sábado, 22 de maio de 2021

Tiergarten - 28 - Passeando com Albert Einstein


 

Com o telefone em sua mão, o rapaz exasperadamente diz:

- Moça, você não entende! Eles estão atrás de você! Quem quer que você seja, é melhor fugir! E parar de ligar para mim!

A voz no outro lado da linha responde:

- Acalme-se, Gunther. Me explique o que está acontecendo, e bem devagar.

O rapaz respira fundo.

- A Stasi sabe sobre sua existência. Eles sabem que você não é dessa dimensão... ou desse tempo... ou desse mundo... Ou qualquer coisa...! – responde ele, confuso – A polícia do Estado é poderosa. Eles podem te achar!

A voz ri.

- Semanas atrás você estava me acusando de ser uma espiã deles, agora me alerta a fugir dos meus supostos recrutadores?

- Sei que parece absurdo. Ouça, provavelmente eles já estão ouvindo a essa ligação. É melhor desligar antes que eles te rastreiem.

A ligação fica muda por alguns segundos. O rapaz se confunde, pois a voz só ia embora quando ele ouvia estática. Porém, ele começa a ouvir uma bela melodia de violino.

- Moça...? – pergunta ele.

- Não é lindo o som desse violino?

Sem tempo para apreciar, o rapaz responde:

- Eu...

- Shhh! – interrompe a voz – Ouça essa melodia, é Mozart.

O rapaz ouve, mas não dá atenção.

- Você precisa me ouvir, fuja!

- A música ajuda a acalmar o nervosismo. Talvez você devesse apreciar essa melodia em um concerto. – fazendo uma breve pausa, a voz continua – Hoje à noite haverá um concerto na Staatsoper Unter den Linden[1]. É melhor estar pronto, senão você vai se atrasar.

Gunther conhece o lugar. A Staatsoper Unter den Linder, ou também conhecida como Casa de Ópera de Berlim, é uma bela edificação de arquitetura paladiana construída em 1743. Apesar de gerida pelo governo socialista, apenas os espectadores com ingresso podiam entrar.

- Eu agradeço o convite, mas como poderei entrar sem um ingresso?

De repente um braço se estica ao seu lado e lhe oferece algo em sua mão. Largando o telefone em um grito, ele olha para trás mas não vê ninguém. Um ingresso, entretanto, estava caído no piso.

- Você não vai querer perder o concerto. Divirta-se! – então a voz desaparece nos ruídos de estática.   

Ainda assustado, o rapaz se pergunta como aquele ingresso foi parar ali.

 

§

 

À noite, o rapaz entra na Casa de Ópera e procura por um lugar para se sentar. O interior é magnífico, tendo sido restaurado completamente após a devastação da Segunda Guerra Mundial. Apesar de ser uma casa dedicada à ópera, esporadicamente haviam concertos e sinfonias, dos quais agradavam muitos os berlinenses mais eruditos. Notando como a casa se enchia, o rapaz pensa: “aparentemente a erudição não foi destruída com a guerra”.

Enquanto admira o salão, alguém se senta ao seu lado. Sem se importar, Gunther aguarda pacientemente o início do concerto.

Os músicos se apresentam e o maestro inicia a adorável sinfonia. O instrumento clássico preferido do rapaz era o violoncelo, mas era o violino que mais o agradava. Deixando-se envolver pelo maravilhoso instrumento, a pessoa ao seu lado pergunta:

- Linda a música, não?

Ao olhar para o lado, Gunther tem uma tremenda surpresa. Ele estava ao lado de Albert Einstein.

Gritando brevemente em espanto, a plateia se assusta e olha para eles. O rapaz disfarça e se recompõe.

- Dr. Einstein?! É o senhor mesmo?

Sorrindo e ajeitando seu bigode, o físico responde:

- Sim, meu jovem. Sou eu.

- É uma honra conhece-lo...!

Assentindo, Einstein cruza as pernas e olha para os músicos. O concerto parecia agrada-lo imensamente. Gunther está perplexo e não consegue acreditar que Einstein em pessoa estava ao seu lado. Então o físico comenta:

- Ouça, que bela música...! Note como os instrumentos se mesclam à beleza da melodia!

Controlando-se, o rapaz vê o maestro acenando enquanto os músicos tocam elegantemente seus instrumentos.

- É sim. – comenta ele.

- Se eu não fosse um físico, eu provavelmente seria um músico. Eu frequentemente penso na música. Eu sonho acordado na música. Eu vejo minha vida nos termos da música... A maior parte dos meus prazeres vêm da música...

Gunther nota como Einstein fala apaixonado sobre o assunto. De fato, ele ouviu dizer que o físico a adorava. Tentando encontrar algo inteligente para responder, o rapaz diz:

- A melodia é verdadeiramente magnífica, Dr. Einstein.

- Como disse Friedrich Nietzsche, “sem a música, a vida seria um erro”. – comenta ele – O senhor conhece Nietzsche?

Franzindo a testa em um humilde sorriso, o físico olha para ele.

- É claro, Dr. Einstein. Sou um profundo admirador de sua filosofia.

Enquanto aprecia o concerto, o físico parece se perder em pensamentos. O rapaz ainda não consegue acreditar que Einstein estava ao seu lado. O físico foi o criador da famosa Teoria da Relatividade, com sua mundialmente conhecida equação E=mc².

Percebendo como o rapaz ainda estava muito admirado ao vê-lo, o físico pergunta:

- Como se chama, meu jovem?

Quase gaguejando, ele responde:

- Gunther, doutor.

- E como vão as coisas, senhor Gunther?

Pensando antes de falar, como ele poderia responder? Seria muito difícil dizer que ele era um paradoxo dimensional, viajante do espaço/tempo, espionado pela Stasi que conversava com pessoas mortas. Lembrando-se de algo melhor e mais racional, ele responde:

- Ultimamente, sofrendo pelo amor de uma mulher...

