domingo, 26 de junho de 2022

Liubliana - 17 - A Galeria dos Cadáveres

 


(Autor desconhecido)


Estava uma manhã caótica no centro de Liubliana. As lojas tiveram suas vidraças apedrejadas e suas mercadorias saqueadas. Os donos dos estabelecimentos acusavam-se a si mesmos e muitos se espancavam nas ruas. A Gendarme tentava controlar a confusão e muitos eram levados em custódia. Tobias se estarrece.

Em frente à tabacaria, o inspetor olha para Mirko e diz:

- Obrigado por vir, senhor Mirko. Precisaremos do senhor para nos ajudar a identificar o suspeito.

- De nada, senhor inspetor. O quanto antes encontrarmos minha filha, melhor.

Valentim e Davud também estão presentes. Mladen chega um pouco mais tarde com semblante irritado; ele estava descontente por ter de acompanhar Tobias novamente.

- Bom dia, guarda Mladen. Obrigado por vir.

Ele resmunga:

- E eu tive escolha?

Então a comitiva entra na loja. Atrás do balcão, o vendedor se levanta empunhando um poderoso rifle. Apontando-o para eles, ele exclama:

- O que vocês querem?!

- Lovro! Por favor! – protesta Mladen – Estes são modos de receber os clientes?!

- Guarda Mladen? – reconhece ele – Mil perdões. Veio comprar mais charutos?

- Na verdade, não. Estamos em uma investigação da Gendarmerie.

- Investigação? Do que está falando?

Tocando Mladen no ombro, Tobias diz:

- Obrigado, guarda. Eu assumo daqui. – olhando para o vendedor, ele se apresenta – Bom dia, gospod Lovro. Eu sou o Inspetor Tobias Hessler. Prazer em conhece-lo.

- Ah, um austríaco? – surpreende-se ele – Bom dia, inspetor. O que deseja?

Observando o rifle em suas mãos, ele pergunta:

- Antes de começarmos, me responda um coisa: o senhor tem licença para portar uma arma? Quanto a este rifle, o senhor tem os documentos da mesma?

Lovro se intimida.

- Eu tenho que me defender, senhor inspetor! Olhe lá fora! Está um caos em Liubliana! Saqueadores estão invadindo os comércios; várias lojas foram vandalizadas. Estou fazendo o serviço da Gendarme! – explica ele – Estou tentando me proteger!

Tobias assente.

- Faz ideia da razão desta onda de saques?

- Eu não faço a menor ideia! Mas a cidade entrou em decadência desde a chegada desses ingleses! Esse progresso se revelou a nossa ruína!

Tobias respira fundo. Comentários discriminatórios contra os ingleses estavam cada vez mais comuns, mas os liublianenses falhavam em apontar o verdadeiro culpado pela violência: o Plasma.

- Pois eu vou dizer só uma vez. Eu vou esquecer que o senhor comprou ilegalmente um rifle contrabandeado do exército se responder as minhas perguntas, está bem?

Constrangido, o vendedor responde:

- Está bem.

- Estou atrás de um suspeito de sequestro e, possivelmente, assassinato. Responda-me: o senhor tem recebido em sua loja forasteiros, estrangeiros ou clientes desconhecidos da vizinhança ultimamente?

Lovro sorri.

- Senhor inspetor, apenas olhe para as fábricas lá fora. Eu recebo ingleses, alemães, húngaros, austríacos, judeus e, pela aparência do seu subordinado, bósnios também. O progresso chegou em nossa cidade. Liubliana está passando pela Revolução Industrial.

Tobias assente.

- E o senhor também recebe camponeses?

Lovro sorri mais uma vez.

- Camponeses? O que mais recebo são homens do campo ultimamente! Eles migraram para a cidade para trabalhar nas fábricas. É o êxodo rural, como dizem por aí.

Tobias se convence. Abrindo sua maleta, ele exibe a ponta de um charuto e o pedaço de vestido.

- Encontramos essas pistas no local de desaparecimento da vítima. Minhas investigações concluíram que ele é vendido neste local. E este tecido indica que eram as roupas usadas pela vítima no dia de seu sequestro. Quem quer que a tenha levado passou por aqui antes de praticar o crime, e pode ter passado após comete-lo. Portanto eu vou perguntar mais uma vez: o senhor recebeu camponeses aqui ultimamente?

Pressionado, o vendedor se irrita.

- Eu não sei! Há milhares de fumantes em Liubliana! Preciso que o senhor seja mais específico!

- Um homem do vilarejo de Šmartno pod Šmarno Goro, de nome Štephan, alegando vir à cidade para visitar a sua mãe doente. O desaparecimento ocorreu há seis dias, mas ele pode ter voltado para comprar mais charutos.

- Eu... – o vendedor se esforça para lembrar.

- Senhor Lovro, pense! Enquanto perdemos tempo aqui, a vida da vítima corre perigo!

Então ele milagrosamente se lembra de algo.

- Espere! Eu recebi alguém de Šmartno pod Šmarno Goro semana passada.

Tobias se interessa.

- E o que ele disse?

- Ele disse algo sobre sua mãe ter problemas de saúde. Me parece que ele não podia fumar em casa porque ela não estava bem.

- E onde ele se hospedava?

- Há duas quadras daqui.

Anotando tudo em sua caderneta, Tobias pergunta:

- Mais alguma coisa?

- Não, isso é tudo.

Fechando-a, o inspetor diz:

- Muito obrigado, gospod Lovro. O senhor foi muito útil.

Enquanto caminham para fora, o vendedor pergunta:

- O senhor vai se esquecer do meu pequeno problema com a arma, não é?

Fazendo expressão de dúvida, Tobias responde:

- Que arma?

Então eles deixam a loja.

O inspetor olha para Mirko e diz:

- Se minhas suspeitas estiverem corretas, o suspeito realmente é o agricultor que mora no vilarejo e trabalha em sua fazenda. Segundo Lovro, ele mora aqui perto e compra regularmente na tabacaria. Ele fez disso o seu hábito.   

- Você tem certeza, Hessler? Há centenas de fumantes aqui, e você está se baseando em uma simples ponta de charuto. – pergunta Mladen.

- Eu não sei, guarda. Mas se eu estiver errado, teremos de procurar por mais pistas. É isso o que o senhor quer? Voltar àquela floresta?

Então todo o grupo se arrepia.

- Acho que sua pista basta.

- Foi o que eu pensei.

A comitiva sobe na carruagem e se aperta nos bancos. O cocheiro bate as rédeas e avança pelas ruas.

Vendo as carruagens motorizadas no trânsito, Tobias comenta:

- Essas carruagens são o futuro do transporte urbano.

Ao ouvi-lo, Mladen ri.

- Essas geringonças desajeitadas? Pois eu creio que não, Hessler!

Davud pergunta:

- A Gendarmerie as receberá no departamento?

Tobias faz uma expressão de dúvida.

- Após a derrota para os prussianos, eu duvido que o império tenha verba para isso.

Então eles prosseguem ao seu destino.

 

§

 

O quarteirão tinha belas casas de telhados vermelhos. Abordando os vizinhos, Tobias e seus companheiros perguntam sobre a residência do suspeito. A maioria não conhecia nenhum camponês, mas eles não desistem.

Abordando um homem, o inspetor pergunta:

- Com licença, cidadão. Por acaso o senhor conhece um sujeito que trabalha com agricultura e que, recentemente, veio a este bairro visitar sua mãe doente?

O homem franze a testa.

- Lamento, meu jovem. Eu não o conheço.

Meia hora se passa. Mesmo Valentim começa a se cansar. A busca se mostrava infrutífera.

Mirko se dirige a algumas senhoras em suas janelas. Chamando-as, ele cita o nome de seu empregado e de sua mãe. Elas o ouvem e imediatamente se lembram. Para o alívio do grupo, as senhoras o conheciam.

