(Arte do RPG Gurps Cyberpunk)
Em seu escritório
no Mystique, Database observa Nathan pelas câmeras. Por ordem do chefe, o
Submundo está completamente deserto e desprotegido. Database espera um ataque
surpresa, uma invasão iminente ao seu bunker subversivo, e ele usa a Nathan
como isca em seu perigoso plano.
Um segurança se
aproxima e pergunta:
- Senhor, você
tem certeza disso? É seguro deixar o Inimigo de Estado totalmente sozinho?
O chefe fuma seu
charuto e responde:
- Por que a
preocupação? Você se esqueceu que ele tem sete vidas?
Ele se referia às
inúmeras vezes em que Nathan escapou com vida de situações onde a morte era
quase certa.
Alguns minutos se
passam. Observando os monitores, as câmeras não detectam atividade anormal, mas
Database está atento. Trabalhando com os melhores hackers, ele sabe que, mesmo com
os melhores softwares, qualquer sistema de segurança pode ser desarmado.
Então o que ele
esperava acontece.
Os alarmes são
ativados no Submundo. Alguém sabotou os dutos de ventilação, colocando gases
tóxicos pela rede. Nathan foge pelos corredores e deixa o local. Agora nos
becos, ele tenta alcançar a rua quando vê uma pilha de lixo obstruindo a saída.
O rapaz parece se desesperar.
Database ordenara
que seus seguranças embarricassem a saída. Sorrindo satisfeito, o chefe
sussurra:
- Isso mesmo,
coelhinho. Morra de medo...!
Ao reiniciar o
sistema de segurança, ele olha para os monitores e se espanta. Havia viaturas e
centenas de policiais fortemente armados na superfície.
Diferente do que
pensou, aquela não seria uma invasão silenciosa para assassinar Nathan, mas um
ataque coordenado e aberto, pronto para reduzir a superfície às cinzas.
- É uma invasão!
– exclama ele.
De repente o
prédio treme com uma explosão. A fachada do Mystique havia sido pulverizada por
um ataque a bomba.
Sob o
ensurdecedor alarme, Database se recupera do susto. Tiros são ouvidos lá
embaixo, os invasores já estavam nas ruas.
Enquanto organiza
suas defesas, o chefe entende o ocorrido. Nathan era só uma distração, não o
objetivo principal. A inteligência policial não procurava abater o Inimigo de
Estado, mas aniquilar todo o aparato subversivo da Rebelião. Se Nathan fosse o
único objetivo, ele já teria sido morto em sua fuga pelos becos.
“E por falar
nisso, onde está ele agora?”, pergunta-se ele.
§
Laura volta ao
seu apartamento. Seu pai está ausente mas, pelo cheiro de álcool no ar, ela já
desconfia de seu paradeiro.
“Ele está bebendo
em algum beco por aí...”, lamenta-se ela.
De repente ela
ouve um estrondo. Pela janela, ela vê uma enorme labareda se elevar sobre os
prédios. Ela reconhece o local, o fogo vinha da casa noturna Mystique.
Preocupada, ela se dirige para lá.
Subindo as
escadas de incêndio, ela pula por sobre os prédios. Laura olha para cima e vê
viaturas policiais sobrevoando os fossos escuros.
“Mas como os
policiais chegaram aqui e ninguém viu?!”, intriga-se ela.
Aproximando-se do
Mystique, ela se distrai correndo sobre um terraço e então alguém diz:
- Parada!
Ela se assusta e
olha para trás, um policial lhe apontava uma arma. Ela se paralisa e pensa no
que fazer. Então o policial se aproxima, intentando revista-la. Grande
erro.
Laura o desarma e
golpeia seu rosto com o cotovelo, fazendo-o cambalear. Finalmente ela lhe dá
uma joelhada no queixo e ele desmaia, caindo aos seus pés.
Em seguida mais
policiais aparecem e se surpreendem com seu colega desacordado no chão. Eles
olham para seu agressor e veem uma garota, uma bela runner de cabelos dourados.
