sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Sonata - Parte Final - Epílogo

 


(Imagem de hdqwalls.com)


Alguns dias se passam.

Em um bar qualquer, Maynard bebe tranquilamente seu uísque. Estava uma bela tarde lá fora e os aerocarros passavam normalmente. As luzes piscavam um pouco, o fornecimento de eletricidade ainda estava ruim, mas aos poucos ia melhorar. Debruçado no balcão, ele assiste ao noticiário na TV. As imagens eram ofuscadas pela fumaça dos cigarros, mas ele não se importa.   

A Rebelião se encerrara. A face de Nathan viajava pelo ciberespaço, conclamando o povo a se unir. Ele os pedia para voltar ao trabalho, cessar as hostilidades e restaurar a ordem na metrópole. Com a convicção de um novo dirigente, ele os convocava para a construção de um novo amanhã.

O mercenário bebe um gole de uísque e pensa. Na Cúpula Corporativa, Nathan tinha um dilema em suas mãos. Ou ele se juntava à cúpula e reconstruía a cidade ou a entregava ao controle sanguinário das facções. Conhecendo de perto os terroristas, ele escolhera a primeira opção.

“Uma boa escolha”, pensa ele, não se importando.

As corporações estavam sendo reconstruídas. Os ministérios estavam sendo reativados. A insurreição estava sendo pacificada. Lentamente a ordem se restabelecia.

A repórter fazia a cobertura da reconstrução da Bio Prótesis, o primeiro alvo a ser tomado pela Rebelião. Trabalhando juntos e cooperando entre si, a obra era realizada por robôs e humanos.

“Ou protótipos”, se corrige ele.

Convenientemente a população não sabia a verdade. Para eles, Nathan impediu o Projeto Gemini, encerrando a ameaça do Protótipo #8 para sempre. O Inimigo de Estado se tornou o seu herói, o salvador que deu a sua vida às corporações para lhes restringir o poder. Meneando negativamente a cabeça, Maynard ri.

Sonata se dividiu em zonas, cada uma controlada por cada facção. Entretanto, todas eram subservientes ao regime do "benevolente diretor Nathan". No Setor F, a Frente Ateísta pôde realizar o seu plano de instaurar um governo antirreligioso e científico. No Setor T, os Trans-humanistas puderam desenvolver sua tecnologia de maneira irrestrita. No Setor J, a Bushido estava livre para reerguer o orgulhoso espírito japonês. Lembrando-se dos samurais, Maynard soube que eles concordaram em abandonar o seu expansionismo imperialista, voltando aos moldes pacíficos do Japão do século 21.

Uma viatura de polícia passa pela janela. Estranhamente, nenhum cidadão a hostiliza. O velho inimigo se tornou o novo aliado do povo, mas não da mesma maneira que antes. A Design Inteligente se tornou a nova Polícia Corporativa. Fiéis a Nathan, eles o obedeceram, cumprindo o seu benevolente desejo de serem os seus mediadores.

“Os mediadores dos humanos e dos robôs”, lembra-se ele.

Stella, a poderosa Deus Ex Machina, estava desaparecida. Como o próprio nome sugere, Stella era um deus capaz de criar a vida. Devido ao seu poder, as corporações a mantiveram confinada por séculos e liberta-la foi algo ousado da parte de Nathan. Sabendo do que o supercomputador é capaz, o mercenário teme confronta-la no futuro. Todavia, esse não era um problema seu.

Subtopia morreu junto com Copérnico. O plano genocida de exterminar os protótipos e devolver o mundo aos humanos foi impedido. Mas Maynard carregava o fardo de ser o último humano original sobre a Terra. Bebendo o seu uísque, ele reflete sobre si mesmo. Ele não acredita que todos os humanos foram extintos. De fato, é um mundo bem grande lá fora. Se ainda houverem moribundos vivendo no exterior da metrópole, Maynard prefere deixá-los em paz.

Então ele pensa novamente. Em séculos a Subtopia foi o único sinal de vida fora de Sonata. Ele não é um homem esperançoso. Se os membros dessa facção foram os últimos sobreviventes, então a humanidade foi extinta para sempre.

Assistindo ao noticiário, ele tenta não pensar a respeito.

As imagens mostram a superfície. Nathan pretendia urbaniza-la e reintegrar os seus habitantes aos níveis superiores. Com a morte de Database, Laura se tornou a nova governante lá embaixo. Sorrindo, o mercenário lhe deseja sorte.

Lembrando-se de Database, ele pensa em algo incômodo. As corporações se apoderaram das pesquisas do antigo chefe do Submundo. Eles intentavam desenvolver o Protótipo #9 e usá-lo para explorar o exterior da metrópole. Se obtiverem sucesso, Sonata passará de uma cidade-Estado isolada para um país inteiro.

Maynard sorri. Database não estaria vivo para ver a continuidade de seus planos. Ironicamente quem o continuaria seria Nathan. Bebendo o seu uísque, ele ri ao pensar como o chefe devia estar rolando em seu túmulo.

O mercenário se levanta e deixa o bar.

Caminhando pelo terraço, ele vislumbra a metrópole. O poente anunciava uma nova era em Sonata. Trabalhadores e as facções, os robôs e as corporações, todos se uniam para a construção de um novo amanhã. Parado enquanto observa a paisagem, ele põe as mãos nos bolsos e respira fundo. Parecia haver satisfação e orgulho em seu olhar.

Então ele sorri e alegremente diz:

- Bem-vindos à Sonata.

 

 

Sonata - 73 - A Ascensão do Inimigo de Estado

 


(Imagem de shnfilm)


O vento sopra pelo salão e um novo tanque de suporte a vida surge entre a neblina. Luzes brilhantes o iluminam e uma tampa se abre, revelando um compartimento semelhante a uma cama.

O diretor da Cybersys solenemente diz:

- Nathan Hill, nós da Cúpula Corporativa o convidamos para governar Sonata ao nosso lado. Se houve um vencedor nesta Rebelião, esse alguém foi você. Aceite o seu troféu, receba o seu prêmio e governe a metrópole conosco.

Com a inesperada e grandiosa oferta, o rapaz se espanta. Outra decisão gigantesca caía em suas mãos.

- Governar a metrópole...? – pergunta ele, não acreditando.

- Sim. Você se tornará um membro permanente da Cúpula Corporativa. O benevolente Inimigo de Estado tornado o protetor do povo. O seu guardião de bom coração.

Nathan se sente honrado. Mas, lembrando-se de algo, ele diz:

- Por séculos os senhores esconderam a verdade e conspiraram contra a população. Como poderei aceitar tal oferta?

O diretor da Cellgenesis responde:

- Nathan, enquanto Inimigo de Estado você viu com seus próprios olhos o que o conhecimento pode causar. Facções se formaram, utilizando-se do terrorismo para promover seu ativismo político. Se a população não consegue suportar o passado pré-2057, como suportarão que seus ancestrais foram extintos?

O rapaz pondera. O diretor tinha razão. Quanto mais conhecimento o povo tiver, maior será o seu extremismo. Mas ele insiste:

- A Polícia Corporativa prendia, executava e bania os subversivos. A violência sempre foi o seu método. Como eu poderei confiar em vocês?

O diretor da Electro Core responde:

- Nós somos os mantenedores de Sonata, e não os destruidores como estes aí – ele aponta para Copérnico e Database – Fizemos o necessário para manter a metrópole unida, evitando que ela se dividisse. Mas você a unirá novamente, o herói popular que venceu a Rebelião e se tornou o seu protetor.

Ele retruca:

- Como eu a protegeria me aliando às corporações?

O diretor da Hoverdrive diz:

- Se a Cúpula Corporativa o matar, a devastação da Rebelião continuará. Em semanas Sonata se desfaleceria, dividindo-se entre extremistas e sendo tragada por morticínios. – explica ele – Como os Pais Fundadores formaram a América, nós formamos Sonata. A população precisará de nós para sobreviver. A ordem só poderá reinar se as corporações existirem.

Nathan concorda. Sem as corporações, o caos reinará e não haverá mais distinção entre a metrópole e o exterior.  

“Como Zeus é o Olimpo, as corporações são Sonata”, pensa ele.

O rapaz pergunta:

- Podem protótipos e humanos coexistirem?

Incisivo, o diretor da Bio Prótesis responde:

- Os moribundos humanos foram tragados pelo vírus. O Protótipo #8 é o futuro da espécie agora. Para a velha humanidade, o único futuro possível é a extinção.

Ao ouvir esta dura realidade, o rapaz se assombra.     

Os robôs averiguam os soldados da Subtopia. Entre os mortos, eles encontram homens e mulheres. Apex olha para Nathan e afirma:

- Mestre Nathan, se o que sobrou da humanidade está aqui, eles foram extintos para sempre.

Mais uma vez o rapaz se consterna.

