domingo, 28 de junho de 2020

Tiergarten - 09 - Uma Noite em Prenzlauer Berg



Precisando se descontrair e se esquecer do rumo ilógico que tomou sua vida, Gunther procura por um bar em Berlim Oriental. Ele esteve andando sem rumo pela cidade desde o dia anterior e, lembrando-se dos alegres bares alemães, decide visitar um e tentar conversar um pouco. No outro lado da rua, ele avista uma porta com um modesto letreiro na fachada, era um pequeno bar no distrito de Prenzlauer Berg.
Adentrando-o, ele vê o balcão com suas banquetas circundando-o. Atrás do balcão há uma estante de vidro com várias garrafas de bebidas alcoólicas, a maioria de marcas que ele nunca ouviu falar. Há mais mesas ao lado da parede, todas com a luminária bem próxima dos clientes. Os frequentadores estão espalhados pelo local, bebendo e fumando tranquilamente sem se importarem com a chegada do novo visitante.
Caminhando até o balcão, ele se senta em uma banqueta e pede por uma cerveja.
- Ein Bier, bitte![1]
O balconista, que também era o dono do bar, estava parado, de braços cruzados, assistindo à televisão no alto da parede. Ao vê-lo, Gunther observa seu volumoso bigode loiro e seus lisos cabelos caindo próximo aos olhos. Pegando um guardanapo em seu ombro, ele limpa um copo, se dirige a uma torneira e o enche com a espumante cerveja. Trazendo-a ao rapaz, ele bebe um gole e imediatamente reconhece o adorável sabor. Ele bebia a Radeberger Pilsner, a famosa cerveja criada na Saxônia.
“E eu pensando que ia me esquecer de Anneliese por um instante, e aqui estou eu bebendo uma cerveja criada na terra dela...”, ironiza-se ele, um pouco jocoso consigo mesmo.     
Atrás dele, os fregueses bebem e conversam em voz alta, já embriagados pelo efeito do álcool. Gunther nota como seus rostos avermelhados riem alegremente, exibindo seus dentes amarelados por anos de tabagismo. “Se parecem com os cervejeiros bávaros do sul. Não é à toa que os americanos jamais tirarão esse estereótipo ridículo de que todos os alemães são assim”.
Ouvindo a conversa, já que era impossível não ouvi-la devido à voz alta, ele fica sabendo que muitos ali pertenciam à diversas organizações, como clubes de artesãos, jogadores de xadrez e até de futebol de botão. Realmente era notável a cultura organizacional alemã.
Meia hora se passa e o bar fica mais cheio. As pessoas entram e não encontram lugar para se sentarem, ficando em pé ao lado e atrás de Gunther. Então um freguês entra e, ao ver um homem sentado ao seu lado, o cumprimenta dizendo:
- Ei, Wolfgang! Como vai você?
O tal Wolfgang olha para o lado e se vira. Sua aparência era de um homem mais velho, de longos cabelos castanhos e bigodes. O rapaz também nota como havia uma discreta calvície sob os cabelos.
- Boa tarde, Klaus. Eu vou bem, e você?
Klaus era um homem alto, loiro e de olhos azuis. Seus cabelos lisos caíam na lateral de seus olhos, semelhante ao dono do bar.
- Não esperava encontra-lo aqui. Está de folga no trabalho?
- Na verdade não. Eu me aposentei há alguns dias.
O homem se felicita.
- Ora, mas isso é ótimo! Meus parabéns!
Ele lhe aperta a mão.
- Obrigado, Klaus. – virando-se rapidamente para o balcão, ele lhe pergunta – Desculpe meus maus modos. Você quer uma cerveja?
- Quero sim, mas hoje eu pago, para comemorar sua aposentadoria.
Os dois começam a beber. Passados alguns minutos, Gunther nota como o homem alto, Klaus, é mais alegre e conversador. O mais velho, Wolfgang, por sua vez, é mais reativo e sorri discretamente. O efeito do álcool fica notável aos poucos, pois ambos começam a discursar e filosofar sobre os detalhes da vida.
- “La buona fortuna!”, como diria Machiavel. O que é a fortuna, da qual nós, aqui na Alemanha, chamamos de Glück[2]? É sorte receber o que é de obrigação do Estado dar de volta a você?
- Do que está falando, velho amigo?
- Me refiro ao sofrimento de esperar que nos deem o que é nosso por direito. Do jeito que nossa economia é gerida, uns recebem, mas outros podem não ter a mesma sorte.
Sem querer, o rapaz vai se interessando pela conversa dos dois amigos.
- Você quer mais uma, meu jovem?
Gunther se assusta. Olhando para o balcão, o balconista está parado diante dele. Apontando para o seu copo, ele se referia à cerveja. Um pouco confuso, o rapaz assente e ele lhe traz mais. Arrumando seus cabelos, Gunther se debruça e volta a beber mais um pouco.
