sábado, 19 de junho de 2021

Tiergarten - 31 - Checkpoint Charlie

 



Gunther se veste com roupas novas e limpas. Na cozinha, ele come pão e toma café como se fosse a última vez. Ele nota algo incomum na sala. Misteriosamente havia um cigarro sobre a mesa. Olhando ao redor, ele sabe que estão observando-o e ouvindo-o, pois havia escutas da Stasi por toda parte. Tateando nas paredes, ele não encontra nada e, ao espiar pela persiana, ele não vê ninguém. “Não importa”, pensa ele.

Ao terminar de comer, ele pega o cigarro e o acende. Em pequenos tragos, ele o fuma tranquilamente. Então o telefone toca.

- Alô?

- Gunther, é isso mesmo o que você quer? – pergunta voz.

Apalpando suas dolorosas feridas, ele responde:

- Sim.

- Gunther, se isso ocorrer, todas as dimensões contidas em todas as realidades poderão se dizimar.

O rapaz meneia negativamente a cabeça.

- O Honecker está decidido a negar nossa libertação. E eu estou decidido a pará-lo.

A voz pondera antes de falar.

- Eu sei que, com o que está prestes a fazer, isso não fará diferença, mas você não deveria fumar, Gunther. Isso te faz mal.

O rapaz ri. Fumando uma última vez, ele apaga o cigarro e diz:

- Eu estou pronto para ir, agora.

Respirando fundo, a voz simplesmente responde:

- Está bem.

 

§

 

As tensões estão elevadas em Berlim. Tanques americanos e soviéticos se encaram na famosa fronteira do Checkpoint Charlie. A data é 27 de outubro de 1961 e, naquela agradável tarde de outono, o mundo prende a respiração com a iminência de uma guerra nuclear.

Em uma esquina, longe da vista de todos, Gunther aparece no local. Apesar de estar décadas no passado, ele reconhece o lugar. Ali era o bairro de Friedrichstadt em Berlim Ocidental. Aproximando-se discretamente, ele vê os poderosos tanques M48 Patton ao lado de uma pequena guarita de madeira. “Então é esse?”, pergunta-se. “Então é esse o famoso Checkpoint Charlie?”.   

Ao contrário dos soviéticos, os americanos nunca construíram uma estrutura permanente na fronteira berlinense, pois nunca a consideraram uma fronteira internacional. O que Gunther vê é uma simples casinha de madeira tão patética que poderia ser derrubada com um sopro. “Um sopro de lobo-mau”, pensa ele. “E esse lobo chamava-se União Soviética”.

Adiante, além da fronteira, o rapaz vê o primeiro Muro de Berlim. Diferente daquele em seu tempo, com dois muros e uma extensa “faixa da morte”, em 1961 os comunistas haviam construído apenas uma contenção rudimentar, facilmente transponível por cidadãos mais ousados. Entretanto, como o próprio Honecker disse, os soldados tinham permissão de atirar para matar quem tentasse.

Um policial se aproxima e, abordando-o, diz:

- Ei, você! Essa é uma área restrita! Afaste-se!

Entrando em um restaurante interditado, o rapaz refugia-se com outros transeuntes pegos coincidentemente no local. Lá dentro, as pessoas assistem a uma arcaica televisão de imagens em preto e branco, exibindo uma reportagem sobre a construção do Muro de Berlim.

“Nós procuramos a paz, mas nós não nos renderemos!”, diz o presidente americano John F. Kennedy. Essa foi sua resposta ao ultimato dado em junho de 1961 pelos soviéticos, quando esses exigiram que as potências ocidentais deixassem Berlim Ocidental. Khrushchev intentava assinar um tratado de paz separado com a Alemanha Oriental, assim retirando as tropas americanas, britânicas e francesas de seu território. Para Gunther, aquilo foi só mais uma manobra política para expulsar as potências ocidentais do território controlado pelos russos.

Em seguida, a reportagem exibe o primeiro-secretário Walter Ulbricht dando entrevista na conferência internacional de imprensa em 15 de junho de 1961. Ao ser questionado pelo suposto plano de construir um muro fronteiriço, ele taxativamente responde: “ninguém tem a intenção de erigir um muro!”. Infelizmente para a Alemanha, ele estava mentindo.

Sem nenhum acordo entre os americanos e soviéticos, as tensões continuaram. Em 22 de outubro do mesmo ano, o chefe de missão Allan Lightner foi parado em seu carro enquanto atravessava o Checkpoint Charlie. Apesar do documento assinado pelos aliados, garantindo o livre trânsito de oficiais pelos setores, os soviéticos o violaram, alegando não reconhecer os papeis de identificação de Lightner.

No dia 25 de outubro, o General Watson, responsável pelas tropas americanas em Berlim, comunicou ao Departamento de Estado que o Coronel Solovyev não colaborava em evitar distúrbios durante as negociações de paz. Porém, Solovyev acusou os americanos de infiltrar soldados no lado soviético e de manter tanques na fronteira, violando as regulamentações da RDA.

Dessa vez, a manobra partia dos americanos, pois para Gunther eles provocavam os soviéticos para saber sua determinação em manter o muro. Infelizmente para o Ocidente, os russos estavam firmemente dispostos a mantê-lo.  

Com o impasse diplomático, dois dias depois os tanques americanos e soviéticos se encarariam, apontando seus canhões carregados de munição real uns aos outros.

“É essa a chance que eu devo agarrar”, pensa ele.

Subindo ao terraço de um prédio, o rapaz espera até o amanhecer para agir. A noite foi tensa e agitada, as superpotências estavam perigosamente se preparando para o confronto.

Finalmente amanhece. Ao longe, Gunther nota uma arma longa e esquisita. Os americanos montavam algo que se parecia com um morteiro, mas era muito maior. Em sua ponta havia um robusto projétil, arredondado e de cor preta, semelhante a uma melancia. “O que é isso?”, pergunta-se ele.

Sabendo como tudo aquilo acaba, Gunther se apressa. Não havia tempo a perder. Esgueirando-se pelos veículos militares, ele se aproxima da escotilha aberta de um tanque. O operador estava do lado de fora e, enquanto fumava, reclamava que passou a noite toda dentro daquela "apertada lata de sardinha”. Apesar da dificuldade, o rapaz se alegra por conseguir entender o inglês. Mas, em instantes, aquilo não terá mais importância.

