domingo, 7 de maio de 2023

Liubliana - 34 - Tobias diz Adeus

 


(Artista desconhecido)


 

Uma semana se passa.

O Plasma desaparece misteriosamente. Sem a potente fonte energética, os ingleses fecham suas refinarias e fábricas, deixando em seguida Liubliana. Na Inglaterra, eles retomam o desenvolvimento de sua nova fonte energética de outrora, uma mais limpa e mais potente, chamada de eletricidade.

Em Liubliana, porém, o Rio Liublianica permanece com uma curiosa cor verde; uma lembrança da antiga substância mística que energizava a cidade.

Tobias vem visitar Valentim. Com muita alegria no olhar, ele finalmente conhece Danica.

- Muitíssimo prazer em conhece-la, senhora Danica. Nós estivemos procurando pela senhora.

Danica sorri, lisonjeada. Ela vestia as roupas típicas de uma dona de casa liublianense. Em sua cabeça ela vestia um véu muito semelhante àquele encontrado no bairro dos judeus. Danica era uma mulher muito bela, apesar da idade. Agora o inspetor compreendia porque Valentim a amava tanto.

 A mulher responde:

- Prazer em conhece-lo, Inspetor Hessler. Obrigado por cuidar do meu marido.

- Sou eu quem te agradeço, senhora. Vê-la viva e bem é minha maior satisfação.

Ao lhe dar a mão, Tobias nota como seu aperto era delicado e frágil. Aparentemente ela ainda estava se recuperando; os últimos meses foram bem traumáticos para ela. Mas não querendo ser inconveniente ou indiscreto, o inspetor decide não interroga-la naquele momento.

Valentim lhe indica um lugar no sofá e, em seguida, se senta em sua velha poltrona. Rapidamente Tobias nota como a mobília era desgastada e velha. O casal era muito pobre e humilde. Entretanto toda a casa era limpa e organizada. Danica não era uma esposa relapsa, como ele pode notar.

Tobias faz uma discreta varredura na casa com seus olhos de inspetor. De repente um gato pula em seu colo e o assusta. O bichano lhe mira seus olhos verdes e mia.

- Ora, não se incomode com isso! O Orfeu gosta de fazer novas amizades! – diz Valentim – Durante todo esse tempo em que eu procurei por minha Danica, o Orfeu me fez companhia.

Então a esposa diz:

- Ele agora é um membro de nossa família. Fico feliz que o meu Vali não o tenha expulsado de casa.

Em seguida o gato se deita no colo de Tobias e começa a lamber suas patinhas.

- Danica, por que você não vai fazer um chá para nossa visita, por favor?

- Oh, não precisam se incomodar! – protesta ele.

- Eu insisto. – diz Valentim.

Danica então vai para a cozinha. Tobias nota como ela caminha lentamente, como se lhe faltasse as forças.

Com olhar sério, o inspetor pergunta:

- Creio que o senhor sabe por que eu estou aqui, não é?

Valentim assente. Apesar de sua docilidade, Tobias não era nenhum ingênuo que podia ser enganado pela súbita mudança de comportamento de Valentim. Apesar de toda sua força, ela não era maior do que a força da lei.

- Sim, Inspetor Hessler.

- Pois, então?

Respirando fundo, Valentim lhe explica o ocorrido. 

- Ao acordar em minha casa, o guarda Davud estava sentado ao lado de minha cama. Ele disse que você o colocou aqui para cuidar de mim. Mais tarde, eu acordei no meio da noite e vi alguém no telhado; era uma mulher belíssima, com garras, asas de morcego e cercada de corujas.

“Uma Succubus?”, indaga-se Tobias. 

- Eu a segui pelas ruas da cidade, e ela me conduziu até as margens do Rio Liublianica. Lá eu encontrei outra pessoa desconhecida, um homem mórbido que mais se parecia um cadáver. Ele me levou em sua barca pelo rio, até chegarmos ao pântano.

- Davud estava com você? – pergunta Tobias.

- Não. – responde ele – Eu estava completamente sozinho.

Anotando em uma caderneta, o inspetor diz:

- Prossiga.

- Ao chegar lá, eu encontrei um enorme fosso no chão, tão fundo que quedas d’água se formavam lá dentro. A mulher alada voou para lá e eu a segui. Foi então que eu descobri para onde ela estava me levando. Lá embaixo havia um templo subterrâneo.

- O templo de Exúvia? – pergunta ele.

Valentim assente.

- Lá dentro eu vi cultistas e máquinas de tortura ferindo os próprios adoradores daquele deus estranho. Um sacerdote, aparentemente o líder, me recebeu e me fez importantes revelações. Ele era o responsável pelo surgimento do Plasma, e também pelas aparições de fantasmas e monstros pela cidade. Foi ele quem libertou o Golem aquela noite no bairro dos judeus, e foi ele também quem violou a ex-prostituta Madelaine em seu quarto. Ele me disse que Exúvia se alimentava do Plasma, e que abrira os portões do abismo para reencarná-lo aqui na Terra. Aqueles doentes eram realmente loucos.

