domingo, 5 de junho de 2022

Liubliana - 14 - O Desaparecimento de Valerija

 


(Artista desconhecido)


O prazo para rever Tobias finalmente havia chegado. Ao chegar na estação da Gendarmerie, Valentim se dirige ao balcão de recepção. Ele percebe que a estação estava mais cheia; ele vê cidadãos prestando queixas e outros sendo levados presos. A onda de crimes só aumentava. 

Ele pergunta por Tobias e o guarda o indica a sala de evidências. Ao subir as escadas, ele caminha pelo corredor repleto de cidadãos feridos por agressão. Eram tantos que Valentim pensa estar em um hospital. Ao vê-los com o rosto coberto de sangue, ele nota como a violência estava fora de controle.

A porta da sala de evidências estava aberta. Ao entrar, ele vê três pessoas lá dentro; eram guardas comuns de patrulha. Os guardas eram mais velhos e aparentavam ter anos de experiência nas ruas. Perto deles, Tobias era só um jovem acadêmico, um recruta inexperiente e impetuoso.

Os guardas zombavam dele. Tobias se defendia com bons argumentos, mas eram todos ignorados pelos zombadores. Valentim percebe que ele está profundamente irritado, mas se controla perante os guardas. Irritar-se seria pior.

- Ei, Tobias! É você o palerma que acredita em “vampiros e lobisomens”?

- Certamente que não! – nega ele – O que eu disse é que o Plasma possibilita o ressurgimento dessas criaturas. Até um estudo apropriado, não posso afirmar se elas são reais ou não.

Outro guarda diz:

- Eu tenho um corpo bem peludo! Se eu correr pelado por aí, você vai chamar a Gendarme ou a carrocinha?

Eles riem. O terceiro guarda diz:

- Inspetor, ontem em minha ronda noturna, eu vi uma fada em um telhado! Devo me preocupar?

Tobias se interessa.

- Uma aparição? Pode me dar mais detalhes?

- Eu não disse que ele acreditava?!

Eles riem mais uma vez.

- O que você esteve fazendo lá em Viena, hein Tobias? Esteve estudando criminalística ou lendo livros de fantasia?

- Por favor, cavalheiros! Eu levo muito a sério o meu trabalho! Sou bastante profissional aqui!

- Profissional?! Semana passada você nos importunava com histórias de criaturas folclóricas e mitológicas! Minha Nossa Senhora, Tobias! Isto aqui não é o jardim de infância! – exclama um guarda.

- Os senhores não entendem! É o Plasma que viabiliza as aparições! Esta substância tem propriedades místicas e alucinógenas que criam alucinações na mente das pessoas! Não estou certo de que tais criaturas existam, mas as alucinações podem ocorrer naqueles que tiveram contato direto com a substância, como um narcótico altamente potente!

Um guarda responde sarcasticamente:

- Com certeza alguém usou um narcótico potente aqui...!

Outro diz:

- Eu trabalho como Gendarme há vinte e cinco anos e nunca vi nenhum crime cometido por seres “folclóricos e mitológicos”. Os culpados eram seres bem reais! Homens de carne e ossos como eu e você!

O guarda falava com indignação em sua voz. Então Tobias pergunta:

- Os demônios são reais, guarda?

Os três se intrigam.

- O que disse?

- Eu perguntei se os demônios são reais.

- Ora! – confunde-se ele – Certamente que eles são reais!

- Mas o senhor ao menos os viu?

- Não, mas isso é diferente! Demônios são seres espirituais! Nós não podemos vê-los!

- Mas o senhor disse que os crimes são cometidos por pessoas reais, e não espirituais. Entretanto, sua religião prega que os homens são influenciados pelos demônios para fazer o mal, e até possuídos por eles! Então diga-me: os culpados são os homens ou os demônios?

Percebendo que Tobias os havia encurralado, um guarda exclama:

- São os vampiros e os lobisomens!

Então todos gargalham.

Tobias insiste como uma criança injustiçada.

- Os muçulmanos também acreditam em demônios, mas os chamam de djinns. Mas vocês, cristãos, os descredibilizam, acusando-os de heresia. Esta é a vossa verdade? Dois pesos e duas medidas?

Um guarda diz:

- Um djinn? Eu acho que você andou lendo livros demais...

- Dragão, beemote, leviatã, demônios, querubins... Tudo isso está na vossa Bíblia! Vocês não a questionam? Não acham isso tudo uma fantasia?     

- Ele pensa que a Bíblia é fantasia! – ri um deles.

E assim o debate prosseguia, com o inspetor tentando argumentar e os guardas levando-o ao ridículo.