Subindo pelo veículo, ele o adentra e então fecha a escotilha acima. Outro operador estava lá dentro e, ocupado falando ao comunicador, não percebe a presença do estranho. Batendo em sua cabeça com um extintor, o rapaz dá partida e logo todo o veículo se vibra.

- Hey, what´s going on in there?![1] – pergunta alguém lá fora.

Gunther não faz ideia de como operar um tanque, mas crê que não era algo tão complexo que um soldado raso não pudesse fazer. As instruções estão em inglês, mas ele consegue entender. Girando as alavancas, o veículo se movimenta.

Alguém estapeia a lataria no lado de fora. O rapaz ouve passos no teto e o som da escotilha sendo puxada. Ele precisava se apressar.

- Há um intruso no tanque! – alerta alguém.

Mirando a torreta à um tanque soviético, ele põe o polegar sobre um botão na alavanca e, respirando fundo, o aperta. O estalo é tão alto que sopra vento para todos os lados, atordoando-o.

Boquiabertos, o coração dos americanos parece parar. No outro lado da fronteira, um tanque russo se explode pelos ares, ardendo em chamas em seguida. Eles sabem o que aquilo significa. Os alemães, russos e todo o resto do mundo também. Agora não havia mais volta.

- Oh, meu Deus...! – sussurra alguém.

Aproveitando o momento de hesitação, Gunther abre a escotilha e foge rapidamente dali. Um segundo depois, flashes de projéteis ultra velozes cruzam o ar e fulminam os tanques americanos, criando um espetáculo de explosões.

Uma sirene é ouvida. Os tanques avançam e tiros de metralhadora são disparados no lado oriental. Com toda sua fúria, os russos revidavam. Gunther assiste a cabana do Checkpoint Charlie, uma edificação frágil e patética mantida ali como uma afronta aos seus inimigos, ser pulverizada pelos poderosos T-55 soviéticos.

Os americanos tentavam contra-atacar, mas o ímpeto russo era feroz e muito bem coordenado. Todos esperavam um ataque surpresa, mas ninguém acreditava que, de fato, ele ocorresse.

Enquanto se afasta, o rapaz se aproxima daquele estranho morteiro visto anteriormente. Com semblantes desesperados, cinco soldados o operavam. Porém, um a um é abatido pelas metralhadoras russas no outro lado da divisa. Agachando-se, o rapaz ouve as balas estalarem os vidros e as paredes ao redor de si.

Agora sozinho, Gunther pode ver aquele equipamento melhor. Ele estava diante de um sistema de armamento M-29, equipado com uma bomba nuclear tática com a potência de 20 toneladas de TNT. Naquela estranha bomba em formato de melancia, ele lê “W54” e “plutônio 239”.

- Armas nucleares! – empolga-se ele.

Lembrando-se de Einstein, ele agora entende o que o físico quis dizer. A ciência fazia mais mal do que bem. O uso de armas nucleares estava nos planos de Gunther, pois ele intentava provocar uma guerra que destruísse o socialismo na Alemanha. Não havia diplomacia que depusesse o SED e, com Honecker no comando, seu país pararia no tempo, caindo na eterna miséria como a Coreia do Norte ou Cuba.

Mas aquele armamento estava ali, bem à sua frente. Ele não precisava esperar uma reação soviética ou americana. Ele mesmo poderia dar o pontapé inicial desse ataque.

Aproximando-se do M-29, Gunther vislumbra um dos menores equipamentos para a utilização de armas nucleares já criados. Os soldados estavam mortos, mas conseguiram carregar a bomba a tempo. Rapidamente o rapaz procura pelo detonador, pois o confronto na fronteira pulverizava os edifícios e os fragmentos caíam sobre ele.

Havia um detonador com um cordão. O rapaz o pega e se afasta o máximo que pode até esticar o fio. Com a bomba mirada na direção do leste, o rapaz aperta o botão e finalmente a dispara.

A bomba voa rapidamente por sobre os prédios, indo pelos ares até desaparecer na paisagem. Passados alguns segundos, o rapaz pensa que a bomba falhou. Porém, algo acontece.

Um clarão forte como um relâmpago ofusca os berlinenses. De repente, um som aterrador reverbera pela cidade e um vento quente varre as ruas vazias, assustando-o. O som da sirene é abafado pelo ruído das vidraças se estourando e dos prédios se pulverizando. Ao longe ele vê uma fumaça branca e densa se elevar pelos ares, formando uma horrenda nuvem de cogumelo.

Gunther foge. Correndo pelas ruas, os americanos estão alvoroçados e confusos. Todos se perguntam quem fez aqueles disparos, começando toda aquela balbúrdia. Como em 1945, os alemães se escondem em porões e locais públicos. Um aparelho de rádio emite uma mensagem de alerta aos berlinenses. Um general americano, de nome Alvin Cowan, faz a seguinte declaração: “o que eu temia se concretizou. O M-29 é uma arma de pelotão e eu temia que algum sargento começasse uma guerra nuclear. Infelizmente para todos, ele começou”.

Incógnito entre aquelas pessoas, ninguém sabe que foi ele quem começou a guerra. Dois homens conversam perto dele.

- Os russos vão retalhar. Quanto tempo demora para um míssil balístico chegar aqui?

- Trinta minutos se for da Rússia até os Estados Unidos.

- Trinta minutos?! – espanta-se ele – Então aqui poderá chegar a qualquer momento...

- Sim. – lamenta-se o outro – Pode mesmo.

- Você crê que esse confronto ainda possa ser resolvido diplomaticamente?

Rindo em desprezo, o homem responde:

- Com esse ataque atômico? Certamente não.

De repente eles ouvem o som de assovios vindos do céu. Pensando serem bombardeiros russos sobrevoando-os, eles olham para cima, confusos. Mas não eram bombardeiros, era muito mais do que isso.

Objetos negros e cônicos rasgam o céu. Detonando-se de repente, um clarão mais brilhante e mais poderoso toma as nuvens, liberando a inexorável explosão. Em seguida, toda a paisagem berlinense é devastada como se fosse feita de isopor.

