segunda-feira, 15 de maio de 2023

Liubliana - Parte Final - Epílogo

 


(Pintura de Achille Beltrame)


A Europa está à beira de um conflito.

Em 1913, o Reino da Sérvia vence a guerra contra o Império Otomano, fazendo crescer o sentimento de independência nos estados eslávicos do sul. Movimentos separatistas contrários aos austro-húngaros surgem na Bósnia, estes geralmente violentos e revolucionários.

Enquanto caminha pelo mundo, atraído pela maldade e crueldade humana, Exúvia conhece esses movimentos. O primeiro é o Mlada Bosna[1], um grupo multiétnico que buscava se libertar dos austríacos. Após a vitória sérvia, o general austríaco Potiorek, que até então governava a província, teme uma insurreição nacionalista. Por prevenção ele declara estado de emergência na Bósnia, fechando o Parlamento, perseguindo os habitantes de maioria sérvia e fechando agremiações políticas. O segundo que Exúvia conheceu foi o Mão Negra, um grupo sérvio, ultranacionalista e anarquista, responsável pela morte do Rei Alexandre Obrenović em 1903.

Em Belgrado ele conheceu Gavrilo Princip, um anarquista radical de apenas 19 anos. Apresentando-se como Bogdan, ele fez amizade com o jovem. O deus se fascina com o radicalismo político de Princip, um rapaz pequeno, fraco e, por esta razão, ávido para provar o seu valor.

Na eclosão da Primeira Guerra dos Bálcãs em 1912, Princip lhe diz que foi dispensado do exército; o motivo foi a sua fraca constituição física. Princip se sentiu humilhado e, desde então, aguardava o momento para realizar algo excepcionalmente grande.

E esse momento havia chegado.

Ainda em Belgrado, Princip e seus companheiros ficam sabendo que o Arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do trono austro-húngaro, viria para visitar Sarajevo. Princip se empolga; ele finalmente colocaria em prática seu radicalismo político. Então, chamando mais dois companheiros, ele planeja assassinar o arquiduque.

Pretendendo ficar perto do ativista, Bogdan se junta ao Mão Negra. O grupo os fornece armas, munições e frascos de veneno, caso tivessem de cometer suicídio. Eles também conversam sobre matar o General Potiorek, responsável pela opressiva Lei Marcial. Após um curto treinamento em um parque, eles partem para a Bósnia.

Ao cruzarem a fronteira, o grupo se divide. Princip fica com Bogdan, e isto seria a sua ruína.

No meio da floresta, Bogdan se revela, assumindo sua monstruosa aparência mística. Princip grita e tenta fugir, mas o deus o segura pelas pernas e o arrasta de volta. Gritando e chorando, Princip arranhava o solo lodoso tentando escapar. Em desespero, a última vista do rapaz foi o monstro abrindo sua boca e arrancando a tampa de seu crânio.

Exúvia devora Princip, assumindo a sua aparência. A alma do anarquista, porém, fica presa nos domínios místicos do deus, chamado por Valentim de “o jardim das abominações”.

Em Sarajevo, Exúvia, agora disfarçado de Bogdan, se reúne com mais cinco conspiradores. Ferdinand e sua esposa aparecem em um veículo com a capota aberta. Após algumas tentativas, um a um eles fracassam, acovardando-se ou errando o alvo. Uma granada, porém, se explode próximo ao carro do arquiduque, ferindo dois policias.

Ferdinand faz seu discurso na prefeitura e decide visitar os feridos do atentado no hospital. Potiarek sugere um caminho seguro, mas se esquece de avisar o motorista. Quando o motorista é informado, ele para o carro e inicia a manobra, mas o motor morre em seguida. Isto seria fatídico para Ferdinand. Para a sorte de Exúvia, ele estava só a um metro e meio de distância.        

O rapaz se aproxima, saca sua arma e atira. Um tiro atinge o pescoço do arquiduque e o outro o abdômen de sua esposa. Antes que pudesse dar o terceiro tiro, ele é contido pela multidão. Ferdinand e sua esposa, entretanto, morrem pouco tempo depois.

Princip se deixa capturar e é levado preso. Os policiais se intrigam; ele parecia estar se divertindo.

Nos dias seguintes, uma nova crise se levanta na Europa. Supostas provas da participação sérvia no atentado surgem, e os austro-húngaros dão um ultimato ao Reino da Sérvia. A Rússia, aliada dos sérvios, promete proteger a honra da Sérvia em caso de guerra. Os prussianos, por sua vez, prometem proteger a honra dos austro-húngaros. As potências propõem soluções diplomáticas para a crise, mas todas as tentativas fracassam.      

A Sérvia aceita alguns termos do ultimato, mas não todos. Para eles, o ultimato fere a dignidade da nação. Desta maneira, às 11 da manhã do dia 28 de julho de 1914, o Império Austro-Húngaro declara guerra ao Reino da Sérvia. Como consequência, a Rússia declara guerra aos austro-húngaros. Os prussianos, por sua vez, declaram guerra aos russos. A França, aliada dos russos, declara guerra aos prussianos; os franceses ainda ressentiam sua derrota na Guerra Franco-Prussiana. A Alemanha, para invadir a França, invade a Bélgica, violando a neutralidade de seu território. Por esta violação, a Inglaterra declara guerra aos prussianos.

Mais tarde, várias outros países entrariam na guerra, seja por motivos econômicos ou geopolíticos.

Vendo o efeito dominó diante de seus olhos, Exúvia gargalha na prisão. Seu desejo foi realizado; ele veria o mundo queimar. Apesar dos espancamentos, má alimentação e terríveis condições de sobrevivência, ele passava horas gargalhando. De sua solitária, uma sinistra luz verde emanava, intrigando os guardas.   

Exúvia não tem mais utilidade em seu corpo. Concluído seu trabalho, ele pode voltar para os seus domínios. A alma capturada de Gavrilo Princip retorna e, confuso, ele se vê em uma soturna prisão.

Em julgamento, Princip é severamente condenado, recebendo toda a culpa. Ele grita e protesta, alegando uma inocência que, para os jurados, parecia fantasiosa e delirante. O rapaz morreria três anos depois, vítima de uma tuberculose contraída na prisão.

E assim começa a Grande Guerra, mais popularmente conhecida como a Primeira Guerra Mundial.

 

 



[1] Jovem Bósnia em bósnio

domingo, 14 de maio de 2023

Liubliana - 37 - Cova para Dois

 


O ano é 1914.

Valentim está tremendo de frio. Sua casa cheira a pó e sujeira se acumula pelos cantos. Sem seu vigor e a ajuda de sua esposa, o velho marido não faz mais a faxina; naqueles dias, ele mal conseguia se levantar da cama.

Olhando para o lado, ele encontra Danica. Ela dormia tranquilamente, ou assim ele achava.

Ao colocar o cobertor sobre ela, Valentim olha para seu rosto e se assusta; ela estava pálida e seu olhar encarava o vazio. Alarmado, ele a sacode, mas ela não acorda. Ao verificar sua respiração, ele nota que ela não estava respirando. O desespero toma sua mente e ele se levanta, enfrentando a fraqueza de estar velho e doente.

