça.

- Como assim?

- Surgiram muitas emissoras de televisão. Entretanto, elas são largamente financiadas pelo governo, por isso omitem e ocultam a opressão da ditadura. Mesmo os jornais impressos são vistos como conservadores, pois são presididos por burgueses ligados ao regime.

- A ditadura parece ser bem rica. De onde vem seu dinheiro se eles não saqueiam a economia?

- Neoliberalismo. – responde ele, resolutamente – A teoria econômica de Milton Friedman que extingue direitos trabalhistas e enriquece a classe média e as indústrias. Pinochet implantou o neoliberalismo em seu país, tornando ele e sua gangue em milionários da noite para o dia. E veja o que isso custou: 40 mil chilenos mortos.

- Mas em seu país houve esses assassinatos em massa como no Chile?

-Não. Os números estimam-se em quatrocentos no máximo.

- Quatrocentos mil?! – espanta-se Gunther.

- Quatrocentas pessoas. – tranquiliza ele – Mas é muito difícil ter certeza devido a censura da imprensa. Nossas maiores fontes são a própria militância.

Acalmando-se, o rapaz pergunta:

- A militância deve sofrer muito no Brasil, não é? Obrigada a sempre fugir e se esconder.

- Na verdade, não. Os militares cuidam que ela não se radicalize, empurrando-a para as universidades. Eles esperam que os militantes se organizem em partidos, substituindo a luta armada pela política, assim poupando vidas.  

Apesar de achar estranho, o rapaz assente.

- E quanto às minorias? A ditadura militar deve perseguir algumas minorias, como é típico dos regimes fascistas, não?

- Na verdade, não. Os militares têm um lema conciliatório chamado “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Lá eles não perseguem raças como judeus ou negros, ou qualquer outra etnia. Eles só perseguem os subversivos e os comunistas.

- E você é um exilado? Sendo comunista, creio que os militares o perseguiram e você foi obrigado a fugir do país?

- Não, eu só estou a turismo, mesmo.

O rapaz não consegue acreditar no que ouve.

- A ditadura brasileira permite que seus cidadãos deixem livremente o país?

- Sim. Meu pai é um juiz federal e minha mãe uma servidora pública. Após muita insistência, eles aceitaram em me dar essa viagem pela Europa como presente de aniversário. Semana passada eu fiz trinta anos! Parabéns para mim! – ri ele.

- Espere um pouco. Seus pais trabalham para o regime?

- Sim, como agentes infiltrados nos bastidores do poder. Quando chegar o momento certo, derrubaremos esse sistema burguês!

Lembrando-se dos necessitados, Gunther comenta:

- Espero que nesse dia vocês se lembrem dos mais pobres.

- Sim, os mais pobres... – responde ele, sem se importar.

Nesse momento o rapaz percebe. O turista era um homem rico.

- E intolerância religiosa? Eles perseguem pessoas de alguma fé?

- Não, mas não me incomodaria se eles perseguissem os cristãos. Desde séculos atrás o cristianismo foi responsável pelo patriarcado, racismo, machismo, escravidão, inquisição, xenofobia, homofobia e genocídio de árabes no Oriente Médio. Eis aí uma religião que deveríamos extinguir!

Gunther arregala os olhos. Luiz Carlos falava com a intolerância de um ditador, como aqueles que ele dizia combater.

- Entendo.

Um tempo depois, o turista pergunta:

- E então? É lamentável o fascismo em meu país, não?

Jocosamente o rapaz responde:

- Não.

- O quê?!

- Na verdade eu achei um fascismo bem curioso...

- Por que curioso?! – irrita-se ele.

- É um fascismo com liberdade de expressão, de imprensa, de culto religioso, de raças, de etnias, de eleições para o parlamento, de compra de armas, de livre circulação e de manifestações sindicais e grevistas. É tão incrível que permite em seu país o investimento de capital estrangeiro, algo impensável na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler.

Escandalizado, o turista exclama:

- Como ousa falar que meu país é livre? Os brasileiros sofrem com perseguição política, censura da imprensa e tortura!

