sábado, 18 de fevereiro de 2023

Liubliana - 29 - O Adeus de Cristo

 


O sol matinal dissipa a cerração verde, mas ela ainda se arrastava pelo campo. Valentim olha ao redor e não reconhece a paisagem. De repente ele ouve uma voz familiar e, ao longe, ele vê Danica correndo em um campo de margaridas. Seus olhos se arregalam.

Valentim se aproxima, não conseguindo acreditar em seus olhos. Danica estava tão jovem e alegre; ele tenta chama-la, mas seu peito se enfraquece e as palavras morrem em sua garganta. Sua esposa corria alegremente, tocando as lindas pétalas das flores. Valentim nota como ela sorria docemente, parecendo estar muito feliz. O marido se lembra como ela sempre foi muito meiga. Sua fascinante beleza o hipnotizava. 

Vendo o seu marido parado ali, a esposa sorri. E então ela corre em sua direção e o abraça, fazendo Valentim girá-la no ar. Em seguida suas bocas colidem e eles apaixonadamente se beijam, provocando um impacto. Danica sorria carinhosamente, meiga como uma menina. Então o marido se emociona e chora, molhando as roupas de sua amorosa esposa.

- Danica...! – sussurra ele – Eu senti tanto a sua falta...!

A mulher não responde, mas Valentim não se importa; no momento ele se perdia em seu abraço. O marido jamais se esqueceu de seus lábios e de seu cheiro.

Mas de repente algo acontece.

Em um piscar de olhos, Danica se desvanecia de suas mãos. Valentim, que chorava de olhos bem fechados, sente que ela havia desaparecido e se confunde.

O campo de margaridas também havia sumido. A cerração verde retorna e se move, revelando outra paisagem. Valentim vê cruzes, lápides e mausoléus; agora ela estava em um vasto cemitério.

Ao longe, ele ouve uma melancólica prece. Passando pelas lápides, Valentim vê um grupo de pessoas ao redor de uma cova. As pessoas vestiam longas vestes roxas e negras com capuzes. O padre vestia uma batina envelhecida e ministrava o funeral. Estranhamente corujas repousavam sobre a lápide de pedra, como se também estivessem participando do enterro. Coveiros seguravam o caixão com cordas e se preparavam para descê-lo à cova. Valentim nota que o caixão era bem simples e estima que o defunto devia ser alguém muito pobre. E então o caixão desce e, nesse momento, Valentim pode ouvir o padre dizer:

- Descanse em paz, Danica.

O marido se espanta e, lendo o nome na lápide de pedra, ele o reconhece: “Danica”. Apesar de analfabeto, ele aprendeu o seu nome e o de sua esposa. 

Correndo para o funeral, ele se atira sobre o caixão e o impede de ser enterrado. Os golpes de pás na terra se interrompem.

 Com suas fortes mãos, Valentim segura a tampa e a puxa. Os pregos se soltam, estralando e trincando a madeira podre. E então ele tem uma tremenda surpresa. O caixão estava vazio.

O marido não entende; ele pensa que devia haver algo errado.

De repente a terra começa a tremer. Enquanto está espantado olhando para o caixão vazio, Valentim não percebe a hecatombe se formar ao seu redor. Todo o cemitério era arrasado por um tremor sobrenatural.

Nuvens negras se formam no céu. Raios poderosos caem nas árvores e as incendeiam. As cruzes se quebram e as lápides são partidas ao meio, rompendo-se sozinhas por forças invisíveis. Além da cerração verde, edifícios pegam fogo e desabam; pessoas nas ruas gritavam e se feriam, desesperadas pelo colapso da sociedade. Liubliana, a “mais amada”, era assolada pelo fogo atroz.

Em seguida o céu se revira e se abre como um pergaminho. No meio das nuvens, uma luz brilha mais forte que o sol e um varão surge lá no alto, revestido da mais alta glória. Era Jesus Cristo, o Senhor dos Senhores, Rei dos Reis.

