sábado, 1 de fevereiro de 2025

Shenzhou Wénzi - 13 - Kibutz Nova Degania

 


(Arte de Antarik Fox)


Avançando sobre Zhurong, Yang deixa a metrópole para trás. Ele avança alguns quilômetros pelo rochoso deserto e, nos arredores da cidade, ele chega à colônia israelense de Marte.

A colônia era vasta, plana e majoritariamente agrícola. Ela se encontrava ao lado de uma fenda geológica, muito comum naquele planeta.

Yang se impressiona. Na colônia, a agricultura era mantida em estufas, fechadas por domos de vidro que captavam a luz solar, responsável pela fotossíntese. Ele vê cerca de 30 estufas pela colônia. Para a produção de energia, haviam milhares de painéis solares sobre o solo e os módulos habitacionais. Ali também haviam usinas eólicas, com suas enormes hélices captando os fortes ventos marcianos. Aparentemente os israelenses se preocupavam com a eficiência energética.

Tubulações conectavam toda a colônia. Em diferentes cores, o piloto reconhece água, óleo e combustíveis. Pequenas estações de tratamento e refinarias abasteciam o local, conectando os módulos nas vias dutoviárias. 

Bandeiras de Israel flamulavam por toda a colônia. Assim Yang pode notar o patriotismo e pioneirismo nos colonos de Israel.

O piloto vê o espaço-porto ao lado dos hangares. Navcom solicita pouso; um minuto depois ele recebe a permissão da torre de controle. O Wénzi aciona o seu trem de pouso e suavemente aterrissa na pista. Checando os níveis de oxigênio de seu traje, Yang veste seu capacete e aperta o botão de saída. A cabine se abre; o vento sopra e seu corpo se esfria. A gravidade era suave e ele se sente leve ao se levantar. Então, pela primeira vez na vida, o piloto pisa em solo marciano. De pernas trêmulas, seu coração se emociona.

Técnicos o recebem e ele é levado para dentro da colônia. As portas se fecham e eles passam pelo rápido processo de esterilização.

No lado de dentro, Yang nota como a colônia era altamente tecnológica, muito mais até do que Tiangong. Ali era tudo automatizado e muito limpo. Haviam computadores e pads[1]digitais para todos os colonos. Todos trabalhavam mutuamente, cooperando entre si pelo funcionamento da colônia. Técnicos fazem a manutenção do sistema de distribuição de oxigênio. Outros trabalham na purificação da água. Em todos parecia haver um forte senso de comunidade.

Yang nota que, não importava a função, todos eram instruídos e tinham acesso à automatização da colônia. Câmeras de segurança, bancos de dados, internet, e comandos prediais básicos, tudo lhes era acessível.

O piloto é levado pelo local. Nas paredes, ele vê os nomes das seções na parede; elas estavam escritas em hebraico, inglês e chinês mandarim. Yang falava um pouco de inglês, mas não sabia nada de hebraico.

Os técnicos o levam para uma seção com reservatórios e tubos de bombeamento. Na parede ele lê “Estação de Tratamento de Água”. Uma mulher de longos cabelos castanhos e jaleco branco trabalha em frente a um painel. Os técnicos a chamam e lhe informam algo em hebraico. Então ela olha para o piloto e diz:

- Shalom[2], piloto Haisheng. Eu sou Elisheva, diretora do kibutz Nova Degania. Como vai?

Sorridente, ela lhe estende a mão. A diretora lhe falava em um chinês impecável. Um pouco confuso, ele lhe estende também.

- Boa tarde, diretora Elisheva. Eu estou bem, obrigado.

- O que te traz ao nosso humilde kibutz?

Ele se confunde.

- Kibutz...?

- Kibutz é uma palavra em hebraico que significa agrupamento, ou mesmo colmeia. O kibutz é uma comunidade israelense baseada tradicionalmente na agricultura, mas que foi substituída por outros ramos econômicos com o tempo. A comunidade é baseada na coesão social e no trabalho em equipe, onde nós combinamos os ideais utópicos do socialismo e do sionismo.

