domingo, 29 de agosto de 2021

Sonata - 45 - O Ministério de Segurança Pública


 

- A hora é agora! Não devemos desperdiçar o momento! Devemos aproveitar que a moral da tropa está alta!

Tokugawa exclamava no monitor. Database responde:

- Você tem certeza, Tokugawa-san? Um ataque agora que eles acabaram de perder sua primeira batalha? Isso pode ser desastroso. As forças de segurança podem ter se retraído e fortificado suas defesas.

- Eles não estão fortificando seus ministérios; eles estão fortificando as corporações! Eles são sustentados por elas e, por este motivo, as priorizam!

- Seu arsenal se encontra no Ministério de Segurança Pública. Ataca-lo seria o mesmo que atacar precocemente seu quartel-general.

- Mais um motivo para ataca-los! – insiste ele – O coração podre de Sonata bate devido ao comando de seus generais. Se desarmarmos suas tropas, eles não subsistirão.

Database pondera.

- A Bushido encabeçará o ataque no ministério sozinha? Vocês precisarão da ajuda de outras facções?

Tokugawa gargalha, exibindo seus dentes amarelados devido a tantos cigarros.

- Meus samurais são orgulhosos e honrados. Se eles dividirem sua vitória ao derrubar o império corporativo, que glória eles terão? 

O xogum fala de maneira antiga, como se a metrópole fosse o Japão feudal. Nos outros monitores, os líderes riem discretamente.   

- Pois, bem. O conselho decidirá por votação.

- Não será necessário. – interrompe o General Washington – Deixe-os atacar o ministério sozinhos. Eu adorarei ver esses porcos saudosistas queimarem sob o arsenal da polícia.

Insultado, o líder da Bushido diz:

- Como vocês estavam sendo até o Inimigo de Estado aparecer e salvar as suas vidas?

Então os líderes riem.

- Você julga que a 4 de Julho perdeu o respeito e o prestígio com os ataques da polícia, mas também não perdeu o seu país quando o vencemos e o humilhamos no fim da Segunda Guerra Mundial?

A discussão se acalora. Database intervém.

- Senhores, temos uma rebelião em andamento. Todos concordam que a Bushido deve atacar o Ministério de Segurança Pública?

O conselho é unânime em decidir. Os japoneses irão sozinhos.

- Temos o nosso próximo alvo, então.

Apontando o dedo para a câmera, Tokugawa diz:

- Não se esqueça do Inimigo de Estado. Esse rato sorrateiro deve vir comigo.

Levar Nathan era sua única exigência.

Todos concordam. Desligando os monitores, o conselho é encerrado.

Sentando-se em sua poltrona, Database descansa e bebe um gole de seu uísque. Olhando para o lado, o chefe encontra o rapaz sentado em silêncio no sofá. Ele pergunta:

- Algum problema, Nathan?

De mãos dadas e inquieto, o rapaz parecia perturbado.

- Database, os Trans-humanistas...

Nathan hesita em falar. Database pergunta:

- O que tem os Trans-humanistas?

- Eles não são apenas fanáticos. Eles são cruéis e assassinos...!

O chefe não compreende.

- Por que fala assim? Eles foram valorosos em combate ontem à noite. Pensei que estivesse feliz com a vitória.   

- Eles são uns monstros! – exclama ele – Quando chegamos ao terminal, eles o bombardearam com os civis ainda dentro.

Sem demonstrar reação, Database responde:

- Eram, na maioria, operários das corporações.

- Podia ter mulheres e crianças no meio.

- Improvável. As escolas foram fechadas devido a rebelião.

- E as mulheres? Muitas também são operárias.

- Não. – insiste ele – O governo as aconselhou a permanecerem em casa com suas famílias.    

O rapaz desconfia. Todavia, ele continua.

- Huxley me obrigou a matar!

Ainda sem reação, Database pergunta:

- Mas você matou?

- Não, mas eu tive sorte. – explica ele – O laboratório da Bio Prótesis explodiu antes. Do contrário, ele teria me obrigado.

- Obrigado?

- Sim, se não ele mataria um runner.

Respirando fundo, o chefe discursa:

- Nathan, a metrópole o vê como um salvador, o corajoso Inimigo de Estado ousado o bastante para expor os segredos corporativos e iniciar a Rebelião. Há uma guerra lá em cima e foi você quem a declarou. Não existem meios pacíficos para vencê-la, a população foi oprimida demais. Ora, eles temem o risco de extermínio! – refere-se ele ao Projeto Gemini – Na sua pessoa, eles enxergam o único que pode salva-las do fim. Não há convivência com um governo genocida. Eles querem destruí-lo, eles querem sangue e você é o herói quem irá derrama-lo.

O rapaz se assusta.

- Mesmo que o herói tenha de matar?

Dando de ombros, ele responde:

- Heróis matam.

Os dois ficam em silêncio por um tempo. Estranhando a tranquilidade de seu chefe, Nathan pergunta:

- Database, por acaso você sabia das ações dos mecanicistas?

Ele bebe seu uísque.

- Não. – mente ele – Eu não sabia.

O rapaz ainda desconfia. Database não apenas sabe como também aprova as ações dos Trans-humanistas. Ele não era diferente das facções; ele era igual.

De repente o vidphone toca. Atendendo-o, ele volta a tratar de seus assuntos.

Antes de sair pela porta, o chefe o interrompe, dizendo:

- Vá dormir, Nathan. Descanse. Hoje à noite você tem outra festa para ir.

 

§

 

Em um furgão com outros runners, Nathan sobrevoa o distrito Orion, Setor F. Desta vez ele se precaveu, decidindo não entrar no mesmo aerocarro com os terroristas.

- Ei, olha só isso. – cutuca um runner – Veja só os aerocarros desses japoneses.

Os samurais viajavam em carros coloridos, brilhantes e cheios de enfeites.

- Não parece um carnaval? – ri ele.

- Sim. – responde ele, apático.

- Algum problema, cara?

Nathan estava preocupado. Desde o início da Rebelião, aquela era a primeira vez que ele partia em uma missão sem Vertigo. Ao perguntar para o Database, ele responde que já está investigando seu paradeiro.

- Estou preocupado com o Vertigo. Você teve notícias dele?

- Nenhuma. – responde o runner – Achei que ele tivesse se ferido na Bio Prótesis.

- Ou tivesse morrido. – responde uma runner de jaqueta amarela e cabelos azuis – O laboratório se explodiu aquela noite. Pelo o que eu soube, ele estava lá dentro quando explodiu.

Intrigado, o rapaz pergunta:

- Mas por que ele estaria lá dentro? Para quê?

A garota sacode os ombros, assoprando uma bola de chiclete e estourando-a em seguida.

O motorista diz:

- Ministério da Segurança Pública à frente! É o seguinte: eu quero todo mundo com o documento de identidade em mãos. Não preciso lembrar que menores não podem beber, certo? Ah, e menores só na presença dos pais ou responsáveis.  

Ao ouvir as brincadeiras, a runner diz:

- Cale a boca, Trent! Aqui é o Ministério de Segurança Pública e não uma delegacia de polícia!

- Ah, mas polícia é o que mais teremos aqui... – se espanta ele.

Pela janela, Nathan vê um batalhão policial inteiro protegendo o ministério.

