O telefone toca.
Acordando assustado, ele olha para a janela e nota que ainda é noite em Berlim. Ao atende-lo, ele diz:
- Alô...?
- Gunther, eu
estive pensando...
Ele reconhece a
voz. Aquela misteriosa mulher falava com ele.
- O que você
quer?
- Eu até consigo
compreender você ser um Super Homem de Nietzsche, mas como pode se chamar de
marxista se você é contra o sistema marxista que governa seu país?
Enxugando os
olhos, ele respira fundo e responde:
- Você não
entendeu. Eu concordo com Marx em combater os falsos valores morais que
estruturam o sistema burguês e explorador, mas sou contra o socialismo que também traz exploração.
Eu defendo o ímpeto revolucionário contra o próprio socialismo, ou seja, o
contrário da Revolução.
- Então você é um reacionário, à favor da contrarrevolução?
Desconcertado com
aquela estranha rotulação, o rapaz responde:
- Sim, eu acho.
- É o que eu
queria saber.
Lembrando-se de
algo, o rapaz pergunta:
- Por acaso o seu
nome é Sashenka?
- O quê?
Gunther ia
perguntar de novo quando ouve um ruído na sala.
- Com licença. – virando-se,
ele pergunta – Quem está aí?
Levantando-se, o
rapaz averigua a sala e a encontra escura e vazia. Entretanto, ele sente um
estranho cheiro de cigarro no ar.
Voltando ao
telefone, ele pega o receptor e diz:
- Desculpe-me,
pensei ter ouvido um ruído na sala.
Mas no outro lado
da linha não havia ninguém e ele só ouve estática. Desapontado, ele decide
desligar.
§
Na manhã
seguinte, Gunther vai comprar pão e, ao voltar para casa, encontra os móveis
fora de lugar. Confuso, ele averigua os cômodos, mas não encontra ninguém.
- Quem está aí? –
pergunta ele, mas não há resposta.
Naquela noite, o
rapaz dorme tranquilamente em seu quarto. De repente alguém bate veementemente em sua porta, acordando-o em um pulo. Alguém batia na porta e parecia estar
desesperado para falar com ele. Ao olhar o relógio, ele vê que horas são. “Duas
e meia da manhã”, sussurra ele.
Desconfiado, o
rapaz caminha até a porta e, ao abri-la, não havia ninguém. Confuso, ele coça
sua cabeça e volta a dormir.
Mais um dia se
passa. No mercado, ele compra leite, café e algumas salsichas. Há vários
clientes ao seu lado, mas ele tem uma sensação incômoda de estar sendo
observado. Pagando por suas compras, ele deixa aquele lugar.
Em sua casa, ele
deixa suas compras na mesa e vai tomar banho. Ao terminar, ele se veste e
prepara o café da manhã. Fervendo a água na leiteira, ele pega o escoador e
procura o pó de café. Então ele tem uma terrível surpresa. Em suas compras
havia um chá.
- Mas que
diabo...! – intriga-se ele – Eu não havia comprado café?
Gunther não
entende. Ele tem certeza que comprou café. Ele jamais se enganaria, pois nunca
gostou de chá.
“Não é possível!”,
pensa ele. “Nem que eu tivesse confundido as embalagens, elas são de cores
diferentes!”.
Outro dia se
passa. Passando da meia-noite, o rapaz desliga a televisão e se prepara para
dormir. Ao se deitar, ele se cobre e o telefone toca. Adivinhando quem era, ele
tediosamente responde:
- O que você
quer?
Mas ninguém
responde, aquela voz não estava no outro lado da linha. Porém, ele não ouvia o
som de estática. Então algo sinistro acontece. Gunther ouve uma respiração
forte, aumentado gradualmente de volume a cada segundo. Intrigado, ele pergunta:
- Alô...?
Algo cai atrás
dele. Virando-se rápido como um relâmpago, ele caminha até a cozinha para ver o
que era. Espionando assustado atrás da parede, ele vê que uma panela havia
caído.
Após uma noite
muito mal dormida, Gunther se levanta e retorna à cozinha. Como esperado, não
havia ninguém ali. Colocando a panela de volta no armário, ele troca de roupas
e sai para comprar café.
