domingo, 14 de junho de 2020

Tiergarten - 08 - Der Führer


Os seres vivos têm diferentes tipos de respiração. Existe a respiração celular, a traqueal, a branquial, a cutânea e a pulmonar, sendo a última a dos seres humanos. Na ventilação pulmonar ocorre a inspiração, quando se puxa o ar, e a expiração, quando se expele. Os humanos inspiram o oxigênio e o difundem pelo sangue, expirando em seguida o gás carbônico. Este processo chama-se Hematose, quando o sangue venoso torna-se sangue arterial.
Da porta de seu quarto, Gunther olha para seu apartamento e tem a impressão de vê-lo respirar. As paredes incham e o piso inclina-se, fazendo os móveis se deslocarem de um lado ao outro. “Não é possível”, pensa ele. “Será que eu estou bêbado?”.
As janelas estão abertas, e com o ritmo respiratório, as cortinas são arrastadas para dentro e para fora. O rapaz nota algo estranho naquele já estranho momento. O ar torna-se desgastante e pesado, a visão se embaça e ele mal consegue respirar. É então que ele percebe, o apartamento transformava o oxigênio, enchendo os cômodos de gás carbônico.
Preocupado, ele fecha sua porta.
Caminhando até a janela, ele olha a paisagem lá fora. Além do extenso muro, Berlim Ocidental parecia ser mais alegre, colorida e divertida, tão diferente de sua parte da cidade, toda austera, cinzenta e fria no lado oriental. “É totalmente compreensível as pessoas decidirem abandonar tudo e se mudarem para lá”, pensa ele, ainda olhando para o oeste. “Ao abandonarem o leste, elas deixam tudo para trás, como se estivessem escapando do inferno”.
Gunther sente um arrepio ao pensar nisso. “Então é nisso que eu me tornei? Um rapaz preso e perdido entre a dimensão dos vivos, e meu apartamento sendo a antecâmara do próprio inferno?”.
Com as mãos na nuca, ele admira o oeste. Não é pelo desejo materialista que ele deseja partir, mas para reencontrar sua mãe. “E quanto a Anneliese?”, pergunta-se ele. Apesar de amar sua mãe, ele ama ardentemente a outra mulher. É um amor tão repentino e forte que supera até o desejo de se reencontrar com quem lhe deu a vida.
Mas poderia ele afirmar que ama mais Anneliese do que sua própria mãe? “São diferentes tipos de amor”, pensa ele. “Como diziam os gregos, amor Storge para a família e o Eros para os cônjuges...”. Ocupado demais para pensar no assunto, ele decide pensar nisso mais tarde.    
- Anneliese... – sussurra ele – Sem você eu jamais poderei partir.
Entretanto, ele se lembra de algo incômodo. A moça era muito doutrinada politicamente, quase uma radical ideológica. Ela jamais partiria para o ocidente, do qual ela considera o antro podre da sociedade capitalista-fascista.
Preocupado, seu coração se divide.
Então ele ouve sons vindos da sala. Assustado, ele atravessa o quarto e encosta sua orelha na porta. Passos são ouvidos, parece haver alguém caminhando no apartamento. Ajuntando coragem, ele repentinamente abre a porta e pergunta:
- Quem está aí?
Não há resposta. Aquela impressão de respiração havia passado, agora as paredes exibiam uma tonalidade lúgubre e preta. Desistindo, Gunther fecha a porta em seguida.
Deitando-se, ele tira o relógio de seu bolso e vê que horas são. Uma e meia da tarde. Ao virar-se de lado, ele vê o telefone em sua mesinha. “Estranhamente ele ainda não tocou hoje”, reconhece ele. Enquanto pensa a respeito, ele ouve outro som, desta vez mais nítido e mais forte.
Levantando-se em um pulo, ele abre novamente a porta.
- Wer ist da?![1]  
Novamente não há resposta.
Ainda olhando para aquele macabro apartamento, ele pensa estar na dimensão dos espíritos. Porém, ele se lembra de algo. Em seu país vigorava o regime socialista, e no socialismo o ateísmo é oficial e as divindades, Deus ou deuses, não existem. Portanto as religiões, tão firmemente baseadas nos espíritos, não tinham importância alguma para o governo.
Estufando o seu peito, ele então grita:
- Espíritos não existem!
Então ele fecha violentamente a porta.
Sentando-se, ele sente um objeto em seu bolso. “O relógio”, lembra-se ele. Vendo novamente que horas eram, ele tem outro susto. Três e meia da tarde.
- Ora, essa! Não era uma e meia da tarde um minuto atrás?!
E então ele ouve o som de um tiro. Gunther se empalidece. “Há atiradores na sala!”.