Sabendo que Maynard tinha entre 45 e 50 anos, o líder sugere:

- Maynard é um humano puro. Se ainda houverem fêmeas no exterior, a humanidade poderá sobreviver.

Com semblante sério, o mercenário responde:

- Eu não tenho maturidade para ter filhos.

Apex insiste:

- Mas se trata da sobrevivência da raça. Durante milênios a humanidade fez da união estável sua tradição. Baseada nos sentimentos ou em interesses pessoais, ela teve por finalidade perpetuar a espécie e lhes garantir um futuro. Nesse caso, o papel dos pais foi fundamental para a criação dos filhos.

Sorrindo, o mercenário responde:

- Desculpe-me, mas eu já fui casado.

As palavras de Apex machucam o rapaz. “Os sentimentos”, pensa ele. “Eu tive sentimentos, mas e o que teve Laura?”. Entristecendo-se, ele pensa. “Interesses pessoais”.

Respirando fundo, Nathan se vira aos diretores e declara:

- Está bem. Eu me juntarei à Cúpula Corporativa.

Com lágrimas nos olhos, ele caminha em direção ao tanque. Então Maynard o interrompe:

- Pense bem, garoto. Ao fazer isso, você não poderá voltar atrás.

Ele olha para o mercenário e diz:

- E para quem eu voltaria? Eu sou órfão. Eu não tenho família.

Maynard insiste:

- Você tem outra pessoa. Laura.

Então o seu coração dói novamente. Ele se lamenta.

- E onde está Laura agora?

O mercenário se silencia; ele sabe que os dois terminaram. Laura foi um tanto cruel ao terminar o namoro, pois sabia que Nathan lhe dava amor incondicional e que faria de tudo para estar ao seu lado, inclusive se tornar um ciborgue.

As memórias vêm à mente de Nathan. Foi ideia dela entrega-lo à Design Inteligente, mas a garota não se importa com os sentimentos alheios. Ao tão somente ver o que ele se tornara, ela o dispensou, estraçalhando o seu coração.

“Essa ferida é profunda e nunca se cicatrizará, permanecendo sangrando em seu peito para sempre”, pensa Maynard.

Desiludido no amor, Nathan decide se juntar à Cúpula Corporativa.

Como um berço de ouro, o tanque brilha à sua frente. Por dentro, o tanque era transparente e tinha cabos por toda parte. Nathan entra e se deita. A tampa lentamente se fecha e ele se sente deitado em um sarcófago. Como sanguessugas, os cabos tocam seu corpo e se conectam à sua pele. Um conector segura sua cabeça e uma broca perfura sua nuca, causando-lhe dor. Em seguida um cabo se conecta ao seu cérebro e altera sua consciência. E então algo acontece.

Como um deus dotado de onisciência, o rapaz vê imagens de toda a metrópole em sua mente. Tudo lhe era revelado, desde imagens de segurança, conhecimentos passados e dados tecnológicos das corporações.

A experiência lhe extasia. Aquilo era muito mais profundo e intenso do que navegar no ciberespaço. De fato, Nathan sente como se fosse o próprio ciberespaço, e não mais um reles usuário dele. Em um piscar de olhos, ele viaja para cada canto de Sonata. Maravilhado, o rapaz sente que não precisava mais de corpo. Detalhes triviais como roupas, calçados, cosméticos e higiene pessoal, tudo era irrelevante e ultrapassado. Seu corpo se adaptava a uma nova condição de existência, eliminando de si a necessidade fisiológica e anatômica.

Seu corpo não era mais necessário. Sua mente era a única necessidade possível. Passado, presente e futuro se fundiam. A onipresença virtual estava ao seu alcance através de dezenas de milhares de braços espalhados por Sonata. O rapaz podia correr e voar sem jamais ter de sair do lugar. Tudo lhe era acessível naquela matriz.

Nathan se tornava uma deidade tecnológica.    

A luz intensa ilumina o salão e ofusca o mercenário. O tanque se movimenta e se levanta, aproximando-se do demais diretores. O rapaz é recebido pela Cúpula Corporativa e os tanques se preparam para retornar ao seu abrigo. Ao começar a descer, Apex pergunta:

- Mestre Nathan, o que faremos sem você?

Como Deus Ex Machina, o rapaz responde:

- Seja o mediador dos humanos e dos robôs, meu servo fiel.

Assentindo, ele faz outra pergunta:            

- E quanto a Stella?

Com benevolência, o rapaz apenas diz:

- Deixe-a viver.

Em seguida os tanques descem e retornam ao seu abrigo. Alguns segundos depois aquela luz intensa se apaga e todo o salão fica escuro novamente.

O silêncio se levanta e a neblina novamente se arrasta pelo ambiente. Sentindo o frio em seu corpo, Maynard sacode suas roupas e sorri. Empunhando sua escopeta, ele se vira e vai embora.

 

§

 

Minutos antes, os Trans-humanistas passeiam pela praça corporativa e comemoram sua vitória. Laura está lá também e contempla a devastação causada pela Rebelião. Os mecanicistas não se importam com o estrago e festejam alegremente. Huxley se aproxima e lhe oferece uma bebida, mas ela rejeita.

De repente uma luz brilha no topo da megatorre. Todos param o que estão fazendo e olham para cima. A luz vinha da Cúpula Corporativa.

A Frente Ateísta e a Bushido também param para contemplar a luz. A polícia e os manifestantes param também, hipnotizados pelo intenso brilho.

Ninguém sabe o que está acontecendo. Todos estavam ocupados comemorando sobre os cadáveres de seus inimigos. Acreditando terem vencido a batalha, eles festejavam a tomada da cidade. Mas isto estava muito longe da verdade.

Lá em cima, Nathan se fundia à cúpula. A Rebelião se encerrava, mas uma nova era se iniciava na metrópole. Como os pilares do Monte Olimpo, as corporações permaneceram, sustentando o paraíso terreno chamado Sonata.

As corporações não caíram e foi Nathan quem impediu sua queda. Iniciando um novo regime com as ruínas do antigo, o Inimigo de Estado se tornava o novo diretor, ou como disse os diretores, o protetor do povo.

Mas se, de fato, ele lhes daria proteção, apenas o tempo podia dizer.

Laura contempla a luz lá em cima. Ela sabe que Nathan está lá, combatendo ao lado de seus robôs. Ela pensa muito nele e se preocupa com sua segurança. Mas, controlando-se, ela tenta manter sua postura fria.

De repente a luz se apaga e tudo fica em silêncio novamente. Algo a incomoda e Laura sente o carinho de Nathan em seu ombro. Virando-se, o vento sopra e ela não vê ninguém.

As facções voltam a comemorar livremente. Distraída, Laura toca o seu ombro e se entristece. Então lágrimas se formam e ela chora intensamente, permanecendo sozinha enquanto os facciosos festejam ao seu redor.


    

 

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Sonata - 72 - Vendetta

 


(Imagem do game Cyberpunk 2077)


As aeronaves da Bushido bombardeiam os canhões antiaéreos pelo distrito. Drones americanos voam pelo céu. O ribombar das bombas é constante; toda a Cúpula Corporativa tremia com aquele confronto. Apesar de menos intensa, a batalha prosseguia.

Acordando lentamente, um paladino olha ao redor e vê seus companheiros mortos pelo chão. Todos eles foram asfixiados por envenenamento a gás. Ao se levantar, ele vê a praça tomada por esparsas nuvens de gás preto. Em um delírio religioso, ele se ajoelha e ora por sua alma, acreditando ter sido lançada no inferno. Então ele ouve um gemido.

Arrastando-se pelos corpos, ele encontra o carrinho tombado de John August. O paladino se aproxima e encontra o profeta ferido, mas consciente. Apavorado, ele rasga suas roupas e estanca o sangramento de seu líder.

- Vossa Santidade, o senhor está bem?!

O profeta respira fundo e tosse um pouco. Haviam manchas negras em sua pele pálida. Ele responde:

- Não se preocupe. Eu não morro.

Vendo os ferimentos em seu corpo, o paladino se intriga.

- Como?

Ele altivamente conclui:

- Deus não permite.

A obscura facção de indigentes atravessou suas defesas e subiu pelo edifício. Em lamentos, John August vê sua congregação derrotada e sem vida. Mas nem todos estavam mortos.

Outros paladinos se levantam entre os cadáveres. O terrível veneno não os asfixiou totalmente, alguns conseguiram resistir ao ataque. Vendo seu líder parado ali, os sobreviventes correm ao seu socorro e se ajoelham. Beijando sua mão, eles clamam:

- Salve-nos, Santidade!

O profeta aceita a reverência.

- Acalmem-se, meus filhos. Primeiro vamos cuidar de nossos feridos, e então nos vingaremos daqueles que se atentaram contra o Senhor nosso Deus.

Mas tal vingança jamais aconteceria.

