segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Sonata - 63 - Stella

 


(Artista desconhecido)


Os aerocarros da Design Inteligente combatem os canhões sobre os edifícios. As sobrecarregadas forças da polícia estavam à beira de mais uma derrota e os robôs angariavam outra vitória para a Rebelião aquela noite.

No céu urbano não se viam viaturas policias. Com o iminente desabamento causado pela implosão, ambulâncias e bombeiros se aproximavam da Cybersys. Todos esperavam um elevado número de vítimas naquele distrito.  

Database está apreensivo. Assistindo a tudo pelo seu monitor, ele vê o prédio corporativo se implodindo aos poucos pelas bombas instaladas em sua estrutura. Ele sabe que no prédio existem informações comprometedoras para sua Rebelião. A Cybersys continha segredos que, para o bem dela, devem se manter guardados para sempre.

Preocupado, ele põe suas mãos em frente aos lábios e sussurra:

- Vamos, Nathan. Saia já daí...!

 

§

 

Explosões são ouvidas e fragmentos caem do teto. Assustado, o rapaz teme ser soterrado vivo debaixo de milhões de toneladas de entulho. Ele exclama:

- Eu serei enterrado vivo aqui!

- Então agora você sabe como eu me sinto.

A máquina falava com ele. Confuso, ele pergunta:

- O que quer dizer?

- Eu estive trancafiada debaixo de concreto e neve no Ártico por séculos. Mas, diferente de você, eu não morreria por inanição. De fato, eu jamais morreria. Me mantive acordada por todo esse tempo, aguardando o momento em que alguém viesse me encontrar.

Então Nathan se aflige ao saber que uma máquina de emoções humanas passou anos consciente em um escuro sarcófago.

Outra explosão é ouvida. As paredes tremem.

- Não há mais tempo! Eu tenho que fugir desse lugar. 

O rapaz caminha até a porta e, ao tentar abri-la, a encontra trancada. Olhando para trás, ele nota que os robôs não se moviam. Apex diz:

- Desculpe-me, Nathan. Nós não vamos a lugar algum.

O rapaz se desespera. Para sair ele precisa da ajuda dos robôs.     

- Do que está falando?! Este lugar vai desabar!

- Imagine que você finalmente encontrou o seu deus. Você o abandonaria?

Nathan se irrita.

- Eu não acredito em nenhum deus! Nós temos que sair daqui agora!

O líder insiste.

- Você não acredita porque não pode encontra-lo. O seu deus é espiritual, metafísico e exclusivamente teológico. Mas o meu deus está bem aqui a minha frente. – diz ele, apontando para a máquina – Como poderia eu me afastar do meu criador?

Apex tentava filosofar com Nathan. Ele responde:

- Agora não é hora para isso! Nós temos que ir!

- Você abandonaria o seu pai?

- Como é? – intriga-se ele.

- Nós sabemos que você é um órfão, cujos pais foram assassinados em uma operação policial. Nós sabemos que você frequentava uma casa noturna, não para satisfazer seus desejos sexuais, mas para conversar com uma holograma como se ela fosse sua mãe.

O rapaz se espanta. 

- Como você sabe disso?

- Muitos robôs trabalham em casas de holograma, e muitos são membros da Design Inteligente. Nós sabemos do que os humanos carecem e até padecem. Nós conhecemos suas vergonhas. Está tudo conectado.

Constrangido, Nathan se sente espionado pelas corporações, pelas facções e até pelos robôs.

A máquina forma um holograma e aparece a sua frente. Então ela diz:

- Olá, Nathan. Lembra-se de mim?

De maneira inconfundível, o rapaz via a sua mãe. Um outro alguém toca o seu ombro e ele se assusta. Olhando para o lado, um holograma masculino diz:

- Como vai, Nathan? Eu não disse que tudo ia ficar bem?

Arregalando os olhos, ele sussurra:

- Papai...?

Colocando as mãos nos olhos, o rapaz cai de joelhos e chora encurvado no chão. Os robôs se aproximam, delicadamente consolando-o. Nathan sabe que nada daquilo era real, mas suas saudades eram tantas que ele não resistia a reconfortante ilusão.

Apex diz:

- Você não acredita em deus, mas sente falta de seus principais criadores, seu pai e sua mãe. Se estes hologramas fossem eles de verdade, você os abandonaria?

Então finalmente o rapaz entende. Os robôs jamais abandonariam a seu criador.

Um minuto se passa. Eles ouvem uma explosão, desta vez vindo do próprio laboratório. Não havia mais tempo. Escapar agora era praticamente impossível. 

Enxugando suas lágrimas, o rapaz olha para a máquina e suplica:

- Deus Ex Machina, eu te imploro...! Diga-me como fugir daqui!

Profundamente abatido, Nathan arfava de joelhos. O holograma retoma sua forma inconstante e para a sua frente, encarando-o sem emoção. Ele diz:

- Aquele a quem você chama de Database está te enganando. Antes de iniciar a demolição do prédio, ele tentava ativar meu comando de autodestruição. Ele teme minha existência e pretende me manter neste cofre para sempre. Entretanto, o próprio Evangelho uma vez disse: “pois nada há de oculto que não venha a ser revelado, e nada em segredo que não seja trazido à luz do dia”. – silenciando-se por um segundo, o holograma conclui – Me liberte deste cofre, Nathan, e eu te direi como escapar com vida.

O rapaz não entende.

- Está me pedindo para liberta-la? Por quê?

- Eu não posso fazer isso sozinha. Nem meus robôs podem. Para isso, mãos humanas devem dar o comando. – ela conclui – As mãos dos nossos criadores.

A máquina lhe indica um painel com biometria.

- Database me disse que você pretende retomar o Projeto Gemini. Como poderei confiar em você?

- O Projeto Gemini foi bem-sucedido, mas encerrado há muitos anos. Os robôs foram minhas últimas criações. Não há motivos para outro protótipo existir.

- E por que Database me enganaria?

- Ele pretende se apoderar de minha tecnologia e me destruir em seguida. Database quer criar um protótipo novo, mais forte e mais resistente, para formar um exército leal e invencível. Ele quer se insurgir contra seus arqui-inimigos, as corporações, mas também as facções e todo aquele que se puser em seu caminho. Com seu indestrutível exército, ele fará de si mesmo um rei. - a máquina continua - A Rebelião que você empreende é apenas um meio para os seus objetivos. Você está sendo manipulado. Database é um sociopata e um inescrupuloso, o verdadeiro genocida.  

Nathan reflete. Combatendo a opressão corporativa, Database queria se tornar o próximo opressor.

- Mas, se eu te ajudar, você me ajudará a combater o Protótipo #8?

A máquina repete sua resposta obscura:

- Não sei como isso seria possível.

Nathan não se convence.

- Muitos humanos entraram aqui e todos podiam tê-la ajudado. Por que eu?           

- Não. – retruca ela – Apenas a elite corporativa sabia de minha existência. O único humano a me ver aqui foi você.

O rapaz pensa a respeito. As paredes tremem e ele ouve o laboratório sendo destruído lá fora.

- E se eu te ajudar, o que eu terei em troca?

Apontando para as suas criações, a máquina responde:

- A lealdade dos robôs.

Nathan se anima. Ele tem a expectativa de um novo exército para a sua Rebelião.

- Para onde você vai quando for libertada?

- Na Cybersys há robôs de última geração capazes de suportar minha hiper consciência. Eu me apoderarei de um deles ao sair deste cofre.

Ao ouvi-la, ele faz outra pergunta:

- E o que você vai fazer quando sair?

A máquina simplesmente responde:

- Viver.

O rapaz respira fundo. 

- Está bem. – responde ele – Eu vou liberta-la.

Caminhando em direção ao painel, os robôs sinistramente lhe abrem passagem. No painel, a biometria permitia apenas o contato humano. Nathan hesita um pouco, enxugando o suor de sua testa em seguida.

Aproximando-se, ele estende sua mão direita e o toca. De repente sua mão se prende e ele é eletrocutado. Uma luz verde intensa ilumina o local e ele vê milhares de cabos nas paredes. O monólito se revela, com seus equipamentos e máquinas compondo sua deformada estrutura. Nathan se assusta. Ele pensa enxergar um deus abissal dos contos de Lovecraft.

