(Arte de George Roux)
O velho portão
estava enferrujado e coberto de trepadeiras. Valentim saca seu punhal, corta a
vegetação e o abre. O portão ruge, demonstrando anos de abandono, e os três
cruzam o vasto jardim, passando pela vegetação alta e úmida. Enquanto caminham,
a lamparina de Plasma ilumina uma fonte arruinada. A água parada estava preta
de tão suja, e no meio se elevava uma estátua de Virgem Maria. Ao vê-la,
Valentim faz o sinal da cruz e, por fim, beija sua mão.
Tobias contempla
o convento à sua frente. Sua arquitetura barroca e renascentista estava coberta
de vegetação e sujeira. Haviam muitas janelas em sua fachada, mas a maioria
estava com os vidros quebrados. Nas paredes haviam funestas manchas negras; era
o sinal do fogo que incendiou o prédio anos atrás.
A freira de nome
Milka Štukelj foi acusada de atear fogo no local. O governo de Carníola reconstruiu
o prédio, mas ele acabou abandonado posteriormente. Os frequentadores se
queixavam de frequentes aparições de uma freira nos corredores e cantos escuros
do convento. Desta maneira, a fama de que o convento era assobrado começou.
A cerração verde
ainda se arrastava pela noite e nuvens pesadas rolavam pelo céu, como se
protegessem o ilustre prédio na escuridão. O vento zune pelas janelas escuras e
lhes provocam arrepios. Então Tobias vê alguém. Enquanto passava com a luz da
lamparina no prédio, seus olhos detectam uma pessoa no andar superior. Ele
volta rapidamente com a luz, mas, ao olhar de novo, não havia ninguém.
Davud percebe sua
inquietação e pergunta:
- Algum problema,
inspetor?
- Eu... – hesita
ele – Não é nada, guarda. – ele se confunde – Não é nada.
A entrada ficava
abaixo de uma belíssima torre de campanário. No topo, eles veem uma eminente
cruz enferrujada. As portas eram lindamente entalhadas e estavam embarricadas
com tábuas. Valentim, como sempre, toma a iniciativa e avança sobre o capim
alto, intentando invadir o prédio.
Valentim pisa no
assoalho, que range sob os seus passos. Ele agarra as tábuas pregadas e, com
suas mãos calejadas, as puxa, despregando-as bruscamente e provocando sons
altos. Os estalos ecoam pelo interior do convento, denunciando suas chegadas. Valentim
gira a maçaneta, mas a porta estava emperrada. Sem nenhuma delicadeza, ele
chuta a porta, estremecendo as paredes e despejando uma porção de resíduos.
Com a lamparina
em suas mãos, os três espiam lá dentro. O interior se revela como as entranhas
de um mausoléu esquecido. Eles veem um vasto salão com as paredes pichadas e o
piso coberto de detritos. Havia uma escadaria para o andar superior e um lustre
empoeirado no teto.
As salas escuras
lhes atiçavam a imaginação. O vento frio entra pelas janelas e zune dentro do
edifício. Tobias se empalidece de medo, mas se mantém em silêncio.
Valentim e Davud
adentram o prédio, fazendo seus passos estalarem sob o velho assoalho. Tobias
hesita na porta, suando frio como se seu corpo tivesse se endurecido. Seu
assistente olha para trás e, ao vê-lo parado ali, pergunta:
- Algum problema,
Tobias?
- Eu... – hesita
ele – Senhores, eu devo lhes confessar uma coisa. Eu tenho medo de fantasmas.
Os dois riem.
- O senhor tem
medo de fantasmas?! – espanta-se Davud.
- Ora, então o
famoso Inspetor Hessler, que descobriu os efeitos sobrenaturais e os males do
Plasma, tem medo de assombrações? – ironiza Valentim.
- Perdoe-me a
colocação, inspetor Tobias, mas na Gendarmerie o senhor adquiriu fama por
levantar questões sobrenaturais e paranormais referentes ao Plasma. Me é irônico
agora o senhor temer o que o senhor mesmo teorizou.
Justificando-se,
ele responde:
- Eu cresci em
uma casa antiga na Áustria, um casarão centenário se querem saber. Tive
experiências muito ruins lá.
