(Autor desconhecido)
Estava uma manhã
caótica no centro de Liubliana. As lojas tiveram suas vidraças apedrejadas e
suas mercadorias saqueadas. Os donos dos estabelecimentos acusavam-se a si
mesmos e muitos se espancavam nas ruas. A Gendarme tentava controlar a confusão
e muitos eram levados em custódia. Tobias se estarrece.
Em frente à
tabacaria, o inspetor olha para Mirko e diz:
- Obrigado por
vir, senhor Mirko. Precisaremos do senhor para nos ajudar a identificar o
suspeito.
- De nada, senhor
inspetor. O quanto antes encontrarmos minha filha, melhor.
Valentim e Davud
também estão presentes. Mladen chega um pouco mais tarde com semblante
irritado; ele estava descontente por ter de acompanhar Tobias novamente.
- Bom dia, guarda
Mladen. Obrigado por vir.
Ele resmunga:
- E eu tive
escolha?
Então a comitiva
entra na loja. Atrás do balcão, o vendedor se levanta empunhando um poderoso rifle.
Apontando-o para eles, ele exclama:
- O que vocês
querem?!
- Lovro! Por
favor! – protesta Mladen – Estes são modos de receber os clientes?!
- Guarda Mladen?
– reconhece ele – Mil perdões. Veio comprar mais charutos?
- Na verdade,
não. Estamos em uma investigação da Gendarmerie.
- Investigação?
Do que está falando?
Tocando Mladen no
ombro, Tobias diz:
- Obrigado,
guarda. Eu assumo daqui. – olhando para o vendedor, ele se apresenta – Bom dia,
gospod Lovro. Eu sou o Inspetor
Tobias Hessler. Prazer em conhece-lo.
- Ah, um
austríaco? – surpreende-se ele – Bom dia, inspetor. O que deseja?
Observando o
rifle em suas mãos, ele pergunta:
- Antes de
começarmos, me responda um coisa: o senhor tem licença para portar uma arma?
Quanto a este rifle, o senhor tem os documentos da mesma?
Lovro se intimida.
- Eu tenho que me
defender, senhor inspetor! Olhe lá fora! Está um caos em Liubliana! Saqueadores
estão invadindo os comércios; várias lojas foram vandalizadas. Estou fazendo o
serviço da Gendarme! – explica ele – Estou tentando me proteger!
Tobias assente.
- Faz ideia da
razão desta onda de saques?
- Eu não faço a menor
ideia! Mas a cidade entrou em decadência desde a chegada desses ingleses! Esse
progresso se revelou a nossa ruína!
Tobias respira
fundo. Comentários discriminatórios contra os ingleses estavam cada vez mais
comuns, mas os liublianenses falhavam em apontar o verdadeiro culpado pela
violência: o Plasma.
- Pois eu vou
dizer só uma vez. Eu vou esquecer que o senhor comprou ilegalmente um rifle
contrabandeado do exército se responder as minhas perguntas, está bem?
Constrangido, o
vendedor responde:
- Está bem.
- Estou atrás de
um suspeito de sequestro e, possivelmente, assassinato. Responda-me: o senhor
tem recebido em sua loja forasteiros, estrangeiros ou clientes desconhecidos da
vizinhança ultimamente?
Lovro sorri.
- Senhor
inspetor, apenas olhe para as fábricas lá fora. Eu recebo ingleses, alemães,
húngaros, austríacos, judeus e, pela aparência do seu subordinado, bósnios
também. O progresso chegou em nossa cidade. Liubliana está passando pela
Revolução Industrial.
Tobias assente.
- E o senhor
também recebe camponeses?
Lovro sorri mais
uma vez.
- Camponeses? O
que mais recebo são homens do campo ultimamente! Eles migraram para a cidade
para trabalhar nas fábricas. É o êxodo rural, como dizem por aí.
Tobias se
convence. Abrindo sua maleta, ele exibe a ponta de um charuto e o pedaço de
vestido.
- Encontramos
essas pistas no local de desaparecimento da vítima. Minhas investigações
concluíram que ele é vendido neste local. E este tecido indica que eram as
roupas usadas pela vítima no dia de seu sequestro. Quem quer que a tenha levado
passou por aqui antes de praticar o crime, e pode ter passado após comete-lo.