Antes que os
policiais pudessem fazer algo, ela avança sobre eles e inicia uma violenta luta
corporal. Eles tentam reagir, mas ela é muito rápida, desviando-se de seus
cassetetes com tremenda agilidade.
A garota é uma
runner de grande experiência. Ela recebeu interminável ensinamento em seu
treinamento. Seus mestres a ensinaram exatamente como desarmar seus oponentes e
onde golpeá-los para o máximo de dano. De fato, ela recebeu aulas de um
deturpado Krav Magá, uma versão mais suja e dedicada aos marginais e
trapaceiros da superfície.
Ao liquida-los um
a um, os policiais caem desmaiados. Ela olha para seus oponentes no chão e,
respirando fundo, se alegra. Ela já estava se acostumando a se sentir uma
super-heroína.
- Mãos para cima!
A alegria dura
pouco. Ao olhar para o lado, ela vê mais policiais apontando suas armas para
ela. Tateando seu coldre, ela não encontra sua metralhadora e se repreende. Ela
a havia deixado em seu apartamento.
- Eu disse mãos
para cima! – ordena o policial.
Sem opção, ela
finalmente ergue suas mãos.
Um policial, presumivelmente
o tenente, se aproxima. Desta vez Laura não pensa em reagir. Qualquer movimento
e eles a matariam.
Olhando-a da
cabeça aos pés, o tenente sorri e pergunta:
- Que belo
estrago você fez aqui, hein garota?
- Dane-se.
Os policiais
riem.
- Ora, além de
bonita você é valentona? – sorri ele – Nós temos algumas perguntas para fazer.
Alguém no grupo
humoradamente diz:
- Pergunta se ela
é solteira!
Os policiais riem
para si mesmo. Todos estavam animados com a captura da belíssima runner.
- Pensando
melhor, acho que primeiro vamos nos divertir um pouco.
Então alguém
atrás deles diz:
- Perdoem-me,
senhores. – então eles se entreolham, assustados – Mas a garota tem namorado.
Os policiais
olham para trás e veem um homem de jaqueta marrom com um fuzil de assalto em
suas mãos.
Antes que
pudessem esboçar uma reação, o homem aperta o gatilho e fuzila os policiais.
Eles caem baleados no chão, pegos totalmente desprevenidos pelas costas. Finado
o confronto, o homem troca o pente de sua arma.
Ele se aproxima
da luz e a garota o reconhece.
- Maynard!
O mercenário sorri.
- Olá, Laura.
Fiquei sabendo que você está namorando? – pergunta ele, calmamente.
Viaturas os sobrevoam,
preparando-se para o ataque. A garota diz:
- Maynard, a
superfície está sofrendo uma invasão!
Tiros são ouvidos
lá embaixo. Esgueirando-se no parapeito, ela vê policiais executando os civis.
As pessoas correm desesperadamente pelas ruas, tentando fugir e sendo baleadas
nas costas. A garota se espanta.
- Eles estão
matando inocentes! São pelotões de fuzilamento!
- Sim, sim... –
responde Maynard – E vocês também ficam mais bonitos, não?
Laura se
confunde.
- O quê?!
- Vocês, jovens
quando amam. Quando namoram, vocês ficam mais bonitos e mais alegres... –
complementa ele, ressaltando o rosto.
A garota se
irrita.
- Inocentes estão
morrendo e você não se importa?
Abanando suas
roupas, o mercenário responde:
- É claro que me
importo. Tremendo desperdício de munição.
- Maynard! Isso é
assassinato!
- Pensei que você
já estivesse se acostumado às cenas de guerra. Aliás... – pergunta ele –
Inocentes aqui?
Laura entende a
ironia.
Uma mulher grita
lá embaixo. Sobre o parapeito, a garota vê uma mulher caída no chão. Então um
policial lhe aponta uma arma e atira em sua cabeça, executando-a. Sangue se escorre
pelo piso e o assassino vai embora tranquilamente.