Paralisado pelo medo, ele pensa haver agentes da Stasi em seu apartamento. Com as mãos trêmulas, ele abre a porta de seu quarto e caminha lentamente pelo hall, já intentando se render. Mas ao chegar na sala ele tem uma chocante surpresa.
Alguém está de pé em frente à janela. Arregalando os olhos, o rapaz nota que o desconhecido veste um casaco e está encurvado com os braços cruzados sob ele, como se estivesse assustado ou com frio.
- Olá...? – cumprimenta-o Gunther.
O desconhecido lentamente se vira e revela seu inconfundível rosto. O rapaz exclama:
- Adolf Hitler?!
Encurvado sob seu casaco, Hitler mira seus olhos azuis para ele. Gunther nota como o homem estava pálido, velho e profundamente abatido. Seus lisos cabelos caíam sobre seu rosto e seu icônico bigode estava intacto. Não haviam dúvidas, era definitivamente o Führer[2] diante de seus olhos.
Ofegando fortemente, Hitler pergunta:
- Mein Junge[3]... Onde é que eu estou?
Gunther se confunde. Na escola, ele estudou exaustivamente sobre o führer e o terrível Terceiro Reich. Ensinado contundentemente a odiar toda e qualquer forma de fascismo, os soviéticos quiseram ter certeza de que o nazismo jamais se ergueria na Alemanha novamente.
- Não está reconhecendo? É Berlim, a cidade que você destruiu. – responde ele, com rancor em sua voz.
Hitler olha novamente para a janela. Voltando, ele faz outra pergunta:
- Como é que eu vim parar aqui?
- Eu esperava que o senhor pudesse me responder. Aliás – prossegue ele –, o senhor tem muito o que responder ao povo alemão.
- Povo alemão?
- Sim, o povo alemão. – responde ele, irritado – Por sua culpa a Alemanha foi arrasada, violada e repartida pelo inimigo. Nos tornamos uma nação humilhada, envergonhada e mutilada pelos aliados.
- Aliados...? – pergunta ele.
- Sim! Por sua culpa os russos trouxeram o socialismo para o centro da Europa e hoje nos governam, explorando nossas riquezas, empobrecendo nossa terra e regendo nossas vidas diretamente de Moscou.
- Os russos...?
- Por sua culpa perdemos a Silésia, a Pomerânia, parte de Brandemburgo e principalmente a Prússia Oriental. Oh, a Prússia... – lamenta-se Gunther – Königsberg, o santuário dos maiores filósofos alemães, agora tomada por revolucionários doutrinados, assassinos do intelecto. Pobre Prússia...
- A Prússia...?
- Sem falar da Alsácia-Lorena, da qual você arrogantemente tomou dos franceses, mas nos foi novamente tomada e reanexada à França. Pelo menos os aliados do ocidente foram misericordiosos conosco. Mas não posso dizer o mesmo dos russos, que por sua culpa estupraram brutalmente dois milhões de mulheres alemãs...   
Gunther cobre seu rosto, chorando de ódio e indignação contra Hitler. Prevendo que ele ia fazer outra pergunta estúpida, o rapaz aponta para a janela e diz:
- Olhe para fora! Veja esse hediondo muro dividindo e mutilando Berlim. Os capitalistas governam o outro lado enquanto essa parte é governada pelos soviéticos, os mesmos que você acusava de serem subumanos anos atrás. Ironicamente não fomos nós e sim eles que conquistaram o lebensraum[4]...
Aparentando estar traumatizado, o führer repentinamente diz:
- Me ajude!
Gunther se intriga.
- O quê?
- Me ajude! – repete ele.
- Do que está falando?
Avançando repentinamente contra o rapaz, Hitler agarra suas roupas e o chacoalha, dizendo:
- Escute, meu jovem, você precisa me ajudar! Eles estão vindo atrás de mim, eles jamais me deixarão partir!
Gunther tenta se desvencilhar, mas o führer o segura ainda mais forte.
- De quem você está falando?
- Você não entende. Eu não conseguiria sequer descrever o que fazem comigo, o suplício e a tortura...
Hitler parece estar apavorado. Enquanto está perto, o rapaz tem a impressão de sentir o odor de gasolina e enxofre nele.
- Afaste-se de mim!
- Me esconda ou me aponte uma direção para eu fugir, mas eu te imploro. Não me entregue à eles!
- Eu mandei se afastar!
Então o rapaz o empurra, lançando-o contra o sofá. Hitler cai sentado, mas aturdido pelo impacto. O velho agoniza e faz expressões agudas de dor, demonstrando aflição. Nesse momento Gunther sente compaixão dele, pois apesar de ser quem ele era, ainda assim era só mais um velho cansado e doente.
