(Artista desconhecido)
As tropas puristas percorrem a superfície do distrito. Eles viam uma área vasta, escura
e com passagens estreitas em alguns pontos. Acima, os puristas viam a parte
inferior da plataforma da praça. Ela tremia, rangia e soltava poeira, evidenciando que uma feroz batalha ocorria lá em cima.
Diligentemente
comandando seus soldados, o líder estabelece o perímetro. As bases das
megatorres o cercam, desprovidas de entradas ou janelas. Desde o início, os
criadores de Sonata projetaram o nível do solo para ser um local de descarte,
por onde percorreriam as instalações sanitárias e de infraestrutura. Nasier detestava a superfície, pois era um
local sujo e incompatível com a nobreza de seus ideias.
Enquanto cobrem o
território, um grupo de batedores alerta o grupo.
“Senhor Nasier,
venha urgente!”.
O líder se
intriga.
“O que poderia
ser tão grave para eles se alertarem assim?”, se pergunta ele.
Nasier chama a
seus seguranças e parte ao seu encontro. Além de algumas passagens estreitas,
eles finalmente se deparam com os batedores. Então o líder tem uma imensa
surpresa.
Encostado em seu
aerocarro, um homem de braços cruzados olhava para eles. O líder exclama:
- Maynard...?!
Um segurança atrás deles comenta:
- Acabou a festa.
Alguém convidou o Maynard...
Caído no chão, ele
vê um de seus batedores. O purista estava apenas desacordado enquanto os outros
apontavam suas armas para o mercenário.
- O que está
fazendo aqui?
Evasivo, o mercenário
responde:
- Boa noite,
Nasier. Sempre com essa aparência nazista, não?
Maynard se
referia ao uniforme preto, botas de cavalaria e o cabelo cuidadosamente
penteado do líder.
- Eu apenas
expresso a seriedade dos ideais de pureza humana.
- De qualquer
forma... – muda ele de assunto – Eu só vim conversar.
O mercenário se
desencosta do carro. Imediatamente os puristas apontam suas armas.
Irritado, Nasier
olha para seus batedores e pergunta:
- Por que vocês
não trouxeram o mercenário até mim?
Com um pouco de
medo, eles respondem:
- Nós íamos fazer
isso, senhor. Mas veja o que aconteceu com quem tentou. – eles apontam para o purista desacordado no chão.
Respirando fundo,
o líder pergunta:
- Sobre o que
você quer falar?
- A superfície é
um lugar perigoso. – responde ele, olhando ao redor – E como vocês são bons
demais para um lugar com esse, eu pensei em vir ajuda-los.
- Ajudar-nos?!
Então Nasier
gargalha.
- Passagens
subterrâneas, túneis desativados, comportas industriais, canais poluídos... –
lista ele – Aqui não são os níveis superiores, Nasier. Vocês estão em completa
desvantagem.
Os puristas se
irritam.
- E o que te faz
pensar isso?
- Do jeito que
vocês cobrem o perímetro, estão deixando vários espaços desprotegidos. De fato,
vocês só me encontraram por que eu permiti.
Maynard tinha
razão. Os puristas não tinham experiência em combate na superfície.
- Você fala com
arrogância, mercenário. Mas ainda não me convenceu a aceitar sua ajuda.
- Shh! – chia ele
com o dedo nos lábios – Está ouvindo?
Ninguém ouve
nada.
- Do que você
está falando?
- Há um trem
chegando. Se seus batedores são tão bons quanto diz, eles já encontraram um
linha férrea a leste daqui, não é?
Nasier e seus
comandantes se entreolham. Eles não encontraram linha alguma.
- Isso é mais um
de seus truques?
- Não é nenhum
truque.
- É melhor não
estar nos enganando, Maynard. Se não eu mando meus androides esmagarem sua
cabeça.
O mercenário
sorri.
- Sigam-me.