Valentim a sacode, sacode e sacode, mas em vão. Apavorado, ele se encurva sobre seu peito e chora. Danica estava tão gelada quanto aquela manhã. Apesar das lágrimas ferventes vindas direto do seu coração, ela não acordava.

Confuso, ele não sabe o que fazer. Não foi assim que ele imaginou a morte de sua esposa. Valentim sempre desejou morrer junto com ela, e ambos serem enterrados em uma cova para dois. Velar seu corpo sem vida não estava nem no pior dos seus pesadelos, pois o dedicado marido sequer imaginava viver sem ela.

Em um acesso delirante de esperança, Valentim se levanta e caminha pela casa. Ele veste seu casaco e alcança a porta, intentando buscar ajuda.

Mas ele não vai longe.

Os passos são penosos e suas costas doem. Incapaz de cuidar da própria saúde, mesmo sua higiene é afetada. Tanto as roupas quanto a própria casa cheirava a urina. Infecções surgem em sua pele, coceiras inconvenientes que insistiam em incomodá-lo. Mesmo Danica sofria o mesmo, mas, ao perder o vigor e a fala, ela jamais se queixara.

Parando em frente à casa, a neve esfria seu corpo e ele perde o equilíbrio. Uma tosse forte e seca o acomete e rasga a sua garganta.

“Então é esse?”, ele pensa. “Então é esse o destino para os viventes?”.

Valentim não durará muito ali fora. Morando em uma região rural, a casa mais próxima fica a dez minutos de caminhada. Ele, porém, mal se aguentava em pé.

De repente ele ouve um ruído. Sobre uma árvore retorcida, ele enxerga uma coruja. Ela não se mexe, mas apenas o observa ali com seu olhar inexorável e sem compaixão. Esgotado e desesperado, Valentim tem uma ideia. Ele olha para a coruja e pede ajuda. As lágrimas ressecam o seu rosto, congelando em sua barba. Novamente ele pede ajuda, fazendo um último apelo.

- Se você estiver me ouvindo, por favor, me ajude...!

Exausto, ele fecha os olhos e cai sobre a neve. Antes de sucumbir, ele tem a impressão de ouvir asas batendo por perto. Ele abre os olhos e se espanta ao ver centenas de corujas à sua volta.

Valentim ouve um som vindo de sua casa. Estranhamente as corujas abrem caminho e lhe dão passagem, permitindo-o passar. Intrigado, ele se levanta e caminha de volta.

Ao adentrar a casa, ele se arrasta de volta para o seu quarto, esforçando-se o quanto pode. Então ele vê a face da abominação.

Uma figura diabólica, com vários braços e membros que se reviravam como tentáculos, jazia ao lado de sua esposa. A figura era tão alta que quase alcançava o teto. Os pelos ressecados e os pés com pontudas garras lhe dão arrepios. Aparentemente todo o seu corpo era coberto por uma energia negra. Enquanto respirava, aquela coisa emitia sibilos sinistros. Mas, ao olhar para Valentim, o monstro tinha a face de Bogdan.

Apavorado, Valentim grita:

- Oh, meu Deus!       

- Deus?! – ri Bogdan – O seu Deus não está aqui esta manhã!

Valentim corre, fugindo desesperadamente dali. Ele não é mais valente como era antes. Agora ele está velho e doente, e não pode se defender.

Ao passar pela cozinha, Valentim tropeça e se esbarra contra as panelas. Ele tenta encontrar seu velho punhal, mas se lembra que ele estava na gaveta ao lado de sua cama. Abalado, ele se lamenta.

Bogdan comenta atrás dele:

- No passado, houveram muitas mitologias. A mitologia grega, a mitologia nórdica, a mitologia celta, a mitologia egípcia... Alguns diziam que eu estava na mitologia babilônica, e outros em uma mais antiga, a mitologia suméria. Mas quem pode dizer, não?

Valentim abre a porta e se lança para fora. Com muito esforço, ele tenta se levantar quando, ao apoiar-se sobre uma perna, seu joelho estrala. Ao sentir a excruciante dor crescer, a aflição o domina.

Logo atrás, Bogdan continua:

- E também as teologias. A teologia judaica, depois a cristã, e mais recentemente a islâmica. Todas, de alguma forma, citaram a minha existência. Mas o senhor me conhece. Eu prefiro me esconder nas brumas do paganismo...

Valentim se arrasta pela neve; ele não é mais capaz de correr. As árvores estão mais à frente. Ele não sabe ao certo para onde está indo, mas quer se afastar o máximo possível daquela coisa.

Seus cotovelos se ralam e doem. Seu joelho está tão dolorido que ele não consegue mais movê-lo. Acima dele, as corujas grasnavam sem parar.

Bogdan diz:

- O senhor olhou demais para o abismo. Agora a sua alma jamais poderá descansar em paz.

Ignorando-o, Valentim se arrasta. As árvores estavam mais perto, faltava só mais um pouquinho.

Então algo acontece.

Ao se arrastar mais uma braçada, um par de botas aparecem à sua frente. Surpreso, ele olha para cima e vê seu filho. Sua aparência macabra não existia mais.

Bogdan, agora um homem de 30 anos, olha para ele e então diz:

- A mamãe está morta.

O choque atravessa o coração de Valentim. Ele chora; seus gritos são tão altos e tristes que ele sente dores no peito. A negação o domina e ele se recusa a acreditar. Mas, quanto mais se recusava, mais sua dor aumentava.

Valentim põe a mão sobre seu peito. Sua face exprime profunda agonia. Uma outra dor surge simultânea à dor de sua perda. Agora Valentim sofria um ataque cardíaco.

A dor estilhaça seu sistema nervoso e ele não consegue mais respirar. Em agonia, ele luta e se debate para salvar sua vida. Bogdan apenas o observa, frio e cruel como um sangrento deus pagão.

Minutos se passam. Valentim não resiste. Seus olhos arregalados veem apenas a escuridão. Expirando seu último suspiro, seus pulmões cessam e ele não respira mais.

 E assim ele morre aos pés de seu filho.

 

§

 

Naquela mesma tarde, uma cova é aberta na floresta.

Bogdan, agora Exúvia, está diante de seus pais com uma pá na mão. Ele contempla seu pai e sua mãe mortos dentro da cova; eles estavam um ao lado do outro, como Valentim sempre quis.

O deus pergunta:

- Não é isso o que o senhor queria, papai? Uma cova para dois?

Bogdan os observa com seu olhar brilhante e verde. Sobre seus ombros pousam uma coruja marrom e uma branca. Em seguida centenas de corujas pousam nas árvores e ao lado da cova, como se tivessem vindo para acompanhar o funeral.

Exúvia diz:

- Não é justo que a carne de meus pais seja devorada por vermes tão imundos.

Então as corujas descem à cova e devoram Valentim e Danica. Elas batem as asas e grasnam, refestelando-se em um espetáculo antinatural e profano.

Ao terminarem, os esqueletos estão abraçados um ao outro, como se estivessem se protegendo do mal ancestral diante de si.

Exúvia sorri.

Com sua pá, o deus finalmente enterra seus pais na floresta. Então a coruja marrom e a coruja branca pousam sobre a lápide de seus pais.