Enquanto caminha
pelas ruas, a estranha sensação de estar sendo observado o persegue. Alguns
transeuntes abaixam seus jornais para observa-lo, mas ao serem notados, eles
novamente os levantam. Crianças brincam nos parquinhos e, ao verem-no, param
suas brincadeiras para olha-lo. Gunther não entende. “Será isso uma falha
dimensional? Será que eu fui novamente arrebatado para outro tempo?”. Mas tudo
parecia em ordem, para sua frustração.
Ao pegar o café,
o rapaz vê a embalagem uma dúzia de vezes, certificando-se que estava comprando
o item correto.
- Kaffeepulver...[1]
– sussurra ele ao ler várias vezes.
Satisfeito, ele
volta para casa.
Abrindo a porta
de seu apartamento, ele olha para a mesa e vê um cigarro. Intrigado, ele o pega
e se pergunta:
- Mas de quem
será que é isso?
Dirigindo-se até
a cozinha, ele deixa o café sobre a pia quando tem outra surpresa. A panela
estava novamente no chão.
- Mas o quê?!
Pegando-a, ele se
confunde. “Eu não a havia colocado de volta ao armário?”.
Distraído, ele
passa a mão em seus cabelos quando percebe alguém observando-o de longe. Pela
estreita janela ele vê um homem de boina, bigode e óculos escuros parado na
escadaria de outro prédio. Assustado, ele se abaixa e se esconde atrás da pia.
Levantando-se lentamente, ele tenta espia-lo, mas o misterioso homem havia
desaparecido.
À noite, o rapaz
não consegue dormir. Ele está inquieto e observa a luz do holofote passar
intermitentemente pela persiana. O relógio marca três horas da manhã. De
repente alguém bate em sua porta. Olhando para a sala, Gunther teme ver quem é.
O desconhecido bate de novo, agora com mais força. O rapaz se esconde debaixo
de seu cobertor.
As batidas
continuam. Parecia que alguém estapeava a porta, pois soava como golpes com as
palmas das mãos. Ainda escondido, Gunther sussurra:
- Vá embora...!
Então, alguns
minutos depois, as batidas cessam.
Na noite seguinte,
o rapaz tranca a porta de seu quarto. Ele sente muito medo, ele tem a impressão
de ouvir passos em seu apartamento, mesmo durante o dia. Deitando-se, ele tenta
dormir, mas o sono dura pouco.
Gunther acorda
com o cheiro de cigarro em seu quarto. Abaixando seu cobertor, ele olha ao
redor e não vê ninguém. A luz do holofote passa normalmente e, na segunda passagem,
ele vê a sombra de um homem em pé ao lado da janela. O rapaz grita.
Instintivamente ele se levanta e acende a luz, mas inacreditavelmente não havia
ninguém lá.
- Mas... E quanto
ao cheiro...? – intriga-se ele.
Na manhã
seguinte, o rapaz ouve algo ser arrastado debaixo de sua porta. Ao chegar na
sala, ele novamente vê aquele maldito cigarro ali. Não importa quantas vezes
ele o jogue fora, ele sempre estará lá. Então, olhando para a porta de entrada,
ele vê um envelope no chão. Abrindo-o, ele encontra fotos em seu interior.
- Mas o que é isso?
Averiguando as fotos, Gunther arregala os olhos em espanto. As fotos exibem ele se masturbando em sua cama, em sua poltrona e no banheiro. Outra foto exibe uma revista pornográfica estrangeira, contrabandeada ilegalmente em seu país.
Com a mão na
boca, Gunther não sabe o que dizer. As fotos eram totalmente constrangedoras,
além de incriminatórias. No envelope ainda havia outro item. Em um pedaço de
papel, ele lê: “Anneliese”. Apavorado, ele agora teme que aquele material caia
nas mãos da garota.
Abrindo a porta,
ele procura por aquele que deixou aquele envelope ali. Percorrendo o hall e a
escadaria, ele infelizmente não encontra ninguém.
§
Gunther está
paranoico. A cada vez que ele sai de casa, ao voltar ele encontra os moveis
fora do lugar. Cigarros aparecem sobre a mesa e sua comida desaparece da
despensa. Telefonemas e batidas na porta no meio da noite perturbam seu sono.
Com a forte insônia, ele não consegue mais dormir. Estranhos o observam nas
ruas, mas nunca lhe dizem uma palavra. Enquanto caminha pela calçada, ele vê
suas fotos íntimas coladas nas paredes e nos postes. Arrancando-as, ele se
intriga ao perceber que eram apenas anúncios comuns.
