Andando de ônibus
pelo distrito de Friedrichshain, Gunther olha pela janela e vê alguém conhecido.
A mulher caminhava tranquilamente pela rua e, ao reconhece-la, seu coração logo
dispara. Era Anneliese. Imediatamente ele se levanta e desce na próxima parada.
Perseguindo-a
pela avenida, a garota se dirige a um interessante conjunto de prédios localizado
ao redor da famosa Leninplatz. Diferente dos edifícios cúbicos e entediantes,
típicos do socialismo soviético, Anneliese se dirigia a um dos belos edifícios
circulares do S Block, conhecidos popularmente como Schlange[1].
Aproximando-se da
garota, Gunther nota que ela levava sacolas de compras do mercado. Discretamente
esgueirando-se atrás dela, ele gentilmente pergunta:
- Com licença,
moça. Gostaria de ajuda com as sacolas?
Anneliese olha
para trás e se assusta.
- Gunther?! O que
você está fazendo aqui?
O rapaz sacode os
ombros.
- Passeando por
aí...
Com olhar entediado,
a garota responde:
- É claro. Foi muita
ingenuidade minha achar que você estava trabalhando...
O rapaz ri.
- Está me chamando
de vagabundo?
Ignorando-o, ela pergunta:
- O que você quer?
- Ajuda-la com as
sacolas. Não foi isso o que eu perguntei? Permita-me.
Anneliese tenta
impedir, mas, desequilibrando-se, quase deixa suas compras caírem no chão. Pegando
as sacolas por pouco, o rapaz impede que eles caiam.
Gunther olha para
o exótico prédio e, sorrindo, comenta em seguida:
- Então é aí que você
mora? – ela não responde – Linda a arquitetura soviética, não? Não é disso que você
gosta? De socialismo?
A garota cerra os
olhos, meneando negativamente a cabeça. O rapaz sabia como deixa-la desconfortável.
Caminhando juntos
pela calçada, os dois chegam à escadaria do prédio e sobem os andares. Anneliese
parecia estar cansada e o rapaz oferece seu braço para ajuda-la, mas ela nega, fazendo
um olhar reprovador.
Parando em frente
à porta, a garota a abre e pega de volta suas compras.
- Obrigada.
Gunther fica
parado ali, sorrindo. Ele sabe que seria deselegante perguntar se podia entrar,
então fica em silêncio. Intrigada, Anneliese pergunta:
- Você não vai
embora?
Passando a mão em
sua nuca, o rapaz responde:
- Eu estava pensando...
Por que não descemos e ficamos um tempo juntos lá embaixo? Poderíamos nos sentar
na praça...
- Na praça?
- Sim. – responde
ele – Conversar um pouco e talvez beber uma cerveja à sombra de Lenin...
O rapaz sorri. Ele
referia-se à imensa estátua no centro da praça.
Irritada, a garota
pergunta:
- Além de me
importunar, quer me embebedar e me arrastar para a vadiagem com você?
- Não! – protesta
ele – Na verdade, o que é vadiagem? Não foi o próprio Marx que defendeu o
direito do trabalhador de ter o que ele chamou de “ócio criativo”?
Anneliese pondera.
O rapaz tinha razão.
- Cinco minutos. –
responde ela.
- Está bem. – concorda
ele, animado.
Minutos depois, Gunther
compra cerveja e os dois caminham pelas ruas de Berlim. Sem a menor cerimônia,
a garota bebe normalmente, não dando a menor importância ao recato e à etiqueta
feminina. Ela era uma verdadeira progressista, uma inspiração ao empoderamento
das mulheres.
Aproximando-se de seu prédio, o rapaz olha para
a fachada circular e comenta:
- Muito bonito o
lugar onde você mora. Gostaria de saber mais sobre como ele foi construído.
Inesperadamente, a
garota responde:
- Foi em 1978,
projetado por um arquiteto de nome Heinz Mehlan. Na construção foi utilizado painéis
pré-fabricados de concreto, como aqueles do Khrushchyovka.
- Khrushchyovka?
– pergunta ele, com dificuldade na pronunciação.
- Sim. Foi um
programa de habitação desenvolvido por Nikita Kruschev na União Soviética, no início
dos anos 60. Rápido, eficiente e de baixo custo, prédios de três a cinco andares
se espalharam pela paisagem soviética, servindo de modelo para programas de habitação
posteriores.