Os dois amigos continuam:
- Não sei se concordo. Temos casa, emprego e, apesar de pouco, alimento em nossas mesas. Se eu tivesse que medir pela qualidade de vida, não criticaria nossa Wirtschaft[3].
- Não se trata apenas de economia, mas da vida em si. Lebensqualität[4] você diz, mas você pode me dizer qual é o sentido da vida?
- Posso, é claro! Empenhar-se na Revolução! Como diria Karl Marx, “as revoluções são a locomotiva da história”.
Wolfgang sorri.
- Não estou me referindo à vida sob a ótica marxista, mas a algo mais pessoal e profundo. Por exemplo, o que é sobreviver?
Ao ouvir a pergunta, Klaus interrompe o gole de sua cerveja e parece se desanimar, embora bem-humoradamente.
- E lá vamos nós para mais uma dose de filosofia prussiana e pessimista. – percebendo como Gunther prestava atenção em sua conversa, o homem alto diz – Ei, meu jovem, veja meu amigo Wolfgang. Ele trabalhou trinta anos como ferramenteiro em uma grande indústria metalúrgica estatal. Apenas há alguns instantes eu fiquei sabendo que ele se aposentou, uma grande sorte já que a escassa mão de obra extingue nossa minguada economia. Ainda assim há algo que perturba seu velho coração alemão. – voltando-se para seu amigo, Klaus lhe pergunta – Pois nos diga, herr Wolfgang. O que é sobreviver?
Enxugando seu bigode, o velho responde:
- Sobreviver é viver em função do fantasma da fome.
Franzindo a testa, Klaus pergunta:
- O fantasma da fome...?
- Sim. É viver sob a ameaça dela. Ou melhor ainda, é controlar e reduzir sua constante presença. É manter-se vivo!
Então ele bebe um longo gole de sua cerveja. Em seguida ele discursa.
“Vejam essa condição de vida. Vivemos em função da ameaça da fome. A Revolução girou em torno dela, quando prometeram expropriar os bens da burguesia e distribuir o pão para todos. E para afastarmos a fome, o que fazemos? Nos submetemos a humilhações, moléstias e degradações, assim conquistando nosso alimento e sobrevivendo mais um dia. E eu vou dizer do que se trata essa degradação física, mental e emocional de que eu estou falando: o trabalho. Trabalhar é a forma mais conveniente que o explorador encontra de explorar o necessitado. Para que trabalhamos se não para não morrermos de fome? Os ocidentais, em sua sociedade egoísta e capitalista, o romantizam, simbolizando o trabalho como uma forma de ascensão social, carreira bem-sucedida e enriquecimento financeiro. Nós, porém, do leste, não temos essas máscaras do ocidente. Aqui nós trabalhamos, única e exclusivamente, pelo nosso próprio pão”.
- Está dizendo que, em nosso sistema tão baseado na foice da agricultura, e no martelo da indústria, você não gosta de trabalhar?
- E por acaso o trabalho é um prazer? – retruca Wolfgang – Ora, não me faça esse olhar. Você me acha um vagabundo, não é? Se esqueceu de que eu tenho trinta anos de profissão na indústria? Não, meu amigo, eu não sou um vagabundo, mas tampouco gosto de trabalhar. Não foi o próprio Karl Marx que disse: “O trabalhador só se sente à vontade no seu tempo de folga, porque o seu trabalho não é voluntário, é imposto, é forçado?”.
“Marx, o pai da ideologia comunista, esteve atento às necessidades do povo, pois este estava explorado, oprimido e assombrando pela ameaça da fome. E a burguesia estava ciente disso, aproveitando-se e mantendo essa situação. ‘O trabalho não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio para satisfazer outras necessidades’, também disse Marx. A burguesia, junto de seu aparato industrial capitalista, explorava o trabalhador, aprisionando-o pelo estômago. E continuaria assim se não fosse por Lênin, o pai da Revolução, nos livrando dos grilhões dos quais os burgueses nos prendiam. Mas, lições de história à parte, a fome sempre esteve por trás da sobrevivência do homem, pois na miséria cometemos os atos mais terríveis”.
Klaus, não tão alegre quanto antes, parece discordar de seu amigo.
- De fato, a Revolução teve por objetivo destruir a velha ordem autocrática e conservadora do czarismo, mas não creio que ela possa ser reduzida a uma visão simplista baseada ultimamente na fome. Do jeito que fala, me parece que está insinuando que a heroica causa comunista se aproveitou cinicamente da miséria operária para destituir o governo e conquistar o poder.
- E como estava a classe operária nos tempos do czarismo? Se estivessem bem alimentados, nem com seus melhores discursos Lênin os convenceria a segui-lo. Ou mesmo aqui, na famigerada Alemanha. Como estava a classe operária na República de Weimar? Hitler conseguiria arregimentar tantos seguidores se houvesse fartura de bens antes do nazismo?  
