domingo, 1 de fevereiro de 2026

Shenzhou Wénzi - 16 - Almirante Jones

 


Escoltado pelos soldados, Yang avança pela imensa estação. Mas aquela era uma estação diferente. Tiangong era mais funcional, tinha poucos detalhes estéticos e funcionava como um entreposto humano entre a Terra e o espaço. Belerofonte era mais viva, pois nela pulsava em vida e energia.

Yang vê hubs que levavam a diferentes alas da estação. Em um interessante cruzamento, ele vê telões e propagandas semelhantes à Times Square. Naves civis trafegavam pelo cruzamento, sobrevoando em diferentes níveis como se fossem vias públicas. Mas diferentes das avenidas da Terra, com faixas de rolamento ao lado uma das outras, ali as faixas estavam acima e abaixo.

O tenente se distrai. Aquelas luzes brilhantes lhe fascinavam. Na China também haviam cidades pulsantes, mas em Belerofonte era diferente. Ali haviam fast-foods, marcas de roupas e grifes famosas, um comércio próspero que rivalizava com o de Tiangong. A estação era como um porta-aviões do século 21; uma verdadeira cidade flutuante com restaurantes, hospitais, alojamentos e centros de recreação para a tripulação. De fato, Yang se sentia em uma Nova Iorque adaptada e escondida no espaço.

- Andando!

Um soldado empurra suas costas, fazendo-o retomar a caminhada.

Eles chegam ao quartel-general da estação. Yang vê dezenas daqueles paramilitares armados pelo local, e todos saúdam o almirante prontamente. O almirante Jones aparenta ter muito respeito.

Yang é colocado em um elevador e todos sobem para os andares superiores. O almirante conduz o grupo por um requintado corredor, com longos tapetes e luminárias nas paredes. Ao abrir uma porta dupla, ele revela sua sala. Yang vê uma bela mesa e três confortáveis poltronas. Atrás da mesa há uma belíssima janela com uma vista panorâmica da estação. Mas o que mais lhe chama a atenção é a decoração; retratos, medalhas e troféus nas paredes. O almirante era um ex-lutador de MMA[1]. Em sua sala ele colecionava títulos e mais títulos de torneios e campeonatos. Aparentemente ele foi um excelente lutador, pois Yang vê muitos troféus de campeão.

“Realmente, é um homem muito forte”, pensa ele.

- Sente-se. – pede o almirante.

Ao sentar-se, o piloto se intriga. Ele esperava ser levado a uma sala de interrogatório, e não à sala pessoal do almirante.

Pegando um copo de uísque, o almirante lhe serve e lhe oferece um charuto. Jones pega um isqueiro e, ao abri-lo, imediatamente a chama se forma.

Com a boca soltando fumaça, o almirante diz:

- Fique à vontade.

Yang acha isso muito difícil, pois aqueles soldados ainda estavam atrás dele, portando seus fuzis e prontos para alveja-lo sem aviso.

- Perdoe meus maneirismos. Prefiro tratar bem os meus hóspedes.

- Hóspedes? – intriga-se Yang – Acredito que eu seja um prisioneiro.

Tirando o charuto de sua boca, ele responde com olhar sério.

- Estamos em guerra, tenente. Nossa derrota é passageira, não permanente.

Yang não entende.

- Do que está falando?

Virando-se, ele olha junta as mãos atrás das costas e olha pela janela.

- Meu avô estava lá quando aconteceu. Ele era da Marinha, mas estava em Washington quando começou. O canhão chinês Yu Huang Shang-ti, ou o Imperador de Jade para os ocidentais, dizimou nossa capital. O laser desceu como um raio do céu e torrou a cidade. O calor intenso provocou a explosão dos tanques de combustível dos carros e da tubulação de gás propano nos edifícios. Meu avô viu pessoas sendo queimadas vivas, derretidas até os ossos, fulminadas pelo laser mortífero.

Yang arregala os olhos.

- Isso é horrível...

- Washington pegou fogo. Carros, árvores, pessoas... Mesmo a Casa Branca ardeu em chamas. O calor foi tanto que estourou o vidro das janelas, alguns até derreteram. Nunca se viu uma devastação tão trágica assim nos Estados Unidos. Todos acreditaram ser um ataque nuclear.

O almirante bebe um gole de seu uísque e depois fuma seu charuto.

- A imponente frota americana, com sua poderosa esquadra e seus porta-aviões, também foram queimados pelo laser repentino. O ataque viera do espaço, então não pudemos nos defender; a China havia violado o tratado internacional de não utilizar o espaço para fins militares.