- Perdoem-me por não trazer uma cruz. – diz ele – Eu tenho repulsa a cruzes.

Então as corujas se petrificam sozinhas, permanecendo no local, agora um santuário, para sempre.

 

 

Liubliana - 36 - Ghul

 


(Artista desconhecido)


Valentim e sua família vivem em Vukojebina, uma região rural próxima a Bosansko Grahovo, no oeste da Bósnia. É uma região afastada e insignificante, da qual os habitantes a chamavam pejorativamente de “o local onde os lobos vão para acasalar”.

Bogdan, o filho do casal, agora é uma criança animada e brincalhona. Danica o ama profundamente e o educa para ser tão instruído quanto ela. Naquela região escolas são escassas e distantes, e geralmente frequentada por cristão ortodoxos. Sendo de fé católica em uma região habitada por cristãos ortodoxos, a mãe teme a discriminação, então ela prefere preveni-lo disso.

Valentim trabalha em vários ofícios para sustentar sua família. Ora ele era ferreiro, ora agricultor. Cheio de energia como era, ele enfrentava as dificuldades com formidável disposição.

Enquanto Bogdan cresce, o pai lhe ensina seus ofícios. Valentim se preocupa, pois tudo o que sabe foi substituído pela força das máquinas. Por outro lado, ele também sabe que não pode mais voltar para a sua cidade para dar uma educação decente para o seu filho; o culto de Exúvia o perseguiria novamente.

Além disso, algo incomodava o dedicado pai.

À noite, quando estão dormindo, o filho aparecia na porta do quarto para ficar observando-os. Valentim acordava assustado ao ver Bogdan parado sinistramente ali. Isso ocorre por várias noites. Ao informar Danica do ocorrido, ela pensa que o menino é sonâmbulo, mas Valentim sabe que ele não tinha nada disso.         

Algumas vezes os olhos de Bogdan brilhavam, emitindo um hipnótico verde. Em seguida o menino se virava e caminhava de volta para o seu quarto na escuridão. Valentim sabe do que se trata. Aquilo era Plasma.

Anos se passam. Bogdan agora é um pré-adolescente. Sua personalidade brincalhona logo é substituída por um comportamento distante e obscuro. O menino não se interessava por esportes ou amizades. Ele se ausentava durante o dia passando todo o tempo na floresta. Danica se preocupava, pois a região era habitada por lobos. O menino, porém, parecia não se importar.

Coisas estranhas começaram a acontecer. Caçadores retornam da floresta relatando mortes estranhas. Animais morriam de um modo incomum a qualquer predador na área. Os caçadores descreviam esquartejamentos e mutilações, e o posicionamento em lugares específicos dos pedaços, como em um ritual. O agressor comia a carne das vítimas, mas o mais bizarro era que todo o sangue era drenado de seus corpos.

As mortes se tornam mais frequentes; agora os caçadores têm medo de ir à floresta. Eles temem que ela tenha se tornado assombrada.

Algumas vezes, Danica ia ao vilarejo com o seu filho. Mas pelo caminho cães latiam para ele sem parar. Sob suas unhas parecia haver sangue. Mesmo entre os seus dentes haviam pedaços de um alimento desconhecido. Ao perguntar o que era aquilo, ele nunca dizia.

Dias mais tarde os mesmos cachorros que latiam para o menino são encontrados mortos. Estranhamente eles foram esfolados e pendurados nos galhos das árvores ainda vivos. A suspeita de ataque de lobos é descartada; eles encontraram lobos esquartejados e mortos também. Nem uma gota de sangue era visível na carcaça.    

Desta maneira, as pessoas e as outras crianças passaram a evitar Bogdan.

As mortes se tornam frequentes. Alguns bósnios muçulmanos passam pelo local e, ao ouvir sobre o ocorrido, contam a lenda árabe dos Ghuls.

Na Arábia pré-islâmica, ghuls eram humanoides monstruosos que viviam em cemitérios e comiam carne humana. Há origens para o termo no idioma árabe, mas o mais provável é que venha do extinto acadiano, falado na antiga Mesopotâmia. “Gallu” significava “demônios do submundo”.

No folclore árabe, Ghul é uma criatura que vive em cemitérios e lugares abandonados, semelhantes ao djinns. O ghul pode assumir a aparência de pessoas e animais para atrair suas vítimas e devora-las. Após consumi-las, o ghul então assume a aparência da própria vítima. O monstro também caça crianças para devora-las e beber o seu sangue.   

Na teologia islâmica, os Ghuls não são mencionados no Corão, mas nos haddiths. Neles contam que os ghuls eram demônios que subiam ao Céu para olvidar conhecimentos celestiais e repassa-los para os adivinhos na Terra. Quando Maomé nasceu, eles foram proibidos de subir novamente. Os marids, uma espécie mais poderosa de demônios rebeldes, continuou a subir e, como castigo, foram queimados por cometas. Aqueles que não se queimaram até a morte se deformaram e enlouqueceram, caindo nos desertos e sendo condenados a vagar pela terra como ghuls.

Um Ghul pode aparecer em forma feminina ou masculina, e atrai suas vítimas, a maioria viajantes, para mata-los e devora-los. De acordo com Maomé, ghuls são djinns-demônios que prejudicam os humanos ferindo-os, estragando sua comida e assustando-os quando eles estão em locais desertos.         

Valentim não conhecia essa lenda, mas após experienciar tantas experiências sobrenaturais em Liubliana, ele não descarta tal hipótese.

Danica se recusa a acreditar que seu filho era um monstro. Ao invés, ela sugere que a culpa das mortes era dos lobos. Mas ao explicar-lhe que mesmo os lobos estavam morrendo, ela se recusa a ouvir. 

 

§

 

Ocupada desde 1878, a Bósnia é finalmente anexada pelo Império Austro-húngaro em 1908. Os países vizinhos protestam, exigindo dos austro-húngaros indenização. Assim as tensões aumentam na já frágil província. 

O casal está idoso. Danica está senil e perdeu a fala, passando seus dias presenciando os horrores que seu filho praticava. Valentim cuida dela, mas suas formidável força se vai e ele também sofre para prosseguir.

Bogdan agora é um adulto de 24 anos. Seus velhos hábitos não se vão; eles apenas pioram. Ele não devora mais animais; agora ele devora camponeses e assume suas aparências. Muitos habitantes se confundem ao verem seus parentes vivos, para logo depois encontrarem suas carcaças apodrecidas já há muitos dias. Cansado e fragilizado pela idade, Valentim sabe dos hábitos de seu filho, mas não pode fazer nada para pará-lo.

Enquanto contempla o monstro que Bogdan está se tornando, Valentim pensa. Ele sente saudades de Liubliana. No centro de sua cidade, havia a ponte tripla adornada com estátuas de dragões. Valentim se lamenta. Se os liublianenses soubessem da origem daquele dragão, eles destruiriam aquelas estátuas e a baniriam para sempre.

Ainda pensativo, ele se lembra do tempo em sua cidade quando era só ele e Danica contra o mundo. Lágrimas se escorrem de seus olhos cansados e ele reconhece. A vida era dura, mas pelo menos os dois eram felizes.  