- Como assim? – interessa-se Einstein.

- Eu a amo tanto que às vezes sinto pena de mim mesmo...

- Ora, não diga isso. Amar não é digno de pena, e o estado em que ficamos quando amamos é a mais sublime elevação do sentimento humano. Pelo amor devemos derrubar qualquer barreira.

Intrigado, o rapaz pergunta:

- Qualquer barreira?

- Certamente!

Reclinando-se em seu assento, o rapaz complementa:

- Essa garota, de nome Anneliese, é uma comunista ferrenha que propôs se casar comigo com uma única condição. Acho que ela estava brincando comigo, mas apaixonado como eu estava, acreditei mesmo assim.

O físico parece se interessar bastante. Sua vida amorosa foi algo bastante intenso em sua vida, pois ele amou muitas mulheres. Apesar de seus muitos envolvimentos extra conjugais, o falecimento de sua Elsa o havia deixado muito abalado.

- E que condição foi essa?

- Quando o socialismo caísse.

Então Einstein faz um olhar sério. Em 1949, o físico escreveu um artigo chamado “Por que o Socialismo?” do qual criticava asperamente o sistema capitalista. No artigo, ele apontava os problemas do capitalismo, como a competição econômica, o aumento da desigualdade social e o controle da mídia pelo grande capital. Entretanto, anos antes em 1925, Einstein também criticou o socialismo bolchevique, acusando-o de ser um regime de terror e uma tragédia para a humanidade.

Após um tempo em silêncio, Einstein pergunta:

- Responda-me: por acaso você planeja derrubar o regime socialista?

Pensando no quão boba aquela ideia parecia ser, o rapaz convictamente responde:

- Sim.

Coçando sua barba, o físico assente com a cabeça.

- Não imaginei que você fosse tão contrário a essa ideologia.

- Três milhões de alemães, de uma população total de 16 milhões, já fugiram da Alemanha Oriental até o momento. E continuam fugindo. Me admira o fato de que alguns ainda defendam esse regime. Acho que não aprenderam com os erros de Lênin...

Em contrapartida, Einstein responde:

- Eu devo dizer que sou um admirador de Lênin. Nele eu honro um homem que, em total sacrifício de sua pessoa, empreendeu toda sua energia em realizar a justiça social. Eu não acho seus métodos recomendáveis, mas uma coisa é certa: homens como ele são os guardiões e renovadores da consciência humana.  

Gunther nota que, apesar das críticas, o físico era um homem de opinião equilibrada sobre o socialismo.

- Me parece um pouco radical de sua parte querer derrubar esse regime por amor. – continua ele – Mas eu também fui um pouco radical em minha oposição ao movimento sionista e à criação do Estado de Israel. Eu inclusive recusei o pedido do embaixador Eban de me tornar o primeiro presidente.

- É mesmo? – espanta-se Gunther.

- Sim. Na ocasião, eu respondi que o pedido incorporava o maior respeito do qual o povo judeu repousava em seus filhos. Eu fiquei profundamente comovido, entristecido e envergonhado em ter de recusa-lo. – olhando-o nos olhos, ele jocosamente pergunta – Acho que ambos somos um pouco subversivos, não é mesmo?  

Os dois riem. Então alguém atrás deles os pede para fazerem silêncio.

Após a apresentação, os dois deixam a Casa de Ópera e caminham pelas ruas de Berlim. Gunther segue desconfortavelmente ao seu lado pois, apesar de ter quase trinta anos, se parecia com um reles menino ao lado de um senhor mais experiente e incomparavelmente superior a ele.

Fumando seu cachimbo, Einstein olha ao redor e se fascina com a atual paisagem berlinense. Até sua morte em 1955, ele morava nos Estados Unidos e a Alemanha, país de seu nascimento, ainda se recuperava do traumático período pós-guerra. De repente ele comenta:

- Apesar dos russos terem remodelado boa parte da cidade, não posso deixar de sentir nostalgia ao revê-la. Entretanto, eu prefiro vê-la adaptada aos moldes soviéticos do que sob a tirania do regime nazista.

Lembrando-se de algo, o rapaz diz:

- Concordo plenamente, mas devo dizer que os soviéticos não são tão melhores que os nazistas. Hoje eles possuem armas nucleares e ameaçam a democracia e a liberdade no mundo. Apesar de não existirem mais Gulags, muita gente ainda perece nos campos de trabalhos forçados no interior da Rússia.

Respirando fundo, Einstein responde:

- É lamentável o que os russos, sob a égide do marxismo-leninismo, fizeram, mas é um mal menor se comparado aos horrores do nazismo.    

Os dois chegam a um famigerado local. Eles estavam no meio da Opernplatz, a praça onde, em 10 de maio de 1933, os nazistas queimaram cerca de vinte mil livros de autores não arianos.

- Veja, meu jovem. Aqui os nazistas queimaram meus livros em meio a um espetáculo de ódio e antissemitismo.

Então Einstein observa o local em silêncio.

Gunther se lembra que, na ocasião, o ministro da propaganda Joseph Goebbels proclamou que o “intelectualismo judeu estava morto”. Mais tarde, uma revista alemã incluiu o nome de Einstein na lista dos inimigos do regime alemão com a frase “ainda não enforcado”, oferecendo cinco mil marcos pela sua cabeça. O rapaz imagina como deve ter sido difícil para Einstein estar vivo naquele negro período.

Repentinamente, o físico diz:

- Prevendo a destruição que os alemães causariam, eu, Leo Szilard e outros refugiados como Edward Teller e Eugene Wigner aconselhamos o presidente americano Franklin Roosevelt a investir na construção de armas nucleares. Nunca considerei essa hipótese, mas fui persuadido por meus colegas a considera-la, afinal Hitler estaria mais do que disposto a usa-las.

