sábado, 5 de junho de 2021

Tiergarten - 29 - Leninplatz

 


Andando de ônibus pelo distrito de Friedrichshain, Gunther olha pela janela e vê alguém conhecido. A mulher caminhava tranquilamente pela rua e, ao reconhece-la, seu coração logo dispara. Era Anneliese. Imediatamente ele se levanta e desce na próxima parada.

Perseguindo-a pela avenida, a garota se dirige a um interessante conjunto de prédios localizado ao redor da famosa Leninplatz. Diferente dos edifícios cúbicos e entediantes, típicos do socialismo soviético, Anneliese se dirigia a um dos belos edifícios circulares do S Block, conhecidos popularmente como Schlange[1].

Aproximando-se da garota, Gunther nota que ela levava sacolas de compras do mercado. Discretamente esgueirando-se atrás dela, ele gentilmente pergunta:

- Com licença, moça. Gostaria de ajuda com as sacolas?

Anneliese olha para trás e se assusta.

- Gunther?! O que você está fazendo aqui?

O rapaz sacode os ombros.

- Passeando por aí...

Com olhar entediado, a garota responde:

- É claro. Foi muita ingenuidade minha achar que você estava trabalhando...

O rapaz ri.

- Está me chamando de vagabundo?

Ignorando-o, ela pergunta:

- O que você quer?

- Ajuda-la com as sacolas. Não foi isso o que eu perguntei? Permita-me.

Anneliese tenta impedir, mas, desequilibrando-se, quase deixa suas compras caírem no chão. Pegando as sacolas por pouco, o rapaz impede que eles caiam.

Gunther olha para o exótico prédio e, sorrindo, comenta em seguida:

- Então é aí que você mora? – ela não responde – Linda a arquitetura soviética, não? Não é disso que você gosta? De socialismo?

A garota cerra os olhos, meneando negativamente a cabeça. O rapaz sabia como deixa-la desconfortável.

Caminhando juntos pela calçada, os dois chegam à escadaria do prédio e sobem os andares. Anneliese parecia estar cansada e o rapaz oferece seu braço para ajuda-la, mas ela nega, fazendo um olhar reprovador.

Parando em frente à porta, a garota a abre e pega de volta suas compras.

- Obrigada.

Gunther fica parado ali, sorrindo. Ele sabe que seria deselegante perguntar se podia entrar, então fica em silêncio. Intrigada, Anneliese pergunta:

- Você não vai embora?

Passando a mão em sua nuca, o rapaz responde:

- Eu estava pensando... Por que não descemos e ficamos um tempo juntos lá embaixo? Poderíamos nos sentar na praça...

- Na praça?

- Sim. – responde ele – Conversar um pouco e talvez beber uma cerveja à sombra de Lenin...

O rapaz sorri. Ele referia-se à imensa estátua no centro da praça.

Irritada, a garota pergunta:

- Além de me importunar, quer me embebedar e me arrastar para a vadiagem com você?

- Não! – protesta ele – Na verdade, o que é vadiagem? Não foi o próprio Marx que defendeu o direito do trabalhador de ter o que ele chamou de “ócio criativo”?

Anneliese pondera. O rapaz tinha razão.

- Cinco minutos. – responde ela.

- Está bem. – concorda ele, animado.

Minutos depois, Gunther compra cerveja e os dois caminham pelas ruas de Berlim. Sem a menor cerimônia, a garota bebe normalmente, não dando a menor importância ao recato e à etiqueta feminina. Ela era uma verdadeira progressista, uma inspiração ao empoderamento das mulheres.

 Aproximando-se de seu prédio, o rapaz olha para a fachada circular e comenta:

- Muito bonito o lugar onde você mora. Gostaria de saber mais sobre como ele foi construído.

Inesperadamente, a garota responde:

- Foi em 1978, projetado por um arquiteto de nome Heinz Mehlan. Na construção foi utilizado painéis pré-fabricados de concreto, como aqueles do Khrushchyovka.

- Khrushchyovka? – pergunta ele, com dificuldade na pronunciação.

- Sim. Foi um programa de habitação desenvolvido por Nikita Kruschev na União Soviética, no início dos anos 60. Rápido, eficiente e de baixo custo, prédios de três a cinco andares se espalharam pela paisagem soviética, servindo de modelo para programas de habitação posteriores.

