domingo, 15 de agosto de 2021

Sonata - 33 - A Vingança do Submundo

 


(Artista: Eddie Mendonza, da Artstation.com)

Em uma plataforma de uma imensa chaminé industrial, Laura observa a paisagem abaixo. Apesar do calor e do ar poluído, ela se mantém firme, sem se desconcentrar. Usando seu binóculo, ela espiona um galpão abaixo, a sede dos Trans-humanistas. 
Permanecendo ali por longas doze horas, ela espera encontrar Vertigo, seu velho amigo. Dois dias se passam e o hacker ainda não apareceu. Impaciente, ela pediu ajuda para Database e ambos uniram esforços para encontra-lo. “O que será que aconteceu com ele?”, pensa ela. “Vertigo nunca se deixaria capturar assim”.
Entardecia no distrito de Entropia. Laura estava exausta, sua vigília foi desgastante, mas ela voltará à superfície somente quando concluir sua missão.
“Lótus?” – chama o chefe.
- Laura. – corrige ela.
“Que seja. Algum sinal de Vertigo?”
- Ainda não.
“Laura, deixe o distrito, ele não está aí. Já se passou muito tempo. Os mecanicistas já teriam se livrado do corpo”.
A garota concorda. Manter o corpo de Vertigo seria a evidência necessária para começar uma guerra entre o Submundo e a facção. Mas ninguém havia deixado o galpão, ou mesmo entrado nele. Ela se enche de dúvidas.
- Ainda não houve movimentação na sede dos mecanicistas. Eu não entendo, chefe, onde estão escondendo-o?
“Não sabemos. Por enquanto, te peço para sair daí. Você está cansada e o distrito está mais perigoso agora que sua sede foi invadida. Se te pegarem, você será morta”.
Laura o ignora.
- Eu não vou a lugar algum, Database. Não enquanto não encontrar o Vertigo.
Dez minutos se passam. Em seu computador, Database recebe uma valiosa mensagem.
“Lótus, um dos meus informantes me contatou. Ele disse haver uma atividade suspeita em outro distrito, também no Setor T. Gostaria de verificar?”
- Você acha que pode ser o Vertigo?
“Eu não tenho como dizer e também não posso colocar meu informante perto demais. Os mecanicistas desconfiariam. Você vai ter que descobrir sozinha”.
Laura pondera. Até o momento, sua vigília foi contraproducente e uma pista sucinta é melhor do que nada.
- Certo. Me diga onde procurar.
Database responde:
“O local fica no território dos Trans-humanistas. Mas tome cuidado, pois é o mesmo distrito onde os puristas esquartejaram um informante, dias atrás”.
- Devo esperar resistências ?
O chefe ri.
“Laura, o território e sua sede foram invadidos duas vezes nos últimos dias. Eles estão loucos de raiva!”
A garota entendeu o recado. Os facciosos não farão prisioneiros. Vertigo terá sorte se ainda estiver vivo.
Levantando-se, ela enxuga o suor de sua testa e se limpa. Antes de descer, ela olha para os telhados das fábricas e vê muitos sentinelas vigiando o distrito. Como alertou Database, eles não pareciam nada tranquilos. De fato, Laura foi muito ousada em ter voltado para lá depois do que fez.
Empunhando sua submetralhadora, ele desce os degraus metálicos e deixa a plataforma. Esgueirando-se pelos telhados, ela passa por componentes químicos e substâncias tóxicas enquanto evade os mecanicistas. Ao lado de contêineres de lixo, Laura puxa a longa capa e revela sua aeromoto escondida. Levantando voo, a garota se adequa às vias virtuais e deixa o Entropia para trás.
Quinze minutos depois, ela chega ao seu destino. Contatando Database, ela pergunta:
- Chefe, não tenho certeza se Vertigo fugiu da sede dos mecanicistas.
“Oh, você conhece o Vertigo. Ele tem muitos truques. Talvez tenha se disfarçado de trans-humanista e fugiu durante a confusão”.
