(Arte de Antarik Fox)
Avançando sobre
Zhurong, Yang deixa a metrópole para trás. Ele avança alguns quilômetros pelo
rochoso deserto e, nos arredores da cidade, ele chega à colônia israelense de
Marte.
A colônia era
vasta, plana e majoritariamente agrícola. Ela se encontrava ao lado de uma
fenda geológica, muito comum naquele planeta.
Yang se
impressiona. Na colônia, a agricultura era mantida em estufas, fechadas por
domos de vidro que captavam a luz solar, responsável pela fotossíntese. Ele vê
cerca de 30 estufas pela colônia. Para a produção de energia, haviam milhares de
painéis solares sobre o solo e os módulos habitacionais. Ali também haviam usinas
eólicas, com suas enormes hélices captando os fortes ventos marcianos.
Aparentemente os israelenses se preocupavam com a eficiência energética.
Tubulações
conectavam toda a colônia. Em diferentes cores, o piloto reconhece água, óleo e
combustíveis. Pequenas estações de tratamento e refinarias abasteciam o local,
conectando os módulos nas vias dutoviárias.
Bandeiras de
Israel flamulavam por toda a colônia. Assim Yang pode notar o patriotismo e
pioneirismo nos colonos de Israel.
O piloto vê o
espaço-porto ao lado dos hangares. Navcom solicita pouso; um minuto depois ele
recebe a permissão da torre de controle. O Wénzi aciona o seu trem de
pouso e suavemente aterrissa na pista. Checando os níveis de oxigênio de seu
traje, Yang veste seu capacete e aperta o botão de saída. A cabine se abre; o
vento sopra e seu corpo se esfria. A gravidade era suave e ele se sente leve ao
se levantar. Então, pela primeira vez na vida, o piloto pisa em solo marciano. De
pernas trêmulas, seu coração se emociona.
Técnicos o
recebem e ele é levado para dentro da colônia. As portas se fecham e eles
passam pelo rápido processo de esterilização.
No lado de
dentro, Yang nota como a colônia era altamente tecnológica, muito mais até do
que Tiangong. Ali era tudo automatizado e muito limpo. Haviam computadores e pads[1]digitais
para todos os colonos. Todos trabalhavam mutuamente, cooperando entre si pelo
funcionamento da colônia. Técnicos fazem a manutenção do sistema de
distribuição de oxigênio. Outros trabalham na purificação da água. Em todos
parecia haver um forte senso de comunidade.
Yang nota que,
não importava a função, todos eram instruídos e tinham acesso à automatização
da colônia. Câmeras de segurança, bancos de dados, internet, e comandos
prediais básicos, tudo lhes era acessível.
O piloto é levado
pelo local. Nas paredes, ele vê os nomes das seções na parede; elas estavam
escritas em hebraico, inglês e chinês mandarim. Yang falava um pouco de inglês,
mas não sabia nada de hebraico.
Os técnicos o
levam para uma seção com reservatórios e tubos de bombeamento. Na parede ele lê
“Estação de Tratamento de Água”. Uma mulher de longos cabelos castanhos e
jaleco branco trabalha em frente a um painel. Os técnicos a chamam e lhe
informam algo em hebraico. Então ela olha para o piloto e diz:
- Shalom[2],
piloto Haisheng. Eu sou Elisheva, diretora do kibutz Nova Degania. Como vai?
Sorridente, ela
lhe estende a mão. A diretora lhe falava em um chinês impecável. Um pouco
confuso, ele lhe estende também.
- Boa tarde,
diretora Elisheva. Eu estou bem, obrigado.
- O que te traz
ao nosso humilde kibutz?
Ele se confunde.
- Kibutz...?
- Kibutz é uma
palavra em hebraico que significa agrupamento, ou mesmo colmeia. O kibutz é uma
comunidade israelense baseada tradicionalmente na agricultura, mas que foi
substituída por outros ramos econômicos com o tempo. A comunidade é baseada na
coesão social e no trabalho em equipe, onde nós combinamos os ideais utópicos do
socialismo e do sionismo.
