sábado, 21 de março de 2026

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta


(Artista desconhecido)

Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sala preparada para sua estadia.

Agentes da CIA[1] aparecem e o conduzem novamente para a sala de interrogatório. Desta vez havia uma televisão na parede. Os agentes então exibem imagens e vídeos do Shenzhou Wénzi em combate pelos céus de Shangai e Pequim. Em seguida ele vê o Wénzi sobrevoando o interior de Tiangong e, por fim, entre os prédios da capital marciana de Zhurong. Assim eles comprovam os relatos do piloto; Yang falava a verdade.

Jones o congratula por seu heroísmo. Ele diz:

- Você é um jovem muito corajoso, Tenente Haisheng. Meus parabéns.

Yang percebe que todos na sala assentem, congratulando-o em silêncio.  

- Eu agradeço o reconhecimento – começa ele –, mas eu preciso voltar ao combate.

 Os agentes da CIA lhe lançam um olhar sério. O almirante também muda de semblante, e então ele lhe explica a situação.

- Tenente Haisheng, você não é apenas um cidadão do governo mundial chinês, mas um próprio chinês. Você sabe da existência e da localização secreta de Belerofonte. Não podemos deixa-lo ir.

Yang protesta.

- Mas eu preciso ir! O planeta Terra precisa de mim!

Um agente da CIA olha para o almirante, meneia negativamente a cabeça e diz:

- Ele sabe demais.

Temendo, o piloto pensa:

“Vou ficar aqui para sempre?”.

- Eu perderei meus direitos e minha liberdade aqui?

- Não, exatamente. – nega o almirante – Você está livre para andar pela estação, se quiser. A sua estadia será paga pelo governo dos Estados Unidos. Quanto aos seus direitos, você terá todos eles garantidos pela lei de exílio.

- Exílio...?

- Considere um exílio compulsório. Se tentar fugir ou for pego fornecendo informação ao inimigo, você perderá todos os seus direitos e será tratado como um criminoso, sujeito às penas mais rígidas previstas na lei.

- Penas mais rígidas? Vocês vão me executar?

O almirante o corrige.

- Prisão perpétua. Em regime fechado.

- Vocês não podem fazer isso comigo! Há uma guerra acontecendo lá fora!

- Me desculpe, tenente. Foi o máximo que eu puder fazer.

E então os guardas entram e o levam de volta para a cela.

 

§

 

A notícia se espalha. Após uma semana cativo em Belerofonte, algo inusitado acontece. Yang é tratado como uma celebridade. Pessoas o abordam nas ruas e o cumprimentam, apertando-lhe a mão e tirando fotos.

O piloto aprecia o tratamento. Os americanos não são como ele pensava. Eles nunca o hostilizam tratando-o como inimigo. Ao contrário, eles são calorosos e alegres, o que o deixa muito acanhado.

Os americanos conversam e brincam, e alguns o convidam para beber. Ele vê famílias inteiras aproximando-se para conhece-lo, trazendo crianças de todas as idades. Os americanos tentam conversar em chinês, o que deixa a interação muito divertida.

Um homem diz:

- Não faça como em Taipei!

Yang entende a brincadeira. O homem se referia ao Tratado de Taipei, assinado entre a República Popular da China e os Estados Unidos da América em 2041. 

Naquele ano, a derrota americana finalmente fora assinada na capital da disputada ilha de Taiwan. Por quase cem anos a ilha esteve sob a proteção dos Estados Unidos. Anos antes, a China revolucionária intentava retoma-la para si, nunca reconhecendo-a como um Estado soberano.

Oficialmente a ilha de Taiwan também se chamava China, o que era inaceitável para o governo da China continental. “Só pode haver uma China!” diziam os representantes do governo. Entretanto, o nome foi mantido por motivos políticos. Após o fim da guerra civil, a ilha foi o destino de fuga dos nacionalistas liderados pelo General Chiang Kai-shek. Os revolucionários comunistas não quiseram atravessar o Estreito de Taiwan para, ultimamente, derrota-los, e por isso o nome foi mantido.

No final do século 20, os taiwaneses tentaram trocar o nome para República de Taiwan através de um plebiscito, mas o governo continental os impediram, ameaçando-os militarmente com sua poderosa marinha.