Einstein falava da corrida armamentista pelo desenvolvimento de bombas atômicas da qual os americanos felizmente venceram com o Manhattan Project.  

Gunther pergunta:

- Hoje essa armas também estão nas mãos dos russos, que também ameaçam o mundo com seus mísseis balísticos e intercontinentais. O senhor crê que, para a manutenção da paz, a posse delas sejam um mal necessário?

Evasivo, o físico responde:

- Não posso deixar de me sentir responsável por sua existência. De fato, eu cometi um grande erro em minha vida quando assinei aquela carta ao presidente Roosevelt recomendando que as bombas atômicas fossem feitas. Mas houve uma justificativa, o perigo de que os alemães as fizessem...

Lágrimas se formam em seus olhos. O rapaz diz:

- Tenho certeza que, naquele momento, isso foi o melhor a ser feito.   

Ressentido, Einstein comenta:

- Por culpa do nazismo eu me distanciei de minha postura pacifista. Mas como eu mesmo disse no Instituto de Tecnologia da Califórnia, a ciência está mais inclinada a fazer o mal do que o bem.

Passados alguns minutos, os dois continuam sua caminhada. Eles então chegam à famosa Universidade de Humboldt da qual Einstein, em 1913, foi diretor e professor.

- Nessa universidade eu fui eleito o diretor da Sociedade Alemã de Físicos. Isso foi em 1916... ou 1917...? Eu não me lembro mais...

Einstein sorri enquanto fuma seu cachimbo. Gunther aproveita o momento para perguntar:

- Dr. Einstein, o senhor acredita em Deus?

Com a estranha pergunta, o físico se intriga.

- Por que a pergunta, meu jovem?

- É evidente que o senhor é um homem de ciência. Talvez o melhor de todos. Mas o senhor acredita que o universo possa ter um criador?

Sorrindo, o físico responde:

- Bem, eu não sou um ateu. Se eu puder escolher, eu prefiro me chamar de agnóstico ou um profundo descrente religioso.

Ouvindo-o, o rapaz faz outra pergunta:

- O senhor não crê na religião, apesar de sua respeitável origem judaica?

Meneando negativamente a cabeça, ele responde:

- Para mim, a religião judaica, como qualquer outra, é a encarnação das mais infantis superstições. E o povo judeu do qual eu felizmente pertenço, e cuja mentalidade eu tenho profunda afinidade, não tem melhor qualidade do que qualquer outro povo. Eu não consigo ver nada “escolhido” neles.

- Também sou agnóstico, pois com tanta maldade no mundo, é difícil acreditar que um deus bom exista.

Einstein complementa:

- Acredito no Deus de Espinosa, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens.

Gunther assente. Pensando no assunto, lhe parece que os mais célebres judeus que já existiram eram agnósticos ou ateus. O rapaz vê isso em Karl Marx, Sigmund Freud, Isaac Asimov, Léon Trotsky e Albert Einstein.

A noite fica mais fria em Berlim. Estava entardecendo. Aquecendo-se, o rapaz comenta:

- Gostaria de ter sua genialidade para resolver meus problemas, Dr. Einstein. Assim minha vida amorosa não seria tão fria quanto essa noite.

Amigavelmente, o físico responde:

- Ora, não fale assim. Somos todos geniais, mas se você julgar um peixe por sua capacidade de subir em árvores, ele passará a vida inteira acreditando ser estúpido.

O rapaz agradece a agradável resposta.

Olhando para o seu relógio, Einstein diz:

- Veja só que horas são! Agora eu devo partir. Foi um prazer conhece-lo, jovem Gunther. Até a próxima!

O físico ajeita sua cabeleira e caminha em direção oposta na rua. Mas o rapaz o interrompe, perguntando-o:

- Dr. Einstein, perdoe a minha insistência, mas o que fazer quando, entre você e o amor de sua vida, encontram-se um regime tirânico e a Revolução?

Apressado e sem tempo para pensar, o físico apenas diz:

- O que for preciso, meu jovem!

Então Einstein acena, se vira e continua caminhando pela rua, até finalmente desaparecer no ar. Gunther fica parado ali, espantado com a sinistra cena. Porém, uma tristeza inunda seu coração. Ele está triste por brevemente ganhar e perder mais um amigo, pois ultimamente ele só conversava com gente morta.

Lembrando-se de Anneliese, o rapaz pergunta novamente para si mesmo:

- O que fazer...?

Ele repete a pergunta inúmeras vezes.

- O que Einstein faria...? - aventura-se ele, pensando no trabalho hercúleo que seria para apenas um homem derrubar esse regime. 

 Então uma reflexão surge em sua mente.   

“O que foi necessário para derrubar o império japonês e seu tirânico regime?”, reflete ele. “É isso mesmo!”, ele se responde, estalando os dedos.

“Armas nucleares!”.

 



[1] Casa de Ópera situada na avenida Unter den Linden

domingo, 2 de maio de 2021

Tiergarten - 27 - Stasi

 


O telefone toca. Acordando assustado, ele olha para a janela e nota que ainda é noite em Berlim. Ao atende-lo, ele diz:

- Alô...?

- Gunther, eu estive pensando...

Ele reconhece a voz. Aquela misteriosa mulher falava com ele.

- O que você quer?

- Eu até consigo compreender você ser um Super Homem de Nietzsche, mas como pode se chamar de marxista se você é contra o sistema marxista que governa seu país?