Laura acha aquilo muito improvável, afinal ela viu seus ferimentos. Ela responde:
- Talvez.
“Você já chegou?”
Sobrevoando o distrito residencial abaixo, ela diz:
- Sim, Database. Onde eu devo ir?
Passando-lhe as coordenadas, o chefe complementa.
“Tenha cuidado, Lótus. Não quero que você desapareça como o Vertigo desapareceu”.
- Que lindo. – comenta ela, sarcasticamente.
Escondendo sua aeromoto, ela escala uma megatorre e observa as passarelas abaixo. Muitos sentinelas estão espalhados pelos terraços. Se Laura quiser permanecer ali, ela vai ter que se cuidar.
Chegando a um estacionamento, ela vê quatro trans-humanistas escoltando um homem encapuzado. A garota se intriga. Usando seu binóculo, ela tenta identificar a figura misteriosa, mas sem sucesso. O grupo continua caminhando e então entram na megatorre à frente. Verificando os terraços ao redor, ela deduz que chegar ao seu objetivo será muito arriscado.
- Database, vi uma figura suspeita perto da minha posição. Estou indo encontra-la pessoalmente. Terei de usar o arpão.
“Negativo. É melhor você ficar escondida até ter certeza do alvo. Não é seguro transitar pelo distrito”.
Mas, ignorando-o, ela pega sua mochila, monta o arpão e então se levanta. Mirando-o para a megatorre à frente, ela atira, fazendo o projétil voar entre os aerocarros no trânsito. O cabo de aço se desenrola rapidamente até a ponta se perfurar na parede no outro lado. Certificando-se que está bem travado, ela diz:
- Vou atravessar.
“Laura, espere! Laura!”.
Mas Database ouve apenas o ruído do gancho se deslizando pelo cabo. Chegando ao outro lado, a garota se desconecta e escala a lateral do edifício. A altura é vertiginosa, o vento assopra suas roupas, seus dedos cansam, mas ela não tem tempo a perder. Apoiando-se nos peitoris, ela desce lentamente.  
Ela chega ao andar desejado. Espiando as janelas, ela vê os mecanicistas em um apartamento. Tateando pela parede, ela encontra a figura encapuzada em um quarto. Amarrando seu cinto em uma protuberância, ela pega suas ferramentas na bolsa de perna e rapidamente começa a destrancar a janela. Hábil como um gato, ela a destranca silenciosamente, sem ninguém ouvi-la.
Abrindo a janela, ela entra e sorrateiramente caminha até a figura desconhecida. O encapuzado está sentado de costas para ela, sinistramente estático e olhando para um computador. Laura toca seu ombro e, em sussurros, diz:
- Vertigo...?
Mas, ao virar-se, a garota tem um terrível susto. Sob o capuz, ela vê uma mulher sem o maxilar. “Meu Deus!”, sussurra ela. Cabos percorrem onde deveria haver sua cavidade bucal e descem por sua garganta. O rosto da mulher tinha uma pele plástica e brilhava com as luzes de LED atrás de seus olhos. É então que Laura percebe. Aquela mulher era um robô.
Conectando os cabos ao computador, o robô acessava o ciberespaço, invadindo as páginas proibidas pelas corporações. “Mas que estranha ferramenta nas mãos desses fanáticos”, pensa ela. Desanimada, a garota respira fundo.  
- Database?
“Laura? O que foi?”.
- Alvo não confirmado.
“Você teve contato visual? Não era o Vertigo?”.
- Não. Os mecanicistas estavam escoltando uma mulher, ou melhor, um robô.
O chefe não sabe o que responder.
“Lamento...”.
- Você tem mais alguma pista?
- Não, nada.
A garota se entristece.
- Ótimo. Estarei voltando para o Entropia.
“Espere. Há outra coisa que podemos fazer”.
Intrigada, ela pergunta:
- E o que é?
Demorando um pouco para responder, Database revela seu curioso plano.