Mas o impasse finalmente se encerrou em 2040, com a derrota dos Estados Unidos, a perda da ilha para a China comunista e a humilhante assinatura do Tratado de Taipei.

E assim Yang passeava livremente pelas vias de Belerofonte, conhecendo mais um pouco do povo que ele foi ensinado a evitar.   

 

§

 

A preocupação o atormenta. Ele se pergunta onde estava o Wénzi e Li Fen. Os militares se recusavam a lhe passar qualquer informação, mas Jones prometera lhe informar se algo acontecesse.

Presumidamente, a frota do Alto Comando estava próxima do planeta rochoso de Mercúrio. Tiangong e Zhurong, por sua vez, deviam estar resistindo bravamente ao inimigo.

“Mas e quanto à Terra?”, pergunta-se Yang.

Ele se lamenta ao pensar que seu planeta já havia caído. O exército da China e as demais forças do mundo sucumbiam à agressão alienígena. A esta altura, os cidadãos do mundo padeciam com a escravidão ou, pior ainda, o extermínio.

O piloto se levanta, sacudindo sua cabeça e livrando sua mente desses pensamentos.

Yang ouve uma explosão lá fora. Em seguida o alarme no quartel-general soa. Assustado, ele abre a porta e vê soldados armados correndo de um lado ao outro pelos salões. Ele se intriga.

O almirante Jones está na sala de comunicações. Parando ao seu lado, os dois olham fixamente para o monitor na parede.

Avançando com toda força, uma frota inteira de cruzadores invade a zona de segurança de Belerofonte. Canhões e satélites espiões são destruídos. Esquadras são repelidas e abatidas. Então Yang nota algo; aqueles eram cruzadores diferentes. Na Terra, em Marte e em Tiangong os cruzadores eram enormes encouraçados longitudinais e pontiagudos. Em Belerofonte, eles eram altos e poligonais, como gigantescos prismas. O piloto se intimida.

Um cruzador mira seu poderoso canhão de energia e atira. A estação se estremece e eles veem o setor de Los Angeles ser pulverizado pelo espaço.

Unidades de combate são enviadas para defender Belerofonte. Elas disparam bombas e mísseis no assustador inimigo, mas mal podem causar danos em sua enorme fuselagem.

De repente escotilhas são abertas e os cruzadores liberam suas espaçonaves. Yang reconhece os infames enxames voando em espiral em direção à estação. As pessoas nas passarelas e vias virtuais assistem passivas os enxames se aproximarem, parecendo hipnotizadas por seu voo espiralado. O piloto se desespera.

- Diga-os para saírem de lá!

Mas o aviso veio tarde. Bombas de energia são lançadas e explosões tiram centenas de vidas instantaneamente. Em horror, Yang via se repetindo a tomada de Shangai.

O caos se espalha nas vias públicas. O quartel-general tenta manter a ordem, mas não havia tempo. Os monitores exibem imagens estarrecedoras de aeronaves tripuladas pousando sobre os prédios. Rupturas são feitas e tropas de assalto invadem a estação. Yang se surpreende; pela primeira vez ele via tropas alienígenas combatendo.

- Mas o que é isso...?! – intriga-se Jones.

As tropas vestiam armaduras marrom escura. Para a surpresa de Yang, os alienígenas tinham aparência humana, com corpo humanoide de dois braços e duas pernas. Suas faces, porém, estavam ocultas em seus capacetes.

Naves pousam próximas ao quartel-general. Fazendo brechas nas paredes, as tropas invadem os edifícios e trazem a guerra de volta para Yang.

Um tiroteio se forma. Desarmado e sozinho, o piloto se confunde. Desta vez ele não estava no Wénzi; agora ele não sabia o que fazer.

Os americanos lhe empurram um fuzil, obrigando-o a pegar, e então ordenam:

- Move! Move! Move![2]  

Levado pelo quartel-general, Yang se vê obrigado a lutar a pé pela primeira vez.

Há caos nas vias aéreas. Espaçonaves alienígenas se misturam com os hovercars, provocando acidentes ao redor. As brechas causadas pelos estragos provocam descompressão e pessoas são lançadas pelo espaço.