Minutos depois os guardas vão embora. Tobias se senta, respirando fundo e limpando os olhos, desanimado. Ao notar um homem parado ali, ele pergunta:

- O que você quer? Veio aqui zombar de mim também?

Valentim protesta:

- Não! Eu não vim aqui zombar de ninguém! Sou eu, Valentim! Vim aqui a seu pedido, de uma semana atrás!

- Pedido?

- Minha esposa, Danica, está desaparecida! O senhor disse que podia me ajudar se eu voltasse após cinco dias...

Tobias se esforça para se lembrar.

- Oh, senhor Valentim. – responde ele – Como está?

Valentim acha aquilo um pouco difícil de responder. Sua vida estava desmoronando, sua esposa desaparecida e ele não tinha mais o que comer. Resumindo sua situação, ele diz:

- Fui demitido do meu trabalho e agora como com os mendigos em uma igreja para não morrer de fome.

- Ora, mas isso é terrível! – espanta-se Tobias – Como isso foi acontecer?

- Eu não faço a menor ideia. – pretendendo manter o foco, ele diz – Inspetor, escute. Eu preciso encontrar a minha esposa agora, está bem? Isso é tudo o que importa.

Assentindo com a cabeça, Tobias respira fundo e diz:

- Senhor Valentim, infelizmente eu não recebi nada sobre sua esposa em minha mesa. – responde ele enquanto mexe em seus arquivos – Mas recebi de muitas outras mulheres que foram encontradas mortas e não foram identificadas.

- O quê?! – exclama ele.

- Não, espere! – corrige-se ele – Nenhuma delas correspondia com as descrições que o senhor deu.

Tobias não se lembrava das descrições de Danica, mas finge sabe-las para não preocupar Valentim.

- Entendo... Então após todo esse tempo o senhor ainda não tem nenhuma pista de minha esposa? – pergunta ele, pressionando-o.

- Antes de eu responde-lo, diga-me uma coisa: o que o senhor andou fazendo durante todos esses dias? Lembrou-se de perguntar por sua esposa aos seus vizinhos?

Disfarçando, ele responde:

- Perguntei a algumas pessoas.

Mas Valentim respondia de maneira evasiva. Ele não perguntou a ninguém sobre Danica. Na verdade, ele esteve lutando para ele e seu gato não morrerem de fome.

- E o senhor obteve algum êxito?

- Obtive o quê?

Ele não entendia aquelas palavras difíceis. Tobias esclarece:

- Quis dizer se o senhor conseguiu alguma coisa.

- Não, senhor.

Tobias põe a mão no queixo, parecendo pensar em alguma coisa.

Nesse momento alguém bate na porta. Os dois se viram e veem o capitão acompanhado de um homem mais velho. Segurando uma pasta, o capitão diz:

- Inspetor Tobias, eu tenho um caso para você. Recebemos pistas de outra mulher desaparecida. Seu nome é Valerija[1].

- Valerija? – pergunta ele, enquanto folheia a pasta.

- Este aqui é Mirko, o pai da desaparecida. Ele tem informações que poderão ser úteis em suas investigações.

- Está bem. Obrigado, senhor.

O capitão se vira e vai embora. Tobias olha para o velho e diz:

- Bom dia, senhor Mirko. Como vai?

Valentim o observa. Mirko tinha os cabelos calvos e grisalhos, e usava roupas de camponês. Seus olhos eram azuis, mas, devido à idade, estavam descoloridos e acinzentados.

- Bom dia, inspetor. Eu estou bem, obrigado.

- Então o senhor tem informações que pode nos ajudar?

- Sim. Eu tenho uma fazenda ao sul do Monte Santa Maria; lá nos cultivamos trigo. Há seis dias minha filha saiu para fazer compras no vilarejo de Šmartno pod Šmarno Goro durante a tarde. Não temos mais carroça; meu cavalo foi picado por uma cobra e não pode mais cavalgar, então a maior parte de nossas tarefas fazemos a pé. – explica ele – No trajeto, há um trecho de densa floresta. Minha filha passou por lá e nunca mais foi vista. – lágrimas se escorrem de seu rosto – Meu cachorro farejou seu cheiro pelo caminho, mas ele se perde entre as árvores. Estranhamente o cheiro parece desaparecer ali.

Tobias assente.

- Senhor Mirko, deixe-me fazer algumas perguntas. O senhor teve contato com o Plasma?

O velho estranha a súbita mudança de assunto.

- Sim, eu o uso como fertilizante.

Anotando em sua caderneta, ele pergunta novamente:

- E como está a colheita? Boa? Má?

- Está excelente! – exclama ele, empolgado – Nunca antes tivemos uma colheita tão boa! E acredito que foi tudo devido a esse miraculoso fertilizante!

Tobias assente novamente.