- Seu governo promove a eugenia, a eutanásia e o aborto de crianças deficientes?

- Não.

- Seu governo apoia o aumento maciço do exército, planejando incitar uma guerra?

- Não.

- Seu governo libera o uso de drogas para estimular a eficiência dos soldados no campo de batalha?

- Não.

- Seu governo doutrina as crianças nas escolas, promovendo o culto à personalidade?

- Não.

- Seu governo já declarou apoio à Itália fascista, à Alemanha nazista ou a qualquer outro governo fascista

- Não.

- Seu governo já fez alguma declaração antissemita, anticapitalista e anti Estados Unidos?

- Não.

O rapaz ergue os ombros e as palmas das mãos.

- Então o seu país não é fascista!

Irritado, Luiz Carlos responde:

- É fascista sim! Governado por uma elite burguesa, antidemocrática e contrária aos anseios dos trabalhadores!

- Mas que lhes dá empregos e estabilidade econômica! – ironiza ele, rapidamente – Eu não duvido que seja um governo de golpistas e assassinos que prendem e matam opositores, mas chama-lo de fascista eu acho um puro exagero!

- Pois saiba que, para enganar o povo, os militares trocaram as fardas pelo terno e gravata para tomar o poder.

- Em Cuba, os comunistas fizeram o inverso. Fidel Castro, um advogado, e Che Guevara, um médico, trocaram o terno e gravata pelas fardas e também tomaram o poder. Quem é o mais errado?

- Assassinato e tortura não é fascismo para você?

- Assassinato e tortura também ocorreram no socialismo, principalmente na União Soviética. Não é exclusivo do fascismo, mas é característico das ditaduras.

Furioso, Luiz Carlos exclama:

- Fascista!

- O que disse?

- Eu disse fascista!

O turista aponta o dedo para ele, vociferando de ódio.

- Ora, eu não sou um fascista. Eu sou um comunista! Não está vendo que eu vivo no melhor lado de Berlim?

Novamente o rapaz o ironiza.

- Você não é um comunista! Você é um colaborador da elite branca e burguesa que governa o meu país!

- Elite branca? – surpreende-se ele – Por acaso isso foi racismo? Conheço um regime que apoia o racismo, aquele mesmo que você diz combater.

Luiz Carlos explode em ira. Aviltado, ele tromba seu ombro em Gunther e vai embora, deixando-o sozinho no meio da praça.

O rapaz ri para si mesmo, tentando entender o que acaba de acontecer.

 

§

 

De volta para casa, o rapaz descansa em sua poltrona. Enquanto divaga em pensamentos, o telefone toca.

- Alô?

- Olá, Gunther. Como vai?

- Eu estou bem, moça. Há quanto tempo não falamos? Algumas décadas, talvez?

- De fato, faz muito tempo desde a década de 30.

- Agora eu conheço você. Você é uma enfermeira russa que me supervisiona enquanto os médicos fazem experimentos em mim.

A voz ri.

- Você não deveria acreditar em tudo o que vê na televisão.

O rapaz concorda.

- Morando no Bloco Oriental, concordo plenamente.

- E então? Como se sente sendo um Super Homem?

- É o mínimo que preciso para conquistar o amor de Anneliese.

- Destruir o socialismo não será fácil. Ainda há muitas pessoas que o apoiam, como aquele turista de Marx-Engels Platz.

Gunther ri.

- Aquele é só mais um garotinho mimado pelo papai e pela mamãe burgueses. Um alienado rico que culpa os ricos por você não ser rico.

- Anneliese é uma garotinha rica e mimada para você?

Então o rapaz para de rir. A garota era uma autêntica pobre e comunista.

- Não.

- Mas ela também defende esse regime.

Gunther concorda, sabendo que aquilo era verdade. Irritado, ele se pergunta:

- Mas que ideologia é essa que seduz ricos e pobres e só traz miséria a todos?

A voz no telefone pergunta:

- Você realmente quer descobrir?

- Não preciso. Eu já vivo sob influência dela.

A voz o corrige.