Enquanto agonizava, o rapaz nota como sua mão esquerda tremia involuntariamente. “Então é verdade”, pensa ele. “Hitler realmente sofria do mal de Parkinson”.
- Por favor... – pede ofegantemente o velho – Me ajude...
Vê-lo sofrer partia o seu coração, entretanto ele tinha de ser justo. As milhões de famílias judias que foram expropriadas, deportadas e separadas tiverem compaixão do poderoso líder nazista em seu tempo? As mesmas famílias, tendo seus maridos escravizados, seus filhos eliminados e suas esposas estupradas tiveram alguma clemência nos campos de concentração?
“Auschwitz...!”, lembra-se ele. Os médicos fizeram experiências cirúrgicas em pacientes ainda vivos. Em horror Gunther se lembra que as cobaias de vivissecção eram ainda...
- Crianças... – sussurra ele, em devaneio – Meu Deus... Como pudemos ter feito isso?!
Com lágrimas nos olhos, ele caminha até a porta e diz:
- Você é um monstro assassino e suas atrocidades merecem ser pagas no inferno. Saia da minha casa agora!
Mas, ao pegar a maçaneta, ele ouve um ruído sinistro vindo do lado de fora. O rapaz tem a impressão de ouvir correntes sendo arrastadas pelo hall, e algum tipo de tecido molhado sendo arrastado junto. Então alguém ou alguma coisa geme, fazendo o seu sangue congelar.
Em um salto, Gunther se afasta da porta. Hitler novamente pede socorro, dizendo:
- Por favor, não me entregue a eles...
Ao se virar para trás, o apartamento muda de aspecto por alguns segundos, mas o suficiente para o rapaz ver. As paredes se mostram velhas e apodrecidas, e em suas fissuras caminhavam enormes insetos imundos. Gritos são ouvidos por todos os lados, como se fosse o coro desarmônico dos condenados. A cortina balançava incessantemente com o vento, que parecia carregar o vírus e a doença. Mas lá fora algo realmente lhe fascina. O céu era vermelho e se revirava com frenéticas nuvens negras. Criaturas desconhecidas voavam pelos ares, semelhantes a vespas ou morcegos gigantes. Aproximando-se da janela, ele tenta encontrar algum prédio em volta, mas não encontra nenhum. Em espanto ele percebe, Gunther não estava mais em Berlim.
Hitler segura seu braço e diz:
- Meu jovem, não deixe que eles levem a mim.
Nesse instante tudo volta ao normal. O rapaz balança sua cabeça e olha para baixo, recompondo a si mesmo. O führer, entretanto, ainda estava ali.
- Aquele era o lugar...? – pergunta ele – De onde o senhor veio?
O führer faz um olhar de quem não sabe do que ele está falando. Ele segura o seu braço mais firmemente e diz:
- Eu te imploro...
- Está bem! – responde Gunther, puxando seu braço de volta – Eu não vou ajuda-lo, mas também não vou expulsa-lo daqui.
- Obrigado, muito obrigado...
Hitler então beija várias vezes a sua mão, agradecendo-o. O rapaz consegue sentir inclusive os pelos de seu bigode pinicando a sua pele. O führer era real, não podia ser uma alucinação.
Constrangido, ele responde:
- Eu não devia deixa-lo me tocar. O senhor destruiu tudo o que pôs a mão. Como Eva Braun, que realmente o amava.
- Eva...?
Hitler estava fora de si, ou a amnésia o havia degenerado. Tudo o que Gunther falava ele se perguntava, como se não se lembrasse de sua própria vida. Desistindo, o rapaz lhe dá as costas e retorna ao seu quarto, fechando a porta em seguida.
- Mãe, se a senhora soubesse que eu recebi Adolf Hitler em nossa casa... – comenta ele enquanto se deita.
Ao pegar o relógio, ele vê que horas eram. Três e trinta e um. Então tudo faz sentido. “É claro!”, admira-se ele. “Essa foi a hora em que Hitler cometeu suicídio”.
Então o telefone toca, assustando-o.
- Alô?
- Ela não iria acreditar.
- O quê?
- A sua mãe, ela não iria acreditar se soubesse. Na verdade, ele iria achar que você está ficando louco. Se é que ela já não acha isso, não é mesmo?
O rapaz ri.
- Guten tag[5] para você também, moça.
- Boa tarde, Gunther. E então? Gostou de conhecer Adolf Hitler?
- É claro que não!
- E como foi conhece-lo? Tenha certeza de que muitas, mas muitas pessoas mesmo gostariam de estar no seu lugar. Ele realmente é o monstro que descrevem?
- Na verdade não. É só um velho doente e assustado, eu até tive pena dele.