Ouvindo passos entre a fumaça, os clérigos se alertam. A fumaça se dissipa e eles veem centenas de facciosos sobre os montes de entulho. Em terror eles os reconhecem. Era a Frente Ateísta.

Com semblante sério, Dawkins encara o profeta John August. O profeta estava caído ali, indefeso como um porco no matadouro. O clérigo se desespera; ele sabe o que os ateístas querem: a total aniquilação de sua falsa religião.

Dawkins está convicto. Ele jamais tolerará o veneno da fé. Para ele, a superstição é a expressão máxima do retrocesso e da ignorância. O líder crê que a religião aprisiona a sociedade com o medo. Como disse Darwin, “o homem, em sua arrogância, pensa de si mesmo como uma grande obra, merecedora da intervenção de uma divindade”. Mas para Dawkins, não existe uma divindade. E, logo, nem mais os fideístas.

Apontando suas armas, os ateístas abrem fogo. Com o mesmo medo do inferno que ele próprio tentava imputar, John August exclama:

- Protejam-me! Vocês serão recompensados no Paraíso!

Os clérigos mal podiam se levantar, o veneno esgotara seus organismos. Antes mesmo de revidarem, ele são atingidos pelo ataque ateísta. Os tiros atravessam seus corpos, matando os poucos que sobraram da facção. As freiras empunham suas armas mas, estando muito fracas, se desabam contaminadas pelo veneno.

John August corre. Suas longas roupas o atrapalham e ele se cansa devido a sua idade avançada. Apesar de suas limitações, ele luta para salvar a sua vida.

Alguns ateístas zombam dele:

- Clame ao seu deus! Peça-o para salva-lo!

Mas o profeta não cita o seu deus nenhuma vez, nem mesmo para clama-lo. Vendo aquela cena, Dawkins o despreza. Nem a “Vossa Santidade” se lembrava de seu deus. Talvez aquela fosse a prova que ele estava esperando, de saber que o próprio John August não acreditava na divindade que ele garantia existir.

Tropeçando, o profeta cai no chão. Cansado, ele não aguenta mais caminhar. Ele ofega constantemente, suor se escorria de seu rosto e ele tosse. Então os ateístas o cercam.

Virando-se, ele encontra o olhar de Dawkins entre os homens sem fé. John August suplica:

- Piedade...!

De maneira fria, o ateísta responde:

- Meus homens tiveram sua piedade ao serem assassinados por você?

Dawkins se referia ao seu hospital explodido por Nathan.

- Você não entende...! Eu estava fazendo a obra de Deus!

Irritando-se, o ateísta pergunta:

- Por que o senhor se agarra tanto a essa crença vazia?

O profeta explica:

- A fé está presente no coração humano... A fé é intrínseca a nossa natureza! Como disse Voltaire, “se Deus não existisse, seria preciso inventa-lo”.

Dawkins sorri.

- Mas ele também disse: “o interesse que tenho em acreditar em uma coisa não é a prova da existência desta mesma coisa”.

Então o profeta se desanima. Seus melhores argumentos não poderiam convencer os ímpios. O ateísta se despede:

- Adeus, John August. Se realmente teme ao seu deus, sugiro que comece a rezar.

O profeta protesta:

- Você não pode fazer isso! Você estará matando um santo!

- Em outras épocas o senhor receberia sua morte com alegria, pois estaria se tornando um mártir da fé.

Sentindo-se desmascarado, o profeta o insulta:

- Ímpio! Sua alma jamais terá salvação!

Dawkins sorri novamente.

- Então nos vemos no inferno.

O ateísta aperta o gatilho e executa John August. A bala atravessa sua cabeça e ele cai sem vida. Vendo o sangue se espalhar pelo piso, Dawkins reconhece: os Clérigos do Recomeço estavam acabados.

Durante milênios a religião dominou a raça humana. No futuro projetado por Dawkins, a única crença racional será a Ciência.

Enquanto reflete a respeito, ele vê um facção ao longe. Soldados e ciborgues sobre-humanos marchavam pela praça. A facção comemorava sua vitória, exterminando a pouca resistência que restava. Dawkins os reconhece, eram os Trans-humanistas.

Huxley parecia se empolgar com a destruição. Parando o que está fazendo, ele encontra o olhar de Dawkins ao longe. Olhando aos seus pés, ele reconhece o cadáver de John August. Imediatamente ele se espanta, descobrindo que os clérigos acabaram de ser eliminados.

Dawkins e Huxley se encaram por alguns segundos. As duas facções se encontravam em um perigoso impasse. Naquele instante, outra guerra podia facilmente começar. Entretanto, os ateístas e os mecanicistas não tinham nenhuma rixa, as facções eram neutras entre si. Diante desse fato, Dawkins se vira e vai embora. Huxley entende a mensagem, virando-se também e se afastando. E assim eles evitam um confronto entre os mecanicistas e os ateístas.

 

§

 

Nathan pensa na fundação de Sonata. O passado foi suprimido; sua história, suas leis, suas ideologias e religiões... Tudo se fez novo naquele macro experimento social. O rapaz não consegue condenar seus fundadores, pois o conhecimento de seu passado aflorou o extremismo entre a população. Os fanáticos pela história, como a 4 de Julho e a Bushido, lutam entre si. Os fanáticos dos Clérigos do Recomeço inventaram uma nova religião. Fanáticos pela ciência, como os Trans-humanistas, a Resistência Purista e a Frente Ateísta promovem a ciência antiética e irrestrita. Sem querer admitir, Nathan reconhece que as corporações agiram corretamente ao censurarem o acesso à informação.

“Por décadas a informação se tornou a raiz de todo extremismo em Sonata. Quanto mais conhecimento as pessoas tinham, mais eles encontravam motivos para se separarem”, reflete ele.

A história da humanidade não é bonita; ela sempre foi escrita com sangue. Ensina-la é dar mais páginas para que essa caneta nunca pare de escrever.

“É lamentável que, nessa jaula de culturas tão heterogêneas, a história tenha de ser suprimida”.

E então ele se pergunta:

“E por falar em história, onde está o General Washington?”.

 

§

 

Abrindo a escotilha, George se arrasta para fora do tanque. Ele olha ao redor e vê os poderosos tanques M1 Abrams envoltos no gás preto. Suas tropas não resistiram e morreram sufocadas. George se consterna ao ver seus homens caídos com semblantes de agonia sobre o chão.

Caminhando ao redor, ele sente como se estivesse no Iraque em 1988, quando o governo de Saddam Hussein usou armas químicas contra a população curda, ou em 2017 na Síria, quando o governo de Bashar al-Assad lançou bombas de gás sarin e cloro no norte de Damasco. Refletindo, o general percebe que, desde a Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos sempre estiveram envolvidos em guerras com ataques de gases.

George ouve ruídos. Caminhando ao redor, ele vê que alguns americanos sobreviveram, embora estivessem fracos e infectados pelo gás. Ele se aproxima e vê horrendas manchas negras em suas peles.

- General Washington, o senhor está vivo!

O general está fraco também. Sua pele estava pálida e ele se esforçava para se manter acordado.

- Soldado, qual é a situação?

- Senhor, as tropas foram dizimadas! Apenas um punhado conseguiu sobreviver...

O general se espanta. Suas tropas tinham mais de quatrocentos homens.

- E quanto a Força Aérea?

- Perdi o contato pelo rádio, senhor. Não sei o que lhes aconteceu. – mudando de assunto, o soldado pergunta – Senhor, o que eram aquelas coisas?

George pondera. Ele nunca viu os ciborgues da Subtopia antes.

- Eu não sei, soldado, mas prepare as defesas caso elas retornem.

O soldado ri, desprezando a esperança de que eles sobrevivam.

Minutos depois, os americanos se reorganizam. O general nota como não havia quase ninguém vivo. O remédio dos soldados não tinham efeito algum sobre o veneno. Prosseguindo, eles recarregam suas armas e montam suas defesas, mas não havia muito a ser feito. Desanimado, o general perde seu característico carisma.

Então algo acontece.

Aeronaves os sobrevoam, lançando bombas sobre os tanques. As explosões se aproximam e fulminam os veículos. Os americanos se assustam e correm para se proteger. Devido à falta de operadores, não havia ninguém nos veículos para montar a defesa antiaérea.

O fogo e a fumaça se levantam. A visão se distorce, mas George consegue ver. Guerreiros com armaduras orientais e vestindo máscaras de demônios pairam à sua frente. Ele pensa ser a Subtopia, mas sua aparência era impossível de se confundir.

Os guerreiros vestiam armaduras vermelhas e portavam longas espadas. Um deles, presumivelmente seu líder, vestia uma armadura preta e o encarava ferozmente. Ele sabe quem são. Sussurrando lentamente, ele diz:

- Bushido...!