Avançando pela
escuridão, eles veem um trem de carga. O trem para em uma estação abandonada e tropas
da Polícia Corporativa desembarcam, transportando suprimentos. Database tinha
razão, o inimigo realmente usou a superfície para seu esforço de guerra.
O líder desconfia
de Maynard, mas ele comprovou suas palavras. Diferente dos puristas, ele
parecia conhecer o local. Nasier diz:
- Parece que você
estava certo, mercenário. Você pode ficar conosco... Por enquanto.
Esperando o
momento certo, Nasier se prepara para atacar. Então um dilema surge em sua
mente. Se ele atacar agora, sofrerá muitas baixas, mas cortará as linhas de
suprimento inimigas, paralisando a chegada de reforços acima. Se ele não
atacar, preservará suas tropas, mas tornará a tomada da Cúpula Corporativa mais
custosa, favorecendo o inimigo e desprestigiando a facção. Ele pondera.
Destravando sua
arma, ele a mira em seus inimigos. Não foi uma escolha difícil de se fazer. O
líder jamais comprometerá sua facção acovardando-se perante o inimigo.
- Eu não faria
isso se fosse você.
Nasier pergunta:
- Por que não?
Maynard aponta em
direção dos suprimentos. Algumas caixas se desmontam e, revelando robôs
compactados, Securitrons se formam e se levantam. Os pesados robôs se
enfileiram na plataforma e caminham ao lado das tropas. De olhos arregalados, o
líder conta trinta unidades.
- Sugiro que os
deixem ir embora. Eles estão indo para o norte e logo eles se encontrarão com
os mecanicistas. Eles têm armamento pesado; deixem que se virem com esses
robôs.
- Não deixarei a
glória da vitória para aqueles impuros.
- O trem voltará
para trazer mais tropas. Há escassez de Securitrons pela cidade, a Rebelião já
tomou suas bases e seus locais de produção. O próximo trem não trará mais
nenhum, e então vocês atacam.
O líder se
intriga.
- Como é que você
sabe tudo isso?
- Apenas faça o
que eu digo.
Cheio de orgulho,
o líder responde:
- Não é você que
dá as ordens aqui.
- Nasier, eu só
quero que vocês vivam. Não terei mais serviço se as corporações exterminarem a metrópole com o Projeto Gemini. Preciso de vocês vivos para derruba-los
e tomarem o poder.
O líder se
espanta.
- Por quê?
Exibindo o seu
corpo, Maynard diz:
- Está vendo
alguma próteses biomecânica aqui?
Então o líder
sorri.
Aguardando
pacientemente os policiais deixarem a estação, o trem retorna pela linha e
parte para buscar mais tropas. Os puristas se levantam e se dirigem para a
estação. Eles sabotam a linha, plantando explosivos no início da plataforma.
Soldados e androides Advance se posicionam, aguardando a
chegada do inimigo.
O trem retorna e
se aproxima da armadilha. Nasier pressiona o botão e os explosivos se acionam.
- Protejam-se!
A explosão é tão
forte que suspende os vagões no ar. Os vagões tombam e ameaçam cair sobre os
próprios puristas. Aparentemente os vagões transportavam
armamentos e munições. Em contato com o fogo, um espetáculo de explosões se
forma, devastando a estação e iluminando o escuro fosso da superfície.
A labareda se
propaga e se levanta até a plataforma da praça acima. Todos se fascinam,
admirados com as coloridas luzes se estourando pelos ares como fogos de
artifício. O campo de batalha se estremece e Nasier teme que a própria praça
caia sobre eles.
Passado o susto, os vagões que resistiram ao ataque se abrem e tropas
policiais saem. Os puristas e os policiais ainda estão atordoados, mas não havia tempo a perder. Um novo combate estava prestes a começar.
- Matem todos! –
ordena o líder.
Os puristas se
levantam e atiram. Os policiais são pegos de surpresa, mas conseguem se
proteger atrás das ruínas do trem. Os androides Advance avançam e
invadem as linhas inimigas, intimidando-os com sua elevada estatura.
