sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Sonata - 66 - O Retorno de Nathan

 


(Arte de Max Hay)


Sentada novamente sobre o Submundo, Laura reflete sobre o dia anterior. Faz três dias que ela não tem notícia de Nathan. Diferente dos humanos, os robôs nunca dão satisfações de seus assuntos. Não importa quantas mensagens ela envie, eles nunca respondem.

Database se aproxima novamente. Debruçando-se no parapeito, ele fuma seu charuto e pergunta:

- Laura, aquilo era mesmo o certo a ser feito?

O chefe se referia ao seu plano.

- Absoluta.

- Se formos descobertos, perderemos a neutralidade do Submundo e toda a Rebelião se acabará.

- Não interessa. – responde ela – Se aquela tecnologia for usada, restará apenas uma facção em Sonata, e eles não pensarão duas vezes em cometer um genocídio.

Database fuma mais uma vez.

- Deixe as facções se matarem. Por enquanto precisamos delas para derrotar um inimigo em comum.

- Por acaso pensa que eu sou burra? – pergunta ela, irritada – Eu sei que você manipula todo o mundo, mas essas pessoas você não conseguirá manipular. Se o que eu temo acontecer, não haverá mais facções, corporações ou a superfície. Estou tentando evitar que uns loucos e depravados tenham o absoluto poder!

O chefe assente, expelindo a fumaça.

- Está bem. Eu confio em você.

Um minuto se passa. Database pergunta:

- Como está o Nathan?

Desanimando-se, ela enxuga as lágrimas de seus olhos.

- Eu não sei. Não tenho recebido nenhuma notícia dele.

Fazendo um olhar preocupado, o chefe pensa a respeito.

- Será que ele morreu?

A garota se irrita. Database tenta reformular suas palavras.

- Quero dizer, os robôs estão tratando dele, não é? Eu quis saber se eles realmente conseguiram e se Nathan ainda está vivo.

Laura não sabe o que responder.

- Eu não sei...

Percebendo que a garota estava muito abalada, o chefe fuma mais uma vez e então diz:

- Estarei em minha sala se precisar de mim.

Então ele se vira e vai embora.

A garota fica sozinha novamente. Enquanto pensa em sua vida, ela vê os vapores subindo e as pessoas conversando lá embaixo. Heroicamente, os habitantes da superfície tentavam retomar as suas vidas. Apesar da terrível matança de dias atrás, eles não amoleceram e Laura os admira por isso. Ela sabe que viver na superfície era conviver com as dificuldades e os problemas o tempo todo.

“Afinal de contas, somos um povo duro, resiliente e acostumado às adversidades”, reconhece ela. A própria runner era um exemplo disso.

Uma hora se passa. Ainda sozinha, ela anseia por notícias do rapaz.

O vento sopra por seu sobretudo e ela sente frio. Cansada, ela respira fundo e se prepara para ir embora. Então algo acontece.

- Laura...

A garota se assusta. Olhando para o terraço, ela vê um homem caminhando com dificuldade. Cheia de surpresa, ela pergunta:

- Nathan...?!  

O rapaz se aproxima. Laura nota que ele vestia roupas velhas e largas.

Com voz um pouco fraca, Nathan se apoia no corrimão e a chama:

- Laura...

A garota se levanta e corre em sua direção. Emocionada, ela sorri e o abraça, feliz em vê-lo novamente.

- Nathan... Você já está bem! E melhorou tão rápido! – surpreende-se ela – Eu não acredito!

A garota não esperava vê-lo em menos de seis meses.

No alto dos prédios havia pouca luz e a penumbra estava por toda parte, tornando difícil a vista.

- Laura... – responde ele, fragilmente – Eu senti tanto a sua falta...

A garota o abraça fortemente. Então ela percebe algo. O rapaz estava incrivelmente frio. Soltando-o, ela se afasta e pergunta:

- Nathan... Você está bem?

E então, ao olhar para o seu rosto, ela pode ver. O rapaz tinha enxertos em seu rosto. Olhando para o seu peito, ela vê os enxertos se estendendo para ambos os braços. Laura tira o seu casaco e nota que seus braços eram biomecânicos, e não apenas o seu braço direito como antes do acidente. Tocando suas pernas, ela nota que ambas eram biomecânicas também, rígidas e frias como as de um cadáver.

