(Arte de Max Hay)
Sentada novamente
sobre o Submundo, Laura reflete sobre o dia anterior. Faz três dias que ela não
tem notícia de Nathan. Diferente dos humanos, os robôs nunca dão satisfações de
seus assuntos. Não importa quantas mensagens ela envie, eles nunca respondem.
Database se
aproxima novamente. Debruçando-se no parapeito, ele fuma seu charuto e
pergunta:
- Laura, aquilo
era mesmo o certo a ser feito?
O chefe se
referia ao seu plano.
- Absoluta.
- Se formos
descobertos, perderemos a neutralidade do Submundo e toda a Rebelião se
acabará.
- Não interessa.
– responde ela – Se aquela tecnologia for usada, restará apenas uma facção em
Sonata, e eles não pensarão duas vezes em cometer um genocídio.
Database fuma
mais uma vez.
- Deixe as facções
se matarem. Por enquanto precisamos delas para derrotar um inimigo em comum.
- Por acaso pensa
que eu sou burra? – pergunta ela, irritada – Eu sei que você manipula todo o
mundo, mas essas pessoas você não conseguirá manipular. Se o que eu temo
acontecer, não haverá mais facções, corporações ou a superfície. Estou tentando
evitar que uns loucos e depravados tenham o absoluto poder!
O chefe assente,
expelindo a fumaça.
- Está bem. Eu
confio em você.
Um minuto se
passa. Database pergunta:
- Como está o
Nathan?
Desanimando-se,
ela enxuga as lágrimas de seus olhos.
- Eu não sei. Não
tenho recebido nenhuma notícia dele.
Fazendo um olhar
preocupado, o chefe pensa a respeito.
- Será que ele
morreu?
A garota se
irrita. Database tenta reformular suas palavras.
- Quero dizer, os
robôs estão tratando dele, não é? Eu quis saber se eles realmente conseguiram e
se Nathan ainda está vivo.
Laura não sabe o
que responder.
- Eu não sei...
Percebendo que a
garota estava muito abalada, o chefe fuma mais uma vez e então diz:
- Estarei em
minha sala se precisar de mim.
Então ele se vira
e vai embora.
A garota fica
sozinha novamente. Enquanto pensa em sua vida, ela vê os vapores subindo e as
pessoas conversando lá embaixo. Heroicamente, os habitantes da superfície
tentavam retomar as suas vidas. Apesar da terrível matança de dias atrás, eles
não amoleceram e Laura os admira por isso. Ela sabe que viver na superfície era
conviver com as dificuldades e os problemas o tempo todo.
“Afinal de
contas, somos um povo duro, resiliente e acostumado às adversidades”, reconhece
ela. A própria runner era um exemplo disso.
Uma hora se
passa. Ainda sozinha, ela anseia por notícias do rapaz.
O vento sopra por
seu sobretudo e ela sente frio. Cansada, ela respira fundo e se prepara para ir
embora. Então algo acontece.
- Laura...
A garota se
assusta. Olhando para o terraço, ela vê um homem caminhando com dificuldade. Cheia
de surpresa, ela pergunta:
- Nathan...?!
O rapaz se
aproxima. Laura nota que ele vestia roupas velhas e largas.
Com voz um pouco
fraca, Nathan se apoia no corrimão e a chama:
- Laura...
A garota se
levanta e corre em sua direção. Emocionada, ela sorri e o abraça, feliz em
vê-lo novamente.
- Nathan... Você
já está bem! E melhorou tão rápido! – surpreende-se ela – Eu não acredito!
A garota não
esperava vê-lo em menos de seis meses.
No alto dos
prédios havia pouca luz e a penumbra estava por toda parte, tornando difícil a vista.
- Laura... –
responde ele, fragilmente – Eu senti tanto a sua falta...
A garota o abraça
fortemente. Então ela percebe algo. O rapaz estava incrivelmente frio.
Soltando-o, ela se afasta e pergunta:
- Nathan... Você
está bem?
E então, ao olhar
para o seu rosto, ela pode ver. O rapaz tinha enxertos em seu rosto. Olhando
para o seu peito, ela vê os enxertos se estendendo para ambos os braços. Laura
tira o seu casaco e nota que seus braços eram biomecânicos, e não apenas o seu
braço direito como antes do acidente. Tocando suas pernas, ela nota que ambas eram
biomecânicas também, rígidas e frias como as de um cadáver.