- Vejam quantas viaturas! – sussurra o motorista ao ver o brilho de seus giroflexes.

- Parece até uma árvore de natal...

Minutos depois eles se posicionam sobre as megatorres. O prédio do ministério tinha um arquitetura interessante. Era um monólito de concreto semelhante à arquitetura brutalista do século XX. “O século das ideologias humanistas mais genocidas da história da humanidade”, lembra-se ele.

Um carro preto com vidros filmados se estaciona ao seu lado. De seu interior sai um homem robusto vestindo quimono e duas espadas em sua cintura. Nathan o reconhece; é o Xogum Tokugawa.

Mais aerocarros se estacionam. Os samurais se desembarcam e preparam suas armas. Suas armaduras eram lindas e brilhavam com as luzes. De fato, aquelas eram as indumentárias mais lindas que ele já viu.

Vendo aquele homem carrancudo se aproximar com meia dúzia de samurais ao seu lado, o rapaz se intimida.

- Nathan-san, espero que você e seus runners combatam com honra esta noite.

- Faremos o que for preciso, Xogum Tokugawa.

Observando aqueles moleques mal vestidos com cabelos pintados e óculos coloridos, o xogum pergunta:

- Tem certeza que sua gente pode te proteger?

Apesar de suas táticas inusitadas, os runners eram um bando de delinquentes e maltrapilhos perto dos samurais disciplinados e bem armados da Bushido.  

- Não se preocupe. Quando os confrontos começarem, eu manterei a distância.

Tokugawa sorri.

- E perderá a chance de se tornar um guerreiro de verdade? Pensei que os Trans-humanistas tivessem dado um jeito nisso.

Intrigado, o rapaz pergunta:

- O que quer dizer?

- Você vem com a gente.

Puxando-o, os runners apontam suas armas. Como consequência, os samurais as apontam também. O rapaz intervém:

- Esperem! Está tudo bem! – recompondo-se ele diz – Eu me comprometi a acompanhar as facções durante os ataques. Hoje eu irei com a Bushido.

Tokugawa assente.

- Escolheu bem.

Então o xogum veste sua armadura. Nathan se surpreende. Tokugawa usava uma armadura negra, vermelha e com chifres no capacete. A aparência o desconforta. Era como se o rapaz estivesse na presença de um demônio.

Colocando um comunicador, Nathan ouve os samurais conversando. Uma voz familiar fala ao seu ouvido. Ele a reconhece.

“Xogum Tokugawa, solicito permissão para atacar”.

- Entendido. Pode começar, kyaputen Yamada.

Então uma aeronave passa rapidamente sobre eles. Aproximando-se do ministério, os policiais detectam sua presença e respondem atirando com canhões antiaéreos. A aeronave é alvejada, mas, antes de sucumbir, ela consegue soltar sua bomba. A explosão é tão forte que sopra uma onda de ar quente ao redor, estilhaçando as vidraças e derrubando os aerocarros próximos.

Exasperado, o xogum ordena:

- Destruam aqueles canhões!

- Hai! – respondem os samurais.

Os coloridos aerocarros levantam voo e partem em direção ao ministério. Ao mesmo tempo, viaturas policiais saem do interior do prédio. Uma batalha aérea estava prestes a começar.

“Não é um simples prédio, senhor! É um vasto abrigo de viaturas policiais!”, alerta Yamada.

Tokugawa pondera. Olhando para Nathan, ele diz:

- Venha, Inimigo de Estado. Vamos afundar esse porta-aviões!    

- O quê? – confunde-se ele.

Colocando-o no aerocarro, o motorista levanta voo e parte para o confronto. O rapaz sente forte cheiro de incenso lá dentro, fazendo-o se enjoar. Enquanto voam, asas se formam sob o assoalho, turbinas surgem no porta-malas e metralhadoras se levantam do capô. Nathan se impressiona.

- Posicionem os Zeros! Formação de ataque! – ordena o xogum.

“Zeros?”, pergunta-se ele. Tokugawa apelidara seus aerocarros modificados com o nome dos antigos caças do Império Japonês.

Com uma metralhadora em sua mão, Tokugawa abre a janela e atira contra as viaturas próximas.

- Aqui, Nathan-san. Me ajude a abatê-los.

O rapaz vê uma belíssima metralhadora japonesa em seu colo. Ele diz:

- Senhor Tokugawa, eu não sei atirar.

- Apenas aperte o maldito gatilho, droga! – exclama ele – E depressa! Esses vidros não são a prova de balas.

O motorista olha pelo retrovisor. Tokugawa estava mentindo.

Uma viatura atira contra o aerocarro, pipocando sua lataria. Eufórico, o xogum gargalha.

Olhando para baixo, Nathan vê a frota de viaturas e Zeros se atacando. Era como ver um enxame de aviões de guerra voando em combate.

Posicionados nas laterais do Ministério de Segurança Pública, os canhões atiram contra as aeronaves da Bushido. Uma é atingida e mergulha entre as megatorres, engolida pelas chamas.

- Kyaputen Yamada, recue as aeronaves tripuladas! Devemos destruir as viaturas e os canhões primeiro!

“Hai!”.

As viaturas combatem firmemente, mas são apenas aerocarros comparados aos Zeros japoneses. Tiros atingem o teto, assustando Nathan. Uma viatura os seguia. Ativando as turbinas, o Zero acelera e o afunda em seu banco. Nunca antes em sua vida ele viu manobras tão arriscadas quanto aquelas. O motorista não era um samurai de combate a pé, mas um legítimo piloto de aviação.    

Piruetas e loopings o jogam de um lado ao outro. Enquanto fuma um cigarro, o xogum atira com sua metralhadora, gargalhando com o inimigo abatido.

“Loucos...!”, pensa Nathan. “Eles são todos loucos!”.

O piloto sobrevoa tão rápido a lateral dos edifícios que o rapaz poderia toca-las com as suas mãos. Com os tiros e os aerocarros desgovernados caindo por toda parte, o distrito se torna um sangrento campo de batalha.

“Eles também não tem apreço pelos inocentes!”, pensa ele. “Centenas estão se ferindo lá embaixo e eles não se importam!”.

Fogos de artifício se estouram no céu, atrapalhando os policiais. Intrigado, Nathan olha para baixo e se surpreende. Próximo ao ministério, ele vê uma manifestação em andamento.

- Mas que diabos...!

Pessoas carregam cartazes e gritam o nome de Nathan. Eles apoiavam seu salvador e herói, o Inimigo de Estado.

- Parece que eles vieram apoia-lo, Nathan-san!

Assentindo, ele diz:

- Mas quem os convocou?

Uma rajada atinge sua janela, assustando-o.

- Use sua arma! – ordena o xogum.

Atirando de volta, os motores de uma viatura pegam fogo e ela se explode, matando os policiais.

- Meu Deus! – espanta-se ele.

- Não pare! Os seus amigos runners estão morrendo lá embaixo.

Atirando nos edifícios próximos, os canhões pulverizam a posição dos runners. Nathan ativa seu comunicador e diz:

- Atenção, runners! Não ataquem o prédio frontalmente! Adotem táticas sorrateiras! Os canhões devem ser neutralizados imediatamente!”.

Tokugawa se surpreende.