Surpreso com a
resposta, Gunther arregala os olhos.
Aproximando-se do
centro da praça, os dois se deparam com a estátua de Lenin. Alta e imponente, o
rapaz nota como o pai da revolução usava casaco e olhava fixamente para o
futuro. Atrás dela, trabalhadores alemães e soviéticos davam as mãos,
simbolizando a cooperação entre as nações.
- Que linda
estátua! Os comunistas do SED e do Partido Bolchevique devem se orgulhar muito
dela. – comenta Gunther.
- Com certeza. –
responde Anneliese – Ela foi esculpida por Nikolai Tomsky, o famoso artista russo conhecido por suas esculturas de figuras históricas russas. A estátua
mede 19 metros e é feita de granito vermelho, razão de sua coloração marrom e avermelhada.
Espantado, o
rapaz comenta:
- Uau! Você parece
saber muito sobre o socialismo.
Sem dar importância,
Anneliese simplesmente responde:
- Acho que sim.
Os dois continuam
caminhando até encontrarem um banco. Ao se sentarem, a garota fica em um silêncio
incomum. Notando como ela se perdia em devaneios, o rapaz pergunta:
- Anneliese, responda-me
uma coisa: por que você se tornou comunista?
Com semblante
suspeito, a garota resiste responde-lo.
- Por que quer
saber?
- Gostaria de
saber por que se tornou uma militante tão ferrenha do marxismo-leninismo. Deve
ter uma razão muito forte, não?
A garota arregala
os olhos, assustando-se. Evitando seu olhar, ela vira o rosto.
- Algum problema?
– pergunta ele.
Bebendo sua
cerveja, a garota começa a piscar com dificuldade. Percebendo a embriaguez, o
rapaz preventivamente diz:
- Anneliese, você
já não bebeu demais?
- Não! Cuide de
sua vida!
Com a rude
resposta, o rapaz se intriga.
- Por que você está
com medo? O que é que você está escondendo?
- Esconder?! –
ironiza ela – Eu não preciso me esconder de ninguém! Sou uma mulher livre e
independente, emancipada do patriarcalismo burguês capitalista do qual você,
infelizmente, faz parte!
O rapaz se confunde.
- Mas do que é
que você está falando?
- Muito me admira
que você ainda esteja livre... – continua ela, toda zonza – Eu deveria te
denunciar à Stasi!
Dessa vez, é
Gunther quem ironiza.
- Háh! A Stasi?! Essa
é a última que me quer preso!
- Pois deveria,
por espionar a vida dos outros...!
Anneliese falava
mole e estava toda zonza. De repente ela se levanta e, desequilibrando-se,
cai no colo de Gunther. Preocupado, o rapaz pergunta:
- Você está bem? –
a garota tenta tomar outro gole, mas o rapaz intervém – É melhor você parar.
Com a mão no
rosto, Anneliese diz:
- Eu estou com
tanto frio...
Tirando seu
casaco, o rapaz a veste e a abraça.
- Anneliese, o que
deu em você?
- Eu... – a garota
estava zonza e aparentava estar com enjoo.
Perguntando mais
uma vez, o rapaz insiste:
- Anneliese, por
que você não me diz por que se tornou comunista?
- Eu já disse
para você cuidar de sua vida!
- O que há de errado
na pergunta? É só uma simples pergunta!
A garota se
acalma. Percebendo que ele não a deixaria em paz, ela finalmente responde:
- Você já ouviu
falar do Lebensborn[2]?
Erguendo a
sobrancelha, Gunther não se lembra.
- Como é?
Respirando fundo,
Anneliese tira o cabelo do rosto e continua:
- O Lebensborn
foi um programa de higiene racial e eugenia promovido pelo regime nazista na
década de 30. Ele visava aumentar o índice de natalidade da raça ariana, selecionando
homens e mulheres que correspondessem ao critério estabelecido pela SS. As mães
eram, em sua maioria, mulheres jovens e solteiras, recrutadas pelo regime para
se tornarem procriadoras de novos bebês arianos. Os pais, por sua vez, eram
oficiais da SS, muitas vezes casados, que se relacionavam com essas mulheres e
as engravidavam. As relações sexuais eram, consequentemente, sem compromisso e
as mães que não quisessem seus filhos os davam para a adoção. Estima-se que,
até o fim da guerra, oito mil crianças do Lebensborn nasceram na Alemanha.