A onda de calor varre o ambiente, lançando Gunther pelo ar como se ele fosse uma folha de papel dentro de um forno. Mas enquanto ele se queima, ele sorri.

Berlim arde em chamas. Os prédios são pulverizados e outros se desabam com o fogo. Bombas nucleares devastam a cidade, formando diabólicas nuvens de cogumelo em toda parte. De repente a antiga capital do Segundo e Terceiro Reich, fundada pelos margraves de Brandemburgo durante o Sacro Império Romano Germânico, desaparece nas chamas da explosão.

Mais uma explosão estremece o ambiente, elevando suas chamas até as aberturas do próprio Céu. As nuvens se afastam e uma nova atmosfera avermelhada se forma, como se os próprios anjos fossem atingidos pela explosão e seu sangue angelical pintasse as nuvens enquanto eles caíam das elevadas alturas, incapazes de fugirem da chama infernal que os esperava lá embaixo.

Correndo em meio às cinzas e escombros radioativos como se eles estivessem em um campo de girassóis, Gunther e Anneliese se encontram e se abraçam. Em seu longo e aconchegante abraço, os dois se beijam, emocionados por estarem finalmente juntos.

Segurando sua mão, o rapaz a convida para dançar. A garota aceita e, sorrindo, dançam valsa entre aquela ruína tóxica. Os dois se abraçam, sapateiam e rodopiam, totalmente alheios à chuva de anjos carbonizados no Céu.

O amanhecer do dia 28 de outubro de 1961 se tornou vermelho de sangue e morte, recheado de veneno radioativo e enfeitado de anjos caídos. Com a eclosão nuclear, o próprio Céu se virara de cabeça para baixo, temperando de anjos o novo inferno na Terra.

Enquanto a abraça, o rapaz percebe que Anneliese fica mais leve em seus braços. Afastando-a por um instante, Gunther olha para seu rosto e vê uma terrível caveira carbonizada e sem olhos. O corpo inteiro dela havia se tornado um esqueleto, totalmente queimado pelo fogo. Então, sinistramente, a garota lhe faz um pedido:      

- Me beije.

Sem pensar duas vezes, o rapaz se aproxima e a beija, passando a língua nos dentes putrefatos e no maxilar desencarnado dela. E continua beijando, como se Anneliese tivesse lábios e língua. Olhando para sua mão, ele finalmente se assusta. Suas mãos, braços e tórax também eram ossos. Gunther também havia se tornado um esqueleto vivo.

Minutos depois, a fumaça negra o envolve e de repente ele é levado dali, carregando em seus braços o esqueleto de Anneliese.

 

 

 

 



[1] “Ei, o que está havendo aí dentro” em inglês

domingo, 13 de junho de 2021

Tiergarten - 30 - A Vingança de Erich Honecker

 


Parado à sua frente, Honecker espera uma resposta. Ele não se move e não desvia o olhar de Gunther, o que o deixa muito desconfortável e intimidado. A tontura o confunde, mas ele se controla antes de responder.

- Eu quero a libertação do socialismo. Eu quero partir.

- Mentira. – retruca Honecker, incisivamente – Você quer fugir.

Enxugando o suor de sua testa, o rapaz argumenta:

- Eu não precisaria fugir se a Alemanha Oriental... – então ele se corrige – Se o senhor... Nos deixasse partir.

- E por que você quer partir?

- Para me reencontrar com minha mãe. Fomos separados pelo governo... – ele se corrige novamente – Pelo senhor... Que proíbe os cidadãos mais jovens de partirem antes de se aposentarem. Não posso esperar tanto tempo. Tenho medo de não vê-la de novo.

- Mentira. – retruca Honecker, novamente – Você não quer simplesmente partir, você quer destruir o socialismo atrás de você. Mas me responda uma coisa: por quê?

Ajuntando coragem, Gunther ousadamente diz:

- Por que eu odeio esse sistema que empobrece, aprisiona e oprime a nós, o povo alemão.

Sorrindo em desprezo, o secretário-geral o desmente:

- Não, você não se importa com o povo alemão. Você deseja destruir o socialismo para poder viver seu romance burguês com aquela garota. E para vive-lo, você não se importa em destruir seu país e as milhões de pessoas que dele dependem.

Constrangido, o rapaz se silencia.  

Atrás de seus grossos óculos de aros pretos, o secretário-geral ainda olha fixamente para ele. Gunther teme, pois parecia estar na presença de um psicopata. De repente, Honecker argumenta:

- Imagine que você traga um cachorro para casa e esse cachorro come de sua comida e dorme em sua cama, desfrutando de tudo o que você generosamente lhe dá. Mas então ele começa a estragar sua casa, sujando os cômodos, desprezando sua comida, rasgando os móveis e desrespeitando sua autoridade. O que fazer com esse animal indisciplinado e ingrato, o mesmo que você dedicou tanto amor e carinho e que agora ele morde a mão que o alimenta?

O rapaz não sabe o que responder. Honecker continua:

- Você é esse cachorro, senhor Gunther. Nascido e criado sob meu governo, você desfrutou da segurança e do bem-estar social que eu proporcionei. Mas agora se volta contra mim como um estrangeiro, reacionário e capitalista. Mas eu sei o que fazer com os ingratos que desejam fugir.

Nesse momento, Honecker põe a mão sob seu casaco e revela uma enorme lâmina prateada que, ao ser exposta, brilha ao luar.

- Senhor Honecker, o que está fazendo? – assusta-se Gunther.

Empunhando sua enorme faca, ele de repente a levanta e então brada:

- Vingança!       

Atacando-o, a lâmina corta o tórax de Gunther de cima a baixo, rasgando inclusive suas roupas. O rapaz grita e, apavorado, põe as mãos sobre seu ferimento. Ele se horroriza. Elas estavam cobertas de sangue.

- Meu Deus!

- Deus?! – indigna-se Honecker – Se refere ao cristianismo? Essa religião conservadora e reacionária que nunca se conformou com a ideologia e o partido?

Virando-se, o rapaz tenta fugir, mas ao dar três passos, o secretário-geral reaparece à sua frente.

- Ah! – brada ele.

O golpe atinge Gunther, cortando sua pele.

O medo libera uma explosão de adrenalina em seu corpo, retardando a embriaguez do álcool. Aos tropeços, ele se vira e corre na direção do prédio de Anneliese. Enquanto cruza o gramado, ele ouve Honecker gargalhar ao longe.