Eis que era chegado o Dia do Juízo Final. Cristo finalmente retornou. Ele vestia um manto púrpura dos reis e, em sua cabeça, uma coroa de pedras preciosas. Ao seu redor haviam hostes angelicais tocando trombetas e também harpas.

Voando pela Terra, os anjos anunciavam a volta do Senhor. Seu segundo advento causa prantos nos seres humanos, alguns se alegrando e outros correndo, apavorados, na vã tentativa de se esconder da face daquele que se assentava no trono branco.

Ao lado de Valentim, a terra se fendia e os túmulos se abriam, irrompendo os caixões. As tampas se abrem e o mortos ressuscitam, libertando-se dos grilhões malditos da Morte. Os redimidos, ou seja, aqueles salvos pela fé, sobem ao céu como anjos e vão em direção ao seu Senhor e Salvador.

Mas nem todos eram salvos. Aqueles que negaram e desprezaram a fé ficam para trás, entregues à inevitável perdição. Espíritos negros emergem das sombras e eles os reconhecem; eram os pavorosos demônios. Os demônios perseguiam e apanhavam os condenados, em seguida precipitando-os em tenebrosos abismos.

E assim o mundo pranteava, ajoelhado diante do grande Apocalipse.

Alheio ao supremo evento, Valentim continuava na cova; ele ainda lamuriava o desaparecimento de sua esposa. Então uma voz forte como um trovão reverbera pelas montanhas, chamando o seu nome.

- Valentim.

Valentim se vira e ergue os seus olhos. Vendo o Rei dos Reis glorificado e exaltado lá em cima, ele cai com o rosto em terra.

- Eis me aqui, Senhor!

- Servo fiel, foste fiel no pouco e te porei no muito. Vinde. Entre agora na alegria do teu Senhor.

Cristo o convidava para as bodas do Cordeiro. Ele se alegra, pois fora digno de receber o prêmio máximo da Salvação.

Mas ele não podia ir.

Olhando para o caixão, uma dor ainda o atormenta. Ele se lembrara que ainda não havia encontrado Danica. Seu semblante cai.

- Eu não posso. – responde ele.

- Não pode? – intriga-se Cristo.

- Eu ainda não encontrei a minha esposa, ó Senhor dos Senhores e Rei dos Reis. Ela ainda está desaparecida aqui na Terra. Eu a amo mais que tudo; ela é a pessoa mais importante da minha vida e minha razão de viver. – explica ele – Rogo que me deixe e que me permita encontrá-la. É tudo o que peço.

Ao ouvi-lo, Cristo se comove. De fato, o amor é o maior dos sentimentos humanos. Lágrimas se escorrem de seus olhos e Ele as enxuga com suas mãos perfuradas por pregos e golpes de martelo.

Após uma breve deliberação, Cristo pergunta:

- Tens certeza?

Ainda abatido, o marido responde:

- Sim, meu Senhor.

- Então que assim seja. – dando-lhe as costas, Ele diz – Adeus, Valentim.

Em seguida Jesus se vira e vai embora. Consequentemente, os anjos e os salvos se viram e vão embora também, deixando aquele mundo condenado para trás. Lentamente o céu se escurece e se fecha, abandonando-os à Grande Tribulação.

Demônios perseguem os ímpios pelas nações; gritos espavoridos de horror precedem a desgraça. Ouvindo as tragédias soprando no horizonte, Valentim percebe: estava inaugurado o Reino de Satanás na Terra.

Levantando-se, Valentim olha para o caixão vazio e diz:

- Eu prometo te encontrar, Danica. Eu juro que vou te encontrar. E nem que você já esteja morta, eu estarei lá para segurar o seu corpo sem vida... Não importa o quão fria você esteja.

 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Liubliana - 28 - O Velho Piano


(Arte de George Roux)


O velho portão estava enferrujado e coberto de trepadeiras. Valentim saca seu punhal, corta a vegetação e o abre. O portão ruge, demonstrando anos de abandono, e os três cruzam o vasto jardim, passando pela vegetação alta e úmida. Enquanto caminham, a lamparina de Plasma ilumina uma fonte arruinada. A água parada estava preta de tão suja, e no meio se elevava uma estátua de Virgem Maria. Ao vê-la, Valentim faz o sinal da cruz e, por fim, beija sua mão.     