Surpreso com a resposta, Gunther arregala os olhos.

Aproximando-se do centro da praça, os dois se deparam com a estátua de Lenin. Alta e imponente, o rapaz nota como o pai da revolução usava casaco e olhava fixamente para o futuro. Atrás dela, trabalhadores alemães e soviéticos davam as mãos, simbolizando a cooperação entre as nações.

- Que linda estátua! Os comunistas do SED e do Partido Bolchevique devem se orgulhar muito dela. – comenta Gunther.

- Com certeza. – responde Anneliese – Ela foi esculpida por Nikolai Tomsky, o famoso artista russo conhecido por suas esculturas de figuras históricas russas. A estátua mede 19 metros e é feita de granito vermelho, razão de sua coloração marrom e avermelhada.

Espantado, o rapaz comenta:  

- Uau! Você parece saber muito sobre o socialismo.

Sem dar importância, Anneliese simplesmente responde:

- Acho que sim.

Os dois continuam caminhando até encontrarem um banco. Ao se sentarem, a garota fica em um silêncio incomum. Notando como ela se perdia em devaneios, o rapaz pergunta:

- Anneliese, responda-me uma coisa: por que você se tornou comunista?

Com semblante suspeito, a garota resiste responde-lo.

- Por que quer saber?

- Gostaria de saber por que se tornou uma militante tão ferrenha do marxismo-leninismo. Deve ter uma razão muito forte, não?

A garota arregala os olhos, assustando-se. Evitando seu olhar, ela vira o rosto.

- Algum problema? – pergunta ele.

Bebendo sua cerveja, a garota começa a piscar com dificuldade. Percebendo a embriaguez, o rapaz preventivamente diz:

- Anneliese, você já não bebeu demais?

- Não! Cuide de sua vida!

Com a rude resposta, o rapaz se intriga.

- Por que você está com medo? O que é que você está escondendo?

- Esconder?! – ironiza ela – Eu não preciso me esconder de ninguém! Sou uma mulher livre e independente, emancipada do patriarcalismo burguês capitalista do qual você, infelizmente, faz parte!

O rapaz se confunde.

- Mas do que é que você está falando?

- Muito me admira que você ainda esteja livre... – continua ela, toda zonza – Eu deveria te denunciar à Stasi!

Dessa vez, é Gunther quem ironiza.

- Háh! A Stasi?! Essa é a última que me quer preso!

- Pois deveria, por espionar a vida dos outros...!

Anneliese falava mole e estava toda zonza. De repente ela se levanta e, desequilibrando-se, cai no colo de Gunther. Preocupado, o rapaz pergunta:

- Você está bem? – a garota tenta tomar outro gole, mas o rapaz intervém – É melhor você parar.

Com a mão no rosto, Anneliese diz:

- Eu estou com tanto frio...

Tirando seu casaco, o rapaz a veste e a abraça.

- Anneliese, o que deu em você?

- Eu... – a garota estava zonza e aparentava estar com enjoo.

Perguntando mais uma vez, o rapaz insiste:

- Anneliese, por que você não me diz por que se tornou comunista?

- Eu já disse para você cuidar de sua vida!

- O que há de errado na pergunta? É só uma simples pergunta!

A garota se acalma. Percebendo que ele não a deixaria em paz, ela finalmente responde:

- Você já ouviu falar do Lebensborn[2]?   

Erguendo a sobrancelha, Gunther não se lembra.

- Como é?

Respirando fundo, Anneliese tira o cabelo do rosto e continua:  

- O Lebensborn foi um programa de higiene racial e eugenia promovido pelo regime nazista na década de 30. Ele visava aumentar o índice de natalidade da raça ariana, selecionando homens e mulheres que correspondessem ao critério estabelecido pela SS. As mães eram, em sua maioria, mulheres jovens e solteiras, recrutadas pelo regime para se tornarem procriadoras de novos bebês arianos. Os pais, por sua vez, eram oficiais da SS, muitas vezes casados, que se relacionavam com essas mulheres e as engravidavam. As relações sexuais eram, consequentemente, sem compromisso e as mães que não quisessem seus filhos os davam para a adoção. Estima-se que, até o fim da guerra, oito mil crianças do Lebensborn nasceram na Alemanha.  