A fachada curva do famoso Schlange está à sua frente. Gunther passa pela entrada e toca a parede, manchando-a de sangue. O interior estava incomumente escuro mas, sem tempo para raciocinar, ele sobe a escadaria.

- Sim! – alegra-se Honecker – Faça o que você quer fazer. Fuja da RDA! Fuja!

O secretário-geral pomposamente referia-se a si mesmo, como a figura principal e fundamental de seu país.

Gunther sobe as escadas, passando por andares desertos e mal iluminados. As luzes piscam e a temperatura se esfria, como se o rapaz estivesse em um filme de terror. Subindo ainda mais, o prédio parecia ter mais andares do que realmente tinha. Não era um prédio alto, mas ele tem a impressão de ter passado pelo décimo oitavo andar.

“Como, se minhas pernas não estão cansadas?!”, intriga-se ele.

Chegando finalmente ao último andar, o rapaz vê a porta do alçapão no teto. Por alguma razão, havia uma escada ali e ele hesita em subi-la.

- Eu sinto o cheiro do seu medo!

Gunther arregala os olhos, o secretário-geral estava no andar de baixo. Apressando-se, ele sobe a escada e abre o alçapão. Ele vê o que parece ser a caixa d’água, mas a escuridão predominante dificulta sua visão e o intimida.

- Peguei!

Honecker segura o seu pé e o puxa para baixo. O rapaz se agarra na beirada e, livrando-se, continua subindo.

O compartimento das caixas d’água faz ruídos assustadores. Tateando as paredes e os tubos, o rapaz avança e encontra uma porta de aço ao seu lado. Abrindo-a, ele é surpreendido pelo vento frio de Berlim. Ao ar livre, ele percorre o terraço e se dirige à beirada, então  algo lhe causa espanto. O prédio era maior do que o edifício mais alto da Leninplatz.

- Impossível! – assusta-se ele.

- Uma bela noite, não? – pergunta Honecker, atrás dele.

O secretário-geral ergue sua faca e o golpeia, cortando suas costas de cima a baixo. Gunther grita e, esquivando-se, corre pelo terraço circular do Schlange.

- Por quê? – pergunta Honecker – Por que você odeia o país que eu lutei tanto para construir?

O rapaz tenta correr, mas a embriaguez, o sangramento e o frio dificultam sua fuga.

O secretário-geral novamente pergunta:

- Por que você odeia o muro que eu construí para nos proteger dos belicistas do ocidente?

Honecker falava de 1958, quando se tornou Secretário de Segurança do Partido e tomou a responsabilidade por questões militares e de segurança nacional. Em 1961, ele foi o principal responsável pela construção do Muro de Berlim. Controversamente, ele também foi a principal figura por trás da ordem de “atirar para matar” ao longo da fronteira alemã.

O rapaz o despreza. No governo de Honecker, o muro foi aprimorado e expandido. Estima-se que 125 pessoas morreram tentando atravessa-lo. Mas não apenas Berlim que foi mutilada e dividida, mas também seu país com a temida Cortina de Ferro. Todas essas mortes foram responsabilidade direta do secretário-geral, pois para ele um soldado que abatesse um fugitivo não deveria ser punido e sim condecorado por seu serviço. O sangue das vítimas está em suas mãos.

- Você não é um protetor! – retruca Gunther – Você é um assassino!

O secretário-geral ri.

- Pobre criança patética! Se ao menos você soubesse o problema econômico, social e geopolítico que o SED enfrentava... A escalada da Guerra Fria foi a responsável pela construção do Muro de Berlim. A decisão de construí-lo não partiu apenas da Alemanha Oriental, mas de todas as nações membras do Pacto de Varsóvia. Todos concordamos que uma Terceira Guerra Mundial, com milhões de mortos, seria inevitável sem essa decisão. – ele friamente conclui dizendo – Dessa maneira, eu não carrego nenhuma culpa jurídica, legal ou moral pelos meus atos.

O secretário-geral se justifica referindo-se ao contexto histórico de sua época. Em 1961, ano de sua construção, os membros do Pacto de Varsóvia foram unânimes em construi-lo.

Enquanto corre, Honecker aparece subitamente e novamente o corta em suas costas.

- Ah! – agoniza Gunther.

- Por que você odeia tanto a Revolução e o socialismo?

O secretário-geral o perguntava constantemente, como um caçador se divertindo com sua presa. Perseguindo-o, Honecker parecia se deliciar com o momento.

Ainda fugindo, o rapaz responde:

- O socialismo é uma ditadura sanguinária, exploradora e tirânica! Ele nos promete igualdade, mas nos entrega fome, miséria e morte! Apenas troca velhos tiranos por outros. Eis aí o resultado de sua Revolução.

Honecker ri novamente.

- Ora, mas isso é uma tremenda mentira! Por acaso não gostou do meu programa “socialismo de consumo”, responsável pelo aumento notável do padrão de vida do qual, na época, já era o mais alto do Bloco Oriental?      

O rapaz pondera. De fato, Honecker deu maior atenção na disponibilidade de bens de consumo aos alemães. Adicionado a isso, o programa de construção de casas populares foi acelerado, com o secretário-geral prometendo resolver o problema de habitação em seu país.

Correndo pelo terraço, seu sangue pinga pelo piso. O rapaz sua e ofega, esforçando-se. Ao longe, o secretário-geral pergunta:

- Por que você não aceita que possa haver amizade entre o socialismo e outras nações?

- Nunca haverá amizade com o socialismo! – irrita-se ele – Ele é uma ideologia subversiva que quer englobar a todos os países em um único sistema corrupto!

- Mas que injustiça com o meu governo! – indigna-se Honecker – Por acaso você não soube do Tratado Básico entre a Alemanha Oriental e Ocidental em 1972? Ou da minha visita à Alemanha Ocidental em 1987?