- Vamos supor que fosse 1945 e você estivesse fugindo dos bolcheviques com Anneliese, mas durante a fuga vocês infelizmente são capturados. Você sabe que os russos vão estupra-la. Então eu te pergunto: o que você faria?
Surpreso com a pergunta, ele responde:  
- O que eu faria? Eu vou dizer o que eu faria. Eu a mataria e, se houvesse tempo, me mataria em seguida.
- Está dizendo que você mataria a mulher da sua vida para protege-la?
- Se ela estivesse a ponto de ser estuprada por dezenas de homens cruéis e violentos, com certeza.
A voz parece concordar com ele.
- Então, nesse caso, você não é tão diferente de Hitler. Ele também matou Eva Braun, sua esposa, e a si mesmo para protege-la. De modo diferente, é claro, já que ela mesmo se matou por envenenamento. Mas ainda assim ambos partiram juntos para evitar horrores maiores na mão dos bolcheviques. Genocidas ou não, os homens se assemelham muito nessa situação, não é mesmo?
Gunther nunca pensou por esse lado.
- Talvez. Mas Hitler foi um covarde, pois sacrificou a vida de velhos e crianças somente para se proteger.
Responde ele, referindo-se à Volksturm[6].
- É claro que sim. Ele realmente foi um assassino covarde, esse monstro.
Segundos depois a voz se silencia e ele só ouve estática.
Desligando o telefone, o rapaz se aconchega e dorme um pouco.

§

Na manhã seguinte, Gunther caminha normalmente por seu apartamento quando um cachorro passa rapidamente por suas pernas. Assustado, ele ouve risos e então caminha até a sala.
O rapaz se espanta ao ver Hitler rindo e acariciando uma bela cachorra da raça pastor alemão. A cachorra late e lhe dá a pata, recebendo alegremente as carícias de seu antigo dono. Gunther está atônito e não pode fazer nada a não ser se afeiçoar com a divertida cachorra também.
- Bom dia, meu jovem! Quero que você conheça minha bela cachorra, a Blondi.
A cachorra se senta e então dá um latido, respirando com a língua para fora em seguida. O rapaz sorri, alegrando-se também.
- Olá, Blondi! Eu sou Gunther, prazer em conhece-la.
Ele lhe dá a mão e ela lhe dá a pata, fazendo os dois rirem como crianças.
- Você devia ver como ela adorava a minha casa em Berghof. Corria sem parar pela varanda.
O führer falava do complexo de bunkers que servia de quartel-general nazista nas montanhas de Taunus. De lá Hitler emitiu ordens para arrasar a Europa e populações inteiras, especialmente os judeus escondidos nos quatro cantos do reich[7]. Gunther o ignora e continua brincando com a cachorra.  
Hitler adorava os animais e se empolgava ao falar deles. Gunther se surpreende ao ouvir que o führer tampava os olhos quando passava cenas de violência animal nos filmes. É incrível como até as pessoas mais cruéis têm mais compaixão dos animais do que dos seres humanos.
O rapaz acende um cigarro e vê uma reação reprobatória do führer. Ele odiava o cigarro e o tabagismo. Por alguma razão, o rapaz o respeita e decidi apaga-lo, assim continuando a agradável conversa.
Surpreso, ele reconhece que Hitler era um senhor muito amigável, afinal. E de fato o seria se não fosse o racismo, a guerra e o genocídio. Mas, por alguma razão, nada daquilo parecia afeta-lo naquele momento. O ódio do dia anterior havia passado e sequer passava por sua cabeça. Era como se os dois fossem bons amigos tendo uma boa conversa sobre animais.
Então os dois passam o resto do dia conversando e brincando com Blondi.
Ao anoitecer, Gunther se despede de Blondi e vai se deitar. O telefone não toca essa noite, mas ele não se importa. Suas roupas estavam cheias de pelos, mas ele prefere lava-las e tomar banho no dia seguinte. E assim se encerrava mais um dia em seu bizarro apartamento.
No dia seguinte, ele se levanta e caminha até a sala. Assoviando para a cachorra, ela não vem ao seu encontro.
- Blondi?
Procurando por seus hóspedes, o rapaz não os encontra em lugar algum.
- Blondi, vem!
Mas a cachorra não vem. Mesmo Hitler estava ausente. “Onde é que eles estão?”, pergunta-se ele.
Passados alguns minutos, ele se senta no sofá, apoia o queixo em sua mão e tristemente reconhece. Hitler e Blondi haviam partido.






[1] “Quem está aí?” em alemão
[2] Líder em alemão
[3] Meu jovem
[4] Espaço vital
[5] Boa tarde
[6] Milícia de homens e mulheres de 16 a 60 anos criada em 1944 por Adolf Hitler para conter o avanço das tropas aliadas.
[7] Império

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