domingo, 8 de agosto de 2021

Sonata - 17 - A Chegada à Superfície

 


Encarando-o de cima a baixo, o homem pergunta:

- Você é da Bushido?

O runner se refere às roupas que Nathan recebeu na sede dos japoneses. Imediatamente ele responde:

- Não.

- E quanto a esse uniforme? Vai dizer que o achou na lata de lixo? – pergunta a mulher, mascando seu chiclete.

- Eles me deram o uniforme, mas eu não faço parte da facção.

- Então de qual facção faz parte? – pergunta o homem.

- De nenhuma.

- Você é um espião?

- Eu não sou nenhum espião.

- Será mesmo? – pergunta a mulher, manuseando uma faca.

Ignorando sua tentativa de intimidá-lo, o rapaz ousadamente diz:

- Desculpem se eu não estou participando direito, mas eu não tenho tempo para brincadeiras imbecis. Aqui é a superfície, não é? Eu preciso encontrar um homem, seu codinome é Database. Me disseram que ele vive aqui e eu preciso muito falar com ele.

Os runners se entreolham.

- Como você conhece o Database? – pergunta o homem.

- Eu não o conheço, apenas me disseram para procura-lo aqui. Escute, eu fui infectado com um vírus e tenho poucas horas de vida...

- Vírus?

Os runners se assustam, temendo que o rapaz possa infecta-los também. 

- Como você contraiu esse vírus?

- É uma longa história. Por favor, vocês precisam me levar ao Database.

Confusos, seus captores conversam entre si. Ninguém parece acreditar em Nathan. O homem olha para ele e pergunta:

- Você está mentindo para a gente?

- Eu nunca fui tão honesto em toda minha vida.

A mulher responde:

- É melhor não enganar a gente, cara. Você pode se arrepender.

- Eu estou morrendo e preciso salvar minha vida! Por que eu enganaria vocês? 

Novamente os runners não sabem o que fazer.

Interrogar o rapaz estava deixando-os entediados. Ainda com os rifles apontados para o seu rosto, Nathan vê o homem se afastar e ativar um painel na parede. A tela se acende e ele disca os números no vidphone. Ao efetuar a chamada, alguém aparece no monitor.

O runner conversa pelo aparelho. Após alguns segundos, Nathan ouve uma voz dizer: “traga-o até mim”. A ligação é encerrada. O homem se aproxima da mulher e diz:

- Vamos leva-lo ao Database.

O rapaz se alegra. Aqueles estranhos, de fato, conheciam o Database, o mesmo que ele esteve procurando por todo esse tempo. Não querendo suscitar mais perguntas, ele sabiamente se mantém em silêncio.

Levando-o pelo estranho ambiente, Nathan percorre túneis e galerias até chegar a uma estação de trem. A estação denota abandono e podridão, mas os runners ainda usam suas linhas para se locomover pela superfície. Colocando-o em uma pequena locomotiva, Nathan é levado por aqueles desconhecidos.

Enquanto avançam, o rapaz vê a deprimente paisagem da superfície. Há muitas lixo, aerocarros enferrujados e instalações industriais pelo ambiente. Pontes cruzam os córregos e rios. Nathan sente medo, pois tanto as pontes quanto a própria locomotiva estalavam com a podridão.

De repente a linha termina abruptamente. À sua frente o rapaz vê uma enorme parede de concreto atravessando a linha. Era a base de uma megatorre, elevando-se centenas de metros para o céu. Descendo da locomotiva, os runners o levam por becos sinuosos e escuros.

Adentrando uma fábrica abandonada, Nathan consegue ouvir a música alta ao fundo. Levando-o para uma sala no andar superior, os runners sobem uma escada e batem na porta. Alguém lá dentro diz:

- Entrem.

Em seu escritório, Nathan vê um homem robótico sentado com os pés sobre a mesa. Agarrando-o pelos braços, os runners o empurram para dentro.

- Database, encontramos esse cara no Setor D. Ele disse que te conhecia e que precisava vê-lo.

Database o observa em silêncio. Com sua mão robótica, ele pega um copo e bebe um gole de uísque.

- Podem deixa-lo comigo. – responde ele, finalmente.

Os runners perguntam:

- Deseja mais alguma coisa, senhor?

“Senhor?”, pensa Nathan. “Por acaso esse homem hediondo é alguma autoridade aqui?”

- Não, obrigado.

Dando-lhe as costas, os runners saem.

- Pegando outro copo, o homem joga duas pedras de gelo e derrama um pouco do líquido marrom.

- Me acompanha nesse maravilho uísque? – pergunta ele.

- Não, obrigado.

Inclinando-se, ele diz:

- Eu insisto.