Yang se intriga.
Ele sabe o que é socialismo, mas nunca ouviu falar do sionismo.
- O que é sionismo?
- Sionismo é um
movimento étnico e nacionalista que visava a colonização da Palestina e o
estabelecimento do Estado de Israel. Ele surgiu no final do século 19 como uma
resposta ao crescente antissemitismo, sobretudo no continente europeu.
O piloto assente.
- E então? O que
deseja, piloto Haisheng?
- Eu... – nesse
momento, os colonos de Nova Degania olham desconfiados para ele – A Terra está
sob ataque, como já devem saber. Venho em nome do governo global da China
requisitar o novo armamento sendo desenvolvido aqui, na colônia israelense.
Os colonos se
entreolham.
- Novo armamento?
– intriga-se ela – O que te faz pensar que desenvolvemos armas aqui?
- Eu não sei. O
Alto Comando chinês me enviou.
Elisheva sorri.
- O Alto Comando?
– pergunta ela – Esta é uma colônia pacífica voltada ao desenvolvimento agrário
e à extração de minerais. Estamos terraformando este planeta. Não temos
objetivos militares aqui.
Yang não sabe o
que responder.
- Esta é a minha
missão. Isso é tudo o que eu posso dizer.
- Pois então eu vejo
que o Guoanbi está informando muito mal os seus superiores. – comenta ela –
Venha. Como sinal de boa amizade, vou lhe mostrar o que procura.
Acenando aos
técnicos, a diretora permite a passagem do piloto. Então ela o conduz pela
colônia.
Passando pelas
estufas, Yang vê plantações de trigo, milho e uva. Ele se impressiona. Os
israelenses conseguiram fertilizar o solo marciano e o irrigam com água
reciclada. Apesar da atmosfera opressiva, nas estufas ele vê fartura.
- É fascinante,
não? – pergunta Elisheva – Os colonos do primeiro kibutz também se assentaram
em um local árido e desértico, e lá eles fundaram o Degania, à beira do deserto
do Neguebe. Marte se tornou o nosso novo Neguebe, e hoje nós construímos o primeiro kibutz interplanetário, este para ser uma referência à colonização de outros planetas.
Mais adiante,
Yang também vê instalações especiais para a geração de energia e para a
comunicação com o espaço exterior. Tudo era muito automatizado e tecnológico; eles
também tinham robôs para fazer os serviços básicos pela colônia.
A diretora
comenta:
- Silicon Wadi,
ou Vale do Silício em árabe, é uma região que abriga o centro de tecnologia
avançada em Israel. Seu nome é uma alusão ao Silicon Valley dos Estados Unidos, o primeiro centro de alta
tecnologia do mundo. Tel Aviv tem a maior concentração de indústrias assim em nosso país, incluindo outras cidades da região costeira. Devido a
isso, Israel ficou conhecido como o país dos “start-ups”, um termo em inglês que significa uma empresa em fase
inicial, com um modelo de negócio inovador e de alto impacto na sociedade. Como
pode ver, nós trouxemos essa alta tecnologia para Marte, e aqui ela nos ajuda a
realizar o grandioso sonho de dar um novo lar para o nosso povo.
Elisheva falava
com um pouco de lamentação. Percebendo o seu pesar, Yang pergunta:
- Por que um novo
lar? Vocês estão tendo problemas em seu país?
Então todos olham
incomodados para ele. Yang percebe que tocou em um assunto sensível.