- Pode nos dizer onde sua mãe mora?

- Ela não mora nesta rua. – diz uma delas – O senhor deve procurar na rua de trás.

Tobias se intriga. Na rua de trás moravam apenas eslovacos e nenhum natural de Carníola.

- Está bem. – responde Mirko – Eu vos agradeço, minhas senhoras. Tenham um bom dia.

Então a comitiva se dirige ao seu novo destino.

Na rua de trás ninguém falava o eslavo do sul, mas eles conseguiam se entender. Mladen pergunta aos cidadãos pelo suspeito e, de repente, um punhado de crianças rodeia o velho guarda.

- Com licença, pirralhos. Estou procurando por um camponês forasteiro. Vocês o viram?

- O senhor está procurando por um camponês? – pergunta um menino.

- Sim. Onde eu posso encontra-lo?

- E por que quer encontra-lo?

- Investigação criminal.

Então as crianças se interessam.

- Ele vive em uma casa velha e desarrumada. – revela uma menina – Se ele não morasse lá, nós acharíamos que ela está abandonada.

- É verdade! – diz outro menino – Abandonada e mal assombrada também!

Então as crianças sentem medo.

- Podem nos levar até lá?

- Meu pai disse para não falarmos com estranhos! – adverte uma menina.

- Eu não sou nenhum estranho! Não estão vendo que eu sou da Gendarme?!

- O senhor vai prendê-lo?

Mladen ri.

- Eu ainda não sei, seus diabinhos. Agora me levem até aquela casa e parem de me perturbar, sim?

As crianças lhe indicam a casa e vão junto com ele. Elas caminhavam determinadas, como se fossem paladinos em sua luta do bem contra o mal. Mladen sorri.

A casa era velha e mal cuidada. Como a maioria das casas em Liubliana, era um sobrado de arquitetura barroca e várias janelas. O guarda podia ver teias de aranha nos cantos e grama crescendo nas frestas da calçada. A madeira apodrecida denotava anos de abandono.

A comitiva se aproxima e, ao vê-la, Davud comenta:

- Quem quer que viva lá dentro a trata com total negligência.

Tobias diz:

- Lembrem-se que o suspeito tem uma mãe idosa e doente. Ela vive sozinha em sua casa enquanto o filho trabalha longe no campo. Vamos nos aprofundar no caso antes de começar com os julgamentos precipitados, está bem?

O inspetor se aproxima e bate na porta. Minutos se passam e ninguém atende.

- Será que não tem ninguém em casa? – pergunta Davud.

- Impossível. A mãe está doente e não pode sair.

- Então por que não atende?

Uma das crianças pergunta:

- Quer que eu pule lá dentro? A janela está velha e, com uma bela pedrada, a vidraça se quebrará.

O inspetor ri.

- Não, mas eu tenho outro pedido. Voltem para as suas mães, sim? Este lugar é perigoso e vocês podem se machucar.

Então as crianças se afastam, mas ficam à distância observando-os.

- Inspetor Tobias, a porta está destrancada. – indica Valentim, abrindo a maçaneta.

A comitiva se espanta. Diariamente Liubliana recebia imigrantes de todas as partes do império. Roubos e furtos eram comuns para sobreviver na cidade, e deixar os imóveis abertos era um convite para ter sua casa saqueada por ladrões.

Tobias desconfia. Ele sabia que Valentim era um artesão que trabalhou com dobradiças e fechaduras a vida inteira. Aproximando-se, ele discretamente pergunta:

- Senhor Valentim, esta porta não estava realmente destrancada, não é mesmo?

Estufando o peito, ele responde:

- Eu te disse que nada ia ficar em meu caminho, muito menos uma reles porta com uma fechadura de péssima qualidade.

Então o inspetor sorri.

- Ei, Hessler! Você vai entrar? – pergunta Mladen – Não vamos precisar de um mandado?

Hesitante, ele responde:

- O senhor tem razão. Nós não temos autorização para...

Mas Valentim se vira e entra na casa, invadindo-a sem a menor preocupação com a lei. Ele percorre a casa com inabalável determinação, lançando olhares atentos sobre todos os cômodos. Tobias o segue logo atrás, tentando exaustivamente contê-lo. Valentim sobe as escadas, intentando olhar lá em cima. De repente ele entra em um quarto e, subitamente, para em sua porta, petrificado.

O inspetor o seguia logo atrás, preocupado com aquela incursão ilegal. Ele diz:

- Valentim, o senhor está cometendo um infração! Eu o ordeno que pare e... – e então ele se petrifica também.

Os dois viam a uma senhora morta sobre a cama. A mulher estava fria e ressecada, deitada debaixo dos cobertores como se estivesse em seu repouso eterno sobre a cama.

Os demais se aproximam e veem também. Davud se vira e põe a mão na boca, atordoado com o cheiro. Mladen também se afasta, pegando seu isqueiro e acendendo um cigarro. Mirko se mantém imóvel; após tantos anos ele já havia se acostumado com a morte.

- Quem será que é esta mulher? – pergunta Tobias.

- É a mãe de Štephan. – responde Mirko.

- Por que este louco manteria a própria mãe morta dentro de casa? – pergunta Valentim.

- Talvez ele não tenha lidado com o fato dela ter morrido, e isto o enlouqueceu. – sugere Tobias – Veja como ele a tratou com carinho. – o inspetor indica a coberta cuidadosamente posta e os travesseiros perfeitamente alinhados – O suspeito deve ter feito deste quarto o seu santuário.

Mirko nota os lábios ressecados mostrando os dentes. Ele comenta:

- Eu não me atreveria a tirar os cobertores; eles devem estar ocultando a podridão lá embaixo.

Olhando ao redor, Tobias encontra uma lamparina alimentada por Plasma. Ele diz:

- Ainda há combustível. O suspeito ainda frequenta o local. Tomem cuidado.

Saindo do quarto, eles fecham a porta.

De repente eles escutam um som no andar de baixo e se assustam; tinha mais alguém lá dentro.

Davud e Mladen sacam seus porretes e descem as escadas em silêncio. Ao chegar na sala, eles não encontram ninguém. Mladen se dirige à cozinha e Davud ao quintal; também estavam vazios. O inspetor checa o banheiro e se intriga.

“Se não há ninguém aqui embaixo, então de onde veio o barulho?”, pergunta-se ele.

Valentim caminha sobre o assoalho, provocando o ruído dos passos. Então ele se dirige à cozinha e o assoalho soa diferente, como se houvesse uma tampa abaixo dele. Ele se intriga. Tateando o piso, Valentim encontra uma espécie de alça.  

“É um alçapão!”, pensa ele.

Pegando o porrete de Mladen, ele o passa pela alça e a puxa, revelando um escuro fosso. A comitiva se espanta.

O úmido fosso tinha uma rústica escada de barras de aço na parede. O interior era escuro e frio, mas eles podiam ouvir ruídos vindos lá de baixo. De repente eles ouvem o ecoar de um gemido e suas peles se arrepiam.

Um pouco sem jeito, Tobias pergunta:

- Precisamos investigar lá embaixo. Voluntários?

Todos se silenciam. Corajosamente levantando a mão, Valentim diz:

- Eu vou.

- Está muito escuro, inspetor. Vamos precisar de uma lamparina. – alerta Davud.

- É claro. Há uma no quarto da mãe falecida. Alguém pode pega-la para mim?

Novamente eles se silenciam; ninguém queria retornar ao quarto do cadáver. Mas então Mirko se voluntaria.

- Eu pegarei.

Tobias sorri.

- Muito obrigado, senhor Mirko.

Um minuto depois Valentim desce pelo fosso.

Ao chegar lá embaixo, ele ilumina as paredes de pedra com a luz verde. Seus passos ecoam pela escuridão e o deixam apreensivo. O ar pesado e gélido tenta sufoca-lo, mas nada ia fazê-lo desistir.