Novamente em
casa, ele sente o cheiro de cigarro em toda parte. Alguém frequenta seu
apartamento, mas ele nunca o encontra pessoalmente.
Havia outro
envelope sobre a mesa. Abrindo-o, ele encontra novas fotos. Gunther vê a si
mesmo batendo na porta de seu próprio apartamento, comprando chá no mercado e
tirando os móveis de lugar. Em todas elas o rapaz parece estar fumando.
- Meu Deus... –
diz ele – Eu estou ficando louco...!
Sentindo o
esgotamento físico e psicológico, ele está prestes a desmaiar. Combalido, ele
dirige-se à janela e olha para o Muro de Berlim. De seu apartamento, era uma
altura considerável até o solo, “o suficiente para me matar”, pensa ele.
Escorando-se, ele põe metade de seu corpo para fora. O vento gelado sopra por
seu pescoço, arrepiando-o. Prestes a se lançar abaixo, alguém o puxa pelas
roupas e põe um saco preto em sua cabeça. Um segundo depois, sua cabeça é golpeada
e ele imediatamente desmaia.
O rapaz acorda em
uma estreita cela. Ele olha ao redor e vê apenas uma grossa porta de aço e uma janela
com barras na parede. Assustado, ele se levanta e corre até a porta.
- Socorro! Eu estou
preso aqui!
De repente, ele
ouve vozes no lado de fora. Alguém destranca a cela e ele vê um homem calvo, de
aparentemente cinquenta anos e cabelos penteados para trás. Ele o cumprimenta
dizendo:
- Bom dia,
Gunther. Benvindo a Berlin-Hohenschönhausen.
O rapaz se
intriga. “Esta não é a prisão usada pelos soviéticos após a Segunda Guerra
Mundial?”, pensa ele.
- Quem é você?
- Sou Erich Mielke,
ministro de segurança do Estado da República Democrática Alemã.
Gunther conhece o
nome. O Ministério de Segurança do Estado, ou Serviço de Segurança de Estado,
tratava-se da temida Stasi, uma das mais repressivas agências de polícia secreta
e política que já existiu. Operando sempre de forma velada, a agência promovia a
espionagem em seu solo, na Europa e inclusive na América, embora
concentrando-se na vigilância de seus próprios cidadãos.
O Ministério de
Segurança do Estado foi criado em 8 de fevereiro de 1950, mas intensificou sua ação
após a revolta de 1953. Temendo que outra revolta ocorresse, o ministério passou
a vigiar mais intensamente seus cidadãos, dos quais eles chamavam os suspeitos de “subversivos”.
Os subversivos eram aqueles que ameaçavam a estabilidade da recém criada GDR, pondo em risco sua existência como aconteceu em 1953.
Diferente da polícia secreta russa, da qual utilizava
métodos violentos para extrair informações de suas vítimas, a Stasi
procurava destrui-los psicologicamente, utilizando-se de sabotagem,
ameaça, desordem mental e constrangimentos. Esse método tornou-se conhecido
como “biodegradação”, onde a vítima perdia a noção da realidade, acreditando
sofrer de paranoia e delírio.
Para tamanha eficiência,
a Stasi recrutou uma vasta rede de espiões por toda a Alemanha. Até 1980, cerca
de 3% da população da GDR era de espiões. Estima-se que, entre 1950 e 1980,
cerca de 260.000 informantes foram recrutados pela Stasi, agindo tanto na
Alemanha Oriental quanto na Ocidental. Também é estimado que a Stasi prendeu
cerca de 200.000 até o mesmo período. Como consequência, ela criou uma cultura de
medo. Temendo serem presos, conversar sobre política ou criticar o regime era
algo perigosíssimo aos cidadãos, pois não se podia saber quem era ou não era um
informante.
Em comparação, a
polícia secreta nazista – Gestapo – tinha um informante a cada 2.000 pessoas. Supreendentemente,
a Stasi tinha um a cada sete pessoas. Essa proporção fez com que Simon Wiesenthal,
um conhecido caçador de nazistas, acusasse a Stasi de ser mais repressiva que a
Gestapo.
A Stasi contava
com seu próprio sistema penitenciário, atuando fora do sistema penal oficial. A
agência dirigia prisões e campos de trabalho forçado, adaptados do
modelo soviético.