- Creio que não tenha visto notícias do mundo antes da invasão alienígena, não é mesmo? As relações políticas entre a China e Israel estão delicadas ultimamente. Israel reconheceu a existência da República Popular da China em 1950, mas as relações diplomáticas só foram estabelecidas em 1992. Desde então, ambos os países desenvolveram laços econômicos, militares e tecnológicos um com o outro. Não coincidentemente, a China se tornou o terceiro parceiro comercial de Israel, atrás dos Estados Unidos e da União Europeia. Entretanto, a China também foi amigável aos inimigos do meu país, apoiando sua insurgência e luta armada. – revela ela – Após a derrota dos Estados Unidos no século 21, Israel foi novamente atacado por todos os lados. Houveram invasões por terra, pela água e pelo ar... Prestes a sermos vencidos, beiramos a destruição. Nessa nova Intifada[3], centenas de milhares morreram, alguns de maneira bárbara nas mãos de terroristas cruéis. Nosso povo foi entregue à própria sorte. E o que o novo governo mundial estabelecido pela China fez a respeito? Nada.
Yang faz um olhar
pesaroso. Assim como a maioria dos chineses, ele não sabia nada a respeito.
- Talvez o novo
governo chinês estivesse ocupado em se consolidar no momento.
A diretora faz um
sorriso amargo.
- Talvez.
Eles chegam na
extremidade da colônia. Diante deles, Yang vê uma enorme janela panorâmica. No
exterior havia a colossal fenda geológica marciana. A fenda era tão profunda
que o piloto pensa ver a um segundo Grand
Canyon, desta vez fora da Terra.
Elisheva comenta:
- Imigrantes
israelenses trabalham lá embaixo dia e noite. São judeus de todo o mundo, asquenazes,
sefarditas, mizrahim... De toda origem étnica existente. Aqui no kibutz de Nova
Degania o ideal de igualdade é pregado e não existe distinção.
O piloto vê
gigantescos tratores e carregadeiras lá embaixo. Mas o que mais o impressiona
são as famosas escavadeiras Bucyrus e Bagger escavando o penhasco.
Curioso, ele
pergunta:
- Que tipo de minerais
eles estão extraindo?
- Basalto, ferro
e hematita, respectivamente.
Yang se distrai olhando
as máquinas trabalhando. As escavadeiras extraem os minérios, as carregadeiras
os transportam pela fenda e depois os colocam em esteiras. Em seguida as
esteiras os conduzem para instalações onde eles serão separados por categoria.
Pelo ar, o piloto
vê plataformas transportadoras. Como drones gigantes, elas sobem e descem da fenda,
transportando equipamentos e trabalhadores. Yang reconhece que os israelenses
construíram uma excelente estrutura para a mineração em Marte.
De repente
Elisheva comenta:
- No passado, eu
fui uma arqueóloga em Israel. Sei que isso pode parecer estranho, uma
arqueóloga na direção de uma colônia interplanetária, mas foi o que eu fiz. Eu
estudava sites arqueológicos bíblicos do Jordão ao Neguebe; minha paixão era
comprovar com fatos a veracidade das Escrituras. – explica ela – E então surgiu
a oportunidade de eu trabalhar em Marte. Eu abandonei minha paixão e minha
profissão para estar aqui. Entendi que, se Israel tivesse que sobreviver, eu
teria que abandonar seu passado e construir seu futuro.
Elisheva falava
com convicção nas palavras. Yang não sabe nada sobre a Bíblia, a arqueologia ou
Israel, mas sabe que eles são um povo resiliente que sobreviveu a inúmeras
dificuldades ao longo do tempo.
“Como a China”,
pensa ele.
- Diretora
Elisheva, eu gostaria de ficar mais, mas eu tenho uma missão a cumprir. Vidas
estão sendo perdidas na Terra, e é meu dever impedir que isso aconteça.
A diretora
assente.
- É claro. –
virando-se, eles se afastam.
Finalmente eles
chegam ao laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento de Nova Degania. Yang se vê
em um local repleto de robôs, cabos e monitores. Engenheiros trabalhavam em uma
nova tecnologia. Sobre os cavaletes, ele vê algo parecido com um reator, mas
tinha o formato de um poliedro. Ao ligá-lo, o reator se ilumina por dentro e irradia uma luz azul. Yang se surpreende.
- O que é isso?