Yang se intriga. Ele sabe o que é socialismo, mas nunca ouviu falar do sionismo.

- O que é sionismo?

- Sionismo é um movimento étnico e nacionalista que visava a colonização da Palestina e o estabelecimento do Estado de Israel. Ele surgiu no final do século 19 como uma resposta ao crescente antissemitismo, sobretudo no continente europeu.

O piloto assente.  

- E então? O que deseja, piloto Haisheng?

- Eu... – nesse momento, os colonos de Nova Degania olham desconfiados para ele – A Terra está sob ataque, como já devem saber. Venho em nome do governo global da China requisitar o novo armamento sendo desenvolvido aqui, na colônia israelense.

Os colonos se entreolham.

- Novo armamento? – intriga-se ela – O que te faz pensar que desenvolvemos armas aqui?

- Eu não sei. O Alto Comando chinês me enviou.

Elisheva sorri.

- O Alto Comando? – pergunta ela – Esta é uma colônia pacífica voltada ao desenvolvimento agrário e à extração de minerais. Estamos terraformando este planeta. Não temos objetivos militares aqui.

Yang não sabe o que responder.

- Esta é a minha missão. Isso é tudo o que eu posso dizer.

- Pois então eu vejo que o Guoanbi está informando muito mal os seus superiores. – comenta ela – Venha. Como sinal de boa amizade, vou lhe mostrar o que procura.

Acenando aos técnicos, a diretora permite a passagem do piloto. Então ela o conduz pela colônia.

Passando pelas estufas, Yang vê plantações de trigo, milho e uva. Ele se impressiona. Os israelenses conseguiram fertilizar o solo marciano e o irrigam com água reciclada. Apesar da atmosfera opressiva, nas estufas ele vê fartura.

- É fascinante, não? – pergunta Elisheva – Os colonos do primeiro kibutz também se assentaram em um local árido e desértico, e lá eles fundaram o Degania, à beira do deserto do Neguebe. Marte se tornou o nosso novo Neguebe, e hoje nós construímos o primeiro kibutz interplanetário, este para ser uma referência à colonização de outros planetas.

Mais adiante, Yang também vê instalações especiais para a geração de energia e para a comunicação com o espaço exterior. Tudo era muito automatizado e tecnológico; eles também tinham robôs para fazer os serviços básicos pela colônia.

A diretora comenta:

- Silicon Wadi, ou Vale do Silício em árabe, é uma região que abriga o centro de tecnologia avançada em Israel. Seu nome é uma alusão ao Silicon Valley dos Estados Unidos, o primeiro centro de alta tecnologia do mundo. Tel Aviv tem a maior concentração de indústrias assim em nosso país, incluindo outras cidades da região costeira. Devido a isso, Israel ficou conhecido como o país dos “start-ups”, um termo em inglês que significa uma empresa em fase inicial, com um modelo de negócio inovador e de alto impacto na sociedade. Como pode ver, nós trouxemos essa alta tecnologia para Marte, e aqui ela nos ajuda a realizar o grandioso sonho de dar um novo lar para o nosso povo.

Elisheva falava com um pouco de lamentação. Percebendo o seu pesar, Yang pergunta:

- Por que um novo lar? Vocês estão tendo problemas em seu país?  

Então todos olham incomodados para ele. Yang percebe que tocou em um assunto sensível.