- Com esse aumento tão notável, o senhor deve ter precisado de muitos ajudantes, não? Por acaso o senhor contratou agricultores para ajudá-lo?

- Certamente! Eu chamei cinco para trabalhar em minha propriedade.

- E o senhor os conhece?

- Três são parentes e dois são amigos. Todos de confiança.

O inspetor anota em sua caderneta.

- Perdoe minha ignorância, senhor Mirko, mas nas plantações os ajudantes têm contato com o Plasma?

- Diariamente. Eu guardo os fertilizantes nos alojamentos dos ajudantes.

Tobias arregala os olhos.

- E essas florestas... Ao lado do monte... Vocês conhecem bem a região?

- Somos nascidos e crescidos lá, senhor inspetor. Nós conhecemos as florestas como a palma de nossas mãos. Apesar de que... – corrige-se ele – A paisagem está mudando, ultimamente. Estão construindo fábricas inglesas por toda parte e linhas férreas cruzam a região. O progresso está chegando em nossa Carníola.

O inspetor concorda.

- Deixe-me perguntar outra coisa. Ultimamente o senhor vem tendo experiências paranormais em seu trabalho ou em sua casa?

Mais uma vez o velho estranha a mudança de assunto.

- Eu não sei, eu não acredito muito nessas coisa... Mas o que isso tem a ver com o assunto? – irrita-se ele.

- Apenas me responda a pergunta, senhor Mirko. O senhor não se lembra de ter visto nada de estranho? Ou ouvido vozes, passos, risos...? Sombras e aparições?

Mirko meneia negativamente a cabeça.

- Não, eu não vi nada.

Assentindo com a cabeça, Tobias conclui:

- Isso é tudo.

Ele termina suas anotações e fecha sua caderneta.

O capitão passa pela porta caminhando no corredor. Tobias se levanta e imediatamente o chama.

- Capitão Vilko! Preciso falar com o senhor.

Voltando-se, o capitão pergunta:

- O que deseja, Tobias?

- Eu já tenho as pistas necessárias para começar a investigação. Trata-se de um novo caso de sequestro envolvendo o Plasma. Estimo que a vítima ainda esteja na área e, por isso, vou precisar de uma equipe de buscas.

Desanimando-se, Vilko pergunta:

- Inspetor, você não está relacionando o Plasma com suas teorias de novo, não é?

- A família da vítima teve contato direto com a substância, capitão. Eram todos homens de confiança, residentes da área desde a infância. O que poderia ter causado a súbita mudança de comportamento?

O capitão não se convence, mas se mostra mais favorável, para a surpresa de Tobias.

- Está bem. Pelo menos desta vez você não acha que os culpados foram os “lobisomens e fantasmas”. Verei o que...

- Espere! – interrompe Mirko, surpreendendo-os – Agora que os senhores comentaram, há sim algo estranho acontecendo em minha casa.

Interessando-se, Tobias se silencia para ouvi-lo.

- O que houve?

- Há algumas noites eu ouvi passos na escada. Eu estava sentado em frente à lareira quando algo tocou o meu pescoço, algo frio e suave como a morte. Assustado, eu olhei ao redor e não vi nada, mas a sensação de estar sendo observado não me deixou em paz! – exclama ele – Então eu peguei minha lamparina e caminhei pela sala. E foi então que eu vi.

Todos o ouviam atentamente, inclusive Valentim.

- Prossiga, senhor Mirko.

- Uma mulher de vestido branco estava parada no meio da escada. Porém seus vestidos e seus cabelos estavam estranhos! Eles balançavam como se fossem assoprados pela brisa suave de outono... – descreve ele – Seus olhos eram brancos e vazios, e sua face pálida como a neve. A desconhecida continuou subindo até desaparecer na escuridão. Eu não sei quem ela era, mas com certeza não era deste mundo...

Valentim e Tobias se arrepiam. Porém o capitão interrompe o suspense para dizer:

- Tobias, você acha que isso tem alguma relação com o Plasma?

- Definitivamente, senhor capitão. Todos que tem contato com a substância relatam terem visto aparições.

- Todos? – duvida ele – As pessoas são diferentes, inspetor! Elas não podem ter os mesmos sintomas!

- Eu também tive, senhor capitão.

Os guardas olham para trás, intrigados.

- O que disse, senhor?

- Eu vi algumas aparições em minha casa. E tive pensamentos assaz violentos também, se me permite dizer. – responde Valentim.

Ainda intrigado, Vilko pergunta:

- Quem é este senhor, Tobias?

- Este é... – ele não se lembra o nome.

- Valentim. – lembra ele.

- Valentim, senhor. – responde ele – Ele também teve alguém sequestrado em sua família, e veio aqui para pedir ajuda.