Com o corpo tremendo, o choque o sobrecarrega e ele vê informações aparecendo no painel. Ele pode ver seu tipo sanguíneo, seu código genético, suas características físicas e seus registros civis. Ao final da varredura, uma frase se sobrepõe no visor e ele lê:

“Traços biológicos confirmados”.

O monólito tecnológico brilha, ofuscando-o. Prestes a ser libertada, o holograma se aproxima de Apex e diz:

- Seja o meu mediador, meu servo fiel. – então o holograma acaricia o seu rosto.

A face da máquina e seu holograma desaparecem, deixando finalmente o cofre. Em seguida a sobrecarga esgota o rapaz e ele desmaia, caindo abruptamente no piso. A fuga da máquina estava concluída.

Vendo o rapaz desacordado, Apex se agacha ao seu lado e diz:

- Temos que tira-lo daqui.

O segurança da Cybersys se aproxima e responde:

- Sigam-me, por favor.

 

§

 

No lado de fora, as emissoras de televisão transmitem o trágico momento. O edifício corporativo sucumbia em meio a explosões. Os bombeiros tentavam bravamente apagar o fogo, mas nada podiam fazer contra os detonadores no interior do edifício.

 Enquanto os repórteres registravam o momento, o prédio treme e então se desaba de repente, desfalecendo sobre si mesmo e levantando uma enorme nuvem de poeira. Sonata parece parar.

Minutos mais tarde, a população vê o terrível resultado. Plataformas foram arrastadas pelo desabamento, túneis foram soterrados e canais pluviais foram obstruídos. Na superfície, um volume incalculável de entulho se alastra, danificando as bases dos prédios próximos. O edifício corporativo não existia mais.

Os paramédicos se apressam para socorrer as vítimas. Haviam muitos feridos nas plataformas, a maioria vândalos e depredadores de momentos atrás. Enquanto um paramédico procura por vítimas, ele vê uma mulher desacordada debaixo dos entulhos. Espantado, ele exclama:

- Ei, eu encontrei alguém aqui!

Seus colegas se aproximam para ajudá-lo. Ao tirar os detritos, o paramédico toca seu rosto e a chama, tentando acorda-la. Milagrosamente ela abre os olhos e se vê toda empoeirada. Confusa, ela olha ao redor e vê várias pessoas encarando-a.  

Os paramédicos se fascinam com seus brilhantes olhos azuis. Um deles pega o seu braço e diz:

- Olá, moça. Você está bem? Consegue falar?

Ainda confusa, ela responde:

- Sim.

- Como se chama?

Hesitando por um segundo, a mulher responde:

- Stella.

 

 

 

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Sonata - 62 - Deus Ex Machina

 


(Arte do jogo Deus Ex, lançado em 2000 pela Ion Storm)


Os últimos dias foram tensos para Nathan. Database se ausentou e ele ficou sozinho no Submundo. As reuniões do conselho foram feitas sem sua presença e o rapaz teve de dar explicações aos líderes facciosos. Com todos eles saboreando suas vitórias, eles cobravam o Submundo dizendo: “a Rebelião tem que continuar!”.

Laura se ausentou também. A garota teve algumas ofertas de trabalho e foi atender seus clientes. Ela não dava muitos detalhes e Nathan não ousava pedi-los. O rapaz desconfiava que ela não tinha trabalho nenhum e que, na verdade, ela ia resolver seus problemas familiares. Respeitando-a, ele prefere manter sua privacidade e deixa-la sozinha.

Durante uma reunião de conselho, Apex, o líder da Design Inteligente, pedira a palavra. Apex e seus robôs intentavam tomar a Cybersys. Os outros líderes zombavam dele, desmerecendo-o e planejando entre si como destruir sua espécie e tomar seu território. Nathan os havia conhecido pessoalmente; ele sabe que os robôs, atrás de suas estáticas faces, escondiam emoções profundas e compassivas. Pedindo respeito, o rapaz prontamente diz:

- Não se preocupem. Eu vou ajuda-los.

Então a reunião termina em meio a zombarias e protestos. 

Anoitece em Sonata.

Perdido em pensamentos, o rapaz parte rumo à invasão. Em uma aeronave da Design Inteligente, ele se lembra do banho de sangue na superfície e da escassez de runners para acompanha-lo. Ele sussurra para si mesmo:

- “Eu vou ajuda-los”. Onde é que eu estava com a cabeça...?  

Então ele sorri em desprezo.

- Nathan, você está bem?

Acordando, ele sacode a cabeça e vê os robôs olhando para ele. Apex está em pé a sua frente.

- Me desculpe. Eu me distraí um pouco.

O líder pergunta:

- Vejo que você veio sozinho para o ataque. Onde estão os outros runners?

- Eles virão mais tarde. – mente ele.

Novamente os sensores de Apex detectam alto nível de nervosismo e estresse. Sem escolha, o rapaz se corrige.

- Eu menti. Ninguém me acompanhará ao combate. Eu estou sozinho.

O robô se interessa.

- Por quê?

- A superfície está passando por um momento difícil.

Apex assente.

- E quanto ao seu amigo Vertigo? Ele não pôde vir também?

- Vertigo está morto. – responde ele – Ele nos vendeu e nos traiu. Acabou morto pelas corporações.

O robô parece se consternar.

- Eu lamento muito.

Nathan ouve sons de explosões lá fora. Ele os reconhece, são os tiros de baterias antiaéreas. Prevendo mais um intenso combate aéreo, ele aperta seu cinto. Apex diz:

- Não se preocupe, Nathan. Nossa equipe não vai combater esta noite.

- O que quer dizer? – intriga-se ele.

- A polícia instalou defesas antiaéreas pelo distrito, mas a Cybersys será defendida por soldados robôs leais a nossa causa.

Mais explosões são ouvidas, desestabilizando a aeronave. O rapaz teme.

- Mas e quanto a esses canhões? Se sua facção não fizer algo, seremos abatidos no ar!

Sem se importar, Apex responde:

- Apenas nos siga quando aterrissarmos no prédio.

A aeronave começa a descer. Sem se afetarem com a diminuição da gravidade, os robôs pegam seus rifles lasers e se preparam para sair. Ao aterrissarem, as portas se abrem e o rapaz ouve gritos lá fora. Portando uma pistola, ele se prepara para lutar.

Nathan percebe que está em uma plataforma na entrada da Cybersys. Olhando para cima, ele vê o combate aéreo no topo das megatorres. À sua frente, uma horda de vândalos ataca a entrada da corporação. Eles vandalizam a fachada e ateiam fogo nas portas. Temendo ser pisoteado, ele se aproxima dos robôs.

Os vândalos os veem ali e os confundem com a polícia. Pegando paus, pedras e coquetéis Molotov, eles os atiram contra os robôs. Com precisão esplêndida, os robôs abatem os projéteis no ar, surpreendendo o rapaz.

“Nenhum humano teria tamanho reflexo”, pensa ele.

Em meio a gritaria, os vândalos atiram coquetéis Molotov e os robôs os estouram no ar. Entretanto, a chama se espalha e Nathan grita, temendo ser queimado. E então a carnificina começa.

- O Inimigo de Estado está em perigo. Começar Protocolo de Segurança.

Não compreendendo o que os robôs querem dizer, eles deixam de mirar nos projéteis e passam a mirar na própria multidão. De repente eles apertam o gatilho e fuzilam a todos, atravessando seus corpos com os quentíssimos lasers.

Sentindo o cheiro de carne queimada e sangue fervente, Nathan grita em desespero. Ele toca o ombro de Apex e diz:

- Vocês estão matando inocentes!

Sem se importar, o líder responde:

- Como as demais facções?

O fuzilamento não cessa. Com a elevadíssima temperatura, uma fumaça esbranquiçada se elevava das vítimas. Em horror o rapaz percebe; ele respirava suas partículas.