Enxugando os olhos, ele respira fundo e responde:

- Você não entendeu. Eu concordo com Marx em combater os falsos valores morais que estruturam o sistema burguês e explorador, mas sou contra o socialismo que também traz exploração. Eu defendo o ímpeto revolucionário contra o próprio socialismo, ou seja, o contrário da Revolução.

- Então você é um reacionário, à favor da contrarrevolução?

Desconcertado com aquela estranha rotulação, o rapaz responde:

- Sim, eu acho.

- É o que eu queria saber.

Lembrando-se de algo, o rapaz pergunta:

- Por acaso o seu nome é Sashenka?

- O quê?

Gunther ia perguntar de novo quando ouve um ruído na sala.

- Com licença. – virando-se, ele pergunta – Quem está aí?

Levantando-se, o rapaz averigua a sala e a encontra escura e vazia. Entretanto, ele sente um estranho cheiro de cigarro no ar.

Voltando ao telefone, ele pega o receptor e diz:

- Desculpe-me, pensei ter ouvido um ruído na sala.

Mas no outro lado da linha não havia ninguém e ele só ouve estática. Desapontado, ele decide desligar.

 

§

 

Na manhã seguinte, Gunther vai comprar pão e, ao voltar para casa, encontra os móveis fora de lugar. Confuso, ele averigua os cômodos, mas não encontra ninguém.

- Quem está aí? – pergunta ele, mas não há resposta.

Naquela noite, o rapaz dorme tranquilamente em seu quarto. De repente alguém bate veementemente em sua porta, acordando-o em um pulo. Alguém batia na porta e parecia estar desesperado para falar com ele. Ao olhar o relógio, ele vê que horas são. “Duas e meia da manhã”, sussurra ele.

Desconfiado, o rapaz caminha até a porta e, ao abri-la, não havia ninguém. Confuso, ele coça sua cabeça e volta a dormir.

Mais um dia se passa. No mercado, ele compra leite, café e algumas salsichas. Há vários clientes ao seu lado, mas ele tem uma sensação incômoda de estar sendo observado. Pagando por suas compras, ele deixa aquele lugar.

Em sua casa, ele deixa suas compras na mesa e vai tomar banho. Ao terminar, ele se veste e prepara o café da manhã. Fervendo a água na leiteira, ele pega o escoador e procura o pó de café. Então ele tem uma terrível surpresa. Em suas compras havia um chá.

- Mas que diabo...! – intriga-se ele – Eu não havia comprado café?

Gunther não entende. Ele tem certeza que comprou café. Ele jamais se enganaria, pois nunca gostou de chá.

“Não é possível!”, pensa ele. “Nem que eu tivesse confundido as embalagens, elas são de cores diferentes!”.

Outro dia se passa. Passando da meia-noite, o rapaz desliga a televisão e se prepara para dormir. Ao se deitar, ele se cobre e o telefone toca. Adivinhando quem era, ele tediosamente responde:

- O que você quer?

Mas ninguém responde, aquela voz não estava no outro lado da linha. Porém, ele não ouvia o som de estática. Então algo sinistro acontece. Gunther ouve uma respiração forte, aumentado gradualmente de volume a cada segundo. Intrigado, ele pergunta:

- Alô...?

Algo cai atrás dele. Virando-se rápido como um relâmpago, ele caminha até a cozinha para ver o que era. Espionando assustado atrás da parede, ele vê que uma panela havia caído.

Após uma noite muito mal dormida, Gunther se levanta e retorna à cozinha. Como esperado, não havia ninguém ali. Colocando a panela de volta no armário, ele troca de roupas e sai para comprar café.

Enquanto caminha pelas ruas, a estranha sensação de estar sendo observado o persegue. Alguns transeuntes abaixam seus jornais para observa-lo, mas ao serem notados, eles novamente os levantam. Crianças brincam nos parquinhos e, ao verem-no, param suas brincadeiras para olha-lo. Gunther não entende. “Será isso uma falha dimensional? Será que eu fui novamente arrebatado para outro tempo?”. Mas tudo parecia em ordem, para sua frustração.

Ao pegar o café, o rapaz vê a embalagem uma dúzia de vezes, certificando-se que estava comprando o item correto.

- Kaffeepulver...[1] – sussurra ele ao ler várias vezes.

Satisfeito, ele volta para casa.

Abrindo a porta de seu apartamento, ele olha para a mesa e vê um cigarro. Intrigado, ele o pega e se pergunta:

- Mas de quem será que é isso?

Dirigindo-se até a cozinha, ele deixa o café sobre a pia quando tem outra surpresa. A panela estava novamente no chão.

- Mas o quê?!

Pegando-a, ele se confunde. “Eu não a havia colocado de volta ao armário?”.

Distraído, ele passa a mão em seus cabelos quando percebe alguém observando-o de longe. Pela estreita janela ele vê um homem de boina, bigode e óculos escuros parado na escadaria de outro prédio. Assustado, ele se abaixa e se esconde atrás da pia. Levantando-se lentamente, ele tenta espia-lo, mas o misterioso homem havia desaparecido.

À noite, o rapaz não consegue dormir. Ele está inquieto e observa a luz do holofote passar intermitentemente pela persiana. O relógio marca três horas da manhã. De repente alguém bate em sua porta. Olhando para a sala, Gunther teme ver quem é. O desconhecido bate de novo, agora com mais força. O rapaz se esconde debaixo de seu cobertor.

As batidas continuam. Parecia que alguém estapeava a porta, pois soava como golpes com as palmas das mãos. Ainda escondido, Gunther sussurra:

- Vá embora...!

Então, alguns minutos depois, as batidas cessam.

Na noite seguinte, o rapaz tranca a porta de seu quarto. Ele sente muito medo, ele tem a impressão de ouvir passos em seu apartamento, mesmo durante o dia. Deitando-se, ele tenta dormir, mas o sono dura pouco.