Mas os dois não
lhe dão atenção e continuam zombando dele.
Com muito esforço
o inspetor retoma o controle e então entra no convento.
As paredes
estavam podres e descascadas. Teias de aranha se revelavam nos cantos do teto.
Enquanto caminham, estalos sinistros eram ouvidos à distância, como se alguém se
esgueirasse no escuro. Davud pergunta:
- Por falar
nisso, esta é a primeira vez que o senhor lida com um fantasma, inspetor
Hessler?
Tremendo a
maxilar, Tobias responde:
- Acredito que
sim, guarda Davud. Mas devo relembra-lo que, para a criminalística, fantasmas
não existem.
Tobias responde
daquela maneira quase como se quisesse convencer a si mesmo.
Então Valentim
entra na conversa e faz uma pertinente pergunta:
- Mas deixamos de
considerar isto desde que o Plasma surgiu. Aliás, eu me lembro de uma
interessante conversa entre o guarda Mladen e o guarda Davud no Monte Santa
Maria, em que Davud dizia que os fantasmas existem. Como era mesmo o nome deles?
“Djinns”?
E então os dois
olham para Davud.
- Sim, é verdade.
Os djinns são seres feitos de um fogo que não fumega. Ele consta principalmente
no capítulo 72 do Alcorão, e significa “aqueles que não se pode ver”. Eles são
seres racionais paralelos aos humanos, e ambos foram criados para adorar a Allah. Os djinns são mais fortes e mais
rápidos do que nós e, semelhante a nós, eles também serão julgados por suas
ações no Dia do Julgamento.
Tobias pergunta:
- O Alcorão
informa onde os djinns vivem?
- Geralmente eles
aparecem em locais desertos e abandonados, como este, por exemplo. De acordo
com alguns haddiths, os djinns comem
como os humanos, mas ao invés de comida fresca, eles preferem ossos e carne
podre. A noite é considerada perigosa para os muçulmanos, pois os djinns deixam
seus esconderijos e, se provocados, podem lhe fazer mal.
O inspetor
pondera.
- Então eles são
maus?
- É difícil
dizer. Um haddith orienta a fechar as
portas e manter as crianças dentro de casa à noite, pois os djinns podem
sequestra-las. Se a pessoa for descuidada, eles podem levar objetos embora. O haddith os divide em três grupos: um
tipo de djinn que voa pelo ar, outro que assume a forma de cobras e cães, e um
terceiro que se move de lugar a lugar como os humanos.
Insatisfeito,
Valentim faz uma pergunta mais direta:
- O diabo é um
djinn?
Os dois se
assustam com sua pergunta. O assistente não tinha medo de soar agourento.
- Acredito que
sim. O Alcorão trata o diabo como shaitan
e o relaciona ao líder dos shayatin,
ou seja, os demônios. Seu nome é Iblis.
- Iblis...? –
indaga Tobias.
- O haddith narra
que Iblis induziu Adão a comer o fruto da árvore proibida, argumentando que, ao
comê-lo, ele se tornaria imortal. Iblis torna as pessoas esquecidas, reina
sobre nações más, encoraja o assassinato e a rebelião, e também trai seus
próprios seguidores. O islã nos orienta a não seguir o diabo, assim tornando
explícito que os humanos são livres para escolherem entre o diabo ou a Allah. Entretanto, o diabo apenas
promete ilusões.
Ponderando,
Tobias comenta:
- Então esta é a
natureza dos djinns?
Valentim faz
outra pergunta:
- Como podemos
mata-los?
Davud se espanta.
- Não se pode
mata-los! Na verdade, eu não sei se pode! Os djinns aparecem em amuletos e
talismãs. Eles são chamados para proteção ou auxílio mágico. As pessoas que
acreditam em djinns usam amuletos para se protegerem contra ataques de outros
djinns, estes lançados por bruxas e feiticeiros. Nós, muçulmanos, acreditamos
que não podemos ser feridos pelos djinns se usarmos algo com o nome de Allah. – e então ele aponta para sua
faixa na cabeça – De qualquer forma, alguns estudiosos associam a invocação de
djinns com idolatria.
Desta vez é
Valentim quem pondera.