- Creio que não tenha visto notícias do mundo antes da invasão alienígena, não é mesmo? As relações políticas entre a China e Israel estão delicadas ultimamente. Israel reconheceu a existência da República Popular da China em 1950, mas as relações diplomáticas só foram estabelecidas em 1992. Desde então, ambos os países desenvolveram laços econômicos, militares e tecnológicos um com o outro. Não coincidentemente, a China se tornou o terceiro parceiro comercial de Israel, atrás dos Estados Unidos e da União Europeia. Entretanto, a China também foi amigável aos inimigos do meu país, apoiando sua insurgência e luta armada. – revela ela – Após a derrota dos Estados Unidos no século 21, Israel foi novamente atacado por todos os lados. Houveram invasões por terra, pela água e pelo ar... Prestes a sermos vencidos, beiramos a destruição. Nessa nova Intifada[3], centenas de milhares morreram, alguns de maneira bárbara nas mãos de terroristas cruéis. Nosso povo foi entregue à própria sorte. E o que o novo governo mundial estabelecido pela China fez a respeito? Nada.

Yang faz um olhar pesaroso. Assim como a maioria dos chineses, ele não sabia nada a respeito.

- Talvez o novo governo chinês estivesse ocupado em se consolidar no momento.

A diretora faz um sorriso amargo.

- Talvez.

Eles chegam na extremidade da colônia. Diante deles, Yang vê uma enorme janela panorâmica. No exterior havia a colossal fenda geológica marciana. A fenda era tão profunda que o piloto pensa ver a um segundo Grand Canyon, desta vez fora da Terra.       

Elisheva comenta:

- Imigrantes israelenses trabalham lá embaixo dia e noite. São judeus de todo o mundo, asquenazes, sefarditas, mizrahim... De toda origem étnica existente. Aqui no kibutz de Nova Degania o ideal de igualdade é pregado e não existe distinção.

O piloto vê gigantescos tratores e carregadeiras lá embaixo. Mas o que mais o impressiona são as famosas escavadeiras Bucyrus e Bagger escavando o penhasco.

Curioso, ele pergunta:

- Que tipo de minerais eles estão extraindo?    

- Basalto, ferro e hematita, respectivamente.

Yang se distrai olhando as máquinas trabalhando. As escavadeiras extraem os minérios, as carregadeiras os transportam pela fenda e depois os colocam em esteiras. Em seguida as esteiras os conduzem para instalações onde eles serão separados por categoria.

Pelo ar, o piloto vê plataformas transportadoras. Como drones gigantes, elas sobem e descem da fenda, transportando equipamentos e trabalhadores. Yang reconhece que os israelenses construíram uma excelente estrutura para a mineração em Marte.

De repente Elisheva comenta:

- No passado, eu fui uma arqueóloga em Israel. Sei que isso pode parecer estranho, uma arqueóloga na direção de uma colônia interplanetária, mas foi o que eu fiz. Eu estudava sites arqueológicos bíblicos do Jordão ao Neguebe; minha paixão era comprovar com fatos a veracidade das Escrituras. – explica ela – E então surgiu a oportunidade de eu trabalhar em Marte. Eu abandonei minha paixão e minha profissão para estar aqui. Entendi que, se Israel tivesse que sobreviver, eu teria que abandonar seu passado e construir seu futuro.

Elisheva falava com convicção nas palavras. Yang não sabe nada sobre a Bíblia, a arqueologia ou Israel, mas sabe que eles são um povo resiliente que sobreviveu a inúmeras dificuldades ao longo do tempo.

“Como a China”, pensa ele.

- Diretora Elisheva, eu gostaria de ficar mais, mas eu tenho uma missão a cumprir. Vidas estão sendo perdidas na Terra, e é meu dever impedir que isso aconteça.

A diretora assente.

- É claro. – virando-se, eles se afastam.

Finalmente eles chegam ao laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento de Nova Degania. Yang se vê em um local repleto de robôs, cabos e monitores. Engenheiros trabalhavam em uma nova tecnologia. Sobre os cavaletes, ele vê algo parecido com um reator, mas tinha o formato de um poliedro. Ao ligá-lo, o reator se ilumina por dentro e irradia uma luz azul. Yang se surpreende.

- O que é isso?  

