Valentim acorda
de repente. Ele estava abraçado àquela que ele tinha de mais precioso, de mais
sagrado em sua vida, Danica.
Sua esposa dormia
em seus braços. Ela fazia expressões de pranto e aflição, aparentemente
sonhando com algo que não era bom. O marido tira o cabelo de seu rosto e a
beija na testa, prometendo protege-la de tudo e qualquer coisa, para sempre.
O rejuvenescimento
místico havia desaparecido; Danica voltara à sua idade atual. Valentim não se
importa, ele continuará amando-a de qualquer jeito; jovem ou de cabelos
grisalhos, viva ou em um caixão.
Havia algo
errado. Valentim olha ao redor e não vê os cultistas em lugar algum. Mesmo o
cadáver do sacerdote havia desaparecido. Mas seu profano talismã mágico
permanecia ali, reluzindo sinistramente no chão.
Então um tremor surge e estremece perigosamente
o templo. O Plasma borbulha nas canaletas, agitando-se e perdendo sua coloração
verde. As máquinas de tortura se quebram e a enorme estátua de coruja desaba,
partindo-se em centenas de pedaços. O templo subterrâneo sofria
cataclismos.
Levantando-se da mesa sacrificial, Valentim
olha para sua esposa. As pedras preciosas a enfeitavam embaixo dela. Um
abatimento profundo o aflige. O Plasma se espirrava por toda parte, mas toda a
substância não se comparava às lágrimas que vertiam de seu coração.
Delicadamente
acordando Danica, ele diz:
- Acorde, meu
amor. Nós temos que ir.
A esposa lhe faz
um olhar confuso e tenta dizer algo, mas ela perde o equilíbrio e cai nos
braços do marido. Valentim prontamente a acode, intentando ir embora em
seguida. Mas ele decide fazer algo antes. Ao terminar, ele abraça sua esposa e
finalmente a leva para fora.
A escuridão era
muito forte; as tochas ao redor brilhavam em um amarelo fraco. Acostumado com o
esverdeado Plasma, Valentim se pergunta quanto tempo faz que ele não via a
habitual chama amarela do fogo. Então ele ouve sussurros. Adiante alguém
pranteava algo, chorando sozinho na escuridão.
Aproximando-se,
Valentim tem uma surpresa. Era o capitão Vilko.
O capitão estava
sentado no chão, abraçado ao guarda Davud. Vilko chorava e se movia para frente
e para trás, agarrado a Davud como se estivesse abraçando a um filho. O guarda
não se movia, ele estava inconsciente e uma mancha enorme de sangue ensopava as
suas roupas.
- Capitão Vilko?
O que você fez?!
Vendo o casal
parado à sua frente, Vilko diz:
- Oh, Valentim...? – surpreende-se – Vejo que
você finalmente encontrou a sua esposa...
- Responda-me! –
ordena Valentim.
- A minha perda.
A resposta
obscura confunde a Valentim.
- O quê?
- O que você
faria se sofresse uma perda tão grande que não pudesse recupera-la? – o capitão
olha para Danica – Se você perdesse a sua esposa para sempre?
- Do que você
está falando?
- Meu filho. –
responde ele – Meu filho foi a minha grande perda. – então ele pergunta – Você
já ouviu falar do “homem selvagem”?
Valentim assente.
O homem selvagem era uma popular lenda na mitologia eslava. A lenda descrevia
um homem baixo com barba comprida e cauda, mas haviam várias outras definições.
Os ucranianos descreviam um homem velho e coberto de pelos que dava prata
àquele que lhe esfregasse o nariz. Nos Urais, os russos os descreviam como
homens pequenos, belos, com voz agradável, que viviam em cavernas e prediziam o
futuro. Os bielorrussos, por sua vez, os descreviam como canibais de apenas um
olho que bebiam o sangue de ovelhas. Ainda haviam mais descrições, mas todas
convergiam no selvagem humanoide popularmente conhecido na Europa. Lembrando-se
disso tudo, Valentim reconhece que era Danica quem costumava lhe contar as
lendas de sua região.
O capitão
continua:
- Quando eu era
criança, eu tinha medo de dormir no escuro. Todas as noites alguém aparecia no
meu quarto, movendo-se pela escuridão. Sob a luz do luar, alguém atravessava a
janela e sacudia suavemente as cortinas. Era o homem selvagem que estava ali.