- Ora, ora, temos um comandante aqui?

O rapaz vê os runners deixarem os terraços e pularem sobre as tubulações e plataformas adjacentes. Ágeis e habilidosos, os policias não os veem chegando, pois estavam ocupados abatendo os Zeros.

Dividindo-se em equipes, os runners se dirigem aos canhões espalhados pelas aberturas das fachadas. Enquanto atiram, os policiais olham para trás e veem jovens de roupas coloridas apontando armas para eles.

- Boa noite! – diz uma runner.

E então ela e sua equipe atiram, eliminando os atiradores e o grupo de apoio.

“Nathan! Tomamos um canhão. Devemos seguir a outro?”.

- Não. Se tiverem explosivos, destruam-no! Destruam todos se possível. E não fiquem próximos deles, os japoneses estão atacando-os agora.

“Entendido”.

A batalha aérea parecia vencida. Então o xogum se preocupa. Ao longe, ele vê mais viaturas policiais chegando; a polícia havia chamado reforços.

- Tokugawa-san, reforço inimigo a caminho!

Muitos Zeros foram abatidos em combate. Com o reforço se aproximando, eles não poderiam mais vencê-los. Falando ao comunicador, o xogum diz:

- Kyaputen Yamada, mantenham a posição. Não recuem!

Nathan se atemoriza. Permanecer significava uma batalha perdida.

Uma explosão é vista na fachada do Ministério de Segurança Pública. Os runners destruíram um canhão. Infelizmente os outros continuavam a atirar, abatendo-os.

“Nathan, os policiais nos encurralaram no prédio. Tem gente morrendo aqui!”.

- Os runners estão morrendo! – espanta-se ele – Vou pedi-los para recuar.

- Não! – ordena Tokugawa – Ninguém recuará aqui. Ou venceremos esta batalha ou todos morreremos juntos.

- Xogum Tokugawa, não estamos no Japão feudal! Não há honra na morte! Se ficarmos, nós vamos morrer!

O xogum ri.

- Ao contrário, Inimigo de Estado. É na derrota que não há honra e meus samurais não serão desonrados se acovardando perante o inimigo.

O rapaz insiste.

- Devemos partir antes que seja tarde demais!

- Vocês devem? – desconfia ele – Eu sei o que está pensando. Você quer reagrupar seu séquito e deixar o distrito. Não, isso não vai acontecer.

- Tokugawa, isso não é sobre mim, é sobre os runners! Aqui eles não poderão sobreviver!

Ignorando-o, ele diz:

- Os Trans-humanistas não te tornaram um guerreiro. Na verdade, você ainda não passa de um agitador das massas... – menospreza ele – Mas eu te tornarei um. Você fica.

Nathan não consegue acreditar no que ouve.

- Kyaputen Yamada, este porta-aviões está testando a nossa meta. Só há um meio de afunda-lo. Chame os Kamikazes!

Mas não haviam Kamikazes para chamar. O xogum falava deles mesmos.

O reforço chega metralhando impiedosamente os Zeros. Em menor número, eles são facilmente abatidos no ar. Os canhões ainda estão operacionais no prédio, os runners não conseguiram neutralizar todos.

Voando em um rasante, um Zero atravessa o céu. Estarrecido, Nathan assiste o veículo mergulhar em chamas entre as viaturas e se chocar contra o edifício. A explosão se reverbera pelo ar, abafando o som das sirenes.

- Tokugawa, isso foi suicídio...!

- Não! – contesta ele – Isso foi morrer com honra! A maior de todas as honras é morrer em batalha!

O rapaz ouve outro rasante. Passando próximo ao seu aerocarro, um Zero atravessa as viaturas e se explode contra os canhões, neutralizando-os.

- Isso é loucura! Nós temos que recuar!

O líder se irrita.

- A Bushido odeia e despreza os covardes! Controle-se, homem! Endireite-se! Você é o Inimigo de Estado. Prefira morrer em pé ao viver de joelhos.

Lembrando-se dos seguranças da Bio Prótesis, ele pondera. Todos se renderam ao fim da batalha e, como recompensa, foram executados um por um. E eles estavam ajoelhados.

- De que servirá a Rebelião se morrermos aqui?

- Vida e morte são dois lados da mesma moeda, garoto. Dois extremos de uma mesma vela que se apagará. Você valoriza demais a vida. Entenda que, para uma semente germinar, o fruto externo deve morrer.

O xogum falava filosoficamente como se suas palavras procedessem de uma sabedoria oriental.

Tiros perfuram o aerocarro e atingem o motorista. Ele grita.

- Xogum Tokugawa! Fui comprometido...!

- Consegue suportar?

Tocando seu peito, suas mãos se sujam de sangue.

- Eu não sei...!

- Então sabemos o que devemos fazer. Samurai, foi uma honra!

Tokugawa segura seu ombro, agradecendo-o. Ofegante, o motorista responde:

- Foi uma honra, senhor...!

Nathan observa no banco de trás e não entende o que está acontecendo. De repente o motorista alinha o volante e ativa a turbina, potência máxima.

- O que ele está fazendo?

O xogum seriamente responde:

- Cumprindo a missão.

O aerocarro avança em direção ao ministério. Os projéteis atingem a lataria, atravessando o estofado e desestabilizando a direção. O painel brilha em vermelho, soando alarmes e emitindo os alertas críticos. Vendo o enorme prédio se aproximando, o rapaz se desespera e grita.

Em uma abertura, um canhão aparece às suas frentes. O veículo voa tão rápido que Nathan consegue ver os policiais operando-o. De repente eles fogem, temendo o ataque suicida. Então, vindo de outra direção, uma viatura se choca contra o Zero e ele muda de direção, voando pela passagem e caindo dentro do edifício.

Faíscas e estalos aparecem a cada impacto. O rapaz é lançado de um lado ao outro, como um boneco de pano inerte. Se arrastando pelo piso, o Zero se desliza até se chocar contra os pilares, encerrando seu pouso forçado.

Policiais se aproximam. Sentindo o cheiro de fumaça e de combustível, eles temem uma explosão. Em seu interior eles veem três homens desacordados. Nathan havia desmaiado na colisão.    

 

  

 

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Sonata - 44 - O Destino de Vertigo

 


No terraço do edifício, Nathan e os trans-humanistas se reúnem no heliponto. Após o duro combate, as forças policiais fugiram e os seguranças corporativos foram deixados para trás, caindo nas mãos de seus inimigos. Agora capturados, os remanescentes são postos de joelhos diante dos invasores. Huxley caminha pelo heliponto e encara todos eles. Com uma arma em sua mão, ele tenta intimida-los e extrair informação.

Aproximando-se do rapaz, ele pergunta:

- Ei, garoto. Até onde você vai para encerrar sua rebelião?

Nathan está cansado e ferido. Chamando no comunicador, Vertigo não responde. Os runners estão presentes, mas nenhum pode fazer nada contra os poderosos mecanicistas.

- O que quer dizer? – confunde-se ele.

- Escolha um deles, aponte sua arma e atire.

O líder insistia em fazer do rapaz um assassino.

- Eu não vou fazer isso.

- Faça. – ordena ele – Se não você não sairá daqui.

- Huxley... Eu não sou um assassino!