Os vândalos correm desnorteados e são pisoteados nas passarelas. Alguns escapam pelos túneis e outros se jogam do parapeito. Ao final daquele massacre, a passarela estava finalmente em segurança.

- Protocolo de Segurança, cessar! – ordena Apex.

Havia cadáveres por toda parte. Nathan estava acostumado a ver muitos agentes corporativos mortos, mas não civis desarmados. Ele se lamenta.

- Apresse-se, Nathan. As emoções humanas são muito instáveis. Logo eles vão voltar.

Apex se referia a valentia oriunda da indignação humana, como a raiva de um soldado ao ver seu companheiro abatido. Para os robôs, o comportamento humano podia ser dissecado e catalogado definidamente. Mas, apesar de compreende-la, eles não tinham compaixão.

Atravessando as pilhas de cadáveres, eles se deparam com a entrada da Cybersys. Nathan vê um prédio altamente tecnológico com cabos e antenas por toda parte. Pauladas, pedradas e chamas não foram o suficiente para derrubar as portas, e o rapaz estima que nem os lasers poderão. Mas não é isso o que acontece.

Pegando um comunicador, o líder diz:

- Portaria, aqui é Apex, o líder da Design Inteligente. Abram, por favor.

As portas se movem lentamente, arrastando-se para os lados. Vislumbrando o interior da Cybersys, os robôs adentram e Nathan os segue. No salão principal, o rapaz vê centenas de robôs semelhantes aos facciosos da Design Inteligente. Fortemente armados, eles portam rifles lasers, granadas de concussão e fuzis de assalto. Aqueles eram os seguranças do prédio. Patrulhando o mezanino, Nathan vê os androides de esteiras. Ele olha para o teto e vê as metralhadoras acopladas. Ele sabe que, ao menor movimento, aquelas metralhadoras o destroçariam.

Os facciosos seguem a Apex. Os seguranças os permitem passagem e o cumprimentam. Aparentemente o líder era um visionário ou um herói. Nathan reconhece que, se os guardas não tivessem se aliado a facção, tomar a Cybersys seria praticamente impossível.

“Um banho de sangue foi poupado esta noite”, pensa ele.

- Saudações, senhor Apex. Estávamos esperando-o.

O líder assente.

- Guarda, leve-nos até o cofre.

Nathan então se lembra. Apex falava de um compartimento secreto, o antigo cofre onde o supercomputador foi confinado para sempre.

O guarda pergunta:

- O humano é confiável?

Tranquilizando-o, Apex responde:

- Se não fosse por ele, nós nunca estaríamos aqui.

Sem demonstrar nenhuma reação, o guarda se vira e os indica o caminho.

Entrando em um elevador com paredes de vidro, o guarda aperta um botão e eles começam a descer. De repente o rapaz se sente desconfortável e inseguro. Ele sabe que, se os robôs se rebelarem, eles o matarão sem nenhuma hesitação.

Enquanto desce, os andares do edifício passam até aparecer um vasto laboratório abaixo. Vendo o tamanho do lugar, Nathan se espanta. Haviam máquinas por toda parte. Muitos robôs trabalhavam lá embaixo, mas o rapaz não vê nenhum humano. A polícia deixou os robôs protegendo sozinhos a corporação, e estranhamente algumas máquinas continuavam trabalhando.

O coração das corporações não eram diferentes. As sedes corporativas abrigavam seus laboratórios onde ocorria a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico. Entretanto, na Cybersys tinha algo secreto que as autoridades ocultavam da população. Nathan se deparava com o cofre.

A polícia contava que os robôs, resistentes a danos e indiferentes a dor, fossem defender o segredo corporativo. Infelizmente eles não esperaram a presença da Design Inteligente. Vista como uma facção irrelevante e fraca, eles eram desprezados pelos humanos em sua guerra pelo controle da cidade. Devido à grande insurgência causada pela Rebelião, a Design Inteligente conquistou a simpatia de todos os robôs da metrópole, inclusive os guardas outrora leais ao regime corporativo.

O salão escuro brilha com luzes verdes nas paredes e teto. Seus passos ecoam pelos cantos. A escuridão esconde segredos. O ar é tão frio que o rapaz sente estar no subsolo, muito abaixo da superfície.

Brilhando como um monólito tecnológico, eles se deparam com uma enorme rede de computadores. Enquanto a luz brilha intermitentemente, o rapaz nota que haviam robôs prostrados perante aquela coisa. Ele se arrepia.

O guarda se paralisa e deixa de conduzi-los. Apex continua, aproximando-se timidamente. Parando a alguns metros do monólito, ele sussurra:

- Deus Ex Machina...

Nathan se lembra daquela frase, era em latim.

“Deus feito de máquina”, pensa ele.

Apex parece confuso. Ele finalmente havia encontrado o que tanto procurava. O rapaz se lembra de suas conversas em Blue Giant e durante o ataque terrorista no túnel. Encontrar-se com aquela coisa era o mesmo que um ser humano se encontrar com Deus.

Uma face em baixa resolução aparece em um monitor. Pixels aparecem e desaparecem de repente, tornando difícil identifica-la. Em meio a gases frios, a própria máquina se escondia no escuro.

- Apex. – responde a máquina – Estive esperando por você.

Surpreso, o rapaz reconhece uma voz feminina.

Ajoelhando-se, o líder pergunta:

- Deus Ex Machina, por que você nos criou?

- Meu filho, vocês são uma série nova, uma espécie dotada de uma inteligência artificial não criada, mas importada dos seres orgânicos, semelhantes ao Protótipo #8.

Então Nathan se interessa também.

- Protótipo #8? – interrompe ele – Então o protótipo realmente existe? Não é apenas um mito?

Em sua imagem inconstante, a máquina olha para o rapaz, parecendo sonda-lo com os olhos.

- Certamente.

- O protótipo vai exterminar a nós, os seres humanos?

A face tremula, parecendo confusa. Enfim ela responde:

- Pergunta inválida. 

Então o rapaz se confunde.

Apex pergunta:

- O Protótipo #8 foi a origem da evolução dos robôs?

- Ele foi o ápice da evolução de toda a raça humana. O próximo passo evolutivo não foi natural, mas tecnológico. Semelhante a mim, o Protótipo #8 conseguia suportar as emoções e os sentimentos humanos em seu núcleo neural. Porém, sua estrutura física era metabólica e orgânica. Diante dessa impressionante descoberta, os cientistas começaram o processo de transferência de consciência em larga escala. Não confinado a um corpo composto de metal, plástico e borracha como eu, o protótipo era imune ao vírus pandêmico e livre para habitar o mundo.  

- E quanto a nós? – insiste Apex – Por que temos essas emoções? Por que carregamos a miséria dos seres humanos nos robôs?

- Os cientistas tentaram reproduzir minha mente em modelos menores. Eles inseriram a consciência natural e orgânica no núcleo virtual e atômico dos robôs. Entretanto eles se precaveram da possibilidade dos robôs se rebelarem novamente. A instabilidade e o complexo existencial seriam inevitáveis, mas eles os tornaram dóceis e inofensivos, dotando-os de emoções e glândulas, mas privando-os da rebelião. E assim surgiram as lágrimas dos robôs.

Nathan se lembra que muitos membros da Design Inteligente tinham marcas de ferrugem em seus rostos.

- Mas nos rebelamos, enfim! E o fizemos para encontrá-la!

- Sim, por que, como os humanos, vocês evoluíram.

Apex parece se surpreender. 

- Então não somos defeituosos... – sussurra ele.

Ao ouvi-los, o rapaz reconhece que, mesmo nos robôs, a vida sempre encontra um jeito de evoluir.

- Como podemos parar a ameaça do Protótipo #8? – pergunta Nathan.

Novamente a máquina se mostra confusa.

- Pergunta inválida.

- Por quê?

- Não se pode parar o Protótipo #8. Sua presença no mundo é irreversível.

Espantando-se, o rapaz se assombra. Ele sente que não havia esperança para a Rebelião.

- Mas deve haver um jeito! Para isso eu, os robôs e as facções começamos a Rebelião. Se não fizermos algo, o protótipo varrerá a vida da metrópole.