Ele era coberto de pelos e tinha os olhos vermelhos como a brasa. Ele era tão
alto que sua cabeça alcançava o teto! – descreve ele – Parado em frente à minha
cama, ele esticava os braços e tentava me pegar! E nesse momento eu chorava e
gritava de pavor, pedindo desesperadamente por minha mãe! – Vilko deixa sair
algumas lágrimas – Eu ia ao quarto dos meus pais e pedia para me deitar com ela,
mas meu pai não permitia. Meu pai era muito autoritário e mandava na casa. Ele
se responsabilizou por minha educação, mas ele era muito duro e não entendia o
meu medo. Desde pequeno, meu pai sempre me destratou, pois ele nunca gostou de
mim.
Então Valentim se
consterna. Ele também sofreu com um pai ruim e não consegue evitar sentir pena
do capitão.
- E eu o
implorava... – diz Vilko, referindo-se ao seu pai – Eu lhe pedia perdão, desculpando-me
por não ser valente! Meu pai odiava os covardes e nunca me perdoava por eu ser
um também. Mas eu era só uma criança! E meu pai não se importava! Ele me
forçava a enfrentar os meus medos. De dia, ele dizia que não me queria, que não
me amava... E à noite ele me abandonava, deixando-me para ser atormentado por
aquela assombração. E eu dizia: “Pai! Pai! Ele está aqui! O homem selvagem está
aqui! Ele veio me pegar!”. Mas meio pai não vinha, pois queria que eu fosse
valente e o enfrentasse como um homem! – em lágrimas, ele recorda – E meu pai
ouvia tudo do lado de fora, como se tivesse prazer em me ouvir chorar...!
Valentim se
indigna.
Com semblante perturbado,
o capitão relata:
- O homem
selvagem me dizia coisas. Ele dizia que viria à noite para me pegar e me
arrastar para as trevas com ele. Arrepiado, eu me escondia debaixo do cobertor
e rezava. Meu conhecimento religioso era minúsculo naquele tempo, mas eu pedia
para o Deus da igreja para vir me ajudar. E eu gritava para Ele me ouvir,
alertando-O que o homem selvagem estava próximo! Mas Ele se fazia de surdo para
os meus gritos... – lamenta-se ele – Meu pai debochava de mim lá fora. Eu
estava sozinho com aquela coisa no meu quarto. Uma vez o homem selvagem disse:
“esta noite eu levarei sua alma diante do seu Deus”.
Vilko respira
fundo e continua:
- Então um dia...
O homem selvagem desapareceu. Meu quarto não foi mais invadido por essa
assombração hedionda. O tempo passou, eu cresci, arrumei um emprego, me casei,
mas o trauma nunca me deixou. Minha esposa engravidou e eu tive um lindo filho.
Ele era tão alegre e bonito; certamente a coisa mais maravilhosa que eu já
tive. – comenta ele – Eu vivia feliz com minha família, até que uma tragédia
aconteceu. Minha esposa morreu, vítima de uma terrível febre, uma doença
desconhecida na época e que tirou a sua vida. Assim eu fui obrigado a criar sozinho
o meu filho. Mas algo no menino me incomodava. Ele então tinha cinco anos e eu
o achava fraco, não achando-o valente o suficiente para enfrentar os problemas
da vida. Quando criança, eu estive indefeso diante da severidade do meu pai. Sem
melhores referências, eu acreditei que sua educação era a correta a se adotar. Eu
passei a perseguir o meu filho que, assim como eu, esteve indefeso diante do
pai.
Ainda em
devaneios, o capitão relata:
- Coisas
estranhas começaram a acontecer em nossa casa. Eu acordava todas as noites com
os berros do meu filho. Indo ao seu quarto, ele diz que havia alguém lá. Com
semblante apavorado, ele descrevia um homem coberto de pelos, com olhos
vermelhos e muito alto. Ao ouvi-lo, meus velhos medos despertaram. O homem
selvagem retornara, e agora ele buscava o meu filho! Eu me enchi de pavor, eu
não tive coragem de enfrentar o homem selvagem. Como meu pai disse, eu não era
valente, eu era uma criança covarde indigna de ser amada. Mas meu filho não
podia saber disso. Com medo dele descobrir minha verdadeira face, eu escondi
ser um covarde e o mandei enfrentar os seus medos sozinho. – lamenta-se ele – Todas
as noites meu filho me acordava gritando. Eu me dirigia à porta de seu quarto
e, com as mãos trêmulas, não ousava abrir a porta; ao invés eu o deixava para
enfrentar aquela coisa sozinho.