- Há pistas no caso dele?

- Não, senhor. Nenhuma.

Ao ouvi-lo, Valentim se desanima.

- Muito bem. Como estávamos conversando, eu não tenho homens o suficiente para montar a sua equipe. Mas eu tenho um novo recruta, um jovem vindo de uma província ocupada do império.

O capitão se dirige ao corredor e chama por alguém. Pouco tempo depois um jovem ruivo de uniforme novíssimo entra na sala. Com peito estufado e olhar fixo, ele bate continência e responde:

- Apresento-me para o dever, senhor!

- Inspetor, quero que conheça o nosso novo recruta. Este é o guarda Davud. Ele veio da Bósnia e Herzegovina.

Valentim vê apenas um garoto de menos de vinte anos com roupas da Gendarme. Tobias protesta.

- Um novato da Bósnia e Herzegovina?! Capitão Vilko, a região a ser investigada é perigosa! Eu preciso de guardas experientes para me ajudar!

O inspetor tinha razão. Eles partiriam para as florestas ao redor do Monte Santa Maria aquela tarde. Qualquer erro pode ser fatal.

- Está bem. Eu vou disponibiliza-lo mais um guarda.

O capitão chama alguém e um guarda de cabelos e bigodes castanhos aparece. Valentim percebe que era um dos que zombavam de Tobias minutos atrás.

- Pois não, capitão?

- Guarda Mladen, quero que auxilie o Inspetor Tobias em sua investigação.

- O quê?! – protesta ele – Eu acompanhando este lunático?!

O capitão o repreende.

- Contenha-se, guarda! Quero que faça a segurança de Tobias em suas buscas.

Contrariado, ele irritadamente pergunta:

- E onde serão essas buscas? No “maravilhoso mundo da fantasia”?

Valentim ri, mas se silencia ao perceber que todos olhavam para ele.

- Nas florestas ao redor do Monte Santa Maria. Quero que faça sua proteção lá.

Tobias novamente intervém.

- Dois não serão o bastante, capitão! É uma área vasta! Precisarei de mais homens!

Irritando-se, Vilko responde:

- Você está me cansando, Tobias! Eu já disse que não posso mais disponibilizar homens a você. – olhando para o lado, o capitão diz – Aqui! Leve estes dois com você.

O capitão olhava para Valentim e Mirko. Tobias se espanta.

- Mas capitão! Eles são apenas civis!

- Isso é tudo o que você terá, inspetor! – exclama ele – Após tanta baboseira sobrenatural, você tem sorte de ainda estar na Gendarmerie! Agora recomponha-se eu volte ao trabalho!

Dando-lhe as costas, o capitão intenta sair.

- Mas capitão...

- Eu disse ao trabalho, homem! – e então ele sai da sala.

Humilhado na frente dos subordinados e dos civis, Tobias se senta. Ele põe as mãos em seu rosto em seguida.

Mirko não sabe o que fazer. Mladen dá de ombros e acende um cigarro. Tobias permanece em sua mesa, lamentando-se em silêncio. Irritado com sua descompostura, Valentim segura seu ombro e diz:

- Ei, inspetor! Você não ouviu o capitão? É hora de trabalhar!

Tobias se espanta com sua ousadia.

- Como ousa desrespeitar-me! Esta é uma investigação criminal! Não tolerarei a presença de civis.

- Mas o senhor vai! – impõe-se ele – Levante-se, sim? Nós temos um trabalho para fazer.

- O quê?! Estou eu recebendo ordens de um civil? – indigna-se ele – Eu o ordeno que me respeite!

Perdendo a paciência, Valentim o agarra pelas roupas e o levanta da cadeira. Com olhar cheio de raiva, ele vocifera ao jovem inspetor.

- Escute aqui, seu moleque! Aquele dia você me pediu por respeito, mas me parece que eu sou o único que te respeita por aqui! Então comece aceitando o fato de que, aqui nesta estação, eu serei o único que te apoiará em suas buscas baseadas em seus “mirabolantes contos de fada”! – esclarece ele – Portanto eu vou dizer só mais uma vez: vamos trabalhar!

Tobias está perplexo, totalmente intimidado por Valentim. De olhos arregalados, ele assente com a cabeça e responde:

- Está bem.

Então Valentim o empurra e o solta. Extasiados com a cena, os demais sorriem, elogiando o ousado Valentim.

Confuso, o inspetor procura por seu material de trabalho. Em seguida ele pede aos demais para se prepararem para sair. Vendo que tudo estava indo de acordo com sua vontade, Valentim sorri.

Impondo-se, ele conseguia o que queria mais uma vez.

 

 



[1] Lê-se Valéria

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