Enxames bombardeiam o hub da Times Square. Agora as forças inimigas estavam no coração da estação. Telões e letreiros são estilhaçados e destruídos. Naves adaga cruzam o ar, metralhando passarelas de civis. Naves americanas as perseguem, mas não são velozes o bastante para alcança-las. 

Bombas se explodem em toda parte. A Times Square fica escura, apavorando os civis. Ali eles experimentavam o terror psicológico da escuridão. Protegendo-se atrás de um balcão, Yang espia pela beirada e contempla o caótico ambiente; ele era iluminado pelos lasers dos fuzis humanos e alienígenas.

Lasers de cor vermelha, azul e verde cruzam o ar. Explosões amarelas formam clarões repentinos. Yang se sentia em um espetáculo pirotécnico de fogos de artifício de ano novo.

O almirante combate mais ao longe. Experiente e bem treinado, ele atira habilmente com seu fuzil. Muitos inimigos são alvejados por ele. Mas naquela escuridão, algo o atrapalhava. Devido ao seu uniforme branco, ele era um alvo fácil. Os inimigos pareciam se concentrar nele. 

Jones ordena que seus homens tomem posições defensivas e se protejam. Então algo acontece.

Um soldado inimigo se aproxima e o ataca. Jones estava distraído e é pego de surpresa. O inimigo o golpeia com a cauda de seu fuzil e o almirante cai. Prestes a ser atacado novamente, Jones se levanta e, com um golpe de artes marciais, derruba o soldado, desarmando-o também. Jones entra em luta corporal. Seu histórico de lutador profissional é novamente posto à prova. Os dois trocam socos e chutes, mas o almirante é um lutador experiente. O inimigo usa armadura e seus golpes são absorvidos no impacto, causando-lhe frustração. Assim Jones é obrigado a mudar de estratégia.

Agarrando o inimigo, o almirante o derruba. Subindo em seu peito, Jones o põe em completa submissão. Ele pega um pedaço de ferro e golpeia sua cabeça, ao ponto do inimigo se atordoar. E assim o almirante prevalece.

Sendo ele mesmo um homem forte, Jones agarra firmemente o capacete do inimigo e diz:

- Agora vamos ver do que vocês são feitos!

Ele finalmente arranca o capacete. Mas algo inesperado acontece. Ao contemplar a face do inimigo, seu corpo alienígena se dissolve. Então Jones se senta no chão, confuso.

Uma explosão é ouvida e então Yang aparece.

- Almirante! Temos que ir!

O piloto o ajuda a se levantar e ambos avançam pela estação.

Apesar de militar, Yang é inexperiente em combate a pé. Seu fuzil não era chinês e sim americano; ele se abaixa e atira, mas seus tiros erram o alvo constantemente. Ele tenta entender o armamento, distraindo-se. Então Jones o puxa para segurança.

Lutar ao lado do almirante era algo admirável. Jones atirava, se protegia e abatia vários inimigos. Yang seguia logo atrás, sempre protegido por ele.

A estação se estremece. Em seguida sirenes se acendem e um alerta ensurdecedor percorre todos os setores.

Um soldado americano se aproxima e diz:

- Senhor! Os reatores nucleares foram atingidos! Precisamos evacuar Belerofonte!

O almirante arregala os olhos.

- Evacuar?! Negativo, major!

Outro tremor é sentido. Recebendo uma mensagem no comunicador, o major informa:

- Senhor, o setor São Francisco foi gravemente danificado e está em gravidade zero!

Jones sabe o que aquilo significa. Os habitantes estão indefesos e logo estarão sem oxigênio devido às rupturas no casco.

Por fim ele responde:

- Minha família! Eu preciso evacuar minha família!

Ouvindo-o, o major se comunica no aparelho e então o informa:

- Senhor, sua família está no outro lado da Time Square. – e então ele aponta o caminho.

Yang vê uma passarela de pedestres conectando os dois lados do hub. A visão é desanimadora. Naves adaga atravessam o ar, metralhando os pedestres que correm de um lado ao outro tentando sobreviver. Acima, os cruzadores prismáticos pairavam no espaço, como sinistros monólitos da morte.