Havia algo no fim do túnel; um pequeno ponto de luz amarelada emerge das sombras. Ele investiga e encontra uma galeria subterrânea iluminada por tochas. O cheiro nauseante de algo químico misturado com podridão sobe em suas narinas. Estranhamente ele pensa ter entrado em uma catacumba.

Gemidos são ouvidos e lhe dão arrepios; alguém sussurrava na escuridão. Ele ouve os gemidos novamente e reconhece uma voz de mulher. Imediatamente ele se desespera.

“Danica!”.

Valentim avança destemidamente e encontra uma sala maior lá embaixo. Ao iluminar com a lamparina, ele se estarrece. Haviam dezenas de corpos de mulheres espalhados pelo chão. Elas estavam despidas e mutiladas, e algumas pregadas nas paredes.

Mirando seu holofote, ele nota que algumas vítimas nas paredes ainda estavam vivas. Suas bocas estavam amordaçadas e elas tentavam gritar por socorro, mas apenas saíam gemidos. Valentim se apavora ao ver que algumas tiveram seus olhos arrancados por objetos afiados.

Controlando-se, ele avança lentamente. À sua direita ele encontra uma pilha de cadáveres esquartejados, com braços e pernas mutilados por toda parte. Ele vê homens ali também, mas eram apenas garotos indefesos, pegos e levados para aquele calabouço. O sangue pegajoso grudava-se nas solas de suas botas, fazendo-o se desequilibrar. De olhos arregalados, ele segura o grito.

Mesmo o forte Valentim não suportava ver tudo aquilo. Sua sanidade se enfraquecia e começava a se fragmentar. A carne debaixo da pele era mais aterradora do que se pensava; os ossos se misturavam às vísceras e expunham os órgãos. Sendo decente a vida toda, ele nunca viu a intimidade de outras mulheres, mas ali suas vaginas estavam todas expostas, despidas para quem quisesse ver. Nem mesmo um açougueiro suportaria aquilo, a carnificina era forte demais. Suando frio, Valentim estava à beira de um colapso nervoso.

De repente ele ouve alguém chorar. Aproximando-se de um altar, ele ouve:

- Valerija! Como eu te amei! Como eu te amei tanto...!

Apagando a lamparina, Valentim se esconde em um canto. Um homem se lamentava, dizendo:

- Como eu te amei, Valerija! E você me rejeitou! Por que me rejeitou?! Eu te mostrei tudo! Eu te mostrei minha verdadeira face! E por que você não me amou, Valerija? Por que você não me amou...?

Valentim nota que ele falava para um compartimento de vidro semelhante a um aquário. Havia um líquido em seu interior, mas ele não consegue enxergar nada dentro.

- E então eu te amarrei, te amordacei e te pendurei para te contemplar e te ter. Eu cortei os seus braços e suas pernas; eu derramei o seu sangue por toda parte. Minha faca penetrou os seus ossos e eu arranquei a sua espinha dorsal! Sua estonteante beleza foi retirada. Eu a desfigurei para ter redimir! – exclama ele – E ainda assim você não me amou...

O homem chora novamente, distraído em suas lamentações.

De repente Tobias e os guardas aparecem.

- Parado! – ordena ele – Fique onde está!

Assustado, o homem se vira e é surpreendido pelos invasores.

- Quem são vocês?!

- Seu doente psicopata! O que você fez?! – Tobias olhava enojado para os cadáveres.

Ainda tenso, o homem não sabe o que responder. Valentim estava ao seu lado e ele não o havia notado ali.

- Eu não sei do que está falando...

De repente ele mexe em sua cintura e saca um revólver. Reconhecendo a arma, Valentim corre em direção a Tobias e grita:

- Cuidado!

O homem atira. Valentim protege Tobias e a bala atinge as suas costas, fazendo ambos caírem no chão em seguida.

Irado, Mladen saca sua pistola e atira de volta. O homem é atingido no ombro e cai contra a parede. Davud corre em sua direção e o desarma, rendendo-o.  

- Senhor Valentim! O senhor está bem? – exclama Tobias.

Mas Valentim estava encolhido no chão. Ele respirava fundo e tentava suportar a dor.

- Guarda Davud! Chame ajuda! Rápido!

O jovem guarda intenta deixar a galeria. Então algo acontece.

Mirko aparece e pergunta:

- O que houve? Vocês encontraram a minha filha?

Mas tudo o que o velho via eram cadáveres em toda parte. Então algo à sua frente chama a sua atenção. Ajustando sua visão ao escuro, ele pergunta:

- Štephan...?

Seu empregado o encarava no chão. Ele segurava seu ombro e sangue se escorria por suas roupas.

- Senhor Mirko, eu disse para o senhor esperar lá em cima. É para a sua segurança. – diz Tobias.

Mas o velho o ignora e continua andando. Havia algo naquele aquário. Olhando bem, ele reconhece o corpo de uma garota, tão jovem que mal completara vinte anos. Seu corpo estava cortado e inteiramente desmembrado, mas sua face ele pôde reconhecer. Petrificando-se de pavor, ele fracamente sussurra:

- Valerija...?

- Gospod Mirko... Eu posso explicar...!

Mas ele o ignora. Olhando novamente, não lhe restavam mais dúvidas; era a sua filha lá dentro. Ele enche seus pulmões e brada veementemente, fazendo o seu grito ecoar por aquele calabouço.

- Nããããããããoooo...!

Caindo de joelhos, Mirko fecha seus olhos e chora dolorosamente.

- Por favor, me escute! – suplica Štephan – Eu a amava!

Mirko arfava intesamente, bradando e expelindo a fúria de um pai que perdera a sua filha.

- Valerijaaaaaa...!

- Senhor Mirko, ela me rejeitou! Se ela tivesse me aceitado, não teria terminado assim! – explica ele – Eu não tive escolha!

No meio dos corpos havia um pesado martelo de ferro. Pegando-o, Mirko se aproxima de Štephan e o levanta. O assassino tenta se proteger, mas é golpeado na cabeça. O som do crânio se trincando como um vaso cerâmico lhes dá aflição. Mirko bate novamente e sangue se espirra para todos os lados. E então ele bate de novo, e de novo e de novo até a tampa de sua cabeça se soltar e ele esmagar o seu cérebro.

Tobias tenta conte-lo, mas Mladen o proíbe. Meneando negativamente a cabeça, o guarda tenta dizê-lo que nada podia conter a fúria de um pai vingando a morte de um filho.

Finado aquele espetáculo de fúria, Mirko se senta no chão e chora aos soluços. As lágrimas rolavam em seu rosto como se o Rio Liublianica tivesse encontrado outra nascente.

Mladen se aproxima e tenta consola-lo. À sua frente ele contemplava o cadáver de Štephan; seus olhos saltaram para fora e o gosmento cérebro se escorria do buraco. Realmente um horror.

E assim terminava a busca por Valerija.

 

§

 

Horas mais tarde, o inspetor e seu capitão se reúnem no necrotério do hospital. Tobias escreve seu relatório em silêncio e então o capitão diz:

- Pelo o que a investigação descobriu, haviam dezenas de outras vítimas lá embaixo, a maioria mulheres.

O inspetor responde:

- Sim, senhor capitão. Já identifiquei quatorze. Todas estavam na lista de pessoas desaparecidas.

O capitão faz um olhar pesaroso. Ele não esperava encontra-las assim.

Aproximando-se do corpo, ele levanta o lençol.

- Que tremenda bagunça, não? – comenta ele, referindo-se à violência de sua morte. 

- Sim, senhor capitão.

- Segundo consta em seu relatório, o suspeito morreu acidentalmente em sua galeria subterrânea. Isso é verdade?

- Sim, senhor. – confirma ele – O teto cedeu e o atingiu em cheio. Ele não teve a mínima chance.

O capitão desconfia. A face de Štephan estava irreconhecível.