- O que mais aconteceu?

- Sobre uma mesa de pedra eu vi Danica. Ela estava seminua e inconsciente. O sacerdote ameaçou viola-la e eu o impedi, esmagando sua cabeça e matando o desgraçado. Aparentemente era isso o que aquele pervertido queria. Seu sangue ativou algo e a mesa se alumiou. Então uma energia... Uma mágica, talvez... Me envolveu e eu perdi a consciência, acordando minutos mais tarde.

Tobias lhe faz um olhar de desconfiança.

- Senhor Valentim, o senhor não se lembra de ter visto o guarda Davud lá embaixo?       

Valentim se demonstra abatido.

- Davud estava morto, ele fora assassinado pelo Capitão Vilko. – revela ele – Vilko era membro daquele culto de loucos. Ele me explicou que vendeu sua alma a Exúvia para ter seu filho de volta, e por isso matou Davud. Ele intentava proteger o culto. Aparentemente o capitão estava arrependido, mas isso não importa. O templo ruiu e o soterrou lá embaixo.

Aquelas eram acusações graves. Violação, assassinato, sequestro... Aquilo daria um estressante relatório na Gendarmerie. Com olhar sério, o inspetor lentamente pergunta:

- O senhor tem provas para confirmar o seu relato?

- Sim. – abaixando-se, ele enfia a mão em uma sacola e retira um objeto – Esta é a evidência que eu trouxe lá de baixo; o colar que o sacerdote estava usando. Ele tem esta estranha joia que brilha sozinho. Tome.

Ao pegá-lo, Tobias vê um talismã com entalhes místicos, provavelmente mágicos.

- Fascinante.  

- E aqui está a faixa do guarda Davud. Que Deus o tenha.

Tobias a pega e pode perceber que a faixa tinha escuras manchas de sangue. Fechando os olhos, ele se lamenta.

- Isso é tudo? – pergunta ele, por fim.

- Sim, inspetor.

Virando a página de sua caderneta, ele pergunta:

- O senhor escapou com Danica, certo? O que aconteceu depois no pântano? Esse fosso ainda está lá?

- Eu não faço a menor ideia. – responde ele – Danica estava fraca e sua segurança era a única coisa que me importava. Nós fugimos e não olhamos para trás.

Tobias se silencia. Apesar da pergunta, ele já sabia a resposta. A Gendarmerie investigou o local do ocorrido. Não havia nenhum sinal do fosso que Valentim relatara.

- Está bem.

O inspetor fecha sua caderneta. Em seguida Danica retorna com duas xícaras nas mãos. Tobias se levanta para pega-la e elegantemente agradece, curvando a cabeça.

- Eu ainda tenho algo a dizer, inspetor.

O inspetor se intriga.

- O que foi, senhor Valentim?

- Eu estou deixando a Gendarmerie. – informa ele – Não pretendo mais trabalhar com os inspetores.

Tobias se surpreende.

- O que está dizendo, Valentim? Esse emprego era o seu sustento e, com os ingleses deixando a cidade, não haverá mais empregos por aí!

Meneando negativamente a cabeça, ele responde:

- Minha esposa está fraca e precisa de minha ajuda. Eu não a deixarei em casa enquanto arrisco a minha vida lá fora todos os dias. Ela é minha razão de viver, a força que me motiva a enfrentar as dificuldades da vida. Eu ficarei em casa para cuidar dela.

Tobias insiste.

- Mas como o senhor irá se sustentar?

Irritando-se, ele responde:

- Apenas deixe este problema para mim, está bem?

Então Tobias desiste.

- Com licença, senhores. – interrompe Danica – Eu preciso me retirar.

- Algum problema, Dani?

- Eu só estou um pouco enjoada, só isso. – olhando para o inspetor, ela diz – Desculpe-me a deselegância, Inspetor Hessler, mas eu vou me retirar agora, está bem? Foi um prazer conhecê-lo.

Tobias se levanta e, novamente elegante, responde:

- Não se preocupe, senhora Danica. O prazer foi todo meu. Desejo-lhe melhoras!

Sorrindo, Danica se afasta e então os olhos do inspetor captam outra coisa. A barriga dela estava um pouco inchada. Intrigando-se, ele se pergunta:

“Ela está grávida?”.

- Bem, eu devo partir também. Foi bom revê-lo, senhor Valentim. – despede-se ele.

- Foi bom revê-lo também, Tobias. Me desculpe não poder me levantar. Essa semana foi muito difícil e eu estou exausto.