- Então o que estamos esperando? Vamos logo! – responde o corajoso almirante.

Yang e Jones iniciam a travessia. Um grupo de soldados vai logo atrás, protegendo-os. Mas sua proteção era de pouca importância. Carros em chamas avançam contra a passarela e se colidem, assustando-os. As adagas os sobrevoam e atiram, metralhando os pedestres. De repente um amarelo incomum ilumina suas cabeças e eles se intrigam. Olhando para cima, um cruzador carregava seu laser, preparando-se para atirar.

- Protejam-se!

O laser é disparado e atravessa o casco, rasgando os prédios e partindo a passarela em dois. Alguns soldados são queimados vivos, evaporando-se ao nível de partículas. O grupo se paralisa.

- O que estão fazendo?! Movam-se, homens! Movam-se!

Após a ordem, Yang sai de seu transe e volta a se mexer. Mas o casco estava rompido e logo a descompressão iria suga-los para fora. Eles precisavam se apressar.

Atravessando os escombros, eles entram em um edifício e fecham a porta de segurança, livrando-se de serem lançados no espaço.

A estação se estremecia. Em minutos ela ia se despedaçar por dentro, queimando a todos no fogo nuclear. Ficar e lutar já não era mais uma opção. Jones olha pela janela e vê sua querida Belerofonte sucumbir. Fechando os olhos, ele tem uma decisão difícil a fazer.

- Major, onde minha família está? – pergunta ele.

- Nos quarteirões residenciais, senhor. Não muito longe daqui.

- Entendido. Mudança de rumo, major. Nós vamos para o espaçoporto.

O major e os soldados se intrigam.

- Senhor?

- É isso mesmo, major. Há naves inimigas por toda parte e nossa força aérea não é capaz de detê-los. Mas conheço uma nave e um piloto que podem.

Então os soldados olham para Yang.

- Wénzi... – sussurra ele.

- Vá, Tenente Haisheng. Torne o espaço seguro para podermos fugir. – pede Jones.

Novamente Yang sente o peso da responsabilidade recair sobre os seus ombros, mas dessa vez ele não teme. Ele estava ansioso para voar.

O caminho para o espaçoporto estava tomado pelo inimigo. Jones e os soldados lutavam bravamente em formação militar rígida e disciplinada. Pessoas corriam de um lado ao outro, dificultando o combate. Mesmo Yang combate com bravura, desajeitado e desacostumado ao combate a pé.

O vácuo do espaço os ameaçava. O casco é rompido e portas de segurança são ativadas automaticamente, selando passagens inteiras. Acima, os enxames prosseguiam com sua tática brutal, atacando e destruindo prédios residenciais e espalhando o pânico. Naves do tipo adaga passavam rápidas como um raio, metralhando passarelas de civis. O perigo estava no solo e no espaço.

Eles finalmente chegam ao espaçoporto. Na pista, espaçonaves americanas eram atacadas e destruídas pelos enxames. Os americanos perdiam suas defesas a cada minuto. Ao longe, as barreiras Kinect mantinham a pista a salvo do vácuo, mas não podiam ser fechadas. Naves inimigas entravam e causavam danos, e os americanos as repeliam com seus canhões antiaéreos.  

Dirigindo-se a à entrada de um hangar, o grupo para em posição de defesa. Jones aciona um painel que faz a sua leitura facial. Yang reconhece que aquele hangar era protegido por segurança máxima e que apenas pessoas estritamente autorizadas podiam acessa-lo.

A porta se abre e o grupo entra. Alguns soldados são atingidos e caem, mas seus companheiros os arrastam para dentro. “Ninguém fica para trás”, lembra-se Yang do lema do Exército Americano.

Mantido em observação, Wénzi se encontrava rodeado de cabos e monitores. Engenheiros e cientistas tentavam decifra-lo, estudando-o e assimilando sua tecnologia. O almirante dá a ordem e os cabos são desconectados da espaçonave, liberando-o para uso.

A estação treme novamente. O tremor se reverbera e outro alarme é acionado. O major diz:

- Senhor, as paredes dos reatores nucleares foram rompidas! Se os reatores forem atacados, começará uma reação em cadeia e...

- Eu sei, major!