 

§

 

O ano é 1909. A Bósnia está em crise. Devido a anexação dos austro-húngaros, protestos se alastram pelo sul da Europa. Ao mesmo tempo, as relações diplomáticas com os alemães se fortalecem. Amigáveis aos seus aliados, os alemães se comprometem a defender a honra da Áustria-Hungria em caso de guerra.

Valentim e sua esposa perdem as forças. Danica não se levanta mais da cama e fica desperta por poucas horas do dia. O marido ainda se esforça para cuidar da esposa; apaixonado como era, ele sabe que não conseguiria viver sem ela.

Bogdan se ausentava durante o dia. Ele havia feito amizade com um grupo de ativistas políticos e passava a maior parte do tempo com eles. Os vizinhos pensam que ele é um insensível diante da necessidade dos pais, mas Valentim prefere assim; ele não quer aquele mostro em sua casa.

Certa noite, Valentim acorda com um ruído na janela. Ao olhar, algo se mexe e bate as asas. Ele imediatamente reconhece; era uma coruja pousando ali.

- Olá, papai.

Valentim se assusta. Ao olhar para a porta, havia alguém parado no escuro; apenas o verde hipnótico de seus olhos visíveis.

- Quem está aí?!

O desconhecido faz um gesto e, de repente, todas as velas do quarto se acendem magicamente.  

- Sou eu. – responde ele – Bogdan. Seu filho.

Bogdan se aproxima. Então Valentim nota que o rapaz tinha as roupas imundas de lama. Seus antebraços estavam encobertos de sangue e sua boca ainda gotejava o líquido escarlate.

- Meu filho...! O que você fez...?!

- Me alimentei. – responde ele, sorrindo – Preciso de alimento para o meu plano. O meu propósito neste mundo.

Valentim não entende.

- Do que está falando?

- No passado, eu ateei fogo em Liubliana. – revela ele – Agora eu quero ver o mundo queimar.

Bogdan se referia à lenda do dragão no topo do castelo de Liubliana. Mas, estranhamente, ele não se referia à lenda; ele referia-se a si mesmo.

Temendo o mal ancestral à sua frente, Valentim pergunta temerosamente:

- Quem é você?

- Eu acho que o senhor sabe quem eu sou.

O pai, então, sussurra em prantos.

- Exúvia...

Então milhares de corujas grasnam no telhado, emitindo seu agudo som.

Em Valentim lhe faltava vigor, mas ainda lhe abundava a coragem.

- Demônio maldito! Volte para o inferno!

Exúvia ri.

- Mas eu não vim do inferno. Eu vim de um belíssimo jardim, como o Éden de sua religião, mas ao contrário. De lá eu alimentei a sede de sangue dos tiranos. Condessa Bathory, Vlad, o Impalador, Átila, o Huno... Todos eles foram saciados pelo meu Plasma. – explica ele – Eu posso mostrá-lo, se quiser.

O deus se aproxima.

- Fique longe de mim!

- Não se preocupe, papai. Apenas veja.

Em seguida um gás esverdeado sobe pelo quarto; Valentim sente o cheiro de Plasma. Sem poder resistir, sua visão se contorce em um vórtice descontrolado de imagens e ele perde a consciência.

Um minuto depois, Valentim se vê voando. Ele olha ao redor e contempla um céu púrpura de nuvens negras. Abaixo, ele vê o que parecem ser plantas vivas, movendo-se como insidiosas serpentes. Um enxame de insetos enormes, do tamanho de pombos, perseguem os réprobos, atormentando-os em seu sofrimento eterno.

O coro dos malditos era ensurdecedor; homens e mulheres penavam lá embaixo, emitindo gritos esganiçados e espavoridos sem parar. Então outro som chama a sua atenção.

Uma coruja gigante o levava em suas garras. Valentim se apavora. A coruja tinha asas imundas e empesteadas de doenças. Sua terrível face lembrava a própria morte. A ave grasnava, proferindo maldições e blasfêmias. Apavorado, Valentim se mexe e tenta se desvencilhar daquele monstro. 

A coruja o solta e Valentim cai pelos ares. Sua alma devia ser mais leve no mundo espiritual, pois sua queda é suave e lenta. Ele pode ver que, na verdade, aquele lugar se assemelhava a um vasto jardim, mas um jardim arruinado e amaldiçoado para sempre.

Enquanto cai, Valentim vê o que parece ser uma fonte de água antiga e lodosa. Mas de repente ela se abre e revela ser não uma fonte, mas a boca de uma terrível besta. Dentes longos e afiados se revelam e logo recebem a alma de Valentim. Pranteando, ele tem seus ossos esmagados e sua carne dilacerada enquanto é mastigado por aquela coisa. E assim ele morre, sufocando em seu sangue e perdendo a consciência.

Um segundo depois, Valentim acorda novamente. Ele se vê reavivado nas garras da coruja gigante. Então ela o solta e o lança em outra parte daquele jardim de abominações.

Valentim cai no meio de um enxame de insetos. Eram insetos negros e gigantes, semelhantes a cigarras ou vespas. Seu zunido o amedronta e ele corre, tentando fugir desesperadamente dali. Uma delas o pica e ele grita, caindo no solo lamacento. O veneno sobe em sua mente e ele tem agoniantes convulsões. Em seguida os insetos pousam em seu corpo retorcido e lhe abrem feridas, infestando-o de ovos.

Novamente Valentim acorda nas garras da coruja. Ele sente que, naquele jardim, ele morreria infinitas vezes, mas retornaria para reviver novamente. Para sua desolação, todas as mortes seriam horríveis.

Antes que pudesse pensar mais a respeito, a coruja o solta e ele volta ao pavoroso jardim.      

Ao se levantar, Valentim se vê em meio a enormes plantas. Ele se espanta ao ver que seus ramos eram longas serpentes. De repente Valentim é atacado pelos insetos e ele luta para espanta-los.   

Enquanto se distrai, uma serpente o ataca e o morde, cravando seus dentes exatamente na parte de trás de seu pescoço. Valentim se contorce, sentindo ao mesmo tempo dor e uma excruciante cócega. Essa sensação dupla o atormenta, pois ele se sente de braços amarrados e sem poder se defender. E assim ele se encurvava, contorcendo-se até suas costas dobrarem.

Valentim acorda um minuto depois, contorcendo-se na cama como se ainda tivesse a serpente em seu pescoço. Ele abre os olhos e rapidamente mexe os braços, libertando-se de um perigo que não estava ali.

Passado o momento de penúria, ele respira fundo e fecha os olhos, agradecendo a Deus por liberta-lo do sofrimento.   

- Obrigado, meu Deus... Obrigado...

O rapaz ri.

- Qual deus?

Valentim se vira e encontra os olhar verde e brilhante de Exúvia.

- Por favor, eu imploro...! Me deixe longe daquele lugar...! Me deixe longe daquele jardim de abominações...!

Exúvia o ignora. Ao invés, ele responde em tom obscuro:

- Agora o senhor sabe de onde eu venho.

Valentim abaixa a cabeça, profundamente abatido.

Em seguida o deus se vira e vai embora, partindo em meio as trevas da noite.