Considerada um grande acontecimento nos últimos anos, em 1987 Honecker foi o primeiro chefe de Estado oriental a visitar a RFA. O secretário-geral foi recebido com honrarias pelo Chanceler Helmut Kohl, em um ato que confirmava a aceitação da existência da Alemanha Oriental por parte de seus compatriotas do oeste. Pela visita, Honecker ganhou a medalha da paz das Nações Unidas e foi indicado ao prêmio Nobel da paz. Durante a viagem, Honecker viajou ao local de seu nascimento em Saarland, onde ele proferiu um tocante discurso afirmando que um dia os alemães não seriam mais separados por fronteiras, mas unificados sob um único governo comunista.   

Ainda em seu encalço, o secretário-geral pergunta:

- Por que você odeia o nosso sistema, traindo a generosidade e confiança dos nossos amigos soviéticos?

Ironicamente, Gunther ri.

- O senhor falando em traição? Um homem inescrupuloso e desleal, traidor de sua ideologia e de seu próprio mentor?!

O rapaz referia-se ao material fornecido pela Stasi. Durante o nazismo, Honecker foi preso em 1937 e ficou até 1945. O material alegava que, para sair da prisão, Honecker ofereceu à Gestapo evidências incriminatórias de seus companheiros comunistas. Além disso, ele se relacionou amorosamente com uma carcereira nazista, afirmando que deixaria o comunismo para sempre e que estava disposto a lutar na Wehrmacht de Hitler. Se comprovadas, as alegações seriam crimes de alta traição.  

- Vejo que a espionagem fez um belo trabalho de desinformação, não? – sorri ele – Essas são falsas acusações por parte da mídia ocidental. Você quer saber o que é traição? O discurso de Khrushchev contra o nosso líder e pai dos povos, Joseph Stalin.

Em 1956, houve o 20º Congresso do Partido Comunista Soviético, do qual Honecker presenciou pessoalmente o Primeiro Secretário Nikita Khrushchev denunciar os crimes de Joseph Stalin, morto em 1953.

- Mas você traiu a Ulbricht, seu mentor, aliando-se a Brezhnev na derrubada do Primeiro Secretário.  

Defendendo a “unidade das políticas socioeconômicas”, Honecker argumentava que o aumento de bens de consumo conquistariam a lealdade política do povo. Entretanto, Ulbricht rejeitou a ideia e o dispensou do cargo de Segundo Secretário. Mais tarde, os soviéticos o recolocaram no cargo e Honecker promoveu o descongelamento das relações entre a Alemanha Ocidental e Oriental, assim ganhando o apoio do Primeiro Secretário soviético, Leonid Brezhnev. Devido ao seu trabalho exemplar, em 1971 Honecker foi apontado Secretário Geral do Comitê Central do partido enquanto que,  paralelamente, a liderança soviética forçara Ulbricht a se aposentar por motivos de saúde.

- Eu não traí Ulbricht, eu salvei a Alemanha dele. Sou leal à ideologia e ao partido, não vejo traição alguma nisso. – justifica-se ele – Graças ao Mittag, ao Mielke e a mim, o Estado Socialista Alemão sobreviveu.

Em 1976, cinco anos após ele se tornar secretário-geral, Honecker foi eleito presidente do Conselho de Estado. Dessa maneira, ele alcançou o poder absoluto na Alemanha Oriental. Com o Secretário de Economia Günter Mittag e o Ministro de Segurança do Estado Erich Mielke, os três tomavam as principais decisões do país.

- Como pode falar em lealdade partidária e ideológica se o senhor traiu inclusive a Gorbatchov e aos soviéticos?

- Háh! – ri Honecker – Eu? Um traidor de Gorbatchov?

O secretário-geral gargalha. Gunther fica parado ali, não entendendo sua impulsiva reação. De repente, Honecker se teletransporta e reaparece bem à sua frente, fazendo-o tropeçar e cair com o susto.

Enquanto o rapaz está no chão, o secretário geral diz:

- Gorbatchov foi o verdadeiro traidor da ideologia e do partido! Ele pretendeu implantar reformas liberais no bloco soviético, duas aberrações de nomes Glasnost e Perestroika. Eu prontamente rejeitei essa insanidade.

Honecker referia-se às famosas reformas propostas por Mikhail Gorbatchov. Elas eram conhecidas como “transparência” na esfera política e “nova ordem econômica” na reestruturação da economia. As reformas visavam se afastar da Doutrina Brezhnev, que fortalecia o Pacto de Varsóvia e a atuação militar soviética, e promovia que as nações do bloco oriental desenvolvessem sua própria política nacional, sem qualquer intervenção estrangeira. Para muitos, isso foi visto como o começo do fim do império soviético.

- Então o senhor negou a liberdade ao povo alemão? – pergunta Gunther, desafiante.

O secretário geral sorri.

- Nós já fizemos nossa perestroika, nós não temos nada a reestruturar. Felizmente, tenho companheiros que pensam como eu, comunistas de verdade.

Após as aviltantes reformas de Gorbatchov, Honecker aliou-se a outro chefes de Estado pela manutenção do socialismo na Europa. Estes eram Todor Zhivkov da Bulgária, Gustáv Husák da Tchecoslováquia e Nicolae Ceaușescu da Romênia. Os quatro foram conhecidos como a “Gangue dos Quatro”, um grupo de comunistas linha dura indispostos a adotarem as reformas.

Então o rapaz percebe. Erich Honecker era um estadista inflexível que preferia ver a Alemanha desvanecer ao abri-la ao mundo.

Erguendo sua faca, o secretário-geral golpeia o rapaz, perfurando seu pé direito. Gunther grita e, arrastando-se, corre novamente.

Honecker ria. Perseguindo o rapaz, ele fazia perguntas e tentava entender as motivações de Gunther, mas suas respostas apenas lhe justificavam.

Gunther manca pelo terraço. Sangue escorre por seu corpo e se espalha pelo chão. Ele está zonzo e não vai aguentar muito tempo. Olhando para frente, em horror ele percebe que estava próximo da beirada. O prédio chegara ao fim.

- Como a Alemanha Oriental, não?

O rapaz olha para trás e novamente Honecker havia se teletransportado para perto dele. 

- O quê?

- Esse prédio. Suas beiradas são como as fronteiras da RDA agora, isoladas não apenas do Oeste, mas de todos os outros países do Bloco Oriental. Não há para onde fugir.

O secretário-geral ri da desgraça que ele mesmo causou ao país. Sua mão de ferro insistia em manter a RDA isolada do mundo. Ou como Gunther pensa, “dos dois mundos”.