O ataque
coordenado da facção faz os policiais recuarem. As armas liberavam fumaça e
atiravam para todos os lados. Extasiado, Nasier via os projéteis de pólvora e laser
cruzando a escuridão.
Os androides
golpeavam os policiais, fazendo-os voar pelos ares. Os policiais atiravam de
volta e sangue azul se espirrava de seus ferimentos, entretanto eles não
paravam de avançar. Um capitão olha aquilo e exclama:
- Derrubem esses malditos monstros!
Usando bombas, os policiais as atiram nos pés dos androides e as detonam. Os androides tem suas pernas mutiladas e caem, mas não fazem nenhuma expressão de dor. Os policiais se assombram.
Arrastando-se
pelo chão, os androides tentam alcança-los. Os policiais atiram em suas cabeças
e se espantam ao ver que alguns continuavam avançando. Mas, sucumbindo aos ferimentos, eles se esgotam e finalmente morrem aos seus pés.
- Meu Deus! Mas
que mutações desumanas esses fanáticos estão fazendo?! – exclama um
policial.
Mas outros
androides aparecem e, portando enormes canhões de mão, atiram contra os vagões
tombados. Um laser dourado e concentrado atravessa o revestimento de aço,
atingindo os policiais e desintegrando-os com o elevadíssimo calor. Nasier se espanta com o espetáculo de destruição.
Após alguns
minutos, estava tudo acabado. Os puristas saíam vitoriosos de mais um
confronto.
Maynard caminha
pelo campo de batalha e olha para os policiais mortos. Como Database disse,
aqueles não eram policiais comuns, mas sim mercenários arregimentados pelas
corporações. Elas estavam convocando os criminosos condenados das penitenciárias
para lutar ao seu lado, oferecendo-lhes a chance de libertação caso as
corporações vencessem.
Enxugando o suor
de sua testa, Maynard sabe que isso jamais aconteceria. As corporações não tem
mais nenhuma chance de vencer. A maioria dos policiais comuns abandonaram a
luta, preferindo ficar em casa com suas famílias. Ainda assim as corporações
partiam ao combate.
“Como um último
suspiro de vida de um animal prestes a ser abatido”, reflete ele.
Nasier se
aproxima e encontra o mercenário parado em silêncio. O líder diz:
- Eu não me
lembro de tê-lo visto combatendo-os conosco.
- Não são
policiais. – responde ele – São mercenários pagos pelas corporações.
O líder sorri.
- Quem seria tão tolo de aceitar lutar ao seu lado nesse estágio da Rebelião?
- Criminosos
cumprindo pena nas prisões. As autoridades lhes ofereceram a liberdade e, por
não saberem o que estava havendo aqui fora, eles aceitaram e acabaram mortos aqui.
Maynard mexe em
um corpo com o pé, evidenciando sua morte.
- Falando assim
parece até que você se lamenta, mercenário.
Nasier falava com
desconfiança, mas Maynard muda de assunto.
- Vamos
prosseguir.
Caminhando por caminhos sinuosos, o mercenário percebe que os puristas tinham pouquíssimo conhecimento da área em que se encontravam. Maynard é um profissional pleno e competente. Se ele fosse um purista, ele jamais entraria em um lugar daqueles sem total conhecimento prévio. De fato, os facciosos se comportavam como amadores.
Uma vasta área se
aproxima. Eles viam plataformas velhas e enferrujadas e becos escuros pelos
cantos. O local parecia abandonado e silencioso, exceto pelos sons
perturbadores da batalha acima. Nasier fica apreensivo.
- Espero que
saiba para onde está nos levando, Maynard.
Em tom
reprobatório, o mercenário responde:
- Não sou eu quem
deveria saber.
Ao chegarem no
centro da área, uma figura encapuzada pula sobre as plataformas e desce ao piso.
