Gunther se veste
com roupas novas e limpas. Na cozinha, ele come pão e toma café como se fosse a
última vez. Ele nota algo incomum na sala. Misteriosamente havia um cigarro
sobre a mesa. Olhando ao redor, ele sabe que estão observando-o e ouvindo-o,
pois havia escutas da Stasi por toda parte. Tateando nas paredes, ele não encontra
nada e, ao espiar pela persiana, ele não vê ninguém. “Não importa”,
pensa ele.
Ao terminar de
comer, ele pega o cigarro e o acende. Em pequenos tragos, ele o fuma tranquilamente.
Então o telefone toca.
- Alô?
- Gunther, é isso
mesmo o que você quer? – pergunta voz.
Apalpando suas
dolorosas feridas, ele responde:
- Sim.
- Gunther, se
isso ocorrer, todas as dimensões contidas em todas as realidades poderão se
dizimar.
O rapaz meneia negativamente
a cabeça.
- O Honecker está
decidido a negar nossa libertação. E eu estou decidido a pará-lo.
A voz pondera
antes de falar.
- Eu sei que, com
o que está prestes a fazer, isso não fará diferença, mas você não deveria fumar,
Gunther. Isso te faz mal.
O rapaz ri. Fumando
uma última vez, ele apaga o cigarro e diz:
- Eu estou pronto
para ir, agora.
Respirando fundo,
a voz simplesmente responde:
- Está bem.
§
As tensões estão
elevadas em Berlim. Tanques americanos e soviéticos se encaram na famosa
fronteira do Checkpoint Charlie. A data é 27 de outubro de 1961 e, naquela agradável
tarde de outono, o mundo prende a respiração com a iminência de uma guerra
nuclear.
Em uma esquina, longe
da vista de todos, Gunther aparece no local. Apesar de estar décadas no
passado, ele reconhece o lugar. Ali era o bairro de Friedrichstadt em Berlim Ocidental.
Aproximando-se discretamente, ele vê os poderosos tanques M48 Patton ao lado de
uma pequena guarita de madeira. “Então é esse?”, pergunta-se. “Então é esse o
famoso Checkpoint Charlie?”.
Ao contrário dos soviéticos,
os americanos nunca construíram uma estrutura permanente na fronteira berlinense,
pois nunca a consideraram uma fronteira internacional. O que Gunther vê é uma
simples casinha de madeira tão patética que poderia ser derrubada com um sopro.
“Um sopro de lobo-mau”, pensa ele. “E esse lobo chamava-se União Soviética”.
Adiante, além da
fronteira, o rapaz vê o primeiro Muro de Berlim. Diferente daquele em seu
tempo, com dois muros e uma extensa “faixa da morte”, em 1961 os
comunistas haviam construído apenas uma contenção rudimentar, facilmente transponível
por cidadãos mais ousados. Entretanto, como o próprio Honecker disse, os
soldados tinham permissão de atirar para matar quem tentasse.
Um policial se
aproxima e, abordando-o, diz:
- Ei, você! Essa é
uma área restrita! Afaste-se!
Entrando em um
restaurante interditado, o rapaz refugia-se com outros transeuntes pegos coincidentemente
no local. Lá dentro, as pessoas assistem a uma arcaica televisão de imagens em
preto e branco, exibindo uma reportagem sobre a construção do Muro de Berlim.
“Nós procuramos a
paz, mas nós não nos renderemos!”, diz o presidente americano John F. Kennedy. Essa
foi sua resposta ao ultimato dado em junho de 1961 pelos soviéticos, quando
esses exigiram que as potências ocidentais deixassem Berlim Ocidental. Khrushchev
intentava assinar um tratado de paz separado com a Alemanha Oriental, assim retirando
as tropas americanas, britânicas e francesas de seu território. Para Gunther,
aquilo foi só mais uma manobra política para expulsar as potências ocidentais
do território controlado pelos russos.
Em seguida, a reportagem
exibe o primeiro-secretário Walter Ulbricht dando entrevista na conferência
internacional de imprensa em 15 de junho de 1961. Ao ser questionado pelo suposto
plano de construir um muro fronteiriço, ele taxativamente responde: “ninguém
tem a intenção de erigir um muro!”. Infelizmente para a Alemanha, ele estava
mentindo.
Sem nenhum acordo entre os americanos e soviéticos, as tensões continuaram. Em 22 de outubro do mesmo ano, o chefe de missão Allan Lightner
foi parado em seu carro enquanto atravessava o Checkpoint Charlie. Apesar do
documento assinado pelos aliados, garantindo o livre trânsito de
oficiais pelos setores, os soviéticos o violaram, alegando não reconhecer os
papeis de identificação de Lightner.
No dia 25 de outubro,
o General Watson, responsável pelas tropas americanas em Berlim, comunicou ao Departamento
de Estado que o Coronel Solovyev não colaborava em evitar distúrbios durante as negociações de paz. Porém, Solovyev acusou os americanos de infiltrar
soldados no lado soviético e de manter tanques na fronteira, violando as regulamentações
da RDA.