- Você vive debaixo dela, mas não é um teórico dela.

- Por que essa sombra ainda paira sobre mim?

- Ideologias são assim. Instauram regimes, aprisionam cidadãos, não os deixam partir...

- Você tem que ser um monstro para criar tal coisa. Não consigo acreditar que alguém criaria algo tão opressivo.

- Não é necessário. Apenas veja com os seus próprios olhos.

- O que quer dizer?

Então as paredes começam a girar. O rapaz sente um sono profundo e, largando o telefone, imediatamente adormece em seu quarto.   

 

 



[1] Velho Museu em alemão

[2] Catedral de Berlim

sexta-feira, 19 de março de 2021

Tiergarten - 22 - Übermensch


 

É uma bela manhã nos alpes suíços. Nuvens passam pelas cordilheiras e a neve repousa no topo das montanhas. Gunther sobe uma montanha ao lado de Sils Maria, um belo e tranquilo vilarejo no sul da Suíça.

A trilha é longa e íngreme. A pesada caminhada agrava sua frágil saúde, deixando-o fraco. Dores de cabeça o afligem, a náusea o desequilibra, mas sua força de vontade o faz prosseguir ao seu objetivo. Então ele pensa:

 “A vida é como essa montanha. De seus pés, ela parece grande, alta e assustadora. Ao escalar seus paredões rochosos e subir suas sinuosas trilhas, a dor, o cansaço e o inexorável clima o farão pensar em desistir. E, de fato, muitos desistem. Mas os superiores, aqueles com vontade inabalável e espírito excepcional, com muito esforço continuarão até finalmente conquistarem o topo”.

“Sim”, continua ele, “a caminhada será longa, angustiante e penosa, mas a magnífica vista do cume fará tudo valer a pena”.

Durante a subida, Gunther reflete sobre a natureza de tudo. Em brilhantes ponderações, ele tem o seguinte pensamento:

“Portanto, o sofrimento é necessário para a formação do homem; todo homem de boa compleição deve trilhar esse caminho. Essas dores podem ser bastante penosas, mas sem dores não é possível tornar-se guia e educador da humanidade. E coitado daquele que queira sê-lo sem ter essa pura consciência!".

Para Gunther, ninguém que não tivesse conquistado o topo da montanha podia tornar-se proeminente. A dor é uma constante e tentar separa-la da vida é embarcar em um ato tolo, covarde e infrutífero.

Começar a escalar a montanha é o início da dor. Alguns param perto da base, encurtando o sofrimento. Outros avançam até a metade, guiados até o limite de sua ambição. Mas os excepcionais flagelam-se a na excruciante subida onde cada passo é um novo ferimento, uma nova gota de sangue deixada pelo caminho.

“Pois para mim, a vida vai ficando cada vez mais dura perto do topo”.

Diante dessa reflexão, ele faz o seguinte desejo:

“A todos com quem realmente me importo, desejo sofrimento, desolação, doença, maus tratos, indignidades, o profundo desprezo por si, a tortura da falta de confiança e a desgraça dos derrotados!”.

Pelo bem de todos, Gunther quer que todos sofram.

Ignorando as dores de cabeça, ele continua subindo, mas a náusea é forte demais e ele é obrigado a parar. Em longos e pesados suspiros, ele se apoia em uma pedra e vomita. Sentando-se, ele espera a náusea passar um pouco.

O sofrimento da saúde debilitada o acompanhou por toda a sua vida. Lembrando-se disso, ele pensa:

“O gênio que sobrevive ao sofrimento que lhe cria e lhe acompanha acaba superando as noções de 'bom' e 'mau', e a moral existirá apenas como um vestígio de uma cultura inferior”.

- Ah, a moral! – exclama ele.

Gunther desprezava a moral, ou como ele chamava, os “ideais ascetas”. Para ele, o ascetismo era proveniente de uma dicotomia de castas onde a “moralidade de senhores” era deformada em favor da “moralidade de escravos”. Os valores eram invertidos; os “homens bons”, ou seja, aqueles felizes por serem ricos, fortes, saudáveis e belos eram sabotados e vilipendiados pelos “homens maus”, ou seja, os infelizes por serem pobres, fracos, doentes e feios. Para o rapaz, essa inversão era consequência do ascetismo, uma doutrina que rejeitava as inclinações da carne ao ponto de ser tornar inimiga dela, odiando-a.