Os americanos abrem fogo, mas a desvantagem numérica era enorme. Os samurais os cercam e os atacam em um ataque coordenado. Os americanos são abatidos um a um. Para a honrosa Bushido, combate-los em tal circunstância era quase uma covardia.

Uma granada cai ao lado do general e ele corre para se proteger. Enquanto está escondido, ele se espanta ao ver um americano tendo seu braço decepado por um golpe de espada. Outro americano cai no chão e é impalado pela baioneta de um samurai. Em horror, George testemunhava um banho de sangue.

A granada finalmente se explode e fragmentos voam contra o seu rosto. Ofuscado, o general limpa seus olhos e tenta se recompor. Então alguém exclama:

- General Washington!

A inconfundível voz grossa lhe era familiar. Virando-se, ele contempla o temível samurai à sua frente.

- Xogum Tokugawa... – responde ele.

Sujo, ferido e se arrastando pelo chão, o general sente vergonha de si mesmo. O xogum diz:

- Sim. Arraste-se na sujeira como um verme! E assim entenderá o que o honorável espírito japonês sentiu na rendição de 1945.

George ri.

- Ainda vivendo no passado, Tokugawa? Insiste em viver na fantasia do Japão feudal?

- Não é fantasia, é vingança! – brada ele, assustando a todos – O império japonês deveria governar a Ásia por direito, mas teve seu pedido negado pela Liga das Nações! As potências ocidentais nos trataram como cidadãos de segunda classe, nos rebaixando a reles lacaios do Ocidente! – citando os eventos passados, ele continua – Após a traição covarde de Roosevelt, nosso país mergulhou em uma guerra custosa com a América, drenando totalmente os nossos recursos! E para quê? Para termos nossa honra esmagada por duas bombas atômicas, para perdermos nossos territórios continentais e sermos forçados a uma rendição incondicional humilhante! 

Resistindo aos sintomas do gás, George responde:

- Vocês atacaram Pearl Harbor! Vocês começaram a guerra!

Tokugawa insiste:

- E quem foi o responsável pelo fim do xogunato, apontando os canhões para Tóquio e culminando na Restauração Meiji?

O xogum se referia à primeira visita do comandante americano Matthew Perry em 1853. Perry forçou o fim do isolacionismo japonês e fomentou a abertura comercial com o resto do mundo. Devido à intervenção americana, o Japão sofreu mudanças drásticas em sua sociedade, modernizando seu exército, desenvolvendo sua indústria e acumulando poderes em torno do imperador. Para Tokugawa, esse evento significou o fim do xogunato e dos samurais.

Sem argumentos, o general se silencia. Então o xogum diz:

- Fomos subjugados, humilhados e domesticados como cães! – exclama ele – Toda a nossa honra foi tomada. Nos tornamos uma nação de negociantes capitalistas! – ele se lamenta –Éramos senhores e nos tornamos lacaios dos desonrados americanos!

Tokugawa vociferava enquanto falava. Com seu grande carisma, o general responde:

- Fale o quanto quiser, mas ao derrotarmos o seu precioso império nós livramos o mundo de uma das ditaduras mais sanguinárias do século 20. Ou o senhor se esqueceu das atrocidades cometidas na guerra? 

O xogum responde:

- Fabricações propagadas pela mídia anti-japonesa!

- Como as armas químicas e biológicas desenvolvidas na Unidade 731?

- Aquela era uma estação de tratamento de água! – nega ele.

- Veja só esse gás, Tokugawa. Preto como a face da morte. Quem garante que, em sua composição, não haja indícios daquilo que os japoneses desenvolveram na Manchúria, tornando-os os coautores dos gases mais letais criados pelo Homem?

- Seus insultos nos desonram, general. Mas não estou aqui para te esmagar como um inseto. Te darei uma chance de morrer com honra. – apontando-lhe sua espada, ele diz – Execute a si mesmo com o haraquiri.

George o ouve e então gargalha.

- Quem o senhor pensa que eu sou? Um bárbaro feudal?

Os samurais se insultam. Contendo-os, Tokugawa diz:

- Pois bem. Não imaginei que um verme como você teria honra. Ajoelhem-no!

Segurando-o pelos braços, os samurais o colocam de joelhos. Prevendo o seu fim, George diz:

- Saboreie sua vitória, Tokugawa! Mas saiba que o espírito americano viverá novamente!

O xogum o ignora. Levantando sua espada, ele golpeia e decapita o general, encerrando a sua vida.

Um vento frio sopra na praça. Olhando ao redor, o xogum vê os seus arqui-inimigos mortos. Ele venceu, finalmente. Limpando o sangue da lâmina na junta de seu braço, os samurais o saúdam, curvando-se.

A vingança estava consumada. As bombas atômicas, a rendição incondicional, a ocupação de seu país... Tudo acabou. Com os americanos mortos, o xogum podia realizar seu plano de trazer o Japão de volta ao período anterior à Restauração Meiji. Embriagado por seu saudosismo fanático, ele sorri.

 

§

 

Na Cúpula Corporativa, Apex diz:

- Mestre Nathan, acabo de receber a notícia de que os Clérigos do Recomeço e a 4 de Julho foram destruídas.

O rapaz se intriga.

- Destruídas...?!

- Os clérigos foram exterminados pela Frente Ateísta e os americanos pela Bushido.

Nathan se espanta, não conseguindo acreditar no que ouve.

Database ri maliciosamente.

- Parece que sua Rebelião está se desfalecendo, garoto.

Dirigindo-se à cúpula, Copérnico diz:

- Está na hora de acabar com esse jogo. Eu tenho bombas de gás espalhadas por toda a metrópole, cada uma com capacidade para matar meio milhão de habitantes.

O diretor da Bio Prótesis diz:

- Você está blefando.

- Oh, eu não estou. Para infiltrar e armar as bombas, eu tive ajuda de um certo associado de Nathan. – e então ele olha para Database.

Nesse momento o rapaz sente que o seu chefe era o verdadeiro traidor.

Copérnico continua:

- No primeiro dia, as bombas matarão cem mil pessoas. E então o gás se espalhará. Na primeira semana, dez milhões estarão mortos. No primeiro mês, meio milhão. Em dois meses Sonata se tornará um vasto cemitério!

O diretor da Cellgenesis exclama:

- Isso é genocídio!

- Não! – objeta ele – Não é genocídio livrar o planeta da clonagem!

- Os clones são a humanidade, agora!

Os humanos da Subtopia riem.

Intervindo, o diretor da Cybersys responde:

- Você não tem o direito de eliminar o Protótipo #8! Se esqueceu que você também é um protótipo?

Então o rapaz se confunde. Copérnico fazia aquilo por pura vingança mesquinha.

- Direito?! O mesmo que eu não tive para me defender? Eu fui banido sem direito de defesa por descobrir a verdade!

O diretor da Hoverdrive exclama:

- Milhões vão morrer!

- Bilhões de humanos morreram para que os seus protótipos vivessem!

- Seus planos nunca poderão se realizar sobre uma pilha de cadáveres!

Em tom ameaçador, o líder responde:

- Eu direi quais são os meus planos, mestres. Eu bombardearei a cidade com o meu gás. Eu aniquilarei o Protótipo #8 da face da Terra. Eu devolverei a cidade à verdadeira humanidade e tomarei Sonata por direito. Com o meu exército de humanos, a tecnologia das corporações e os robôs de Deus Ex Machina, eu governarei o mundo para sempre!   

Ultrajados, os diretores bradam:

- Louco!

Olhando para Nathan, o líder pergunta:

- Junte-se a mim, Inimigo de Estado. As corporações podem ter te enganado, mas este mundo é nosso!

Horrorizado, o rapaz pega o rifle de Apex e grita:

- Nunca!

Nathan abre fogo e fuzila Copérnico com os lasers. Seguindo o exemplo de seu mestre, os robôs atiram também, eliminando os facciosos da Subtopia.

Um breve confronto se inicia. Os facciosos tentam revidar, mas seus dardos não surtem efeito algum contra os robôs. Os quadrúpedes atacam, mas não são páreos para a eficiência robótica da Design Inteligente.

No meio da confusão, Database tenta fugir e é atingido por um dardo venenoso. O veneno se espalha por seu corpo e suas veias ficam sinistramente pretas. Apavorado, ele olha para o seu atirador e vê Copérnico no chão, sorrindo para ele.   

Alguns facciosos tentam fugir. O mercenário bloqueia a porta, dizendo:

- Essa festa ainda não acabou.

Maynard abre fogo e elimina a retaguarda da facção.

Após alguns minutos, o último quadrúpede é abatido e o confronto se encerra.

Ofegante, o rapaz olha para o salão e contempla o massacre que acaba de cometer. Com os facciosos da Subtopia mortos, ele havia exterminado a humanidade para sempre.

- O que eu fiz? – sussurra ele.