- E o que eles são? – pergunta ele, irritado – Você se esqueceu do Projeto Gemini? As corporações querem exterminar a população para depois substitui-la. Eles não são assassinos, eles são genocidas!

- As corporações são as responsáveis, mas estes homens são inocentes...

- Inocentes?! – indigna-se ele – Mercenários contratados para matar em prol dos interesses corporativos. Por séculos as corporações promoveram seu plano genocida, protegidas por pessoas inescrupulosas que reprimiam quem ousasse denuncia-las. Eles são cúmplices! Não há diferença entre eles e seus dirigentes!

O líder tinha razão.

- Mas eu não preciso ser igual a eles.

- Não, você precisa ser pior. – retruca Huxley, surpreendendo-o – Operando acima da lei, as corporações matam, roubam e destroem. Sabendo disso, as pessoas ignoram e fecham os olhos, pois dependem delas para sobreviverem. Então eu te pergunto: quem são os terroristas? Aqueles que praticam o terrorismo psicológico e aprisionador ou aqueles que combatem e libertam?

Huxley relativizava suas ações, demonizando seus inimigos e justificando a si mesmo.

- Eu não posso fazer isso.

Irritando-se, o líder agarra um runner e aponta uma arma para sua cabeça.

- Vamos mudar o jogo. Se você não atirar, seu amigo delinquente da superfície morre. A vida dele está em suas mãos. A escolha é sua.

Pressionado, o rapaz ergue sua arma. Enquanto olha para o segurança diante de si, suor escorre de seu rosto e suas mãos tremem. Seu coração bate tão rápido que parece que vai sair por sua boca.

Destravando sua arma, Huxley diz:

- O tempo está passando, Nathan. Devo contar até três?

O rapaz põe o dedo no gatilho. Ele está prestes a atirar.

 

§

     

Longe dali, Laura caminha pelos salões do laboratório principal. Ao seu redor, ela vê as sofisticadas próteses biomecânicas em desenvolvimento. Pegando seus aparelhos de hackeamento, ela desarma os sistemas de segurança e entra em uma câmara protegida.

Rodeada por paredes brancas, a garota caminha por laboratórios onde eram desenvolvidos componentes simbióticos a nível celular. Em frascos de vidro, ela sabia para que aquelas substâncias serviam. Ao serem enxertadas no corpo, as próteses sofriam rejeição por parte do organismo vivo. A Bio Prótesis desenvolvia uma droga capaz de driblar as barreiras fisiológicas e adaptar o hospedeiro. Era um processo de assimilação tecnológica e orgânica, como um simbionte.   

Neblina branca passa por suas pernas. Laura se sentia em uma bizarra nave alienígena. Aproximando-se de seu objetivo, ele avista um monitor tão frio que cristais de gelo se formavam em suas pontas. Prestes a toca-lo, uma voz atrás de si diz:

- Afaste-se deste console, Laura.

Assustada, ela reconhece a voz. Então ela se vira.

- Vertigo...?!

O hacker apontava uma arma para ela.

- Foi por isso que você veio, não é?

A garota não compreende.

- Do que você está falando?

- Você não veio para ajudar o Submundo, a Rebelião ou a mim. Você nem mesmo se importa com a nossa causa! Você veio para roubar a Bio Prótesis.

Vendo que ele não abaixava a arma, Laura diz:

- Vertigo, o que você pensa que está fazendo?

- Eu? – ri ele – Eu poderia perguntar o mesmo. Para quem você está trabalhando? Para o Database?

- Não é para o Database.

- Então para quem?

A garota não responde. De fato, ela não tinha a menor obrigação de responde-lo. Ao invés, ela faz outra pergunta.

- E você, Vertigo? Invadindo uma área corporativa restrita... Tenho certeza de que não foi para me seguir. Então responda-me: para quem você trabalha?

- Eu não estou trabalhando, eu me aliei a eles.

- Quem?

Diferente dela, o hacker não guardaria segredos.

- Os Trans-humanistas.

Surpresa, a garota gargalha.

- Essa é mais uma de suas piadinhas?

Ainda sério, Vertigo meneia negativamente a cabeça.

- Os Trans-humanistas me deram um motivo para lutar.

Rindo, Laura diz:

- Vertigo... Essas pessoas são terroristas! Por que você se aliaria a esses assassinos?

- E o que somos nós, Laura? – protesta ele – O que são os ousados runners da superfície? Por dinheiro e prestígio nós roubamos e matamos aqui em cima. Você mais do que ninguém sabe isso. Quando fugimos do Ministério da Informação, você matou gente! Vi com meus próprios olhos você fazer isso. E agora eu te pergunto: onde nós somos diferentes?  

Laura não sabe o que dizer. Passando alguns segundos, ela confronta:

- Então foi essa a razão da sua mudança de comportamento, não é mesmo? Você aderiu à causa do mecanicistas!

- Eu tentei te dizer que não queria mais fazer parte da superfície. Eu queria algo que desse sentido à minha vida. Muitos me chamam de habilidoso e inteligente, mas poucos sabem da miséria onde vivemos e do que fazemos para sobreviver. Eu não quero ser um rato dos túneis para sempre. Sou apaixonado pela tecnologia e também o são os mecanicistas! Então, entre escolher em viver vagando pela superfície, ou com um objetivo claro nos níveis superiores, não foi uma escolha difícil a se fazer.

Sem acreditar no que ouve, a garota responde:

- Mas Vertigo, você era meu amigo! Nós crescemos juntos e passamos por muitas situações juntos! Você é mais do que isso!

- Sim, sou! – confirma ele – Mas não muito, afinal eu ainda sou um delinquente suburbano com ambições de crescimento social...!

Mais palavras criativas de seu velho amigo. Desconcertada, Laura pergunta:

- Por quê, Vertigo? Por quê?

- Por uma série de fatores. Minhas teorias da conspiração não são tão teorias agora que o Projeto Gemini existe, não é? Aliás, eu amo a tecnologia e acredito honestamente que a humanidade progredirá com seu avanço. Não é exatamente isso o que os Trans-humanistas acreditam?

Amargurada, ela comenta:

- Eu me arrisquei para resgata-lo de sua sede. Eu inclusive pedi ajuda aos psicopatas da pior espécie. E é assim que você me retribui?

Intrigado, o hacker insiste:

- De que psicopatas está falando?

A garota finalmente revela.

- A Resistência Purista.

Desta vez é Vertigo quem se desconcerta.

- Laura...! Você e os nazistas da pureza física? Por quê?!

- E não é óbvio? Quem são seus arqui-inimigos?

Ponderando, o rapaz diz:

- Você se aliou a eles para te ajudarem a me resgatar. E é por isso você está aqui hoje, para pagar o favor.

- Eu faria tudo por um amigo.      

- E o que eles te pediram em troca? Espionagem industrial? Sabotagem? Uma agente dupla no Submundo?

Interrompendo-o, ela responde:

- Eles me pediram para explodir a Bio Prótesis.

O hacker arregala os olhos. Ponderando mais uma vez, ele entende o plano. Laura intentava destruir a tecnologia corporativa para que ela não caísse nas mãos dos Trans-humanistas. É por isso que ela estava ali. A garota estava usando Nathan e a rebelião como uma cortina de fumaça, uma distração necessária para invadir o laboratório da corporação e explodi-lo.