 

 

sábado, 13 de maio de 2023

Liubliana - 35 - Os Dias Negros

 


(Artista desconhecido)


O inverno cai sobre Liubliana, encobrindo-a com seu manto de neve. Na casa de Valentim, a parteira auxilia Danica no trabalho de parto.

Danica não era uma mulher jovem. Ela tinha mais de quarenta anos e sua gravidez era de risco. Muitos na vizinhança se espantaram com seu desaparecimento, mas ao retornar para casa, eles se espantaram ainda mais ao saberem que ela estava grávida. Por muitos anos Danica não teve filhos, e muitos pensaram que ela era estéril. Mas Valentim a trouxe de volta e, para a surpresa de todos, ela trazia um bebê em seu ventre.

Boatos começaram a se espalhar pelas ruas. Os vizinhos falavam que não era Danica e sim Valentim que era estéril, e achavam muito suspeito o fato dela voltar grávida após seu “desaparecimento”.

De qualquer forma, esses boatos maldosos, porém realistas, nunca chegaram aos ouvidos do amoroso Valentim.

Então, em uma tarde fria e nevoenta, nasce o filho do casal. Enquanto aguardava, Valentim esteve tão preocupado e irritado que teve de ser contido por seus vizinhos. Mas de repente ele sobe as escadas como um relâmpago ao ouvir o choro de um bebê.

Ele abre a porta e encontra sua esposa segurando um adorável menino. Com lágrimas já encharcando sua barba, ele se aproxima e se ajoelha. Valentim nota como o menino tinha perninhas tão finas e como era pequeninho. Seus cabelos, porém, eram negros e ele tinha a feição da mãe. A visão se embaça. Lágrimas vertem e Valentim mal consegue manter os olhos abertos. Reunindo o máximo de suas forças, o pai abraça sua esposa e seu filho, e chora sobre os cabelos de Danica.

Os vizinhos sobem e logo o quarto fica abarrotado de gente. Mesmo Orfeu subia, curioso para ver. Todos viam, emocionados, o marido sobre sua esposa. A cena era tão emocionante que quebrantava até o mais duro dos corações. Então eles convictamente dizem para si mesmos: “Deus visitou esta casa essa tarde”.

As mulheres se aproximam e prontamente perguntam:

- Danica, como o menino vai se chamar?

Exausta e ofegante, a esposa olha para elas e responde:

- Bogdan, que quer dizer “dado por Deus”.

- Bogdan Davud. – interrompe Valentim, assustando-os – Em homenagem ao jovem guarda que morreu enquanto me protegia.

Os vizinhos se admiram, comentando o nome composto. Então todos sorriem e batem palmas, parabenizando a nova família.

 

§

 

Duas semanas se passam.

Danica estava feliz e irradiava felicidade; ela finalmente realizara o seu sonho de ter um filho. Valentim a observa secretamente. Sua esposa estava alegre e cuidava do menino com todo amor e carinho. Ela nunca falara de seu sequestro e de seu paradeiro; ao contrário, ela parece ter se esquecido de tudo aquilo, tendo deliberadamente apagado a lembrança de sua mente.

Mesmo o rude Valentim relaxa um pouco. Após dois meses de muita tensão, o tormento parecia ter chegado ao fim. Danica estava em casa. O marido estava vivo para vê-la novamente. A nova família vivia em paz.

Mas essa paz não duraria para sempre.

O casal vai à Catedral de Liubliana para o bebê receber o batismo. O padre Frančišek realiza o rito com o auxílio de Izak, o diácono. Todos estavam felizes; mesmo o diácono se demonstrava amigável com Valentim. Ele se surpreende. Após o interessante episódio do exorcismo de Madelaine Smith, Izak pôde perceber sua bravura e, assim como Tobias e Davud, passou a admira-lo também. Felizmente para os dois, a inimizade chegara ao fim.  

Naquela noite, corujas os observavam sobre o telhado no escuro. Danica se distrai enquanto ninava seu filho. De repente ela sente olhos observando-a ao longe e vê aqueles pássaros hediondos na escuridão. Ela chama Valentim e ele vê também. O marido sabe o que aquilo significa: o culto de Exúvia.

Certa noite a mulher acorda e se depara com três cultistas em seu quarto. Eles se ajoelham e adoram o pequeno bebê. Danica grita, acordando Valentim. O marido vê aqueles homens ali e, antes que pudesse pegar seu punhal, eles desaparecem no ar.

Em um dia qualquer, homens batem na porta. Valentim atende e se depara com dois gendarmes da patrulha querendo falar com ele. Valentim sente medo, pois teme que seu ouro seja confiscado e ele seja levado preso. Mas nada disso acontece. Os gendarmes o parabenizam e lhe dão presentes, louvando o nome de Exúvia. Valentim não entende. Então os gendarmes simplesmente dão as costas e vão embora.  

No mercado, Danica se sente incomodada. Ela se queixa que velhas horríveis de dentes amarelados e tortos olhavam para ela, sorrindo como se estivessem debochando-a. Mas ela teme ir tirar satisfações, pois elas tinham uma aparência suja e hostil, parecendo psicopatas fugidas de algum hospício.

 Outra noite, enquanto Valentim organizava o ouro roubado do templo, ele ouve passos na rua. Temendo ser os gendarmes, ele os esconde e espia pela janela. Valentim se espanta ao ver uma centena de cultistas caminhando em passos coordenados pela rua, dirigindo-se à sua casa como em uma procissão. Valentim pode notar que eles portavam velas de fogo verde.

“Plasma”, pensa ele.

E então ele percebe: sua família não estava a salvo do culto. Valentim já foi forte uma vez para suportar o sumiço de Danica; ele não será forte o bastante para suportar outra, muito menos se eles levarem o bebê.

Daquele momento em diante só um pensamento permeava em sua mente. A família precisava partir.

O ano é 1895. Na pacata Liubliana, uma catástrofe acontece. A cidade sofre um terrível terremoto, destruindo 10% de seus 1400 prédios.

A casa de Valentim, da qual ele herdara de sua família, também foi destruída pelo tremor. Felizmente ele e sua família não se feriram, mas várias vítimas se acumulavam nos hospitais.    

 Valentim contempla seu lar reduzido a uma pilha de escombros e ruínas. Suas lágrimas são interrompidas pelo grasnado de corujas sobrevoando sua cabeça. Sobre os postes que ainda ficaram em pé, as aves o agouram, predizendo que seus infortúnios ainda estavam longe do fim.

Pegando o braço de sua esposa, ele diz:

- Danica, coloque tudo o que puder nas malas. Nós temos que ir.

E assim o casal deixa Liubliana, fugindo do poder e influência de Exúvia que insistia em persegui-los.

 

§

 

Valentim imigra com sua família para a Bósnia, em homenagem ao seu amigo morto, Davud. Ocupados demais como estavam, eles não acompanhavam os jornais naqueles dias.

As relações dos sérvios com os austro-húngaros se deterioravam. O Império Austro-Húngaro disputava a soberania da Bósnia no momento, ocupada desde 1878. A ocupação gerou atritos com os vizinhos na região, com os italianos e os sérvios reivindicando a província para si. Valentim e Danica não sabiam, mas eles estavam se mudando para um barril de pólvora na Europa, e o pavio já estava aceso.