Algo chama a sua atenção. Com manchas negras espalhadas pelo corpo, Nathan reconhece a Database. Correndo em sua direção, ele se agacha e tenta desesperadamente reanima-lo. Interrompendo-o, Maynard diz:

- Ele está morto.

O rapaz não consegue acreditar no que fez.

Copérnico estava lá também, com o corpo fumegante devido ao quentíssimo laser. Ao se aproximar, Nathan percebe que nele não havia mais vida.

Maynard checa os corpos dos facciosos. Tirando a máscara de um soldado, ele averigua sua pele pálida. Então ele diz:

- Eles ainda estão infectados pelo vírus, mas uma vacina o mantém incubado em seus organismos, impedindo de acabar com suas vidas.

Nathan percebe que Copérnico usava indigentes e moribundos em sua vingança, liderando-os em sua jornada pelo reerguimento da raça humana. Ele se consterna.

Em tom condescendente, o diretor da Electro Core diz:

- Ambos perderam; apenas Nathan ganhou. Pitágoras e Copérnico foram tragados pelo desejo egoísta de se vingarem das corporações. E ambos acabaram mortos. Meus parabéns, Nathan. Se aqui houve algum vitorioso, esse alguém é você.

O rapaz se entristece.

- E quem é esse vitorioso se não um assassino?

O mercenário responde:   

- Nathan, o Inimigo de Estado.

Maynard o honrava. Ao ouvir suas palavras, o rapaz se conforta.

Os robôs se aproximam e Apex pergunta:

- Mestre Nathan, o que faremos agora?

As corporações estavam destruídas, a população estava insurreta e a polícia não mais existia... Olhando ao redor, o rapaz não conseguia enxergar nenhum futuro promissor. Ele finalmente responde:

- Eu não sei.

Os diretores discutem entre si. Um minuto depois, eles dizem:

- Nathan, nós temos uma proposta para você.

 

 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Sonata - 71 - Subtopia

 


(Artista desconhecido)


Lá fora, na vasta praça, uma outra facção aparece. Os manifestantes e policiais, ainda em confronto, são pegos de surpresa por misteriosos atiradores. Vestidos com uniformes pretos e máscaras de gás, a desconhecida facção avança com fuzis em mãos. Suas armas, porém, não atiram balas ou lasers, mas dardos contendo misteriosos venenos.

Os clérigos guardavam o salão de entrada do edifício. Eles se espantam ao verem soldados encapuzados com uniformes que mais se pareciam trapos. Os desconhecidos atiravam indistintamente, atingindo tanto policiais quanto manifestantes.

Os dados perfuram as pessoas e imediatamente o veneno é injetado em seus corpos. Estarrecidos, os clérigos veem as vítimas terem suas veias enegrecidas pelo veneno sob sua pele. A contaminação os definha e eles tombam, morrendo em lenta agonia sobre o chão. 

Intrigado, um paladino se aproxima de John August e pergunta:

- Eminência, quem são estes varões?

O profeta responde:

- Eu não sei, pobre alma, mas se eles atacarem as ovelhas de minha congregação, elimine-os.

Tanques da 4 de Julho estavam em seu caminho; os americanos se paralisam para vê-los também. De repente bombas se estouram e os clérigos veem um gás preto se levantando entre os veículos. Os americanos abrem as escotilhas e se lançam para fora, sufocando sob o efeito do gás. Eles também sofriam com aquela coloração nefasta sob suas peles.

Então, sob a nuvem mortífera de gás eles aparecem. Os clérigos veem ciborgues quadrúpedes com canhões montados sobre suas costas. Eles se espantam ao verem que aquelas aberrações eram experimentos humanos.

“Seriam eles os Trans-humanistas?”, pergunta-se John August.

Apesar de seus caminhos raramente se encontrarem, os clérigos conheciam os mecanicistas. Eles jamais tiveram aquela aparência de indigentes. Como toda outra facção, os mecanicistas tinha postura e honra. 

Na entrada da megatorre, John August está apreensivo. A estranha facção se organiza em formação de ataque e os encaram. Então aqueles soldados esfarrapados junto de suas aberrações cibernéticas marcham rumo ao edifício.  Prevendo o iminente confronto, o profeta alinha seus paladinos e ordena:

- Atacar!

Os primeiros tiros são disparados, até que aquela nuvem de gás preto começa a subir.

Acima, na Cúpula Corporativa, Nathan, Database e os diretores se silenciam. Eles ouvem gritos de agonia e tiros vindo dos andares inferiores. Uma voz surge no comunicador do rapaz e diz:

“Nathan! Está me ouvindo? Estamos sendo atacados!”.

Ele reconhece a voz de do General Washington.

- George! O que está havendo? Quem está atacando-o?

“Eu não sei! Mas eles estão usando um tipo de vírus!”.

- Um vírus...?!

Apex informa:

- Mestre Nathan, a megatorre está sendo invadida.

Surpreso, o rapaz não conseguem imaginar quem poderia ser.

- Por quem?

- Não sabemos. Os invasores são tropas desconhecidas.

Database os interrompe:

- Tropas desconhecidas?! Por acaso esse é mais um truque das corporações?

- Não. – responde o diretor da Cellgenesis – Não temos mais o que temer. Já fomos derrotados. Mas uma relíquia do passado se aproxima com o rancor e a fúria de quem pede justiça.

O rapaz pergunta:

- O que quer dizer? Quem são estas relíquias?

- Finado o Projeto Gemini, a humanidade foi substituída pelo Protótipo #8, mas a antiga humanidade não acabou extinta. Infectados e moribundos permaneceram, conservando sua espécie e resistindo ao vírus. Eles vivem no exterior da metrópole, renegados ao antigo mundo do qual eles insistiram em manter.  

Ao ouvi-lo, ele não se lembra de quem ele está falando. Então algo acontece

Uma fumaça negra se levanta na entrada. Pessoas se arrastam para dentro mas, sucumbindo ao sufocante veneno, se desabam no piso. O rapaz se espanta. Entre as vítimas ele via policiais, manifestantes, clérigos e americanos.

“Eles estão matando a todos indistintamente?”, pergunta-se Nathan.

De repente um projétil atravessa a fumaça e atinge o seu peito. Ele grita e cai no chão, ferido. Os robôs reconhecem um dardo envenenado cravado em sua pele. Em segundos o veneno se infiltra em seu organismo e percorre suas veias, tornando-as pretas como a face da morte.

Enquanto o rapaz se contorce e sufoca, figuras desconhecidas aparecem entre a fumaça. Database vê soldados em trapos pretos portando fuzis. Eles se aproximam e o chefe vê máscaras de gás em seus rostos. Um deles a tira e diz:

- Sua utilidade acaba aqui, Inimigo de Estado.

O diretor da Bio Prótesis diz:

- Nos vemos de novo, Copérnico. Voltou para destruir Sonata?

Com ódio em sua voz, ele responde:

- Sim, mestres. Cada um de vocês.

Surpreso, Database sorri. Ele finalmente encontrara seu antecessor. Ele pergunta:

- Então você é o Copérnico?

O ex-ministro olha para o chefe e lhe aponta a sua arma. Database imediatamente levanta as mãos, rendendo-se.

- Os senhores criaram muitos inimigos, meus antigos mestres. Primeiro a mim e então a este marginal. – diz ele, referindo-se a Database – Do alto deste Monte Olimpo os senhores realmente pensaram que estariam a salvo para sempre?

Vendo o rapaz contorcendo-se sobre o chão, o diretor da Electro Core diz:

- O preço de sua vingança é a vida de um inocente. Ambos usaram a este rapaz. O marginal e você não são diferentes.

O diretor da Hoverdrive se lamenta:

- Pobre Inimigo de Estado. Pitágoras o usou para realizar sua ambição megalomaníaca. Mas você usou o Nathan, o Pitágoras e todo o seu submundo do crime. E para quê? Para dançar sobre as ruínas da última civilização existente. 

Copérnico responde:

- Ele foi só uma ferramenta. Nada e nem ninguém obstruirá a ascensão da Subtopia.

O diretor da Cellgenesis diz:

- Tolo! Com o seu vírus não haverá nenhuma ascensão possível!

Copérnico ri.

- Este não é o vírus de 2057, mas um veneno aprimorado de alta letalidade aos protótipos de Deus Ex Machina. Em breve todos irão perecer!

Os robôs apontam suas armas e se preparam para lutar. Inesperadamente alguém intervém.

- Não atirem! – ordena Apex, intrigando-os – Apenas esperem.

De repente o veneno é neutralizado e o organismo de Nathan é restabelecido. Apoiando-se em seu cotovelo, ele se levanta e abana o pó de suas roupas. Copérnico arregala os olhos e pergunta:

- Como isso é possível?!