- Esse é o
suposto “armamento” que o Guoanbi nos acusou de estar desenvolvendo. – brinca
ela – Nós os chamamos de Propulsor Luciferino Hyperdrive[4].
Yang se confunde.
- Eu não entendi.
- É um propulsor.
– reitera ela – A luz emitida provém de uma reação química e nuclear,
irradiando um azul como as moléculas luciferinas de um vaga-lume. Sua aeronave
trabalha com propulsão convencional, combustível sólido na Terra e despressurização
a gás no espaço. O PLH é diferente. Ele se utiliza de propulsão autônoma para
voos e levitações em curtos espaços, e consegue atingir altíssimas velocidades
no modo hyperdrive.
Ao
intensificarem o reator, a luz emitida é tão forte que o azul encobre a todos no
laboratório, projetando longas sombras pela parede. E então o reator levita no
ar, pairando sobre eles e movendo-se pelo teto. Era como se Yang visse uma
bexiga de gás hélio. De tão ágil, nem se parecia com uma pesada estrutura de
aço.
-
É impressionante!
-
Distâncias interplanetárias longas, que normalmente demorariam semanas para
serem percorridas, têm sua duração radicalmente reduzida pelo reator. Com esse
propulsor, você poderá viajar rapidamente pelo Sistema Solar.
Yang
arregala os olhos. Ele demorou uma semana para vir da Terra até Marte.
-
Por favor, diretora Elisheva, eu preciso desse propulsor! Vidas humanas
dependem de toda a ajuda que eu puder coletar aqui! – apela ele.
Como
antes, Elisheva e os engenheiros lhe fazem um olhar desconfiado. Afastando-se,
os colonos sussurram algo nos ouvidos dela. Após alguns minutos, eles parecem
deliberar um pouco.
Então
a diretora diz:
-
Israel e China não tiveram boas relações ultimamente. Na Nova Ordem Mundial
chinesa, por pouco Israel deixou de existir. – começa ela, desanimando-o – Mas,
apesar dos ressentimentos passados, nós decidimos ajuda-lo.
Sabendo
que a ajuda israelense era muito improvável, Yang pergunta:
-
Mas por quê?
-
Ajudar um necessitado está na Torá. Apesar de Nova Degania ser um colônia
secular, é obrigação de todo judeu obedecer à Torá, juntamente com o Tzedaká.
Tzedaká
é um mandamento judeu, significando caridade ou justiça social. Para os judeus,
é sua obrigação ajudar um judeu necessitado, e também a um “Filho de Noé”, ou seja, todo
e qualquer ser humano.
Em
sinal de respeito, Yang aperta a mão de Elisheva e diz:
-
Muito obrigado, diretora Elisheva. Em nome do Alto Comando, nós a agradecemos.
A
diretora sorri.
-
Vejo que sua aeronave, Wénzi, em chinês significa “mosquito”. Com o propulsor
hyperdrive em seu chassi, ela se parecerá com um vaga-lume também. – brinca
ela.
O
piloto sorri. Ele reconhece que Elisheva, além de inteligente, era muito
simpática também.
Em
seguida os engenheiros trazem o Wénzi para o hangar e começam a instalação do
PLH. Enquanto as horas se passam, o piloto se alegra. Ele conseguiu, ele
coletou a tecnologia de propulsão na colônia israelense. Embora ainda distante,
o plano para a libertação da Terra se aproxima. A missão estava cumprida e ele
poderia relaxar um pouco.
Ou
pelo menos era isso o que ele achava.
Um
minuto depois, os alarmes começam a soar.
[1]
Termo em inglês, significa bloco de papel.
[2]
“Paz” em hebraico.
[3]
Termo árabe para rebelião, insurgência ou movimento de resistência, usado para
se referir a um levante contra a opressão.
[4] Hypedrive
é um termo em inglês comumente utilizado na ficção científica para descrever um
sistema de propulsão avançado que permite viagens espaciais em velocidades
semelhantes ou até superiores à da luz. Fonte: comandogeek.com.br