Ao mesmo tempo, uma onda de violência corre o mundo. Anarquistas radicais praticavam atentados terroristas, geralmente terminando com vários mortos. O extremismo começou em 4 de maio de 1886 em Chicago, nos Estados Unidos.  No meio de uma greve pela redução da jornada de trabalho para oito horas, revoltosos lançaram uma bomba na polícia, matando um policial e ferindo outros sete. A polícia reagiu e atirou contra os manifestantes, matando quatro e ferindo outras dezenas. Oito anarquistas foram julgados e sete foram condenados à morte. O último foi condenado à prisão perpétua, mas suicidou-se na prisão. O evento ficou mundialmente conhecido como a Revolta de Haymarket.   

Em 1888 Wilhem II sobe ao trono, tornando-se o novo Kaiser do Império Alemão. Em 1890 ele força a retirada de Otto von Bismarck e o dispensa do cargo de chanceler. Em seguida o kaiser reata as relações com os austro-húngaros e inicia sua expansão militar, adotando uma postura agressiva com seus vizinhos. Ao expandir sua frota naval, Wilhelm enfurece os ingleses, que cortam as relações com os alemães e os austro-húngaros, assim encerrando definitivamente seus investimentos em Carníola. Valentim ouve a respeito e se alegra, pois ele nunca gostou dos ingleses em sua cidade. 

Em 10 de setembro de 1898, o Império Austro-Húngaro sofre uma comovente perda. A imperatriz Sissi sofre um atentado em Genebra, Suiça. Enquanto passeava à beira de um lago, um anarquista italiano a esfaqueia no peito e foge. O agressor é preso, mas o pior ainda estava por vir. A princípio a imperatriz não percebe, mas o golpe era uma facada direto em seu coração. Ela passa mal e se deita e, ao verificarem o ferimento, sangue se escorria de seu peito. E assim ela tristemente morre, partindo deste mundo em uma fatídica tarde de outono.

Em 29 de outubro de 1900 morre o Rei Umberto I da Itália. Durante um evento esportivo em Monza, o monarca foi morto a três tiros de arma de fogo. O assassino, um anarquista de 31 anos, disse que sua motivação foi a vingança pelo massacre em Bava-Beccaris.    

Em 6 de setembro de 1901, a violência anarquista volta aos Estados Unidos. O presidente William McKinley visitava uma exposição em Buffalo, Nova Iorque. O anarquista Leon Czolgosz se aproximou do presidente e atirou duas vezes em seu abdômen. McKinley morreu oito dias depois.

Aqueles foram os dias negros na Europa e na América. Devido às fascinantes invenções e aos avanços tecnológicos, alguns historiadores chamarão aquele período de Belle Époque, mas essa bela época estava perto do fim.

 


domingo, 7 de maio de 2023

Liubliana - 34 - Tobias diz Adeus

 


(Artista desconhecido)


 

Uma semana se passa.

O Plasma desaparece misteriosamente. Sem a potente fonte energética, os ingleses fecham suas refinarias e fábricas, deixando em seguida Liubliana. Na Inglaterra, eles retomam o desenvolvimento de sua nova fonte energética de outrora, uma mais limpa e mais potente, chamada de eletricidade.

Em Liubliana, porém, o Rio Liublianica permanece com uma curiosa cor verde; uma lembrança da antiga substância mística que energizava a cidade.

Tobias vem visitar Valentim. Com muita alegria no olhar, ele finalmente conhece Danica.

- Muitíssimo prazer em conhece-la, senhora Danica. Nós estivemos procurando pela senhora.

Danica sorri, lisonjeada. Ela vestia as roupas típicas de uma dona de casa liublianense. Em sua cabeça ela vestia um véu muito semelhante àquele encontrado no bairro dos judeus. Danica era uma mulher muito bela, apesar da idade. Agora o inspetor compreendia porque Valentim a amava tanto.

 A mulher responde:

- Prazer em conhece-lo, Inspetor Hessler. Obrigado por cuidar do meu marido.

- Sou eu quem te agradeço, senhora. Vê-la viva e bem é minha maior satisfação.

Ao lhe dar a mão, Tobias nota como seu aperto era delicado e frágil. Aparentemente ela ainda estava se recuperando; os últimos meses foram bem traumáticos para ela. Mas não querendo ser inconveniente ou indiscreto, o inspetor decide não interroga-la naquele momento.

Valentim lhe indica um lugar no sofá e, em seguida, se senta em sua velha poltrona. Rapidamente Tobias nota como a mobília era desgastada e velha. O casal era muito pobre e humilde. Entretanto toda a casa era limpa e organizada. Danica não era uma esposa relapsa, como ele pode notar.

Tobias faz uma discreta varredura na casa com seus olhos de inspetor. De repente um gato pula em seu colo e o assusta. O bichano lhe mira seus olhos verdes e mia.

- Ora, não se incomode com isso! O Orfeu gosta de fazer novas amizades! – diz Valentim – Durante todo esse tempo em que eu procurei por minha Danica, o Orfeu me fez companhia.

Então a esposa diz:

- Ele agora é um membro de nossa família. Fico feliz que o meu Vali não o tenha expulsado de casa.

Em seguida o gato se deita no colo de Tobias e começa a lamber suas patinhas.

- Danica, por que você não vai fazer um chá para nossa visita, por favor?

- Oh, não precisam se incomodar! – protesta ele.

- Eu insisto. – diz Valentim.

Danica então vai para a cozinha. Tobias nota como ela caminha lentamente, como se lhe faltasse as forças.

Com olhar sério, o inspetor pergunta:

- Creio que o senhor sabe por que eu estou aqui, não é?

Valentim assente. Apesar de sua docilidade, Tobias não era nenhum ingênuo que podia ser enganado pela súbita mudança de comportamento de Valentim. Apesar de toda sua força, ela não era maior do que a força da lei.

- Sim, Inspetor Hessler.

- Pois, então?

Respirando fundo, Valentim lhe explica o ocorrido. 

- Ao acordar em minha casa, o guarda Davud estava sentado ao lado de minha cama. Ele disse que você o colocou aqui para cuidar de mim. Mais tarde, eu acordei no meio da noite e vi alguém no telhado; era uma mulher belíssima, com garras, asas de morcego e cercada de corujas.

“Uma Succubus?”, indaga-se Tobias. 

- Eu a segui pelas ruas da cidade, e ela me conduziu até as margens do Rio Liublianica. Lá eu encontrei outra pessoa desconhecida, um homem mórbido que mais se parecia um cadáver. Ele me levou em sua barca pelo rio, até chegarmos ao pântano.

- Davud estava com você? – pergunta Tobias.

- Não. – responde ele – Eu estava completamente sozinho.

Anotando em uma caderneta, o inspetor diz:

- Prossiga.

- Ao chegar lá, eu encontrei um enorme fosso no chão, tão fundo que quedas d’água se formavam lá dentro. A mulher alada voou para lá e eu a segui. Foi então que eu descobri para onde ela estava me levando. Lá embaixo havia um templo subterrâneo.

- O templo de Exúvia? – pergunta ele.

Valentim assente.