Fumando mais um pouco, ele continua:

- Nosso submarinos nucleares foram detectados pela inovadora tecnologia subaquática e espacial chinesa. A China monitorava tanto a terra, quanto o espaço e o fundo do mar com seus sonares, radares e satélites. Suas bases se encontravam nas ilhas artificiais construídas no Mar do Sul da China. – afirma ele e em seguida ele lamenta – Não devíamos tê-los deixado ocupar o mar próximo das Filipinas.

Yang sabe do que ele está falando. No começo, era apenas ilhas artificiais, mas depois a China havia construído um verdadeiro arquipélago militar marítimo.

- Graças a essa tecnologia, os ataques de submarino foram previamente detectados, assim minimizando os estragos em solo chinês.

Algum tempo se passa e um silêncio pesado paira na sala. O almirante ainda está de costas, olhando pela janela. De repente ele esmurra o vidro e conclui:

- Aquilo foi um ataque traiçoeiro e covarde, como um segundo Pearl Harbor!

O piloto se sente ofendido.

- Almirante, eu não tenho os detalhes históricos, mas ambos os países estavam em guerra nos séculos passados, primeiro econômica e depois militarmente. Venceu quem teve a maior vantagem.                   

Jones sorri em desprezo.

- Mas a que custo, tenente Haisheng? Nossos mísseis contra-atacaram cidades chinesas, mas mísseis chineses, russos, iranianos, norte-coreanos e de todos os outros inimigos da América nos atacaram de volta. Meu país foi varrido do mapa, e o que sobrou foi um solo calcinado de cinzas, ocupado por forças estrangeiras. A China se reconstruiu com a vitória, mas meu país jamais pôde ser reconstruído. Pelo menos... – e então ele hesita – não no planeta Terra.

O piloto reconhece.

“Belerofonte...”, pensa ele.

- Após a derrota, os Estados Unidos construíram uma estação à sombra do imperialismo chinês. E hoje o que você vê... – diz ele, indicando a estação atrás de si – é o orgulho americano que jamais morreu com a rendição.

Sentando-se, o almirante põe o charuto no cinzeiro e diz:

- Mas vamos deixar o passado de lado e tratar do presente. – cruzando os dedos, ele pergunta – E então, tenente? O que realmente te aconteceu?

Yang respira fundo e abaixa a cabeça. Cativo em uma estação espacial de uma nação inimiga, ele não vê outra opção senão cooperar.

O piloto relata o que aconteceu desde a invasão da Terra até sua fuga de Zhurong. Ele comenta que desde então as Forças Armadas chinesas vêm sofrendo apenas derrotas. A Terra estava exposta e o inimigo atacava na terra, no céu e até no fundo do mar. A tecnologia alienígena liberava unidades capazes de se adaptar a todos os ambientes, subjugando as exaustas forças de defesa. Em tom obscuro, Yang afirma que o destino do mundo e o futuro da raça humana estavam por um fio.

O almirante escuta tudo com atenção e não ousa interrompe-lo em nenhum momento. Quando o piloto conclui seu relato, Jones fica apenas pensativo, sem responde-lo.

Um minuto se passa. De repente o almirante quebra o silêncio e diz:

- Vamos, tenente. Vamos caminhar um pouco.

Dez minutos depois, Yang e Jones caminham pela estação. Para a surpresa do piloto, eles parecem caminhar como dois conhecidos, ou como o almirante parece dizer, dois amigos pegos em lados opostos da guerra tentando entender um ao outro.

Eles conversavam normalmente. Apesar do sotaque, o almirante entende e fala bem o chinês. Yang, por sua vez, tenta pronunciar algumas palavras em inglês também, o que deixa a conversa bastante descontraída. Em dado momento, Yang vê pessoas de aparência asiática na estação. Ao entrar em uma rua, ele vê portais taoístas, lanternas nos postes e letreiros em chinês. Ele se espanta.

- Sim, também existe uma Chinatown em Belerofonte. – comenta o almirante ao ver seu espanto – Ela é composta por asiáticos de várias nacionalidades, mas em sua maioria chineses.

- Eu não entendo. Apesar da China ter vencido a guerra e ter instaurado um governo mundial, ainda há chineses leais aos Estados Unidos?

- Sino-americanos. – corrige Jones – Sua descendência é chinesa, mas são legítimos cidadãos americanos aqui.

- Eles não foram postos em vigilância, assim como o foram os japoneses durante a Segunda Guerra Mundial?

