quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Sonata - 68 - O Ardil de Laura

 


(Artista desconhecido)


As tropas puristas percorrem a superfície do distrito. Eles viam uma área vasta, escura e com passagens estreitas em alguns pontos. Acima, os puristas viam a parte inferior da plataforma da praça. Ela tremia, rangia e soltava poeira, evidenciando que uma feroz batalha ocorria lá em cima.

Diligentemente comandando seus soldados, o líder estabelece o perímetro. As bases das megatorres o cercam, desprovidas de entradas ou janelas. Desde o início, os criadores de Sonata projetaram o nível do solo para ser um local de descarte, por onde percorreriam as instalações sanitárias e de infraestrutura. Nasier detestava a superfície, pois era um local sujo e incompatível com a nobreza de seus ideias.

Enquanto cobrem o território, um grupo de batedores alerta o grupo.

“Senhor Nasier, venha urgente!”.

O líder se intriga.

“O que poderia ser tão grave para eles se alertarem assim?”, se pergunta ele.

Nasier chama a seus seguranças e parte ao seu encontro. Além de algumas passagens estreitas, eles finalmente se deparam com os batedores. Então o líder tem uma imensa surpresa.

Encostado em seu aerocarro, um homem de braços cruzados olhava para eles. O líder exclama:

- Maynard...?!

Um segurança atrás deles comenta:

- Acabou a festa. Alguém convidou o Maynard...

Caído no chão, ele vê um de seus batedores. O purista estava apenas desacordado enquanto os outros apontavam suas armas para o mercenário. 

- O que está fazendo aqui? 

Evasivo, o mercenário responde:

- Boa noite, Nasier. Sempre com essa aparência nazista, não?

Maynard se referia ao uniforme preto, botas de cavalaria e o cabelo cuidadosamente penteado do líder.

- Eu apenas expresso a seriedade dos ideais de pureza humana.

- De qualquer forma... – muda ele de assunto – Eu só vim conversar.

O mercenário se desencosta do carro. Imediatamente os puristas apontam suas armas.

Irritado, Nasier olha para seus batedores e pergunta:

- Por que vocês não trouxeram o mercenário até mim?

Com um pouco de medo, eles respondem:

- Nós íamos fazer isso, senhor. Mas veja o que aconteceu com quem tentou. – eles apontam para o purista desacordado no chão.

Respirando fundo, o líder pergunta:

- Sobre o que você quer falar?

- A superfície é um lugar perigoso. – responde ele, olhando ao redor – E como vocês são bons demais para um lugar com esse, eu pensei em vir ajuda-los.

- Ajudar-nos?!

Então Nasier gargalha.

- Passagens subterrâneas, túneis desativados, comportas industriais, canais poluídos... – lista ele – Aqui não são os níveis superiores, Nasier. Vocês estão em completa desvantagem.

Os puristas se irritam.

- E o que te faz pensar isso?

- Do jeito que vocês cobrem o perímetro, estão deixando vários espaços desprotegidos. De fato, vocês só me encontraram por que eu permiti.

Maynard tinha razão. Os puristas não tinham experiência em combate na superfície.

- Você fala com arrogância, mercenário. Mas ainda não me convenceu a aceitar sua ajuda.

- Shh! – chia ele com o dedo nos lábios – Está ouvindo?

Ninguém ouve nada.

- Do que você está falando?

- Há um trem chegando. Se seus batedores são tão bons quanto diz, eles já encontraram um linha férrea a leste daqui, não é?

Nasier e seus comandantes se entreolham. Eles não encontraram linha alguma.

- Isso é mais um de seus truques?

- Não é nenhum truque.

- É melhor não estar nos enganando, Maynard. Se não eu mando meus androides esmagarem sua cabeça.

O mercenário sorri.

- Sigam-me.

Avançando pela escuridão, eles veem um trem de carga. O trem para em uma estação abandonada e tropas da Polícia Corporativa desembarcam, transportando suprimentos. Database tinha razão, o inimigo realmente usou a superfície para seu esforço de guerra.

O líder desconfia de Maynard, mas ele comprovou suas palavras. Diferente dos puristas, ele parecia conhecer o local. Nasier diz:

- Parece que você estava certo, mercenário. Você pode ficar conosco... Por enquanto.

Esperando o momento certo, Nasier se prepara para atacar. Então um dilema surge em sua mente. Se ele atacar agora, sofrerá muitas baixas, mas cortará as linhas de suprimento inimigas, paralisando a chegada de reforços acima. Se ele não atacar, preservará suas tropas, mas tornará a tomada da Cúpula Corporativa mais custosa, favorecendo o inimigo e desprestigiando a facção. Ele pondera.