- Esse é o suposto “armamento” que o Guoanbi nos acusou de estar desenvolvendo. – brinca ela – Nós os chamamos de Propulsor Luciferino Hyperdrive[4].

Yang se confunde.

- Eu não entendi.

- É um propulsor. – reitera ela – A luz emitida provém de uma reação química e nuclear, irradiando um azul como as moléculas luciferinas de um vaga-lume. Sua aeronave trabalha com propulsão convencional, combustível sólido na Terra e despressurização a gás no espaço. O PLH é diferente. Ele se utiliza de propulsão autônoma para voos e levitações em curtos espaços, e consegue atingir altíssimas velocidades no modo hyperdrive.           

Ao intensificarem o reator, a luz emitida é tão forte que o azul encobre a todos no laboratório, projetando longas sombras pela parede. E então o reator levita no ar, pairando sobre eles e movendo-se pelo teto. Era como se Yang visse uma bexiga de gás hélio. De tão ágil, nem se parecia com uma pesada estrutura de aço.  

- É impressionante!

- Distâncias interplanetárias longas, que normalmente demorariam semanas para serem percorridas, têm sua duração radicalmente reduzida pelo reator. Com esse propulsor, você poderá viajar rapidamente pelo Sistema Solar.

Yang arregala os olhos. Ele demorou uma semana para vir da Terra até Marte.

- Por favor, diretora Elisheva, eu preciso desse propulsor! Vidas humanas dependem de toda a ajuda que eu puder coletar aqui! – apela ele.

Como antes, Elisheva e os engenheiros lhe fazem um olhar desconfiado. Afastando-se, os colonos sussurram algo nos ouvidos dela. Após alguns minutos, eles parecem deliberar um pouco.

Então a diretora diz:

- Israel e China não tiveram boas relações ultimamente. Na Nova Ordem Mundial chinesa, por pouco Israel deixou de existir. – começa ela, desanimando-o – Mas, apesar dos ressentimentos passados, nós decidimos ajuda-lo.

Sabendo que a ajuda israelense era muito improvável, Yang pergunta:

- Mas por quê?

- Ajudar um necessitado está na Torá. Apesar de Nova Degania ser um colônia secular, é obrigação de todo judeu obedecer à Torá, juntamente com o Tzedaká.

Tzedaká é um mandamento judeu, significando caridade ou justiça social. Para os judeus, é sua obrigação ajudar um judeu necessitado, e também a um “Filho de Noé”, ou seja, todo e qualquer ser humano.                                                            

Em sinal de respeito, Yang aperta a mão de Elisheva e diz:

- Muito obrigado, diretora Elisheva. Em nome do Alto Comando, nós a agradecemos.

A diretora sorri.

- Vejo que sua aeronave, Wénzi, em chinês significa “mosquito”. Com o propulsor hyperdrive em seu chassi, ela se parecerá com um vaga-lume também. – brinca ela.

O piloto sorri. Ele reconhece que Elisheva, além de inteligente, era muito simpática também.

Em seguida os engenheiros trazem o Wénzi para o hangar e começam a instalação do PLH. Enquanto as horas se passam, o piloto se alegra. Ele conseguiu, ele coletou a tecnologia de propulsão na colônia israelense. Embora ainda distante, o plano para a libertação da Terra se aproxima. A missão estava cumprida e ele poderia relaxar um pouco.

Ou pelo menos era isso o que ele achava.

Um minuto depois, os alarmes começam a soar.


 



[1] Termo em inglês, significa bloco de papel.

[2] “Paz” em hebraico.

[3] Termo árabe para rebelião, insurgência ou movimento de resistência, usado para se referir a um levante contra a opressão.

[4] Hypedrive é um termo em inglês comumente utilizado na ficção científica para descrever um sistema de propulsão avançado que permite viagens espaciais em velocidades semelhantes ou até superiores à da luz. Fonte: comandogeek.com.br 

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