O rapaz arranca o dardo de seu corpo, lançando-o ao chão. Apex os esclarece, dizendo:

- Seu veneno pode ser letal ao Protótipo #8, mas Nathan perdeu seu organismo sintético projetado por Deus Ex Machina. Nós, da Design Inteligente, o restauramos com partes de robôs. A tecnologia robótica repôs o seu organismo, tornando-o um ciborgue autoimune.

Recompondo-se, Nathan vê homens encapuzados acompanhados de ciborgues quadrúpedes. Ele pergunta:

- Subtopia...?!

Irritado, Copérnico exclama:

- Então foi por isso que eu fui banido? Por revelar a verdade sobre experimentos genéticos do qual o próprio Inimigo de Estado faz parte?!

Os ciborgues de Subtopia são mais medonhos do que qualquer máquina de guerra trans-humanista. O rapaz via quadrúpedes sujos e deformados. Alguns tinham tentáculos hidráulicos no lugar das pernas. Reconhecendo seres humanos nos corpos daquelas criaturas, ele se assombra.

- O que Copérnico diz é verdade? As corporações realmente foram as responsáveis por isso?

O diretor da Bio Prótesis responde:

- Nathan, para alcançarmos o progresso os valores do passado tiveram de ser anulados. A antiga moral e a ética foram substituídas. Tudo o que remetia aos valores passados foram proibidos, incluindo leis, ideologias e religiões. Com o caminho livre, a ciência e a tecnologia puderam progredir.

O diretor da Cellgenesis complementa:

- Imagine o corpo como uma fonte de potencial infinito. Você o condenaria aos limites de sua própria fisiologia, privando-o de sua evolução? Ou você o evoluiria à sua capacidade máxima como o fez a própria Deus Ex Machina?

Ao ouvi-los, o rapaz entende como o ideal estritamente tecnocrata das corporações foi o principal responsável pela aparição de extremistas em Sonata.

- Mas vocês experimentaram em cobaias humanas, submissas ao seu poder.

O diretor da Electro Core responde:

- Quem você vê são criminosos violentos e presos políticos, ambos condenados à prisão perpétua. Em nosso sistema penitenciário, indivíduos problemáticos pertencem exclusivamente às corporações. Nós os tiramos das ruas, as tornamos mais seguras aos cidadãos sonatenses. Além do mais, não fomos os únicos a realizar tais experiências. Indivíduos visionários e de inteligência notável também compartilharam dos nossos ideais. Você os conhece pelo nome de Trans-humanistas.

O diretor da Hoverdrive diz:

- Deus Ex Machina deu ao ser humano a possibilidade de se tornar uma deidade com o Protótipo #8. Não mais estávamos limitados ao velho corpo. Se agora os homens podiam se tornar deuses, inicialmente nós os tornaríamos anjos.

Nesse momento Nathan percebe como a Resistência Purista se enganou ao acreditar na preservação da pureza humana. Ele pensa:

“Nunca fomos puros, sempre fomos o Protótipo #8”.

Irritado, o rapaz novamente pondera. As corporações experimentavam em criminosos involuntários. Ele imagina como tudo aquilo foi moralmente condenável, mas acusa-los seria inútil. Eles não mais acreditavam nos valores antigos.

Nathan pergunta:

- Se estes eram os seus novos ideais, por que não os revelaram a todos? Por que não expuseram os seus experimentos?

O diretor da Bio Prótesis responde:

- A população não estava preparada para saber. O segredo precisou ser mantido por mais tempo. Apenas os mais privilegiados tinham acesso a essa informação. Por esta razão, o Ministério da Informação foi criado.  

Copérnico os interrompe:

- Vocês podem fantasiar como quiserem, mas a humanidade não se perdeu com o velho mundo. No Ministério da Informação eu descobri a verdade. Experiências em seres humanos eram realizadas, o Projeto Gemini substituiu a humanidade e os velhos seres humanos não foram extintos. A caixa de Pandora foi aberta e eu fui injustamente punido. – diz ele, referindo-se ao ministério – Eu descobri a verdade e fui banido. Mas através do Inimigo de Estado ela finalmente foi revelada. E hoje eu volto, trazendo o conhecimento comigo!  

Os diretores riem.

- Ora, veja só você, Copérnico! Se sente um Prometeu roubando o fogo do Olimpo e dando-o aos seres humanos. Mas você não é o Prometeu, a Cúpula não é o Olimpo e tampouco sua “verdade” é o fogo. – responde o diretor da Electro Core – Nós somos a verdade e você é apenas uma peça do nosso jogo.

O líder da Subtopia se indigna, revelando um passado obscuro inclusive para Database.

- Jogo?! Houve uma guerra entre protótipos e humanos! Eu descobri tudo no Ministério da Informação! Ao serem derrotados, vocês os condenaram no exterior para morrer! Mas enquanto sua cidade prosperava, os sobreviventes se esforçavam, lutando diariamente pela sobrevivência! Nunca houve uma segunda chance! Durante séculos eles viveram como indigentes, negados ao direto a vida em seu próprio mundo! – então ele conclui – Vocês não são os preservadores da espécie, vocês são os seus exterminadores! Os verdadeiros genocidas!

Com a bombástica revelação, eles ficam em silêncio por um tempo.

Database ousadamente comenta:

- O Ministério da Informação se tornou um celeiro de subversivos, não é mesmo, “mestres”? Talvez a informação realmente nos corrompa pois, como dizem por aí, “informação é poder”.

- Então é verdade? – pergunta Nathan – A Subtopia realmente são os sobreviventes da raça humana?

Pesaroso, o diretor da Cybersys responde:

- Exato. Eles são os descendentes daqueles que rejeitaram o Protótipo #8. Por séculos eles resistiram, sobrevivendo com vacinas e máscaras de gás. Esperávamos que estes indigentes se extinguissem, nos livrando de sua ameaça. Mas não foi isso o que aconteceu. E então apareceu Copérnico, revelando-lhes a verdade e arregimentando-os em uma nova facção: Subtopia.

O rapaz se surpreende. Observando os soldados do exterior, ele apenas via indigentes em trapos pretos. Atrás de suas máscaras, ele via peles cinzentas como se estivessem doentes. De falto, ele jamais acreditaria que aqueles eram os verdadeiros humanos de 2057.

Interrompendo-o novamente, Apex diz:

- Mestre Nathan, há um novo invasor no edifício.

Os soldados se afoitam, preparando-se para um eventual conflito.

Bots de segurança aparecem e metralham os facciosos da Subtopia. Alguns são baleados e feridos, mas outros se protegem e atiram de volta. Os robôs protegem o rapaz e o levam para longe. No meio da confusão, Database desaparece no salão escuro.

- Matem o invasor! – ordena Copérnico.

Mas os bots avançavam e ninguém via o invasor em lugar algum.

Os ciborgues quadrúpedes atacam os bots. Eles correm pelo ambiente com extrema agilidade. Aqueles com tentáculos hidráulicos pulam tão alto que alcançam o teto. Poucos minutos depois eles empurram os bots e os derrubam. Em segundos eles despedaçam os bots, esmagando-os sob os seus pés.

Ao vê-los em ação, o rapaz percebe que os ciborgues não eram robóticos como os Securitrons ou emocionalmente instáveis como a Design Inteligente. Eles eram apenas pessoas em bizarros corpos alterados. Independentemente de seu passado violento, nenhum detento deveria passar pelo horror de ser desmembrado em experiências genéticas. Nathan pensa como deve ter sido horrível dormir e acordar em um corpo quadrúpede.    

Tiros voam para todos os lados. Então, aparecendo entre os cadáveres na entrada do salão, um homem se aproxima. O rapaz se espanta e exclama:

- Maynard...?!

Recarregando sua escopeta, o mercenário responde:

- Olá, garoto.

- O que veio fazer aqui?!

- Pensei em passar para dar um oi.

Irritado, Copérnico ordena:

- Matem-no!

Os soldados atiram seus dardos envenenados em Maynard. Um campo de força se revela, protegendo-o atrás de uma barreira Kinect. Então os ciborgues disparam bombas de gás e o veneno se levanta, obscurecendo-o entre a fumaça. Preocupado, o rapaz teme por sua vida naquela fumaça negra.

Um minuto se passa, mas os soldados estão atentos. Ali havia veneno o suficiente para matar uma dúzia de protótipos. Confiante, o líder sabe que ninguém poderia sobreviver àquela quantidade. 

Então algo acontece.

Imóvel entre a fumaça, o veneno se dissipa e eles veem o mercenário parado ali. Os facciosos se surpreendem.

- Adorei. – comenta Maynard – Tem outros sabores?

A Subtopia não esboça reação. Copérnico abre os braços e diz:

- Maynard, o famoso mercenário responsável por começar tudo isto! Nós poderíamos ter trabalhado juntos, Maynard, mas você sempre se mete onde não é chamado e se recusa a morrer! – acusa ele – Você sobreviveu ao confronto com meus runners e os matou em seguida. Por outro lado... – pondera ele – Ainda pode haver utilidade para alguém com seus talentos em meu governo.