Honecker avança contra ele. O rapaz recua e em seguida hesita, percebendo que estava à beira do edifício. Mais um passo e ele cairia lá embaixo. O vento sopra, suas roupas retalhadas balançam e o frio faz suas feridas arderem. Gunther perdeu muito sangue e não havia mais chance de sobreviver.

E talvez ele não devesse.

Afastando-se, ele dá mais um passo e se deixa cair lá embaixo. A gravidade começa a puxa-lo quando Honecker diz:

- Peguei!

Novamente surgindo à sua frente, o secretário-geral o agarra pelas roupas.

Deitando-o seguramente no terraço, o rapaz olha para ele e pergunta:

- Por quê?

Honecker responde:

- Assim como você, o socialismo está moribundo e prestes a cair. Eu sou um comunista raiz, apaixonado pela ideologia e pela causa. É meu dever não deixar isso acontecer. – apontando para seu corpo, ele continua – Suas feridas fecharão e logo se curarão. Embora enfraquecido, você se recuperará novamente. Assim será com o socialismo, do qual você tenta arduamente destruir. Você pode tentar, mas ele vai sobreviver e um dia governará novamente.

Dando-lhe as costas, Honecker se vira e vai embora. O rapaz o interrompe.

- Espere! – o secretário-geral se vira – E quanto à Alemanha Oriental? E se for inevitável a sua queda?

Parecendo ignorar essa hipótese, Honecker responde:

- A Alemanha Oriental entrará para a História como um exemplo de que o socialismo é possível e que é melhor do que o capitalismo. - ajeitando o seu chapéu, ele diz - Até mais, senhor Gunther.

Tirando os seus óculos, o secretário-geral o lança para Gunther. Indo embora em seguida, ele caminha calmamente até desaparecer na escuridão da noite.

 

 


sábado, 5 de junho de 2021

Tiergarten - 29 - Leninplatz

 


Andando de ônibus pelo distrito de Friedrichshain, Gunther olha pela janela e vê alguém conhecido. A mulher caminhava tranquilamente pela rua e, ao reconhece-la, seu coração logo dispara. Era Anneliese. Imediatamente ele se levanta e desce na próxima parada.

Perseguindo-a pela avenida, a garota se dirige a um interessante conjunto de prédios localizado ao redor da famosa Leninplatz. Diferente dos edifícios cúbicos e entediantes, típicos do socialismo soviético, Anneliese se dirigia a um dos belos edifícios circulares do S Block, conhecidos popularmente como Schlange[1].

Aproximando-se da garota, Gunther nota que ela levava sacolas de compras do mercado. Discretamente esgueirando-se atrás dela, ele gentilmente pergunta:

- Com licença, moça. Gostaria de ajuda com as sacolas?

Anneliese olha para trás e se assusta.

- Gunther?! O que você está fazendo aqui?

O rapaz sacode os ombros.

- Passeando por aí...

Com olhar entediado, a garota responde:

- É claro. Foi muita ingenuidade minha achar que você estava trabalhando...

O rapaz ri.

- Está me chamando de vagabundo?

Ignorando-o, ela pergunta:

- O que você quer?

- Ajuda-la com as sacolas. Não foi isso o que eu perguntei? Permita-me.

Anneliese tenta impedir, mas, desequilibrando-se, quase deixa suas compras caírem no chão. Pegando as sacolas por pouco, o rapaz impede que eles caiam.

Gunther olha para o exótico prédio e, sorrindo, comenta em seguida:

- Então é aí que você mora? – ela não responde – Linda a arquitetura soviética, não? Não é disso que você gosta? De socialismo?

A garota cerra os olhos, meneando negativamente a cabeça. O rapaz sabia como deixa-la desconfortável.

Caminhando juntos pela calçada, os dois chegam à escadaria do prédio e sobem os andares. Anneliese parecia estar cansada e o rapaz oferece seu braço para ajuda-la, mas ela nega, fazendo um olhar reprovador.

Parando em frente à porta, a garota a abre e pega de volta suas compras.

- Obrigada.

Gunther fica parado ali, sorrindo. Ele sabe que seria deselegante perguntar se podia entrar, então fica em silêncio. Intrigada, Anneliese pergunta:

- Você não vai embora?

Passando a mão em sua nuca, o rapaz responde:

- Eu estava pensando... Por que não descemos e ficamos um tempo juntos lá embaixo? Poderíamos nos sentar na praça...

- Na praça?

- Sim. – responde ele – Conversar um pouco e talvez beber uma cerveja à sombra de Lenin...

O rapaz sorri. Ele referia-se à imensa estátua no centro da praça.

Irritada, a garota pergunta:

- Além de me importunar, quer me embebedar e me arrastar para a vadiagem com você?

- Não! – protesta ele – Na verdade, o que é vadiagem? Não foi o próprio Marx que defendeu o direito do trabalhador de ter o que ele chamou de “ócio criativo”?

Anneliese pondera. O rapaz tinha razão.

- Cinco minutos. – responde ela.

- Está bem. – concorda ele, animado.

Minutos depois, Gunther compra cerveja e os dois caminham pelas ruas de Berlim. Sem a menor cerimônia, a garota bebe normalmente, não dando a menor importância ao recato e à etiqueta feminina. Ela era uma verdadeira progressista, uma inspiração ao empoderamento das mulheres.

 Aproximando-se de seu prédio, o rapaz olha para a fachada circular e comenta:

- Muito bonito o lugar onde você mora. Gostaria de saber mais sobre como ele foi construído.

Inesperadamente, a garota responde:

- Foi em 1978, projetado por um arquiteto de nome Heinz Mehlan. Na construção foi utilizado painéis pré-fabricados de concreto, como aqueles do Khrushchyovka.

- Khrushchyovka? – pergunta ele, com dificuldade na pronunciação.

- Sim. Foi um programa de habitação desenvolvido por Nikita Kruschev na União Soviética, no início dos anos 60. Rápido, eficiente e de baixo custo, prédios de três a cinco andares se espalharam pela paisagem soviética, servindo de modelo para programas de habitação posteriores.

Surpreso com a resposta, Gunther arregala os olhos.