O almirante o interrompe. Ele sabe o que aquilo significa. Belerofonte estava condenada. Não havia mais nada que se podia fazer.

Olhando para Yang, ele diz:

- Yang! As naves de fuga estão sendo tripuladas neste momento! Preciso do espaço seguro! Você tem cinco minutos! Faça o seu melhor, tenente! Te daremos cobertura daqui!

O piloto arregala os olhos.

Subindo pela fuselagem, Yang liga a espaçonave e vê os painéis ligando pela primeira vez em um mês.

Enquanto a cabine se fecha, uma voz diz:

- Olá, Piloto Haisheng.

- Navcom! – exclama ele – Que bom ouvi-lo novamente!

Yang estava tão feliz que nem mesmo o corrige por falar formalmente de novo.

As portas do hangar estavam abertas. Os americanos acenam, pedindo-o para se apressar. Levantando o trem de pouso, Yang aciona os propulsores e o deixa rapidamente.   

Os enxames dominavam o espaçoporto. Apesar dos canhões antiaéreos, a quantidade excessiva dos inimigos os sobrecarregava. A batalha parecia ganha para os alienígenas, mas então algo acontece. Shenzhou Wénzi entra em combate.

Os soldados na pista de pouso ganham esperança. O caos de outrora é substituído por um aliado aéreo que se misturava ao inimigo e os abatia na mesma agilidade. Atônitos, eles viam aquela nave de aparência bizarra voando de um lado ao outro, leve como um balão de gás hélio e ágil como um mosquito.

Algo se explode na fuselagem do Wénzi. Navcom imediatamente acusa o dano.

- Escudos a 85%.

Yang se confunde. Ele não viu nenhuma bomba de energia vindo dos enxames. Olhando para baixo, ele vê um grupo de soldados alienígenas portando lançadores de foguetes em uma plataforma.    

O grupo se preparava para atirar de novo. O piloto estava vulnerável; ele não podia usar a metralhadora Vulcan ar-solo, os americanos seriam atingidos. Então os alienígenas são alvejados e caem abatidos. Yang se intriga.

O almirante Jones surge na plataforma, acompanhado por seus soldados. Olhando para Yang lá em cima, ele fuma seu charuto e acena com a cabeça. Sorrindo, o piloto acena de volta.

O espaçoporto é um local confinado, mas Yang não tem dificuldade em manobrar. Além da alta velocidade, o Propulsor Luciferino Hyperdrive lhe garantia manobrabilidade formidável, mesmo em espaços curtos.

Com a presença do Wénzi, os americanos evacuam o espaçoporto e se dirigem para defender o hub central da estação. Aproveitando a chance, Yang seleciona o laser Estrela da Manhã e aperta o gatilho. O que ocorre a seguir é um espetáculo mortal de luzes. O laser se ricocheteia várias vezes pelas paredes, destruindo os inimigos e tornando o espaçoporto uma caixa infernal de lasers azulados em todas as direções.

Navcom informa:

- Mensagem a caminho, senhor.

“Piloto Haisheng, pode me ouvir?”.

Yang responde:

- Sim, almirante Jones.

“Estamos indo para a ponte. Vá para o espaço exterior. As naves tripuladas já estão nas docas. Proteja-as!”.

- Sim, senhor!

Deixando o espaçoporto, Yang sobrevoa a colossal estação. Explosões ocorriam por toda parte e detritos se espalhavam pelo espaço. A visibilidade era prejudicada; lutar na gravidade zero seria árduo. As naves adaga percorriam a estação em todas as direções, cansando as naves americanas e dominando o combate. Ao longe, os enxames subiam e desciam dos outros setores, em seu voo espiralado e hipnótico.

Como em Zhurong, os cruzadores pairavam sobre Belerofonte, liberando enxames e disparando lasers. A estação naufragava no horror.

As docas estavam mais adiante. Grandes e lentas, as naves tripuladas portavam apenas civis. Canhões antiaéreos defendiam as docas, mas não eram suficientes para conter o ímpeto do inimigo. Alguns canhões são destruídos e as naves sofrem danos leves. Yang precisava se apressar.