Tobias estranha. Geralmente Valentim tinha um vigor invejável até para os mais jovens. Sorrindo, ele responde:

- Não tem problema. Eu vou sozinho até a porta. – caminhando até a saída, ele diz – Até a vista, senhor Valentim. Diga a Danica que o chá estava ótimo.

- Até a vista, Inspetor Hessler. Eu certamente direi. E muito obrigado por me ajudar a encontrar a minha esposa.

- Não há de quê. E obrigado o senhor por salvar a minha vida.

- Não há de quê, também.  

Os dois sorriem, encarando-se com respeito mútuo e afeição. Em seguida Tobias se vira e diz adeus.

A porta se fecha.

Ficando finalmente sozinho, Valentim deixa passar um tempo. Em silêncio ele se certifica de que Tobias não irá voltar. Algo o incomoda em suas costas. Afastando-se, ele mexe em algo no estofado e encontra o que procura; era o ouro saqueado dos cultistas.

Valentim saqueou o templo e escondeu o ouro e outras pedras preciosas em sua poltrona. Aquilo lhe dará o dinheiro necessário para ele ficar com sua esposa. Valentim não pôde informar a Tobias, pois elas eram provas concretas da existência do culto e, consequentemente, seriam confiscadas pela Gendarmerie.

Respirando fundo, ele finalmente se alivia.     

 

§

 

Na estação da Gendarmerie, Tobias redige o relatório. Ele pensa em tudo o que aconteceu: o Monte Santa Maria, a galeria dos cadáveres, o Bosque das Espatódeas, o bairro dos judeus, o beco das meretrizes, o bairro dos burgueses ingleses... Enxugando o suor de sua testa, ele se surpreende; aqueles foram meses bem intensos.

O inspetor minuciosamente relata. O aumento dos crimes foi causado pelo Plasma, uma substância tóxica e alucinógena liberada no pântano por um culto pagão desconhecido. Após intensa investigação, é revelado que o capitão Vilko cooperava com o culto, sendo ele mesmo um membro. A Gendarmerie age rápido e contém o envenenamento nas nascentes; o Plasma desaparece e o número de crimes e alucinações baixam. Em poucos dias a cidade volta ao normal.

Por último, ele cita que seu formidável assistente foi o responsável pelo encerramento do caso, e que o guarda Davud, um jovem bósnio cheio de talento e bravura, morreu como um herói.

Alguém bate em sua porta e diz:

- Com licença, inspetor. Daqui a pouco vai começar o cortejo do funeral de Davud. Você não vem?

Ele recobra a atenção.

- É claro. – levantando-se, ele diz – Vocês já escolheram o novo capitão?

- Ainda não. Provavelmente o duque de Carníola decidirá isso. Mas eu não me importo. Eu quero mesmo é que o traidor do Vilko queime no inferno!

Tobias sorri. Fechando o relatório, ele se alivia. Seu trabalho estava feito.       

 

§

 

A garagem dos trens estava cada vez mais vazia. Sem a presença dos ingleses em Liubliana, as linhas tinham poucos operários para a manutenção. Tobias atravessa a plataforma e se dirige ao famigerado Beco das Meretrizes.

Enquanto caminha pelas vielas lamacentas, ele carrega um pequeno buquê de flores. Os vagabundos olham para ele e riem, debochando do jovem apaixonado passando ali.

Batendo na porta, ele pergunta:

- Eu posso entrar?

Madelaine se vira e vê o inspetor parado na entrada.

- Tobias? – espanta-se ela – Bom dia, inspetor. Em que posso ajudá-lo?

Ao entrar, o inspetor nota como o quarto estava limpo e organizado. Não havia sinais de que houvera uma terrível possessão demoníaca ali. Tobias se felicita. As imagens dos santos e os crucifixos nas paredes lhe provocavam uma sensação de paz. Algumas meretrizes estavam ali também. Elas entravam e saíam, recebendo remédios e comida da filantrópica Madelaine.

- Isto é para você. – diz ele, estendendo-lhe as flores.

- Ora, muito obrigada! – sorri ela – Elas são lindas!

Madelaine leva as flores ao rosto e as cheira. As meretrizes também se emocionam, achando o ato de Tobias muito lindo.

 Enquanto Madelaine está distraída, o inspetor nota como seus ruivos cabelos caíam em seus ombros desnudos. Seus olhos se enchem de ternura; ele estava perdidamente apaixonado por ela.

- Madelaine, eu gostaria de dizer outra coisa... – um pouco sem jeito, ele tira uma caixinha de seu bolso e se ajoelha – Senhorita Madelaine Smith, você gostaria de se casar comigo?

A mulher arregala os olhos.

- Inspetor Tobias?! O que está fazendo?!