Erich Mielke, do
qual conversava agora com Gunther, foi um influente comunista alemão, do qual promoveu
a coletivização forçada da agricultura, supervisionou a construção do Muro de
Berlim e emitiu ordens para matar quem tentasse atravessa-lo. Rotulado de “o
Mestre do Medo”, Mielke tornou-se um dos homens mais odiados e temidos da
Europa.
Gunther se desespera.
Ele sabe que quem era preso pela Stasi simplesmente “sumia”. Amigos,
familiares e colegas de trabalho não podiam contata-lo, pois tampouco sabiam se
estava vivo. Mielke, ao lado de dois guardas vestidos de fardas cinzas,
encaravam-no sem emoção, aparentando deliciarem-se com seu desespero.
Os guardas
seguram Gunther pelos braços e o conduzem pelos corredores. O rapaz consegue ouvir
os presos nas outras celas gritando, chorando e alegando inocência. De repente
ele sente vontade de chorar.
Chegando a uma
sala separada, os guardas o sentam em uma cadeira e Mielke se senta à sua
frente. Ele carrega uma densa pasta consigo. Apavorado, o rapaz ousadamente
pergunta:
- O que a Stasi quer
comigo?
O ministro responde:
- Eu nem sei por
onde começar, senhor Gunther.
- Eu sou inocente!
– exclama ele.
- Não é o que denunciaram
ao seu respeito.
- Denunciaram...?
- Sim, de um
certo turista brasileiro.
Nesse momento, o
rapaz se lembra. Encontrando-o em Marx-Engels Platz, Luiz Carlos era o riquinho comunista que Gunther humilhou por ele ser um burguês e alienado.
- Maldito turista...
Abrindo sua
pasta, o ministro diz:
- Tenho algumas
perguntas para fazê-lo, senhor Gunther. O senhor realmente chamou a atenção de nossa
agência.
- Como isso é possível?
Eu sou só um desempregado sustentado por minha mãe.
O rapaz simplificava
sua situação, pois intentava atravessar o muro de Berlim.
- Ah, não, senhor
Gunther... – empolga-se ele – O senhor é muito mais do que isso.
- O que poderia
ser tão interessante para o ministro de Segurança do Estado em pessoa vir me
interrogar?
- Ora, nenhum segredo
é pequeno demais, de uma pessoa irrelevante demais, para não o sabermos.
- Eu já disse que
sou inocente!
Mielke ri.
- Nesse país, só há
dois tipos de inocentes: os recém nascidos e os alcóolatras. Como o seu amigo
naquele bar em Prenzlauer Berg. Como ele se chama, mesmo? Wolfgang?
Gunther arregala
os olhos. “Como eles sabem isso? Há quanto tempo eles estão me espionando?”.
- Wolfang não é
meu amigo! Ele simplesmente estava ali quando eu cheguei!
Ajeitando seus papeis,
Mielke responde:
- Não precisa se
preocupar com isso. Wolfgang está aqui também e logo vocês terão muito tempo para se
conhecerem melhor.
A Stasi prendeu aquele
homem. Temendo ser o próximo, Gunther apela mais uma vez.
- Pelo amor de
Deus, eu não fiz nada!
- Deus? –
intriga-se ele – Pensei que não acreditasse em Deus. Aliás, o senhor se considera
um agnóstico, não é mesmo?
O rapaz se estarrece.
Ele nunca falou de seu agnosticismo a ninguém.
- Como sabe disso?
- Para quem não acredita
em Deus, você andou conversando com muitos cristãos por aí. E os muito influentes,
na verdade. Como o Padre Joseph Ratzinger ou... – nesse momento ele o encara
fixamente – Martinho Lutero.
Estarrecido novamente,
o rapaz exclama:
- Isso não é possível...!
Como vocês sabem disso?
- Simples. –
responde Mielke, encostando-se em sua cadeira – Colocamos escutas em seu apartamento.
Temos o registro de todos os que estiveram lá. E devo ressaltar que o senhor
conversa com muitos subversivos também.
O rapaz protesta.
- Martinho Lutero
está morto! Como poderia eu conversar com alguém que já morreu?!
- Não morreu para
o senhor, já que o conheceu pessoalmente.
- Eu não sei quem
é mais louco, eu ou a Stasi por acreditar que eu falei com os mortos.