- Não. Estes chineses são naturais americanos há gerações. A imigração chinesa começou no século 19, focada no trabalho manual no oeste americano. Os trabalhadores foram trazidos para trabalhar na construção de ferrovias e minas. Mais tarde, houve uma segunda onda de imigração, mas os imigrantes vinham de centros urbanos e falavam mandarim, diferente da primeira onda em que a maioria falava cantonês.

Yang assente. Apesar de ser no mesmo país, ele não falava cantonês.  

- No começo do século 21, estimava-se que haviam mais de 4 milhões de descendentes vivendo nos Estados Unidos. Dos que imigraram, 56% pediu naturalização. Os demais atravessavam a fronteira e permaneciam ilegais.

Interessando-se, o piloto pergunta:

- Por que a imigração foi tão massiva?

- As motivações variam. Estabilidade econômica, educação, liberdade para os negócios e, para alguns, asilo político devido as repressões políticas na China.

Yang se incomoda.

- A China é uma nação poderosa e próspera. Acredito que muitos desses imigrantes foram iludidos pela tal liberdade na América.

- A liberdade é um dos pilares inabaláveis da América. – afirma ele – “A terra dos livres”. A cultura greco-romana influenciou fundamentalmente o Ocidente. Seus ideais como República, democracia, liberdade, direito e ética ainda compõem o orgulho americano até hoje.      

Enquanto conversam, Yang ouve vozes e três mulheres se aproximam correndo. Ele vê uma mulher loira e suas duas filhas adolescentes parecidas com o pai; era a família do almirante. As filhas usavam roupas esportivas e o piloto reconhece uniformes de vôlei.     

Jones fica alguns minutos conversando com sua família. Yang os observa logo atrás. O piloto também tinha família, mas os deixou cedo para ingressar na Força Aérea. O Tenente General Junlong foi sua família por um tempo, assim como sua ambiciosa filha. Lin Fei sempre foi indiferente e até hostil a Yang, mas Junlong lhe foi uma figura paterna que o conduziu por sua juventude e sua carreira militar. Tragicamente o general se sacrificou para que ele e o Alto Comando pudessem fugir de Pequim, mas seu sacrifício foi heroico e hoje Yang luta para que não tenha sido em vão.    

A esposa e as filhas do almirante vão embora. Ele então comenta:

- Como dever ter visto, no passado eu fui um lutador de MMA. Eu me ingressei, competi e ganhei vários campeonatos. Ganhei medalhas, troféus e cinturões. Muitas vezes eu defendi meu título, vencendo meus oponentes inclusive em revanches. Eu era imbatível, ninguém conseguia tomar o cinturão de mim. Desta forma, eu me tornei uma celebridade em meu país. – orgulha-se ele – Minhas filhas gostam de esportes por minha causa. Elas jogam vôlei e gostam muito. Apesar de toda essa guerra, eu, como pai e almirante desta estação, me esforço para que elas tenham um vida normal e digna como eu tive.

Yang assente em concordância.

O piloto não tem esposa e nem filhos, mas percebe que, além de forte, o almirante era um homem muito dedicado e amoroso quanto as suas filhas.

 

§

 

Uma hora depois, Yang está de volta no quartel-general de Belerofonte. A escolta o conduz para a sala de interrogatório e ele permanece sozinho. Na sala há um espelho falso e ele sabe que há pessoas no outro lado registrando tudo o que está acontecendo.

Alguns minutos depois, Jones entra e permanece em silêncio em um canto. Dois homens e uma mulher entram. Yang nota que eles vestem paletós e crachás com a sigla FBI[2]; eram os investigadores ou detetives, como eram chamados nos Estados Unidos.  

O interrogatório começa e Yang novamente relata o que aconteceu desde Zhurong. Ao terminar, os detetives lhe lançam olhares desconfiados; o piloto omitia o destino do Alto Comando por questões de segurança pessoal e política.

O interrogatório prosseguia de maneira redundante. Yang se recusa a dar detalhes, omitindo e se silenciando em alguns momentos. Então Jones dá um passo à frente e, encarando-o, pergunta:

- O que aconteceu com o presidente e a cúpula do governo mundial chinês?

Sorrindo, o piloto responde de maneira perspicaz:

- Almirante, nós somos soldados. O senhor sabe que eu não posso falar.    

Então todos assentem em silêncio.

Dando a ordem, Jones chama sua escolta e Yang é levado pelo quartel-general, onde permanece sob custódia por mais alguns dias.

 

 



[1] “Mixed Martial Arts”, ou Artes Marciais Mistas em português.

[2] “Federal Bureau of Investigation”, ou Departamento Federal de Investigação em português.  

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