Laura olha para Maynard e pergunta:
- Você tem uma
arma?
O mercenário lhe
faz um olhar entediado.
- É óbvio que eu
tenho uma arma. – responde ele.
Ele lhe dá uma
pistola automática. A garota checa as balas e diz:
- Certo. Agora eu
devo partir. Eu trabalho melhor sozinha.
Mas, ao virar-se
para trás, o mercenário já havia desaparecido. Ele realmente conhecia cada um
de seus contatos na superfície, incluindo suas personalidades. Balançando a
cabeça, a garota sussurra:
- Maldito
sociopata...
E então ela pula
pelos terraços e se dirige ao Mystique.
§
Nathan está tão
ferido que mal consegue se levantar. Olhando ao redor, ele vê os escuros
telhados da superfície. Ninguém ficou para ajuda-lo, na verdade, ninguém se
lembrou dele. Ele se entristece.
Ao dar um passo,
sua perna dói, fazendo-o cair. Haviam ossos trincados por todo o seu corpo. Ele
mal se lembra da última vez que tomou uma surra.
“Talvez na
adolescência...”, pensa ele.
Mas, apesar da
última briga, ele nunca foi linchado como dessa vez. Lembrando-se das pancadas
e dos pontapés, lágrimas se escorrem de seus olhos.
“O que minha mãe
pensaria agora se me visse pisoteado como um saco de lixo?”, lamenta-se ele.
Arrastando-se
pelas escadas, ele se lembra que sempre defendeu a paz. Mas, infelizmente, nem
sempre era possível ser pacífico na vida.
“Viver é conviver
com os animais inteligentes e violentos, os seres humanos”, pensa ele.
Com a Rebelião,
ele conheceu os piores tipos de animais racionais.
“As facções”,
reconhece ele. “O que essas pessoas são capazes de fazer em seu fanatismo?”.
Mas, talvez, ele
estivesse exagerando. Sonata não era um lugar comum, mas uma jaula superlotada
habitada com todo o tipo de gente com as mais diferentes cosmovisões.
“O que é normal e
aceitável para mim pode não ser para você”, reflete ele.
As facções
lutavam por um ideal. Pessoas como Nathan eram passivas, covardes e fracas, sujeitando-se
à ordem opressiva das corporações e não fazendo nada para mudar.
“Pelo menos as
facções faziam alguma coisa”, pensa ele. “E eu? O que eu fazia?”.
Nathan se
martiriza por dentro. Apesar de seus pais terem morrido pelas mãos das próprias
corporações, o rapaz ainda se sujeitara a elas.
Chegando nos
becos, o rapaz se arrasta pelos sacos de lixo. Tiros são ouvidos nas ruas, mas
ele estava longe do perigo. Ao chegar no Submundo, com muito esforço ele toca o
identificador digital e o suja de sangue. As portas se abrem e ele se arrasta
pelas escadas.
O Submundo estava
deserto como anteriormente. Nathan não compreende.
“Como puderam
evacua-lo na iminência do ataque de um especialista?”.
Ele se convence
de que os runners partiram para combater a invasão lá fora.
Abrindo a porta
de seu quarto, ele sobe em sua cama e, com muito cuidado, se deita. Suas roupas
estavam sujas, suas feridas sangravam e seu corpo doía. A Rebelião sofria um
revés lá fora, mas ele não se importava. Naquele momento, um Inimigo de Estado
ferido e inapto para o combate apenas os atrapalhariam.
Com tantas dores,
lágrimas se escorrem de seus olhos, mas ele tenta não chorar. Laura não ia
gostar de ver a principal figura da Rebelião choramingando por causa de uma
simples surra.
“Laura não tomaria
uma surra, ela daria uma!”, pensa ele, sorrindo.
Respirando fundo,
ele põe a mão em seus olhos e pensa:
“Só espero que
ela esteja bem”.
§
“Laura, está me
ouvindo?”.
O comunicador no
bolso da runner piscava.