- Quer dizer que
os fantasmas dos muçulmanos vivem em amuletos e talismãs, não é? Então eu já
sei o que devo fazer.
Os dois se intrigam.
- O que quer
dizer, senhor Valentim?
- Não me
interessa se são djinns, fantasmas ou Wraiths
aqui dentro. Se eu encontrar um talismã no convento, eu o esmagarei sob os meus
pés! – então ele continua caminhando em silêncio.
Alguns minutos
depois, Davud para bruscamente. Olhando para cima, ele pergunta:
- Vocês ouviram
isso?
Os dois não sabem
do que ele está falando.
- O que houve,
guarda?
- Eu ouvi passos
no andar de cima.
Eles se
silenciam, tentando ouvir. Mirando as lamparinas no teto, eles só veem
rachaduras e teias de aranha. Mais um minuto se passa e eles não ouvem nada.
Percebendo que o
local era vasto, Davud comenta:
- Acho que é
melhor nos dividirmos. Nos poupará tempo em encontrar o que estamos procurando.
Tobias objeta.
- Nos dividir não
é prudente, guarda. Este é um prédio velho e perigoso. Podemos nos ferir nos
detritos ou sermos atacados por algum meliante.
- Aqui não há
nenhum meliante. – interrompe Valentim – Ninguém conseguiria suportar este tenebroso
ambiente.
- Podemos sortear
quem ficará em cada andar. – sugere Davud – Veja, podemos definir com estes
palitinhos. – então ele se agacha, desprende a madeira apodrecida de uma porta
e a quebra em pequenos filetes. – Quem tirar o menor palito ficará com o porão.
– oferecendo-os aos dois, ele pede – Vamos, escolham um.
Valentim pega o
maior palito. Então Davud pergunta:
- Meus parabéns,
senhor Valentim! Com que andar ficará?
- O andar
superior. – escolhe ele.
Os dois se
espantam. O intrépido Valentim sempre fazia as escolhas mais perigosas.
Davud lhes dá os
palitos e, em seguida, Tobias e ele tiram a sorte. O inspetor arregala os olhos;
para o seu azar, ele havia tirado o palito pequeno.
- Bem, parece que
o senhor fica com o porão, inspetor Hessler. Eu vou inspecionar o térreo.
Sem perder tempo,
os dois se viram e continuam a inspeção. Mas, antes, Valentim diz:
- Se ficar com
medo, inspetor, grite. Mas não como uma criança, por gentileza.
Então os dois
riem e vão embora.
Tobias fica
parado ali, tremendo de medo. Quando os dois já estão bem longe, ele
forçosamente diz:
- Muito engraçado...
§
Sozinhos pelo convento, os três caminham no escuro. Valentim vasculha o
andar superior com sua luz esverdeada. Ele vê os quartos onde antes as freiras
costumavam dormir. Havia camas velhas e tombadas por toda parte. Os corredores
estavam cheio de detritos e as paredes tinham pichações incompreensíveis. O
cheiro era forte e lembrava fumaça com madeira úmida. E assim ele avançava pela
penumbra.
Valentim vê a porta de entrada para a torre do campanário. Ele tenta
forçar sua abertura, mas ela não se mexe. Ao tocar a maçaneta, ele sente algo
estranho; era como se alguém segurasse a maçaneta do outro lado. Intrigado, ele
a solta e decide se afastar.
Uma sensação inquietante de estar sendo seguido o perturba. Valentim olha
para trás algumas vezes, mas não vê ninguém. De repente ele sente um vento frio
percorrendo e se incomoda, passando a mão no pescoço em seguida. Virando-se,
ele se pergunta:
“Isso foi um sussurro?”.
Mas nada podia ser visto.
Continuando, ele caminha até o fim do corredor e vê algo que chama a sua
atenção. Ele se depara com um espelho.
A chama verde do Plasma era tênue, mas ele consegue ver. O espelho tinha
moldura e entalhos exóticos, formando símbolos feitos a mão. O vidro estava em
bom estado e contrastava com a sujeira e o abandono do ambiente. Então ele nota
algo.
Enquanto se distrai com seu reflexo, uma sombra surge em suas costas e se
esgueira em seu ombro. Apavorado, ele se vira e, rápido como um relâmpago, mira
sua lamparina. Valentim franze a testa e se confunde. A sala estava vazia e ele
não via ninguém.