Então Gunther se lembra. Apesar de já ter ouvido a respeito, o rapaz conhecia pouco sobre aquele programa.

- O que tem esse programa, Anneliese?

- As mulheres recrutadas pelo regime eram, majoritariamente, membras do Bund Deutscher Mädel[3] , um equivalente da Juventude Hitlerista, mas só para as meninas. As líderes da Liga eram instruídas a recrutar moças com potencial de se tornarem boas procriadoras dos oficiais da SS. Mas o programa não contava apenas com adoções. Em 1939, os nazistas passaram a raptar crianças de dois a seis anos de idade de países como a Polônia, Noruega e Tchecoslováquia. As crianças eram raptadas na frente de seus pais e, em seguida, levadas a força para a Alemanha. O governo polonês estima que, das dez mil crianças sequestradas, apenas 15% voltaram para casa.

- Meu Deus! – exclama Gunther, enojado – Fico feliz que esse regime maldito tenha sido abolido da face da Terra!

Assentindo, a garota lamenta:

- Mas muitos ainda são saudosistas dele. – com lágrimas nos olhos, ela continua – Minha avó fez parte do Lebensborn. Ela foi uma das procriadoras, ou seja, uma das centenas de mulheres jovens e solteiras a manterem relações com oficiais da SS. Não sei quantos homens ela teve até engravidar de minha mãe, ou se somente engravidou de minha mãe. Não sei se tenho tios... – ela começa a chorar – Sequer sei quem é meu avô...

Então a garota põe as mãos no rosto e chora no ombro de Gunther.

- Anneliese... – diz o rapaz, acariciando os cabelos dela – E se sua avó foi forçada a participar do programa? O regime nazista era uma ditadura. Ela pode ter sido coagida.

Enxugando as lágrimas, ela responde:

- Não... Minha avó não foi coagida. Ela era membra da Liga das Meninas Alemãs e era apaixonada por Heinrich Himmler, diretor da Lebensborn e chefe da SS. Para ela, participar do programa era uma honra e uma obrigação para a sobrevivência da raça ariana. Devido a sua devoção fanática, ela recebeu três condecorações da Mutterehrenkreuz[4] .  

O rapaz vira o rosto em desgosto.

Anneliese continua:

- Minha mãe nasceu em 1945 e iria para a adoção. Entretanto, não havia mais tempo. Com o fim da guerra, minha avó foi descoberta pelo tribunal de investigação dos fugitivos nazistas. Então ela foi espancada, humilhada e teve seus cabelos raspados pela comunidade. Jamais me esquecerei das cicatrizes em seu rosto.

- Isso é horrível! – lamenta-se Gunther.

- Para escapar das hostilidades, em 1948 ela se mudou para Dresden e lá criou sua indesejada filha. Mas não foi melhor no lado soviético. Os russos odiavam os nazistas e estavam dispostos a expor todo aquele que tivesse envolvimento com o regime. Minha avó viveu excluída da sociedade, relegada à marginalidade em seu próprio país. E minha mãe, que não tinha nenhuma culpa, sofreu a marginalização também, tratada com repulsão e desprezo nas ruas e escolas alemãs.

Tentando consola-la, o rapaz diz:

- Anneliese, eu sei dos atos horríveis cometidos pelo nazismo, mas aqueles eram outros tempos. O partido controlava os jornais e convenceu muita gente com sua ideologia. Talvez sua avó tivesse motivos que justificassem sua adesão ao nazismo...

- Minha avó era uma puta! – grita ela.

Assustando-se com a pesada declaração, o rapaz pergunta:

- Uma puta...?

- Sim! E uma cadela nazista!

Soluçando, com dificuldade ele diz:

- Bem, eu...

- Ela ressentia a queda do regime, pois acreditava que se os nazistas tivessem vencido, nossa família não passaria pela vergonha da rejeição social! Ingrata miserável, para ela milhões de mortos não importavam, o importante era o status em um regime doentio e genocida!

Colocando as mãos no rosto, a garota chora novamente.

Passados alguns minutos, o rapaz diz:   

- Anneliese, eu lamento muito.

Enxugando novamente os olhos, a garota olha para Gunther e pergunta:

- Você quer saber por que eu sou comunista, não é mesmo? Quer saber por que eu sou tão fanaticamente dedicada à ideologia marxista?