Tobias contempla o convento à sua frente. Sua arquitetura barroca e renascentista estava coberta de vegetação e sujeira. Haviam muitas janelas em sua fachada, mas a maioria estava com os vidros quebrados. Nas paredes haviam funestas manchas negras; era o sinal do fogo que incendiou o prédio anos atrás.

A freira de nome Milka Štukelj foi acusada de atear fogo no local. O governo de Carníola reconstruiu o prédio, mas ele acabou abandonado posteriormente. Os frequentadores se queixavam de frequentes aparições de uma freira nos corredores e cantos escuros do convento. Desta maneira, a fama de que o convento era assobrado começou.

A cerração verde ainda se arrastava pela noite e nuvens pesadas rolavam pelo céu, como se protegessem o ilustre prédio na escuridão. O vento zune pelas janelas escuras e lhes provocam arrepios. Então Tobias vê alguém. Enquanto passava com a luz da lamparina no prédio, seus olhos detectam uma pessoa no andar superior. Ele volta rapidamente com a luz, mas, ao olhar de novo, não havia ninguém.

Davud percebe sua inquietação e pergunta:

- Algum problema, inspetor?

- Eu... – hesita ele – Não é nada, guarda. – ele se confunde – Não é nada.       

A entrada ficava abaixo de uma belíssima torre de campanário. No topo, eles veem uma eminente cruz enferrujada. As portas eram lindamente entalhadas e estavam embarricadas com tábuas. Valentim, como sempre, toma a iniciativa e avança sobre o capim alto, intentando invadir o prédio.

Valentim pisa no assoalho, que range sob os seus passos. Ele agarra as tábuas pregadas e, com suas mãos calejadas, as puxa, despregando-as bruscamente e provocando sons altos. Os estalos ecoam pelo interior do convento, denunciando suas chegadas. Valentim gira a maçaneta, mas a porta estava emperrada. Sem nenhuma delicadeza, ele chuta a porta, estremecendo as paredes e despejando uma porção de resíduos.

Com a lamparina em suas mãos, os três espiam lá dentro. O interior se revela como as entranhas de um mausoléu esquecido. Eles veem um vasto salão com as paredes pichadas e o piso coberto de detritos. Havia uma escadaria para o andar superior e um lustre empoeirado no teto.

As salas escuras lhes atiçavam a imaginação. O vento frio entra pelas janelas e zune dentro do edifício. Tobias se empalidece de medo, mas se mantém em silêncio.

Valentim e Davud adentram o prédio, fazendo seus passos estalarem sob o velho assoalho. Tobias hesita na porta, suando frio como se seu corpo tivesse se endurecido. Seu assistente olha para trás e, ao vê-lo parado ali, pergunta:

- Algum problema, Tobias?

- Eu... – hesita ele – Senhores, eu devo lhes confessar uma coisa. Eu tenho medo de fantasmas.

Os dois riem.

- O senhor tem medo de fantasmas?! – espanta-se Davud.

- Ora, então o famoso Inspetor Hessler, que descobriu os efeitos sobrenaturais e os males do Plasma, tem medo de assombrações? – ironiza Valentim.

- Perdoe-me a colocação, inspetor Tobias, mas na Gendarmerie o senhor adquiriu fama por levantar questões sobrenaturais e paranormais referentes ao Plasma. Me é irônico agora o senhor temer o que o senhor mesmo teorizou.   

Justificando-se, ele responde:

- Eu cresci em uma casa antiga na Áustria, um casarão centenário se querem saber. Tive experiências muito ruins lá.

Mas os dois não lhe dão atenção e continuam zombando dele.

Com muito esforço o inspetor retoma o controle e então entra no convento.

As paredes estavam podres e descascadas. Teias de aranha se revelavam nos cantos do teto. Enquanto caminham, estalos sinistros eram ouvidos à distância, como se alguém se esgueirasse no escuro. Davud pergunta:

- Por falar nisso, esta é a primeira vez que o senhor lida com um fantasma, inspetor Hessler?