Ignorando-o,
Mielke continua:
- Assim como Otto
von Bismarck. Há quanto tempo o senhor defende os monarquistas? O senhor não sabe
que o socialismo é contra a nobreza e a monarquia?
- Não sei do que
está falando.
- E os nazistas? Até
hoje nunca existiu uma ideologia tão contrária aos anseios da classe operária
quanto o nazismo alemão.
- Nazismo alemão...?
- Me diga uma
coisa: o senhor é nazista?
Irritado, ele
responde:
- É claro que não!
- Então por que
mantém contato com eles?
Gunther se
assusta.
- Eu não mantenho
contato com nazista nenhum!
- O senhor fez
amizade com o principal de todos, o líder deles, Adolf Hitler. Inclusive passaram
a tarde toda conversando sobre cachorros.
De fato, o rapaz
conheceu o Führer pessoalmente.
- Eu não sou
amigo deles!
Mielke insiste:
- Em meus
arquivos constam que o senhor foi membro da milícia paramilitar Sturmabteilung
em Munique, mais conhecida como as SA.
- Isso foi nos
anos 30! – então o rapaz se intriga – Espere um pouco. Como vocês sabem das
minhas incursões históricas anteriores à criação da própria Stasi?!
Sorrindo, o
ministro responde:
- Eu disse que o
senhor era especial, não disse?
- Por favor, vocês
têm que acreditar em mim! – insiste ele – Eu sou inocente! Minha vida mudou desde
que minha mãe se foi e eu não sei mais o que está acontecendo!
- O que acontece é
que o senhor anda se envolvendo com os inimigos do socialismo.
Monarquistas como Bismarck, nazistas como Hitler, religiosos como Lutero e
imperialistas como os nobres do Sacro Império Romano-Germânico. Sem contar –
continua ele – seu envolvimento com os piores inimigos da Revolução, os social-democratas.
- O quê?!
- Por acaso o
senhor não sabe que Ebert e Scheidemann se opuseram à revolução comunista
quando Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht tiveram a chance?
- Eu não tive
nada a ver com isso!
- Ah, teve... –
discorda ele – Pois foi o senhor quem sabotou a Liga Espartaquista e, mais
tarde, a Ação Antifascista, resultando na prisão de Ernst Thälmann.
- Isso é impossível!
Eu nem estava vivo nesse tempo! O que aconteceu foi que eu voltei ao passado!
Então Mielke tira
algumas fotos de sua pasta e as entrega a Gunther. O rapaz vê a si mesmo ao
lado das SA e dos Freikorps.
- Isso não é
verdade! – protesta ele – Eu morri! Eu fui assassinado pelos Freikorps e depois pela SS!
O ministro ri.
- Há um minuto o
senhor disse que a Stasi era louca por acreditar que o senhor falava com os
mortos. Agora quer nos convencer que, na verdade, o senhor é quem morreu?
Gunther não consegue
entender. Aparentemente a Stasi tinha acesso à quarta dimensão.
- Isso é impossível...!
Eu achei que eu era o único...!
- O único ao que,
senhor Gunther?
- Sobreposição dimensional,
travessia do espaço, viagem no tempo...
- Do que está
falando? – interessa-se Mielke.
- A quarta dimensão.
Assentindo, o ministro
responde:
- Não se esqueça
de Anneliese. O senhor se encontrou com ela na reunião antifascista e no
levante espartaquista, não é mesmo?
Preocupado, o
rapaz rispidamente responde:
- Deixem-na em paz!
Ela não tem nada a ver com isso!
- Tem sim, pois
como ela mesmo disse, não importa aonde ela vá, seja no espaço ou no tempo, ela
nunca conseguirá fugir de você. – retruca ele – Imagine como ela, uma comunista
convicta, ficaria feliz em conhecer Karl Marx pessoalmente como o senhor o conheceu naquela
tarde em Londres.
- Deixem-na em
paz, eu imploro...!
O rapaz começa a
chorar. Mielke espera um minuto antes de prosseguir.
- Nós deixaremos
se o senhor cooperar com a gente. O senhor entrou em nossos registros quando
foi capturado na revolta de 1953. Pensávamos estar lidando com apenas um
subversivo, mas descobrimos que eram múltiplos Gunthers. Diga-me:
como consegue fazer isso?
- Fazer o quê?
- Multiplicar-se.