§
No porão, Tobias caminha lentamente. Cada passo é impreciso com suas
pernas trêmulas de medo. Ele mira a luz pelo local; o chão estava coberto de
detritos e fuligem. Vários pilares de fundação se espalhavam pelo subsolo,
escondendo as paredes e projetando enormes sombras ao longe.
O inspetor vê máquinas velhas e enferrujadas; ele reconhece o aquecedor a
vapor quente. Sua caldeira era aquecida por carvão e a fuligem manchou o chão e
o teto para sempre. Mesmo o ar era pesado devido a fumaça de anos atrás. Tobias
pensa como, naquele tempo, o aquecedor deixava o ar naquele porão irrespirável.
Avançando, ele vê salas subterrâneas sem janelas ou portas. Encontrando
vários artigos religiosos arruinados, ele estima que ali as freiras guardavam
os objetos que elas não precisavam mais.
O fim do salão estava longe e ele não se atreve a avançar mais. Acreditando
que aquelas câmaras não continham mais nada além de tralhas velhas, o inspetor
decide voltar. Mas então algo acontece.
Ao longe, ele ouve algo se mover. Ele se empalidece. O ruído era
semelhante ao assovio do aço. Reunindo coragem, ele forçosamente ergue o braço
e mira a luz da lamparina.
Saindo de uma sala, ele vê uma cadeira de rodas se movendo sozinha.
Tobias se apavora.
“Isso não pode ser real”, pensa ele.
Sendo um homem de ciência, Tobias não podia acreditar que algo se movia
sozinho no escuro. Mas, sendo um gendarme, ele tinha o dever de investigar. Todavia
lhe faltava coragem.
Então Tobias se lembra de algo. Seus companheiros zombaram dele lá em
cima. Pensando serem eles novamente lhe pregando uma peça, ele decide fazer
algo outrora impensável. Ele vai até a sala escura para investigá-la.
A passos curtos, ele começa sua caminhada.
- Isso é alguma brincadeira? – sorri ele – Pois se querem me pegar, estão
muito enganados!
Nas câmaras próximas, o inspetor passa por estátuas de gesso, pilhas de
livros e púlpitos velhos. Havia muito lixo naquele porão.
- Eu sei que vocês estão aí! – acusa ele.
Tobias alcança a cadeira de rodas e a toca. Olhando para o lado, ele vê a
câmara de onde ela saiu. Estranhamente o ar era mais pesado ali.
- Podem sair! A brincadeira perdeu a graça! – alerta ele.
Mirando a luz, ele sonda a câmara escura. Ele nota que era uma sala
pequena e apertada, quase claustrofóbica. Mas, apesar de tudo, não havia
ninguém.
- Ah, não tem ninguém...?! – afirma ele para si mesmo, espantado – Não
tinha ninguém aqui o tempo todo?! – afirma ele novamente, quase tentando se
convencer que não estava ficando louco – Mas a cadeira de rodas se moveu
sozinha...! – Tobias sorria forçosamente, desesperadamente controlando o medo.
Ainda sorrindo, ele enxuga o suor de sua testa e respira fundo. Mas, de
repente, ele dá as costas e corre, fugindo o mais rápido possível daquele porão.
§
Davud percorre o
térreo do convento. As salas de administração e estudo estavam escuras e
vazias. Investigando-as, ele não encontra nada. Uma porta entreaberta revelava
uma área externa. Ele a abre e encontra um pátio com um jardim tomado pela
vegetação.
Indo mais além, o guarda vê uma porta dupla. A
madeira podre cede e ele entra no novo salão. Assim Davud encontra a capela do
velho convento.
Os bancos de
madeira estavam tombados e quebrados. Os belos vitrais coloridos, com imagens
de santos, estavam todos arruinados. Mais à frente ele vê o púlpito. Haviam
grandes estátuas de gesso e ele reconhece o que os cristãos chamam de Sagrada
Família. Mais acima, no alto da parede, ele vê uma imagem de Virgem Maria. Ao
lado, na parede lateral, ele vê um crucifixo com Jesus pregado de braços
abertos.