Tremendo a maxilar, Tobias responde:

- Acredito que sim, guarda Davud. Mas devo relembra-lo que, para a criminalística, fantasmas não existem.

Tobias responde daquela maneira quase como se quisesse convencer a si mesmo.

Então Valentim entra na conversa e faz uma pertinente pergunta:

- Mas deixamos de considerar isto desde que o Plasma surgiu. Aliás, eu me lembro de uma interessante conversa entre o guarda Mladen e o guarda Davud no Monte Santa Maria, em que Davud dizia que os fantasmas existem. Como era mesmo o nome deles? “Djinns”?

E então os dois olham para Davud.

- Sim, é verdade. Os djinns são seres feitos de um fogo que não fumega. Ele consta principalmente no capítulo 72 do Alcorão, e significa “aqueles que não se pode ver”. Eles são seres racionais paralelos aos humanos, e ambos foram criados para adorar a Allah. Os djinns são mais fortes e mais rápidos do que nós e, semelhante a nós, eles também serão julgados por suas ações no Dia do Julgamento.

Tobias pergunta:

- O Alcorão informa onde os djinns vivem?

- Geralmente eles aparecem em locais desertos e abandonados, como este, por exemplo. De acordo com alguns haddiths, os djinns comem como os humanos, mas ao invés de comida fresca, eles preferem ossos e carne podre. A noite é considerada perigosa para os muçulmanos, pois os djinns deixam seus esconderijos e, se provocados, podem lhe fazer mal.   

O inspetor pondera.

- Então eles são maus?

- É difícil dizer. Um haddith orienta a fechar as portas e manter as crianças dentro de casa à noite, pois os djinns podem sequestra-las. Se a pessoa for descuidada, eles podem levar objetos embora. O haddith os divide em três grupos: um tipo de djinn que voa pelo ar, outro que assume a forma de cobras e cães, e um terceiro que se move de lugar a lugar como os humanos.

Insatisfeito, Valentim faz uma pergunta mais direta:

- O diabo é um djinn?

Os dois se assustam com sua pergunta. O assistente não tinha medo de soar agourento.

- Acredito que sim. O Alcorão trata o diabo como shaitan e o relaciona ao líder dos shayatin, ou seja, os demônios. Seu nome é Iblis.

- Iblis...? – indaga Tobias.

- O haddith narra que Iblis induziu Adão a comer o fruto da árvore proibida, argumentando que, ao comê-lo, ele se tornaria imortal. Iblis torna as pessoas esquecidas, reina sobre nações más, encoraja o assassinato e a rebelião, e também trai seus próprios seguidores. O islã nos orienta a não seguir o diabo, assim tornando explícito que os humanos são livres para escolherem entre o diabo ou a Allah. Entretanto, o diabo apenas promete ilusões. 

Ponderando, Tobias comenta:

- Então esta é a natureza dos djinns?

Valentim faz outra pergunta:

- Como podemos mata-los?

Davud se espanta.

- Não se pode mata-los! Na verdade, eu não sei se pode! Os djinns aparecem em amuletos e talismãs. Eles são chamados para proteção ou auxílio mágico. As pessoas que acreditam em djinns usam amuletos para se protegerem contra ataques de outros djinns, estes lançados por bruxas e feiticeiros. Nós, muçulmanos, acreditamos que não podemos ser feridos pelos djinns se usarmos algo com o nome de Allah. – e então ele aponta para sua faixa na cabeça – De qualquer forma, alguns estudiosos associam a invocação de djinns com idolatria.

Desta vez é Valentim quem pondera.

- Quer dizer que os fantasmas dos muçulmanos vivem em amuletos e talismãs, não é? Então eu já sei o que devo fazer.

Os dois se intrigam.

- O que quer dizer, senhor Valentim?

- Não me interessa se são djinns, fantasmas ou Wraiths aqui dentro. Se eu encontrar um talismã no convento, eu o esmagarei sob os meus pés! – então ele continua caminhando em silêncio.