Os puristas se intrigam. Maynard se aproxima e diz:
- Laura, eles são
todos seus.
- Laura?! –
pergunta o líder – O que é que está havendo aqui?
Então a figura
tira seu capuz e eles veem o rosto da runner.
Passos são
ouvidos e eles veem centenas de soldados correndo nas plataformas. Nos becos,
ciborgues enormes aparecem.
Escoltado por mais soldados, uma pessoa
conhecida se revela. Nasier exclama:
- Huxley!
O líder dos
Trans-humanistas diz:
- Hora de
acertarmos as contas, canalha!
Olhando ao redor,
Nasier encontrava-se totalmente cercado. Ele pergunta:
- Maynard! Por
quê?!
Mas o mercenário
se afasta calmamente, caminhando em silêncio com as mãos nos bolsos.
- Não se preocupe
com ele. – interrompe Huxley – O mercenário é um especialista em bombas. Pensei
em dar-lhe a sede da Resistência Purista para demolir.
Laura apenas
observava em silêncio. Nasier pergunta:
- Lótus, qual é o
motivo disso?!
- Não posso permitir
que vocês vivam, não após o ataque à Cellgenesis.
- Por quê?!
- Vocês se
apoderaram de uma tecnologia perigosa, Nasier. Sonata corre um altíssimo risco com sua
facção. Não permitirei que vocês desenvolvam e proliferem mutantes indestrutíveis como o Demiurgo.
O líder se
intriga.
- Demiurgo...?!
- Caso isso
aconteça, a Resistência Purista reinará absoluta, esmagando as demais
facções, a superfície e promovendo o assassinato de qualquer um que tiver um
membro biomecânico implantado em seu corpo.
Nasier arregala
os olhos; era exatamente isso o que ele pretendia.
- Então é esse o
motivo de sua traição?
Laura se irrita.
- Traição? Eu
nunca os servi.
Ele se enfurece.
- Depois de tudo
o que fizemos juntos! O resgate de Vertigo, a sabotagem na Bio Prótesis, o
roubo na Cellgenesis... Eu poderia tê-la aceitado em nossa facção como os
Trans-humanistas fizeram com o seu amigo Vertigo, mas você decidiu se aliar a
eles também?
- Eu não me aliei
a ninguém. – discorda ela – Eu apenas estou livrando Sonata de uns genocidas como vocês.
- Não somos
genocidas! – vocifera ele – Somos idealistas, puristas, higienistas da raça humana! Se você
quer ver um genocida, olhe para esses profanadores da fisiologia atrás de você.
Nasier delirava
em seu próprio fanatismo ideológico.
A garota retruca:
- Você não é
diferente, Nasier! Você é só mais um sociopata pirado que
promove sua ideologia obsoleta através do terrorismo. Esses androides hediondos
da classe Advance comprovam isso.
O líder perde a paciência.
- Sua vadia! –
insulta ele - Nós poderíamos ter reinado Sonata juntos, mas você decidiu
se aliar àquele cão sarnento do Maynard e esses mecanicistas impuros para nos destruir?!
Com frieza, ela
diz:
- Ou eram vocês
ou era toda a metrópole. Não foi uma escolha difícil a se fazer.
Não havia para
onde fugir, eles estavam presos naquela emboscada. Em um ato
desesperado, Nasier ordena:
- Atacar!
As facções
duelam. Os tiros atravessam o ambiente e atingem os mecanicistas. Alguns
cambaleiam mas, protegidos por armaduras e exoesqueletos, eles se recuperam e
atiram de volta. Os androides Advance atiram com seus enormes canhões e incineran alguns ciborgues, mas estes também resistem, protegidos por ligas
metálicas.
Apesar de sua
firme convicção ideológica, os puristas sofriam evidente desvantagem contra
seus arqui-inimigos. Membros biônicos, armaduras e ligas metálicas sempre foram
superiores à carne e os ossos.