Espantada, ela
exclama:
- O que os robôs
fizeram com você?!
Respirando fundo,
ele responde:
- Eles
restauraram o meu corpo... E me trouxeram de volta à vida...
Mas não era isso
o que Laura via. Conectada à sua pele orgânica por pontos cirúrgicos, uma pele
sintética, plástica e cinzenta cobria o seu corpo. Por baixo daquela derme, a
garota via fios e cabos entrelaçados entre os seus nervos, misturando fios e
carne.
Cheia de repugnância, ela diz:
- Eles te
transformaram em um monstro...!
- Não! – protesta
ele – Eles me salvaram e me curaram!
- Curaram?! –
indaga-se ela – Eles não te curaram, eles mataram o paciente e o remontaram
como uma máquina!
- Apex disse que
você concordou com o método experimental...
De fato, os robôs
tiveram a anuência de Laura para o tratamento.
- Eu não sabia...
– sussurra ela.
Atordoada, a
garota se afasta. Então ela percebe que Nathan estava descalço e que seus pés
eram metálicos como os de um robô.
Temendo que ela o
rejeite, o rapaz abre os braços e diz:
- Me dê um
abraço...
Então seu peito
se abre e sua pele se estica, separando os pontos e revelando uma enorme
cicatriz. Laura se enoja.
- Afaste-se de
mim!
Nathan arregala
os olhos.
- O que disse?
- Fique longe de
mim!
- Laura...?! –
espanta-se ele.
- Nathan... –
sussurra ela – Eu não sei o que fizeram com você, mas não é esse o homem que eu
quero ter.
- Mas Laura... –
insiste ele – Eu te amo... Eu te amo tanto...
Quanto mais o
rapaz respirava, mais os cabos elétricos se mexiam sob sua pele.
Mesmo sua voz saía um pouco robótica. O que a garota via era um ciborgue, meio
homem, meio máquina, restaurado rudimentarmente para se parecer um robô.
- Não... –
responde ela – Você não é mais o mesmo Nathan que eu conheci.
- Por favor...
O rapaz se
aproxima. Esquivando-se, a garota puxa o seu casaco e o arranca, revelando o
seu corpo. Agora despido, ela conseguia ver a face da abominação. Nathan era um
misto de fios e cabos, pele e carne.
- Me desculpe...
– responde ela, contemplando-o – Me desculpe...
Virando-se, a
garota intenta ir embora. O rapaz a interrompe.
- Segure minha
mão, Laura, e me diga que em mim não existe mais o calor do amor que eu sinto por você...
Cedendo à sua
apelação, ela lentamente estica seu braço. Porém, antes de toca-lo, ela hesita.
Os olhos de Nathan brilhavam de forma incomum, como se ele estivesse desperto
pela metade.
- Como eu poderia
tocar uma pele tão fria, ou abraçar uma máquina? – pergunta
ela – É você mesmo que está aí ou, atrás de seus olhos, existe um computador calculando
minhas escolhas e estimando minhas respostas?
O rapaz suplica:
- Por favor... Pegue
minha mão e sinta se meu amor por você se exauriu...
Mas, negando-se,
Laura diz:
- Me desculpe.
Então ela se vira
e vai embora.
Incapaz de
segui-la, o rapaz dá dois passos e tropeça, caindo de joelhos na plataforma. Esticando
seu braço, com muito esforço ele grita:
- Laura...!
Mas sua voz sai
fraca e sem fôlego. De repente sua visão se embaça e pixels aparecem. Seu
coração se acelera e descoordena seu marca-passos. Afligido por uma dor terrível,
ele sentia o furacão de suas emoções.
A tristeza o
castiga por dentro. Todos os programas instalados em seu cérebro para aprimorar
seu suporte a vida se confundem. O homem compreendia a dor, mas a máquina não. Entretanto, ela se adapta e o corresponde conforme suas leituras
neuroquímicas.
Todo o corpo se
contorce. Sua mente cai em uma espiral de desorientação. A dor se intensifica.
Sem forças para resisti-la, Nathan desaba e chora intensamente.
E então, pela
primeira vez, o rapaz chorava as lágrimas de um robô.