- Eu... – gagueja ele – Ouça, eu estou perdidamente apaixonado por você. Me apaixonei desde o dia em que estive aqui pela primeira vez. – suor se escorre de seu rosto – Eu gostaria que você aceitasse o meu pedido de casamento... E se casasse comigo.

Madelaine está atônita, totalmente surpresa perante o jovem inspetor. As meretrizes se espantam também; nenhuma delas viu algo parecido naquele beco de perversão e decadência.

- Tobias, eu... – ela não sabe o que responder. Ver o inspetor ajoelhado ali, com um olhar amoroso e um par de alianças douradas em suas mãos, era algo intolerável demais para ela.

- Responda logo! – exclama alguém entre as meretrizes.

O inspetor a olhava ternamente. A demora o constrange e seu rosto fica vermelho, fazendo o suor se escorrer de sua testa.

- Tobias, me desculpe. – responde ela, por fim – Mas eu não posso aceitar o seu pedido.

O olhar amoroso de Tobias se desfaz em um profundo abatimento.

- Como é...?

- Me desculpe, mas eu não aceitarei.

Tobias não consegue acreditar no que ouve. Mesmo as meretrizes não conseguem acreditar também.

- Madelaine, eu me apaixonei por você! Eu quero te tirar desta vida no Beco das Meretrizes! Seu passado ruim você vai esquecer! Eu posso te fazer feliz!

A mulher meneia negativamente a cabeça.

- Tobias, meu lugar é aqui. Eu devo ficar para cuidar das meretrizes em Liubliana. Eu vim aqui para isso. Esse é o meu chamado de Deus.

- Mas Madelaine...!

Naquele momento eles ouvem o som de trens funcionando ao longe. As paredes tremem e um cheiro horrível de fumaça toma o ambiente. Após o desaparecimento do Plasma, as locomotivas voltam a usar o carvão em suas caldeiras, liberando a poluição. Daquele momento em diante, o ar no beco se tornaria quase irrespirável.

- Eu te peço! Case-se comigo! – insiste ele – Eu te amo!

- Eu não posso. As meretrizes precisam de mim.

- Por favor...!

A insistência de Tobias o tornava patético. Seu olhar abatido causava pena inclusive nas meretrizes. Mas Madelaine estava decidida a ficar.

- Eu lamento muito. – então ela fecha a caixinha nas mãos de Tobias e o levanta.

Com lágrimas nos olhos, ele diz:

- Eu...

- Ei! – alguém grita na porta – Nós queremos comer aqui!

O inspetor se assusta. Ao olhar para trás, uma fila de meretrizes e vagabundos esperavam para se alimentar na casa de Madelaine. Respirando fundo, ele se desanima. Ele ia dizer “eu te amo” uma última vez.

Guardando a caixa de alianças no bolso, ele seca seus olhos e se retira, arrastando-se para fora como um cachorro abandonado.

A vinte passos de distância, Tobias olha para trás uma última vez. Uma multidão se aglomera na porta do cortiço. Ocupada como estava, Madelaine sequer o viu partir. Imediatamente a dor o aflige.

Rejeitado, seu coração se desfaz em pedaços.

 

§

 

A noite vem fria em Liubliana.

Da janela de seu quarto, o solitário Tobias vê a cidade lá fora. Ele se deprime; seu espírito se desabava em uma espiral de profunda tristeza. O inspetor encerrou o caso, a cidade fora liberta do flagelo do Plasma, mas ainda assim a tristeza corroía o seu coração.

Tobias faz uma análise rápida dos acontecimentos. Valentim encontrara a esposa, Madelaine ajudava aos necessitados, os liublianenses desfrutavam novamente da paz... Tudo estava indo bem na cidade. Aparentemente todos estavam felizes ao seu redor, menos ele.

Fechando os olhos, ele se lembra. Tobias foi rejeitado por sua noiva em Viena, sendo este o motivo dele se transferir para a longínqua Carníola. Agora ele foi rejeitado pela mulher que ama uma segunda vez. Abatido, ele percebe.

“O guarda Mladen estava certo, afinal”, pensa ele. “As mulheres são o motivo do sofrimento dos homens”.

Tobias não vê mais motivos para ficar. Sem amigos, sem o seu caso e sem o seu amor, Liubliana lhe evocava lembranças valiosas, episódios importantes de sua vida, que ele perdera para sempre.

A cidade se tornara nociva para o inspetor e, emotivo, ele toma uma difícil decisão. Tobias decide partir.

Dois dias depois, ele está de malas prontas diante do trem. Ao subir os degraus, um peso insuportável aflige suas costas; ele já sente saudades daquele lugar. Então o inspetor entra no trem e olha pela janela, contemplando Liubliana, a “cidade amada”, uma última vez.

E então Tobias diz adeus.

 

 

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