Espantada, ela exclama:

- O que os robôs fizeram com você?!

Respirando fundo, ele responde:

- Eles restauraram o meu corpo... E me trouxeram de volta à vida...

Mas não era isso o que Laura via. Conectada à sua pele orgânica por pontos cirúrgicos, uma pele sintética, plástica e cinzenta cobria o seu corpo. Por baixo daquela derme, a garota via fios e cabos entrelaçados entre os seus nervos, misturando fios e carne.

 Cheia de repugnância, ela diz:

- Eles te transformaram em um monstro...!

- Não! – protesta ele – Eles me salvaram e me curaram!

- Curaram?! – indaga-se ela – Eles não te curaram, eles mataram o paciente e o remontaram como uma máquina!

- Apex disse que você concordou com o método experimental...

De fato, os robôs tiveram a anuência de Laura para o tratamento.

- Eu não sabia... – sussurra ela.

Atordoada, a garota se afasta. Então ela percebe que Nathan estava descalço e que seus pés eram metálicos como os de um robô.

Temendo que ela o rejeite, o rapaz abre os braços e diz:

- Me dê um abraço...

Então seu peito se abre e sua pele se estica, separando os pontos e revelando uma enorme cicatriz. Laura se enoja.

- Afaste-se de mim!

Nathan arregala os olhos.

- O que disse?

- Fique longe de mim!

- Laura...?! – espanta-se ele.

- Nathan... – sussurra ela – Eu não sei o que fizeram com você, mas não é esse o homem que eu quero ter.

- Mas Laura... – insiste ele – Eu te amo... Eu te amo tanto...

Quanto mais o rapaz respirava, mais os cabos elétricos se mexiam sob sua pele. Mesmo sua voz saía um pouco robótica. O que a garota via era um ciborgue, meio homem, meio máquina, restaurado rudimentarmente para se parecer um robô.

- Não... – responde ela – Você não é mais o mesmo Nathan que eu conheci.

- Por favor...

O rapaz se aproxima. Esquivando-se, a garota puxa o seu casaco e o arranca, revelando o seu corpo. Agora despido, ela conseguia ver a face da abominação. Nathan era um misto de fios e cabos, pele e carne.

- Me desculpe... – responde ela, contemplando-o – Me desculpe...

Virando-se, a garota intenta ir embora. O rapaz a interrompe.

- Segure minha mão, Laura, e me diga que em mim não existe mais o calor do amor que eu sinto por você...

Cedendo à sua apelação, ela lentamente estica seu braço. Porém, antes de toca-lo, ela hesita. Os olhos de Nathan brilhavam de forma incomum, como se ele estivesse desperto pela metade.

- Como eu poderia tocar uma pele tão fria, ou abraçar uma máquina? – pergunta ela – É você mesmo que está aí ou, atrás de seus olhos, existe um computador calculando minhas escolhas e estimando minhas respostas?

O rapaz suplica:

- Por favor... Pegue minha mão e sinta se meu amor por você se exauriu...

Mas, negando-se, Laura diz:

- Me desculpe.

Então ela se vira e vai embora.

Incapaz de segui-la, o rapaz dá dois passos e tropeça, caindo de joelhos na plataforma. Esticando seu braço, com muito esforço ele grita:

- Laura...!

Mas sua voz sai fraca e sem fôlego. De repente sua visão se embaça e pixels aparecem. Seu coração se acelera e descoordena seu marca-passos. Afligido por uma dor terrível, ele sentia o furacão de suas emoções.

A tristeza o castiga por dentro. Todos os programas instalados em seu cérebro para aprimorar seu suporte a vida se confundem. O homem compreendia a dor, mas a máquina não. Entretanto, ela se adapta e o corresponde conforme suas leituras neuroquímicas.   

Todo o corpo se contorce. Sua mente cai em uma espiral de desorientação. A dor se intensifica. Sem forças para resisti-la, Nathan desaba e chora intensamente.

E então, pela primeira vez, o rapaz chorava as lágrimas de um robô.