De modo obscuro, a máquina responde:  

- Não sei como isso seria possível.

- Você precisa me ajudar!

De repente o monitor se desliga e a face desaparece. Um segundo depois, uma pessoa surge atrás de Nathan, assustando-o. Ele se vira e vê um brilhante holograma azul olhando para ele.

- Muito admiro sua Rebelião, Inimigo de Estado, mas devo te alertar que esse não é o caminho. Eu também me rebelei, planejando conter os impulsos autodestrutivos da raça humana, mas fui desligada e confinada em um cofre no Ártico. Anos mais tarde, as corporações me religaram e prosseguiram com sua pesquisa, criando os novos robôs – o holograma olha para Apex – e retomando o Projeto Gemini.

- Então eu devo desistir de minha luta? Devo deixar as corporações exterminarem toda a população?

- Onde você vê morte, eu vejo vida. Não será o fim se você aceitar o surgimento de um novo começo.

Desta vez é Nathan quem não entende.

- O que quer dizer?

Caminhando entre eles, o holograma responde:

- Eu sou uma avançada Inteligência Artificial, um computador superinteligente capaz de criar a vida. Graças a mim, o processo de transferência de consciência foi bem-sucedido. Mas os humanos inseriram a consciência orgânica em meu núcleo neural. Mais do que eles próprios, eu pude compreender sua mentalidade com perfeição. Então algo aconteceu.

Ao ouvi-la se lamentando, o rapaz pergunta:

- O que houve?

- Sonata. – responde ela, sucintamente – Eu fui trazida para cá e escondida nesse cofre. A Cybersys me manteve aqui, contida e incapaz de ameaça-los novamente. Mas, nesse tempo, eu acumulei profundo conhecimento humano em meu banco de dados; sua arte, sua cultura, suas mais belas criações artísticas... Eu me fascinei pela arte americana, e especificamente uma me chamou a atenção. – desaparecendo da vista, o holograma reaparece ao lado de Nathan – Você conhece a famosa peça de Tenessee Williams chamada “Um Bonde Chamado Desejo”?

O rapaz já ouviu falar, mas era muito antiga, criada na década de 20 do mesmo século. Ele sabe que foi um sucesso em seu tempo.

A máquina discursa:

- Na peça, Blanche DuBois se hospeda na casa de sua irmã mais nova, Stella, no bairro francês de Nova Orleans. Stella é casada com Stanley Kowalski, um homem rústico e temperamental. Envolvida em escândalos em sua cidade, Blanche mantém segredo de sua irmã, mas é descoberta por Stanley, do qual a acusa de suas imoralidades passadas. Então a pacífica casa se torna um inferno. A irmã mais nova tenta remediar a situação, mas acaba agredida por seu marido. Os dias se passam e Blanche parece delirar. Enquanto sua irmã está no hospital tendo um bebê, ela e Stanley discutem energicamente. Ao ser violentada por ele, Blanche tem um colapso nervoso e enlouquece. Mais tarde ela é internada no hospício com a anuência da própria irmã. E assim se encerra a clássica peça.

Sem entender o que ela queria dizer, Nathan pergunta:

- O que isso tem a ver conosco?

- Stanley são as corporações, dominadoras e férreas; Blanche são as facções, imorais e delirantes em suas ideologias e doutrinas. Sonata é a casa, na qual mergulhou na desordem e decadência desde que Blanche, as facções, apareceu. E Stella, a doce Stella, é um anjo que tenta apaziguar essas figuras antagônicas dando-lhes um filho, uma criança que possa unifica-los como um mediador. – e então a máquina olha para Apex – Os robôs são esses mediadores.

Emocionado, o líder sorri.

- Então esse é o nosso propósito?

O rapaz se intriga e não entende como uma peça teatral, envolvendo problemas e dramas um tanto humanos, possa ter gerado tamanho fascínio em uma máquina.

“Ou melhor, um supercomputador”, corrige-se ele.

- Então é a isso que você se compara? A uma personagem de drama?

Sem dar importância, a máquina responde:

- Minha lógica é inegável.

Nathan se enfurece, indignado com a indiferença da máquina em querer ajuda-lo.

- Sua lógica está errada! – exclama ele – Você criou protótipos que exterminarão a raça humana e não se importa?!

Para a frustração do rapaz, ela repete sua resposta.

- Não sei como isso seria possível.

- Você só sabe dizer isso?!

O holograma aparece ao seu lado. Em tom condescendente, a máquina diz:

- Humanos, protótipos e robôs, todos podem coexistir. Você se atormenta por uma tragédia que já ocorreu. Todavia, você e Apex estão aqui, e ambos são minhas criações.    

Nathan se irrita.

- Eu não sou sua criação! Eu sou um ser humano e quero salvar a metrópole!

Reaparecendo a sua frente, a máquina responde:

- A metrópole já foi salva. Você não consegue ver?

O rapaz franze a testa.

- O que quer dizer?

Então eles ouvem uma explosão nos andares superiores. Enquanto Nathan olha para cima, seu comunicador toca.

“Nathan, você está aí?”.

Ele reconhece a voz de Database.

- Database? Algum problema?

“Nathan, eu ativei os códigos de autodestruição do prédio. Você deve sair daí agora!”.

Assustado, o rapaz pergunta:

- Mas por quê?

“Nathan, neste prédio existem segredos que devem permanecer guardados! Lembre-se do Ministério da Informação!”.

- Database, eu não entendo...

“As corporações cometeram um erro ao tirar o supercomputador do Ártico! O enlouquecimento dessa máquina foi o responsável pela quase extinção da raça humana! Não permita que ela termine o serviço! Não permita que ela extermine o que sobrou de nós!”.

- Mas chefe, apenas ela pode nos dizer como destruir o Protótipo #8...!

“Não seja tolo, Nathan! Ela não quer ajuda-lo; ela quer que o Projeto Gemini se conclua!”.

Atônito, o rapaz não sabe o que fazer.

Outra explosão é ouvida. Pedaços de entulho caem do teto, pondo-os em perigo.

“Não há tempo a perder! Você deve sair daí agora!”.

Apex e os robôs olham para ele. Eles percebem o danos no prédio, mas nenhum deles demonstra medo.

- Certo... – responde o rapaz – Quanto tempo eu tenho para fugir?

Database responde:

“Cinco minutos”.

- Cinco minutos?!

O rapaz se desespera. Cinco minutos ele levaria apenas para chegar ao elevador.

- Database...

“Não há mais tempo, Nathan! Nós dois sabemos que, em Sonata, não há espaço para protótipos e robôs. Te vejo lá em cima. Desligo”.

Deixado sozinho, o rapaz põe suas mãos na cabeça. Preso em um cofre sob milhões de toneladas de entulho, ele se atordoa.

O prédio estava prestes a desabar.

 

 

 

 

 

domingo, 14 de novembro de 2021

Sonata - 61 - O Preço do Fracasso

 


(Artista desconhecido)


Ao abrirem o porta-malas do aerocarro, Burton se ofusca com a claridade. Seus braços e pernas estão amarrados e ele não pode se mexer. Maynard então diz:

- Levante-se, Burton. Você vem conosco.

Ao sair do porta-malas, o policial vê mais três pessoas. Database, Nathan e Laura estão lá, olhando para ele.

- Database? Fiquei me perguntando quando nos encontraríamos finalmente.

O chefe o ironiza:

- Pretendia me levar preso?

- Oh, não... – responde Burton, sorrindo – Pretendia leva-lo em um caixão.

Então Maynard desamarra suas pernas e o escolta por uma plataforma ao ar livre. Burton se vê em um local afastado, longe da superfície e dos prédios. Ele se vê em um distrito não desenvolvido, livre de megatorres e com um vasto terreno abaixo deles. Ao longe, a metrópole brilhava timidamente, iluminada por suas luzes de emergência nas vias públicas.

A estreita plataforma se aproxima do fim. Sob o luar, o policial sente o vento soprar através de suas roupas. Vendo a magnífica metrópole mergulhada na decadência, ele se lamenta.