Destravando sua arma, ele a mira em seus inimigos. Não foi uma escolha difícil de se fazer. O líder jamais comprometerá sua facção acovardando-se perante o inimigo.

- Eu não faria isso se fosse você.

Nasier pergunta:

- Por que não?

Maynard aponta em direção dos suprimentos. Algumas caixas se desmontam e, revelando robôs compactados, Securitrons se formam e se levantam. Os pesados robôs se enfileiram na plataforma e caminham ao lado das tropas. De olhos arregalados, o líder conta trinta unidades.

- Sugiro que os deixem ir embora. Eles estão indo para o norte e logo eles se encontrarão com os mecanicistas. Eles têm armamento pesado; deixem que se virem com esses robôs.   

- Não deixarei a glória da vitória para aqueles impuros.

- O trem voltará para trazer mais tropas. Há escassez de Securitrons pela cidade, a Rebelião já tomou suas bases e seus locais de produção. O próximo trem não trará mais nenhum, e então vocês atacam.

O líder se intriga.

- Como é que você sabe tudo isso?

- Apenas faça o que eu digo.

Cheio de orgulho, o líder responde:

- Não é você que dá as ordens aqui.

- Nasier, eu só quero que vocês vivam. Não terei mais serviço se as corporações exterminarem a metrópole com o Projeto Gemini. Preciso de vocês vivos para derruba-los e tomarem o poder.

O líder se espanta.

- Por quê?

Exibindo o seu corpo, Maynard diz:

- Está vendo alguma próteses biomecânica aqui?

Então o líder sorri.

Aguardando pacientemente os policiais deixarem a estação, o trem retorna pela linha e parte para buscar mais tropas. Os puristas se levantam e se dirigem para a estação. Eles sabotam a linha, plantando explosivos no início da plataforma. Soldados e androides Advance se posicionam, aguardando a chegada do inimigo.

O trem retorna e se aproxima da armadilha. Nasier pressiona o botão e os explosivos se acionam.

- Protejam-se!

A explosão é tão forte que suspende os vagões no ar. Os vagões tombam e ameaçam cair sobre os próprios puristas. Aparentemente os vagões transportavam armamentos e munições. Em contato com o fogo, um espetáculo de explosões se forma, devastando a estação e iluminando o escuro fosso da superfície.

A labareda se propaga e se levanta até a plataforma da praça acima. Todos se fascinam, admirados com as coloridas luzes se estourando pelos ares como fogos de artifício. O campo de batalha se estremece e Nasier teme que a própria praça caia sobre eles.

Passado o susto, os vagões que resistiram ao ataque se abrem e tropas policiais saem. Os puristas e os policiais ainda estão atordoados, mas não havia tempo a perder. Um novo combate estava prestes a começar.

- Matem todos! – ordena o líder.

Os puristas se levantam e atiram. Os policiais são pegos de surpresa, mas conseguem se proteger atrás das ruínas do trem. Os androides Advance avançam e invadem as linhas inimigas, intimidando-os com sua elevada estatura.

O ataque coordenado da facção faz os policiais recuarem. As armas liberavam fumaça e atiravam para todos os lados. Extasiado, Nasier via os projéteis de pólvora e laser cruzando a escuridão.

Os androides golpeavam os policiais, fazendo-os voar pelos ares. Os policiais atiravam de volta e sangue azul se espirrava de seus ferimentos, entretanto eles não paravam de avançar. Um capitão olha aquilo e exclama:

- Derrubem esses malditos monstros!

Usando bombas, os policiais as atiram nos pés dos androides e as detonam. Os androides tem suas pernas mutiladas e caem, mas não fazem nenhuma expressão de dor. Os policiais se assombram.

Arrastando-se pelo chão, os androides tentam alcança-los. Os policiais atiram em suas cabeças e se espantam ao ver que alguns continuavam avançando. Mas, sucumbindo aos ferimentos, eles se esgotam e finalmente morrem aos seus pés.

- Meu Deus! Mas que mutações desumanas esses fanáticos estão fazendo?! – exclama um policial.

Mas outros androides aparecem e, portando enormes canhões de mão, atiram contra os vagões tombados. Um laser dourado e concentrado atravessa o revestimento de aço, atingindo os policiais e desintegrando-os com o elevadíssimo calor. Nasier se espanta com o espetáculo de destruição.  

Após alguns minutos, estava tudo acabado. Os puristas saíam vitoriosos de mais um confronto.