- Ouça, Hessler. Eu estou na Gendarme há quase trinta anos e aprendi algumas coisas nesse meio tempo. Essas marcas não me parecem de tijolos caindo, mas de golpes contundentes de alguma ferramenta de ferro. Há algo que queira me dizer?

Com semblante frio como o gelo. Tobias nega.

- Não, senhor.

O capitão respira fundo.

- Está bem, inspetor. Parabéns pelo seu trabalho. Vejo-o na estação amanhã. – e então ele vai embora.

Um minuto depois, Tobias também vai embora. O inspetor se orgulhava de seu trabalho bem feito, mas em seu semblante ele não estava feliz. Muita violência havia ocorrido; ele não dormiria bem esta noite. Mas amanhã seria outro dia e ele seguiria normalmente com sua vida.

As portas se fecham e as luzes se apagam, confinando o cadáver à mesma escuridão que ele impusera às suas vítimas. O culpado foi punido; a justiça foi servida.

Um último pensamento vem à mente de Tobias e ele diz:

- Caso encerrado.

 

 


domingo, 19 de junho de 2022

Liubliana - 16 - Exúvia

 


(Artista desconhecido)


As encostas do Monte Santa Maria eram belíssimas. A floresta se estende pelas colinas e vales ao redor. A área a ser vasculhada era vasta, mas Mirko os guiaria precisamente ao destino.

Enquanto se aproximam, eles notam como as árvores eram densas e altas. Valentim vê carvalhos e plantas pela vegetação. Adentrando a floresta, eles ouviam os pássaros cantando e os insetos voando. Sob o sol daquela agradável tarde em Carníola, eles se sentem em um paraíso.

Então algo acontece.

Estranhamente o tempo se fecha. A tarde ensolarada torna-se feia e cinzenta; um vento frio sopra entre as árvores e as se balançam sutilmente. O canto agradável dos pássaros se silencia e as belas borboletas desaparecem no ar. Era como se a natureza se protegesse dos invasores e ocultasse seus mistérios.

O clima torna-se pesado e funério. Nem o tagarela Mladen ousava abrir a boca. Passeando entre as árvores, eles ouvem seus passos sobre a folhagem e se confundem; parecia haver mais gente ao redor. Olhando de relance, sombras apareciam atrás dos troncos e se retraíam, escondendo-se da vista. 

Mirko caminha a frente em silêncio. Corvos voam em círculos acima de suas cabeças, e seus grasnados lhes davam arrepios. Apesar de ainda ser dia, eles ouvem o chirriar de corujas vindo das entranhas da mata. De repente um nevoeiro surge e se arrasta pelas árvores, trazendo seu gélido sopro. O nevoeiro atravessa seus corpos e alcança suas almas, como se fossem emanações malignas vindas do coração gelado de Satanás.

Tobias sente medo. Há um minuto ele pensava estar em um paraíso, mas agora ele pensa ter atravessado o véu da realidade e ido direto para o inferno.  

Atravessando a floresta, eles notam como a umidade aumenta. As grandes folhas das plantas molhavam suas roupas e seus pés pisavam na lama e no lodo. Cada passo era cuidadosamente observado; escorregões podiam ser danosos. Valentim, que usava um desgastado par de botas, sente seu pé se encharcando e se irrita.

Embrenhados naquela mata, mesmo o imponente Monte Santa Maria desaparecia. O verde escuro e a neblina branca os encerravam naquele purgatório, lançando-os em um mundo paralelo em que suas dimensões tinham o tamanho do alcance de seus olhos. Valentim sente frio e abotoa sua camisa. Naquela tarde nem sua pele queimada e acostumada ao frio suportava a sinistra emanação.

Mirko caminhava apressadamente, de semblante fechado e sem olhar para os lados. O silêncio funéreo pairava sobre eles e ninguém ousava quebra-lo. Mesmo suas respirações eram confusas, pois eram rodeadas de sussurros.  

De repente o caminho se alarga e revela uma clareira no meio das árvores. Mladen vê algo incomum e se intriga. Três estruturas de galhos secos estavam vestidas com tecidos velhos. Ele nota que no topo haviam chifres, como se fossem representações antropomórficas de caprinos.

Tirando forças do fundo de sua alma para abrir a boca, o guarda pergunta:

- Ei, o que é isso?

A comitiva olha para trás e o vê apontando para algo no mato. Tobias olha e sente arrepios descendo por sua espinha. Haviam três seres encapuzados ali, imóveis e vigilantes vendo os invasores atravessarem o seu território. O jovem inspetor sacode sua cabeça e controla o seu medo; sua mente estava criando alucinações.     

- São espantalhos... – diz ele.

- Devemos investigar? – pergunta Mladen.

Hesitante, o inspetor forçosamente responde:

- Sim.

Eles caminham em direção aos espantalhos. Olhando para trás, Valentim nota que Mirko não saía do lugar.

Observando atentamente, Tobias vê uma rudimentar estrutura de galhos revestida de tecidos coloridos. Eles tinham cabeças de bode, desencarnadas e apodrecidas com o tempo. Sentindo o forte cheiro de carniça, eles se atordoam.

- O que você acha que é isso, inspetor?

- Eu não sei. Me parecem representações do deus Pã.

- Deus Pã?

- Na mitologia grega, Pã é o deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores. Ele tinha corpo metade homem e metade bode, e acreditava-se que morava nas montanhas e nas florestas da antiga Grécia.

Espantando as moscas, Tobias nota que a estrutura estava firmemente amarrada; mesmo os tecidos não haviam desbotado com os intempéries. Ele diz:

- Os tecidos são novos e os espantalhos foram montados recentemente. Quem os erigiu vive na região ou pode estar próximo daqui. Fiquem atentos.

 Davud pergunta:

- Que lugar é este?

- Eu não sei. Talvez seja um local de culto ou o solo sagrado para a adoração de um deus pagão.

- E nós somos os seus profanadores. – afirma Valentim, com olhar sério.

- Mas de qual deus pagão exatamente? – pergunta Mladen.

- Eu não sei dizer. Deuses gregos não são mais adorados na Europa, ou mesmo seus equivalentes romanos. Após a conversão de Constantino, o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano. Bolsões de paganismo foram perseguidas da antiguidade até a Idade Média, mas como o próprio nome diz, paganus quer dizer camponês e tudo pode acontecer atrás das cortinas negras da noite. 

Valentim insiste.

- Não podemos negligenciar esta pista. Quem quer que esteja realizando estes cultos deve ter informações que nos levem ao desaparecimento de Valerija.

Ele mentia. O que Valentim queria mesmo eram pistas sobre o paradeiro de Danica.

- Mas quem pode ser? – pergunta o guarda – Eu nunca vi estas representações antes.

- Deve ser uma religião que precede o cristianismo, ou que seja de outra região da Europa. – sugere Tobias – Davud?

- Lamento, inspetor. Eu nunca vi isto na Bósnia.

- Valentim?

- Não as conheço.

Então Tobias se confunde.

- É o Exúvia.

Todos se viram, olhando intrigados para Mirko.

- O que disse?

- Exúvia é a lenda sobre um culto pagão que ronda o monte à noite. Nós não sabemos de onde ela surgiu, mas alguns acreditam que a ela venha do leste. A lenda diz que os cultistas vestem mantos pretos e carregam tochas de fogo verde à noite. Ao vermos o brilho verde na floresta, todos entram em suas casas e trancam as portas, e ninguém ousa sair até ser de manhã.

Ouvindo sobre a estranha coloração do fogo, Tobias pergunta:

- Por que o fogo é verde?

- Os boatos dizem que a chama é alimentada por uma substância mística; o sangue da terra como eles dizem.

Então o inspetor se interessa.

- Sabe de algo mais?