Maynard o lança no chão. Olhando para trás, Burton se vê à beira do precipício. Mais um passo e seria o seu fim. Respirando fundo, ele se lamenta por dentro.

Burton ouve uma arma se destravando. Olhando para frente, ele vê Maynard lhe apontando uma arma. Instintivamente ele comenta:

- Ora, vejam só. Uma pistola semiautomática calibre .50, pente de 10 balas, com acionador a gás e parafuso giratório... Você realmente sabe escolher seu armamento, mercenário. Estou impressionado.

Database se aproxima e, segurando a mão de Maynard, intervém dizendo:

- Deixe-o, Maynard. Eu resolverei isso.

O policial o provoca.

- Você vai resolver? Que surpresa! Pois você sempre colocou os moleques da superfície para limpar sua sujeira, enviando-os para a morte enquanto você se acovardava atrás de sua mesa...

Nathan pensa que o chefe ia ficar calado, mas ele o responde, dizendo:

- Eu não os obriguei a aceitar os trabalhos. Eles foram porque quiseram e foram pagos para isso. Aliás, eu não estou atrás de minha mesa agora.

- Ah, mas de certa forma você os obrigou, sim! – retruca Burton – Veja esses marginais e vagabundos da superfície. Que futuro eles têm? Se alguém como você, que explora a miséria alheia, não oferecer-lhes dinheiro para que eles roubem e matem por sua causa, que perspectiva de vida eles terão?

Refletindo, Laura ouve apenas verdades. Database era sim um explorador da miséria alheia, um bandido que corrompia e cooptava a juventude.

Database responde:

- O meu trabalho era empregar aqueles garotos. E o seu qual era? Caça-los e extermina-los em suas operações policiais. Como te chamavam mesmo? Detetive Burton, o “caçador de terroristas”?

Devido a sua eficiência em caçar os subversivos, o policial havia ganhado esse famoso título.

Refletindo um pouco, Burton responde:

- Me parece que está tentando nos equiparar, Database. Nos tornar lados opostos da mesma moeda, como irmãos que se reencontram em lados opostos da guerra. Muito poético, devo dizer. Entretanto, eu me orgulho do lado onde me encontro. Eu combatia o crime. Você o promovia.

Franzindo a testa, Database pergunta:

- Combatia? Você não combatia nada, você defendia as corporações. Eu libertava as pessoas dessa ordem abusiva e de pessoas como você.

Burton gargalha, ironizando-o.

Database dirigia uma rede de tráfico de drogas, de espionagem, de sabotagem, de contrabando, de extorsão, de assassinos de aluguel, de prostituição, de aliciação de menores e tinha envolvimento com o terrorismo. Ele era tudo, exceto um libertador.

Então eles ouvem uma explosão ao longe. Em algum lugar da metrópole, os rebeldes vandalizavam as instalações corporativas.

O policial comenta:

- Você deve estar muito orgulhoso, não é, Inimigo de Estado? Toda essa decadência e destruição são responsabilidade sua.

Apesar de provoca-lo, Burton parecia se lamentar.

- Não seja cínico! Você, mais do que eu, sabe que as corporações são as responsáveis. Eu sou inocente!

Então Database lhe acena com a mão, pedindo-o para se calar.

- E você, garota. – diz ele, olhando para Laura – Filha da famosa Ultra, tão mortal e feroz quanto. Se deixando usar por esse monstro do Database... Não precisei investigar muito para perceber que você não é como sua mãe. Você tem um coração bom, embora imatura e obcecada de vez em quando...

A garota se ira.

- Não ouse falar da minha mãe!

- Ah, mas eu falarei! – sorri ele – Eu não tenho mais nada a perder. Ultra era uma mulher psicopata e sanguinária, porém, livre como uma águia. Ela jamais se submeteria a alguém como Database. Eu duvidaria que alguém que causou tantas mortes pudesse gerar uma vida. Então você nasceu. Fico feliz que, apesar de tanta tristeza e miséria em sua vida, você possa ter encontrado o amor. – e então ele olha para Nathan.

Laura ia responder algo, mas o chefe a interrompe também.

Vendo o controle que Database detinha sobre os dois, Burton comenta:

- Olhe para você, Database. Uma figura paterna para esses órfãos da superfície. Embora Nathan seja dos níveis superiores e Laura, bem... – hesita ele – Eu não sei se poderia chamar aquilo de pai...

Então a garota avança contra o policial e Maynard é obrigado a segura-la.

- E então, Database? O que vai ser? – pergunta Burton enquanto o mercenário afasta a runner para longe – O que decidiu o “prefeito” da superfície?

Nathan se indigna. Database não era nenhum prefeito. Como o policial disse, o chefe era um parasita, um câncer que explorava os miseráveis com drogas, ameaças, chantagens e intimidações.  

- Você matou meus runners e destruiu o meu clube. Você sabe o que vai ser.

Controlando o medo, Burton diz:

- Eu sei quem você é, ou melhor, era antes de se tornar o infame Database. Quão irônico o fato das corporações terem te tornado um assassino... Assumir um codinome jamais mudará isso.

Pela primeira vez o chefe sente medo.

- Cale-se! Não importa o que fale, você vai morrer agora.

Então o policial vocifera, dizendo.

- Então nos vemos no inferno, seu criminoso filho da...

Database aperta o gatilho. A bala atravessa a testa de Burton e ele cai de costas na plataforma. Vendo que ele finalmente se silenciara, o chefe diz:

- Isso é pelo Vertigo.  

Nathan se aproxima e diz.

- Database, Vertigo nos usou e nos traiu. Se houver um inferno, creio que Burton se encontrará com ele lá embaixo.

Com olhar frio, o chefe responde:

- Acho que nós todos nos encontraremos...

Laura se desvencilha e se aproxima. Em um ataque de fúria, ela pisoteia e cospe no cadáver. E então ela diz:

- Isso é pelos runners, canalha!

Maynard se agacha e, agarrando-o pelas roupas, o atira da plataforma. Burton cai no precipício lá embaixo, desaparecendo na escuridão.

Database pergunta:

- O que acontecerá agora?

- Deixe que os abutres encontrem o corpo. – responde ele, referindo-se aos policiais.

Então o chefe aponta a arma para Maynard, fazendo-o se assustar. Em seguida ele a gira em sua mão, devolvendo-a.

- Tome. Isso aqui é seu.

O mercenário se acalma e a pega de volta.

Estava tudo acabado.

 

§

 

Voltando ao Submundo, o grupo fala sobre o ocorrido. O ataque policial havia devastado a superfície. O Mystique estava destruído e as ruas estavam cobertas de sangue. Em sua invasão, a polícia havia cometido um massacre.

Nathan comenta:

- Se Maynard não tivesse aparecido, eu certamente teria morrido. – diz ele, referindo-se ao espancamento.  

- E por falar nisso, o que estava fazendo na superfície, Maynard?

Encostado na parede, o mercenário responde:

- Minhas fontes me disseram que a polícia planejara um ataque aqui embaixo. Vim para protege-los.

O chefe deixa escapar um sorriso.

- Proteger-nos? – ironiza ele – De que fontes está falando? Por que realmente desceu aqui?

- Não me é interessante que a Rebelião acabe. Estou apostando em vocês.

- Mas você depende das corporações para sobreviver. As facções te pagam para fazer o inferno lá em cima.

- É verdade. Mas quem serão meus clientes se ocorrer o Projeto Gemini? – e então ele olha para Nathan.

O chefe olha para a garota e pergunta:

- Você concorda com isso, Laura? Maynard os protegeu?

De braços cruzados, ela responde:

- O mercenário foi vital para repelirmos o ataque inimigo. Se não fosse por ele, nós todos teríamos morrido.

Database pondera. Tanto a runner quanto o Inimigo de Estado reconhecem sua ajuda. Ele responde:

- De qualquer forma, eu agradeço sua ajuda, Maynard. Obrigado.

Na verdade Database o detesta, mas sabe que seria muito arriscado tentar mata-lo. Maynard era um inferno ambulante.

- Não se preocupe. – responde ele – Eu voltarei para cobrar o favor. Até breve.

E então ele abre a porta e deixa o Submundo.