Então Gunther se
lembra. Apesar de já ter ouvido a respeito, o rapaz conhecia pouco sobre aquele programa.
- O que tem esse
programa, Anneliese?
- As mulheres
recrutadas pelo regime eram, majoritariamente, membras do Bund Deutscher Mädel[3]
, um equivalente da Juventude Hitlerista, mas só para as meninas. As líderes
da Liga eram instruídas a recrutar moças com potencial de se tornarem boas
procriadoras dos oficiais da SS. Mas o programa não contava apenas com adoções.
Em 1939, os nazistas passaram a raptar crianças de dois a seis anos de idade de países
como a Polônia, Noruega e Tchecoslováquia. As crianças eram raptadas na frente
de seus pais e, em seguida, levadas a força para a Alemanha. O governo polonês estima
que, das dez mil crianças sequestradas, apenas 15% voltaram para casa.
- Meu Deus! – exclama
Gunther, enojado – Fico feliz que esse regime maldito tenha sido abolido da
face da Terra!
Assentindo, a garota
lamenta:
- Mas muitos
ainda são saudosistas dele. – com lágrimas nos olhos, ela continua – Minha avó
fez parte do Lebensborn. Ela foi uma das procriadoras, ou seja, uma das centenas
de mulheres jovens e solteiras a manterem relações com oficiais da SS. Não
sei quantos homens ela teve até engravidar de minha mãe, ou se somente engravidou
de minha mãe. Não sei se tenho tios... – ela começa a chorar – Sequer sei quem
é meu avô...
Então a garota
põe as mãos no rosto e chora no ombro de Gunther.
- Anneliese... –
diz o rapaz, acariciando os cabelos dela – E se sua avó foi forçada a
participar do programa? O regime nazista era uma ditadura. Ela pode ter sido coagida.
Enxugando as
lágrimas, ela responde:
- Não... Minha
avó não foi coagida. Ela era membra da Liga das Meninas Alemãs e era apaixonada
por Heinrich Himmler, diretor da Lebensborn e chefe da SS. Para ela, participar
do programa era uma honra e uma obrigação para a sobrevivência da raça ariana. Devido
a sua devoção fanática, ela recebeu três condecorações da Mutterehrenkreuz[4]
.
O rapaz vira o rosto
em desgosto.
Anneliese continua:
- Minha mãe
nasceu em 1945 e iria para a adoção. Entretanto, não havia mais tempo. Com o fim
da guerra, minha avó foi descoberta pelo tribunal de investigação dos fugitivos
nazistas. Então ela foi espancada, humilhada e teve seus cabelos raspados pela
comunidade. Jamais me esquecerei das cicatrizes em seu rosto.
- Isso é
horrível! – lamenta-se Gunther.
- Para escapar
das hostilidades, em 1948 ela se mudou para Dresden e lá criou sua indesejada
filha. Mas não foi melhor no lado soviético. Os russos odiavam os nazistas e
estavam dispostos a expor todo aquele que tivesse envolvimento com o regime. Minha
avó viveu excluída da sociedade, relegada à marginalidade em seu próprio país. E
minha mãe, que não tinha nenhuma culpa, sofreu a marginalização também, tratada
com repulsão e desprezo nas ruas e escolas alemãs.
Tentando consola-la,
o rapaz diz:
- Anneliese, eu
sei dos atos horríveis cometidos pelo nazismo, mas aqueles eram outros tempos. O
partido controlava os jornais e convenceu muita gente com sua ideologia. Talvez
sua avó tivesse motivos que justificassem sua adesão ao nazismo...
- Minha avó era
uma puta! – grita ela.
Assustando-se com a pesada
declaração, o rapaz pergunta:
- Uma puta...?
- Sim! E uma
cadela nazista!
Soluçando, com
dificuldade ele diz:
- Bem, eu...
- Ela ressentia a
queda do regime, pois acreditava que se os nazistas tivessem vencido, nossa família
não passaria pela vergonha da rejeição social! Ingrata miserável, para ela milhões
de mortos não importavam, o importante era o status em um regime doentio e genocida!
Colocando as mãos
no rosto, a garota chora novamente.
Passados alguns
minutos, o rapaz diz:
- Anneliese, eu
lamento muito.