Portanto eu vou perguntar mais uma vez: o senhor recebeu camponeses aqui
ultimamente?
Pressionado, o
vendedor se irrita.
- Eu não sei! Há
milhares de fumantes em Liubliana! Preciso que o senhor seja mais específico!
- Um homem do
vilarejo de Šmartno pod Šmarno Goro, de nome Štephan, alegando vir à cidade
para visitar a sua mãe doente. O desaparecimento ocorreu há seis dias, mas ele
pode ter voltado para comprar mais charutos.
- Eu... – o
vendedor se esforça para lembrar.
- Senhor Lovro,
pense! Enquanto perdemos tempo aqui, a vida da vítima corre perigo!
Então ele
milagrosamente se lembra de algo.
- Espere! Eu recebi
alguém de Šmartno pod Šmarno Goro semana passada.
Tobias se
interessa.
- E o que ele disse?
- Ele disse algo
sobre sua mãe ter problemas de saúde. Me parece que ele não podia fumar em casa
porque ela não estava bem.
- E onde ele se
hospedava?
- Há duas quadras
daqui.
Anotando tudo em
sua caderneta, Tobias pergunta:
- Mais alguma
coisa?
- Não, isso é
tudo.
Fechando-a, o
inspetor diz:
- Muito obrigado,
gospod Lovro. O senhor foi muito
útil.
Enquanto caminham
para fora, o vendedor pergunta:
- O senhor vai se
esquecer do meu pequeno problema com a arma, não é?
Fazendo expressão
de dúvida, Tobias responde:
- Que arma?
Então eles deixam
a loja.
O inspetor olha
para Mirko e diz:
- Se minhas
suspeitas estiverem corretas, o suspeito realmente é o agricultor que mora no
vilarejo e trabalha em sua fazenda. Segundo Lovro, ele mora aqui perto e compra
regularmente na tabacaria. Ele fez disso o seu hábito.
- Você tem
certeza, Hessler? Há centenas de fumantes aqui, e você está se baseando em uma
simples ponta de charuto. – pergunta Mladen.
- Eu não sei,
guarda. Mas se eu estiver errado, teremos de procurar por mais pistas. É isso o
que o senhor quer? Voltar àquela floresta?
Então todo o
grupo se arrepia.
- Acho que sua
pista basta.
- Foi o que eu
pensei.
A comitiva sobe
na carruagem e se aperta nos bancos. O cocheiro bate as rédeas e avança pelas
ruas.
Vendo as
carruagens motorizadas no trânsito, Tobias comenta:
- Essas
carruagens são o futuro do transporte urbano.
Ao ouvi-lo,
Mladen ri.
- Essas geringonças
desajeitadas? Pois eu creio que não, Hessler!
Davud pergunta:
- A Gendarmerie
as receberá no departamento?
Tobias faz uma
expressão de dúvida.
- Após a derrota
para os prussianos, eu duvido que o império tenha verba para isso.
Então eles
prosseguem ao seu destino.
§
O quarteirão
tinha belas casas de telhados vermelhos. Abordando os vizinhos, Tobias e seus
companheiros perguntam sobre a residência do suspeito. A maioria não conhecia
nenhum camponês, mas eles não desistem.
Abordando um
homem, o inspetor pergunta:
- Com licença,
cidadão. Por acaso o senhor conhece um sujeito que trabalha com agricultura e
que, recentemente, veio a este bairro visitar sua mãe doente?
O homem franze a
testa.
- Lamento, meu
jovem. Eu não o conheço.
Meia hora se
passa. Mesmo Valentim começa a se cansar. A busca se mostrava infrutífera.
Mirko se dirige a
algumas senhoras em suas janelas. Chamando-as, ele cita o nome de seu empregado
e de sua mãe. Elas o ouvem e imediatamente se lembram. Para o alívio do grupo,
as senhoras o conheciam.
- Pode nos dizer
onde sua mãe mora?
- Ela não mora
nesta rua. – diz uma delas – O senhor deve procurar na rua de trás.
Tobias se
intriga. Na rua de trás moravam apenas eslovacos e nenhum natural de Carníola.
- Está bem. –
responde Mirko – Eu vos agradeço, minhas senhoras. Tenham um bom dia.
Então a comitiva
se dirige ao seu novo destino.