Maynard caminha pelo campo de batalha e olha para os policiais mortos. Como Database disse, aqueles não eram policiais comuns, mas sim mercenários arregimentados pelas corporações. Elas estavam convocando os criminosos condenados das penitenciárias para lutar ao seu lado, oferecendo-lhes a chance de libertação caso as corporações vencessem.

Enxugando o suor de sua testa, Maynard sabe que isso jamais aconteceria. As corporações não tem mais nenhuma chance de vencer. A maioria dos policiais comuns abandonaram a luta, preferindo ficar em casa com suas famílias. Ainda assim as corporações partiam ao combate.

“Como um último suspiro de vida de um animal prestes a ser abatido”, reflete ele.

Nasier se aproxima e encontra o mercenário parado em silêncio. O líder diz:

- Eu não me lembro de tê-lo visto combatendo-os conosco.

- Não são policiais. – responde ele – São mercenários pagos pelas corporações.

O líder sorri.

- Quem seria tão tolo de aceitar lutar ao seu lado nesse estágio da Rebelião?

- Criminosos cumprindo pena nas prisões. As autoridades lhes ofereceram a liberdade e, por não saberem o que estava havendo aqui fora, eles aceitaram e acabaram mortos aqui.

Maynard mexe em um corpo com o pé, evidenciando sua morte.

- Falando assim parece até que você se lamenta, mercenário.

Nasier falava com desconfiança, mas Maynard muda de assunto.

- Vamos prosseguir.

Caminhando por caminhos sinuosos, o mercenário percebe que os puristas tinham pouquíssimo conhecimento da área em que se encontravam. Maynard é um profissional pleno e competente. Se ele fosse um purista, ele jamais entraria em um lugar daqueles sem total conhecimento prévio. De fato, os facciosos se comportavam como amadores.

Uma vasta área se aproxima. Eles viam plataformas velhas e enferrujadas e becos escuros pelos cantos. O local parecia abandonado e silencioso, exceto pelos sons perturbadores da batalha acima. Nasier fica apreensivo.

- Espero que saiba para onde está nos levando, Maynard.

Em tom reprobatório, o mercenário responde:

- Não sou eu quem deveria saber.

Ao chegarem no centro da área, uma figura encapuzada pula sobre as plataformas e desce ao piso. Os puristas se intrigam. Maynard se aproxima e diz:

- Laura, eles são todos seus.

- Laura?! – pergunta o líder – O que é que está havendo aqui?

Então a figura tira seu capuz e eles veem o rosto da runner.

Passos são ouvidos e eles veem centenas de soldados correndo nas plataformas. Nos becos, ciborgues enormes aparecem. 

Escoltado por mais soldados, uma pessoa conhecida se revela. Nasier exclama:

- Huxley!

O líder dos Trans-humanistas diz:

- Hora de acertarmos as contas, canalha!

Olhando ao redor, Nasier encontrava-se totalmente cercado. Ele pergunta:

- Maynard! Por quê?!

Mas o mercenário se afasta calmamente, caminhando em silêncio com as mãos nos bolsos.

- Não se preocupe com ele. – interrompe Huxley – O mercenário é um especialista em bombas. Pensei em dar-lhe a sede da Resistência Purista para demolir.

Laura apenas observava em silêncio. Nasier pergunta:

- Lótus, qual é o motivo disso?!

- Não posso permitir que vocês vivam, não após o ataque à Cellgenesis.

- Por quê?!

- Vocês se apoderaram de uma tecnologia perigosa, Nasier. Sonata corre um altíssimo risco com sua facção. Não permitirei que vocês desenvolvam e proliferem mutantes indestrutíveis como o Demiurgo.

O líder se intriga.

- Demiurgo...?!    

- Caso isso aconteça, a Resistência Purista reinará absoluta, esmagando as demais facções, a superfície e promovendo o assassinato de qualquer um que tiver um membro biomecânico implantado em seu corpo.

Nasier arregala os olhos; era exatamente isso o que ele pretendia.

- Então é esse o motivo de sua traição?

Laura se irrita.

- Traição? Eu nunca os servi.

Ele se enfurece.

- Depois de tudo o que fizemos juntos! O resgate de Vertigo, a sabotagem na Bio Prótesis, o roubo na Cellgenesis... Eu poderia tê-la aceitado em nossa facção como os Trans-humanistas fizeram com o seu amigo Vertigo, mas você decidiu se aliar a eles também?

- Eu não me aliei a ninguém. – discorda ela – Eu apenas estou livrando Sonata de uns genocidas como vocês.