Dessa vez, a manobra partia dos americanos, pois para Gunther eles provocavam os soviéticos
para saber sua determinação em manter o muro. Infelizmente
para o Ocidente, os russos estavam firmemente dispostos a mantê-lo.
Com o impasse diplomático,
dois dias depois os tanques americanos e soviéticos se encarariam, apontando
seus canhões carregados de munição real uns aos outros.
“É essa a chance
que eu devo agarrar”, pensa ele.
Subindo ao
terraço de um prédio, o rapaz espera até o amanhecer para agir. A noite
foi tensa e agitada, as superpotências estavam perigosamente se preparando para o confronto.
Finalmente amanhece.
Ao longe, Gunther nota uma arma longa e esquisita. Os americanos montavam algo
que se parecia com um morteiro, mas era muito maior. Em sua ponta havia um robusto
projétil, arredondado e de cor preta, semelhante a uma melancia. “O que é isso?”,
pergunta-se ele.
Sabendo como tudo
aquilo acaba, Gunther se apressa. Não havia tempo a perder. Esgueirando-se pelos
veículos militares, ele se aproxima da escotilha aberta de um tanque. O
operador estava do lado de fora e, enquanto fumava, reclamava que passou a
noite toda dentro daquela "apertada lata de sardinha”. Apesar da dificuldade, o
rapaz se alegra por conseguir entender o inglês. Mas, em instantes, aquilo não terá
mais importância.
Subindo pelo
veículo, ele o adentra e então fecha a escotilha acima. Outro operador estava
lá dentro e, ocupado falando ao comunicador, não percebe a presença do estranho.
Batendo em sua cabeça com um extintor, o rapaz dá partida e logo todo o veículo
se vibra.
- Hey, what´s
going on in there?![1]
– pergunta alguém lá fora.
Gunther não faz
ideia de como operar um tanque, mas crê que não era algo tão complexo que um
soldado raso não pudesse fazer. As instruções estão em inglês, mas ele consegue
entender. Girando as alavancas, o veículo se movimenta.
Alguém estapeia a
lataria no lado de fora. O rapaz ouve passos no teto e o som da escotilha sendo
puxada. Ele precisava se apressar.
- Há um intruso no
tanque! – alerta alguém.
Mirando a torreta à um tanque soviético, ele põe o polegar sobre um botão na alavanca e,
respirando fundo, o aperta. O estalo é tão alto que sopra vento para todos os
lados, atordoando-o.
Boquiabertos, o coração dos americanos parece parar. No outro
lado da fronteira, um tanque russo se explode pelos ares, ardendo em chamas em seguida. Eles sabem o que aquilo significa. Os alemães, russos e todo o resto
do mundo também. Agora não havia mais volta.
- Oh, meu
Deus...! – sussurra alguém.
Aproveitando o
momento de hesitação, Gunther abre a escotilha e foge rapidamente dali. Um segundo
depois, flashes de projéteis ultra velozes cruzam o ar e fulminam os tanques
americanos, criando um espetáculo de explosões.
Uma sirene é
ouvida. Os tanques avançam e tiros de metralhadora são disparados no lado oriental. Com toda
sua fúria, os russos revidavam. Gunther assiste a cabana do Checkpoint Charlie,
uma edificação frágil e patética mantida ali como uma afronta aos seus inimigos,
ser pulverizada pelos poderosos T-55 soviéticos.
Os americanos
tentavam contra-atacar, mas o ímpeto russo era feroz e muito bem coordenado. Todos
esperavam um ataque surpresa, mas ninguém acreditava que, de fato, ele ocorresse.
Enquanto se
afasta, o rapaz se aproxima daquele estranho morteiro visto anteriormente. Com semblantes
desesperados, cinco soldados o operavam. Porém, um a um é abatido pelas
metralhadoras russas no outro lado da divisa. Agachando-se, o rapaz ouve as balas estalarem os vidros e as paredes ao redor de si.
Agora sozinho, Gunther pode ver aquele equipamento melhor. Ele estava diante de um sistema
de armamento M-29, equipado com uma bomba nuclear tática com a potência de 20 toneladas
de TNT. Naquela estranha bomba em formato de melancia, ele lê “W54” e “plutônio
239”.
- Armas nucleares!
– empolga-se ele.
Lembrando-se de
Einstein, ele agora entende o que o físico quis dizer. A ciência fazia mais mal
do que bem. O uso de armas nucleares estava nos planos de Gunther, pois ele
intentava provocar uma guerra que destruísse o socialismo na Alemanha. Não
havia diplomacia que depusesse o SED e, com Honecker no comando, seu país pararia
no tempo, caindo na eterna miséria como a Coreia do Norte ou Cuba.
Mas aquele
armamento estava ali, bem à sua frente. Ele não precisava esperar uma reação soviética
ou americana. Ele mesmo poderia dar o pontapé inicial desse ataque.
Aproximando-se do
M-29, Gunther vislumbra um dos menores equipamentos para a utilização de armas
nucleares já criados. Os soldados estavam mortos, mas conseguiram carregar
a bomba a tempo. Rapidamente o rapaz procura pelo detonador, pois o confronto na
fronteira pulverizava os edifícios e os fragmentos caíam sobre ele.