“Minha equipe de informantes tem um equipamento necessário, escondido nesse distrito. Ele está perto de sua posição. Eu o mantive aí por uma questão de emergência, e agora esse momento chegou. Preciso que você o encontre e o ative para mim”.
- Que tipo de equipamento é esse?
O chefe simplesmente responde:
“Explosivos”.
Surpresa, a garota exclama:
- O quê?!
“Laura, preciso que você ative os explosivos para mim. Preciso que você detone as bombas”.
Laura não consegue acreditar no que ouve.
- Database, você está falando para eu cometer um atentado terrorista?!
Sorrindo, o chefe a corrige.
“Não se trata de terrorismo, Laura. É vingança. Os Trans-humanistas sequestraram Nathan e então Vertigo. Se não reagirmos, o Submundo perderá o prestígio... E principalmente o respeito. Eu não posso deixar isso acontecer”.
Indignada, a garota protesta.
- Eu não dou a mínima para o seu prestígio, Database! Eu não compartilho da causa do Submundo. Se você quiser cometer terrorismo, peça aos seus informantes para o fazerem!
“Não posso. Eles são apenas civis e não runners experientes como você”.
- Esqueça! Eu não farei isso!
Com muita perspicácia, Database responde:
“O seu namorado não hesitou em apertar o botão”.
Arregalando os olhos, Laura se irrita:
- Mas do que é que você está falando? Eu não tenho nenhum namorado!
Então o chefe ri.
“Mas foi um beijo bem apaixonado o que vocês deram. Eu até me emocionei”.
- Como você sabe disso?!
“Esse é o meu trabalho, Laura. Saber”.
Então alguém grita do apartamento.
- Ei! Quem está aí?
- Database, vamos resolver isso depois. Eu tenho que ir.
Ao abrir a porta, um trans-humanista encontra o quarto vazio, com exceção da mulher robô. A janela, porém, estava aberta, com o vento balançando sutilmente a cortina.
Dirigindo sua aeromoto, Laura se afasta do perigo. Ela ainda está muito irritada mas, no fundo, o que ela sentia era timidez, e seu coração não conseguia esconder isso. Então a voz no comunicador diz:   
“Lótus, você está aí?”
- Droga, Database!
“Ok... E então? Vai detonar as bombas?”
- É claro que não!
“É uma pena você dizer isso. Pensei que você fosse mais durona”.
- Não tente me manipular! Se você quiser praticar terrorismo, chame o seu Inimigo de Estado para isso.
Laura hesita por um segundo. Falando por impulso, ela ainda não conseguia acreditar que Nathan havia cometido um ataque terrorista.
“Ora, Laura, não sei por que você está dramatizando tanto. Eu já disse que se trata de vingança, um pequeno acerto de contas com os mecanicistas. Eu só pedi que fosse você – a quem eu considero e estimo muito – a aplicar-lhes o corretivo”.  
- Achei que o Submundo defendesse uma causa nobre, e não que derramasse sangue inocente como essas patéticas facções.
“Eu entendo, entretanto devo lembra-la que estamos no meio de uma rebelião, e que o Submundo não é um escritório de contratação de runners como o Mystique. Queremos salvar Sonata. Se a rebelião falhar, não haverá mais Submundo, runners, facções ou coisa alguma para salvar. Estamos lutando para vencer”.
Novamente aquela conversa inflamada, altruísta e sedutora, típica dos revolucionários. Laura se entedia. Tendo uma ideia, ela decide falar na linguagem de seu chefe.
- Database, o Submundo não deve se vingar dos Trans-humanistas. Vocês querem vencer a rebelião, não é? E para isso precisam de uma aliança com todas as facções, não é mesmo? Então por que começar uma guerra paralela com os mecanicistas agora? Seria melhor você os perdoasse e buscasse uma saída diplomática para resolver esse incidente. Desta maneira, o seu Inimigo de Estado ainda teria uma chance de fortalecer a causa e se aliar a eles.