Na rua de trás
ninguém falava o eslavo do sul, mas eles conseguiam se entender. Mladen
pergunta aos cidadãos pelo suspeito e, de repente, um punhado de crianças
rodeia o velho guarda.
- Com licença,
pirralhos. Estou procurando por um camponês forasteiro. Vocês o viram?
- O senhor está
procurando por um camponês? – pergunta um menino.
- Sim. Onde eu
posso encontra-lo?
- E por que quer
encontra-lo?
- Investigação
criminal.
Então as crianças
se interessam.
- Ele vive em uma
casa velha e desarrumada. – revela uma menina – Se ele não morasse lá, nós
acharíamos que ela está abandonada.
- É verdade! –
diz outro menino – Abandonada e mal assombrada também!
Então as crianças
sentem medo.
- Podem nos levar
até lá?
- Meu pai disse
para não falarmos com estranhos! – adverte uma menina.
- Eu não sou
nenhum estranho! Não estão vendo que eu sou da Gendarme?!
- O senhor vai
prendê-lo?
Mladen ri.
- Eu ainda não
sei, seus diabinhos. Agora me levem até aquela casa e parem de me perturbar, sim?
As crianças lhe
indicam a casa e vão junto com ele. Elas caminhavam determinadas, como se
fossem paladinos em sua luta do bem contra o mal. Mladen sorri.
A casa era velha
e mal cuidada. Como a maioria das casas em Liubliana, era um sobrado de
arquitetura barroca e várias janelas. O guarda podia ver teias de aranha nos
cantos e grama crescendo nas frestas da calçada. A madeira apodrecida denotava
anos de abandono.
A comitiva se
aproxima e, ao vê-la, Davud comenta:
- Quem quer que
viva lá dentro a trata com total negligência.
Tobias diz:
- Lembrem-se que
o suspeito tem uma mãe idosa e doente. Ela vive sozinha em sua casa enquanto o
filho trabalha longe no campo. Vamos nos aprofundar no caso antes de começar
com os julgamentos precipitados, está bem?
O inspetor se
aproxima e bate na porta. Minutos se passam e ninguém atende.
- Será que não
tem ninguém em casa? – pergunta Davud.
- Impossível. A
mãe está doente e não pode sair.
- Então por que
não atende?
Uma das crianças
pergunta:
- Quer que eu
pule lá dentro? A janela está velha e, com uma bela pedrada, a vidraça se
quebrará.
O inspetor ri.
- Não, mas eu
tenho outro pedido. Voltem para as suas mães, sim? Este lugar é perigoso e
vocês podem se machucar.
Então as crianças
se afastam, mas ficam à distância observando-os.
- Inspetor
Tobias, a porta está destrancada. – indica Valentim, abrindo a maçaneta.
A comitiva se
espanta. Diariamente Liubliana recebia imigrantes de todas as partes do
império. Roubos e furtos eram comuns para sobreviver na cidade, e deixar os
imóveis abertos era um convite para ter sua casa saqueada por ladrões.
Tobias desconfia.
Ele sabia que Valentim era um artesão que trabalhou com dobradiças e fechaduras
a vida inteira. Aproximando-se, ele discretamente pergunta:
- Senhor
Valentim, esta porta não estava realmente destrancada, não é mesmo?
Estufando o
peito, ele responde:
- Eu te disse que
nada ia ficar em meu caminho, muito menos uma reles porta com uma fechadura de
péssima qualidade.
Então o inspetor
sorri.
- Ei, Hessler!
Você vai entrar? – pergunta Mladen – Não vamos precisar de um mandado?
Hesitante, ele
responde:
- O senhor tem
razão. Nós não temos autorização para...
Mas Valentim se
vira e entra na casa, invadindo-a sem a menor preocupação com a lei. Ele
percorre a casa com inabalável determinação, lançando olhares atentos sobre todos
os cômodos. Tobias o segue logo atrás, tentando exaustivamente contê-lo.
Valentim sobe as escadas, intentando olhar lá em cima. De repente ele entra em
um quarto e, subitamente, para em sua porta, petrificado.
O inspetor o
seguia logo atrás, preocupado com aquela incursão ilegal. Ele diz:
- Valentim, o
senhor está cometendo um infração! Eu o ordeno que pare e... – e então ele se
petrifica também.