- Eu aderi à causa Trans-humanista enquanto que você se aliou à Resistência Purista. E foi assim que nossos caminhos se separaram. Separados por dois inimigos mortais. Que ironia...

- Não! – protesta ela – Eu me aliei aos puristas para te salvar. Eu não aderi à sua causa!

- Mas é irônico ainda assim. Como um destino fatalista.

A garota sorri.

- Você está começando a soar como o Database.

Vertigo também sorri.

- Talvez sim. Na verdade, eu aprendi isso com ele...

Os dois riem. Apesar de tudo, os dois ainda eram amigos. A garota diz:

- Abaixe sua arma, por favor.

- Não posso. – responde ele – Assim como você, eu também tenho assuntos aqui.

O hacker estava lá para roubar a tecnologia corporativa. Nasier tinha razão. Os Trans-humanistas queriam rouba-la o tempo todo, por isso desejavam atacar a Bio Prótesis.

Laura pega algo em sua bolsa. Vertigo destrava sua arma. Acenando, a garota tira um objeto e o põe sobre o console. Era uma bomba.

O hacker pergunta:

- Você sabe que, se destruir este lugar, você estará atrasando a tecnologia em Sonata em pelo menos vinte anos, não é?

- Eu não me importo.

- Cegos não enxergarão, surdos não ouvirão, paraplégicos não andarão... Tem certeza que não se importa?

Cheia de desprezo, ela responde:

- Não seja cínico! Você também não se importa! Cegos, surdos e paraplégicos morrerão igualmente em atentados terroristas cometidos pelos Trans-humanistas e sua nova tecnologia corporativa.

Laura tinha razão. Vertigo não tinha o que responder.

Explosões são ouvidas lá fora. Então o hacker comenta:

- Está ouvindo? A população está se manifestando a favor da rebelião. Eles acreditam em Nathan e querem derrubar as corporações também. Nos ajude a vencê-las!

Desinteressada, ela responde:

- Eu tenho mais o que fazer.

- Eu me aliei ao Trans-humanistas para salva-los...

- E eu aos puristas para te salvar. – interrompe ela, acusando-o.

A garota intenta ativar a bomba. Vertigo intervém.

- Eu estou aqui para roubar a tecnologia. Não posso deixar você destruí-la.

- Vertigo... – ameaça ela – Não tente me impedir.

- Pensei que nossa amizade fosse importante!

A garota estava se cansando daquela conversa.

- Ela é. – responde ela – Mas minha reputação é mais.

Outra explosão ocorre lá fora, desconcentrando-o. Rápida como um relâmpago, Laura saca sua arma e atira no hacker, derrubando-o no meio dos frascos.

Virando-se, ela ativa a bomba e deixa a câmara protegida. Antes de passar pela porta, ela vislumbra Vertigo pela última vez. O hacker estava caído no chão, não demonstrando sinal de vida. Lágrimas se escorrem de seus olhos e ela se desanima. Ela, então, diz:

- Desculpe-me, Vertigo. Mas fazendo-se amigo das facções, você se fez meu inimigo. Adeus, meu amigo.

Ao sair, as portas se fecham e ela vai embora.

 

§

 

- Qual é o problema?! É tão difícil você fazer isso?

Então Huxley aperta o gatilho. O segurança cai no chão, sem vida. Nathan se horroriza. As facções eram covis de assassinos.

Agarrando novamente um runner, o líder ameaça:

- Última chance!

Com o ultimato, o rapaz pergunta:

- Se eu apertar o gatilho, você deixa os runners e os seguranças viverem?

Encarando-o, Huxley responde:

- Você tem a minha palavra.

Enxugando o suor de sua testa, Nathan aponta sua arma e fecha seus olhos. Então algo acontece.

Uma explosão balança todo o prédio, estourando as janelas abaixo. Os Trans-humanistas se desequilibram, caindo no chão do heliponto. Confuso, o líder se levanta e pergunta:

- Mas o que foi isso?!

O capitão da facção responde:

- Senhor, a explosão veio do laboratório!

- O quê?! – exclama ele – O Vertigo está lá embaixo!

Então Nathan se intriga. “Como ele sabia que Vertigo estava lá embaixo no laboratório?”.

- Não é possível contatá-lo, senhor! O comunicador está desligado!

Huxley se preocupa, ele pensava em toda a tecnologia oculta no laboratório corporativo. O capitão pergunta:

- Será que ele ativou algum sistema de segurança explosivo?

- Impossível! – responde o líder – Vertigo é um hacker experiente. O melhor. Ele era o único com as habilidades exigidas para invadir o núcleo.

Soldados trans-humanistas sobem as escadas e informam.

- Senhor, a suspeita foi confirmada. O laboratório foi destruído.

Com as mãos na cabeça, Huxley se lamenta.

- Não pode ser...!

O líder se lamenta. Interrompendo-o, o capitão pergunta:

- O que faremos, senhor?

Vendo que a batalha fora vencida e que a Bio Prótesis estava sob seu controle, ele responde:

- Vamos embora. Mas mantenham os comunicadores ligados. Se Vertigo estiver vivo, enviem uma equipe para busca-lo.

- Sim, senhor!

Enquanto os soldados preparam as aeronaves, o capitão pergunta:

- Senhor, o que faremos com os prisioneiros?

Então o líder se lembra dos seguranças rendidos. Sem se importar, ele ordena:

- Elimine-os.

Dada a ordem, o tenente alinha sua equipe e aponta seus rifles. Em seu sinal, todos atiram, atravessando os seguranças com os poderosos lasers.

Nathan assiste a tudo aquilo em choque. Os Trans-humanistas não eram apenas terroristas, eles eram maus.

Aproximando-se, Huxley toca seu ombro e diz:

- Até mais, garoto. Outro dia continuaremos nossos assuntos.

O rapaz se indigna.

- Outro dia?! Eu espero não vê-lo nunca mais!

O líder ri.

- Mas você irá, garoto. Você irá.

Dando-lhe as costas, Huxley passa por aquela pilha de corpos e entra em seu aerocarro.   

 

§

 

Acordando, Vertigo sente dor e vê sangue em suas roupas. O cheiro de fumaça paira no ar e ele vê o incêndio à distância. A Bio Prótesis ardia em chamas. Encolhendo-se, ele se vira para o lado e tosse, ele estava sentindo muito frio.

- Ei, rapaz! Acorde!

O hacker se vê cercado por vários homens. Um deles aparentava ser o líder e falava com ele. O líder vestia casaco marrom e sapatos sociais. Vertigo pergunta:

- Quem é você?

- Eu sou o Detetive Burton. Prazer em conhece-lo. - o detetive sorri, ele estava sendo irônico - Como se chama, meu jovem?

- Vertigo. 

- Vertigo? - intriga-se ele - Por acaso você sofre de vertigem?

Revirando os olhos, ele responde:

- É só um codinome. 

- E como se chama de verdade?

O hacker não responde. Olhando ao redor, ele se vê em um andar vazio de uma megatorre em construção.

- Onde é que eu estou?

- Em um local seguro.

Vertigo tenta se levantar, mas o buraco de bala dói em sua barriga. Pressionando-o, ele tenta estancar o sangue.