- Toda a vez que a seita aparece, uma desgraça recai sobre a humanidade. Eles intentam ressuscitar um deus pagão, reencarnando-o em ídolos e imagens, como os espantalhos aí. – aponta ele – Animais agourentos os representam, como dragões, cobras, corvos e corujas.

E então Valentim se assusta.

- O senhor já os viu? – pergunta Tobias.

- Não, mas muitos afirmam tê-los visto. Alguns dizem que os cultistas espreitam a floresta e nem mesmo os caçadores mais experientes têm coragem de se aproximar deles. Todos temem o desaparecimento.

O inspetor se preocupa.

- E o que mais?

- O culto precede o retorno do deus, e as estrelas já indicam sua concepção profana. O deus retornará como o filho de uma coruja marrom com uma coruja branca.

Mladen deixa escapar um sorriso.

- Filho de uma coruja marrom com uma branca...?! – zomba ele – Cidadão, acho que o senhor andou bebendo demais...

- O deus pagão é o filho da terra. A cada reencarnação ele assume uma nova forma, irrompendo-se de seu antigo invólucro e voltando à vida. Por isso o culto tem este nome: exúvia.

Tobias pondera. Exúvia era uma palavra latina que significava “camisa” ou “pele vazia”. Na biologia era o exoesqueleto eliminado por certos artrópodes durante a muda, como insetos, crustáceos e aracnídeos. Segundo Mirko, o deus pagão encasulava-se em representações terrenas, eliminando-as ao voltar à vida. 

Investigando os espantalhos, Davud mexe em suas roupas. Mirko o interrompe.

- Não toque nisso!

Assustado, ele pergunta:

- Por quê?

- Este lugar é amaldiçoado! Vamos embora. A noite se aproxima. Nós devemos nos apressar.

Virando-se, Mirko se apressa e deixa clareira para trás.

 

§

 

A comitiva caminha por mais alguns minutos. O céu cinzento se escurece; em algumas horas ia anoitecer. A sensação de urgência se apodera deles. Todos queriam deixar aquele lugar o mais rápido possível.

Mirko aponta para algumas árvores e diz:

- Aqui. Este é o lugar onde o cheiro de minha filha termina.

Tobias abre sua maleta e veste o seu equipamento. Eles veem uma curiosa engenhoca parecida com os óculos. Fazendo uma breve busca ao redor, ele usa seu equipamento e define os pontos de investigação.

- Senhores, procurem por pistas em galhos e sob a folhagem. Tomem cuidado para não destruí-las. Qualquer dúvida, eu estou à disposição.

Então o inspetor começa a investigação. Ele mexia em seus óculos, parecendo amplificar a visão. Os demais também procuram, mexendo nas plantas e checando os galhos próximos.

Mirko está inquieto; ele se sente constantemente observado. Ele teme ter irritado os cultistas e atraído a sua ira. Diferente dos gendarmes, ele residia próximo da mata e se tornaria alvo fácil de represálias. Todavia ele se controla e tenta se acalmar. Encontrar a sua filha dependia do trabalho das investigações.

Davud diz:

- Inspetor, eu encontrei algo.

Tobias se levanta e se dirige ao jovem guarda.

- O que foi, guarda?

O guarda lhe mostra um pedaço de tecido rasgado preso a um galho. Observando com sua lente, Tobias se alegra. O tecido era possivelmente um vestido feminino.

- Meus parabéns, guarda Davud. Esta é nossa primeira pista.

O bósnio sorri.

Valentim também o chama.

- Inspetor, eu encontrei uma coisa.

Tobias se aproxima e vê um objeto na folhagem. Afastando-a com os dedos, ele encontra algo feito de tabaco. Usando sua lente, ele diz:

- É uma ponta de charuto.

- Ora, essa! – resmunga Mladen – E eu louco para dar um trago...!

- Há um pedaço de papel aqui também. – diz Valentim – Mas está molhado e eu não consigo ler as letras.

Ele mentia. Confessar seu analfabetismo lhe seria constrangedor.

Usando seu equipamento, Tobias amplifica a lente e diz:

- Isto é um selo. Aqui diz ser de uma loja de charutos no centro da cidade. – tirando seus óculos, ele pergunta – Guarda Mladen, o senhor conhece alguma dessas lojas em Liubliana?

Imediatamente ele responde:

- Óbvio.

Virando-se, Tobias se dirige ao pai da desaparecida e pergunta:

- Senhor Mirko, algum dos seus parentes ou empregados fuma?

- Sim, senhor inspetor. Todos os homens adultos em minha propriedade fumam.

Animando-se, ele formula outra questão.

- Alguém em sua propriedade se ausentou recentemente?

Mirko tenta se lembrar.

- Um deles disse que sua mãe estava doente e precisou partir. Ele intentava visita-la em Liubliana.

- Ótimo. – alegra-se ele – Temos o nosso primeiro suspeito.

Então algo se move na copa das árvores, tirando suas atenções. Um medo incômodo os envolve e eles se entreolham, mas ninguém ousa falar a respeito.

- Agora podemos dar o fora daqui? – pergunta Mladen, quase suplicando-o.

- Sim. – gagueja ele – Vamos voltar.

 

§

 

Enquanto voltam à Gendarmerie, anoitece em Liubliana. As ruas eram iluminadas pela chama verde como uma praga engolindo a cidade. Tobias se preocupa.

Todos estavam exaustos. Mirko ficou no Monte Santa Maria e seguiu para sua casa a pé. Mladen tranquilamente fumava seu cigarro e Davud dormia em seu banco. Valentim, porém, estava sério olhando pela janela.

Tobias pondera nas palavras de Mirko. A lenda de Exúvia o intrigara. Se ela for verdadeira, a tal substância comprovaria suas teorias. A cada vez que ela surgia, a humanidade penava em uma nova hecatombe. Sua coloração verde e seu trágico efeito só lhe apontavam para uma resposta: Plasma.

“Um culto se formara ao redor do Plasma e cultuava um deus esquecido. De fato, o culto era tão antigo que se tornara uma lenda. Mas o Plasma existe e lhe dará a vida”, pensa ele. “Como o líquido amniótico de uma besta apocalíptica”.

Ele ainda não sabe o que é esta substância, mas ao ver toda a cidade iluminada por sua chama, ele se horroriza. Tobias se sentia um condenado na dantesca cidade de Dis.

Valentim também pensa a respeito da lenda. Ele não se importa com o que os camponeses acreditam, mas algo lhe chamou a atenção. Corujas darão a luz a um antigo deus. Lembrando-se de como ele era assombrado por essa horrível ave, ele sente medo. Ultimamente as corujas pareciam segui-lo a cada passo.

A estação se aproxima e o cocheiro estaciona a carruagem. Mladen acorda Davud com uma cotovelada e então deixa o veículo.

- Chega de passeios por hoje. E Tobias, se o capitão me convocar para mais uma investigação sua, diga-o que eu morri. – pede ele – Senhores, até amanhã.

E então ele caminha pelas ruas.

Olhando para o jovem bósnio, o inspetor diz:

- Guarda Davud, está dispensado. Obrigado por seus serviços.

- Obrigado, inspetor Tobias. Até amanhã. – então ele vai embora também.

Temendo ser dispensado da comitiva definitivamente, Valentim pergunta:

- Inspetor Tobias, o que irá fazer agora?

- Eu vou subir à sala de evidências e estudar as pistas, e amanhã eu partirei atrás dos suspeito. Por quê?

- Minha esposa está desaparecida, como o senhor já deve saber. Eu tenho pressa para encontrá-la e sozinho o senhor levará tempo. Eu posso ajudá-lo. – sugere ele – Se trabalharmos juntos, eu espero encontrar a minha esposa mais rápido. Com vida, se possível.

Tobias sorri.

- Como pode um civil ajudar na análise técnica de uma investigação de campo? Isso exigiu anos do meu estudo. E outra coisa: tenho a impressão de que o senhor nem mesmo sabe ler!

