sábado, 30 de maio de 2020

Tiergarten - 07 - A Rosa, a Voz e a Imaginação



Ao abrir os olhos, Gunther olha ao redor e vê apenas a escuridão. Sua cama flutua na vastidão estígia como um berço entre as estrelas, mas com exceção das estrelas.
A quarta dimensão é algo totalmente incompreensível ao Homem. Sua mente efêmera, limitada pelas três dimensões, não consegue sequer imaginar a transcendência dessa proporção. O universo tridimensional depende da constatação natural de suas propriedades. A luz ilumina, o calor esquenta, o frio esfria... Porém, os mesmos conceitos podem ser aplicados além dessas conhecidas barreiras?
A escuridão ao redor se expande infinitamente, porém a escuridão é a ausência de luz e esse conceito está atrelado à percepção humana do universo tridimensional conhecido. Portanto existe luz e escuridão na quarta dimensão? O rapaz está deitado e então se senta, colocando os pés no chão invisível sob ele. Denota-se que há gravidade, pois seu corpo é atraído para a cama e, apesar da aparência, ele não está flutuando livremente no espaço. Porém, gravidade também é um conceito tridimensional universal conhecido, então seria possível dizer que, na quarta dimensão, existe gravidade?
Gunther olha para si mesmo. Ele vê seu corpo e sua cama. Apesar do escuro, alguma luz sobrenatural ilumina a si, a sua cama e seus cobertores. Ele não sabe quanto tempo esteve dormindo, ou mesmo quanto tempo esteve naquele lugar. Então outra implicação lhe sobrevém como um trovão. Massa e tempo estão diretamente relacionados entre si, pois desde o momento em que a massa é criada, o tempo é criado junto para determinar sua duração. Cessada a existência da massa, o tempo também é destituído e deixa de existir. Mas, avançando através dessas barreiras tridimensionais, pode-se dizer que existe massa e tempo na quarta dimensão?
Ainda sentado, ele olha para sua cama e percebe algo. Naquela vastidão escura, a cama ocupa um singelo espaço. Assim como o tempo, a matéria está intimamente ligada ao espaço, pois a matéria necessita de um plano ou espaço para ocupar. Na quarta dimensão, onde tudo isso é indeterminável e irrelevante, Gunther não sabe mais o que deduzir.
Como um matemático renascentista contemplando as leis físicas de seu próprio universo, o rapaz lentamente leva suas mãos ao encontro uma da outra. Então a surpresa lhe aturde mais uma vez. Ambas as mãos atravessam uma à outra, como se fossem nuvens de vapor colidindo. Temendo ter morrido, ele se pergunta: “eu sou um fantasma?”.
Mas ao se perguntar, sua voz sai alta e clara, avançando ao longe. “Se minha voz existe, então existe o ar para o som se propagar”, constata ele, ávido para descobrir os segredos desse misterioso lugar. Mas tudo parecia estar escondido além de sua imaginação.
“Imaginação!”, exclama ele. O que era a imaginação em um lugar sem forma, aparência e substância como aquele? Inclusive sua mente não podia conceber a quarta dimensão, pois mesmo o ato de imaginar estava atrelado ao universo tridimensional. Era como se matemáticos estivessem tentando ensinar trigonometria a um cachorro, e ele fosse o cachorro. Portanto, o que mais lhe resta? Capturado sem defesas, ele deixa seus parcos alcances mentais guia-lo por aquela estranha existência.  