Encarando-o, o homem arrasta o pequeno copo pela mesa, obrigando-o a aceitar. O primeiro gole é horrível, o uísque queima em sua garganta como se fosse ácido. O homem apenas olha para ele, observando suas expressões de dor enquanto bebe tranquilamente sem incômodo algum.

Por fim, ele pergunta:

- Então você queria me ver?

Ainda irritado com a bebida, o rapaz responde:

- Sim.

- E posso saber o porquê, senhor Nathan?

- Eu fui infectado com um vírus e, se você não me der uma cura, eu vou morrer...

Sorrindo, o chefe se encosta em sua poltrona e novamente pergunta:

- Por acaso você acredita em destino?

Confuso com a inesperada pergunta, o rapaz responde:

- Não.

- Quando eu era jovem – começa ele – eu também não acreditava. Como todo jovem inexperiente e arrogante, eu acreditava que podia fazer tudo sozinho. Eu acreditava que minha vida podia ser moldada por minhas próprias decisões, que tudo o que eu fizesse tivesse a consequência única e exclusiva de minha própria liberdade... Mas então eu envelheci, e com a idade adquiri sabedoria, aprendendo que existem forças que estão além de nossa compreensão. Estamos em um caminho confuso, inconstante, espiralado e entrelaçado onde planos, sonhos e objetivos se distanciam e, eventualmente, se reencontram na infinita linha do destino. Sim – reitera ele – o incompreensível e imutável Destino.

Nathan olha para ele e se espanta. “Como uma paródia de ser humano, metade carne, metade robô, podia ter um conhecimento tão profundo?”.

- Admiro o seu ponto de vista.

- Mas – interrompe ele, não se interessando pela opinião do rapaz – eu ainda não estava pronto para enxergar algo ainda maior. O destino pelo destino não é o suficiente. A lógica humana não pode ser explicada por um bando de teóricos amadores, que usam o destino como um pretexto para suas mais variadas frustrações. – então ele mira sua lente à Nathan e pergunta – O senhor sabe o que é Fatalismo?

O rapaz nunca ouviu essa palavra antes.

- Não.

O chefe bebe um gole de seu uísque e explica:

- Imagine que a vida seja um jogo de escolhas certas e erradas que, dependendo de nossas ações, arcaremos com as responsabilidades antes de nossa morte. Entretanto, imagine que, independente de nossas escolhas, tudo está preestabelecido e destinado a acontecer em uma sequência inquebrável de eventos acima de nossa compreensão. Eis o Fatalismo, uma teoria que se contrapõe ao Predeterminismo, mas que também não se alinha ao Livre-Arbítrio. Uma teoria ambivalente que equilibra o imutável com o poder de escolha. – pausando por um momento, ele continua – Não existe o poder de escolha, mas a escolha existe. Então quem decide? Quem define as aparências? Estamos à deriva nesse buraco negro em direção a um futuro desconhecido?

Passados alguns segundos, Database continua:

- O Predeterminismo não é novidade aos otimistas e pessimistas, o Livre-Arbítrio é velho, mas Fatalismo é a resposta metafísica clara às aflições da Alma. Os fatores influenciáveis da vida, como a religião, a política e a ciência, são como talhadeiras que moldam nossa personalidade individual e indivisível, mas também são como nuvens que não podem nos fazer mal algum. Você vive do que escolhe sem saber que o destino o escolheu. Todo homem fará as perguntas e todo homem sofrerá no final. A Escolha depende dos humanos, havendo ao mesmo tempo alguém que decide acima de nossas escolhas. O Fatalismo acredita na existência de uma Entidade Universal, onisciente e infinita, criadora dos poderes ambivalentes conflitantes, mas harmoniosos do Predeterminismo e do Livre-Arbítrio. Temos o poder de escolha em um universo paradoxal onde todas as escolhas e ações chegam a um mesmo fim.

Nathan fica sem palavras e não consegue comentar nada sem parecer um ignorante. Um pouco confuso, ele pergunta:

- Por que está me dizendo isso?

Levantando-se, ele caminha até a janela e pede para Nathan acompanha-lo. O homem lhe aponta um prédio colorido em meio a uma paisagem suburbana e desorganizada.

- Está vendo aquele prédio? É minha casa noturna, o Mystique. Assim como as facções controlam alguns distritos de Sonata, lá eu comando toda essa parte da superfície. Nada acontece aqui sem que eu saiba, e tudo acontece com minha permissão. Podemos dizer que aqui eu sou um deus, embora um deus caído. – olhando para o rapaz, ele pergunta – Você pensa que foi um acidente você ter caído fora da Contenção, não é mesmo?

O rapaz responde com plena convicção.

- Eu tenho certeza, eu não deveria estar aqui!