Havia um detonador
com um cordão. O rapaz o pega e se afasta o máximo que pode até esticar o fio. Com a bomba mirada na direção do leste, o rapaz aperta o botão e finalmente a dispara.
A bomba voa
rapidamente por sobre os prédios, indo pelos ares até desaparecer na paisagem.
Passados alguns segundos, o rapaz pensa que a bomba falhou. Porém,
algo acontece.
Um clarão forte
como um relâmpago ofusca os berlinenses. De repente, um som aterrador reverbera pela cidade e um vento quente varre as ruas vazias, assustando-o. O som da sirene é abafado pelo ruído das vidraças se estourando e dos prédios se pulverizando. Ao longe ele vê uma fumaça branca e densa se elevar pelos ares, formando uma horrenda nuvem
de cogumelo.
Gunther foge. Correndo
pelas ruas, os americanos estão alvoroçados e confusos. Todos
se perguntam quem fez aqueles disparos, começando toda aquela balbúrdia. Como em
1945, os alemães se escondem em porões e locais públicos. Um aparelho de rádio
emite uma mensagem de alerta aos berlinenses. Um general americano, de nome
Alvin Cowan, faz a seguinte declaração: “o que eu temia se concretizou. O M-29 é
uma arma de pelotão e eu temia que algum sargento começasse uma guerra nuclear.
Infelizmente para todos, ele começou”.
Incógnito entre
aquelas pessoas, ninguém sabe que foi ele quem começou a guerra. Dois homens
conversam perto dele.
- Os russos vão
retalhar. Quanto tempo demora para um míssil balístico chegar aqui?
- Trinta minutos
se for da Rússia até os Estados Unidos.
- Trinta minutos?!
– espanta-se ele – Então aqui poderá chegar a qualquer momento...
- Sim. – lamenta-se
o outro – Pode mesmo.
- Você crê que
esse confronto ainda possa ser resolvido diplomaticamente?
Rindo em
desprezo, o homem responde:
- Com esse ataque
atômico? Certamente não.
De repente eles ouvem
o som de assovios vindos do céu. Pensando serem bombardeiros russos sobrevoando-os, eles olham para cima, confusos. Mas não eram bombardeiros, era
muito mais do que isso.
Objetos negros e cônicos
rasgam o céu. Detonando-se de repente, um clarão mais brilhante e mais poderoso
toma as nuvens, liberando a inexorável explosão. Em seguida, toda a paisagem berlinense é devastada como se fosse feita de isopor.
A onda de calor varre
o ambiente, lançando Gunther pelo ar como se ele fosse uma folha de papel
dentro de um forno. Mas enquanto ele se queima, ele sorri.
Berlim arde em
chamas. Os prédios são pulverizados e outros se desabam com o fogo. Bombas
nucleares devastam a cidade, formando diabólicas nuvens de cogumelo em toda parte. De repente
a antiga capital do Segundo e Terceiro Reich, fundada pelos margraves de Brandemburgo
durante o Sacro Império Romano Germânico, desaparece nas chamas da explosão.
Mais uma explosão
estremece o ambiente, elevando suas chamas até as aberturas do próprio Céu. As nuvens
se afastam e uma nova atmosfera avermelhada se forma, como se os próprios
anjos fossem atingidos pela explosão e seu sangue
angelical pintasse as nuvens enquanto eles caíam das elevadas alturas, incapazes
de fugirem da chama infernal que os esperava lá embaixo.
Correndo em meio às cinzas e escombros radioativos como se eles estivessem
em um campo de girassóis, Gunther e Anneliese se encontram e se abraçam. Em seu longo e aconchegante abraço, os dois se beijam, emocionados por estarem finalmente juntos.
Segurando sua
mão, o rapaz a convida para dançar. A garota aceita e, sorrindo, dançam valsa entre
aquela ruína tóxica. Os dois se abraçam, sapateiam e rodopiam, totalmente
alheios à chuva de anjos carbonizados no Céu.
O amanhecer do
dia 28 de outubro de 1961 se tornou vermelho de sangue e morte, recheado de
veneno radioativo e enfeitado de anjos caídos. Com a eclosão nuclear, o próprio
Céu se virara de cabeça para baixo, temperando de anjos o novo inferno na Terra.
Enquanto a
abraça, o rapaz percebe que Anneliese fica mais leve em seus braços. Afastando-a
por um instante, Gunther olha para seu rosto e vê uma terrível caveira carbonizada e sem
olhos. O corpo inteiro dela havia se tornado um esqueleto,
totalmente queimado pelo fogo. Então, sinistramente, a garota lhe faz um pedido:
- Me beije.
Sem pensar duas vezes,
o rapaz se aproxima e a beija, passando a língua nos dentes putrefatos e no maxilar desencarnado
dela. E continua beijando, como se Anneliese tivesse lábios e língua. Olhando
para sua mão, ele finalmente se assusta. Suas mãos,
braços e tórax também eram ossos. Gunther também havia se tornado um esqueleto
vivo.
Minutos depois, a
fumaça negra o envolve e de repente ele é levado dali, carregando em seus
braços o esqueleto de Anneliese.