“A fome é a arma do explorador e a prisão do explorado. Ou pior ainda, é uma ferramenta na mão dos mal intencionados. Todos a temem, e quem não a teme a usa para fazê-lo temer. Eis a raiz do totalitarismo. A promessa da fartura é mantida pelo ditador, enquanto o povo famélico morre aos milhões. A fome deve ser combatida em um ciclo de produção incessante, onde os produtores alimentam a si mesmos e aqueles não produzem. Ironicamente, quem não produz tem mais fartura em suas mesas, e eu me refiro aos nobres, clérigos, burocratas e burgueses. De fato, essa foi a razão por trás da Revolução Francesa. Para que o mundo sobreviva, a ameaça da fome deve ser controlada e reduzida, mas para isso os poderosos devem forçar, através do estômago, a maioria pobre e ignorante a trabalhar”.
Enxugando sua testa, Klaus argumenta sacudindo o copo de cerveja em sua mão:
- O trabalho dignifica o Homem, mesmo os parasitas do ocidente perceberam isso. Não é apenas uma questão de eliminar a fome, mas de contribuir para a evolução e sobrevivência da sociedade. Você não concorda, jovem rapaz?
Klaus olha para Gunther, praticamente convidando-o para a conversa. O rapaz disfarça, assentindo com a cabeça e bebendo mais um gole de sua cerveja, assim evitando falar.
- Então voltamos à nossa questão inicial, meu amigo. – responde Wolfgang – “O que é sobreviver?” eu perguntei. Não é se não a necessidade permanente de trabalhar, já que não existe a eliminação permanente da fome?
Com a pergunta, o alto homem parece entender.
“Os ocidentais romantizaram o trabalho, promovendo a meritocracia como uma forma de enriquecimento pessoal. Nós, os comunistas, também o romantizamos, promovendo a ideia de expropriação dos ricos e a distribuição de sua riqueza a todos. O nazismo não fez diferente, subjugando e escravizando as raças inferiores em favorecimento da raça ariana. Trabalhe para si mesmo, para o Estado ou para a raça. De qualquer forma, alguém tem de trabalhar para alimentar seus senhores, e nós somos aqueles que, através do trabalho forçado, alimentamos.  
Klaus sorri.
- Trabalho forçado? Acho que no ocidente eles não são forçados a trabalhar.
- Você não me entendeu. A condição da vida em si nos força a trabalhar, se não morreremos de fome. A própria Bíblia atesta isso. “No suor do teu rosto comerás o pão, até que te tornes à terra, porque dela foste tomado, porquanto és pó e em pó te tornarás”[5]. Onde há fome não há vida.
Wolfgang olha para Gunther, também convidando-o à conversa. O rapaz, porém, novamente assente e bebe mais um pouco de cerveja.
- Mas há recompensa para alguém que se esforça e trabalha. Como o minerador soviético Alexey Stakhanov, condecorado com a Ordem de Lênin e a Ordem da Bandeira Vermelha do Trabalho na União Soviética.
- Pura propaganda. – discorda Wolfgang, balançando a cabeça – O Estado quer que você se mate trabalhando com um único propósito: o de sustenta-lo. E nada mais.
“O Estado ilude você, fazendo-o trabalhar para não morrer de fome quando na verdade você trabalha para que o regime não morra da mesma maneira. Como pode um regime que promete a fartura matar de fome seu próprio povo aos milhões? A Rússia leninista viveu isso, a stalinista também, mas nós, os alemães orientais, tivemos sorte de nascermos anos mais tarde. Trabalhamos a vida inteira para sustentar os iluminados ideólogos do partido em sua sagrada cruzada contra o sistema financeiro internacional e os banqueiros. E para quê? Para ganharmos uma semana de férias em um resort de trabalhadores na Romênia? Eu que não quero me matar só para nadar em uma bela piscina de um belo hotel no bloco soviético. Trabalhamos incessantemente para o regime, mas a revolução mundial não aconteceu. A Komintern[6] fracassou na libertação dos trabalhadores. E agora do que se trata a produção de bens? Na farta alimentação do proletariado? Não, mas na indústria bélica para a defesa e sobrevivência do próprio regime. Estamos desnutridos e fracos, mas armados até os dentes”.
Desta vez é Gunther quem passa a entender o velho. Mas antes que eles olhem para ele, novamente ele bebe um gole de cerveja.
Um pouco zonzo, Klaus responde:
- Apesar de sua visão pessimista de tudo, eu ainda acredito que, com um pouco de esforço e trabalho, chegaremos lá.
A resposta de Klaus foi abrangente e vaga. Wolfgang parece se surpreender.
- O que quis dizer com chegar lá? – pergunta ele, quase afrontando-o – Chegar lá onde? A aposentadoria? Ora, assim você novamente dá razão a minhas palavras! Não há prêmio nenhum a alguém que trabalha, apenas a expectativa de que, em sua terceira idade, você não trabalhará mais.