“São inimigos da dádiva do corpo”, pensa ele, enquanto caminha.

A inversão da moralidade de senhor e escravo era fruto do ressentimento dos escravos, uma forma de vingança passiva contra os belos, valentes e heroicos pertencentes à casta dos senhores. O ascetismo fomentava essa inversão, mas agora era reforçada pelo mais novo inimigo de Gunther: o Cristianismo.

“Para ler o Novo Testamento, é conveniente calçar luvas. Diante de tanta sujeira, tal ação é necessária”, pensa ele.

O rapaz detestava essa doutrina de negação da vida. Os prazeres carnais são abolidos e a temperança, castidade e recato glorificados em um código moral novo, proveniente de um plano espiritual superior conhecido como o “Reino de Deus”.

Para Gunther, o cristianismo era uma extensão da moralidade de escravo, algo que desgraçou a sociedade greco-romana e agora retornava de cara nova sobre toda a Europa.   

Considerando essa religião, que exaltava a fraqueza e condenava a força, uma doença na sociedade, o rapaz pensa:

“O cristianismo é chamado de religião da misericórdia. Misericórdia é o oposto das emoções que elevam nossa vitalidade: ela tem um efeito deprimente. Somos privados da força quando sentimos misericórdia. Essa sofrível perda de força infligida na vida é agravada e multiplicada pela misericórdia. Misericórdia torna o sofrimento contagioso”. 

Apesar de suas duras críticas, Gunther não era contra Cristo, mas contra seus seguidores que pregam e não praticam o que seu Senhor lhes ensinou. De fato, o rapaz tinha aversão aos ensinamentos do apóstolo Paulo que, ao doutrinar os gentios no conceito de bem e mal, reclassificava os senhores como maus e os escravos como bons, completamente ignorando que o próprio apóstolo colocou ambos sob a mesma autoridade de Cristo.

“O estabelecimento de um sistema moral baseado no bem e no mal é um erro calamitoso e os cristãos deveriam reavaliar seus valores religiosos na sociedade, substituindo-os por aqueles que exaltam os impulsos da vida terrena ao invés de repudia-la”.

Restabelecer os valores só é possível sob uma única condição. Então, parando no caminho, Gunther olha para o céu e tem uma tremenda conclusão. Ele pensa:

“Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós, os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso, sucumbiu aos golpes de nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade desse ato não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nossos próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu ato mais grandioso e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê desse ato, de uma história superior a toda a história até hoje!”.

Mas, assim como a montanha à sua volta é imensamente grande, o caminho do Homem para sua libertação é imensamente longo. Subindo os degraus de pedra, ele novamente reflete:

“Deus está morto. Mas considerando o estado em que se encontra a espécie humana, talvez ainda por um milênio existirão grutas em que se mostrará a sua sombra”. 

A falta de ar e tontura o enfraquecem. Reconhecendo as próprias fraquezas, ele olha para cima e pensa:

“Não é possível para o homem atual rescrever a moralidade. É necessário um homem novo, um homem que compreenda a vontade de poder, ou seja, um Super Homem”.

Vontade de poder era a forma de Gunther classificar o comportamento humano. Para ele, viver não se resumia apenas à sobrevivência e à conservação do corpo, mas à necessidade humana de se superar, exceder a própria força e conquistar respeito, território e poder.

A metafísica, sendo algo não material, e a religião, focada no campo espiritual, eram rejeitadas por ele. Para Gunther, a vontade de poder era essencialmente um impulso físico de vida. O ascetismo, o niilismo e o utilitarismo eram teorias que rejeitavam a vida, dessa maneira abominadas por ele. Assim como o ditado diz: “o que importa é o caminho e não o destino”, a felicidade para Gunther não era o objetivo, mas sim a superação das adversidades pelo caminho que o levariam à verdadeira felicidade.