Aproximando-se do centro da praça, os dois se deparam com a estátua de Lenin. Alta e imponente, o rapaz nota como o pai da revolução usava casaco e olhava fixamente para o futuro. Atrás dela, trabalhadores alemães e soviéticos davam as mãos, simbolizando a cooperação entre as nações.

- Que linda estátua! Os comunistas do SED e do Partido Bolchevique devem se orgulhar muito dela. – comenta Gunther.

- Com certeza. – responde Anneliese – Ela foi esculpida por Nikolai Tomsky, o famoso artista russo conhecido por suas esculturas de figuras históricas russas. A estátua mede 19 metros e é feita de granito vermelho, razão de sua coloração marrom e avermelhada.

Espantado, o rapaz comenta:  

- Uau! Você parece saber muito sobre o socialismo.

Sem dar importância, Anneliese simplesmente responde:

- Acho que sim.

Os dois continuam caminhando até encontrarem um banco. Ao se sentarem, a garota fica em um silêncio incomum. Notando como ela se perdia em devaneios, o rapaz pergunta:

- Anneliese, responda-me uma coisa: por que você se tornou comunista?

Com semblante suspeito, a garota resiste responde-lo.

- Por que quer saber?

- Gostaria de saber por que se tornou uma militante tão ferrenha do marxismo-leninismo. Deve ter uma razão muito forte, não?

A garota arregala os olhos, assustando-se. Evitando seu olhar, ela vira o rosto.

- Algum problema? – pergunta ele.

Bebendo sua cerveja, a garota começa a piscar com dificuldade. Percebendo a embriaguez, o rapaz preventivamente diz:

- Anneliese, você já não bebeu demais?

- Não! Cuide de sua vida!

Com a rude resposta, o rapaz se intriga.

- Por que você está com medo? O que é que você está escondendo?

- Esconder?! – ironiza ela – Eu não preciso me esconder de ninguém! Sou uma mulher livre e independente, emancipada do patriarcalismo burguês capitalista do qual você, infelizmente, faz parte!

O rapaz se confunde.

- Mas do que é que você está falando?

- Muito me admira que você ainda esteja livre... – continua ela, toda zonza – Eu deveria te denunciar à Stasi!

Dessa vez, é Gunther quem ironiza.

- Háh! A Stasi?! Essa é a última que me quer preso!

- Pois deveria, por espionar a vida dos outros...!

Anneliese falava mole e estava toda zonza. De repente ela se levanta e, desequilibrando-se, cai no colo de Gunther. Preocupado, o rapaz pergunta:

- Você está bem? – a garota tenta tomar outro gole, mas o rapaz intervém – É melhor você parar.

Com a mão no rosto, Anneliese diz:

- Eu estou com tanto frio...

Tirando seu casaco, o rapaz a veste e a abraça.

- Anneliese, o que deu em você?

- Eu... – a garota estava zonza e aparentava estar com enjoo.

Perguntando mais uma vez, o rapaz insiste:

- Anneliese, por que você não me diz por que se tornou comunista?

- Eu já disse para você cuidar de sua vida!

- O que há de errado na pergunta? É só uma simples pergunta!

A garota se acalma. Percebendo que ele não a deixaria em paz, ela finalmente responde:

- Você já ouviu falar do Lebensborn[2]?   

Erguendo a sobrancelha, Gunther não se lembra.

- Como é?

Respirando fundo, Anneliese tira o cabelo do rosto e continua:  

- O Lebensborn foi um programa de higiene racial e eugenia promovido pelo regime nazista na década de 30. Ele visava aumentar o índice de natalidade da raça ariana, selecionando homens e mulheres que correspondessem ao critério estabelecido pela SS. As mães eram, em sua maioria, mulheres jovens e solteiras, recrutadas pelo regime para se tornarem procriadoras de novos bebês arianos. Os pais, por sua vez, eram oficiais da SS, muitas vezes casados, que se relacionavam com essas mulheres e as engravidavam. As relações sexuais eram, consequentemente, sem compromisso e as mães que não quisessem seus filhos os davam para a adoção. Estima-se que, até o fim da guerra, oito mil crianças do Lebensborn nasceram na Alemanha.  

Então Gunther se lembra. Apesar de já ter ouvido a respeito, o rapaz conhecia pouco sobre aquele programa.

- O que tem esse programa, Anneliese?

- As mulheres recrutadas pelo regime eram, majoritariamente, membras do Bund Deutscher Mädel[3] , um equivalente da Juventude Hitlerista, mas só para as meninas. As líderes da Liga eram instruídas a recrutar moças com potencial de se tornarem boas procriadoras dos oficiais da SS. Mas o programa não contava apenas com adoções. Em 1939, os nazistas passaram a raptar crianças de dois a seis anos de idade de países como a Polônia, Noruega e Tchecoslováquia. As crianças eram raptadas na frente de seus pais e, em seguida, levadas a força para a Alemanha. O governo polonês estima que, das dez mil crianças sequestradas, apenas 15% voltaram para casa.

- Meu Deus! – exclama Gunther, enojado – Fico feliz que esse regime maldito tenha sido abolido da face da Terra!

Assentindo, a garota lamenta:

- Mas muitos ainda são saudosistas dele. – com lágrimas nos olhos, ela continua – Minha avó fez parte do Lebensborn. Ela foi uma das procriadoras, ou seja, uma das centenas de mulheres jovens e solteiras a manterem relações com oficiais da SS. Não sei quantos homens ela teve até engravidar de minha mãe, ou se somente engravidou de minha mãe. Não sei se tenho tios... – ela começa a chorar – Sequer sei quem é meu avô...

Então a garota põe as mãos no rosto e chora no ombro de Gunther.

- Anneliese... – diz o rapaz, acariciando os cabelos dela – E se sua avó foi forçada a participar do programa? O regime nazista era uma ditadura. Ela pode ter sido coagida.

Enxugando as lágrimas, ela responde:

- Não... Minha avó não foi coagida. Ela era membra da Liga das Meninas Alemãs e era apaixonada por Heinrich Himmler, diretor da Lebensborn e chefe da SS. Para ela, participar do programa era uma honra e uma obrigação para a sobrevivência da raça ariana. Devido a sua devoção fanática, ela recebeu três condecorações da Mutterehrenkreuz[4] .  

O rapaz vira o rosto em desgosto.