Alguns minutos depois, Davud para bruscamente. Olhando para cima, ele pergunta:

- Vocês ouviram isso?

Os dois não sabem do que ele está falando.

- O que houve, guarda?

- Eu ouvi passos no andar de cima.

Eles se silenciam, tentando ouvir. Mirando as lamparinas no teto, eles só veem rachaduras e teias de aranha. Mais um minuto se passa e eles não ouvem nada.

Percebendo que o local era vasto, Davud comenta:

- Acho que é melhor nos dividirmos. Nos poupará tempo em encontrar o que estamos procurando.

Tobias objeta.

- Nos dividir não é prudente, guarda. Este é um prédio velho e perigoso. Podemos nos ferir nos detritos ou sermos atacados por algum meliante.

- Aqui não há nenhum meliante. – interrompe Valentim – Ninguém conseguiria suportar este tenebroso ambiente.

- Podemos sortear quem ficará em cada andar. – sugere Davud – Veja, podemos definir com estes palitinhos. – então ele se agacha, desprende a madeira apodrecida de uma porta e a quebra em pequenos filetes. – Quem tirar o menor palito ficará com o porão. – oferecendo-os aos dois, ele pede – Vamos, escolham um.

Valentim pega o maior palito. Então Davud pergunta:

- Meus parabéns, senhor Valentim! Com que andar ficará?

- O andar superior. – escolhe ele.

Os dois se espantam. O intrépido Valentim sempre fazia as escolhas mais perigosas.  

Davud lhes dá os palitos e, em seguida, Tobias e ele tiram a sorte. O inspetor arregala os olhos; para o seu azar, ele havia tirado o palito pequeno.

- Bem, parece que o senhor fica com o porão, inspetor Hessler. Eu vou inspecionar o térreo.

Sem perder tempo, os dois se viram e continuam a inspeção. Mas, antes, Valentim diz:

- Se ficar com medo, inspetor, grite. Mas não como uma criança, por gentileza.

Então os dois riem e vão embora.

Tobias fica parado ali, tremendo de medo. Quando os dois já estão bem longe, ele forçosamente diz: 

- Muito engraçado...

 

§

 

Sozinhos pelo convento, os três caminham no escuro. Valentim vasculha o andar superior com sua luz esverdeada. Ele vê os quartos onde antes as freiras costumavam dormir. Havia camas velhas e tombadas por toda parte. Os corredores estavam cheio de detritos e as paredes tinham pichações incompreensíveis. O cheiro era forte e lembrava fumaça com madeira úmida. E assim ele avançava pela penumbra.

Valentim vê a porta de entrada para a torre do campanário. Ele tenta forçar sua abertura, mas ela não se mexe. Ao tocar a maçaneta, ele sente algo estranho; era como se alguém segurasse a maçaneta do outro lado. Intrigado, ele a solta e decide se afastar.

Uma sensação inquietante de estar sendo seguido o perturba. Valentim olha para trás algumas vezes, mas não vê ninguém. De repente ele sente um vento frio percorrendo e se incomoda, passando a mão no pescoço em seguida. Virando-se, ele se pergunta:

“Isso foi um sussurro?”.

Mas nada podia ser visto.

Continuando, ele caminha até o fim do corredor e vê algo que chama a sua atenção. Ele se depara com um espelho.

A chama verde do Plasma era tênue, mas ele consegue ver. O espelho tinha moldura e entalhos exóticos, formando símbolos feitos a mão. O vidro estava em bom estado e contrastava com a sujeira e o abandono do ambiente. Então ele nota algo.

Enquanto se distrai com seu reflexo, uma sombra surge em suas costas e se esgueira em seu ombro. Apavorado, ele se vira e, rápido como um relâmpago, mira sua lamparina. Valentim franze a testa e se confunde. A sala estava vazia e ele não via ninguém.