- Lá dentro eu vi cultistas e máquinas de tortura ferindo os próprios adoradores daquele deus estranho. Um sacerdote, aparentemente o líder, me recebeu e me fez importantes revelações. Ele era o responsável pelo surgimento do Plasma, e também pelas aparições de fantasmas e monstros pela cidade. Foi ele quem libertou o Golem aquela noite no bairro dos judeus, e foi ele também quem violou a ex-prostituta Madelaine em seu quarto. Ele me disse que Exúvia se alimentava do Plasma, e que abrira os portões do abismo para reencarná-lo aqui na Terra. Aqueles doentes eram realmente loucos.

- O que mais aconteceu?

- Sobre uma mesa de pedra eu vi Danica. Ela estava seminua e inconsciente. O sacerdote ameaçou viola-la e eu o impedi, esmagando sua cabeça e matando o desgraçado. Aparentemente era isso o que aquele pervertido queria. Seu sangue ativou algo e a mesa se alumiou. Então uma energia... Uma mágica, talvez... Me envolveu e eu perdi a consciência, acordando minutos mais tarde.

Tobias lhe faz um olhar de desconfiança.

- Senhor Valentim, o senhor não se lembra de ter visto o guarda Davud lá embaixo?       

Valentim se demonstra abatido.

- Davud estava morto, ele fora assassinado pelo Capitão Vilko. – revela ele – Vilko era membro daquele culto de loucos. Ele me explicou que vendeu sua alma a Exúvia para ter seu filho de volta, e por isso matou Davud. Ele intentava proteger o culto. Aparentemente o capitão estava arrependido, mas isso não importa. O templo ruiu e o soterrou lá embaixo.

Aquelas eram acusações graves. Violação, assassinato, sequestro... Aquilo daria um estressante relatório na Gendarmerie. Com olhar sério, o inspetor lentamente pergunta:

- O senhor tem provas para confirmar o seu relato?

- Sim. – abaixando-se, ele enfia a mão em uma sacola e retira um objeto – Esta é a evidência que eu trouxe lá de baixo; o colar que o sacerdote estava usando. Ele tem esta estranha joia que brilha sozinho. Tome.

Ao pegá-lo, Tobias vê um talismã com entalhes místicos, provavelmente mágicos.

- Fascinante.  

- E aqui está a faixa do guarda Davud. Que Deus o tenha.

Tobias a pega e pode perceber que a faixa tinha escuras manchas de sangue. Fechando os olhos, ele se lamenta.

- Isso é tudo? – pergunta ele, por fim.

- Sim, inspetor.

Virando a página de sua caderneta, ele pergunta:

- O senhor escapou com Danica, certo? O que aconteceu depois no pântano? Esse fosso ainda está lá?

- Eu não faço a menor ideia. – responde ele – Danica estava fraca e sua segurança era a única coisa que me importava. Nós fugimos e não olhamos para trás.

Tobias se silencia. Apesar da pergunta, ele já sabia a resposta. A Gendarmerie investigou o local do ocorrido. Não havia nenhum sinal do fosso que Valentim relatara.

- Está bem.

O inspetor fecha sua caderneta. Em seguida Danica retorna com duas xícaras nas mãos. Tobias se levanta para pega-la e elegantemente agradece, curvando a cabeça.

- Eu ainda tenho algo a dizer, inspetor.

O inspetor se intriga.

- O que foi, senhor Valentim?

- Eu estou deixando a Gendarmerie. – informa ele – Não pretendo mais trabalhar com os inspetores.

Tobias se surpreende.

- O que está dizendo, Valentim? Esse emprego era o seu sustento e, com os ingleses deixando a cidade, não haverá mais empregos por aí!

Meneando negativamente a cabeça, ele responde:

- Minha esposa está fraca e precisa de minha ajuda. Eu não a deixarei em casa enquanto arrisco a minha vida lá fora todos os dias. Ela é minha razão de viver, a força que me motiva a enfrentar as dificuldades da vida. Eu ficarei em casa para cuidar dela.

Tobias insiste.

- Mas como o senhor irá se sustentar?

Irritando-se, ele responde:

- Apenas deixe este problema para mim, está bem?

Então Tobias desiste.

- Com licença, senhores. – interrompe Danica – Eu preciso me retirar.

- Algum problema, Dani?

- Eu só estou um pouco enjoada, só isso. – olhando para o inspetor, ela diz – Desculpe-me a deselegância, Inspetor Hessler, mas eu vou me retirar agora, está bem? Foi um prazer conhecê-lo.

Tobias se levanta e, novamente elegante, responde:

- Não se preocupe, senhora Danica. O prazer foi todo meu. Desejo-lhe melhoras!

Sorrindo, Danica se afasta e então os olhos do inspetor captam outra coisa. A barriga dela estava um pouco inchada. Intrigando-se, ele se pergunta:

“Ela está grávida?”.

- Bem, eu devo partir também. Foi bom revê-lo, senhor Valentim. – despede-se ele.

- Foi bom revê-lo também, Tobias. Me desculpe não poder me levantar. Essa semana foi muito difícil e eu estou exausto.

Tobias estranha. Geralmente Valentim tinha um vigor invejável até para os mais jovens. Sorrindo, ele responde:

- Não tem problema. Eu vou sozinho até a porta. – caminhando até a saída, ele diz – Até a vista, senhor Valentim. Diga a Danica que o chá estava ótimo.

- Até a vista, Inspetor Hessler. Eu certamente direi. E muito obrigado por me ajudar a encontrar a minha esposa.

- Não há de quê. E obrigado o senhor por salvar a minha vida.

- Não há de quê, também.  

Os dois sorriem, encarando-se com respeito mútuo e afeição. Em seguida Tobias se vira e diz adeus.

A porta se fecha.

Ficando finalmente sozinho, Valentim deixa passar um tempo. Em silêncio ele se certifica de que Tobias não irá voltar. Algo o incomoda em suas costas. Afastando-se, ele mexe em algo no estofado e encontra o que procura; era o ouro saqueado dos cultistas.

Valentim saqueou o templo e escondeu o ouro e outras pedras preciosas em sua poltrona. Aquilo lhe dará o dinheiro necessário para ele ficar com sua esposa. Valentim não pôde informar a Tobias, pois elas eram provas concretas da existência do culto e, consequentemente, seriam confiscadas pela Gendarmerie.

Respirando fundo, ele finalmente se alivia.     

 

§

 

Na estação da Gendarmerie, Tobias redige o relatório. Ele pensa em tudo o que aconteceu: o Monte Santa Maria, a galeria dos cadáveres, o Bosque das Espatódeas, o bairro dos judeus, o beco das meretrizes, o bairro dos burgueses ingleses... Enxugando o suor de sua testa, ele se surpreende; aqueles foram meses bem intensos.

O inspetor minuciosamente relata. O aumento dos crimes foi causado pelo Plasma, uma substância tóxica e alucinógena liberada no pântano por um culto pagão desconhecido. Após intensa investigação, é revelado que o capitão Vilko cooperava com o culto, sendo ele mesmo um membro. A Gendarmerie age rápido e contém o envenenamento nas nascentes; o Plasma desaparece e o número de crimes e alucinações baixam. Em poucos dias a cidade volta ao normal.