“Nisso consiste a moléstia do trabalho, na expectativa de não ter de trabalhar mais, seja na aposentadoria ou mesmo nos fins de semana, da qual a sexta-feira é o dia mais esperado dos trabalhadores. Queremos muito o dinheiro, queremos muito o alimento, mas, sinceramente, não queremos trabalhar para obtê-los. Por isso flertamos com a falsa ilusão de ganharmos muito dinheiro e ficarmos ricos um dia. Quão sortudos são os ocidentais por terem a loteria para sonharem com isso. Aqui nem isso temos. Aqui só temos o trabalho árduo, o alimento escasso, o entretenimento limitado e as benditas férias na porcaria do bloco soviético. Eu trabalhei trinta anos na metalurgia, minhas mãos calejadas comprovam isso, mas se eu pudesse trocar por não ter trabalhado nenhum, como os secretários-gerais do partido comunista, eu trocaria”.
A tontura do efeito do álcool estava bem forte e Gunther tinha de se conter para não rir involuntariamente. Klaus bebe sua cerveja e pergunta:
- Então está dizendo que preferiria sim ser um vagabundo? Viver ociosamente em um país que preza o trabalho árduo e o socialismo?
- Mesmo Marx defendia a ociosidade, da qual os filósofos chamavam de ócio criativo. – explica Wolfgang.
“Marx dizia que o trabalhador só pode ter cultura e descanso quando a produção atingir um excedente, ou seja, quando a produção de um dia for o suficiente para alimentar as pessoas por dois dias. O segundo dia seria reservado para as pessoas pensarem, amarem, descansarem e inovarem. Para ele, o intelectual, o artista e o burocrata só podem existir porque o sistema produz excedentes. Em seu livro ‘O Capital’, Marx escreveu que ‘quanto mais o operário se esgota no trabalho, mais poderoso se torna o mundo estranho e objetivo que ele cria perante si. Mais ele se torna pobre e menos o mundo interior lhe pertence’. Por esta razão, ele usou o termo ‘alienação’ para se referir ao processo de estranhamento do trabalhador em relação ao sentido da atividade produtiva, quando o trabalho deixa de ser a satisfação de uma necessidade para se tornar apenas um meio de satisfazer as necessidades externas a ele. Não sou diferente do pai de nossa ideologia, pois acredito que se tivéssemos mais tempo livre, teríamos mais qualidade de vida”.
Gunther e Klaus se entreolham. As palavras de Wolfgang eram seríssimas, ele já havia criticado Marx, Lênin, o regime e o partido. Apesar do profundo conhecimento em Karl Marx, ele soava claramente um contrarrevolucionário.
O rapaz desvia o olhar. Estava ficando arriscado demais para ele permanecer ali. Querendo encerrar aquela perigosa conversa, Klaus diz:
- De qualquer forma, eu fico feliz por você, velho amigo. – responde ele, abraçando o ombro de Wolfgang – Após anos de trabalho, agora você poderá realizar seu desejo de finalmente descansar.
O velho sorri e os dois se distraem por um momento. Gunther aproveita para pagar a conta e deixar o bar. Mas, ao se levantar, a tontura o domina e ele cambaleia um pouco.
- Ei, meu jovem! Parece que o álcool fez efeito, hein? – brinca Klaus.
- Acho que sim... – responde ele, sorrindo timidamente.
Gunther caminha com muito esforço para a porta e, ao sair, nota que havia anoitecido em Berlim. O vento frio soprava por sua jaqueta e ele sentia o cheiro de carvão saindo dos apartamentos.
Zonzo e embriagado, ele abruptamente se encosta na parede e espera o efeito passar um pouco. Ele se felicita, afinal não estava mais na companhia de duas pessoas de assuntos tão perigosos como Wolfgang e Klaus.
Minutos se passam. O vento sopra pelas árvores e ele vê os apertados carros soviéticos percorrendo a avenida. De repente a porta do bar se abre e alguém sai. Para sua surpresa, era Wolfgang saindo.
Vestindo uma boina em sua cabeça, Wolfgang olha para ele e, levantando-a, lhe diz:
- Guten Nacht, mein Jugend. Auf Wiedersehen![7]      
Então o velho lhe dá as costas e vai embora, caminhando tranquilamente pela calçada com suas mãos enfiadas nos bolsos. Para sua sorte, o velho desaparece à distância, Gunther não queria ouvi-lo mais.
Recuperando as forças, o rapaz caminha na direção oposta e também deixa o local. Enquanto avança pelas ruas, ele observa a paisagem. Apesar da tontura, ele nota como o bairro era frio e monótono devido à idêntica arquitetura comunista, seus prédios cúbicos e retilíneos o provocavam isso. Bêbado demais para manter em sua mente seus pensamentos, ele diz:
- Prenzlauer Berg...! – saúda ele – Espero que no futuro você seja mais alegre do que é hoje, velho amigo...!