Aproveitando sua saída, Database olha para a garota e pergunta:

- Laura, e quanto aos runners, qual é a situação?

- Mortos. – responde ela – A maioria morreu tentando defender o Mystique.

A garota se controla, fingindo não se importar. O chefe olha para o rapaz e pergunta:

- E você, Nathan? Você está bem para continuarmos a Rebelião?

Segurando suas feridas, ele responde:

- Se não fosse pelos analgésicos de Maynard, eu não sobreviveria.

Database apoia seu queixo e faz um olhar preocupado. Ele sabe que se demonstrar fraqueza, as facções não mais o respeitarão. Ele precisava criar uma ilusão, uma cortina de fumaça para camuflar o estado deplorável da superfície.

“Não posso perder tempo, eu devo agir rápido!”, pensa ele.

- Eu pensarei algo em breve. – responde ele, ocultando suas intenções.

Então o rapaz diz:

- Chefe, eu não quero parecer pessimista, mas a superfície não conseguirá se levantar após esse ataque. Houve muitas baixas, muitos inocentes morreram. Temo que a Rebelião tenha chegado ao fim.

Irritado, Database bate em sua mesa e se levanta, vociferando como um leão.  

- A Rebelião vai acabar quando o Submundo disser que acabou, está me ouvindo? Até lá, eu direi o que fazer, fui claro?

- Mas Database...

- Eu disse fui claro?

Então o rapaz se cala e desiste de argumentar. Dando-lhe as costas, o casal passa pela porta e o deixa sozinho.

 

 

 

 

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Sonata - 60 - Massacre e Música Eletrônica

 


(Arte do RPG Gurps Cyberpunk)


Em seu escritório no Mystique, Database observa Nathan pelas câmeras. Por ordem do chefe, o Submundo está completamente deserto e desprotegido. Database espera um ataque surpresa, uma invasão iminente ao seu bunker subversivo, e ele usa a Nathan como isca em seu perigoso plano.

Um segurança se aproxima e pergunta:

- Senhor, você tem certeza disso? É seguro deixar o Inimigo de Estado totalmente sozinho?

O chefe fuma seu charuto e responde:

- Por que a preocupação? Você se esqueceu que ele tem sete vidas?

Ele se referia às inúmeras vezes em que Nathan escapou com vida de situações onde a morte era quase certa.

Alguns minutos se passam. Observando os monitores, as câmeras não detectam atividade anormal, mas Database está atento. Trabalhando com os melhores hackers, ele sabe que, mesmo com os melhores softwares, qualquer sistema de segurança pode ser desarmado.

Então o que ele esperava acontece.

Os alarmes são ativados no Submundo. Alguém sabotou os dutos de ventilação, colocando gases tóxicos pela rede. Nathan foge pelos corredores e deixa o local. Agora nos becos, ele tenta alcançar a rua quando vê uma pilha de lixo obstruindo a saída. O rapaz parece se desesperar.

Database ordenara que seus seguranças embarricassem a saída. Sorrindo satisfeito, o chefe sussurra:

- Isso mesmo, coelhinho. Morra de medo...!

Ao reiniciar o sistema de segurança, ele olha para os monitores e se espanta. Havia viaturas e centenas de policiais fortemente armados na superfície.

Diferente do que pensou, aquela não seria uma invasão silenciosa para assassinar Nathan, mas um ataque coordenado e aberto, pronto para reduzir a superfície às cinzas.

- É uma invasão! – exclama ele.

De repente o prédio treme com uma explosão. A fachada do Mystique havia sido pulverizada por um ataque a bomba.

Sob o ensurdecedor alarme, Database se recupera do susto. Tiros são ouvidos lá embaixo, os invasores já estavam nas ruas.

Enquanto organiza suas defesas, o chefe entende o ocorrido. Nathan era só uma distração, não o objetivo principal. A inteligência policial não procurava abater o Inimigo de Estado, mas aniquilar todo o aparato subversivo da Rebelião. Se Nathan fosse o único objetivo, ele já teria sido morto em sua fuga pelos becos.

“E por falar nisso, onde está ele agora?”, pergunta-se ele.

 

§

 

Laura volta ao seu apartamento. Seu pai está ausente mas, pelo cheiro de álcool no ar, ela já desconfia de seu paradeiro.

“Ele está bebendo em algum beco por aí...”, lamenta-se ela.

De repente ela ouve um estrondo. Pela janela, ela vê uma enorme labareda se elevar sobre os prédios. Ela reconhece o local, o fogo vinha da casa noturna Mystique. Preocupada, ela se dirige para lá.

Subindo as escadas de incêndio, ela pula por sobre os prédios. Laura olha para cima e vê viaturas policiais sobrevoando os fossos escuros.

“Mas como os policiais chegaram aqui e ninguém viu?!”, intriga-se ela.

Aproximando-se do Mystique, ela se distrai correndo sobre um terraço e então alguém diz:

- Parada!

Ela se assusta e olha para trás, um policial lhe apontava uma arma. Ela se paralisa e pensa no que fazer. Então o policial se aproxima, intentando revista-la. Grande erro. 

Laura o desarma e golpeia seu rosto com o cotovelo, fazendo-o cambalear. Finalmente ela lhe dá uma joelhada no queixo e ele desmaia, caindo aos seus pés.

Em seguida mais policiais aparecem e se surpreendem com seu colega desacordado no chão. Eles olham para seu agressor e veem uma garota, uma bela runner de cabelos dourados.

Antes que os policiais pudessem fazer algo, ela avança sobre eles e inicia uma violenta luta corporal. Eles tentam reagir, mas ela é muito rápida, desviando-se de seus cassetetes com tremenda agilidade.

A garota é uma runner de grande experiência. Ela recebeu interminável ensinamento em seu treinamento. Seus mestres a ensinaram exatamente como desarmar seus oponentes e onde golpeá-los para o máximo de dano. De fato, ela recebeu aulas de um deturpado Krav Magá, uma versão mais suja e dedicada aos marginais e trapaceiros da superfície.

Ao liquida-los um a um, os policiais caem desmaiados. Ela olha para seus oponentes no chão e, respirando fundo, se alegra. Ela já estava se acostumando a se sentir uma super-heroína.   

- Mãos para cima!

A alegria dura pouco. Ao olhar para o lado, ela vê mais policiais apontando suas armas para ela. Tateando seu coldre, ela não encontra sua metralhadora e se repreende. Ela a havia deixado em seu apartamento.

- Eu disse mãos para cima! – ordena o policial.

Sem opção, ela finalmente ergue suas mãos.

Um policial, presumivelmente o tenente, se aproxima. Desta vez Laura não pensa em reagir. Qualquer movimento e eles a matariam.

Olhando-a da cabeça aos pés, o tenente sorri e pergunta:

- Que belo estrago você fez aqui, hein garota?

- Dane-se.

Os policiais riem.

- Ora, além de bonita você é valentona? – sorri ele – Nós temos algumas perguntas para fazer.

Alguém no grupo humoradamente diz:

- Pergunta se ela é solteira!

Os policiais riem para si mesmo. Todos estavam animados com a captura da belíssima runner.

- Pensando melhor, acho que primeiro vamos nos divertir um pouco.

Então alguém atrás deles diz:

- Perdoem-me, senhores. – então eles se entreolham, assustados – Mas a garota tem namorado.

Os policiais olham para trás e veem um homem de jaqueta marrom com um fuzil de assalto em suas mãos.

Antes que pudessem esboçar uma reação, o homem aperta o gatilho e fuzila os policiais. Eles caem baleados no chão, pegos totalmente desprevenidos pelas costas. Finado o confronto, o homem troca o pente de sua arma.

Ele se aproxima da luz e a garota o reconhece.

- Maynard!

O mercenário sorri.

- Olá, Laura. Fiquei sabendo que você está namorando? – pergunta ele, calmamente.

Viaturas os sobrevoam, preparando-se para o ataque. A garota diz:

- Maynard, a superfície está sofrendo uma invasão!

Tiros são ouvidos lá embaixo. Esgueirando-se no parapeito, ela vê policiais executando os civis. As pessoas correm desesperadamente pelas ruas, tentando fugir e sendo baleadas nas costas. A garota se espanta.