- Database, eu
estou aqui.
“Qual é a sua
situação?”.
Espiando por uma
janela, ela vê policiais alinhando civis em uma parede e fuzilando-os. Ao pegar
outros, eles repetem o ato.
- Os policiais
estão cometendo um massacre.
“Não são
policiais, são mercenários pagos, assassinos condenados das prisões”.
Database
investigou o contingente policial e descobriu que as corporações estão
arregimentando novos “profissionais” para defende-las.
- Por falar em
mercenário, eu vi Maynard agora há pouco.
“Não se preocupe
com ele. Preciso que você coordene a defesa dos runners. Eu vou lidera-los à
distância”.
- Liderar à
distância? – intriga-se ela – Database, onde é que você está?
“Onde você acha?”.
Laura vê a
fachada do clube destruída. Estranhamente ela ouve o som alto de música eletrônica vindo de seu interior. Ela diz:
- Chefe, estou ouvindo música vinda do Mystique.
"Deve ser um mal funcionamento. Apresse-se, Laura. Temos mais o que fazer".
- Ok. O que você
quer que eu faça?
Vociferando de
ódio, o chefe responde:
“Quero que você
os faça sangrar!”.
A garota sorri.
- Pode ser mais
específico?
Então Database
lhe dá as instruções do contra-ataque.
“E Laura, tome
cuidado”.
Ela sorri novamente.
- Que bonitinho.
– responde ela, sarcasticamente. O chefe não se importava com ninguém além de
si mesmo.
Minutos mais tarde,
os runners se posicionam sobre os terraços próximos. A garota caminha com mais
dez runners sobre o telhado do Mystique. Olhando para a rua, ela vê os
policiais se aproximando. Então ela diz:
- Atacar!
Os runners atiram
contra a polícia. Muitos são baleados e abatidos, mas outros conseguem escapar.
Aerocarros os sobrevoam e atiram nos runners. Vendo a ameaça, Laura contata os
operadores de drones e diz:
- Liberem os
drones!
As pequenas
aeronaves sobrevoam o campo de batalha e atiram nas viaturas. Elas têm grande vantagem
sobre a polícia, pois são pequenas e leves, fáceis de se manobrar nos estreitos
espaços entre os prédios. Entretanto, os drones são frágeis e não carregam
muita munição, tornando-os suscetíveis a pequenas rajadas de metralhadoras.
A chuva de aço
cai sobre eles. Runners e policiais têm de se proteger dos aerocarros em chamas
e dos fragmentos de drones em toda parte.
Abaixo, a garota
vê civis correndo desesperados pelos becos e sendo baleados em seguida. Pilhas
de cadáveres se acumulam pelas ruas. Aqueles mercenários vieram na
intenção de limpar a superfície, exterminando quem encontrassem pelo caminho.
Vendo aquilo, Laura testemunhava um massacre.
Dos becos
escuros, pares de olhos vermelhos se aproximam. Os policiais recuam, esvaziando
repentinamente as ruas. Entreolhando-se, os runners desconfiam da súbita
mudança de estratégia dos inimigos. Então algo acontece.
Securitrons
aparecem, avançando sobre os entulhos e os cadáveres empilhados. A garota
arregala os olhos.
“Laura, o que
está havendo? Por que os tiroteios cessaram?”.
- Database, eles
trouxeram Securitrons! Preciso de armamento pesado agora!
Virando seus
canhões para os prédios, os robôs disparam mísseis e explodem os terraços,
eliminando os grupos de runners posicionados próximos ao Mystique. Vendo seus
companheiros caindo sem vida lá embaixo, a garota ordena:
- Recuar!
Laura e seu grupo
fogem. Um segundo depois o telhado se explode, erguendo uma labareda infernal.
Eles se salvam por um triz.
Descendo para
dentro do Mystique, ela contata seu chefe e diz:
- Database,
perdemos nossas defesas externas! Precisamos preparar as defesas dentro do
clube!