Meneando negativamente a cabeça, ele responde:

- O senhor é jovem. Vai aprender que a vida não é só estudo, instrução e diplomas na parede. Ouça-me, eu já tive contato com o Plasma e sofri alucinações com ele. Se ele não for banido, mais pessoas poderão se ferir. Não é isso o que a Gendarmerie deseja? Erradicar essa onda de violência?

Tobias levanta a sobrancelha e pergunta:

- Aonde o senhor quer chegar?

- Eu... – e então seu estômago ronca, fazendo um som tão alto que Tobias pode ouvi-lo.

- Está com fome, senhor Valentim?

Apesar de ter se acostumado com a fome, Valentim não havia comido nada o dia inteiro.

- Não se importe com isso.

- Onde o senhor vive?

Ele responde:

- Zgornja Šiška.

- Ora, mas isso é muito longe! – exclama ele – Quer que um cocheiro o leve de volta para casa?

- Eu não tenho como pagá-lo. Eu vou a pé.

- Com certeza não vai! – proíbe Tobias – Aqui, tome esse dinheiro. Pegue um trem de volta, sim? E compre algo para comer no caminho.

Intrigado com sua generosidade, ele pergunta:

- Por que está me ajudando?

- Foi o senhor que me ajudou hoje. – ele se referia às pistas – Além do mais, se o senhor caminhar de volta com essa fome, com certeza se desfalecerá no caminho.

Olhando para as moedas de gulden[1] em sua mão, ele diz:

- Inspetor Tobias, eu não tenho como pagá-lo.

- Não se incomode com isso. Afinal, encontrar sua esposa agora é tudo o que te importa, não é?

Profundamente agradecido, ele diz:

- Esta noite o senhor alimentará não apenas um desempregado, mas também um gato faminto.

O inspetor sorri.

- Se me dá licença, eu tenho um trabalho a fazer. – ele lhe dá as costas e diz – Até a vista, senhor Valentim.

- Amanhã trabalharemos de novo?

Entediando-se, ele responde:

- O senhor ouviu o capitão, não? – então Tobias finalmente entra na estação.

No lado de fora, Valentim olha para as moedas e se alegra. Esta noite ele não passaria fome.

Sorrindo, ele se vira e também vai embora, deixando a estação da Gendarmerie para trás.

 

 

 



[1] Moeda oficial do Império Austro Húngaro de 1754 até 1892

domingo, 12 de junho de 2022

Liubliana - 15 - Um Longo e Lento Beijo


(Foto de Laura Makabresku)

 

No lado de fora da Gendarmerie, Tobias se dirige ao pátio onde ficam as carruagens. Chamando um cocheiro, ele diz:

- Por favor, nos leve para o Monte Santa Maria.

O cocheiro arregala os olhos. Em sua comitiva haviam cinco pessoas.

- Inspetor, acho que precisará de uma carruagem maior.

Então o cocheiro lhe indica uma carruagem puxada por dois cavalos. Eles entram no veículo e deixam a estação.

Apertando-se nos bancos, eles percebem que seria uma viagem bem desconfortável. Mas Valentim sorria discretamente, pois via naquilo sua chance de procurar por Danica. Ao partir com a Gendarme, ele espera encontrar pistas sobre o seu paradeiro. Ele se enche de esperança.   

Querendo iniciar uma conversa, Mladen pergunta:

- Agora eu estou confuso, inspetor. Estas criaturas fantasiosas vêm ou não vêm do Plasma? Pois pelo que estava nos dizendo, elas podem ser reais ou alucinações.

Ajeitando-se no banco, Tobias responde:

- Eu ainda não sei, guarda. Acredito que o Plasma seja um condutor, ou uma catálise da realidade em que seres reais e imaginários, oriundos de outros planos, se mesclam a este plano. Mas são apenas teorias.

Mladen acende seu cigarro, expelindo a fumaça.

- Seres de outros planos, não? Como o “mundo encantado”?

O guarda novamente o zombava. Controlando-se, Tobias responde:

- Como eu disse, são apenas teorias, mas não difere da crença cristã em que eles afirmam existirem seres espirituais do Céu e Inferno.

- Céu e inferno? – pergunta ele, expelindo fumaça.

- Ou islâmica, quanto a existência dos djinns.

- Eu acredito nos djinns. – interrompe Davud.

Então eles olham para o jovem bósnio.

- O que disse?

- Eu acredito nos djinns. Segundo o Profeta, a paz esteja sobre Ele, os djinns são seres feitos de um fogo que não fumega. Ele consta principalmente no capítulo 72 do Alcorão, e significa “aqueles que não se pode ver”. Os djinns fazem parte de nossa crença.    

Valentim se lembra que, diferente de Carníola, os bósnios seguiam o Islã. Na verdade, essa era a primeira vez que ele via a um bósnio na vida.

Fumando seu cigarro, Mladen olha para o jovem ruivo e pergunta:

- Ei, você veio da Bósnia, não é?

- Sim, senhor.

Mladen então diz:

- A Bósnia foi invadida e ocupada pelos austro-húngaros em 1878, e hoje vocês prestam servidão a eles. Vocês têm todos os motivos do mundo para odiá-los, mas você, ao contrário, os serve. – ele se referia ao seu alistamento na Gendarme – Por quê?

Com o ímpeto característico da juventude, Davud responde:

- Porque eu não quero viver sob o jugo dos sérvios! – exclama ele – Sérvios, croatas e bósnios residem na Bósnia e Herzegovina, mas os sérvios querem toma-la apenas para si! Eles não reconhecem nossa fé, nossa cultura e principalmente nossa liberdade. São imperialistas e belicistas; se utilizam de sua aliança histórica com os russos para nos intimidar. Se eles invadirem a nossa terra, o Império Russo invadirá também. Será um massacre, uma limpeza étnica assim, por dizer! Jamais permitirei isso e lutarei contra sua agressão como for, inclusive dando minha própria vida se necessário! – exclama ele mais uma vez – Mas não conseguiremos resisti-los sozinhos. Precisamos de aliados poderosos; as potências ocidentais, por exemplo. Por isso me aliei ao Império Austro-húngaro. Prefiro o jugo austríaco do que os sérvios sanguinários nos governando.

Todos se espantam com sua visão política.

- Por que você acha que estará melhor com os austríacos? – pergunta o guarda.

- Me diga o senhor: as províncias ilírias vivem sob o jugo austríaco desde o fim do Sacro Império Romano Germânico. Por acaso vocês sofreram a ameaça de expulsão de suas terras? De deportação? De eliminação de sua fé católica? De limpeza étnica?

Mladen não sabe o que responder. Assim como Valentim, ele era só mais um carníolo médio e ignorante.

- Acho que não.

- E nós também não queremos. Luto pela liberdade de minha Bósnia e Herzegovina. Este é o meu maior desejo. – conclui ele.

O guarda fuma seu cigarro. Olhando para Tobias, ele pergunta:

- Você concorda com isso, inspetor?     

- Bem, eu... – Mladen expele a fumaça, incomodando-o – Temo que esteja exagerando, guarda Davud. O Império Austríaco se envolveu em várias guerras... – novamente a fumaça – Arrastando consigo suas províncias, como Carníola, por exemplo. Assim eles eliminaram grande parte de seus súditos... – ele abana a fumaça – Devido às suas desastrosas escolhas políticas. Desde as Guerras Napoleônicas... – ele tosse – Até mais recentemente, contra os prussianos... – irritando-se ele diz – Guarda Mladen, pode por favor apagar esse cigarro?

Com olhar entediado, o guarda olha para ele e responde:

- Não.

E assim eles prosseguem a viagem.

 

§

 

A carruagem passa por estradas de terra, provocando ruídos nas rodas. Abrindo a janela, Tobias vê a linda paisagem bucólica ao redor do monte. Ele pergunta:

- Senhor Mirko, é este o lugar?