Sendo um
muçulmano de nascença, Davud nunca acreditou no título de salvador de Cristo. Para
o islã, Jesus era só mais um na linha de profetas enviados por Allah. Acreditar que Allah, sendo único e suficiente, dividia
sua glória com um filho e com um Espírito Santo, sendo este último de difícil
compreensão até para os cristãos, lhe era simplesmente blasfêmia.
O vento frio da
noite o arrepia. Intentando abotoar seu casaco, algo se move atrás dele e o
assusta. Virando-se, ele não vê ninguém, mas avista algo abaixo da estátua de
Maria.
Davud se aproxima
e encontra um caderno velho com folhas amareladas. Era um diário. Com grande
interesse, ele se senta em um caixote velho e começa a folheá-lo. As palavras
estavam apagadas, mas algumas páginas contavam a história de uma jovem noviça.
O guarda se
distrai lendo. Minutos se passam. Enquanto está distraído, mãos invisíveis o
empurram e ele cai, batendo no chão com tanta força como se tivesse tomado um coice
de cavalo.
Ele se levanta e,
assustado, exclama:
- Quem está aí?!
O eco reverbera
pela capela até desaparecer.
- Eu perguntei
quem está aí?! – repete ele.
Mas não há
resposta. Tudo o que ele ouve é apenas o vento zunindo pela escuridão.
§
No andar
superior, Valentim ainda se recupera do susto. Ele respira fundo, enxuga o suor
de seu rosto e se acalma. Deixando a sala com o espelho, ele sai pelo corredor
e se dirige às escadas. Então algo chama a sua atenção.
Uma sala ampla e
vazia se revela. Valentim se confunde, pois não a tinha visto ali. Ele mira sua
lamparina e vê algo incomum. Na sala havia um velho piano preto. O piano
repousava em um canto escuro, solitário e esquecido, abandonado ali para sempre.
As cortinas se balançavam com vento gelado, como se o consolassem de seu
miserável fim.
Valentim não
entra na sala. Havia uma energia muito pesada ali. Sem se demorar mais, ele dá
as costas e vai embora.
No andar térreo,
os três novamente se reúnem. Davud estava inquieto, como se alguém o tivesse
seguido desde a capela. Tobias, por sua vez, estava pálido de medo. Valentim,
porém, controla o seu medo em silêncio.
Davud pega o
diário em seu bolso e diz:
- Inspetor
Hessler, eu encontrei isto na capela do convento.
- Deixe-me ver –
ele o inspeciona – É um diário?
- Sim. – afirma
ele – Creio que pode ser uma pista do que estamos procurando aqui.
- A única coisa a
se encontrar aqui é a Morte. – intervém Valentim – Não há suspeitos e nem
crimes, portanto não há nada para se encontrar.
Davud concorda,
mas mesmo assim responde:
- Talvez esteja
certo, senhor Valentim, mas o Plasma pode ter provocado os espíritos deste
convento, e distúrbio social é crime.
Com mãos
trêmulas, Tobias abre o diário e lê alguns registros. Em seguida ele comenta:
- Aqui diz que a
noviça detestava o convento. Ela diz que a rotina era severa e que as outras
freiras sentiam nojo dela, constantemente insultando-a por sua imoralidade. Ela
diz que se envolveu com um homem casado, mas que era inocente, não sendo mais
do que uma menina quando tudo aconteceu, mas nunca foi tratada como tal. – ele
vira a página e diz – Aqui diz que o amor da sua vida a usou e a abandonou,
condenando-a a uma vida miserável nestas paredes. Após seu erro, a noviça foi
rejeitada por seus familiares e amigos. As freiras abusavam dela e a reservavam
para as piores tarefas. Uma vez ela confrontou a Madre Superiora e foi
castigada, sendo confinada a um quartinho no porão. Lamentavelmente ela não
podia se ajudar, pois não tinha mais ninguém. – ele vira novamente a página e
continua – Mas algo aqui a ajudava a aliviar a sua dor. Ela adorava música e costumava
tocar um piano por horas. O único alívio para sua dor era o piano, o velho e
solitário piano cuja melodia a encantava e levava a sua dor embora. – conclui
ele.