“Vocês
perderam...?!”, espanta-se ele, sabendo que seus runners haviam morrido.
“Certo. Enviarei os seguranças da casa”.
A garota e os
runners rapidamente se posicionam no mezanino sobre a pista de dança. Os
seguranças aparecem portando potentes fuzis e, em seguida, se posicionam no
bar.
“Laura,
responda!”.
- O que foi,
chefe?
“O que houve lá
fora?”.
- Securitrons
apareceram. Os runners não tiveram a mínima chance.
Ponderando,
Database responde:
“Ouça-me. Em meu
laboratório há uma saída de emergência. É uma rota de fuga secreta que os leva
para longe do Mystique. Eu não gostaria que abandonassem meu clube, tenho dados
sensíveis que, se revelados, comprometeriam a Rebelião... Mas, se precisarem,
eu deixarei a porta destrancada para vocês”.
A garota se
lembra que seu laboratório era uma área restrita que poucos privilegiados
tinham acesso. Laura era um deles.
- Eu me lembrarei
disso. Desligo.
Os Securitrons
disparam seus mísseis e fulminam a entrada do Mystique, arrasando o pouco que
sobrou de sua fachada. Se as portas de aço não aguentarem, todo o prédio se
desabará antes.
Enquanto está
atenta ao ataque inimigo, alguém toca o seu ombro e a assusta. Virando-se
rápida como um relâmpago, ela aponta seu fuzil para o rosto de quem a tocou.
- Maynard...?! –
exclama ela – Como entrou aqui?
Dando de ombros,
ele responde:
- Esqueci de
tomar minha bebida.
- O quê?!
O mercenário
calmamente desce as escadas. Laura nota que ele carrega uma bolsa em suas
costas. Chegando ao bar, ele deixa a bolsa no chão, ao lado da parede.
- Isso aqui vai
estragar o dia de alguém... – diz ele, sorrindo.
Em seguida ele
pega um copo, abre uma garrafa de uísque e o bebe, apreciando-o a cada gole. Os
runners e os seguranças ficam atônitos vendo aquele homem agir tão
tranquilamente em meio a uma invasão.
Um minuto depois,
as portas de aço cedem, escancarando a entrada. Os Securitrons invadem o
Mystique. Desesperada, a garota ordena:
- Atacar!
Os runners e os
seguranças atiram, mas nada podem fazer contra a blindagem das máquinas. Um
Securitron atira contra o mezanino e o explode. Laura vê dois runners voarem
pelos ares.
- Laura!
A garota olha
para baixo e Maynard a joga um lança-granadas. Olhando para a munição, ela vê
EMPs.
Levantando-se,
ela atira nos robôs e uma poderosa onda de choque azul se levanta. Sob o efeito das
bombas, os robôs são desabilitados, mas não por muito tempo.
- Database, onde
está o armamento pesado?
“Eu os realoquei
por Sonata. Pretendia usa-los na Rebelião”.
Laura se
enfurece.
- Você e sua
maldita obsessão, não é?!
Enquanto os robôs
se recuperam, os batalhões de policiais invadem o clube. Eles atiram para todos
os lados e jogam granadas. Alguns seguranças são atingidos e caem sobre o
balcão de bebidas. A garota percebe que não resistirá ao ataque.
De repente
Maynard se levanta e, portando duas metralhadoras, atira contra os invasores. Ele
inacreditavelmente caminha em sua direção, atirando e alvejando-os. Os
policiais atiram de volta, mas suas balas são bloqueadas por uma barreira
Kinect ao redor do mercenário.
Esgotada as
balas, Maynard se agacha atrás de outro balcão. Enquanto recarrega suas armas,
os policiais atiram, estourando os copos e as garrafas na prateleira acima
dele. Sobre o mezanino, Laura olha para baixo e tem a impressão de vê-lo rir.
Tirando o pino de uma granada, o mercenário a
lança contra os policiais e se protege. A explosão os lança pelos ares, arruinando
a colorida pista de dança.