§

Gunther caminha apressadamente. Ele não sabe mais o que é real ou mesmo se está dentro de alguma realidade. Na verdade, ele não sabe de mais nada. Algo estranho acontece com ele, um sentimento bom que bate forte em seu peito e o deixa extasiado, fazendo-o se esquecer de todo o tormento e desequilíbrio que castiga sua mente.
O rapaz caminha entre dimensões.
O amor é um sentimento forte e bonito, tão intenso que às vezes nos esquecemos da dor. Gunther se apaixonou por Anneliese, uma linda garota de cabelos castanhos e aparência delicada. Ela é modesta ao se vestir e nunca se produz mais do que o necessário. Ela usa óculos de aros finos e o rapaz observa como ela se esforça para enxergar. Sempre que passava, ela o cumprimentava com um sorriso amigável, deixando-o muito feliz. “Como ela é delicada!”, pensa ele.
Até que um dia ele criou coragem e a chamou para conversar. Retornando ao local de reuniões da Liga das Mulheres Democráticas Alemãs, ele a aborda e tenta novamente uma conversa. A surpresa veio com um impacto enorme. Ela era muito mais amigável do que ele pensava, mas falava muitos palavrões! E quanto mais falava, mais palavrões saíam, e com muita naturalidade! A garota disse que tem um irmão mais velho em Dresden, talvez isso explique seu jeito de desbocada. Crescer com a influência de um homem pode dar nisso. Gunther não se importa. Pelo menos ela não era rude ou antipática, e sempre o ouvia quando ele queria falar.
Com o passar dos dias, ele a chama mais vezes, se esforçando para manter a naturalidade e coerência. Tímido como sempre, às vezes ela lhe dava mais atenção do que ele podia suportar e isso o deixava muito acanhado.
O rapaz nunca entendeu como uma garota tão linda e independente quanto ela aceitaria sua amizade, e foi aí que o sentimento cresceu e cresceu. Infelizmente, Gunther era diferente e talvez os dois pudessem estar juntos se ele não fosse um paradoxo dimensional.
Acordando novamente na quarta dimensão, ele se vê em um vasto campo florido de belas rosas vermelhas. O sol brilha intensamente no céu azul de nuvens tão brancas que se assemelhavam às vestes de Cristo. Extasiado por aquele incrível sonho, ou realidade que ele pensava ser um sonho, Gunther se levanta de sua cama e corre por aquele lindo campo.
As rosas são de um vermelho belíssimo e exalam um perfume desigual. Estendendo seus braços, ele deixa suas mãos tocarem-nas, deliciando-se com o paradisíaco momento. Só que há algo que ele não percebe e nem a quarta dimensão pôde desfazer. As rosas têm espinhos.
Após correr pelo campo como uma criança, ele respira fundo e limpa o suor com sua mão. E então ele se espanta. Suas mãos, braços e pernas estão dilacerados pelos afiados espinhos. Um sangue vívido e escarlate se escorre dos profundos cortes, tão vermelho quanto as próprias rosas.
Apesar do horror, os ferimentos não lhe causavam dor alguma. Muito pelo contrário, ele se acalma e até se fascina ao ver algo outrora tão repulsivo e nojento escorrendo livremente pelo seu corpo. “Que beleza...”, sussurra ele ao encantar-se com o distinto vermelho.
Esticando sua mão até a espinhenta roseira, ele rasga mais um pouco sua pele e então alcança a flor desejada. Segurando delicadamente a bela rosa, ele a puxa e então a guarda para si. Olhando fixamente para o horizonte, ele já sabe para quem ele vai lhe dar. 
Então Gunther caminha com uma rosa em sua mão. Empolgado e extasiado pelo sentimento, ele não nota que o caule tem afiados espinhos. Sua mão esquerda a segura e os espinhos rasgam sua pele, perfurando-a através da palma de sua mão. O sangue escorre pela ferida, o mesmo sangue viscoso e quente tão diferente daqueles exibidos nos filmes. “O sangue...” ouve ele repetidamente em sua mente enquanto as gotas caem pelo piso.
Ao ver Anneliese, ele estende seu braço e lhe oferece a flor.
- Para você.
A reação é enérgica e grotesca.
- Afaste isso de mim!
A garota ergue suas mãos e vira seu rosto, sentindo grande repulsão pelo nojento presente. Gunther, ainda com o braço esticado, não entende a reação de sua amada e se entristece, deixando o abatimento se estampar em seu rosto.
Por fim Anneliese se vira e corre, assustada e irritada com a bizarra situação. O rapaz fica parado ali, sem reação ou emoção para enfrentar o momento. Então lágrimas se formam e escorrem de seus olhos, ficando triste e abatido ao ver a garota indo embora.
De volta ao seu apartamento, Gunther enche um copo d´água e coloca a rejeitada flor. Aproximando-se da janela, a mesma que brilha com a luz do holofote durante a noite, ele coloca o copo no espaço do peitoril. Aquele nauseante sangue ainda está ali e se escorre pelo vidro e pela parede.
Sentando-se em sua poltrona, ele acende um cigarro e pensa no ocorrido. Mas... de onde veio o cigarro? Como ele veio parar em sua mão? Mas, cansado demais para pensar a respeito, ele ignora e se deixa fumar.
De repente o telefone toca. Ou não toca, não é mais possível dizer.
- Alô?
- Gunther, sou eu. E então? Deu a rosa para sua amada hoje? Como ela se chama? Anneliese...?
O rapaz reconhece a voz feminina no outro lado da linha.
- Me deixe em paz.
- O amor é um sentimento tão lindo, não acha? As pessoas perdem a razão, se encantam, se apaixonam... e se iludem. Às vezes é tão forte que supera até a dor. E por falar nisso, como está a sua mão?
O rapaz se irrita.
- Quem é você, afinal?!
A voz no outro lado da linha se silencia. Gunther tem a impressão de ouvi-la sorrir.
- Você não devia fumar, Gunther. Isso te faz mal.
- Eu não me importo com o que você fala. Você nem é real. Talvez seja só uma voz ecoando dentro de minha cabeça.
- Tem certeza?
Então o rapaz se confunde.
Em um impulso ele desliga o aparelho. Respirando fundo, ele enxuga o suor de sua testa e então fuma mais um pouco. Pegando novamente o telefone, ele checa se ainda há alguém no outro lado da linha, mas o aparelho está complemente mudo, como se estivesse quebrado. Ele se assusta, estaria ele ficando louco?
De repente uma carta é arrastada por debaixo da porta. Levantando-se, ele a abre rapidamente. Olhando para sua casa, ele a examina, mas não vê ninguém. Parado ali por alguns minutos, ele sente o medo novamente o atormentando. Após a saída de sua mãe, ver seu apartamento escuro e vazio o inquietava. Tremendo, ele fecha a porta de seu quarto lentamente.
Ao abrir a carta, ele lê:
“Gunther, como uma âncora que segura um navio, você vai precisar de mim para não se perder. Realidade, existência ou sonho, não existe consciência fora da dimensão. Você não tem como fugir, o quanto antes aceitar isso melhor.”
O rapaz treme. Virando a folha, o verso está limpo, mas ao virar novamente, o texto havia mudado. A outra mensagem diz:
“E então? Sobre o que você quer falar?”




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