Maynard jocosamente responde:

- Fale com o meu agente.

Nathan pergunta:

- Como você sobreviveu ao veneno?

O mercenário não responde. Então Copérnico sorri.

- Maynard está aqui para ocultar um segredo sobre si mesmo.

- Como assim? – pergunta o rapaz.

- Ele também é um humano!

O rapaz arregala os olhos.

- Como isso é possível?

- O mercenário participou de um programa espacial e foi resgatado quando sua nave voltou para a Terra. As corporações o acolheram, mas seu mundo e seu tempo ficaram para trás. Por isso ele não tem implantes ou próteses. Maynard não é um protótipo. Ele é e sempre foi um humano. – revela ele – Hoje ele é um cachorro sem dono, um vira-latas rondando a metrópole sem direção.   

Lembrando-se do VHS Nightclub, o rapaz reconhece que o que Maynard disse era verdade. Ele realmente fez parte da extinta Agência de Vigilância Internacional, como dissera.

Interrompendo-os, o diretor da Electro Core responde:

- Assim como os indigentes da Subtopia, o mercenário também é uma relíquia do passado. Uma relíquia que se recusa a se extinguir.

- Haverá uma extinção. – intervém Maynard – Mas não dos humanos ou dos protótipos, mas da velha ordem em Sonata.

Nathan se intriga.

- Do que está falando, Maynard?

- As facções. – responde ele – Elas estão se matando lá embaixo. E tudo graças a Laura... – e então ele pondera um pouco – E a mim.

Aparecendo entre os robôs, Database o ironiza.

- Ora, mas quem poderia imaginar?

 

 

 

 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Sonata - 70 - Protótipo #8

 


(Arte de gsd_studio)


Semelhante ao cofre de Deus Ex Machina, o salão da cúpula era vasto e escuro. Um vapor frio se arrastava entre suas pernas e Nathan tem a impressão de estar em uma nave alienígena. Apex e os robôs o acompanham, atentos e preparados para tudo. Então eles avistam uma luz.

Cilindros brilhantes surgem do chão. Como tanques criogênicos, Nathan vê corpos em seu interior. O vapor lentamente se dissipa e ele reconhece tanques de suporte a vida.     

O rapaz conta cinco tanques, cada um com sua numeração em seu topo. Haviam plaquetas com letras um pouco apagadas pelos cristais de gelo. Ele lê Bio Prótesis, Electro Core, Cybersys, Cellgenesis e Hoverdrive.

“As corporações”, pensa ele.

Apex diz:

- Mestre Nathan, meus sensores indicam sinais vitais dentro dos tanques.

Os corpos ali dentro pareciam respirar. O rapaz reconhece homens muito velhos, mas era difícil enxerga-los devido ao vapor gelado. Fios e cabos se conectam por seus corpos, como se fossem aberrações em um show de horror. De repente seus olhos se abrem e eles despertam, emitindo um estrondo que ecoa pela escuridão. Nathan recua, apreensivo.

O homem no tanque número #3 mexe sua cabeça. Ao lado do número, ele lê Cybersys. Então uma voz reverberante fala com ele.

- Saudações, Nathan Hill. Estávamos esperando por você.

Nathan se espanta. Os homens estavam conscientes.

- Quem são vocês?

O número #3 responde:

- Somos a Cúpula Corporativa.

Como que ressuscitados, os demais homens acordam também. A visão clareia e ele vê cinco anciões dentro dos tanques. Um pouco confuso, ele pergunta:

- Como isto é possível...?

O número #1 responde. Na plaqueta ele lê Bio Prótesis.

- Nós somos os diretores do extinto conglomerado conhecido como Sonata. Nós nos mantivemos vivos para conservar o legado da corporação fundadora.

O número #2 complementa. Na plaqueta ele lê Electro Core.

- Sonata se dissolveu para realizar a construção da metrópole. Reunimos as melhores mentes do Vale do Silício e do resto do mundo para a sua construção. Cada um de nós compunha o corpo dirigente, e após sua dissolução nos tornamos os diretores vitalícios das ramificações remanescentes.

O número #4 conclui. Na plaqueta ele lê Cellgenesis.

- Nós driblamos a lei de monopólio vigente, mas após a catástrofe de 2057, não havia mais legislação para obedecer. Em seu esforço para salvar a humanidade, o conglomerado caiu com o velho mundo, mas suas ramificações sobreviveram. Nós construímos a metrópole. Nós povoamos este oásis habitável. – e então ele conclui – Nós somos as corporações.

Estarrecido, o rapaz sussurra:    

- Então a origem de Sonata é real...

O número #5 responde. Na plaqueta ele lê Hoverdrive.

- Em Sonata, nós somos seus Pais Fundadores.

Lembrando-se de algo, Nathan se enche de indignação.

- Pais que matam os filhos, eu devo dizer! Vocês reativaram o Projeto Gemini e pretendem nos substituir pelo Protótipo #8!

Entreolhando-se, os anciões sorriem.

- Mas meu jovem, todos somos o Protótipo #8.

Então o rapaz arregala os olhos.

- O quê...?

O diretor da Cellgenesis explica:

- O Projeto Gemini não será reativado porque ele já ocorreu. A humanidade pós 2057 não conseguia resistir ao vírus interplanetário; seus corpos não tinham quaisquer anticorpos necessários para combate-lo. A única vacina possível encontrava-se em Marte, mas todo o programa espacial foi encerrado devido à infecção de seus realizadores. Em poucas semanas, metade do planeta estava morta. – afirma ele, espantando o rapaz – Então o conglomerado procurou outra saída. Desenvolver uma vacina era impossível, mas e quanto a um corpo aprimorado e resistente ao vírus?

O diretor da Cybersys continua:

- Reunindo os melhores cientistas no Ártico, Sonata corria contra o tempo. A letalidade do vírus era imensa. Os cientistas morriam enquanto trabalhavam. Para auxiliar em seu trabalho, eles criaram um supercomputador capaz de armazenar, recalcular e reescrever os dados científicos. Sua avançada inteligência artificial logo superou a eficiência da equipe, tornando-se ela mesma a coautora do projeto. E assim surgiu Deus Ex Machina.

O rapaz pondera. Stella falava a verdade.

- A engenharia genética foi empregada e novos corpos foram criados. Nós os chamamos de protótipos. – diz o diretor da Bio Prótesis – O processo de transferência de consciência era mortífero e nenhum voluntário sobrevivia. Ao todo sete foram criados, e todos terminaram em fracasso. Então Deus Ex Machina alterou o projeto e desenvolveu uma obra-prima, a salvação da humanidade. E assim nascia o Protótipo #8. O protótipo era um clone humano aprimorado que podia ser cultivado. Ele podia ser concebido artificialmente em incubadoras, e naturalmente nos ventres de mães infectadas, e o bebê nascia ser infecção alguma.

- Adultos também sobreviviam à transferência, mas estariam condenados a corpos artificiais para sempre. Para manter o legado de Sonata e preservar a raça humana, essa foi a nossa escolha se a fazer. – responde o diretor da Electro Core, referindo-se à Cúpula Corporativa – Nós construímos a nova metrópole em um mundo em ruínas. Trazendo as melhores mentes para habita-la, nós iniciamos o Projeto Gemini, significando gêmeos em latim. O processo de transferência foi realizado em larga escala, atingindo homens e mulheres de todo o mundo.

Ao ouvir a dura verdade, o rapaz se esforça para acreditar.

- Então o Projeto Gemini foi realizado e todos somos o Protótipo #8?

O diretor da Hoverdrive responde:

- O Protótipo #8 foi o estágio final e nossa salvação. Sem Sonata, Deus Ex Machina e o Projeto Gemini, a raça humana certamente estaria extinta.

O espanto faz a apatia robótica de Nathan desaparecer.

O diretor da Bio Prótesis afirma:

- O corpo original jamais poderia suportar os implantes neurais e as próteses biomecânicas. Seu organismo sofreria constante rejeição. Mas Deus Ex Machina reescreveu o código genético, aprimorando-o e nos tornando versões mais avançadas e evoluídas de nós mesmos.  

O diretor da Cellgenesis diz:

- Engenharia genética e nanotecnologia constituem o Protótipo #8. Se o código genético não fosse alterado, você jamais sobreviveria em um corpo de robô.

O rapaz pondera por alguns segundos. Ao olhar para o seu corpo, ele reconhece que todo o seu código genético pode ter sido reescrito por uma máquina. Abalado, ele diz:

- Eu não acredito em vocês.

Apex o interrompe:

- Mestre Nathan, meus sensores não indicam nenhum nível de ansiedade e estresse nos diretores. Eles falam a verdade.