 

§

 

No porão, Tobias caminha lentamente. Cada passo é impreciso com suas pernas trêmulas de medo. Ele mira a luz pelo local; o chão estava coberto de detritos e fuligem. Vários pilares de fundação se espalhavam pelo subsolo, escondendo as paredes e projetando enormes sombras ao longe.

O inspetor vê máquinas velhas e enferrujadas; ele reconhece o aquecedor a vapor quente. Sua caldeira era aquecida por carvão e a fuligem manchou o chão e o teto para sempre. Mesmo o ar era pesado devido a fumaça de anos atrás. Tobias pensa como, naquele tempo, o aquecedor deixava o ar naquele porão irrespirável.

Avançando, ele vê salas subterrâneas sem janelas ou portas. Encontrando vários artigos religiosos arruinados, ele estima que ali as freiras guardavam os objetos que elas não precisavam mais.

O fim do salão estava longe e ele não se atreve a avançar mais. Acreditando que aquelas câmaras não continham mais nada além de tralhas velhas, o inspetor decide voltar. Mas então algo acontece.

Ao longe, ele ouve algo se mover. Ele se empalidece. O ruído era semelhante ao assovio do aço. Reunindo coragem, ele forçosamente ergue o braço e mira a luz da lamparina.

Saindo de uma sala, ele vê uma cadeira de rodas se movendo sozinha. Tobias se apavora.

“Isso não pode ser real”, pensa ele.

Sendo um homem de ciência, Tobias não podia acreditar que algo se movia sozinho no escuro. Mas, sendo um gendarme, ele tinha o dever de investigar. Todavia lhe faltava coragem.       

Então Tobias se lembra de algo. Seus companheiros zombaram dele lá em cima. Pensando serem eles novamente lhe pregando uma peça, ele decide fazer algo outrora impensável. Ele vai até a sala escura para investigá-la.

A passos curtos, ele começa sua caminhada.

- Isso é alguma brincadeira? – sorri ele – Pois se querem me pegar, estão muito enganados!

Nas câmaras próximas, o inspetor passa por estátuas de gesso, pilhas de livros e púlpitos velhos. Havia muito lixo naquele porão.

- Eu sei que vocês estão aí! – acusa ele.

Tobias alcança a cadeira de rodas e a toca. Olhando para o lado, ele vê a câmara de onde ela saiu. Estranhamente o ar era mais pesado ali.

- Podem sair! A brincadeira perdeu a graça! – alerta ele. 

Mirando a luz, ele sonda a câmara escura. Ele nota que era uma sala pequena e apertada, quase claustrofóbica. Mas, apesar de tudo, não havia ninguém.

- Ah, não tem ninguém...?! – afirma ele para si mesmo, espantado – Não tinha ninguém aqui o tempo todo?! – afirma ele novamente, quase tentando se convencer que não estava ficando louco – Mas a cadeira de rodas se moveu sozinha...! – Tobias sorria forçosamente, desesperadamente controlando o medo.

Ainda sorrindo, ele enxuga o suor de sua testa e respira fundo. Mas, de repente, ele dá as costas e corre, fugindo o mais rápido possível daquele porão.

   

§

 

Davud percorre o térreo do convento. As salas de administração e estudo estavam escuras e vazias. Investigando-as, ele não encontra nada. Uma porta entreaberta revelava uma área externa. Ele a abre e encontra um pátio com um jardim tomado pela vegetação.

 Indo mais além, o guarda vê uma porta dupla. A madeira podre cede e ele entra no novo salão. Assim Davud encontra a capela do velho convento.

Os bancos de madeira estavam tombados e quebrados. Os belos vitrais coloridos, com imagens de santos, estavam todos arruinados. Mais à frente ele vê o púlpito. Haviam grandes estátuas de gesso e ele reconhece o que os cristãos chamam de Sagrada Família. Mais acima, no alto da parede, ele vê uma imagem de Virgem Maria. Ao lado, na parede lateral, ele vê um crucifixo com Jesus pregado de braços abertos.  