Gunther acorda com o cheiro de cigarro em seu quarto. Abaixando seu cobertor, ele olha ao redor e não vê ninguém. A luz do holofote passa normalmente e, na segunda passagem, ele vê a sombra de um homem em pé ao lado da janela. O rapaz grita. Instintivamente ele se levanta e acende a luz, mas inacreditavelmente não havia ninguém lá.

- Mas... E quanto ao cheiro...? – intriga-se ele.

Na manhã seguinte, o rapaz ouve algo ser arrastado debaixo de sua porta. Ao chegar na sala, ele novamente vê aquele maldito cigarro ali. Não importa quantas vezes ele o jogue fora, ele sempre estará lá. Então, olhando para a porta de entrada, ele vê um envelope no chão. Abrindo-o, ele encontra fotos em seu interior.

- Mas o que é isso? 

Averiguando as fotos, Gunther arregala os olhos em espanto. As fotos exibem ele se masturbando em sua cama, em sua poltrona e no banheiro. Outra foto exibe uma revista pornográfica estrangeira, contrabandeada ilegalmente em seu país.

Com a mão na boca, Gunther não sabe o que dizer. As fotos eram totalmente constrangedoras, além de incriminatórias. No envelope ainda havia outro item. Em um pedaço de papel, ele lê: “Anneliese”. Apavorado, ele agora teme que aquele material caia nas mãos da garota.

Abrindo a porta, ele procura por aquele que deixou aquele envelope ali. Percorrendo o hall e a escadaria, ele infelizmente não encontra ninguém.

 

§

 

Gunther está paranoico. A cada vez que ele sai de casa, ao voltar ele encontra os moveis fora do lugar. Cigarros aparecem sobre a mesa e sua comida desaparece da despensa. Telefonemas e batidas na porta no meio da noite perturbam seu sono. Com a forte insônia, ele não consegue mais dormir. Estranhos o observam nas ruas, mas nunca lhe dizem uma palavra. Enquanto caminha pela calçada, ele vê suas fotos íntimas coladas nas paredes e nos postes. Arrancando-as, ele se intriga ao perceber que eram apenas anúncios comuns.

Novamente em casa, ele sente o cheiro de cigarro em toda parte. Alguém frequenta seu apartamento, mas ele nunca o encontra pessoalmente.

Havia outro envelope sobre a mesa. Abrindo-o, ele encontra novas fotos. Gunther vê a si mesmo batendo na porta de seu próprio apartamento, comprando chá no mercado e tirando os móveis de lugar. Em todas elas o rapaz parece estar fumando.

- Meu Deus... – diz ele – Eu estou ficando louco...!

Sentindo o esgotamento físico e psicológico, ele está prestes a desmaiar. Combalido, ele dirige-se à janela e olha para o Muro de Berlim. De seu apartamento, era uma altura considerável até o solo, “o suficiente para me matar”, pensa ele. Escorando-se, ele põe metade de seu corpo para fora. O vento gelado sopra por seu pescoço, arrepiando-o. Prestes a se lançar abaixo, alguém o puxa pelas roupas e põe um saco preto em sua cabeça. Um segundo depois, sua cabeça é golpeada e ele imediatamente desmaia.

O rapaz acorda em uma estreita cela. Ele olha ao redor e vê apenas uma grossa porta de aço e uma janela com barras na parede. Assustado, ele se levanta e corre até a porta.

- Socorro! Eu estou preso aqui!

De repente, ele ouve vozes no lado de fora. Alguém destranca a cela e ele vê um homem calvo, de aparentemente cinquenta anos e cabelos penteados para trás. Ele o cumprimenta dizendo:

- Bom dia, Gunther. Benvindo a Berlin-Hohenschönhausen.

O rapaz se intriga. “Esta não é a prisão usada pelos soviéticos após a Segunda Guerra Mundial?”, pensa ele.

- Quem é você?

- Sou Erich Mielke, ministro de segurança do Estado da República Democrática Alemã.

Gunther conhece o nome. O Ministério de Segurança do Estado, ou Serviço de Segurança de Estado, tratava-se da temida Stasi, uma das mais repressivas agências de polícia secreta e política que já existiu. Operando sempre de forma velada, a agência promovia a espionagem em seu solo, na Europa e inclusive na América, embora concentrando-se na vigilância de seus próprios cidadãos.

O Ministério de Segurança do Estado foi criado em 8 de fevereiro de 1950, mas intensificou sua ação após a revolta de 1953. Temendo que outra revolta ocorresse, o ministério passou a vigiar mais intensamente seus cidadãos, dos quais eles chamavam os suspeitos de “subversivos”. Os subversivos eram aqueles que ameaçavam a estabilidade da recém criada GDR, pondo em risco sua existência como aconteceu em 1953.

   Diferente da polícia secreta russa, da qual utilizava métodos violentos para extrair informações de suas vítimas, a Stasi procurava destrui-los psicologicamente, utilizando-se de sabotagem, ameaça, desordem mental e constrangimentos. Esse método tornou-se conhecido como “biodegradação”, onde a vítima perdia a noção da realidade, acreditando sofrer de paranoia e delírio.

Para tamanha eficiência, a Stasi recrutou uma vasta rede de espiões por toda a Alemanha. Até 1980, cerca de 3% da população da GDR era de espiões. Estima-se que, entre 1950 e 1980, cerca de 260.000 informantes foram recrutados pela Stasi, agindo tanto na Alemanha Oriental quanto na Ocidental. Também é estimado que a Stasi prendeu cerca de 200.000 até o mesmo período. Como consequência, ela criou uma cultura de medo. Temendo serem presos, conversar sobre política ou criticar o regime era algo perigosíssimo aos cidadãos, pois não se podia saber quem era ou não era um informante.