No mezanino, a
garota atira nos policiais, distraindo-os. O mercenário tem tempo de se mover e
atirar de outra posição, confundindo-os. Realizando um ataque coordenado, Laura
e Maynard revidam, cobrindo um ao outro.
O mercenário
atira no globo de luz e ele cai no meio da pista. Os policiais se assustam, fazendo Maynard
gargalhar.
Os Securitrons se
recuperam do pulso eletromagnético. Mais policiais entram no clube. O capitão
olha para seus subordinados e ordena:
- Alguém desligue
essa maldita música!
Vendo que os
invasores se concentravam no clube, Laura olha para seus companheiros. Os
runners estavam feridos e sem munição. Os seguranças foram eliminados nos bares
abaixo. Apenas ela e um punhado de runners sobraram. Tristemente ela reconhece
que aquela era uma batalha perdida. Respirando fundo, ela forçosamente ordena:
- Temos que
repelir a invasão! Defendam o Mystique!
- Não! – grita
alguém.
Os runners olham
intrigados para Maynard.
- O que disse?
- Database tem
uma saída de emergência no laboratório, não é? Sigam para lá. Eu te dou
cobertura.
A garota objeta.
- O Mystique tem
dados essenciais para a Rebelião. Database vai precisar deles depois.
- Se perdermos os
runners, não haverá mais Rebelião.
Olhando ao redor,
ela responde:
- Não sobrou
muito.
- Sobrou a mais
importante. Você. – afirma ele – Agora vá. Não há tempo a perder.
Laura pensa em desobedece-lo,
mas, ao olhar para os runners, ela vê que são apenas garotos cansados e
assustados, arrastados para uma guerra provocada pelo próprio Database. A garota
não era nenhuma inocente, mas sabe que seu chefe se utilizava da marginalidade
da superfície para usa-los em seus interesses egoístas.
- Ok. – acata ela
– Nos dê cobertura.
Maynard lança
granadas contra os invasores. A garota se abaixa e segue para o porão onde o
laboratório se encontra. Passando pela porta, elas e os runners atravessam o
vasto salão onde Database realiza seus bizarros experimentos. Uma runner olha
para um tanque criogênico e pergunta:
- Ei, o que é
isso?!
Laura olha para o
tanque e vê um androide idêntico a um ser humano. Cabos e tubos se conectam ao
seu corpo. Em uma plaqueta abaixo, ela lê: “Protótipo #9”.
“#9...?!”,
intriga-se ela. “Mas não foi o #8 que causou toda essa confusão?”.
Ao observa-lo melhor,
ela se espanta. Aquele androide era o mesmo feto encapsulado que ela trouxe a
Database meses atrás.
“Como ele cresceu
tão rápido...?”, pergunta-se ela.
- Encontrei a
saída! – interrompe um runner.
Uma porta oculta
se abre e eles veem um extenso corredor. Eles atravessam a entrada e a garota
aperta um botão na parede. Um runner intervém.
- Laura, e quanto
a Maynard?
Pressionando o
botão, ela friamente responde:
- Ele sabe se
virar.
Então a porta se
fecha e eles vão embora.
§
Acima, os
policiais avançam e encontram o clube vazio e abandonado. Eles venceram a
batalha; eles tomaram o Mystique.
Um policial
caminha pelo bar e vê algo atrás do balcão. Aproximando-se, ele identifica um
bolsa sob a poeira e os cacos de vidro. Abanando a sujeira, ele diz:
- Capitão, eu
encontrei algo aqui!
Os policiais se
dirigem ao bar e abrem a bolsa. O capitão vê luzes piscando intermitentemente e
se intriga.
- O que é isso? –
pergunta-se ele.
Então, ao serem
manipuladas, as luzes emitem um agudo apito. O capitão se empalidece e, fazendo
um tique em seu lábio, abaixa sua arma.
De repente a
potente explosão destrói a casa noturna Mystique, alastrando a violência de sua
força por toda a superfície.