Gunther manda um beijo para os prédios e então continua sua caminhada, finalmente indo embora para casa.
 



[1] Uma cerveja, por favor
[2] Sorte
[3] Economia
[4] Qualidade de vida
[5] Gênesis 3:19
[6] Internacional Comunista, uma organização fundada em 1919 por Vladimir Lênin e os bolcheviques para a implantação do socialismo ao redor do mundo.
[7] Boa noite, meu jovem. Até a vista!

domingo, 14 de junho de 2020

Tiergarten - 08 - Der Führer


Os seres vivos têm diferentes tipos de respiração. Existe a respiração celular, a traqueal, a branquial, a cutânea e a pulmonar, sendo a última a dos seres humanos. Na ventilação pulmonar ocorre a inspiração, quando se puxa o ar, e a expiração, quando se expele. Os humanos inspiram o oxigênio e o difundem pelo sangue, expirando em seguida o gás carbônico. Este processo chama-se Hematose, quando o sangue venoso torna-se sangue arterial.
Da porta de seu quarto, Gunther olha para seu apartamento e tem a impressão de vê-lo respirar. As paredes incham e o piso inclina-se, fazendo os móveis se deslocarem de um lado ao outro. “Não é possível”, pensa ele. “Será que eu estou bêbado?”.
As janelas estão abertas, e com o ritmo respiratório, as cortinas são arrastadas para dentro e para fora. O rapaz nota algo estranho naquele já estranho momento. O ar torna-se desgastante e pesado, a visão se embaça e ele mal consegue respirar. É então que ele percebe, o apartamento transformava o oxigênio, enchendo os cômodos de gás carbônico.
Preocupado, ele fecha sua porta.
Caminhando até a janela, ele olha a paisagem lá fora. Além do extenso muro, Berlim Ocidental parecia ser mais alegre, colorida e divertida, tão diferente de sua parte da cidade, toda austera, cinzenta e fria no lado oriental. “É totalmente compreensível as pessoas decidirem abandonar tudo e se mudarem para lá”, pensa ele, ainda olhando para o oeste. “Ao abandonarem o leste, elas deixam tudo para trás, como se estivessem escapando do inferno”.
Gunther sente um arrepio ao pensar nisso. “Então é nisso que eu me tornei? Um rapaz preso e perdido entre a dimensão dos vivos, e meu apartamento sendo a antecâmara do próprio inferno?”.
Com as mãos na nuca, ele admira o oeste. Não é pelo desejo materialista que ele deseja partir, mas para reencontrar sua mãe. “E quanto a Anneliese?”, pergunta-se ele. Apesar de amar sua mãe, ele ama ardentemente a outra mulher. É um amor tão repentino e forte que supera até o desejo de se reencontrar com quem lhe deu a vida.
Mas poderia ele afirmar que ama mais Anneliese do que sua própria mãe? “São diferentes tipos de amor”, pensa ele. “Como diziam os gregos, amor Storge para a família e o Eros para os cônjuges...”. Ocupado demais para pensar no assunto, ele decide pensar nisso mais tarde.    
- Anneliese... – sussurra ele – Sem você eu jamais poderei partir.
Entretanto, ele se lembra de algo incômodo. A moça era muito doutrinada politicamente, quase uma radical ideológica. Ela jamais partiria para o ocidente, do qual ela considera o antro podre da sociedade capitalista-fascista.
Preocupado, seu coração se divide.
Então ele ouve sons vindos da sala. Assustado, ele atravessa o quarto e encosta sua orelha na porta. Passos são ouvidos, parece haver alguém caminhando no apartamento. Ajuntando coragem, ele repentinamente abre a porta e pergunta:
- Quem está aí?
Não há resposta. Aquela impressão de respiração havia passado, agora as paredes exibiam uma tonalidade lúgubre e preta. Desistindo, Gunther fecha a porta em seguida.
Deitando-se, ele tira o relógio de seu bolso e vê que horas são. Uma e meia da tarde. Ao virar-se de lado, ele vê o telefone em sua mesinha. “Estranhamente ele ainda não tocou hoje”, reconhece ele. Enquanto pensa a respeito, ele ouve outro som, desta vez mais nítido e mais forte.
Levantando-se em um pulo, ele abre novamente a porta.
- Wer ist da?![1]  
Novamente não há resposta.
Ainda olhando para aquele macabro apartamento, ele pensa estar na dimensão dos espíritos. Porém, ele se lembra de algo. Em seu país vigorava o regime socialista, e no socialismo o ateísmo é oficial e as divindades, Deus ou deuses, não existem. Portanto as religiões, tão firmemente baseadas nos espíritos, não tinham importância alguma para o governo.
Estufando o seu peito, ele então grita:
- Espíritos não existem!