Enxugando novamente
os olhos, a garota olha para Gunther e pergunta:
- Você quer saber
por que eu sou comunista, não é mesmo? Quer saber por que eu sou tão
fanaticamente dedicada à ideologia marxista?
Com a trágica história,
o rapaz desistiu de querer saber, mas Anneliese estava decidida a falar.
- Sim.
- Bem, eu vou te
dizer. É porque eu tenho nojo de minha família, nojo do meu passado e vergonha de
mim mesma. E eu quero fazer tudo ao meu alcance para arrancar essa mácula de
mim. Eu me tornei uma membra ativa do Partido e da Liga das Mulheres
Democráticas Alemãs. Estou disposta a destruir tudo o que remeter ao nazismo,
inclusive as potências ocidentais, sucessoras diretas desse regime assassino.
Então Gunther se
intriga. “Ela pensa que as potências ocidentais são nazistas...”, pensa ele.
- Eu compreendo.
- Somente o
socialismo pode salvar a humanidade e prevenir que regimes como o nazismo se
repitam.
Nesse momento o
rapaz percebe. Anneliese havia se radicalizado comunista por compensação. Ela não
consegue lidar com seu passado e agora tenta limpar sua procedência militando
pela Revolução mundial, algo descartado pelo próprio Stalin.
Olhando para a
estátua de Lenin, Gunther carinhosamente diz:
- Tenho certeza
que Lenin sentiria orgulho de você.
Sorrindo, a
garota olha para ele e responde:
- Obrigado.
Os dois se olham
por um segundo, animando-o. Mas, de repente, Anneliese se vira e vomita no chão. O
vômito se espirra, sujando seus sapatos e causando-lhe náusea. Controlando-se, ele
vira seu rosto.
- Por favor,
Gunther. Me leve para casa.
Eles se levantam
e o rapaz ajuda a garota. Todo cavalheiro, ele passa seu braço em sua cintura,
mas com muito respeito.
Ambos caminham de
volta ao apartamento. Devido à curta distância, Gunther sentia o calor de seu
corpo e o cheiro de Anneliese. Seu corpo se anima tanto que parecia movido a energia nuclear.
Enquanto caminham,
o rapaz pondera nas palavras da garota. Ela não parecia se lembrar de sua condição
para se casar. “Será que ela realmente vai me querer se eu derrubar o regime?”,
pensa ele. Aparentemente, a garota só se importava com o socialismo e não havia
espaço para ele em seu coração.
“Não importa”,
reflete ele. “Nada e nem ninguém ficará entre mim e o meu amor”.
Chegando ao
apartamento, Gunther abre a porta e senta Anneliese no sofá. Ele aproveita para
observar o apartamento dela e se admira com a modesta decoração. Enquanto se
distrai, a garota tomba e imediatamente dorme no sofá. Afastando o cabelo de
seu rosto, o rapaz logo se afasta. Ele não ousaria toca-la se ela não permitisse.
Cobrindo-a com seu casaco, ele se vira e então vai embora.
Enquanto desce a
escadaria, Gunther vê alguém lá embaixo. Um homem vestido de chapéu e paletó
preto está parado ali, olhando misteriosamente para ele. O rapaz se intriga,
pois o desconhecido não se mexia.
Ao chegar no pátio,
o rapaz continua caminhando e nota que as lâmpadas dos postes começam a se acender.
A noite se aproxima. Mas ao olhar para trás, o homem de preto o seguia.
Gunther aperta o
passo. O homem o aperta também. O desconhecido parecia assustadoramente mais rápido,
como se flutuasse pelo gramado da praça. O rapaz sente medo, pois parecia ser perseguido
pelo Jack Estripador. A semelhança do estranho com a ilustração que a mídia lhe
dera era grande.
O rapaz tem vontade de correr, pois ele já
ofegava em desespero. Porém, devido ao álcool em seu sangue, ele não daria três
passos e logo cairia em seguida. “Droga!”, pensa ele. “Se eu não tivesse
bebido, eu poderia fugir!”.
Para o seu horror,
o desconhecido se aproxima e o aborda. Tocando-o no ombro, ele diz:
- Então é você que
quer destruir o socialismo?
O homem levanta sua
cabeça, expondo o seu rosto. Gunther o reconhece. Arregalando os olhos, ele pergunta aos sussurros:
- Erich Honecker?!
Então Honecker
malignamente sorri.

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