Por último, ele cita que seu formidável assistente foi o responsável pelo encerramento do caso, e que o guarda Davud, um jovem bósnio cheio de talento e bravura, morreu como um herói.

Alguém bate em sua porta e diz:

- Com licença, inspetor. Daqui a pouco vai começar o cortejo do funeral de Davud. Você não vem?

Ele recobra a atenção.

- É claro. – levantando-se, ele diz – Vocês já escolheram o novo capitão?

- Ainda não. Provavelmente o duque de Carníola decidirá isso. Mas eu não me importo. Eu quero mesmo é que o traidor do Vilko queime no inferno!

Tobias sorri. Fechando o relatório, ele se alivia. Seu trabalho estava feito.       

 

§

 

A garagem dos trens estava cada vez mais vazia. Sem a presença dos ingleses em Liubliana, as linhas tinham poucos operários para a manutenção. Tobias atravessa a plataforma e se dirige ao famigerado Beco das Meretrizes.

Enquanto caminha pelas vielas lamacentas, ele carrega um pequeno buquê de flores. Os vagabundos olham para ele e riem, debochando do jovem apaixonado passando ali.

Batendo na porta, ele pergunta:

- Eu posso entrar?

Madelaine se vira e vê o inspetor parado na entrada.

- Tobias? – espanta-se ela – Bom dia, inspetor. Em que posso ajudá-lo?

Ao entrar, o inspetor nota como o quarto estava limpo e organizado. Não havia sinais de que houvera uma terrível possessão demoníaca ali. Tobias se felicita. As imagens dos santos e os crucifixos nas paredes lhe provocavam uma sensação de paz. Algumas meretrizes estavam ali também. Elas entravam e saíam, recebendo remédios e comida da filantrópica Madelaine.

- Isto é para você. – diz ele, estendendo-lhe as flores.

- Ora, muito obrigada! – sorri ela – Elas são lindas!

Madelaine leva as flores ao rosto e as cheira. As meretrizes também se emocionam, achando o ato de Tobias muito lindo.

 Enquanto Madelaine está distraída, o inspetor nota como seus ruivos cabelos caíam em seus ombros desnudos. Seus olhos se enchem de ternura; ele estava perdidamente apaixonado por ela.

- Madelaine, eu gostaria de dizer outra coisa... – um pouco sem jeito, ele tira uma caixinha de seu bolso e se ajoelha – Senhorita Madelaine Smith, você gostaria de se casar comigo?

A mulher arregala os olhos.

- Inspetor Tobias?! O que está fazendo?!

- Eu... – gagueja ele – Ouça, eu estou perdidamente apaixonado por você. Me apaixonei desde o dia em que estive aqui pela primeira vez. – suor se escorre de seu rosto – Eu gostaria que você aceitasse o meu pedido de casamento... E se casasse comigo.

Madelaine está atônita, totalmente surpresa perante o jovem inspetor. As meretrizes se espantam também; nenhuma delas viu algo parecido naquele beco de perversão e decadência.

- Tobias, eu... – ela não sabe o que responder. Ver o inspetor ajoelhado ali, com um olhar amoroso e um par de alianças douradas em suas mãos, era algo intolerável demais para ela.

- Responda logo! – exclama alguém entre as meretrizes.

O inspetor a olhava ternamente. A demora o constrange e seu rosto fica vermelho, fazendo o suor se escorrer de sua testa.

- Tobias, me desculpe. – responde ela, por fim – Mas eu não posso aceitar o seu pedido.

O olhar amoroso de Tobias se desfaz em um profundo abatimento.

- Como é...?

- Me desculpe, mas eu não aceitarei.

Tobias não consegue acreditar no que ouve. Mesmo as meretrizes não conseguem acreditar também.

- Madelaine, eu me apaixonei por você! Eu quero te tirar desta vida no Beco das Meretrizes! Seu passado ruim você vai esquecer! Eu posso te fazer feliz!

A mulher meneia negativamente a cabeça.

- Tobias, meu lugar é aqui. Eu devo ficar para cuidar das meretrizes em Liubliana. Eu vim aqui para isso. Esse é o meu chamado de Deus.

- Mas Madelaine...!

Naquele momento eles ouvem o som de trens funcionando ao longe. As paredes tremem e um cheiro horrível de fumaça toma o ambiente. Após o desaparecimento do Plasma, as locomotivas voltam a usar o carvão em suas caldeiras, liberando a poluição. Daquele momento em diante, o ar no beco se tornaria quase irrespirável.

- Eu te peço! Case-se comigo! – insiste ele – Eu te amo!

- Eu não posso. As meretrizes precisam de mim.

- Por favor...!

A insistência de Tobias o tornava patético. Seu olhar abatido causava pena inclusive nas meretrizes. Mas Madelaine estava decidida a ficar.

- Eu lamento muito. – então ela fecha a caixinha nas mãos de Tobias e o levanta.

Com lágrimas nos olhos, ele diz:

- Eu...

- Ei! – alguém grita na porta – Nós queremos comer aqui!

O inspetor se assusta. Ao olhar para trás, uma fila de meretrizes e vagabundos esperavam para se alimentar na casa de Madelaine. Respirando fundo, ele se desanima. Ele ia dizer “eu te amo” uma última vez.

Guardando a caixa de alianças no bolso, ele seca seus olhos e se retira, arrastando-se para fora como um cachorro abandonado.

A vinte passos de distância, Tobias olha para trás uma última vez. Uma multidão se aglomera na porta do cortiço. Ocupada como estava, Madelaine sequer o viu partir. Imediatamente a dor o aflige.

Rejeitado, seu coração se desfaz em pedaços.

 

§

 

A noite vem fria em Liubliana.

Da janela de seu quarto, o solitário Tobias vê a cidade lá fora. Ele se deprime; seu espírito se desabava em uma espiral de profunda tristeza. O inspetor encerrou o caso, a cidade fora liberta do flagelo do Plasma, mas ainda assim a tristeza corroía o seu coração.

Tobias faz uma análise rápida dos acontecimentos. Valentim encontrara a esposa, Madelaine ajudava aos necessitados, os liublianenses desfrutavam novamente da paz... Tudo estava indo bem na cidade. Aparentemente todos estavam felizes ao seu redor, menos ele.

Fechando os olhos, ele se lembra. Tobias foi rejeitado por sua noiva em Viena, sendo este o motivo dele se transferir para a longínqua Carníola. Agora ele foi rejeitado pela mulher que ama uma segunda vez. Abatido, ele percebe.

“O guarda Mladen estava certo, afinal”, pensa ele. “As mulheres são o motivo do sofrimento dos homens”.

Tobias não vê mais motivos para ficar. Sem amigos, sem o seu caso e sem o seu amor, Liubliana lhe evocava lembranças valiosas, episódios importantes de sua vida, que ele perdera para sempre.

A cidade se tornara nociva para o inspetor e, emotivo, ele toma uma difícil decisão. Tobias decide partir.

Dois dias depois, ele está de malas prontas diante do trem. Ao subir os degraus, um peso insuportável aflige suas costas; ele já sente saudades daquele lugar. Então o inspetor entra no trem e olha pela janela, contemplando Liubliana, a “cidade amada”, uma última vez.

E então Tobias diz adeus.

 

 

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