sábado, 7 de agosto de 2021

Sonata - 16 - A Descida

  


O rapaz acorda de repente. O quarto está escuro e ele enxerga apenas os números do relógio digital. 03h19min. Estranhamente ele sente um cheiro doce no ar, e um doce bem gostoso. Então ele toca o interruptor e acende a luz.

Gritando de susto, ele vê a mulher-robô a um palmo de distância. Ela esteve encarando-o na escuridão.

- Meu jovem, eu trouxe o seu bolo, conforme prometido.

- Meu Deus, mulher! O que pensa que está fazendo?!

- Estou esperando você acordar, meu jovem. Vamos, experimente seu bolo, você vai adorar!

Tentando conter o susto, ele vê a mulher segurar o bolo em uma bandeja. Ela não demonstra reação ao seu espanto, ao invés fica olhando-o com seu sorriso imutável. No bolo, Nathan vê o recheio, chantili e frutas sintéticas, sua aparência estava deliciosa.

Sentando-se, ele tenta pegar um pedaço, mas tem dificuldade. O bolo não estava fatiado.

- Oh, perdoe-me, meu jovem. Deixe-me ajuda-lo.

A mão da mulher forma um longa e afiada faca. Nathan se intimida. A então mulher fatia o bolo simetricamente, dividindo-o em pedaços e oferecendo-os ao rapaz. Ele o experimenta e rapidamente sente o sabor, o bolo realmente estava delicioso.

- Pode deixa-lo aqui. Obrigado.

- Deseja mais alguma coisa, meu jovem? – pergunta gentilmente ela.

- Sim. Você pode me trazer um copo de leite ou uma xícara de chá?

- Será um prazer! Mas eu não tenho leite e chá no estoque. Incomoda-se de aguardar eu trazê-los para você?

Não querendo mais esperar horas até ela voltar, ele responde:

- Um copo d’água serve.

Minutos depois ela retorna. A mulher-robô lhe traz um prato com o copo preenchido perfeitamente até a boca. Como se fosse uma garçonete, em seu braço ela traz um guardanapo. Antes que Nathan pudesse fazer algo, a mulher o interrompe e então ajusta o guardanapo em seu colarinho, deixando-o muito acanhado. Desacostumado a qualquer tipo de regalia, ele acha tudo aquilo muito estranho. Preocupado, ele teme que a máquina tenha mal funcionamento e atravesse seu pescoço com sua faca. A mulher então pergunta:

- Deseja mais alguma coisa, meu jovem?

- Não. Isso é tudo.

Sorrindo gentilmente, a mulher se despede e vai embora. Ele enxuga o suor de sua testa e sussurra:

- Que noite...

 Nathan deve deixar o apartamento dos robôs. Faltava apenas três horas para expirar o seu prazo. Ele tem que se apressar.

- Meu jovem, está com fome?

O rapaz olha para a porta. A mulher-robô retornara novamente.

Confuso, o rapaz responde:

- Você acabou de me trazer comida, lembra-se?

Ignorando-o, ela pergunta:

- Meu jovem, gostaria de comer um bolo? Eu sei fazer dezenas de bolos diferentes, tenho incontáveis receitas em meu banco de dados!

Nathan não sabe o que dizer.

- Eu sei, você já disse isso.

- Por favor, me avise se precisar de algo.

- Pensando bem, eu preciso de algo sim. – interrompe ele – Me responda uma coisa: o Apex te colocou aqui para me espionar, não é mesmo?

- Oh, não meu jovem! Minha função é cozinhar, e não espionar os humanos! – responde ela, cordialmente.

- Então por que só você vem aqui? Onde estão os outros robôs?

- Os outros robôs têm outras funções, como limpar, cozinhar e dirigir. Nem todos tem tempo para visita-lo.

Parcialmente satisfeito, o rapaz diz:

- Vá embora, eu quero ficar sozinho.

- Fico feliz em poder te ajudar, meu jovem. Até mais tarde.

Sem perder o sorriso, a mulher se afasta e a porta se fecha, deslizando-se para baixo.

Minutos se passam. Nuvens se formam no céu e precedem a chuva. Abaixo, ele vê alguns robôs voltarem aos seus apartamentos. Nathan os inveja, pois nenhum deles sente estresse, estafa ou depressão. No dia seguinte, todas se levantariam e voltariam a trabalhar, com a mesma força e disposição que nenhum humano jamais teria, não importa quantas próteses biomecânicas colocassem em seu corpo.

“Malditos robôs, tão livres das angústias humanas...! Devido a um software corrompido, hoje pensam que são seres sapientes, desejando estupidamente serem orgânicos. Eles são livres da prisão da carne, livres dos males que afligem o mundo. Se ao menos eles soubessem o privilégio que têm...”, pensa ele.