Então ele fecha violentamente a porta.
Sentando-se, ele sente um objeto em seu bolso. “O relógio”, lembra-se ele. Vendo novamente que horas eram, ele tem outro susto. Três e meia da tarde.
- Ora, essa! Não era uma e meia da tarde um minuto atrás?!
E então ele ouve o som de um tiro. Gunther se empalidece. “Há atiradores na sala!”.
Paralisado pelo medo, ele pensa haver agentes da Stasi em seu apartamento. Com as mãos trêmulas, ele abre a porta de seu quarto e caminha lentamente pelo hall, já intentando se render. Mas ao chegar na sala ele tem uma chocante surpresa.
Alguém está de pé em frente à janela. Arregalando os olhos, o rapaz nota que o desconhecido veste um casaco e está encurvado com os braços cruzados sob ele, como se estivesse assustado ou com frio.
- Olá...? – cumprimenta-o Gunther.
O desconhecido lentamente se vira e revela seu inconfundível rosto. O rapaz exclama:
- Adolf Hitler?!
Encurvado sob seu casaco, Hitler mira seus olhos azuis para ele. Gunther nota como o homem estava pálido, velho e profundamente abatido. Seus lisos cabelos caíam sobre seu rosto e seu icônico bigode estava intacto. Não haviam dúvidas, era definitivamente o Führer[2] diante de seus olhos.
Ofegando fortemente, Hitler pergunta:
- Mein Junge[3]... Onde é que eu estou?
Gunther se confunde. Na escola, ele estudou exaustivamente sobre o führer e o terrível Terceiro Reich. Ensinado contundentemente a odiar toda e qualquer forma de fascismo, os soviéticos quiseram ter certeza de que o nazismo jamais se ergueria na Alemanha novamente.
- Não está reconhecendo? É Berlim, a cidade que você destruiu. – responde ele, com rancor em sua voz.
Hitler olha novamente para a janela. Voltando, ele faz outra pergunta:
- Como é que eu vim parar aqui?
- Eu esperava que o senhor pudesse me responder. Aliás – prossegue ele –, o senhor tem muito o que responder ao povo alemão.
- Povo alemão?
- Sim, o povo alemão. – responde ele, irritado – Por sua culpa a Alemanha foi arrasada, violada e repartida pelo inimigo. Nos tornamos uma nação humilhada, envergonhada e mutilada pelos aliados.
- Aliados...? – pergunta ele.
- Sim! Por sua culpa os russos trouxeram o socialismo para o centro da Europa e hoje nos governam, explorando nossas riquezas, empobrecendo nossa terra e regendo nossas vidas diretamente de Moscou.
- Os russos...?
- Por sua culpa perdemos a Silésia, a Pomerânia, parte de Brandemburgo e principalmente a Prússia Oriental. Oh, a Prússia... – lamenta-se Gunther – Königsberg, o santuário dos maiores filósofos alemães, agora tomada por revolucionários doutrinados, assassinos do intelecto. Pobre Prússia...
- A Prússia...?
- Sem falar da Alsácia-Lorena, da qual você arrogantemente tomou dos franceses, mas nos foi novamente tomada e reanexada à França. Pelo menos os aliados do ocidente foram misericordiosos conosco. Mas não posso dizer o mesmo dos russos, que por sua culpa estupraram brutalmente dois milhões de mulheres alemãs...   
Gunther cobre seu rosto, chorando de ódio e indignação contra Hitler. Prevendo que ele ia fazer outra pergunta estúpida, o rapaz aponta para a janela e diz:
- Olhe para fora! Veja esse hediondo muro dividindo e mutilando Berlim. Os capitalistas governam o outro lado enquanto essa parte é governada pelos soviéticos, os mesmos que você acusava de serem subumanos anos atrás. Ironicamente não fomos nós e sim eles que conquistaram o lebensraum[4]...
Aparentando estar traumatizado, o führer repentinamente diz:
- Me ajude!
Gunther se intriga.
- O quê?
- Me ajude! – repete ele.
- Do que está falando?
Avançando repentinamente contra o rapaz, Hitler agarra suas roupas e o chacoalha, dizendo:
- Escute, meu jovem, você precisa me ajudar! Eles estão vindo atrás de mim, eles jamais me deixarão partir!
Gunther tenta se desvencilhar, mas o führer o segura ainda mais forte.
- De quem você está falando?
- Você não entende. Eu não conseguiria sequer descrever o que fazem comigo, o suplício e a tortura...
Hitler parece estar apavorado. Enquanto está perto, o rapaz tem a impressão de sentir o odor de gasolina e enxofre nele.
- Afaste-se de mim!
- Me esconda ou me aponte uma direção para eu fugir, mas eu te imploro. Não me entregue à eles!
- Eu mandei se afastar!