Em comparação, a polícia secreta nazista – Gestapo – tinha um informante a cada 2.000 pessoas. Supreendentemente, a Stasi tinha um a cada sete pessoas. Essa proporção fez com que Simon Wiesenthal, um conhecido caçador de nazistas, acusasse a Stasi de ser mais repressiva que a Gestapo.

A Stasi contava com seu próprio sistema penitenciário, atuando fora do sistema penal oficial. A agência dirigia prisões e campos de trabalho forçado, adaptados do modelo soviético.

Erich Mielke, do qual conversava agora com Gunther, foi um influente comunista alemão, do qual promoveu a coletivização forçada da agricultura, supervisionou a construção do Muro de Berlim e emitiu ordens para matar quem tentasse atravessa-lo. Rotulado de “o Mestre do Medo”, Mielke tornou-se um dos homens mais odiados e temidos da Europa.   

Gunther se desespera. Ele sabe que quem era preso pela Stasi simplesmente “sumia”. Amigos, familiares e colegas de trabalho não podiam contata-lo, pois tampouco sabiam se estava vivo. Mielke, ao lado de dois guardas vestidos de fardas cinzas, encaravam-no sem emoção, aparentando deliciarem-se com seu desespero.

Os guardas seguram Gunther pelos braços e o conduzem pelos corredores. O rapaz consegue ouvir os presos nas outras celas gritando, chorando e alegando inocência. De repente ele sente vontade de chorar.

Chegando a uma sala separada, os guardas o sentam em uma cadeira e Mielke se senta à sua frente. Ele carrega uma densa pasta consigo. Apavorado, o rapaz ousadamente pergunta:

- O que a Stasi quer comigo?

O ministro responde:

- Eu nem sei por onde começar, senhor Gunther.

- Eu sou inocente! – exclama ele.

- Não é o que denunciaram ao seu respeito.

- Denunciaram...?

- Sim, de um certo turista brasileiro.

Nesse momento, o rapaz se lembra. Encontrando-o em Marx-Engels Platz, Luiz Carlos era o riquinho comunista que Gunther humilhou por ele ser um burguês e alienado.

- Maldito turista...

Abrindo sua pasta, o ministro diz:

- Tenho algumas perguntas para fazê-lo, senhor Gunther. O senhor realmente chamou a atenção de nossa agência.

- Como isso é possível? Eu sou só um desempregado sustentado por minha mãe.

O rapaz simplificava sua situação, pois intentava atravessar o muro de Berlim.

- Ah, não, senhor Gunther... – empolga-se ele – O senhor é muito mais do que isso.

- O que poderia ser tão interessante para o ministro de Segurança do Estado em pessoa vir me interrogar?

- Ora, nenhum segredo é pequeno demais, de uma pessoa irrelevante demais, para não o sabermos.

- Eu já disse que sou inocente!

Mielke ri.

- Nesse país, só há dois tipos de inocentes: os recém nascidos e os alcóolatras. Como o seu amigo naquele bar em Prenzlauer Berg. Como ele se chama, mesmo? Wolfgang?

Gunther arregala os olhos. “Como eles sabem isso? Há quanto tempo eles estão me espionando?”.

- Wolfang não é meu amigo! Ele simplesmente estava ali quando eu cheguei!

Ajeitando seus papeis, Mielke responde:

- Não precisa se preocupar com isso. Wolfgang está aqui também e logo vocês terão muito tempo para se conhecerem melhor.

A Stasi prendeu aquele homem. Temendo ser o próximo, Gunther apela mais uma vez.

- Pelo amor de Deus, eu não fiz nada!

- Deus? – intriga-se ele – Pensei que não acreditasse em Deus. Aliás, o senhor se considera um agnóstico, não é mesmo?

O rapaz se estarrece. Ele nunca falou de seu agnosticismo a ninguém.

- Como sabe disso?

- Para quem não acredita em Deus, você andou conversando com muitos cristãos por aí. E os muito influentes, na verdade. Como o Padre Joseph Ratzinger ou... – nesse momento ele o encara fixamente – Martinho Lutero.

Estarrecido novamente, o rapaz exclama:

- Isso não é possível...! Como vocês sabem disso?

- Simples. – responde Mielke, encostando-se em sua cadeira – Colocamos escutas em seu apartamento. Temos o registro de todos os que estiveram lá. E devo ressaltar que o senhor conversa com muitos subversivos também.

O rapaz protesta.

- Martinho Lutero está morto! Como poderia eu conversar com alguém que já morreu?!

- Não morreu para o senhor, já que o conheceu pessoalmente.

- Eu não sei quem é mais louco, eu ou a Stasi por acreditar que eu falei com os mortos.

Ignorando-o, Mielke continua:

- Assim como Otto von Bismarck. Há quanto tempo o senhor defende os monarquistas? O senhor não sabe que o socialismo é contra a nobreza e a monarquia?

- Não sei do que está falando.

- E os nazistas? Até hoje nunca existiu uma ideologia tão contrária aos anseios da classe operária quanto o nazismo alemão.

- Nazismo alemão...?

- Me diga uma coisa: o senhor é nazista?

Irritado, ele responde:

- É claro que não!

- Então por que mantém contato com eles?

Gunther se assusta.

- Eu não mantenho contato com nazista nenhum!

- O senhor fez amizade com o principal de todos, o líder deles, Adolf Hitler. Inclusive passaram a tarde toda conversando sobre cachorros.

De fato, o rapaz conheceu o Führer pessoalmente.

- Eu não sou amigo deles!

Mielke insiste:

- Em meus arquivos constam que o senhor foi membro da milícia paramilitar Sturmabteilung em Munique, mais conhecida como as SA.