Os dois viam a
uma senhora morta sobre a cama. A mulher estava fria e ressecada, deitada
debaixo dos cobertores como se estivesse em seu repouso eterno sobre a cama.
Os demais se
aproximam e veem também. Davud se vira e põe a mão na boca, atordoado com o
cheiro. Mladen também se afasta, pegando seu isqueiro e acendendo um cigarro.
Mirko se mantém imóvel; após tantos anos ele já havia se acostumado com a morte.
- Quem será que é
esta mulher? – pergunta Tobias.
- É a mãe de
Štephan. – responde Mirko.
- Por que este
louco manteria a própria mãe morta dentro de casa? – pergunta Valentim.
- Talvez ele não
tenha lidado com o fato dela ter morrido, e isto o enlouqueceu. – sugere Tobias
– Veja como ele a tratou com carinho. – o inspetor indica a coberta
cuidadosamente posta e os travesseiros perfeitamente alinhados – O suspeito
deve ter feito deste quarto o seu santuário.
Mirko nota os
lábios ressecados mostrando os dentes. Ele comenta:
- Eu não me
atreveria a tirar os cobertores; eles devem estar ocultando a podridão lá
embaixo.
Olhando ao redor,
Tobias encontra uma lamparina alimentada por Plasma. Ele diz:
- Ainda há
combustível. O suspeito ainda frequenta o local. Tomem cuidado.
Saindo do quarto,
eles fecham a porta.
De repente eles
escutam um som no andar de baixo e se assustam; tinha mais alguém lá dentro.
Davud e Mladen
sacam seus porretes e descem as escadas em silêncio. Ao chegar na sala, eles
não encontram ninguém. Mladen se dirige à cozinha e Davud ao quintal; também estavam
vazios. O inspetor checa o banheiro e se intriga.
“Se não há
ninguém aqui embaixo, então de onde veio o barulho?”, pergunta-se ele.
Valentim caminha
sobre o assoalho, provocando o ruído dos passos. Então ele se dirige à cozinha
e o assoalho soa diferente, como se houvesse uma tampa abaixo dele. Ele se
intriga. Tateando o piso, Valentim encontra uma espécie de alça.
“É um alçapão!”,
pensa ele.
Pegando o porrete
de Mladen, ele o passa pela alça e a puxa, revelando um escuro fosso. A
comitiva se espanta.
O úmido fosso
tinha uma rústica escada de barras de aço na parede. O interior era escuro e
frio, mas eles podiam ouvir ruídos vindos lá de baixo. De repente eles ouvem o
ecoar de um gemido e suas peles se arrepiam.
Um pouco sem
jeito, Tobias pergunta:
- Precisamos
investigar lá embaixo. Voluntários?
Todos se
silenciam. Corajosamente levantando a mão, Valentim diz:
- Eu vou.
- Está muito
escuro, inspetor. Vamos precisar de uma lamparina. – alerta Davud.
- É claro. Há uma
no quarto da mãe falecida. Alguém pode pega-la para mim?
Novamente eles se
silenciam; ninguém queria retornar ao quarto do cadáver. Mas então Mirko se
voluntaria.
- Eu pegarei.
Tobias sorri.
- Muito obrigado,
senhor Mirko.
Um minuto depois
Valentim desce pelo fosso.
Ao chegar lá
embaixo, ele ilumina as paredes de pedra com a luz verde. Seus passos ecoam
pela escuridão e o deixam apreensivo. O ar pesado e gélido tenta sufoca-lo, mas
nada ia fazê-lo desistir.
Havia algo no fim
do túnel; um pequeno ponto de luz amarelada emerge das sombras. Ele investiga e
encontra uma galeria subterrânea iluminada por tochas. O cheiro nauseante de
algo químico misturado com podridão sobe em suas narinas. Estranhamente ele
pensa ter entrado em uma catacumba.
Gemidos são
ouvidos e lhe dão arrepios; alguém sussurrava na escuridão. Ele ouve os gemidos
novamente e reconhece uma voz de mulher. Imediatamente ele se desespera.
“Danica!”.
Valentim avança
destemidamente e encontra uma sala maior lá embaixo. Ao iluminar com a
lamparina, ele se estarrece. Haviam dezenas de corpos de mulheres espalhados
pelo chão. Elas estavam despidas e mutiladas, e algumas pregadas nas paredes.