Então o rapaz o empurra, lançando-o contra o sofá. Hitler cai sentado, mas aturdido pelo impacto. O velho agoniza e faz expressões agudas de dor, demonstrando aflição. Nesse momento Gunther sente compaixão dele, pois apesar de ser quem ele era, ainda assim era só mais um velho cansado e doente.
Enquanto agonizava, o rapaz nota como sua mão esquerda tremia involuntariamente. “Então é verdade”, pensa ele. “Hitler realmente sofria do mal de Parkinson”.
- Por favor... – pede ofegantemente o velho – Me ajude...
Vê-lo sofrer partia o seu coração, entretanto ele tinha de ser justo. As milhões de famílias judias que foram expropriadas, deportadas e separadas tiverem compaixão do poderoso líder nazista em seu tempo? As mesmas famílias, tendo seus maridos escravizados, seus filhos eliminados e suas esposas estupradas tiveram alguma clemência nos campos de concentração?
“Auschwitz...!”, lembra-se ele. Os médicos fizeram experiências cirúrgicas em pacientes ainda vivos. Em horror Gunther se lembra que as cobaias de vivissecção eram ainda...
- Crianças... – sussurra ele, em devaneio – Meu Deus... Como pudemos ter feito isso?!
Com lágrimas nos olhos, ele caminha até a porta e diz:
- Você é um monstro assassino e suas atrocidades merecem ser pagas no inferno. Saia da minha casa agora!
Mas, ao pegar a maçaneta, ele ouve um ruído sinistro vindo do lado de fora. O rapaz tem a impressão de ouvir correntes sendo arrastadas pelo hall, e algum tipo de tecido molhado sendo arrastado junto. Então alguém ou alguma coisa geme, fazendo o seu sangue congelar.
Em um salto, Gunther se afasta da porta. Hitler novamente pede socorro, dizendo:
- Por favor, não me entregue a eles...
Ao se virar para trás, o apartamento muda de aspecto por alguns segundos, mas o suficiente para o rapaz ver. As paredes se mostram velhas e apodrecidas, e em suas fissuras caminhavam enormes insetos imundos. Gritos são ouvidos por todos os lados, como se fosse o coro desarmônico dos condenados. A cortina balançava incessantemente com o vento, que parecia carregar o vírus e a doença. Mas lá fora algo realmente lhe fascina. O céu era vermelho e se revirava com frenéticas nuvens negras. Criaturas desconhecidas voavam pelos ares, semelhantes a vespas ou morcegos gigantes. Aproximando-se da janela, ele tenta encontrar algum prédio em volta, mas não encontra nenhum. Em espanto ele percebe, Gunther não estava mais em Berlim.
Hitler segura seu braço e diz:
- Meu jovem, não deixe que eles levem a mim.
Nesse instante tudo volta ao normal. O rapaz balança sua cabeça e olha para baixo, recompondo a si mesmo. O führer, entretanto, ainda estava ali.
- Aquele era o lugar...? – pergunta ele – De onde o senhor veio?
O führer faz um olhar de quem não sabe do que ele está falando. Ele segura o seu braço mais firmemente e diz:
- Eu te imploro...
- Está bem! – responde Gunther, puxando seu braço de volta – Eu não vou ajuda-lo, mas também não vou expulsa-lo daqui.
- Obrigado, muito obrigado...
Hitler então beija várias vezes a sua mão, agradecendo-o. O rapaz consegue sentir inclusive os pelos de seu bigode pinicando a sua pele. O führer era real, não podia ser uma alucinação.
Constrangido, ele responde:
- Eu não devia deixa-lo me tocar. O senhor destruiu tudo o que pôs a mão. Como Eva Braun, que realmente o amava.
- Eva...?
Hitler estava fora de si, ou a amnésia o havia degenerado. Tudo o que Gunther falava ele se perguntava, como se não se lembrasse de sua própria vida. Desistindo, o rapaz lhe dá as costas e retorna ao seu quarto, fechando a porta em seguida.
- Mãe, se a senhora soubesse que eu recebi Adolf Hitler em nossa casa... – comenta ele enquanto se deita.
Ao pegar o relógio, ele vê que horas eram. Três e trinta e um. Então tudo faz sentido. “É claro!”, admira-se ele. “Essa foi a hora em que Hitler cometeu suicídio”.
Então o telefone toca, assustando-o.
- Alô?
- Ela não iria acreditar.
- O quê?
- A sua mãe, ela não iria acreditar se soubesse. Na verdade, ele iria achar que você está ficando louco. Se é que ela já não acha isso, não é mesmo?
O rapaz ri.
- Guten tag[5] para você também, moça.
- Boa tarde, Gunther. E então? Gostou de conhecer Adolf Hitler?
- É claro que não!
- E como foi conhece-lo? Tenha certeza de que muitas, mas muitas pessoas mesmo gostariam de estar no seu lugar. Ele realmente é o monstro que descrevem?