Com a trágica história, o rapaz desistiu de querer saber, mas Anneliese estava decidida a falar.

- Sim.

- Bem, eu vou te dizer. É porque eu tenho nojo de minha família, nojo do meu passado e vergonha de mim mesma. E eu quero fazer tudo ao meu alcance para arrancar essa mácula de mim. Eu me tornei uma membra ativa do Partido e da Liga das Mulheres Democráticas Alemãs. Estou disposta a destruir tudo o que remeter ao nazismo, inclusive as potências ocidentais, sucessoras diretas desse regime assassino.

Então Gunther se intriga. “Ela pensa que as potências ocidentais são nazistas...”, pensa ele.

- Eu compreendo.

- Somente o socialismo pode salvar a humanidade e prevenir que regimes como o nazismo se repitam.

Nesse momento o rapaz percebe. Anneliese havia se radicalizado comunista por compensação. Ela não consegue lidar com seu passado e agora tenta limpar sua procedência militando pela Revolução mundial, algo descartado pelo próprio Stalin.

Olhando para a estátua de Lenin, Gunther carinhosamente diz:

- Tenho certeza que Lenin sentiria orgulho de você.

Sorrindo, a garota olha para ele e responde:

- Obrigado.

Os dois se olham por um segundo, animando-o. Mas, de repente, Anneliese se vira e vomita no chão. O vômito se espirra, sujando seus sapatos e causando-lhe náusea. Controlando-se, ele vira seu rosto.

- Por favor, Gunther. Me leve para casa.

Eles se levantam e o rapaz ajuda a garota. Todo cavalheiro, ele passa seu braço em sua cintura, mas com muito respeito.

Ambos caminham de volta ao apartamento. Devido à curta distância, Gunther sentia o calor de seu corpo e o cheiro de Anneliese. Seu corpo se anima tanto que parecia movido a energia nuclear.

Enquanto caminham, o rapaz pondera nas palavras da garota. Ela não parecia se lembrar de sua condição para se casar. “Será que ela realmente vai me querer se eu derrubar o regime?”, pensa ele. Aparentemente, a garota só se importava com o socialismo e não havia espaço para ele em seu coração.

“Não importa”, reflete ele. “Nada e nem ninguém ficará entre mim e o meu amor”.

Chegando ao apartamento, Gunther abre a porta e senta Anneliese no sofá. Ele aproveita para observar o apartamento dela e se admira com a modesta decoração. Enquanto se distrai, a garota tomba e imediatamente dorme no sofá. Afastando o cabelo de seu rosto, o rapaz logo se afasta. Ele não ousaria toca-la se ela não permitisse. Cobrindo-a com seu casaco, ele se vira e então vai embora.

Enquanto desce a escadaria, Gunther vê alguém lá embaixo. Um homem vestido de chapéu e paletó preto está parado ali, olhando misteriosamente para ele. O rapaz se intriga, pois o desconhecido não se mexia.

Ao chegar no pátio, o rapaz continua caminhando e nota que as lâmpadas dos postes começam a se acender. A noite se aproxima. Mas ao olhar para trás, o homem de preto o seguia.

Gunther aperta o passo. O homem o aperta também. O desconhecido parecia assustadoramente mais rápido, como se flutuasse pelo gramado da praça. O rapaz sente medo, pois parecia ser perseguido pelo Jack Estripador. A semelhança do estranho com a ilustração que a mídia lhe dera era grande.

 O rapaz tem vontade de correr, pois ele já ofegava em desespero. Porém, devido ao álcool em seu sangue, ele não daria três passos e logo cairia em seguida. “Droga!”, pensa ele. “Se eu não tivesse bebido, eu poderia fugir!”.      

Para o seu horror, o desconhecido se aproxima e o aborda. Tocando-o no ombro, ele diz:

- Então é você que quer destruir o socialismo?

O homem levanta sua cabeça, expondo o seu rosto. Gunther o reconhece. Arregalando os olhos, ele pergunta aos sussurros:

- Erich Honecker?!

Então Honecker malignamente sorri.

 

     

 



[1] Cobra em alemão.

[2] Fonte de vida em alemão

[3] Liga das Meninas Alemãs

[4] Cruz de Honra da Mãe Alemã

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