- Não somos genocidas! – vocifera ele – Somos idealistas, puristas, higienistas da raça humana! Se você quer ver um genocida, olhe para esses profanadores da fisiologia atrás de você.

Nasier delirava em seu próprio fanatismo ideológico.

A garota retruca:

- Você não é diferente, Nasier! Você é só mais um sociopata pirado que promove sua ideologia obsoleta através do terrorismo. Esses androides hediondos da classe Advance comprovam isso.

O líder perde a paciência. 

- Sua vadia! – insulta ele - Nós poderíamos ter reinado Sonata juntos, mas você decidiu se aliar àquele cão sarnento do Maynard e esses mecanicistas impuros para nos destruir?!

Com frieza, ela diz:

- Ou eram vocês ou era toda a metrópole. Não foi uma escolha difícil a se fazer.

Não havia para onde fugir, eles estavam presos naquela emboscada. Em um ato desesperado, Nasier ordena:

- Atacar!

As facções duelam. Os tiros atravessam o ambiente e atingem os mecanicistas. Alguns cambaleiam mas, protegidos por armaduras e exoesqueletos, eles se recuperam e atiram de volta. Os androides Advance atiram com seus enormes canhões e incineran alguns ciborgues, mas estes também resistem, protegidos por ligas metálicas.

Apesar de sua firme convicção ideológica, os puristas sofriam evidente desvantagem contra seus arqui-inimigos. Membros biônicos, armaduras e ligas metálicas sempre foram superiores à carne e os ossos.

Os trans-humanistas revidam. Como Securitrons, os enormes ciborgues atiram lasers e mísseis, fulminando as tropas puristas. Os androides Advance são atingidos e se explodem, espirrando sangue azul para todos os lados.

Aquela era uma batalha perdida. Nasier tenta se proteger atrás de seus seguranças, mas eles também são mortos na emboscada. Uma fumaça densa se eleva e ele se esgueira para longe, fugindo para salvar a sua vida.

- Isso é pelos puristas! – grita um faccioso com uma granada em sua mão. Ele corre em direção aos mecanicistas e se explode, matando-os consigo.

Escondida em uma plataforma, Laura assiste a tudo de longe. Os Trans-humanistas eram guerreiros excepcionais, pois tinham um admirável poder de fogo e arrasavam a tudo pela frente. Ela percebe que os puristas não tinham a menor chance.  

 Os puristas são exterminados. Uma fumaça negra e um cheiro sufocante de carne queimada paira no ar. Era a carne pura e imaculada que os puristas se orgulhavam de ter.

Huxley se aproxima e observa ao redor. A superfície da Cúpula Corporativa se tornara o cemitério de seus inimigos. Mexendo nos corpos com os pés, ele procura por Nasier. Minutos se passam e ele se frustra, não o encontrando em lugar algum.

- Mas onde é que ele se meteu?

- Senhor! – chama um mecanicista – Avistamos um homem correndo pela superfície ao sul.

Animando-se, o líder comenta:

- É ele!

Nasier corre desesperadamente. Suas roupas refinadas e seu cabelo penteado estão arruinados. Diferente de antes, o purista não demonstra mais repugnância ou elitismo ao caminhar pela superfície. Ao contrário, ele se lança nos becos e canais poluídos, ávido para salvar a sua vida.

À sua frente ele vê a base de uma megatorre. Para sua surpresa havia uma entrada embarricada por madeiras. Chutando-as com toda a sua força, ele adentra e caminha pelo interior do prédio. Havia tanta sujeira ao redor que a própria luz era fraca devido à poeira impregnada nas lâmpadas.

Ratos caminham pelo chão e baratas sobem pelas paredes. Ao seu lado ele vê a entrada de um elevador e pensa aquilo ser um milagre.

“O que eu sou? Um fanático religioso?”, pergunta-se ele, referindo-se aos clérigos. 

Apertando os botões, o velho elevador se ativa e desce ao seu encontro. Nasier ouve os mecanicistas lá fora. Uma voz lhe era familiar. Huxley se empolgava em caça-lo como um animal.

O elevador chega ao térreo e seu sino toca. Os mecanicistas o ouvem e, encontrando-o no interior da megatorre, gritam:

- Lá está ele!

Nasier se lança para dentro segundos antes de ter seu corpo incinerado pelos lasers.

Dentro do elevador, o purista ofega tão intensamente que parece que seu coração vai sair pela boca. Os velhos mecanismos balançam e estralam. Nasier teme que os próprios cabos de aço se rompam na subida. Mas não é isso o que acontece.