Sendo um muçulmano de nascença, Davud nunca acreditou no título de salvador de Cristo. Para o islã, Jesus era só mais um na linha de profetas enviados por Allah. Acreditar que Allah, sendo único e suficiente, dividia sua glória com um filho e com um Espírito Santo, sendo este último de difícil compreensão até para os cristãos, lhe era simplesmente blasfêmia.

O vento frio da noite o arrepia. Intentando abotoar seu casaco, algo se move atrás dele e o assusta. Virando-se, ele não vê ninguém, mas avista algo abaixo da estátua de Maria.

Davud se aproxima e encontra um caderno velho com folhas amareladas. Era um diário. Com grande interesse, ele se senta em um caixote velho e começa a folheá-lo. As palavras estavam apagadas, mas algumas páginas contavam a história de uma jovem noviça.

O guarda se distrai lendo. Minutos se passam. Enquanto está distraído, mãos invisíveis o empurram e ele cai, batendo no chão com tanta força como se tivesse tomado um coice de cavalo. 

Ele se levanta e, assustado, exclama:

- Quem está aí?!

O eco reverbera pela capela até desaparecer.

- Eu perguntei quem está aí?! – repete ele.

Mas não há resposta. Tudo o que ele ouve é apenas o vento zunindo pela escuridão.

 

§

 

No andar superior, Valentim ainda se recupera do susto. Ele respira fundo, enxuga o suor de seu rosto e se acalma. Deixando a sala com o espelho, ele sai pelo corredor e se dirige às escadas. Então algo chama a sua atenção.

Uma sala ampla e vazia se revela. Valentim se confunde, pois não a tinha visto ali. Ele mira sua lamparina e vê algo incomum. Na sala havia um velho piano preto. O piano repousava em um canto escuro, solitário e esquecido, abandonado ali para sempre. As cortinas se balançavam com vento gelado, como se o consolassem de seu miserável fim.

Valentim não entra na sala. Havia uma energia muito pesada ali. Sem se demorar mais, ele dá as costas e vai embora.  

No andar térreo, os três novamente se reúnem. Davud estava inquieto, como se alguém o tivesse seguido desde a capela. Tobias, por sua vez, estava pálido de medo. Valentim, porém, controla o seu medo em silêncio.      

Davud pega o diário em seu bolso e diz:

- Inspetor Hessler, eu encontrei isto na capela do convento.

- Deixe-me ver – ele o inspeciona – É um diário?

- Sim. – afirma ele – Creio que pode ser uma pista do que estamos procurando aqui.

- A única coisa a se encontrar aqui é a Morte. – intervém Valentim – Não há suspeitos e nem crimes, portanto não há nada para se encontrar.

Davud concorda, mas mesmo assim responde:

- Talvez esteja certo, senhor Valentim, mas o Plasma pode ter provocado os espíritos deste convento, e distúrbio social é crime.

Com mãos trêmulas, Tobias abre o diário e lê alguns registros. Em seguida ele comenta:

- Aqui diz que a noviça detestava o convento. Ela diz que a rotina era severa e que as outras freiras sentiam nojo dela, constantemente insultando-a por sua imoralidade. Ela diz que se envolveu com um homem casado, mas que era inocente, não sendo mais do que uma menina quando tudo aconteceu, mas nunca foi tratada como tal. – ele vira a página e diz – Aqui diz que o amor da sua vida a usou e a abandonou, condenando-a a uma vida miserável nestas paredes. Após seu erro, a noviça foi rejeitada por seus familiares e amigos. As freiras abusavam dela e a reservavam para as piores tarefas. Uma vez ela confrontou a Madre Superiora e foi castigada, sendo confinada a um quartinho no porão. Lamentavelmente ela não podia se ajudar, pois não tinha mais ninguém. – ele vira novamente a página e continua – Mas algo aqui a ajudava a aliviar a sua dor. Ela adorava música e costumava tocar um piano por horas. O único alívio para sua dor era o piano, o velho e solitário piano cuja melodia a encantava e levava a sua dor embora. – conclui ele.

Consternado, Davud diz:

- Ora, mas esse diário só pode ser de Milka Štukelj, a nossa freira!

- Ou a nossa Wraith, a aparição. – sugere Valentim, obscuro.