A vontade de poder residia em cada elemento da natureza, estimulando a vida. Ela era a força motriz das ambições humanas, pois os provocavam a sempre buscar o máximo da vida através do esforço, da conquista e da realização. Reconhecendo isso, ele pensa:

“O mundo em si é a vontade de poder, e nada mais. E nós mesmos somos a vontade de poder, e nada mais”.

 Horas se passam. Tropeços são constantes no solo pedregoso, concussões ferem seu corpo, problemas de saúde lhe afetam... E então, após todas as dificuldades, o rapaz se agarra a uma pedra e finalmente alcança o cume.

A vista é magnífica. Do topo da montanha, Gunther contempla as nuvens e os belíssimos alpes. Respirando fundo, ele sente o ar puro refrescando-o e revigorando suas energias. Enxugando o suor de sua testa, o rapaz alegremente pensa:

“Valeu a pena!”.

Sentando-se de pernas cruzadas, no tipo borboleta, ele espera a dor alivia-lo um pouco. Seu corpo lateja, a náusea o atormenta, mas o rapaz se felicita. Ele venceu a montanha. Gunther solenemente diz:

- O que não me mata me torna mais forte.

Uma ideia vem à sua mente como um trovão. Levantando-se em um pulo, ele faz uma proclamação aos sete ventos sobre o que acaba de compreender.

- Eu rejeito a negação da vida! Eu rejeito a ideia de um mundo posterior bom para quem não é bom! Eu rejeito uma vida vindoura digna para quem não foi digno da vida! Os valores não mais serão invertidos, a moralidade não mais será corrompida. Um novo conjunto de valores virá pelas mãos daquele que não tem medo do futuro, da morte ou da ausência de Deus. Eu vos apresento o Super Homem! Não mais sofreremos a pequenez de espírito, a superstição vingativa e a ausência de ousadia do velho homem, o Último Homem. A nova sociedade reformulada, apaixonada e viva surgirá. Contemplem o Super Homem!

Alegre por sua conquista, ele desfruta da elevada paisagem pelo resto do dia.

 

§

 

Horas mais tarde, Gunther volta para sua casa, um pequeno quarto alugado em uma pousada nas montanhas. Abrindo a porta, ele vê sua cama, a janela e uma rústica mesa no canto. Havia um espelho na parede. Ignorando-o, ele tira sua blusa, caminha até a janela e olha lá fora.

Naquele momento, Gunther se lembra que faziam oito anos que ele habitava aquele lugar. Afastado de seu emprego por motivos de saúde, ele reconhece que, apesar de sua grandeza, ele era um homem triste e sozinho. Escrevendo uma carta a um amigo que era casado, o rapaz disse:

“Graças a sua esposa, as coisas são cem vezes melhores para você do que para mim. Vocês têm seu ninho juntos. Eu tenho, no muito, uma caverna”.

Colocando a mão no rosto, ele se lamenta dizendo:

- Ah, Anneliese! Se ao menos você estivesse comigo. Eu te amo tanto...

Por três vezes Gunther a pediu em casamento, e por três vezes ela disse não. Inteligente e ambiciosa, Anneliese quis seguir sua pesquisa em comportamento sexual e psicanálise. Visando sua carreira, ela propôs ao rapaz que ambos fossem apenas amigos. Apaixonado demais para perceber que ela mesmo o seduzia para a coleta de dados em sua pesquisa, Gunther não pôde deixar de sofrer.

Após tanta dor, desilusão e sofrimento em sua vida, o rapaz friamente reconhece:

“Mas esse é o destino do Super Homem. O caminho do conhecimento para se tornar um Super Homem o tornará infeliz, todavia essa é a vida que eu escolhi para mim”.

Lembrando-se do quanto as pessoas medíocres eram felizes em suas frívolas maneiras de viver, ele comenta:  

- A ignorância é uma bênção.     

Enquanto divaga em pensamentos, duas mulheres vestidas de branco entram em seu quarto.