Mirko, que esteve quieto a viagem inteira, responde:

- Sim, senhor inspetor.

A comitiva então deixa a carruagem. Ao olhar ao redor, Valentim vê os campos verdes, as plantações e o vilarejo de Šmartno pod Šmarno Goro ao longe. Á beira da estrada eles veem uma densa floresta subindo pela encosta do Monte Santa Maria.

Tobias observa a paisagem a frente. A vasta floresta escondia segredos. Apressando-se, ele diz:

- Atenção, senhores. Mirko nos guiará pela floresta. Ao percorrerem a área, vocês devem se manter vigilantes. Cuidar de sua segurança é essencial. Cuidado com as raízes, limos e pedras soltas. Também tenham cuidado com os animais silvestres. Por último, se atentem com as pistas que possam encontrar pelo caminho. Até lá, peço que todos fiquem juntos.

Mladen apaga seu cigarro e ajeita seu bigode. Valentim se atenta, preparando-se para tudo. Mirko aperta seu cinto e intenta mostrar o caminho. Então algo acontece.

Davud coloca uma faixa verde com letras brancas ao redor de sua cabeça. Em seguida ele se ajoelha e encosta sua testa no chão, fazendo uma prece em outro idioma. O grupo se intriga.

Curioso, Mladen pergunta:

- Ei, garoto. O que você está fazendo?

- Estou pedindo a Allah por proteção.

Davud se endireita e então se encurva de novo, repetindo a prece mais uma vez. O grupo assiste em silêncio, sem entender ao certo. Então ele termina e se levanta, abanando os seus joelhos e se limpando. O guarda novamente pergunta:

- O que está escrito aí? – ele se referia à sua faixa.

- La ilaha Ilallah Muhammadar Rasululah. – responde ele, falando em árabe – Quer dizer “Não há Deus senão Allah, e Maomé é seu mensageiro”. É o famoso Shahadah, a declaração de fé islâmica.

Todos se entreolham. Apesar do império ser multiétnico, raramente eles se encontravam com pessoas de culturas tão diferentes. Agora, com a chegada do Plasma, Liubliana recebia constantemente essas pessoas.

Finado o seu rito religioso, Davud se prepara para acompanha-los. Havia uma área aberta, seca e coberta de pedras antes de chegar à floresta. O cocheiro encosta a carruagem e desce da boleia. A comitiva inicia a caminhada e sobe a pequena subida ao lado do monte. Ao olhar para trás, Valentim vê o cocheiro ao longe, encostado em sua carruagem e fumando um cigarro.

Novamente inquieto, o tagarela Mladen tenta conversar outra vez.

- Então o que estamos procurando aqui? Vestígios de sua esposa?

Mirko ri, negando com a cabeça.

- Não é minha esposa, é minha filha.

- Filha, é? Eu tenho filhas também. Uma do primeiro casamento, outra do segundo e uma garotinha do terceiro.

O grupo se espanta.

- O senhor está casado pela terceira vez?! – espanta-se Tobias.

- Não exatamente. Eu pretendi noivar no terceiro, mas me separei a tempo. Ou melhor, me libertei! Não ia suportar me casar de novo.

- Mas por quê? Seus casamentos foram assim tão terríveis?

- Certamente! – empolga-se ele – Todas os casamentos são.

Então todos se interessam, querendo participar da conversa. Valentim nota como as melhores conversas começavam com uma bela polêmica.

- O que houve? As casadas fizeram mal ao senhor?

- Pode-se dizer que sim. Mas eu não as culpo. É a natureza do casamento! De fato, acho que esta instituição foi criada para tornar a vida dos homens miserável...

Eles riem, uns concordando e outros não.

- Isso foi extremamente ofensivo... – comenta Tobias.

- Por quê?

- E há necessidade de me justificar? Eu não creio que o casamento foi criado com o único objetivo de nos tornar miseráveis!

Mladen ri. Então, tocando-o no ombro, ele pergunta:

- Você é casado?

O inspetor se constrange.

- Eu... – hesita ele.

- Você o quê? – insiste o guarda.

- Eu tive uma namorada em Viena, mas ela me deixou.

- Então quer dizer que você nunca casou? – admira-se ele – E você tem mais de trinta anos...! Mas muito bem. Você se livrou de uma tremenda enrascada.

A comitiva ri, com exceção de Tobias.

- Eu a amava!

- E por que ela o deixou?

O inspetor não sabe o que responder.

- Eu não sei. Mas foi devido ao nosso rompimento que eu decidi deixar a Áustria. Eu quis ir o mais longe que pudesse, para a mais longínqua província do império para nunca mais ter de vê-la novamente. Tudo em minha terra me lembrava dela.

O guarda assente.

- Então você concorda que ela deixou sua vida bastante miserável após o rompimento, não?

Tobias reluta em concordar. Ele ainda se sentia muito magoado.

- Eu fiz tudo por ela e não foi o suficiente... – lamenta-se ele.

- Mas nunca é! – sorri ele – No casamente, as casadas são inconstantes, vorazes e extremamente gananciosas! Nunca estão satisfeitas. Querem mais e mais, e mais... Mais dinheiro, mais amor, mais emoção... E quando não conseguem mais arranca-los de nós, nos acusam, nos culpam e nos imputam a causa de sua cínica infelicidade. E por quê? – pergunta ele – Porque nada pode satisfazer suas vaidades do matrimônio.

Valentim se avilta. Ele é casado e Danica nunca o tratou assim.

- Vejo que teve experiências muito ruins em seus casamentos, senhor guarda. Mas eu também não acho que as casadas sejam assim.

Mirko falava com ele. Em seu semblante eles viam que ele estava irritado.

- O senhor é casado?

- Senhor guarda, eu sou viúvo há oito anos.

Então Mladen se constrange.

- Meus pêsames, cidadão. – diz ele – Se o senhor teve uma boa esposa, eu te parabenizo. Porém não foi o caso comigo e por isso eu nunca mais me casei. Me casar foi a maior desgraça que eu fiz. Perdi toda a minha juventude e minha liberdade. Nunca mais me senti alegre ou realizado comigo mesmo. Me lancei em uma fria prisão. Irônico, já que sou da Gendarme e sou eu quem lança os outros na prisão... – ri ele – Mas agora que me libertei, tive dezenas de mulheres em minha cama! Eu sou conhecido em todo bordel. Todas as prostitutas conhecem o meu nome!

O guarda se alegra. Tobias lhe lança um olhar de repugnância.

- Sendo o senhor um cristão eu não acho que esteja seguindo corretamente a sua religião, senhor Mladen.

- Mas do que é que você está falando?

- Em sua Bíblia diz que divórcio, prostituição e fornicação são pecados. E o senhor está cometendo os três.

Mladen ri.

- E quantas mulheres tiveram os patriarcas? Ou os juízes? Ou melhor ainda, o rei Salomão? – pergunta ele – Ademais, não é pecado a poligamia no Islamismo, e nós adoramos o mesmo Deus. Não é, meu jovem?

O guarda olha para Davud.

- Talvez.

- Não seja tímido! – repreende ele – Vamos diga. Com quantas mulheres pode um homem se casar no Islã?

Um pouco confuso, ele responde:

- Quatro.

- Quatro?! – espantam-se eles.

Todos sorriem, fantasiando o quão prazeroso seria ter quatro mulheres em suas casas.

- Mas há uma séria restrição. – adverte ele – No capítulo 4, versículo 3 do Alcorão, Allah nos orienta a tratar nossas esposas com igualdade e justiça. Mas se o marido não for capaz de pratica-las, então o Alcorão o orienta a se casar apenas com uma. A poligamia no Islã tem caráter social e moral, e o marido a total responsabilidade de cuidar e manter igualmente as suas esposas.

Os homens se desanimam. Não seria viável ter quatro mulheres em casa.

- Meu jovem, responda-me: quantas mulheres teve o Profeta Maomé?