- Não se preocupe. – diz Burton – Eu te dei um medicamento cicatrizante. Você não vai morrer.

As pessoas ao redor eram policiais disfarçados. Apesar de se vestirem como civis, sua postura opressora e abusiva os denunciavam.

- O que vocês querem?

- Te parabenizar. Seu discurso realmente nos emocionou. Então você sempre quis ser um cidadão dos níveis superiores? E para isso teve a brilhante ideia de se aliar a uma facção?

Os policiais riem.

- Você estava me observando?

- Eu sou um detetive, não sou?

Eles ficam em silêncio por um tempo. Então o hacker diz:

- O que quer que esteja planejando, você perdeu. Vocês perderam a batalha essa noite e os seguranças foram capturados pelos rebeldes. Acabou.

- Não, rapaz, não acabou. Não estávamos aqui para batalhar, mas para mandar um recado.

Vertigo se intriga.

- Um recado? Para quem?

- Para o Inimigo de Estado.

Então ele ri.

- O Nathan?! – admira-se ele – Ele é um marionete da superfície, das facções, do Submundo, de todo o mundo...! Um cara emocional e impulsivo que sempre se prejudica por isso. Se vocês lhe dão importância, vocês o superestimam.

Olhando para seus companheiros, Burton comenta:

- E nós pensando que vocês eram amigos... Que belo amigo você é.

Ao expor seu cinismo, o hacker se constrange.

- O que vocês querem de mim? – pergunta ele.

- O Inimigo de Estado pode ser um cara patético como você diz, mas ele ainda tem o apoio do povo. Na metrópole é o povo quem sustenta o comércio, os ministérios e as corporações. Se perdermos o controle sobre ele, perderemos o nosso poder.

O hacker ri.

- Vocês querem o poder? Já não o tem o suficiente? Por que se incomodar com o Inimigo de Estado, então? Matem-no de uma vez e terão o que desejam.

- Não é tão simples. Queremos sufocar a Rebelião, e não prolonga-la indefinidamente. Nós queremos capturar o Inimigo de Estado, mas, para isso, precisamos que você o envie um recado para nós.

Intrigado, ele pergunta:

- E o que vocês querem que eu o diga?

Os policiais riem maliciosamente. Burton responde:

- Não, você não precisa dizer nada. – o detetive saca sua arma e a aponta para sua cabeça – Precisamos que você morra.

Vertigo arregala os olhos.

- No que minha morte fará diferença?

- Esta caçada está demorando para terminar. Nathan é uma presa difícil de se abater, terroristas e delinquentes como você o protegem.

Raciocinando rápido, Vertigo diz:

- Eu posso ser mais útil para você vivo. Se me deixar ir, eu me tornarei um espião no Submundo. Você terá informações valiosas.

- Você já traiu o Submundo. Eles nunca te aceitarão de volta.

- Nathan ainda confia em mim.

- O Inimigo de Estado ama a garota e ela sabe a verdade sobre você. Quando sua traição for revelada, ele ficará ao lado da runner.

- Minhas habilidades com sistemas de segurança são excepcionais. Sou o melhor hacker da superfície. 

- Não podemos deixar alguém com suas habilidades livre por aí. Você seria uma ameaça até para nós. 

O hacker desiste. Respirando fundo, ele enxuga o suor de sua testa e ousadamente responde:

- Eu perdi a superfície, as facções e meus amigos. Vá em frente. Eu aceito o meu destino. Não resta mais nada em mim.

O detetive responde:

- Você traiu a superfície e seus amigos em prol dos seus objetivos. Se em algum dia houve lealdade em você, foi com você mesmo.

Vertigo está de joelhos com as mãos em sua ferida. Ao ver sua vida se desmoronando diante de seus olhos, ele reconhece que a morte era a única saída aceitável a se escolher.   

- Eu aceito o meu destino. – sussurra ele.

- Algumas últimas palavras?

Ele se enche de desprezo.

- Eu não tenho medo de você. 

Burton sorri. 

- Qual é o seu nome, garoto? Sem codinomes desta vez. 

Pesaroso, o hacker se distrai.

- Eliot. - responde ele - O meu nome é Eliot. 

Burton assente. De repente ele puxa o gatilho. A bala atravessa a testa do hacker e ele cai no chão, sem vida. Uma poça de sangue se forma e seus olhos perdem o brilho. Satisfeito, o detetive guarda sua arma.

Nathan entenderá o recado. Burton está perto. Seus amigos estão morrendo. Em sua caçada implacável, ninguém está a salvo.

“Eu estou chegando...”, pensa ele. “Inimigo de Estado”.

 

 

 

 

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Sonata - 43 - Bio Prótesis


(Arte de Evan Liu)


Com Nathan em sua sala, Database se reúne com as facções por vídeo conferência. O clima de hostilidade e desconfiança era mútuo. Devido aos segredos e desavenças, não era prudente convidá-los para comparecerem pessoalmente ao Submundo.

- Boa noite, senhores. Eu, Database, chefe do Submundo na presença de Nathan Hill, o Inimigo de Estado, apresentaremos a estratégia a seguir. Nós atacaremos a corporação Electro Core, responsável pelo abastecimento de água e, energia da cidade. Isto debilitará a metrópole e principalmente, o esforço de guerra corporativo.

- Objeção. – responde Huxley, líder dos Trans-humanistas – Nossa organização prioriza a derrubada da corporação Bio Prótesis, responsável pela engenharia robótica e biomecânica. Desta maneira, a tecnologia destinada aos policiais, drones e Securitrons será interrompida, dando uma vantagem aos soldados de nossa facção.

Rindo no outro monitor, Nasier, líder da Resistência Purista, responde:

- É mentira! Nós sabemos que vocês não querem destruir a Bio Prótesis. Ao contrário, vocês querem se apoderar de sua tecnologia para aprimorar suas próprias aberrações biomecânicas e, assim, nos enfraquecer!

Huxley replica:

- Não, Nasier. Isso não será necessário. Seus soldados são apenas carne e ossos, diferente dos nossos, que são quase máquinas. Vocês já são fracos.

Então uma discussão se inicia. Database é obrigado a intervir.

- Senhores, creio que o tempo de todos é muito precioso para desperdiça-lo inutilmente. Este conselho foi criado para adotarmos a melhor estratégia para a Rebelião. Nasier, se você se sente prejudicado, sinta-se à vontade para nos apresentar a melhor estratégia.

- É claro. – responde o purista – Se for do interesse do conselho que os espólios sejam repartidos justamente e que ninguém saia em vantagem em relação ao outro, eu sugiro um ataque tático na corporação Cellgenesis.

Desta vez, é Huxley quem ri.

- Ora, mas quanto cinismo...! Esta é sua justiça? Mentir para todos perante o conselho? Vocês não querem destruir a Cellgenesis, vocês querem sua tecnologia para a criação de seus androides da classe Advance.

Nasier se espanta com seu conhecimento. Aparentemente, seu serviço de espionagem fez um ótimo trabalho.

O que o trans-humanista disse fazia sentido, pois a Cellgenesis dominava a engenharia genética e a nanotecnologia, essenciais para o poderio bélico purista.

- Você está bem informado, Huxley. Mas informação não será o bastante quando o atacarmos e acabarmos com vocês! 

Database intervém mais uma vez.