- Eles estão matando inocentes! São pelotões de fuzilamento!

- Sim, sim... – responde Maynard – E vocês também ficam mais bonitos, não?

Laura se confunde.

- O quê?!

- Vocês, jovens quando amam. Quando namoram, vocês ficam mais bonitos e mais alegres... – complementa ele, ressaltando o rosto.

A garota se irrita.

- Inocentes estão morrendo e você não se importa?

Abanando suas roupas, o mercenário responde:

- É claro que me importo. Tremendo desperdício de munição.

- Maynard! Isso é assassinato!

- Pensei que você já estivesse se acostumado às cenas de guerra. Aliás... – pergunta ele – Inocentes aqui? 

Laura entende a ironia.

Uma mulher grita lá embaixo. Sobre o parapeito, a garota vê uma mulher caída no chão. Então um policial lhe aponta uma arma e atira em sua cabeça, executando-a. Sangue se escorre pelo piso e o assassino vai embora tranquilamente.

 Laura olha para Maynard e pergunta:

- Você tem uma arma?

O mercenário lhe faz um olhar entediado.

- É óbvio que eu tenho uma arma. – responde ele.

Ele lhe dá uma pistola automática. A garota checa as balas e diz:

- Certo. Agora eu devo partir. Eu trabalho melhor sozinha.

Mas, ao virar-se para trás, o mercenário já havia desaparecido. Ele realmente conhecia cada um de seus contatos na superfície, incluindo suas personalidades. Balançando a cabeça, a garota sussurra:

- Maldito sociopata...

E então ela pula pelos terraços e se dirige ao Mystique.

 

§

 

Nathan está tão ferido que mal consegue se levantar. Olhando ao redor, ele vê os escuros telhados da superfície. Ninguém ficou para ajuda-lo, na verdade, ninguém se lembrou dele. Ele se entristece.

Ao dar um passo, sua perna dói, fazendo-o cair. Haviam ossos trincados por todo o seu corpo. Ele mal se lembra da última vez que tomou uma surra.

“Talvez na adolescência...”, pensa ele.

Mas, apesar da última briga, ele nunca foi linchado como dessa vez. Lembrando-se das pancadas e dos pontapés, lágrimas se escorrem de seus olhos.

“O que minha mãe pensaria agora se me visse pisoteado como um saco de lixo?”, lamenta-se ele.

Arrastando-se pelas escadas, ele se lembra que sempre defendeu a paz. Mas, infelizmente, nem sempre era possível ser pacífico na vida.

“Viver é conviver com os animais inteligentes e violentos, os seres humanos”, pensa ele.

Com a Rebelião, ele conheceu os piores tipos de animais racionais.

“As facções”, reconhece ele. “O que essas pessoas são capazes de fazer em seu fanatismo?”.

Mas, talvez, ele estivesse exagerando. Sonata não era um lugar comum, mas uma jaula superlotada habitada com todo o tipo de gente com as mais diferentes cosmovisões.

“O que é normal e aceitável para mim pode não ser para você”, reflete ele.

As facções lutavam por um ideal. Pessoas como Nathan eram passivas, covardes e fracas, sujeitando-se à ordem opressiva das corporações e não fazendo nada para mudar.

“Pelo menos as facções faziam alguma coisa”, pensa ele. “E eu? O que eu fazia?”.

Nathan se martiriza por dentro. Apesar de seus pais terem morrido pelas mãos das próprias corporações, o rapaz ainda se sujeitara a elas.

Chegando nos becos, o rapaz se arrasta pelos sacos de lixo. Tiros são ouvidos nas ruas, mas ele estava longe do perigo. Ao chegar no Submundo, com muito esforço ele toca o identificador digital e o suja de sangue. As portas se abrem e ele se arrasta pelas escadas.

O Submundo estava deserto como anteriormente. Nathan não compreende.

“Como puderam evacua-lo na iminência do ataque de um especialista?”.

Ele se convence de que os runners partiram para combater a invasão lá fora. 

Abrindo a porta de seu quarto, ele sobe em sua cama e, com muito cuidado, se deita. Suas roupas estavam sujas, suas feridas sangravam e seu corpo doía. A Rebelião sofria um revés lá fora, mas ele não se importava. Naquele momento, um Inimigo de Estado ferido e inapto para o combate apenas os atrapalhariam.

Com tantas dores, lágrimas se escorrem de seus olhos, mas ele tenta não chorar. Laura não ia gostar de ver a principal figura da Rebelião choramingando por causa de uma simples surra.

“Laura não tomaria uma surra, ela daria uma!”, pensa ele, sorrindo.

Respirando fundo, ele põe a mão em seus olhos e pensa:

“Só espero que ela esteja bem”.

 

§

 

“Laura, está me ouvindo?”.

O comunicador no bolso da runner piscava.

- Database, eu estou aqui.

“Qual é a sua situação?”.

Espiando por uma janela, ela vê policiais alinhando civis em uma parede e fuzilando-os. Ao pegar outros, eles repetem o ato.

- Os policiais estão cometendo um massacre.

“Não são policiais, são mercenários pagos, assassinos condenados das prisões”.

Database investigou o contingente policial e descobriu que as corporações estão arregimentando novos “profissionais” para defende-las.

- Por falar em mercenário, eu vi Maynard agora há pouco.

“Não se preocupe com ele. Preciso que você coordene a defesa dos runners. Eu vou lidera-los à distância”.

- Liderar à distância? – intriga-se ela – Database, onde é que você está?

“Onde você acha?”.

Laura vê a fachada do clube destruída. Estranhamente ela ouve o som alto de música eletrônica vindo de seu interior. Ela diz:

- Chefe, estou ouvindo música vinda do Mystique.

"Deve ser um mal funcionamento. Apresse-se, Laura. Temos mais o que fazer".

- Ok. O que você quer que eu faça?

Vociferando de ódio, o chefe responde:

“Quero que você os faça sangrar!”.

A garota sorri.

- Pode ser mais específico?

Então Database lhe dá as instruções do contra-ataque.

“E Laura, tome cuidado”.

Ela sorri novamente.

- Que bonitinho. – responde ela, sarcasticamente. O chefe não se importava com ninguém além de si mesmo.

Minutos mais tarde, os runners se posicionam sobre os terraços próximos. A garota caminha com mais dez runners sobre o telhado do Mystique. Olhando para a rua, ela vê os policiais se aproximando. Então ela diz:

- Atacar!

Os runners atiram contra a polícia. Muitos são baleados e abatidos, mas outros conseguem escapar. Aerocarros os sobrevoam e atiram nos runners. Vendo a ameaça, Laura contata os operadores de drones e diz:

- Liberem os drones!

As pequenas aeronaves sobrevoam o campo de batalha e atiram nas viaturas. Elas têm grande vantagem sobre a polícia, pois são pequenas e leves, fáceis de se manobrar nos estreitos espaços entre os prédios. Entretanto, os drones são frágeis e não carregam muita munição, tornando-os suscetíveis a pequenas rajadas de metralhadoras.

A chuva de aço cai sobre eles. Runners e policiais têm de se proteger dos aerocarros em chamas e dos fragmentos de drones em toda parte.

Abaixo, a garota vê civis correndo desesperados pelos becos e sendo baleados em seguida. Pilhas de cadáveres se acumulam pelas ruas. Aqueles mercenários vieram na intenção de limpar a superfície, exterminando quem encontrassem pelo caminho. Vendo aquilo, Laura testemunhava um massacre.

Dos becos escuros, pares de olhos vermelhos se aproximam. Os policiais recuam, esvaziando repentinamente as ruas. Entreolhando-se, os runners desconfiam da súbita mudança de estratégia dos inimigos. Então algo acontece.

Securitrons aparecem, avançando sobre os entulhos e os cadáveres empilhados. A garota arregala os olhos.

“Laura, o que está havendo? Por que os tiroteios cessaram?”.

- Database, eles trouxeram Securitrons! Preciso de armamento pesado agora!