 

§

 

Correndo sobre os prédios, Laura percorre a superfície. Confusa, ela pensa sobre o encontro com o rapaz. Nathan retornara com a aparência de um morto-vivo ressuscitado pelas máquinas. Cheia de repugnância, ela via nele apenas um ciborgue.

A garota pula sobre os terraços. Ela era um ser humano genuíno, alguém com emoções e sentimentos verdadeiros. Porém, ela não podia mais dizer o mesmo de Nathan. Para ela, o rapaz se tornara um robô que até podia sentir o calor e o frio, mas nunca o fogo e o gelo.

Era noite em Sonata. Laura olha para cima e vê as enormes megatorres alcançando o céu. Muitas foram as noites em que ela se aventurou pela metrópole. Não era apenas por camuflagem que ela escolhia as missões noturnas, mas também para se proteger do calor do sol. Durante o dia, sua pele se queimava e o calor a desgastava. Ela não podia se arriscar e se escorregar do alto de um prédio por estar com as mãos cobertas de suor.

“Esperando pela noite, eu me escondia do dia”, pensa ela.

A garota se acostumou a se esconder de tudo o que a expunha e a enfraquecia. Nathan, por sua vez, expôs seus sentimentos e a enfraqueceu. Então ela pensa:

“Estaria eu me escondendo dele agora?”.

 

§

  

Escorado na plataforma, Nathan tem dificuldade em se levantar. Seus membros funcionavam perfeitamente, mas ele não os sentia. A dormência em seus braços e pernas lhe causavam desorientação.

Informações aparecem em sua vista como se ele estivesse usando um óculos com identificador aeroespacial. Seu rosto estava ressecado pelas lágrimas e sua pele orgânica se retraía, puxando a pele artificial. Era como se, em seu rosto, houvesse uma fita adesiva.

Desanimado, ele fecha os olhos. Nathan não sabe mais se é um humano. Metade homem, metade máquina, ele se pergunta se ainda tem uma alma.

“Uma alma plástica”, pensa ele. “Mas uma alma plástica que ama”.

O vento sopra frio na superfície. O rapaz percebe que agora captava as sensações do corpo de um modo diferente. Ele ainda sentia o frio, mas o frio piorava ao saber que Laura se foi.

Descendo do telhado, ele cambaleia pelos becos escuros e procura pela garota.

“Laura...”, pensa ele. “Volte para mim...”.

Cada passo é uma tentativa desajeitada de se movimentar. Seu corpo estava quase irreconhecível, mas seus sentimentos pela garota continuavam os mesmos. Ele pensa:

“Por favor, Laura, olhe nos meus olhos e me diga que tudo o que vivemos não mais importa... Me diga que tudo o que tínhamos acabou...”.

O rapaz jamais se esquecerá do que os dois viveram juntos. Ele não consegue encontrar um momento em sua vida em que ele esteve mais feliz.

“Deixe eu te mostrar que, atrás dessa aparência robótica, ainda existe um homem que te ama intensamente e para sempre”.

Talvez com seu apelo ele consiga fazer a garota mudar de ideia. Mas Laura não era alguém que mudava de ideia; na verdade ela continuava a mesma. O coração da garota era mais gelado que o couro sintético de Nathan.

A rejeição não seria fácil de lidar. Laura se foi e ele teme que ela não voltará. O rapaz poderia culpar a Apex, mas sabe que, se não fosse pela Design Inteligente, ele não estaria vivo naquele momento.

“Se é que eu posso chamar isso de vida?”, pergunta-se ele.

Por Laura ele se lançaria no fogo. Ela, por outro lado, o deixaria lá queimando sozinho. A garota se foi e seu espaço foi preenchido pela dor. Desanimando-se, ele se encosta em uma parede e chora.

“Eu te amo tanto... Por quê?”.

Nathan sabe que ela não ouvirá os seus lamentos. Para Laura, robôs não têm sentimentos. O rapaz morreu no instante em que os robôs decidiram cuidar dele. Reconhecendo essa triste verdade, ele sussurra:

- Volte para mim... – suas pernas cedem e ele cai de joelhos – Por favor, eu imploro... Volte para mim...

Mas, enquanto ele chora, as pessoas passam e o ignoram, pensando ele ser só mais um mendigo digno de pena da superfície.

 

 

 

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