– responde ele – Estamos lidando com algo extraordinário aqui, um autêntico caso
de Doppelgängers.
Desanimado, o
rapaz argumenta:
- Eu não consigo
fazer nada! Eu sou vítima de uma força dimensional superiora, passivo de suas alterações
aleatórias no espaço-tempo.
O ministro não acredita
em nada do que ele diz.
- Certo, vamos
tentar de outra maneira. Estivemos investigando seu lixo. Desde quando consome
material estrangeiro proibido?
- Eu não sei do
que está falando...
- Nós grampeamos
o seu telefone. Um aparelho muito bizarro, eu devo dizer. De onde ele apareceu?
Como conseguiu uma linha telefônica própria?
- Eu não sei! –
grita ele – Ele simplesmente... surgiu ali. Eu não sei dizer.
- E, ao telefone,
com quem você conversa regularmente?
- Também não sei! Eu pensei que ela fosse uma agente de vocês!
- Ela? –
interessa-se ele – Então é uma mulher?
- Sim! É uma voz
de mulher que eu escuto. Pensei que era uma espiã da Stasi, ou da KGB, pois às
vezes falava com sotaque russo...
Novamente Mielke
duvida de suas palavras.
Abrindo a pasta
de arquivos, o ministro pega uma fita cassete e a coloca em um reprodutor de
áudio.
- Ouça.
Um segundo
depois, Gunther ouve sua própria voz conversando normalmente ao telefone. Mas,
para o seu assombro, ninguém responde no outro lado da linha. Eles ouviam
apenas estática.
- Eu não entendo...
– espanta-se ele – Eu converso com uma mulher todas as vezes...
- Quem?
- Eu já disse que
não sei! A última vez que eu ouvi, ela se chamava Sashenka...
- E essa “Sashenka”
é uma contrarrevolucionária como você?
- Não! Quero dizer,
eu não sou um contrarrevolucionário!
Tocando novamente
a fita, o rapaz ouve a si mesmo admitir que defendia o ímpeto revolucionário contra
o próprio socialismo, ou seja, contra a revolução.
- E como o senhor
explica isso? – pergunta o ministro.
Gunther não sabe o
que responder.
- Eu posso
explicar! Eu juro!
Perdendo a paciência,
o ministro meneia negativamente a cabeça. Em seguida ele diz:
- Assim como os
russos, eu criei essa agência para vigiar a população, protegendo-a de si mesmo.
Mas eu diferi deles em seus métodos, pois acreditava que a violência apenas motivava
os dissidentes mais e mais. Entretanto, às vezes eu sou
obrigado a concordar com os soviéticos. Quando a paciência acaba, só a violência resta. – levantando-se, Mielke ordena
– Guardas! Podem começar!
Os guardas sacam
seus porretes e olham para Gunther. Apavorado, ele suplica:
- Esperem! Eu direi
tudo o que querem ouvir, mas não me machuquem!
- Tarde demais. Não
tenho mais tempo para suas mentiras. Guardas!
- Esperem! Eu sou
um espião! – mente Gunther – É isso o que querem saber?!
O ministro se intriga.
- Espião?
- Sim! Eu sou um
agente da Alemanha Ocidental enviado ao leste para espionar a Stasi e a KGB...
Respirando fundo,
o ministro manda os guardas continuarem. Ameaçado, o rapaz argumenta:
- É para isso que
o socialismo serve? Para oprimir os seus cidadãos? O lema da Stasi não é “a espada
e o escudo do povo”?
- Não. – corrige Mielke
– O correto é “a espada e o escudo do Partido”.
- Entendi. –
responde Gunther – As SS do partido, na verdade. Me acusam de nazista, mas os
verdadeiros nazistas são vocês, seus nazistas vermelhos!
Após a ousada
resposta, Mielke e os guardas se enfurecem.
Erguendo seus porretes,
os guardas avançam contra o rapaz, fazendo-o se encolher contra a parede. Então
o ministro olha para seu relógio e diz:
- Esperem! – os três
se imobilizam – Eu tenho que ir agora. Resolveremos isso depois.
Mielke se levanta e ordena que os guardas o levem de volta à cela. O rapaz se alegra, pois estava a salvo de levar uma terrível surra. Porém, o ministro pega os arquivos e vai embora, certo de ter realizado uma prisão bem sucedida.