- Isso foi nos anos 30! – então o rapaz se intriga – Espere um pouco. Como vocês sabem das minhas incursões históricas anteriores à criação da própria Stasi?!

Sorrindo, o ministro responde:

- Eu disse que o senhor era especial, não disse?

- Por favor, vocês têm que acreditar em mim! – insiste ele – Eu sou inocente! Minha vida mudou desde que minha mãe se foi e eu não sei mais o que está acontecendo!

- O que acontece é que o senhor anda se envolvendo com os inimigos do socialismo. Monarquistas como Bismarck, nazistas como Hitler, religiosos como Lutero e imperialistas como os nobres do Sacro Império Romano-Germânico. Sem contar – continua ele – seu envolvimento com os piores inimigos da Revolução, os social-democratas.

- O quê?!

- Por acaso o senhor não sabe que Ebert e Scheidemann se opuseram à revolução comunista quando Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht tiveram a chance?

- Eu não tive nada a ver com isso!

- Ah, teve... – discorda ele – Pois foi o senhor quem sabotou a Liga Espartaquista e, mais tarde, a Ação Antifascista, resultando na prisão de Ernst Thälmann.

- Isso é impossível! Eu nem estava vivo nesse tempo! O que aconteceu foi que eu voltei ao passado!

Então Mielke tira algumas fotos de sua pasta e as entrega a Gunther. O rapaz vê a si mesmo ao lado das SA e dos Freikorps.

- Isso não é verdade! – protesta ele – Eu morri! Eu fui assassinado pelos Freikorps e depois pela SS!

O ministro ri.

- Há um minuto o senhor disse que a Stasi era louca por acreditar que o senhor falava com os mortos. Agora quer nos convencer que, na verdade, o senhor é quem morreu?

Gunther não consegue entender. Aparentemente a Stasi tinha acesso à quarta dimensão.

- Isso é impossível...! Eu achei que eu era o único...!

- O único ao que, senhor Gunther?

- Sobreposição dimensional, travessia do espaço, viagem no tempo...

- Do que está falando? – interessa-se Mielke.

- A quarta dimensão.

Assentindo, o ministro responde:

- Não se esqueça de Anneliese. O senhor se encontrou com ela na reunião antifascista e no levante espartaquista, não é mesmo?

Preocupado, o rapaz rispidamente responde:

- Deixem-na em paz! Ela não tem nada a ver com isso!

- Tem sim, pois como ela mesmo disse, não importa aonde ela vá, seja no espaço ou no tempo, ela nunca conseguirá fugir de você. – retruca ele – Imagine como ela, uma comunista convicta, ficaria feliz em conhecer Karl Marx pessoalmente como o senhor o conheceu naquela tarde em Londres.

- Deixem-na em paz, eu imploro...!

O rapaz começa a chorar. Mielke espera um minuto antes de prosseguir.

- Nós deixaremos se o senhor cooperar com a gente. O senhor entrou em nossos registros quando foi capturado na revolta de 1953. Pensávamos estar lidando com apenas um subversivo, mas descobrimos que eram múltiplos Gunthers. Diga-me: como consegue fazer isso?

- Fazer o quê?

- Multiplicar-se. – responde ele – Estamos lidando com algo extraordinário aqui, um autêntico caso de Doppelgängers.

Desanimado, o rapaz argumenta:

- Eu não consigo fazer nada! Eu sou vítima de uma força dimensional superiora, passivo de suas alterações aleatórias no espaço-tempo.

O ministro não acredita em nada do que ele diz.

- Certo, vamos tentar de outra maneira. Estivemos investigando seu lixo. Desde quando consome material estrangeiro proibido?

- Eu não sei do que está falando...

- Nós grampeamos o seu telefone. Um aparelho muito bizarro, eu devo dizer. De onde ele apareceu? Como conseguiu uma linha telefônica própria?

- Eu não sei! – grita ele – Ele simplesmente... surgiu ali. Eu não sei dizer.

- E, ao telefone, com quem você conversa regularmente?

- Também não sei! Eu pensei que ela fosse uma agente de vocês!

- Ela? – interessa-se ele – Então é uma mulher?

- Sim! É uma voz de mulher que eu escuto. Pensei que era uma espiã da Stasi, ou da KGB, pois às vezes falava com sotaque russo...

Novamente Mielke duvida de suas palavras.

Abrindo a pasta de arquivos, o ministro pega uma fita cassete e a coloca em um reprodutor de áudio.

- Ouça.

Um segundo depois, Gunther ouve sua própria voz conversando normalmente ao telefone. Mas, para o seu assombro, ninguém responde no outro lado da linha. Eles ouviam apenas estática.

- Eu não entendo... – espanta-se ele – Eu converso com uma mulher todas as vezes...

- Quem?

- Eu já disse que não sei! A última vez que eu ouvi, ela se chamava Sashenka...

- E essa “Sashenka” é uma contrarrevolucionária como você?

- Não! Quero dizer, eu não sou um contrarrevolucionário!

Tocando novamente a fita, o rapaz ouve a si mesmo admitir que defendia o ímpeto revolucionário contra o próprio socialismo, ou seja, contra a revolução.

- E como o senhor explica isso? – pergunta o ministro.

Gunther não sabe o que responder.

- Eu posso explicar! Eu juro!

Perdendo a paciência, o ministro meneia negativamente a cabeça. Em seguida ele diz:

- Assim como os russos, eu criei essa agência para vigiar a população, protegendo-a de si mesmo. Mas eu diferi deles em seus métodos, pois acreditava que a violência apenas motivava os dissidentes mais e mais. Entretanto, às vezes eu sou obrigado a concordar com os soviéticos. Quando a paciência acaba, só a violência resta. – levantando-se, Mielke ordena – Guardas! Podem começar!