- Mas o que é que o senhor está fazendo? – pergunta uma delas.

Gunther se vira, assustado.

- Oh, me desculpe. Eu não sei como vim parar aqui. Na verdade, eu sinto como se morasse aqui.

As mulheres se entreolham.   

- Do que você está falando?

- Não quis invadir esse quarto. Eu só quis passear pelos alpes suíços. É uma belíssima cidade, essa Sils Maria. Vocês têm sorte em morarem aqui. Já estou de saída.

Uma delas diz:

- Mas nós não estamos em Sils Maria. Nós estamos em Basel.

O rapaz se confunde. Basel era uma cidade no noroeste da Suíça. Ele pensava estar no sudeste suíço, na outra ponta do país.

- Escutem, eu preciso ir embora agora.

- O senhor não pode ir. O senhor precisa descansar. Não quer se deitar e descansar um pouco?

Gunther desconfia do comportamento delas. Ele responde:

- Não. Eu apenas quero partir.

- Mas o senhor deve ficar. Estamos aqui para cuidar do senhor.

O rapaz não compreende.

- Do que estão falando? Eu não quero ser cuidado! Deve haver algum engano! Estão me confundindo com outra pessoa!

Irritado, Gunther intenta ir até a saída, mas as mulheres não saem do caminho.

- Senhor Nietzsche, o senhor precisa se acalmar.

Intrigado, o rapaz pergunta:

- Do que você me chamou?

As mulheres insistem.

- Senhor Nietzsche, se acalme por favor.

- Eu não sou esse Nietzsche! – exclama ele – Eu sou Gunther!

O rapaz aponta para o espelho. Arregalando os olhos, ele tem uma terrível surpresa. Gunther tem cabelos castanhos e lisos repartidos no topo da cabeça, seu rosto é de outra pessoa e ele veste uma roupa de paciente. Mas é o seu bigode que lhe espanta, um grande e volumoso bigode, tão grande que é capaz de cobrir sua boca.

Encarando a si mesmo, ele treme e pergunta:

- Quem é esse homem?!

As mulheres se aproximam e o seguram pelos braços.

- Venha, descanse um pouco. Nós vamos lhe dar os remédios e tudo ficará bem.

Gunther está confuso e se deixa levar. Deitando-o na cama, elas lhe dão água com comprimidos para beber. Minutos depois ele adormece sobre o colchão.

 

§

 

O rapaz acorda com o som de vozes. Ele está fraco e não consegue se mexer ou falar. Olhando para a porta, ele vê as duas mulheres conversando com um homem. O desconhecido pergunta:

- Qual é o estado dele, enfermeira?

- Doutor, ele parece estar sofrendo de alucinação. Hoje ele pensa ser alguém chamado Gunther. Semana passada ele assinou cartas com os nomes de “Dionísio”, “o Crucificado” e “o Nazareno”.

O homem pondera.

- Provavelmente sua demência se agravou devido à sífilis. Ele tomou os medicamentos?

- Sim. Ele deve estar dormindo agora.

- Obrigado, enfermeira.

Entrando no quarto, o médico o examina. Inesperadamente, o rapaz balbucia.

- Zaratustra...

- O que disse...? 

- Assim como Zaratustra... Eu serei lembrado postumamente. Alguém que alcançou toda a sabedoria no mundo... Mas... Sem discípulos para o ouvirem e o seguirem... Se tornou o homem mais solitário do mundo...

O médico sorri.

- Mas o senhor não está sozinho, herr Nietzsche. Estamos aqui como o senhor.

- Mas somos poucos e... Estando eu no fim dos meus dias... Não terei tempo para mudar a sociedade à minha volta...

- O senhor está mesmo decidido a mudar o mundo, não é mesmo?

Gunther assente.

- Se eu não morrer antes...

- O senhor não vai. Nós vamos salva-lo, herr Nietzsche. Nem que o senhor viva mais alguns anos sentindo dor.

- Oh, não se preocupe, doutor... Pois o que não me mata... – responde ele – Me torna mais forte.

 

 

 

 

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