- Vejo que há divergências na estratégia a adotar. Mas, para vencermos, precisamos de um ataque coordenado e, se possível, simultâneo nos alvos escolhidos.

- Negativo. – responde Tokugawa, líder da Bushido – O Inimigo de Estado nos arrastou para essa rebelião. Muitos morrerão combatendo. Se ele quiser que a participemos, ele deve vir junto ao confronto.

Ao ouvi-lo, o rapaz responde:

- Muitos já estão morrendo, Tokugawa-san. E eu assumo a total responsabilidade dessas mortes, tanto dos que já morreram quanto dos que morrerão no futuro. Eu me voluntario para ir junto aos confrontos, se desejarem. Em todos se for possível.

Então eles riem de sua coragem e imprudência.

Retomando a palavra, Database diz:

- Devemos decidir onde atacaremos primeiro. Electro Core, Bio Prótesis ou Cellgenesis. Que comece a votação.

Um a um eles escolhem o alvo. Para a frustração dos Puristas, Bio Prótesis é escolhida. Dawkins, o líder da Frente Ateísta, diz:

- Eu sugiro uma concentração de forças para o ataque. Não sabemos o que esperar lá em cima.

- Não. – objeta Washington, líder da 4 de Julho – Não devemos concentrar nossas forças. Devemos distancia-las e evitar sermos cercados pelo inimigo.

O americano tem razão. Concentrar as forças os colocará em um cerco.

- Então quem encabeçará o ataque à Bio Prótesis? – pergunta o ateísta.

- Os Trans-humanistas. – responde Nasier, incisivo – Se eles querem tanto a tecnologia, eles que sangrem para consegui-la.

Todos concordam.   

A vídeo conferência termina e os monitores são desligados. Database olha para Nathan e responde:

- Prepare-se, Nathan. Esta noite você e os mecanicistas têm uma festa para irem. 

 

§

  

Laura e Vertigo sobrevoam o Terminal Bio Prótesis. Eles veem a movimentada estação abaixo. Os aerotrens vêm e vão, enchendo as plataformas de transeuntes. Nathan vai em outro aerocarro, acompanhado de Huxley e de outros trans-humanistas.

O rapaz não sabe que Laura os acompanha naquela missão. Para ele, a garota é indiferente à causa do Submundo e, mais ainda, aos sentimento de seu coração. Recompondo-se, Nathan se controla. “Esta noite eu não posso ter distrações”, pensa ele. Mas era difícil não pensar nela.

“Nathan?”.

O hacker o chama pelo comunicador.

- Sim, Vertigo?

“Os runners já estão posicionados nos terraços. Os mecanicistas também. Aguardamos o alerta antes de começarmos o ataque”.

- Está bem.

Adjacente ao prédio da Bio Prótesis, o terminal contém forte presença policial e equipamentos autômatos de segurança. Os trens e linhas favorecem o inimigo, transportando suprimentos, munições e regimentos, caso necessitem. Preocupado com sua logística, os atacantes pretendem neutralizar a estação, isolando a polícia. Entretanto, o ataque deve ser adiado até a evacuação dos transeuntes.    

Pegando um alto-falante, o rapaz faz um alerta.

- Atenção, usuários nas plataformas. Aqui é Nathan, o Inimigo de Estado. Evacuem imediatamente o terminal. Eu repito, evacuem imediatamente o terminal.

Olhando para Huxley, o rapaz diz:

- Pronto. Agora devemos esperar até todos saírem.

Com semblante sério, o líder toca o ombro de seu capitão e ordena:

- Podem atacar.

Nathan se intriga. De repente, aeronaves de combate disparam mísseis e pulverizam o telhado do terminal. Sobre os terraços, os facciosos apontam seus lança-mísseis e disparam contra as linhas, destruindo os trens e danificando as pontes de acesso.

Ao ver o espetáculo infernal de explosões, o rapaz protesta.

- Huxley! Ainda há civis lá dentro!

Sorrindo malignamente, o líder responde:

- Sim, há! E qual é o problema com isso?

- Qual é o problema?! – indigna-se ele – Eles vão todos morrer!

- Incluindo as forças de segurança! Não é esse o objetivo?

Nathan olha para baixo e vê pessoas sendo lançada aos ares pelas explosões.     

- Isso é absurdo! – pegando o comunicador, ele ordena – Cessar fogo!

Então Huxley aponta uma arma para ele e diz:

- Fique quietinho aí, Inimigo de Estado. Você é intocável, mas ainda sangra!

Os disparos não cessam. Nathan vê um aerotrem em chamas deixar o terminal e cair em um buraco lá embaixo. Ele se horroriza.

- Huxley, pare por favor! O que comete é terrorismo!

Então todos no aerocarro riem.

- Depois de tudo o que aconteceu, você teve muita coragem em entrar no mesmo aerocarro que a gente, garoto. Agradeça ao seus amigos delinquentes e aos seus aliados puristas, pois se eles não te resgatassem, você seria nosso marionete agora. Ou será que ainda dá tempo de continuar de onde paramos?

De seu punho biomecânico, uma faca se desliza.

- O que vocês vão fazer comigo?

- Você pensou que podia comandar os meus homens em uma operação militar complexa simplesmente porque é o Inimigo de Estado? Quem você pensa que é, garoto? Pensa que o seu título o faz ter autoridade sobre a superfície e as facções?

Tremendo, o rapaz responde:

- Eu iniciei a Rebelião. Eu arregimentei as facções. Nada disso estaria acontecendo se não fosse por mim.

Huxley sorri.

- Não, garoto. Isso sempre aconteceu, muito antes de você aparecer. As facções sempre viveram em guerra, mas nunca em aliança contra um inimigo em comum como hoje.

- Mas você aceitou a aliança. Você procurou a nós, mesmo após o ocorrido. Você quis estar aqui!

Meneando negativamente a cabeça, o líder responde:

- Interessante como você fala em “nós” com o Submundo. A superfície te usa, as facções te usam, as corporações te usam ou, certamente, te usarão. Você é um rato em uma gaiola, correndo em sua roda pensando estar livre. Potências mais fortes e mais sagazes te controlam e você nem percebe. Eu tenho pena de você.

Tocando o ombro de seu capitão, o líder ordena:

- Vamos descer.

Pousando próximo a plataforma, os trans-humanistas descem e caminham pelas chamas. Nathan sente o calor e respira com dificuldade. Desequilibrando-se, ele tenta se sentar, mas Huxley intervém.

- Ei, garoto! Você vem conosco. Você não vai querer perder isso.

Puxando-o, o líder o leva com eles.

O rapaz vê corpos carbonizados por toda a parte. Os vagões dos trens também queimam, liberando uma fumaça preta pelo ambiente. No teto, as metralhadoras acopladas têm descargas elétricas e soltam faíscas, completamente desabilitadas após as explosões.

Alguns seguranças feridos pedem por ajuda, mas são impiedosamente alvejados por Huxley e seus homens. O elevador de serviço está próximo. Alguém fala com o líder pelo comunicador e, em seu aparelho, Nathan pode ouvi-lo também.

“Senhor Huxley, o heliporto foi tomado, mas estamos tendo forte resistência por parte da polícia”.

- Ótimo. Mantenha-os ocupados. Vamos nos infiltrar pela entrada de serviço.