- Pois eu acho que não. Tudo acontece por uma razão e absolutamente nada é por acaso. – voltando a olhar para o seu clube, Database continua – Desde que o mercenário te tirou da prisão, você se tornou um Inimigo de Estado. Nada do que fizer mudará sua situação. Caso se entregue à polícia, haverá duas opções possíveis para você: a execução ou o banimento. O que você escolhe?

Assustado, Nathan responde:

- Eu escolho viver.

Database sorri novamente.

- E você sabe o que isso significa?

O rapaz não o entende.

- Não.

- Significa que, independente do que te aconteceu for um acidente ou não, o seu destino você acaba de escolher, e o que vier depois você não poderá mais alegar inocência. 

Voltando à sua poltrona, Database lhe pede para se sentar também.

- Diga-me Nathan, o que te aconteceu no Setor L?

O rapaz lhe relata tudo. Ele fala sobre o atentado terrorista, seu encontro com Copérnico e a infecção do vírus. Database ouve atentamente, demonstrando grande interesse. Nathan fala sobre seu tempo de vida e pede para que o homem à sua frente o ajude.

Apertando um botão sobre a mesa, os runners retornam à sua sala.

- Pois não, senhor Database?

- Preciso que levem o rapaz para o Mystique. Eu já estou a caminho.

Assentindo, os runners seguram o rapaz pelos braços e o tiram dali.

As ruas são sujas e movimentadas. Olhando ao redor, Nathan vê seus habitantes dividindo o curto espaço com improvisadas tendas, comércios e residências. As pessoas têm uma aparência distinta, quase de indigência, apesar do rapaz nunca ter visto um mendigo antes.

A paisagem era conhecida, ele já a viu no exterior da metrópole. Diferente dos modernos edifícios dos níveis superiores, na superfície existem os antigos prédios do século 20, os poucos que ainda restaram após a construção de Sonata. Os prédios eram verdadeiras relíquias do passado, mas, para a funcionalidade plena da tecnológica metrópole, as velhas partes da cidade foram apagadas e abandonadas ao esquecimento.

O casal de runners entrega o rapaz para os capangas de Database. Adiante, o rapaz vê o Mystique com sua música alta e uma fila de pessoas esperando para entrar. Indo por uma rota alternativa, os capangas o conduzem a uma entrada mais discreta.

Caminhando por becos escuros, os dois passam por mendigos e latas de lixo flamejantes. Os corredores ficam mais desertos e o rapaz vê janelas pregadas com tábuas de madeira. Há uma porta na lateral de um edifício. Um dos capangas a bate e uma pequena fresta se abre, o suficiente para se ver apenas os olhos de alguém lá dentro.

- Quem é?

O capanga se identifica e então o sentinela a abre.

Nathan está muito confuso, ele não sabe o que fazer. Os capangas os conduzem por salas com outros runners conversando. Ao chegarem ao fundo, o rapaz vê um cômodo cheio de computadores e cabos pelo chão.

Indicando-lhe um sofá, o capanga pede para ele se sentar. Um runner aparece e, olhando para ele, pergunta:

- Então você é o Nathan, o Inimigo de Estado?

Olhando para o seu rosto, o rapaz vê outro jovem com cabelos negros e roupas exóticas.

- Acho que sim.

- Muito prazer. Pode me chamar de Vertigo.

Oferecendo-lhe a mão, Nathan vê o braço biomecânico do runner.

- O que você quer comigo?

- Vim descobrir o que o Database planeja. Instaurar o caos nos níveis superiores atrairá atenção indesejada para a superfície, e nós não queremos isso. Se a superfície cair, muitos morrerão, inclusive nós. – conclui ele, referindo-se aos runners.

- Do que é que você está falando? Eu não vim aqui para provocar rebelião alguma.

Vertigo ri.

- É por que você não conhece o Database como nós o conhecemos. Ele nunca dá nada sem ganhar algo em troca. A informação que você tem provocará uma rebelião, e é por isso que as autoridades se apressaram a lhe classificar como um Inimigo de Estado. Você já deve ter ouvido isso das facções, não é?

Nathan se lembra que sim.

- Esse Database parece ter muito poder aqui. Ele deixou isso bem claro com seu exército de capangas tratando-o como um rei.

- O Database controla a todos com seu dinheiro, e isso ele sabe ganhar muito bem. Se não fosse pela venda de drogas, bebidas e próteses ilegais, ele não teria nada.

Preocupado, o rapaz diz:

- Eu também não confio nele, mas preciso dele para me curar.

- Não se preocupe. Apenas faça o que tiver que fazer e você ficará bem. Eu estarei por perto, se lhe acontecer algo.

O rapaz não se convence.

- Como saber se eu posso acreditar em você?

Virando-se, o runner responde:

- Confie em mim.

 

 

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