Então Nathan percebe. Ele não é diferente dos humanos intolerantes que os odeiam. O rapaz os odeia também.

Um trovão reverbera no céu. Os ponteiros do relógio avançam lentamente. Com o cair da noite, também caem as infindáveis gotas de chuva. Mais chuva sobre a metrópole, mais lágrimas sobre sua vida.

Nathan se distrai. Observando a chuva lá fora, ele se pergunta por quanto tempo terá de se esconder. “Supondo que eu me cure do vírus antes”, lembra-se ele. Coincidentemente, ele não teve de esperar muito para descobrir.

Fora do apartamento, ele ouve uma explosão. E então várias outras são vistas nas outras megatorres. Ao som de sirenes, luzes vermelhas e azuis invadem o ambiente. O rapaz se desespera. É uma invasão.

Aerocarros descem lentamente pelo fosso e um alto-falante diz: “Aqui é a Polícia! Fiquem onde estão. Qualquer tentativa de fuga ou resistência será vista como agressão. Entreguem o fugitivo e ninguém sairá ferido!”.

Mas os robôs sairão feridos, e muitos. Da janela, Nathan pode ver os robôs correndo e sendo baleados pelas costas.

A luz de um holofote percorre as janelas até encontram o olhar assustado do rapaz. Alguém no alto-falante grita:

- Parado!

Assustado, ele se vira e corre para fora.

Sons de soldados são ouvidos nos corredores. Eles estavam em toda parte. Ao chegar em uma intersecção, um robô aparece e toma um tiro no peito, explodindo em faíscas e tendo descargas elétricas. Voltando pelo mesmo caminho, ele vê a escadaria do edifício. Ele começa a descer quando vê soldados descerem logo acima. Vendo o rapaz, eles miram suas lanternas para o seu rosto.

- Polícia!

Antes que pudesse dizer algo, os policiais atiram, estourando o piso sob seus pés. Nathan corre, descendo as escadas em pulos inacreditáveis de quem quer sobreviver. Ao chegar ao nível das passarelas, ele abre a porta e ouve gritos horríveis vindo dos apartamentos, como se as vozes estivessem se distorcendo enquanto eram queimadas pelas chamas.

As luzes piscam freneticamente e as portas se abrem descontroladamente, deslizando-se para cima e para baixo. O rapaz precisava deixar imediatamente aquele lugar. Com os policiais vasculhando o local, Nathan precisava ser cuidadoso se quisesse sobreviver.

Há vários robôs pelo chão, contorcendo-se em descargas elétricas. O rapaz corre para a saída quando tropeça em algo, fazendo-o cair. Então ele tem uma terrível surpresa. Com apenas a metade de seu corpo, ele vê a mulher-robô olhando para ele enquanto tem mal funcionamento em seu pescoço. Com seu sorriso gentil, ela pergunta:

- Meu jovem, gostaria... De comer... Um bolo? Eu sei fazer... Dezenas de bolos... Diferentes. Tenho incontáveis... Receitas... Em meu banco de dados!

Por alguma razão, o rapaz se comove. Ele a levanta e a abraça firmemente, chorando em seguida. A mulher não consegue fazer nada além de sorrir e repetir a pergunta, até esgotar suas energias. O brilho em seus olhos se apaga e o mal funcionamento cessa, até ela finalmente não se mexer mais.

O rapaz ainda está distraído quando uma explosão é ouvida no corredor.

- Lá está ele!

Nathan se levanta e volta a correr. Os policiais avançam ferozmente, pisoteando a inocente mulher-robô caída no chão.

Ao chegar à porta principal, policiais guardam a saída e olham para ele. Nathan está cercado. Voltando pelo caminho, ele entra em um apartamento e abre a janela. A vertiginosa altura o hipnotiza. Os policiais também adentram e o rapaz não tem outra opção senão escalar o edifício.

Há grossas tubulações sob as passarelas. Ele tenta descer cuidadosamente até alcançar os tubos. Apesar de largos, muitos estão cobertos de limo e são escorregadios, tornando a caminhada perigosíssima. Pulando sobre a tubulação, Nathan corre o mais rápido que pode, fugindo dos policiais.

Então algo acontece.

Um furgão paira ao seu lado. Mirando o holofote, o veículo dispara um míssil, explodindo parte do tubo e estremecendo tudo ao redor. O rapaz se desespera, não havia mais como fugir.

O furgão abre as portas e um homem aparece. Mirando seu fuzil para Nathan, o homem diz:

- Te peguei!

Sem ter para onde ir, o rapaz levanta suas mãos.