Com seu poderoso arsenal, o piloto repele facilmente os enxames. As adagas tentam sobrepuja-lo, mas com o propulsor israelense eles são alcançados e abatidos. Ao seu lado a frota americana lutava bravamente, oferecendo-lhe suporte.

Os cruzadores se aproximam. Destruí-los seria perda de tempo e de recurso. Puxando os manches, Yang alcança o topo dos cruzadores e seleciona o canhão Yu Huang. O amarelado laser é disparado e atinge as escotilhas de suas docas. O que Yang pode fazer é apenas danificar as docas de saída, evitando a liberação dos enxames. 

O cruzador dispara seu laser. Yang assiste perplexo o laser causar uma ruptura no casco e o vácuo sugar pessoas ainda vivas para fora.

Yang não podia se distrair; as naves tripuladas ainda precisavam fugir.

Sobrevoando as docas, o piloto destrói o inimigo sem dificuldade. Mas os cruzadores que causavam destruição em outros setores se aproximam. Eles pareciam sentir que um inimigo contundente os ameaçava.

Aproximando-se da ponte, Yang vê o almirante e seus subordinados atrás de uma imensa janela.

- Almirante Jones, peça para os pilotos se apressarem! Eu não posso segura-los por muito tempo!

Ouvindo-o, o almirante olha para o major e pergunta:

- Major, minha família já está a bordo?

Informando-se no comunicador, o major responde:

- Afirmativo, senhor! Sua esposa e suas filhas já estão a bordo, senhor!

Enquanto conversam, algo acontece. Explosões nucleares são vistas ao longe. O clarão ofusca a vista de todos e os obrigam a se protegerem. O casco dos setores se rompe, formando uma reação em cadeia catastrófica.

- Devemos evacuar a estação, senhor!

- Não! – responde ele – Eu não vou a lugar algum.

Os soldados se espantam. Eles podem ver que lágrimas se formavam nos olhos do almirante.  

- Senhor...?

Jones está em silêncio. Contemplando a estação, ele vê sua vida e seu sonho sendo destruídos diante de seus olhos. Nada mais podia ser feito; Belerofonte estava condenada.

- Vocês podem partir se quiserem. Eu ficarei aqui.

Os soldados se entreolham.

- Negativo, senhor! Nós também vamos ficar!

- Isso é uma ordem!

Os soldados se mantém firmes.

- Nós não iremos deixa-lo, senhor!

Jones sorri.

“Ninguém fica para trás”, pensa ele.

As naves tripuladas levantam voo e se afastam lentamente. Graças a Yang, o espaço estava seguro para partirem.

Outra explosão é ouvida, balançando a ponte.

Do espaço, Yang vê o almirante parado e se intriga. As explosões estavam perto demais, já não havia mais tempo para fugir.           

Atrás do Wénzi, Jones vê as naves tripuladas ativando seus propulsores e se afastando rapidamente. Yang havia salvado sua família. Ele reconhece; graças a Yang, sua família estava bem. 

Então algo inacreditável acontece.

Vendo que sua família estava a salvo e que sua missão estava cumprida, o almirante presta continência a Yang. Os soldados se espantam. Aquilo era algo impensável de se fazer para um militar chinês. Mesmo o piloto se espanta.

Então, cheio de orgulho e lágrimas, Yang estufa o peito e bate continência também, correspondendo-o. Ambos sorriem.

Alguns segundos depois, o casco se rompe e uma explosão devastadora engole a todos na ponte, fazendo Jones e seus soldados desaparecem atrás de uma tenebrosa bola de fogo. O vidro da janela se estoura e fragmentos voam em direção ao espaço. Recebendo danos, o piloto é obrigado a se retirar.

E assim Yang permanece, impotente diante da explosão final que tirou a vida de seu breve amigo.

Evadindo os cruzadores, Yang ativa o Propulsor Luciferino e se afasta. Em seguida Belerofonte se explode logo atrás, em uma explosão nuclear tão imensa que é capaz de iluminar o espaço como o nascimento de uma nova estrela.

Mas, no caso de Belerofonte, uma estrela morta.

  

 


[1] “Central Intelligence Agency”, ou Agência Central de Inteligência em inglês.

[2][2] “Mova-se! Mova-se! Mova-se!” em inglês.

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...