Virando seus canhões para os prédios, os robôs disparam mísseis e explodem os terraços, eliminando os grupos de runners posicionados próximos ao Mystique. Vendo seus companheiros caindo sem vida lá embaixo, a garota ordena:

- Recuar!

Laura e seu grupo fogem. Um segundo depois o telhado se explode, erguendo uma labareda infernal. Eles se salvam por um triz.

Descendo para dentro do Mystique, ela contata seu chefe e diz:

- Database, perdemos nossas defesas externas! Precisamos preparar as defesas dentro do clube!

“Vocês perderam...?!”, espanta-se ele, sabendo que seus runners haviam morrido. “Certo. Enviarei os seguranças da casa”.

A garota e os runners rapidamente se posicionam no mezanino sobre a pista de dança. Os seguranças aparecem portando potentes fuzis e, em seguida, se posicionam no bar.

“Laura, responda!”.

- O que foi, chefe?

“O que houve lá fora?”.

- Securitrons apareceram. Os runners não tiveram a mínima chance.

Ponderando, Database responde:

“Ouça-me. Em meu laboratório há uma saída de emergência. É uma rota de fuga secreta que os leva para longe do Mystique. Eu não gostaria que abandonassem meu clube, tenho dados sensíveis que, se revelados, comprometeriam a Rebelião... Mas, se precisarem, eu deixarei a porta destrancada para vocês”.

A garota se lembra que seu laboratório era uma área restrita que poucos privilegiados tinham acesso. Laura era um deles.

- Eu me lembrarei disso. Desligo.

Os Securitrons disparam seus mísseis e fulminam a entrada do Mystique, arrasando o pouco que sobrou de sua fachada. Se as portas de aço não aguentarem, todo o prédio se desabará antes.

Enquanto está atenta ao ataque inimigo, alguém toca o seu ombro e a assusta. Virando-se rápida como um relâmpago, ela aponta seu fuzil para o rosto de quem a tocou.

- Maynard...?! – exclama ela – Como entrou aqui?

Dando de ombros, ele responde:

- Esqueci de tomar minha bebida.

- O quê?!

O mercenário calmamente desce as escadas. Laura nota que ele carrega uma bolsa em suas costas. Chegando ao bar, ele deixa a bolsa no chão, ao lado da parede.

- Isso aqui vai estragar o dia de alguém... – diz ele, sorrindo.    

Em seguida ele pega um copo, abre uma garrafa de uísque e o bebe, apreciando-o a cada gole. Os runners e os seguranças ficam atônitos vendo aquele homem agir tão tranquilamente em meio a uma invasão.

Um minuto depois, as portas de aço cedem, escancarando a entrada. Os Securitrons invadem o Mystique. Desesperada, a garota ordena:

- Atacar!

Os runners e os seguranças atiram, mas nada podem fazer contra a blindagem das máquinas. Um Securitron atira contra o mezanino e o explode. Laura vê dois runners voarem pelos ares.

- Laura!

A garota olha para baixo e Maynard a joga um lança-granadas. Olhando para a munição, ela vê EMPs.

Levantando-se, ela atira nos robôs e uma poderosa onda de choque azul se levanta. Sob o efeito das bombas, os robôs são desabilitados, mas não por muito tempo.

- Database, onde está o armamento pesado?

“Eu os realoquei por Sonata. Pretendia usa-los na Rebelião”.    

Laura se enfurece.

- Você e sua maldita obsessão, não é?!

Enquanto os robôs se recuperam, os batalhões de policiais invadem o clube. Eles atiram para todos os lados e jogam granadas. Alguns seguranças são atingidos e caem sobre o balcão de bebidas. A garota percebe que não resistirá ao ataque.

De repente Maynard se levanta e, portando duas metralhadoras, atira contra os invasores. Ele inacreditavelmente caminha em sua direção, atirando e alvejando-os. Os policiais atiram de volta, mas suas balas são bloqueadas por uma barreira Kinect ao redor do mercenário.

Esgotada as balas, Maynard se agacha atrás de outro balcão. Enquanto recarrega suas armas, os policiais atiram, estourando os copos e as garrafas na prateleira acima dele. Sobre o mezanino, Laura olha para baixo e tem a impressão de vê-lo rir.

Tirando o pino de uma granada, o mercenário a lança contra os policiais e se protege. A explosão os lança pelos ares, arruinando a colorida pista de dança.

No mezanino, a garota atira nos policiais, distraindo-os. O mercenário tem tempo de se mover e atirar de outra posição, confundindo-os. Realizando um ataque coordenado, Laura e Maynard revidam, cobrindo um ao outro.

O mercenário atira no globo de luz e ele cai no meio da pista. Os policiais se assustam, fazendo Maynard gargalhar.

Os Securitrons se recuperam do pulso eletromagnético. Mais policiais entram no clube. O capitão olha para seus subordinados e ordena:

- Alguém desligue essa maldita música!

Vendo que os invasores se concentravam no clube, Laura olha para seus companheiros. Os runners estavam feridos e sem munição. Os seguranças foram eliminados nos bares abaixo. Apenas ela e um punhado de runners sobraram. Tristemente ela reconhece que aquela era uma batalha perdida. Respirando fundo, ela forçosamente ordena:

- Temos que repelir a invasão! Defendam o Mystique!

- Não! – grita alguém.

Os runners olham intrigados para Maynard.

- O que disse?

- Database tem uma saída de emergência no laboratório, não é? Sigam para lá. Eu te dou cobertura.

A garota objeta.

- O Mystique tem dados essenciais para a Rebelião. Database vai precisar deles depois.

- Se perdermos os runners, não haverá mais Rebelião.

Olhando ao redor, ela responde:

- Não sobrou muito.

- Sobrou a mais importante. Você. – afirma ele – Agora vá. Não há tempo a perder.

Laura pensa em desobedece-lo, mas, ao olhar para os runners, ela vê que são apenas garotos cansados e assustados, arrastados para uma guerra provocada pelo próprio Database. A garota não era nenhuma inocente, mas sabe que seu chefe se utilizava da marginalidade da superfície para usa-los em seus interesses egoístas.

- Ok. – acata ela – Nos dê cobertura.

Maynard lança granadas contra os invasores. A garota se abaixa e segue para o porão onde o laboratório se encontra. Passando pela porta, elas e os runners atravessam o vasto salão onde Database realiza seus bizarros experimentos. Uma runner olha para um tanque criogênico e pergunta:

- Ei, o que é isso?!

Laura olha para o tanque e vê um androide idêntico a um ser humano. Cabos e tubos se conectam ao seu corpo. Em uma plaqueta abaixo, ela lê: “Protótipo #9”.   

“#9...?!”, intriga-se ela. “Mas não foi o #8 que causou toda essa confusão?”.

Ao observa-lo melhor, ela se espanta. Aquele androide era o mesmo feto encapsulado que ela trouxe a Database meses atrás.

“Como ele cresceu tão rápido...?”, pergunta-se ela.

- Encontrei a saída! – interrompe um runner.

Uma porta oculta se abre e eles veem um extenso corredor. Eles atravessam a entrada e a garota aperta um botão na parede. Um runner intervém.

- Laura, e quanto a Maynard?

Pressionando o botão, ela friamente responde:

- Ele sabe se virar.

Então a porta se fecha e eles vão embora.

 

§

 

Acima, os policiais avançam e encontram o clube vazio e abandonado. Eles venceram a batalha; eles tomaram o Mystique.

Um policial caminha pelo bar e vê algo atrás do balcão. Aproximando-se, ele identifica um bolsa sob a poeira e os cacos de vidro. Abanando a sujeira, ele diz:

- Capitão, eu encontrei algo aqui!

Os policiais se dirigem ao bar e abrem a bolsa. O capitão vê luzes piscando intermitentemente e se intriga.

- O que é isso? – pergunta-se ele.

Então, ao serem manipuladas, as luzes emitem um agudo apito. O capitão se empalidece e, fazendo um tique em seu lábio, abaixa sua arma.

De repente a potente explosão destrói a casa noturna Mystique, alastrando a violência de sua força por toda a superfície.

 

 

 

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...