Mirando seu
holofote, ele nota que algumas vítimas nas paredes ainda estavam vivas. Suas
bocas estavam amordaçadas e elas tentavam gritar por socorro, mas apenas saíam
gemidos. Valentim se apavora ao ver que algumas tiveram seus olhos arrancados
por objetos afiados.
Controlando-se,
ele avança lentamente. À sua direita ele encontra uma pilha de cadáveres
esquartejados, com braços e pernas mutilados por toda parte. Ele vê homens ali
também, mas eram apenas garotos indefesos, pegos e levados para aquele
calabouço. O sangue pegajoso grudava-se nas solas de suas botas, fazendo-o se
desequilibrar. De olhos arregalados, ele segura o grito.
Mesmo o forte
Valentim não suportava ver tudo aquilo. Sua sanidade se enfraquecia e começava
a se fragmentar. A carne debaixo da pele era mais aterradora do que se pensava;
os ossos se misturavam às vísceras e expunham os órgãos. Sendo decente a vida
toda, ele nunca viu a intimidade de outras mulheres, mas ali suas vaginas
estavam todas expostas, despidas para quem quisesse ver. Nem mesmo um
açougueiro suportaria aquilo, a carnificina era forte demais. Suando frio, Valentim
estava à beira de um colapso nervoso.
De repente ele
ouve alguém chorar. Aproximando-se de um altar, ele ouve:
- Valerija! Como
eu te amei! Como eu te amei tanto...!
Apagando a
lamparina, Valentim se esconde em um canto. Um homem se lamentava, dizendo:
- Como eu te
amei, Valerija! E você me rejeitou! Por que me rejeitou?! Eu te mostrei tudo!
Eu te mostrei minha verdadeira face! E por que você não me amou, Valerija? Por
que você não me amou...?
Valentim nota que
ele falava para um compartimento de vidro semelhante a um aquário. Havia um
líquido em seu interior, mas ele não consegue enxergar nada dentro.
- E então eu te
amarrei, te amordacei e te pendurei para te contemplar e te ter. Eu cortei os seus
braços e suas pernas; eu derramei o seu sangue por toda parte. Minha faca
penetrou os seus ossos e eu arranquei a sua espinha dorsal! Sua estonteante
beleza foi retirada. Eu a desfigurei para ter redimir! – exclama ele – E ainda
assim você não me amou...
O homem chora
novamente, distraído em suas lamentações.
De repente Tobias
e os guardas aparecem.
- Parado! –
ordena ele – Fique onde está!
Assustado, o
homem se vira e é surpreendido pelos invasores.
- Quem são
vocês?!
- Seu doente
psicopata! O que você fez?! – Tobias olhava enojado para os cadáveres.
Ainda tenso, o
homem não sabe o que responder. Valentim estava ao seu lado e ele não o havia
notado ali.
- Eu não sei do
que está falando...
De repente ele
mexe em sua cintura e saca um revólver. Reconhecendo a arma, Valentim corre em
direção a Tobias e grita:
- Cuidado!
O homem atira.
Valentim protege Tobias e a bala atinge as suas costas, fazendo ambos caírem no
chão em seguida.
Irado, Mladen saca
sua pistola e atira de volta. O homem é atingido no ombro e cai contra a
parede. Davud corre em sua direção e o desarma, rendendo-o.
- Senhor
Valentim! O senhor está bem? – exclama Tobias.
Mas Valentim
estava encolhido no chão. Ele respirava fundo e tentava suportar a dor.
- Guarda Davud!
Chame ajuda! Rápido!
O jovem guarda
intenta deixar a galeria. Então algo acontece.
Mirko aparece e
pergunta:
- O que houve?
Vocês encontraram a minha filha?
Mas tudo o que o
velho via eram cadáveres em toda parte. Então algo à sua frente chama a sua
atenção. Ajustando sua visão ao escuro, ele pergunta:
- Štephan...?
Seu empregado o
encarava no chão. Ele segurava seu ombro e sangue se escorria por suas roupas.
- Senhor Mirko, eu
disse para o senhor esperar lá em cima. É para a sua segurança. – diz Tobias.