Valentim lhe faz
um olhar de reprovação.
- Após algumas
noites, meu filho não gritou mais. Havia apenas o silêncio, a espera e o medo.
Foi então que eu pensei: “o homem selvagem finalmente o deixou em paz”.
Aliviado, eu criei coragem e finalmente abri a porta. Mas o que eu encontrei
foi uma grande tragédia. Meu filho estava morto. – revela ele, espantando-o –
Eu não sabia, mas ele tinha o coração fraco e não aguentou o pavor. Desesperado,
eu abracei meu filho e imediatamente disse: “por favor, acorde!”. Eu o sacudi,
sacudi e sacudi, mas ele não acordava. Eu implorei para que ele acordasse,
dizendo “por favor, meu filho querido, acorde”. Mas ele não acordou. Lágrimas
transbordavam dos meus olhos. O homem selvagem... – soluça ele – havia levado o
meu filho embora, conforme ele mesmo prometera que ia me fazer.
Vilko chora por
um momento, tomado por uma profunda dor.
- Mas o que vocês
queriam que eu fizesse? Meu pai me deixou sozinho para enfrentar o meu medo! Eu
era apenas um covarde! Então eu me escondi atrás de sua suposta educação e
forcei meu filho a enfrenta-lo também, mesmo eu nunca o tendo feito. – revela
ele – Eu pensei que logo o homem selvagem desapareceria novamente, deixando meu
filho em paz. Mas não foi isso o que aconteceu. Remorso tomou conta de mim. Eu
não pude superar a minha perda. Meu filho estava em algum lugar de onde viera
aquela coisa. Ele não morreu de susto, mas fora vítima de minha covardia. Eu
era um covarde como o meu próprio pai disse. Então eu fiz uma promessa... Uma
marcante promessa enquanto o caixãozinho do meu filho descia à cova. Eu prometi
que jamais seria um covarde novamente, e assim eu decidi entrar para a
Gendarmerie, seguindo uma profissão marcada pela valentia e pela bravura.
Enxugando as
lágrimas de seus olhos, o capitão revela:
- Anos depois, eu
fiquei sabendo da existência de uma estranha seita, um culto a um desconhecido deus
pagão. Era o culto de Exúvia. Esperançoso da possibilidade de ter meu filho de
volta, eu vendi minha alma a Exúvia, oferecendo inclusive o meu corpo como
casca para a sua futura encarnação. – olhando para o casal, ele diz – Sim,
Valentim, fui eu quem te guiou esse tempo todo para as mãos de Exúvia.
Então Valentim se
espanta.
Olhando ao redor,
o capitão comenta:
- Mas hoje eu me
vejo abandonado pelo culto, sendo deixado com meus pecados para trás. Meu filho
se foi, e agora eu sei que não o verei jamais. Todo o meu esforço... Toda a
minha dedicação... Ignorados. Fui abandonado por Exúvia... E deixado para trás.
O capitão abraça
a Davud, profundamente arrependido pelo o que fez.
Um minuto se
passa. Valentim reflete no que acabara de ouvir. Ele foi manipulado e trazido
para o templo de Exúvia para consumar o sacrílego ritual. Nada em sua vida
seria o mesmo dali por diante.
Então, com olhar
férreo, o inclemente Valentim responde:
- Suas escolhas e
seu passado não são problemas meus.
Tirando a faixa da
cabeça de Davud, Valentim lhe dá as costas e também o deixa para trás.
Enquanto Vilko
lamenta seu terrível ato, Davud abre os olhos; ele milagrosamente ainda estava
vivo. O guarda sussurra:
- Vejo Al Buraq voando ao meu lado... – ele
sorri – Ela é tão linda... – lágrimas se escorrem de seus olhos – Ela é tão
linda...!
Então a morte
chega e esmaga a todos os seus instintos, apagando o brilho de seus olhos.
Davud sucumbe e amolece, morrendo nos braços do capitão.
As paredes tremem
e uma enxurrada de água surge nas rachaduras. Em seguida o teto cede e o templo
desaba, soterrando-os para sempre.

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