Os
trans-humanistas revidam. Como Securitrons, os enormes ciborgues atiram lasers
e mísseis, fulminando as tropas puristas. Os androides Advance são atingidos e
se explodem, espirrando sangue azul para todos os lados.
Aquela era uma
batalha perdida. Nasier tenta se proteger atrás de seus seguranças, mas eles também
são mortos na emboscada. Uma fumaça densa se eleva e ele se esgueira para
longe, fugindo para salvar a sua vida.
- Isso é pelos
puristas! – grita um faccioso com uma granada em sua mão. Ele corre em direção
aos mecanicistas e se explode, matando-os consigo.
Escondida em uma
plataforma, Laura assiste a tudo de longe. Os Trans-humanistas eram guerreiros
excepcionais, pois tinham um admirável poder de fogo e arrasavam a tudo pela
frente. Ela percebe que os puristas não tinham a menor chance.
Os puristas são
exterminados. Uma fumaça negra e um cheiro sufocante de carne queimada paira no
ar. Era a carne pura e imaculada que os puristas se orgulhavam de ter.
Huxley se
aproxima e observa ao redor. A superfície da Cúpula Corporativa se tornara o
cemitério de seus inimigos. Mexendo nos corpos com os pés, ele procura por
Nasier. Minutos se passam e ele se frustra, não o encontrando em lugar algum.
- Mas onde é que
ele se meteu?
- Senhor! – chama
um mecanicista – Avistamos um homem correndo pela superfície ao sul.
Animando-se, o líder
comenta:
- É ele!
Nasier corre
desesperadamente. Suas roupas refinadas e seu cabelo penteado estão arruinados.
Diferente de antes, o purista não demonstra mais repugnância ou elitismo ao
caminhar pela superfície. Ao contrário, ele se lança nos becos e canais
poluídos, ávido para salvar a sua vida.
À sua frente ele
vê a base de uma megatorre. Para sua surpresa havia uma entrada embarricada por madeiras.
Chutando-as com toda a sua força, ele adentra e caminha pelo interior do
prédio. Havia tanta sujeira ao redor que a própria luz era fraca devido à poeira impregnada nas lâmpadas.
Ratos caminham
pelo chão e baratas sobem pelas paredes. Ao seu lado ele vê a entrada de um
elevador e pensa aquilo ser um milagre.
“O que eu sou? Um fanático religioso?”, pergunta-se ele, referindo-se aos clérigos.
Apertando os
botões, o velho elevador se ativa e desce ao seu encontro. Nasier ouve os
mecanicistas lá fora. Uma voz lhe era familiar. Huxley se empolgava em caça-lo
como um animal.
O elevador chega
ao térreo e seu sino toca. Os mecanicistas o ouvem e, encontrando-o no interior da megatorre, gritam:
- Lá está ele!
Nasier se lança
para dentro segundos antes de ter seu corpo incinerado pelos lasers.
Dentro do
elevador, o purista ofega tão intensamente que parece que seu coração vai sair
pela boca. Os velhos mecanismos balançam e estralam. Nasier teme que os
próprios cabos de aço se rompam na subida. Mas não é isso o que acontece.
O último andar se
aproxima, mas não era o topo da megatorre. O purista sai e vê vários sinais de
proibida passagem no saguão. Como esperado, o acesso à superfície era restrito.
Ele ouve sons de gritos e explosões lá fora. Espiando por uma janela, a batalha
por Sonata prosseguia.
Alcançando a
saída, ele encontra as portas de entrada abertas e vandalizadas. À sua esquerda ela vê o
túnel tomado por barricadas; um confronto ocorria entre policiais e
manifestantes. À sua direita ele vê a praça da Cúpula Corporativa; soldados, robôs e ciborgues se confrontavam em uma violentamente. Nasier não
tinha para onde ir.
- Parado aí!
Os mecanicistas
chegaram. Em pânico, ele corre pelo túnel em direção à Cúpula Corporativa.