Os painéis eletrônicos foram queimados pelo fogo. Homens robóticos e biônicos aparecem carregando pesadas serras em seus braços. Aproximando-se das dobradiças, eles as serram uma por uma. Nathan tampa seus ouvidos, o ruído agudo é ensurdecedor. 

A porta cai aos seus pés. Entrando no largo elevador industrial, eles o ativam e sobem para os andares da diretoria.

O terminal e o fogo são deixados para trás. Lá fora, tiros e explosões são ouvidos, os runners participavam do combate. Os mecanicistas recarregam suas armas e se preparam para a invasão. Então o líder pergunta:

- Você já matou alguém?

Com a pergunta indiscreta, o rapaz fica desconfortável.

- Sim. – responde ele.

Huxley se intriga.

- E como foi?

- Eu fui persuadido. Era isso ou prolongar a rebelião.

- Mas o que você fez? Atirou nele?

- Não. Eu detonei uma bomba com o pressionar de um botão.

O líder acha aquilo muito difícil de se acreditar.

- E quantos morreram? Dois? Três?

- Dezenas. – responde ele, surpreendendo-o – Umas trinta pessoas, talvez mais.

Huxley lhe lança um olhar de admiração.

- Creio que foi algo muito chocante o que os clérigos o fizeram cometer.

Nathan se espanta.

- Como você sabe disso?!

O líder ri.

- Estou nesse negócio há muito tempo, garoto. Hoje você pode achar que tem muita importância, mas seus diplomas universitários e seu título de Inimigo de Estado não significam nada para mim.

- Estamos quase chegando, senhor. – informa um faccioso.

- Ei, garoto. Tome isso. – o líder lhe dá uma pistola.

- Não precisa. Eu já tenho a minha.

- Não, não tem. Eu a tomei de você.

Checando o coldre, o rapaz se vê desarmado.

- Mas como você...

- Apenas os meus homens podem andar armados na minha presença. Você só está vivo por que eu permito.

O rapaz se assombra. Huxley continua:

- Aquele dia os clérigos te fizeram matar as pessoas com uma bomba. Hoje faremos algo diferente. Eu quero que seja mais intenso, mais pessoal... Você deve executar alguém. – ordena ele – A sangue frio.

O rapaz se desespera.

- Eu não sou um assassino!

- Você disse que se responsabiliza por cada morte na rebelião. Indiretamente, você já matou muita gente.

- Você não pode fazer isso! Eu me recusarei!

- Pense bem, garoto. Se você se recusar, meus homens biônicos arrancarão suas pernas e o deixarão se rastejando no fogo pedindo por ajuda.

Mecanicistas de dois metros de altura e membros robóticos se aproximam, intimidando-o.

- Eu não sou um assassino! – insiste ele.

- E por que se importa? Os seguranças não são policiais comuns, que trabalham honestamente para trazer alimento para suas famílias no fim do dia. – romantiza ele – Eles são mercenários cruéis, contratados para matar e saírem livres. Ninguém está sendo imoral aqui.

Mas antes que pudesse responder, as portas se abrem e eles são recebidos a bala. Muitos trans-humanistas caem, mas se levantam novamente protegidos por suas pesadas armaduras. Os soldados biônicos erguem seus lança-mísseis e atiram, pulverizando tudo em seu caminho.

Saindo do elevador, eles se veem em um vasto escritório. Escondidos atrás das mesas e dos computadores, os seguranças atiram neles. Com seus rifles lasers, os mecanicistas atiram de volta, atingindo a mobília e provocando focos de incêndio.

Pressionando o botão de uma máquina de café, o líder olha para Nathan e pergunta:

- Ei, garoto! Lembra o seu antigo emprego, não?

E então ele gargalha. Ele estava brincando com Nathan.

Pegando o copo, Huxley bebe um gole e depois atira em seus inimigos.

“Senhor Huxley, os runners repeliram o contra-ataque nos outros edifícios, mas estamos sofrendo muitas baixas no heliponto”.

- Entendido, tenente. – olhando para a sua equipe, ele ordena – Pressionem!

Mais seguranças aparecem. Olhando para o rapaz, o líder exclama:

- Atire! Atire! Atire!

Assustado, Nathan saca sua arma e atira contra, baleando-os aleatoriamente. O rapaz arregala os olhos. Huxley ri.

Sobrevoando ao lado de uma extensa janela, uma aeronave aparece e dispara mísseis. Os trans-humanistas voam pelos ares, caindo sobre as mesas e os computadores. O fogo se alastra. Os sprinklers são ativados e água respinga sobre as mesas. Com a visibilidade prejudicada, os trans-humanistas ficam em desvantagem.

- Vertigo, eu preciso de ajuda!

Sobre um terraço próximo, o hacker atira nas viaturas de polícia.

- Onde você está, Nathan?

"Estou perto do heliponto, em um andar de escritórios".

- Entendido. Eu mandarei uma equipe até aí.

Aproximando-se do parapeito, Vertigo contata uma equipe próxima. Então ele tem uma enorme surpresa.

Abaixo, próximo ao terminal, uma manifestação maciça está em andamento. Os cidadãos souberam da presença de Nathan e vieram apoiá-lo. Com faixas e cartazes, eles obstruem as passarelas, protestando contra as corporações e a polícia.

- Equipe Alpha! Nathan precisa de ajuda! Ele está no último andar do prédio. Ajudem-no!

“Entendido”.

À distância, Vertigo vê os runners atravessarem as megatorres. Laura estava entre eles também, mas, ao invés de segui-los, ela desce aos andares abaixo. Ali se encontram os laboratórios da corporação. Então ele se intriga.

Enquanto Nathan se protege, os seguranças se aproximam. Então, aparecendo sobre ele, os runners pulam pela janela e adentram o escritório, surpreendendo-os. Os seguranças se confundem e são abatidos um a um.

Um runner com roupas prateadas e óculos vermelhos aparece. Ele pergunta:

- Você está bem?

- Não. – responde Nathan – Eu preciso sair daqui.

- Ah, você não vai a lugar algum! – Huxley o levanta pelas roupas – Sua gente o salvou do perigo, mas minha gente ainda está combatendo lá em cima. Aliás, você ainda me deve sangue!

Subindo as escadas, ele alcançam o heliponto. Aeronaves cruzam o céu, viaturas sobrevoam o terraço e os trans-humanistas atiram com seus fuzis lasers.

- Precisamos de suporte aéreo. – comenta Huxley – Tenente, chame as aeronaves!

- Eu não posso, senhor! Elas foram abatidas!

- O quê?! – irrita-se ele – Contate a base! Chame as reservas em nossa sede!

- Estão muito longe, senhor! Demorarão quarenta minutos para chegar aqui.

Frustrado, o líder olha para Nathan.

- Ei, garoto! Está na hora de você mostrar alguma utilidade aqui.

Ativando seu comunicador, o rapaz diz:

- Vertigo, precisamos de suporte aéreo no heliponto agora!

Em um local deserto e silencioso, o hacker responde:

- Entendido, Nathan. Já estão a caminho.

Desligando o aparelho, Vertigo avança pelos corredores e adentra um salão. Na parede ele lê: “Laboratório Principal”.  

- Eu estou chegando, Laura. 



 

      

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