- Na verdade não. É só um velho doente e assustado, eu até tive pena dele.
- Vamos supor que fosse 1945 e você estivesse fugindo dos bolcheviques com Anneliese, mas durante a fuga vocês infelizmente são capturados. Você sabe que os russos vão estupra-la. Então eu te pergunto: o que você faria?
Surpreso com a pergunta, ele responde:  
- O que eu faria? Eu vou dizer o que eu faria. Eu a mataria e, se houvesse tempo, me mataria em seguida.
- Está dizendo que você mataria a mulher da sua vida para protege-la?
- Se ela estivesse a ponto de ser estuprada por dezenas de homens cruéis e violentos, com certeza.
A voz parece concordar com ele.
- Então, nesse caso, você não é tão diferente de Hitler. Ele também matou Eva Braun, sua esposa, e a si mesmo para protege-la. De modo diferente, é claro, já que ela mesmo se matou por envenenamento. Mas ainda assim ambos partiram juntos para evitar horrores maiores na mão dos bolcheviques. Genocidas ou não, os homens se assemelham muito nessa situação, não é mesmo?
Gunther nunca pensou por esse lado.
- Talvez. Mas Hitler foi um covarde, pois sacrificou a vida de velhos e crianças somente para se proteger.
Responde ele, referindo-se à Volksturm[6].
- É claro que sim. Ele realmente foi um assassino covarde, esse monstro.
Segundos depois a voz se silencia e ele só ouve estática.
Desligando o telefone, o rapaz se aconchega e dorme um pouco.

§

Na manhã seguinte, Gunther caminha normalmente por seu apartamento quando um cachorro passa rapidamente por suas pernas. Assustado, ele ouve risos e então caminha até a sala.
O rapaz se espanta ao ver Hitler rindo e acariciando uma bela cachorra da raça pastor alemão. A cachorra late e lhe dá a pata, recebendo alegremente as carícias de seu antigo dono. Gunther está atônito e não pode fazer nada a não ser se afeiçoar com a divertida cachorra também.
- Bom dia, meu jovem! Quero que você conheça minha bela cachorra, a Blondi.
A cachorra se senta e então dá um latido, respirando com a língua para fora em seguida. O rapaz sorri, alegrando-se também.
- Olá, Blondi! Eu sou Gunther, prazer em conhece-la.
Ele lhe dá a mão e ela lhe dá a pata, fazendo os dois rirem como crianças.
- Você devia ver como ela adorava a minha casa em Berghof. Corria sem parar pela varanda.
O führer falava do complexo de bunkers que servia de quartel-general nazista nas montanhas de Taunus. De lá Hitler emitiu ordens para arrasar a Europa e populações inteiras, especialmente os judeus escondidos nos quatro cantos do reich[7]. Gunther o ignora e continua brincando com a cachorra.  
Hitler adorava os animais e se empolgava ao falar deles. Gunther se surpreende ao ouvir que o führer tampava os olhos quando passava cenas de violência animal nos filmes. É incrível como até as pessoas mais cruéis têm mais compaixão dos animais do que dos seres humanos.
O rapaz acende um cigarro e vê uma reação reprobatória do führer. Ele odiava o cigarro e o tabagismo. Por alguma razão, o rapaz o respeita e decidi apaga-lo, assim continuando a agradável conversa.
Surpreso, ele reconhece que Hitler era um senhor muito amigável, afinal. E de fato o seria se não fosse o racismo, a guerra e o genocídio. Mas, por alguma razão, nada daquilo parecia afeta-lo naquele momento. O ódio do dia anterior havia passado e sequer passava por sua cabeça. Era como se os dois fossem bons amigos tendo uma boa conversa sobre animais.
Então os dois passam o resto do dia conversando e brincando com Blondi.
Ao anoitecer, Gunther se despede de Blondi e vai se deitar. O telefone não toca essa noite, mas ele não se importa. Suas roupas estavam cheias de pelos, mas ele prefere lava-las e tomar banho no dia seguinte. E assim se encerrava mais um dia em seu bizarro apartamento.
No dia seguinte, ele se levanta e caminha até a sala. Assoviando para a cachorra, ela não vem ao seu encontro.
- Blondi?
Procurando por seus hóspedes, o rapaz não os encontra em lugar algum.
- Blondi, vem!
Mas a cachorra não vem. Mesmo Hitler estava ausente. “Onde é que eles estão?”, pergunta-se ele.
Passados alguns minutos, ele se senta no sofá, apoia o queixo em sua mão e tristemente reconhece. Hitler e Blondi haviam partido.






[1] “Quem está aí?” em alemão
[2] Líder em alemão
[3] Meu jovem
[4] Espaço vital
[5] Boa tarde
[6] Milícia de homens e mulheres de 16 a 60 anos criada em 1944 por Adolf Hitler para conter o avanço das tropas aliadas.
[7] Império

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...