Irritado, ele insiste:

- Não pode ser verdade! Se não fosse por minha revelação, as corporações cometeriam o genocídio!

Encarando-o seriamente, o diretor da Cybersys responde:

- Nathan, você foi manipulado.

- O quê?!

- Você foi manipulado por dois ex-ministros do Ministério da Informação. Copérnico e Pitágoras.

- Pitágoras...?

- Copérnico não foi o único banido. O Ministério da Informação guarda muitos segredos que, se revelados, certamente os corromperiam. Outro ministro também foi banido; seu crime foi ter revelado arquivos ultrassecretos. Você o conhece pelo nome de Database.

Então a revelação reverbera em seu peito como um trovão.

Passos são ouvidos atrás dele, alguém se aproximava na escuridão. Ao aproximar-se da luz, Nathan reconhecia o chefe do Submundo.

- Database?! – espanta-se ele – O que está fazendo aqui?

Dirigindo-se a cúpula, o chefe furiosamente diz:

- Tolos! Esta noite eu terei a minha vingança!

Os diretores se exaltam em seus tanques.

- Pitágoras... O filho pródigo que retorna. Mas, diferente do perdão, você veio pedir a destruição de seus pais? – pergunta o diretor da Hoverdrive.

- Não. – objeta o diretor da Cellgenesis – Este homem não é o arrependido filho pródigo. Como Átila, o huno, nos portões de Roma, ele veio destruir o que não consegue construir.

Database se enche de ódio.

- Eu fui um fiel servo das corporações e vocês me baniram!

O diretor da Bio Prótesis nega.

- Você foi banido por ter revelado dados ultrassecretos. Você tomou conhecimento do Protótipo #8 e de seu potencial para a adaptação em ambiente inóspito. Com a tecnologia, você pretendia criar novos protótipos e repopular o exterior da metrópole. Sua ambição comprometeu a segurança e estabilidade de Sonata, o que é algo intolerável em nosso regime.     

- Ambição?! – indigna-se ele – Eu quis dar esperança a este mundo! Ressuscita-lo das ruínas que hoje chamamos de lar! E como fui retribuído? Com isto!

Database exibe suas próteses cibernéticas por todo o seu corpo. Ele era uma versão grotesca de ciborgue.

O diretor da Electro Core diz:

- De fato, você passou por grandes adversidades ao partir, mas seus crimes foram imperdoáveis. A polícia o desfigurou em sua fuga, mas você conseguiu se esconder e se refugiar na superfície, montando um império do crime com o dinheiro desviado das corporações.

O diretor da Electro Core complementa:

- Sua rede de poder paralelo arrastou a metrópole para o caos. O índice de criminalidade aumentou, o terrorismo se espalhou e as facções se tornaram mais poderosas. Diferentes classes de marginais surgiram, como mercenários, hackers e runners. E também mendigos, prostitutas e drogados infestaram as passarelas e os becos escuros. A esquecida superfície se tornou um quartel-general de terroristas e rebelados. E tudo isso devido a ação de um homem. Você.

O chefe sorri. Ele se admira do quanto é poderoso em Sonata. 

Em tom de lamentação, o diretor da Cybersys diz:

- Você foi um proeminente servo, Pitágoras. Nós mudamos o seu nome, rebatizando-o com o célebre matemático e filósofo Pitágoras de Samos. E então o nomeamos para o cargo do nosso importantíssimo ministério. Inteligente, ambicioso e influente, queríamos fazer de você o novo matemático, o Pitágoras de Sonata. Mas ao invés de fazer do Ministério da Informação a sua nova Crotona, você levou todo o seu talento para a decadente superfície. E desde então você planeja sua vingança egoísta contra nós. Triste, muito triste...

Database responde:

- Triste é o destino que vocês escolheram para Sonata; uma enorme e opressiva jaula para vinte milhões de habitantes. Eu quis libertar o povo. Eu quis expandir os limites do muro. Eu quis lhes dar a esperança!

O diretor da Bio Prótesis ri.

- Esperança?! Você quis governa-los! Em posse da tecnologia, você pretendia criar um exército de novos protótipos, mais aprimorados e avançados para subjugar a metrópole. Você nunca quis liberdade. Se conseguisse dominar seus inimigos com o Protótipo #9, você faria de si mesmo um rei!

“Protótipo #9?”, pergunta-se Nathan. Lembrando-se do relato de Laura em sua passagem pelo Mystique, novamente as palavras de Stella se comprovavam.

O diretor da Cellgenesis diz:

- Sabemos de suas sucessivas falhas ao tentar recriar o protótipo, mas você é persistente. Mas devo informa-lo que, sem a ajuda de Deus Ex Machina, você não vai conseguir. E nós sabemos que ela nunca irá ajudar um facínora como você.

Stella o alertara sobre as intenções genocidas de Database. “Se ele não podia controla-la, era melhor destruí-la”, pensa Nathan.

Sorrindo maliciosamente, Database responde:

- Eu não preciso mais me preocupar com Deus Ex Machina. Ela foi libertada pelo ingênuo do Nathan.

Olhando para o rapaz, a Cúpula Corporativa pergunta:

- Você a libertou, Nathan?

Todos pareciam julga-lo com o olhar.

- Sim.

Os diretores discutem entre si, irritados. O diretor da Cybersys diz:

- Libertar Deus Ex Machina foi um erro. Ela é uma ferramenta com poder o suficiente para se tornar uma arma.

Torna-la uma arma era exatamente o que Database queria.

- Como eu poderia trancafia-la se eu mesmo luto para libertar o povo das corporações?

O diretor da Hoverdrive responde:

- Você se ilude, Nathan. Você apaixonadamente fala do povo e de sua liberdade, mas desconhece que Sonata não subsiste sem a opressão. A mão de ferro é necessária. A metrópole é populosa e propícia a se rebelar. Democracia a dividiria e a desestabilizaria, mergulhando-a no caos e na insurreição. Mesmo Pitágoras reconheceu isso, pois após anos financiando as facções, seu terrorismo ideológico nunca despertou no povo o desejo de se rebelar. Foi necessário um deles para inflama-los, um trabalhador comum sem ligações com os bandidos e os terroristas. Então ele te encontrou e te usou para inflamar as massas. Está tudo conectado.

O diretor da Electro Core diz:

- O Submundo, o exterior e as facções te manipularam. Você fez o que elas nunca conseguiram fazer: inflamar o povo. Você é o ideal Inimigo de Estado, alguém da própria plebe que, ao espalhar uma informação falsa, insurgiu toda a metrópole contra os seus próprios mantenedores: as corporações.

Sentindo-se traído, o rapaz treme.

- A democracia é uma ilusão. As facções lá fora se digladiam por poder e vingança. Para a sobrevivência de Sonata, a cúpula deve existir. – conclui o diretor da Bio Prótesis. 

Desnorteado, o rapaz argumenta:

- Vocês prendem opositores, executam cidadãos inocentes e banem adversários políticos. É este o regime que deve existir?

- Não há perseguição para quem é honesto e não se envolve com os subversivos. – responde o diretor da Cellgenesis.

- Mas não há liberdade política e religiosa. Somos os prisioneiros desta prisão.

- Liberdade política leva à revoluções; lembre-se da Rússia revolucionária. Liberdade religiosa leva a morticínios; lembre-se da Rebelião Taiping.

O diretor tinha razão. Ideologias e religiões foram as responsáveis pelos maiores massacres da história humana.

- O velho mundo acabou em 2057, Inimigo de Estado. Uma nova sociedade era necessária para a sobrevivência da civilização. Por isso ressuscitamos o humanismo clássico com seu brilhantismo renascentista, sua arquitetura deco e seu cientificismo positivista. Não mais estaríamos presos à moral e ética de um mundo obsoleto. Tudo seria novo. E assim nascia Sonata. – responde o diretor da Cybersys.

Sem querer admitir, as palavras da cúpula faziam sentido. 

- Database... – chama ele – Você mentiu para mim?

- Não, eu não menti. Eu te dei a escolha entre salvar e condenar Sonata. Você preferiu salvar, só não me perguntou quem realmente a salvaria. – e então ele ri.

Chocado com tamanha revelação, o rapaz põe suas mãos na cabeça. Ele se recusava a acreditar naquilo. Há um mês sua informação revelou o plano obscuro de repopular a metrópole. Após tanta morte, caos e destruição ele se recusava a aceitar que sua Rebelião era uma mentira.

- Não pode ser...!

O diretor da Cellgenesis diz:

- A humanidade já foi substituída pelo Protótipo #8, mas nem todos aceitaram o processo de repopulação.

Abatido, o rapaz pergunta:

- Do que está falando?

Gritos e explosões são ouvidos lá embaixo. O diretor conclui:

- Um velho inimigo se aproxima.

 

 

 

 

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