Davud pensa.

- Algumas fontes dizem onze, outras quinze...

Os homens se estarrecem.

- Como veem, o Islã, que é o sucessor do cristianismo, está corretíssimo ao legalizar o casamento poligâmico.

O jovem guarda sorri, alegrando-se da maior possibilidade de ter um casamento feliz. Notando seu sorriso, Mirko os interrompe e pergunta:

- Com licença, guarda Davud. Muito interessante os detalhes de sua religião, mas me responda uma coisa: você já é casado?

Davud vira o rosto, envergonhado. Ao demorar para responder, Mladen pergunta:

- O que foi, meu jovem? Você ainda não se casou?

De cabeça baixa, Davud meneia negativamente a cabeça. Então Mladen percebe tudo.

- Espere um minuto. – interrompe ele – Você ainda é virgem! – então o guarda ri intensamente.

O jovem bósnio tenta negar, mas sua voz se perde entre os risos do grupo. Foi tão evidente seu constrangimento que nenhum argumento os convenceria do contrário.

- Como pode ver vantagem na poligamia se nunca foi casado? Como pode se comparar conosco se você ainda não se casou? – pergunta Mirko – As casadas não são objetos das quais você descarta uma e arruma outra. Talvez você mude de ideia quando perder a mulher que você ama, como eu perdi a minha.

Mirko o repreende com olhar férreo, como um pai educando o seu filho. Davud fica tão vermelho quanto os seus cabelos

Abraçando-o em seu ombro, Mladen diz:

- Não ligue para ele, meu jovem. Você não perdeu nada não se casando, mas ao se casar não ganhará nada também. Você é um rapaz virgem, puro, imaculado pelos venenos do matrimônio. Se eu fosse você, eu jamais me casaria. Você apenas se tornará amargo e infeliz. E não tenha medo da solidão! – adverte ele – Olhe para mim. Eu sou divorciado e muito feliz!

O guarda ri novamente, divertindo-os.

- Mas guarda Mladen, eu não posso me lançar à libertinagem. Eu desejo me casar um dia.

Mladen se indigna.

- Pois deixe-me abrir os seus olhos, garoto, assim você não cometerá os mesmos erros que eu cometi. – diz ele – Se você pensa em se casar para fazer sexo, saiba de uma coisa: casados não fazem! 

A comitiva se intriga.

- Ora, essa! Mas é claro que os casados fazem! – objeta Mirko.

- Não se faça de desentendido! O senhor foi casado há tanto tempo e não aprendeu? – repreende ele – Sexo só existe no começo do casamento, depois a casada se esfria e o restringe mais e mais, até se tornar monótono e maçante. Então se você pensa que ao se casar você vai viver transando, esqueça!

O jovem guarda se assusta.

- Mas... – continua ele – Se você quiser excitar sua esposa e manter seu tesão aceso por mais tempo, tenha dinheiro!

- O quê?! – intriga-se ele.

- Não é seu físico, seu uniforme ou seu sentimento que realmente atrai sua esposa. O que elas gostam mesmo é de dinheiro! – afirma ele – Então, se quiser viver transando, tenha muito guardado. Esposas só nos querem quando temos dinheiro...

Os homens riem de seus ensinamentos, inclusive Valentim.

- Mas e seu eu encontrar uma mulher virtuosa que me ame e queira realmente construir uma vida comigo?

Mladen ri de deboche.

- Preste atenção, Bósnia. As casadas destroem a vida do homem, e unicamente para construir a delas em cima. Não existe a construção de uma vida junto. Ou você faz as suas vontades ou elas fazem da sua vida um inferno. Simples assim.

- Está dizendo que todas são mentirosas?

 - Com certeza as casadas mentem! – afirma ele – Na verdade, elas são mestras nisso. Elas mentem, omitem e distorcem a verdade, isso quando não a sufoca completamente. Elas sabotam os seus sonhos e inventam mentiras, dissuadindo-o de seus objetivos e atraindo-o para os delas. Não espere lealdade. União é ilusão.

Davud se espanta.

- Então não há amor, não há sexo e não há união... – lamenta-se ele – Pelo visto, não convém casar.

- Casamento é a prisão do desejo. – afirma ele – Espere ver todos os seus desejos, prazeres e fantasias serem tirados com o tempo. Beijos então? Nem pensar! Você estará faminto por um alívio sexual decente. Sua esposa, por outro lado, estará ótima sempre negando-o a você.

O jovem guarda se desfalece. Vendo como Mladen o desiludia, Tobias intervém.

- Ei, Mladen. Deixe-o em paz.

Olhando-o, o guarda responde:

- Acalme-se, inspetor. Nós só estamos conversando. Aliás, você deveria aconselha-lo também. Afinal você também sofreu grande desilusão, não é mesmo?

Apesar de seu grande conhecimento acadêmico, Tobias não podia competir com a experiência de vida de Mladen.

Davud pergunta:

- Guarda Mladen, por que o casamento é tão mal?

Novamente em tom professoral, ele responde:

- Veja, o problema não é só o casamento. O problema começa por que os homens e as mulheres mentem na hora da conquista, por isso o casamento é uma desgraça. – explica ele – Entenda que ambos caem na armadilha do amor, do sexo e da criação de filhos. Mas os maridos tentam se desvencilhar dessa armadilha arrumando amantes, prostitutas ou o próprio divórcio. Já as esposas se tornam a armadilha. Elas usam nossas fraquezas contra nós mesmos, ameaçando-nos com a separação, a pensão alimentícia, o casamento com outros homens, a gravidez e até a ameaça do inferno, usando a própria Bíblia como arma.

Ao ouvi-lo, Davud comenta:

- Não sou cristão, mas vejo que o cristianismo impõe um fardo moral muito pesado nos ombros dos homens.

- Cristianismo é o eterno ato de se redimir de sua própria miséria! – afirma ele – Se você não ama mais sua esposa, ore. Se você deseja outra mulher, ore. Se sua esposa reclama da falta de dinheiro, ore. Se você está desesperado e quer acabar com a sua vida, ore... Os cristãos justificam a si mesmos com passagens bíblicas que dizem “no mundo terão aflições”, “os humilhados serão exaltados”, “lancem sobre mim os seus fardos e eu os aliviarei...” – e então ele zomba – Mas estranhamente esse fardo parece ter sido lançado para eles de volta...

Nesse momento Valentim concorda com ele.

- Talvez tenha razão.

- Ao redimirem-se com a Bíblia, os cristãos eternizam seus problemas ao invés de trata-los corretamente, e assim eles nunca vão embora. É o mesmo com o casamento. Acreditar que, por um milagre, sua esposa vai voltar a ser uma pantera na cama, é estupidez. Ou pior ainda, é patético.

Valentim ri, chamando a sua atenção. Percebendo que ele estava quieto o tempo todo, o guarda pergunta:

- Ei, cidadão. O senhor também é casado, não é?

- Sim, senhor guarda.

- E o que o senhor acha? Estou certo?

Refletindo, Valentim responde:

- Suas palavras fazem sentido, mas não posso dizer que concordo plenamente. Eu amo a minha esposa e jamais a abandonaria. Ela está desaparecida e eu estou procurando-a. E eu revirarei esta cidade inteira para encontrá-la, nem que eu tenha de passar por cima de qualquer um que ousar se pôr em meu caminho.

Mladen se espanta, impressionado com sua inabalável convicção. Por fim, ele comenta:

- Vejo que o senhor realmente a ama. Vivi pouco o amor verdadeiro com uma esposa. Mas me responsa uma coisa. – pede ele – O que o senhor fará quando finalmente encontrá-la? O que pretende fazer para recompensar o seu esforço?

Lembrando-se do quanto ele sentia saudades de sua esposa, do quanto ele a amava e do imenso vazio que sua ausência deixou em seu peito, Valentim diz:

- Um longo e lento beijo servirá.

 

 

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