Em seguida Gunther é levado de volta.
§
Dormindo em uma desconfortável
cama, o rapaz teme ser encarcerado por anos. Se a Stasi condena-lo, ele nunca
mais verá sua mãe ou Anneliese. Arrependido, ele pensa que teria sido melhor tentar
a sorte e atravessar o Muro de Berlim. Dessa forma, ele jamais teria conhecido
Anneliese e entrado nessa situação em primeiro lugar.
O dia amanhece. Alguém
lhe traz o café da manhã e ele se esforça para comer. Atormentado pela expectativa
de um futuro incerto, ele mal conseguia engolir.
Uma hora depois a
porta se abre. Gunther reconhece seu visitante. Mielke havia retornado.
- Bom dia, senhor
Gunther. O senhor tem amigos poderosos, sabia? Estou impressionado.
Confuso, o rapaz pergunta:
- O que quer
dizer?
- Você está
livre.
- Livre?!
- Foi o que eu
disse. O senhor está livre para partir.
Gunther não entende.
- Por quê?
- A KGB quer
saber mais sobre sua habilidade. Para isso, eles precisam de você livre para
atravessar a fenda dimensional, que acreditamos ser aberta apenas com a
misteriosa voz do telefone.
- Então por que vocês não
rastreiam essa voz? Descubram de onde vem essas ligações, capturem essa pessoa
e ela lhes dará tudo o que precisam.
- Não é tão simples.
– responde ele – A voz pode abrir uma fenda dimensional no espaço-tempo, mas só você
pode contata-la. Se os russos estiverem certos, usaremos você para voltar no tempo e alterar eventos históricos importantes.
- Alterar? –
pergunta ele – Você quer dizer sabotar. Os russos querem me transformar em um espião
soviético através do tempo.
Mielke sorri.
- Talvez sim. O
que podemos fazer? – responde ele, levantando as mãos como se não pudesse fazer
nada a respeito – Venha, eu te levo para casa.
Ao sair de sua
cela, o rapaz é conduzido pela prisão. Ao olhar para o pátio, ele vê um homem
loiro, de fisionomia russa e olhos azuis. Ele vestia um uniforme semelhante aos
da Volkspolizei, de cor esverdeada e cinzenta, e em seu quepe havia a inconfundível
estrela vermelha. O rapaz sabe do que se tratava, o homem era um agente da KGB.
O ministro olha
para o agente e diz:
- Muito obrigado
pela orientação, Vladimir.
- Foi um prazer,
herr Mielke.
- Como está Dresden?
- Estamos
trabalhando em um sistema de comunicação sem fio para implanta-lo no sudeste asiático.
Ao que tudo indica, será um sucesso.
- Sim – responde ele
– os engenheiros alemães são muito competentes. Esperamos trabalhar mais vezes
com a KGB no futuro.
O agente
educadamente sorri.
- É claro.
- Até logo, Vladimir.
Nos falamos depois em Haus 1.
Aproximando-se, o
rapaz lê seu nome no uniforme. Estava em russo, mas ele conseguia entender. “Putin”,
lê ele. “Vladimir Putin”.
Mas antes que
pudesse pensar mais a respeito, Mielke e os guardas o levam dali.
O carro passa pelas
avenidas berlinenses. Nem Mielke ou os guardas falam com ele. Gunther se sente
tolerado, mas não aceito por aquela agência de espiões. Ao chegar em sua
rua, eles param longe de seu prédio.
- Vamos ficar
aqui. Não queremos chamar atenção desnecessária.
Eles descem do
veículo. O motorista vai embora, deixando o ministro a pé para a surpresa de
Gunther.
O ministro diz.
- Você está
livre. Vá. Não desperdice a chance que pouquíssimos tiveram antes de você.
Sem pensar duas
vezes, Gunther atravessa a rua. Porém, ele se vira e pergunta:
- Vocês vão mesmo me deixar ir?
- É claro! –
responde ele – Mas lembre-se: não abuse.
O ministro
refere-se à paciência da Stasi.
- Mas e se eu
tentar fugir após me libertarem?
Do outro lado da
rua, Mielke diz:
- Não se preocupe,
nós estaremos vigiando. De qualquer forma, se
você não vier até nós... – ameaça ele – Nós viremos até você.
Então um caminhão
passa e, ao desobstruir a vista, Mielke havia desaparecido.

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