Os guardas sacam seus porretes e olham para Gunther. Apavorado, ele suplica:

- Esperem! Eu direi tudo o que querem ouvir, mas não me machuquem!

- Tarde demais. Não tenho mais tempo para suas mentiras. Guardas!

- Esperem! Eu sou um espião! – mente Gunther – É isso o que querem saber?!

O ministro se intriga.

- Espião?

- Sim! Eu sou um agente da Alemanha Ocidental enviado ao leste para espionar a Stasi e a KGB...

Respirando fundo, o ministro manda os guardas continuarem. Ameaçado, o rapaz argumenta:

- É para isso que o socialismo serve? Para oprimir os seus cidadãos? O lema da Stasi não é “a espada e o escudo do povo”?

- Não. – corrige Mielke – O correto é “a espada e o escudo do Partido”.

- Entendi. – responde Gunther – As SS do partido, na verdade. Me acusam de nazista, mas os verdadeiros nazistas são vocês, seus nazistas vermelhos!

Após a ousada resposta, Mielke e os guardas se enfurecem.

Erguendo seus porretes, os guardas avançam contra o rapaz, fazendo-o se encolher contra a parede. Então o ministro olha para seu relógio e diz:

- Esperem! – os três se imobilizam – Eu tenho que ir agora. Resolveremos isso depois.

Mielke se levanta e ordena que os guardas o levem de volta à cela. O rapaz se alegra, pois estava a salvo de levar uma terrível surra. Porém, o ministro pega os arquivos e vai embora, certo de ter realizado uma prisão bem sucedida. 

Em seguida Gunther é levado de volta.

 

§

 

Dormindo em uma desconfortável cama, o rapaz teme ser encarcerado por anos. Se a Stasi condena-lo, ele nunca mais verá sua mãe ou Anneliese. Arrependido, ele pensa que teria sido melhor tentar a sorte e atravessar o Muro de Berlim. Dessa forma, ele jamais teria conhecido Anneliese e entrado nessa situação em primeiro lugar.

O dia amanhece. Alguém lhe traz o café da manhã e ele se esforça para comer. Atormentado pela expectativa de um futuro incerto, ele mal conseguia engolir.

Uma hora depois a porta se abre. Gunther reconhece seu visitante. Mielke havia retornado.

- Bom dia, senhor Gunther. O senhor tem amigos poderosos, sabia? Estou impressionado.

Confuso, o rapaz pergunta:

- O que quer dizer?

- Você está livre.

- Livre?!

- Foi o que eu disse. O senhor está livre para partir.

Gunther não entende.

- Por quê?

- A KGB quer saber mais sobre sua habilidade. Para isso, eles precisam de você livre para atravessar a fenda dimensional, que acreditamos ser aberta apenas com a misteriosa voz do telefone.

- Então por que vocês não rastreiam essa voz? Descubram de onde vem essas ligações, capturem essa pessoa e ela lhes dará tudo o que precisam.

- Não é tão simples. – responde ele – A voz pode abrir uma fenda dimensional no espaço-tempo, mas só você pode contata-la. Se os russos estiverem certos, usaremos você para voltar no tempo e alterar eventos históricos importantes.

- Alterar? – pergunta ele – Você quer dizer sabotar. Os russos querem me transformar em um espião soviético através do tempo.   

Mielke sorri.

- Talvez sim. O que podemos fazer? – responde ele, levantando as mãos como se não pudesse fazer nada a respeito – Venha, eu te levo para casa.

Ao sair de sua cela, o rapaz é conduzido pela prisão. Ao olhar para o pátio, ele vê um homem loiro, de fisionomia russa e olhos azuis. Ele vestia um uniforme semelhante aos da Volkspolizei, de cor esverdeada e cinzenta, e em seu quepe havia a inconfundível estrela vermelha. O rapaz sabe do que se tratava, o homem era um agente da KGB.

O ministro olha para o agente e diz:

- Muito obrigado pela orientação, Vladimir.

- Foi um prazer, herr Mielke.

- Como está Dresden?

- Estamos trabalhando em um sistema de comunicação sem fio para implanta-lo no sudeste asiático. Ao que tudo indica, será um sucesso.

- Sim – responde ele – os engenheiros alemães são muito competentes. Esperamos trabalhar mais vezes com a KGB no futuro.

O agente educadamente sorri.

- É claro.

- Até logo, Vladimir. Nos falamos depois em Haus 1.

Aproximando-se, o rapaz lê seu nome no uniforme. Estava em russo, mas ele conseguia entender. “Putin”, lê ele. “Vladimir Putin”.

Mas antes que pudesse pensar mais a respeito, Mielke e os guardas o levam dali.

O carro passa pelas avenidas berlinenses. Nem Mielke ou os guardas falam com ele. Gunther se sente tolerado, mas não aceito por aquela agência de espiões. Ao chegar em sua rua, eles param longe de seu prédio.

- Vamos ficar aqui. Não queremos chamar atenção desnecessária.

Eles descem do veículo. O motorista vai embora, deixando o ministro a pé para a surpresa de Gunther.

O ministro diz.

- Você está livre. Vá. Não desperdice a chance que pouquíssimos tiveram antes de você.

Sem pensar duas vezes, Gunther atravessa a rua. Porém, ele se vira e pergunta:

- Vocês vão mesmo me deixar ir?

- É claro! – responde ele – Mas lembre-se: não abuse.

O ministro refere-se à paciência da Stasi.

- Mas e se eu tentar fugir após me libertarem?

Do outro lado da rua, Mielke diz:

- Não se preocupe, nós estaremos vigiando. De qualquer forma, se você não vier até nós... – ameaça ele – Nós viremos até você.

Então um caminhão passa e, ao desobstruir a vista, Mielke havia desaparecido.

  

 

 

 



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