§
Correndo sobre os
prédios, Laura percorre a superfície. Confusa, ela pensa sobre o encontro com o
rapaz. Nathan retornara com a aparência de um morto-vivo ressuscitado pelas
máquinas. Cheia de repugnância, ela via nele apenas um ciborgue.
A garota pula
sobre os terraços. Ela era um ser humano genuíno, alguém com emoções e
sentimentos verdadeiros. Porém, ela não podia mais dizer o mesmo de Nathan.
Para ela, o rapaz se tornara um robô que até podia sentir o calor e o frio, mas
nunca o fogo e o gelo.
Era noite em
Sonata. Laura olha para cima e vê as enormes megatorres alcançando o céu.
Muitas foram as noites em que ela se aventurou pela metrópole. Não era apenas
por camuflagem que ela escolhia as missões noturnas, mas também
para se proteger do calor do sol. Durante o dia, sua pele se queimava e o calor
a desgastava. Ela não podia se arriscar e se escorregar do alto de um prédio
por estar com as mãos cobertas de suor.
“Esperando pela
noite, eu me escondia do dia”, pensa ela.
A garota se
acostumou a se esconder de tudo o que a expunha e a enfraquecia. Nathan, por
sua vez, expôs seus sentimentos e a enfraqueceu. Então ela pensa:
“Estaria eu me
escondendo dele agora?”.
§
Escorado na
plataforma, Nathan tem dificuldade em se levantar. Seus membros funcionavam
perfeitamente, mas ele não os sentia. A dormência em seus braços e pernas lhe
causavam desorientação.
Informações
aparecem em sua vista como se ele estivesse usando um óculos com identificador
aeroespacial. Seu rosto estava ressecado pelas lágrimas e sua pele orgânica se retraía, puxando a pele artificial. Era como se, em seu rosto, houvesse uma fita
adesiva.
Desanimado, ele
fecha os olhos. Nathan não sabe mais se é um humano. Metade homem, metade
máquina, ele se pergunta se ainda tem uma alma.
“Uma alma
plástica”, pensa ele. “Mas uma alma plástica que ama”.
O vento sopra
frio na superfície. O rapaz percebe que agora captava as sensações do corpo de um modo diferente. Ele ainda sentia o frio, mas o frio piorava ao saber que
Laura se foi.
Descendo do
telhado, ele cambaleia pelos becos escuros e procura pela garota.
“Laura...”, pensa
ele. “Volte para mim...”.
Cada passo é uma
tentativa desajeitada de se movimentar. Seu corpo estava quase irreconhecível,
mas seus sentimentos pela garota continuavam os mesmos. Ele pensa:
“Por favor,
Laura, olhe nos meus olhos e me diga que tudo o que vivemos não mais importa...
Me diga que tudo o que tínhamos acabou...”.
O rapaz jamais se
esquecerá do que os dois viveram juntos. Ele não consegue encontrar um momento
em sua vida em que ele esteve mais feliz.
“Deixe eu te
mostrar que, atrás dessa aparência robótica, ainda existe um homem que te ama
intensamente e para sempre”.
Talvez com seu
apelo ele consiga fazer a garota mudar de ideia. Mas Laura não era alguém que
mudava de ideia; na verdade ela continuava a mesma. O coração da garota era
mais gelado que o couro sintético de Nathan.
A rejeição não
seria fácil de lidar. Laura se foi e ele teme que ela não voltará. O rapaz
poderia culpar a Apex, mas sabe que, se não fosse pela Design Inteligente, ele
não estaria vivo naquele momento.
“Se é que eu
posso chamar isso de vida?”, pergunta-se ele.
Por Laura ele se
lançaria no fogo. Ela, por outro lado, o deixaria lá queimando sozinho. A
garota se foi e seu espaço foi preenchido pela dor. Desanimando-se, ele se
encosta em uma parede e chora.
“Eu te amo tanto...
Por quê?”.
Nathan sabe que
ela não ouvirá os seus lamentos. Para Laura, robôs não têm sentimentos. O rapaz
morreu no instante em que os robôs decidiram cuidar dele. Reconhecendo essa
triste verdade, ele sussurra:
- Volte para
mim... – suas pernas cedem e ele cai de joelhos – Por favor, eu imploro...
Volte para mim...
Mas, enquanto ele
chora, as pessoas passam e o ignoram, pensando ele ser só mais um mendigo digno de pena da superfície.
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