Anneliese continua:

- Minha mãe nasceu em 1945 e iria para a adoção. Entretanto, não havia mais tempo. Com o fim da guerra, minha avó foi descoberta pelo tribunal de investigação dos fugitivos nazistas. Então ela foi espancada, humilhada e teve seus cabelos raspados pela comunidade. Jamais me esquecerei das cicatrizes em seu rosto.

- Isso é horrível! – lamenta-se Gunther.

- Para escapar das hostilidades, em 1948 ela se mudou para Dresden e lá criou sua indesejada filha. Mas não foi melhor no lado soviético. Os russos odiavam os nazistas e estavam dispostos a expor todo aquele que tivesse envolvimento com o regime. Minha avó viveu excluída da sociedade, relegada à marginalidade em seu próprio país. E minha mãe, que não tinha nenhuma culpa, sofreu a marginalização também, tratada com repulsão e desprezo nas ruas e escolas alemãs.

Tentando consola-la, o rapaz diz:

- Anneliese, eu sei dos atos horríveis cometidos pelo nazismo, mas aqueles eram outros tempos. O partido controlava os jornais e convenceu muita gente com sua ideologia. Talvez sua avó tivesse motivos que justificassem sua adesão ao nazismo...

- Minha avó era uma puta! – grita ela.

Assustando-se com a pesada declaração, o rapaz pergunta:

- Uma puta...?

- Sim! E uma cadela nazista!

Soluçando, com dificuldade ele diz:

- Bem, eu...

- Ela ressentia a queda do regime, pois acreditava que se os nazistas tivessem vencido, nossa família não passaria pela vergonha da rejeição social! Ingrata miserável, para ela milhões de mortos não importavam, o importante era o status em um regime doentio e genocida!

Colocando as mãos no rosto, a garota chora novamente.

Passados alguns minutos, o rapaz diz:   

- Anneliese, eu lamento muito.

Enxugando novamente os olhos, a garota olha para Gunther e pergunta:

- Você quer saber por que eu sou comunista, não é mesmo? Quer saber por que eu sou tão fanaticamente dedicada à ideologia marxista?

Com a trágica história, o rapaz desistiu de querer saber, mas Anneliese estava decidida a falar.

- Sim.

- Bem, eu vou te dizer. É porque eu tenho nojo de minha família, nojo do meu passado e vergonha de mim mesma. E eu quero fazer tudo ao meu alcance para arrancar essa mácula de mim. Eu me tornei uma membra ativa do Partido e da Liga das Mulheres Democráticas Alemãs. Estou disposta a destruir tudo o que remeter ao nazismo, inclusive as potências ocidentais, sucessoras diretas desse regime assassino.

Então Gunther se intriga. “Ela pensa que as potências ocidentais são nazistas...”, pensa ele.

- Eu compreendo.

- Somente o socialismo pode salvar a humanidade e prevenir que regimes como o nazismo se repitam.

Nesse momento o rapaz percebe. Anneliese havia se radicalizado comunista por compensação. Ela não consegue lidar com seu passado e agora tenta limpar sua procedência militando pela Revolução mundial, algo descartado pelo próprio Stalin.

Olhando para a estátua de Lenin, Gunther carinhosamente diz:

- Tenho certeza que Lenin sentiria orgulho de você.

Sorrindo, a garota olha para ele e responde:

- Obrigado.

Os dois se olham por um segundo, animando-o. Mas, de repente, Anneliese se vira e vomita no chão. O vômito se espirra, sujando seus sapatos e causando-lhe náusea. Controlando-se, ele vira seu rosto.

- Por favor, Gunther. Me leve para casa.

Eles se levantam e o rapaz ajuda a garota. Todo cavalheiro, ele passa seu braço em sua cintura, mas com muito respeito.

Ambos caminham de volta ao apartamento. Devido à curta distância, Gunther sentia o calor de seu corpo e o cheiro de Anneliese. Seu corpo se anima tanto que parecia movido a energia nuclear.

Enquanto caminham, o rapaz pondera nas palavras da garota. Ela não parecia se lembrar de sua condição para se casar. “Será que ela realmente vai me querer se eu derrubar o regime?”, pensa ele. Aparentemente, a garota só se importava com o socialismo e não havia espaço para ele em seu coração.

“Não importa”, reflete ele. “Nada e nem ninguém ficará entre mim e o meu amor”.

Chegando ao apartamento, Gunther abre a porta e senta Anneliese no sofá. Ele aproveita para observar o apartamento dela e se admira com a modesta decoração. Enquanto se distrai, a garota tomba e imediatamente dorme no sofá. Afastando o cabelo de seu rosto, o rapaz logo se afasta. Ele não ousaria toca-la se ela não permitisse. Cobrindo-a com seu casaco, ele se vira e então vai embora.

Enquanto desce a escadaria, Gunther vê alguém lá embaixo. Um homem vestido de chapéu e paletó preto está parado ali, olhando misteriosamente para ele. O rapaz se intriga, pois o desconhecido não se mexia.

Ao chegar no pátio, o rapaz continua caminhando e nota que as lâmpadas dos postes começam a se acender. A noite se aproxima. Mas ao olhar para trás, o homem de preto o seguia.

Gunther aperta o passo. O homem o aperta também. O desconhecido parecia assustadoramente mais rápido, como se flutuasse pelo gramado da praça. O rapaz sente medo, pois parecia ser perseguido pelo Jack Estripador. A semelhança do estranho com a ilustração que a mídia lhe dera era grande.

 O rapaz tem vontade de correr, pois ele já ofegava em desespero. Porém, devido ao álcool em seu sangue, ele não daria três passos e logo cairia em seguida. “Droga!”, pensa ele. “Se eu não tivesse bebido, eu poderia fugir!”.      

Para o seu horror, o desconhecido se aproxima e o aborda. Tocando-o no ombro, ele diz:

- Então é você que quer destruir o socialismo?

O homem levanta sua cabeça, expondo o seu rosto. Gunther o reconhece. Arregalando os olhos, ele pergunta aos sussurros:

- Erich Honecker?!

Então Honecker malignamente sorri.

 

     

 



[1] Cobra em alemão.

[2] Fonte de vida em alemão

[3] Liga das Meninas Alemãs

[4] Cruz de Honra da Mãe Alemã

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...