Mas o velho o
ignora e continua andando. Havia algo naquele aquário. Olhando bem, ele
reconhece o corpo de uma garota, tão jovem que mal completara vinte anos. Seu
corpo estava cortado e inteiramente desmembrado, mas sua face ele pôde
reconhecer. Petrificando-se de pavor, ele fracamente sussurra:
- Valerija...?
- Gospod Mirko... Eu posso explicar...!
Mas ele o ignora.
Olhando novamente, não lhe restavam mais dúvidas; era a sua filha lá dentro.
Ele enche seus pulmões e brada veementemente, fazendo o seu grito ecoar por
aquele calabouço.
- Nããããããããoooo...!
Caindo de
joelhos, Mirko fecha seus olhos e chora dolorosamente.
- Por favor, me
escute! – suplica Štephan – Eu a amava!
Mirko arfava
intesamente, bradando e expelindo a fúria de um pai que perdera a sua filha.
- Valerijaaaaaa...!
- Senhor Mirko,
ela me rejeitou! Se ela tivesse me aceitado, não teria terminado assim! –
explica ele – Eu não tive escolha!
No meio dos
corpos havia um pesado martelo de ferro. Pegando-o, Mirko se aproxima de
Štephan e o levanta. O assassino tenta se proteger, mas é golpeado na cabeça. O
som do crânio se trincando como um vaso cerâmico lhes dá aflição. Mirko bate
novamente e sangue se espirra para todos os lados. E então ele bate de novo, e
de novo e de novo até a tampa de sua cabeça se soltar e ele esmagar o seu
cérebro.
Tobias tenta
conte-lo, mas Mladen o proíbe. Meneando negativamente a cabeça, o guarda tenta
dizê-lo que nada podia conter a fúria de um pai vingando a morte de um filho.
Finado aquele
espetáculo de fúria, Mirko se senta no chão e chora aos soluços. As lágrimas
rolavam em seu rosto como se o Rio Liublianica tivesse encontrado outra
nascente.
Mladen se
aproxima e tenta consola-lo. À sua frente ele contemplava o cadáver de Štephan;
seus olhos saltaram para fora e o gosmento cérebro se escorria do buraco. Realmente
um horror.
E assim terminava
a busca por Valerija.
§
Horas mais tarde,
o inspetor e seu capitão se reúnem no necrotério do hospital. Tobias escreve
seu relatório em silêncio e então o capitão diz:
- Pelo o que a
investigação descobriu, haviam dezenas de outras vítimas lá embaixo, a maioria
mulheres.
O inspetor
responde:
- Sim, senhor
capitão. Já identifiquei quatorze. Todas estavam na lista de pessoas desaparecidas.
O capitão faz um
olhar pesaroso. Ele não esperava encontra-las assim.
Aproximando-se do
corpo, ele levanta o lençol.
- Que tremenda
bagunça, não? – comenta ele, referindo-se à violência de sua morte.
- Sim, senhor
capitão.
- Segundo consta em
seu relatório, o suspeito morreu acidentalmente em sua galeria subterrânea.
Isso é verdade?
- Sim, senhor. –
confirma ele – O teto cedeu e o atingiu em cheio. Ele não teve a mínima chance.
O capitão desconfia.
A face de Štephan estava irreconhecível.
- Ouça, Hessler.
Eu estou na Gendarme há quase trinta anos e aprendi algumas coisas nesse meio
tempo. Essas marcas não me parecem de tijolos caindo, mas de golpes
contundentes de alguma ferramenta de ferro. Há algo que queira me dizer?
Com semblante
frio como o gelo. Tobias nega.
- Não, senhor.
O capitão respira
fundo.
- Está bem,
inspetor. Parabéns pelo seu trabalho. Vejo-o na estação amanhã. – e então ele
vai embora.
Um minuto depois,
Tobias também vai embora. O inspetor se orgulhava de seu trabalho bem feito,
mas em seu semblante ele não estava feliz. Muita violência havia ocorrido; ele
não dormiria bem esta noite. Mas amanhã seria outro dia e ele seguiria
normalmente com sua vida.
As portas se
fecham e as luzes se apagam, confinando o cadáver à mesma escuridão que ele
impusera às suas vítimas. O culpado foi punido; a justiça foi servida.
Um último
pensamento vem à mente de Tobias e ele diz:
- Caso encerrado.