O chefe se silencia por um momento. Laura pensa ter perdido a conexão, mas ele, então, diz:
“Para quem não compartilha de nossa causa, você fala muito bem a respeito. Eu estou impressionado. Mas nessa linha de serviço, não é assim que as coisas funcionam. Lidamos com marginais, terroristas e assassinos o tempo todo. Se demonstrarmos fraqueza, nossos inimigos saberão”.
- Mas a causa é a sua força. Acima de todas as coisas, a causa não busca a mesquinhez e o egoísmo, ela busca a libertação. Não é nisso que o Submundo acredita?
Database pondera.
“Talvez você esteja certa”.
A garota se felicita por dentro.
- Eu estou.
Entretanto, Database nunca permitirá que seu nome, sua reputação e sua honra sejam manchadas por um bando de fanáticos. Sequestrando Nathan e Vertigo, os Trans-humanistas o insultaram, e insultos não serão tolerados. “Perdoa-los...”, ironiza ele, em desprezo.
O chefe pergunta:
“Essa é sua resposta final?”
- Sim, chefe. Eu não vou detonar as bombas.
Então ele friamente responde:
“Está bem. Eu cancelarei o ataque”.
Laura respira aliviada.
- Você fez bem, Database. Inocentes não precisam morrer para que você recupere seu respei...
De repente há uma explosão. Labaredas amarelas se erguem com o estrondo, propagando uma onda de devastação. Os aerocarros perdem o controle e o caos se instala naquele distrito. Confusa, ela olha para trás e contempla as chamas, que devoram o último andar de uma megatorre.
O terraço cede e as torres de transmissão tombam, caindo pelas alturas. As passarelas abaixo são atingidas, ferindo os transeuntes. Fragmentos rápidos como projéteis atingem os aerocarros, desestabilizando-os. Montada em sua aeromoto, Laura assistia estarrecida à paisagem de horror.
Chamando por seu chefe, ela pergunta:
- Database, responda! Houve um atentado terrorista aqui!
De semblante sério olhando para o seu monitor, o chefe cinicamente pergunta:
“Do que você está falando?”.
- Houve um ataque! Não sei bem o que aconteceu!
“Um ataque? Como isso é possível? Laura, ouça-me, você tem que sair daí agora!”
Assustada, ela responde:
- Mas e o Vertigo?
“Procuraremos por ele depois! Está muito perigoso aí em cima! Por favor, volte para a superfície e então decidiremos o que fazer”.
Confusa, ela decide acatar ao seu pedido. Manobrando a aeromoto, ela novamente se adequa ao trânsito e então deixa o distrito para trás.

§

Em silêncio em sua sala, Database assiste ao fogo queimando no distrito dos Trans-humanistas. As imagens exibem em detalhes o seu trabalho, ele se satisfaz em ver a megatorre queimar.
À distância, Database podia ter ativado as bombas o tempo todo, mas ele não quis. Assim como Nathan, ele quis testar a determinação de Laura, ver até onde eles iriam. Estrategista, ele experimenta a capacidade de seus peões em seu jogo pelo poder, e este jogo chamava-se rebelião e o tabuleiro, Sonata.
Explodindo bombas no território da Frente Ateísta, e agora um terraço inteiro no distrito dos Trans-humanistas, ele se encosta em sua cadeira e sorri. Database reconhece que, pouco a pouco, o Submundo se assemelhava a uma facção. Ainda sorrindo, ele comenta para si mesmo:
- Já estou me acostumando com isso.
Bebendo um gole de seu uísque, ele se levanta e deixa sua sala. Com a imagem do ataque ainda em seu monitor, o fogo exprime o que ele mesmo começava a sentir.
Database estava começando a pegar gosto pelo terrorismo.



  

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