De repente eles ouvem um estrondo. Arregalando os olhos, ele olham para as escadas; o som veio do andar de cima.

Os três correm para ver quem estava ali. Valentim percebe que, coincidentemente, o estrondo veio da sala do piano. Ele se aproxima e vê que a porta estava fechada. Imediatamente ele se intriga, pois não a fechou quando saiu.

O estrondo ocorre novamente e eles se apavoram. Alguém batia no outro lado, por dentro da sala. Eles hesitam. Então há mais e mais estrondos, como se alguém batesse furiosamente na porta, desesperado para sair.    

Muito corajosamente, Valentim segura a maçaneta e a gira. Davud, inspirado por sua coragem, se aproxima e o ajuda a abrir também. A madeira cede e o batente se quebra, abrindo-se abruptamente. Valentim e Davud entram e então veem algo que os arrepia até os ossos.

Uma Wraith tocava o piano.

A sala estava toda restaurada, como se nunca tivesse passado pela deterioração do tempo. O piano estava limpo e brilhava magnificamente, refletindo a luz sobre sua cor preta. Mas a aparição era o que realmente lhes chamava a atenção.

A Wraith vestia um vestido branco e suas faixas flutuavam pelo ar, como se estivessem debaixo d’água. Seu cabelo era longo e loiro, delicadamente preso por um laço. De costas para eles, apenas seus braços pálidos eram visíveis. Nitidamente eles podem ver que ela era uma freira, pois usava roupas claras de noviça.

Ao avistá-la, Tobias foge apavorado. Davud se paralisa e diz:

- Bismillah...![1]

Valentim não sente medo. A música que a Wraith toca lhe fascina. Em espanto, ele perde as forças e cai de joelhos, maravilhado com a bela melodia.

A música lhe suscitava morte, condenação e tristeza, mas também fé, compaixão e esperança, um misto de emoções opostas como as notas destoantes da melancólica música.

Lágrimas rolavam por seu rosto enrugado. Valentim suspirava de emoção. A preocupação, o peso e a dúvida pela perda de Danica se transformavam em uma esperança quase heroica de reencontra-la, de tê-la novamente em seus braços e dizer-lhe que tudo estava bem.

Prostrado para a aparição, Valentim lhe suplicava com seus olhos cansados para reencontrar o seu amor. E, neste momento, suas lágrimas caem no chão.

- Bismillah al rahman al rahim...![2]

Davud rezava ao fundo. Ignorando-o, Valentim se arrasta pelo chão até a Wraith. Seus joelhos e cotovelos se machucam no piso, mas ele não desiste. Ele se aproxima e, esticando o seu braço, a toca no ombro.

A freira se vira e o seu rosto ofusca os seus olhos; era como se Valentim estivesse vendo a brilhante face de um anjo. A misteriosa luz o envolve, paralisando-o em seu fulgurante calor. Ele não percebe, mas a luz estava drenando-o.

Davud vê aquilo e se espanta. Valentim definhava perante a face da Wraith, lhe secando a pele até o ossos. Preocupado com a ação maligna da freira, ele tenta fazer algo. O tempo de Valentim estava acabando.

O guarda percorre rapidamente o andar. Ele olha ao redor, procurando algo para ajudar o seu companheiro. E então ele percebe algo estranho. No final do corredor havia um espelho, mas seu reflexo estava estranhamente enegrecido. Davud vê entalhos sinistros na moldura e se intriga. Pensando a respeito, ele tem uma ideia. Davud levanta o espelho no ar e, novamente rezando, o atira violentamente no chão. O impacto o quebra, estilhaçando o vidro em centenas de pedaços.        

A hipnose é desfeita. A aparição desaparece em um horripilante grito, levando consigo a magnificência de sua música e sua reconfortante ilusão. Valentim perde as forças e cai no chão; seus olhos arregalados encaravam o vazio.

Ao socorrê-lo, Davud percebe. Valentim estava em estado catatônico.

  

 



[1] “Em nome de Deus” em árabe

[2] “Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso”

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...