Consternado, Davud
diz:
- Ora, mas esse
diário só pode ser de Milka Štukelj, a nossa freira!
- Ou a nossa Wraith, a aparição. – sugere Valentim,
obscuro.
De repente eles
ouvem um estrondo. Arregalando os olhos, ele olham para as escadas; o som veio
do andar de cima.
Os três correm
para ver quem estava ali. Valentim percebe que, coincidentemente, o estrondo
veio da sala do piano. Ele se aproxima e vê que a porta estava fechada. Imediatamente
ele se intriga, pois não a fechou quando saiu.
O estrondo ocorre
novamente e eles se apavoram. Alguém batia no outro lado, por dentro da sala.
Eles hesitam. Então há mais e mais estrondos, como se alguém batesse
furiosamente na porta, desesperado para sair.
Muito
corajosamente, Valentim segura a maçaneta e a gira. Davud, inspirado por sua
coragem, se aproxima e o ajuda a abrir também. A madeira cede e o batente se
quebra, abrindo-se abruptamente. Valentim e Davud entram e então veem algo que
os arrepia até os ossos.
Uma Wraith tocava o piano.
A sala estava
toda restaurada, como se nunca tivesse passado pela deterioração do tempo. O
piano estava limpo e brilhava magnificamente, refletindo a luz sobre sua cor
preta. Mas a aparição era o que realmente lhes chamava a atenção.
A Wraith vestia um vestido branco e suas
faixas flutuavam pelo ar, como se estivessem debaixo d’água. Seu cabelo era
longo e loiro, delicadamente preso por um laço. De costas para eles, apenas
seus braços pálidos eram visíveis. Nitidamente eles podem ver que ela era uma
freira, pois usava roupas claras de noviça.
Ao avistá-la,
Tobias foge apavorado. Davud se paralisa e diz:
- Bismillah...!
Valentim não
sente medo. A música que a Wraith
toca lhe fascina. Em espanto, ele perde as forças e cai de joelhos, maravilhado
com a bela melodia.
A música lhe
suscitava morte, condenação e tristeza, mas também fé, compaixão e esperança,
um misto de emoções opostas como as notas destoantes da melancólica música.
Lágrimas rolavam
por seu rosto enrugado. Valentim suspirava de emoção. A preocupação, o peso e a
dúvida pela perda de Danica se transformavam em uma esperança quase heroica de
reencontra-la, de tê-la novamente em seus braços e dizer-lhe que tudo estava
bem.
Prostrado para a
aparição, Valentim lhe suplicava com seus olhos cansados para reencontrar o seu
amor. E, neste momento, suas lágrimas caem no chão.
- Bismillah al rahman al rahim...!
Davud rezava ao
fundo. Ignorando-o, Valentim se arrasta pelo chão até a Wraith. Seus joelhos e cotovelos se machucam no piso, mas ele não
desiste. Ele se aproxima e, esticando o seu braço, a toca no ombro.
A freira se vira e
o seu rosto ofusca os seus olhos; era como se Valentim estivesse vendo a
brilhante face de um anjo. A misteriosa luz o envolve, paralisando-o em seu
fulgurante calor. Ele não percebe, mas a luz estava drenando-o.
Davud vê aquilo e
se espanta. Valentim definhava perante a face da Wraith, lhe secando a pele até o ossos. Preocupado com a ação
maligna da freira, ele tenta fazer algo. O tempo de Valentim estava acabando.
O guarda percorre
rapidamente o andar. Ele olha ao redor, procurando algo para ajudar o seu
companheiro. E então ele percebe algo estranho. No final do corredor havia um
espelho, mas seu reflexo estava estranhamente enegrecido. Davud vê entalhos
sinistros na moldura e se intriga. Pensando a respeito, ele tem uma ideia.
Davud levanta o espelho no ar e, novamente rezando, o atira violentamente no
chão. O impacto o quebra, estilhaçando o vidro em centenas de pedaços.
A hipnose é
desfeita. A aparição desaparece em um horripilante grito, levando consigo a
magnificência de sua música e sua reconfortante ilusão. Valentim perde as
forças e cai no chão; seus olhos arregalados encaravam o vazio.
Ao socorrê-lo,
Davud percebe. Valentim estava em estado catatônico.