O último andar se aproxima, mas não era o topo da megatorre. O purista sai e vê vários sinais de proibida passagem no saguão. Como esperado, o acesso à superfície era restrito. Ele ouve sons de gritos e explosões lá fora. Espiando por uma janela, a batalha por Sonata prosseguia.

Alcançando a saída, ele encontra as portas de entrada abertas e vandalizadas. À sua esquerda ela vê o túnel tomado por barricadas; um confronto ocorria entre policiais e manifestantes. À sua direita ele vê a praça da Cúpula Corporativa; soldados, robôs e ciborgues se confrontavam em uma violentamente. Nasier não tinha para onde ir.

- Parado aí!

Os mecanicistas chegaram. Em pânico, ele corre pelo túnel em direção à Cúpula Corporativa.

A praça estava tomada pelo caos. Acima, aeronaves caíam do céu, mergulhando em chamas pelas alturas. Ao redor, as facções e a polícia se confrontavam em uma batalha que mais se parecia com um banho de sangue. Sem seus fiéis soldados, Nasier se sente desprotegido.

Correndo por entre a fumaça e os cadáveres, uma aeronave cai ao seu lado e se explode, lançando-o pelos ares. Caindo no chão, ele luta para não perder a consciência. 

Nasier vê um Zero japonês coberto de chamas. Em desprezo ele pensa:

“Malditos japoneses! Eles foram os primeiros a seduzir o mundo com sua tecnologia robótica! Eu ainda verei esses porcos sendo expulsos de Sonata...!”.

Mas o purista não viverá tanto.

Enquanto se arrasta para um local seguro, alguém diz:

- Olá, Frank! Estava fugindo de mim?

Homens robóticos aparecem. Virando-se, ele vê Huxley falando com ele.

- Afaste-se de mim, seu verme nojento...!

O mecanicista ri.

- Por todo esse tempo eu o ouvi me chamando assim. E olhe quem hoje se rasteja no chão como um verme.

Nasier cospe sangue e então diz:

- Você é um tolo, Huxley. A runner usou o mercenário... E também vocês... Para nos destruir! Ela não está preocupada com a tecnologia corporativa... Ela age em interesse do Submundo...!

- Está dizendo que caímos no ardil de Laura?

- Sim...! Ela é uma marginal, ardilosa... E criminosa da superfície...! Uma última escória que deve ser extinta...!

Huxley parece considerar suas palavras.

- Então está dizendo que a escória da superfície são os nossos verdadeiros inimigos?

- Sim...!

O líder diz:

- Saiba que eu não fui um tolo, Nasier. Você é quem foi por se apoiar em sua ideologia arcaica de pureza física. Não fui usado pela superfície. Eu os usei. Aquele hacker desprezível muito me serviu quando se vendeu para mim. Você, ao contrário, apenas atraiu a ira da runner mais letal de Sonata. E olha o que te aconteceu. – ele conclui – Que patético...

- Você acha... Que a orgulhosa Resistência Purista... Abriria as portas para uma impura? – pergunta ele – Não somos como vocês... Temos padrões...!

Com ódio no olhar, o mecanicista responde:

- Você invadiu minha sede, Nasier. Danificou minha base e matou meus cadetes. Você, que fala tanto em profanação física, perdoaria o mesmo em sua sede?  

Nasier ri.

- Eu profanei?! – ironiza ele – Sua sede é mais suja do que um esgoto, Huxley! Se alguém foi profanado naquele lugar... Foi eu ao invadi-lo...

Ofendidos, os mecanicistas se enfurecem.

- Pretende ser um elitista até o fim, não é, doutor?

Nasier não responde. Huxley continua.

- Ouvi dizer que os puristas adoravam coletar os trans-humanistas mortos para disseca-los. Creio que não se importará se eu dissecar o seu corpo e empalha-lo como um troféu.

Ao ouvir isto, o purista se desfalece.

- Você não matará apenas a mim, mas ao último suspiro da puríssima essência humana...

Os mecanicistas riem.

Então Huxley aponta sua arma e atira. A bala perfura a cabeça de Nasier, matando-o instantaneamente.

Vendo-o inerte no chão, ele ordena:

- Levem o corpo! 

- Sim, senhor!

Enquanto seus homens o obedecem, o líder guarda sua arma. Ele pondera em silêncio. Os puristas foram exterminados. Havia menos uma facção em Sonata. Huxley sabe o que isso significa; a vitória trans-humanista acarretará uma sequência de eventos no futuro.

Ocupado demais para pensar a respeito, ele apenas respira fundo e vai embora. Ainda havia uma Rebelião no momento. Todo o resto podia esperar.

 

 

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