- Não atire! Eu me rendo!

Ainda apontando o fuzil, o homem sorri.

- Você me deu um tremendo trabalho, hein rapaz?

Nathan pergunta:

- Quem é você?

- Detetive Burton. Vai desejar nunca ter me conhecido.

O detetive atira próximo ao seu pé.

- Ei! Eu disse que me rendo!

O motorista do furgão chama o detetive e diz:

- Burton, você não acha que está exagerando? Destruindo patrimônio público, incapacitando mão de obra particular e atirando mísseis em um suspeito rendido. Você já o pegou, cara. Já chega!

- Ora, não se meta nisso! Eu estou em um dia muito ruim.

Os ferimentos de Burton ainda não se fecharam e sua perna biomecânica dói devido a operação.

O furgão se aproxima, os policiais se preparam para prendê-lo. Olhando para a tubulação, o rapaz vê que a explosão abriu um buraco no grosso tubo. Nathan se lembra de algo. Por trabalhar na Electro Core, ele se lembra que aqueles tubos direcionavam a água pluvial para as estações de tratamento inferiores na metrópole. Se ele estiver certo, os tubos terminam em enormes efluentes abertos, dando-lhe uma pequena chance de fugir.

O rapaz tenta argumentar:

- Eu sou inocente!

O detetive o interrompe:

- Eu não quero saber!

Sem outra opção, ele decide arriscar a sua vida. Pulando no buraco, ele cai na água e rapidamente é levado pela escuridão. Burton se explode em ira.

- Mas o que esse desgraçado acaba de fazer?!

Os policiais não acreditam no que veem. Burton se descontrola, chutando as laterais do veículo e gritando inúmeros palavrões.

Nathan é levado pelo fluxo, escorregando-se de um lado ao outro e lutando para não se afogar nas mudanças de direção. Sua suspeita estava certa, os tubos desembocam em estações de tratamento, mas as piscinas de contenção são profundas e conduzem a galerias maiores. Tentando segurar nas paredes, seu corpo é levado mais longe pelas águas. Para não se afogar, ele tem que se apressar.

Ao entrar por um túnel, a água o submerge e ele perde a consciência.

 

§

 

Nathan acorda. Tossindo forte e expelindo a água de seus pulmões, ele olha ao redor e vê uma paisagem cinzenta e desconhecida. Luzes piscam pelos cantos escuros e a água flui pelo pequeno canal poluído. Ao mexer suas mãos, seus dedos tocam um resíduo viscoso e ao mesmo tempo arenoso. “Isso é terra?”, pergunta-se ele.

Ao longo do canal ele vê as grossas tubulações, ele teve sorte de não se afogar e sair vivo dali. Acima, as luzes estão rodeadas de mosquitos e há instalações industriais sujas e enferrujadas, aparentando ser muito velhas. Há lodo por toda parte, vapor se expele dos canos e ele sente um cheiro horrível. Olhando para os lados, ele vê telas de aço com arames farpados. Enquanto anda, seus pés se afundam no solo lamacento. Aquilo realmente era terra, algo que ele não via há muito tempo. Vivendo nos níveis superiores, onde tudo é feito de cimento, vidro e aço, ver o solo era bem incomum.

O rapaz olha para cima e vê apenas a escuridão, como se estivesse em um poço tão profundo do qual não era mais possível ver o céu. Ele ouve sons abafados de máquinas industriais trabalhando ao longe, mas ao redor havia apenas as paredes de concreto pelo caminho. O local era desconhecido e estava completamente deserto. “Mas, se estava deserto, por que haviam luzes iluminando-o?”.

Passando por carcaças de aerocarros, ele olha para cima e vê plataformas enferrujadas com o tempo. De repente, um facho de laser se aproxima dos seus pés e o se assusta. Levantando sua cabeça, ele olha para cima e vê dezenas de pessoas paradas na escuridão. Alguém segura um rifle laser e aponta para seu rosto, ofuscando-o. Holofotes são ligados e então duas pessoas descem, aproximando-se em seguida.

Nathan vê um homem e uma mulher. O homem veste uma camiseta regata preta e calça cinza larga, com joelheiras, luvas e botas. Seu cabelo é um moicano curto e ele porta uma mochila militar em suas costas. A mulher veste uma blusa amarela e luvas que vão até os cotovelos, além de uma calça branca e botas até os joelhos. Nathan pode ver que seus cabelos são azuis. O rapaz se assusta. A mulher portava uma espada katana.

Ele reconhece aquela vestimenta, Nathan já a viu antes. As roupas arrojadas e exóticas apenas lhe indicam uma coisa.

Aquelas pessoas eram Runners.

 

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