A praça estava
tomada pelo caos. Acima, aeronaves caíam do céu, mergulhando em chamas pelas alturas. Ao redor, as facções e a polícia se confrontavam em uma batalha que
mais se parecia com um banho de sangue. Sem seus fiéis soldados, Nasier se
sente desprotegido.
Correndo por entre a fumaça e os cadáveres, uma aeronave cai ao seu lado e se explode, lançando-o pelos ares. Caindo no chão, ele luta para não perder a consciência.
Nasier vê um Zero japonês coberto de chamas. Em desprezo
ele pensa:
“Malditos
japoneses! Eles foram os primeiros a seduzir o mundo com sua tecnologia
robótica! Eu ainda verei esses porcos sendo expulsos de Sonata...!”.
Mas o purista não
viverá tanto.
Enquanto se
arrasta para um local seguro, alguém diz:
- Olá, Frank!
Estava fugindo de mim?
Homens robóticos
aparecem. Virando-se, ele vê Huxley falando com ele.
- Afaste-se de
mim, seu verme nojento...!
O mecanicista ri.
- Por todo esse
tempo eu o ouvi me chamando assim. E olhe quem hoje se rasteja no chão como um
verme.
Nasier cospe
sangue e então diz:
- Você é um tolo,
Huxley. A runner usou o mercenário... E também vocês... Para nos destruir! Ela
não está preocupada com a tecnologia corporativa... Ela age em interesse do
Submundo...!
- Está dizendo
que caímos no ardil de Laura?
- Sim...! Ela é
uma marginal, ardilosa... E criminosa da superfície...! Uma última escória que
deve ser extinta...!
Huxley parece
considerar suas palavras.
- Então está dizendo
que a escória da superfície são os nossos verdadeiros inimigos?
- Sim...!
O líder diz:
- Saiba que eu não
fui um tolo, Nasier. Você é quem foi por se apoiar em sua ideologia arcaica de
pureza física. Não fui usado pela superfície. Eu os usei. Aquele hacker desprezível
muito me serviu quando se vendeu para mim. Você, ao contrário, apenas atraiu a
ira da runner mais letal de Sonata. E olha o que te aconteceu. – ele conclui – Que
patético...
- Você acha... Que
a orgulhosa Resistência Purista... Abriria as portas para uma impura? –
pergunta ele – Não somos como vocês... Temos padrões...!
Com ódio no
olhar, o mecanicista responde:
- Você invadiu
minha sede, Nasier. Danificou minha base e matou meus cadetes. Você, que fala
tanto em profanação física, perdoaria o mesmo em sua sede?
Nasier ri.
- Eu profanei?! –
ironiza ele – Sua sede é mais suja do que um esgoto, Huxley! Se alguém foi profanado
naquele lugar... Foi eu ao invadi-lo...
Ofendidos, os mecanicistas
se enfurecem.
- Pretende ser um
elitista até o fim, não é, doutor?
Nasier não responde.
Huxley continua.
- Ouvi dizer que
os puristas adoravam coletar os trans-humanistas mortos para disseca-los. Creio que não se importará se eu dissecar o seu corpo e empalha-lo como
um troféu.
Ao ouvir isto, o
purista se desfalece.
- Você não matará
apenas a mim, mas ao último suspiro da puríssima essência humana...
Os mecanicistas
riem.
Então Huxley aponta sua
arma e atira. A bala perfura a cabeça de Nasier, matando-o instantaneamente.
Vendo-o inerte no chão, ele ordena:
- Levem o corpo!
- Sim, senhor!
Enquanto seus
homens o obedecem, o líder guarda sua arma. Ele pondera em silêncio. Os puristas
foram exterminados. Havia menos uma facção em Sonata. Huxley sabe o que isso
significa; a vitória trans-humanista acarretará uma sequência de eventos no
futuro.
Ocupado demais
para pensar a respeito, ele apenas respira fundo e vai embora. Ainda havia uma
Rebelião no momento. Todo o resto podia esperar.