segunda-feira, 21 de julho de 2025

Shenzhou Wénzi - 15 - Belerofonte


(Arte de Hug Perrier)
 

Yang está desacordado.

O sistema de navegação de Wénzi está desligado e a cabine está em completa escuridão. Mesmo o Navcom não funciona; no pequeno visor está escrito: “reiniciando. Por favor, aguarde”.

De repente dois drones aparecem. Eles aproximam e afastam suas lentes, tentando captar a misteriosa espaçonave à deriva no meio do espaço.

Os drones ligam seus holofotes. A forte luz ilumina o piloto desacordado dentro da cabine. Yang se incomoda e se mexe com a luz ofuscando-o. Ele abre os olhos e põe as mãos contra a luz para se proteger.

O painel está todo apagado; Navcom está inoperante. Apertando um botão de emergência, o sistema se reinicia e o painel se acende. Inúmeras mensagens aparecem no para-brisa; eram as tentativas de contato dos drones. Yang abre uma delas e se confunde. A mensagem estava em inglês.

Um minuto depois, uma espaçonave surge por detrás do Wénzi e paira à sua frente. Yang reconhece uma nave de patrulha. Ele recebe uma solicitação de chamada no canal de comunicação e, ao atender, alguém na nave lhe falava também em inglês. Yang falava um pouco da língua, mas não no nível fluente. Ele responde em chinês mandarim e o outro lado se silencia. Um minuto depois alguém lhe responde também em chinês, mas com notável sotaque estrangeiro.

- Você está invadindo espaço restrito. Identifique-se.

Yang olha ao redor e vê apenas pequenos asteroides à distância. Ele tenta contato com Li Fen, mas não há resposta.

- Olá. Eu sou o Tenente Yang Haisheng. Sou piloto da Força Aérea da República Popular da China.

O outro lado se silencia por um momento.

- O que está fazendo aqui, tenente?

Desconfiado, Yang hesita em responder, mas ele sabe que não tem outra opção.

- Eu estava em Marte. A capital Zhurong foi atacada e invadida por uma frota alienígena e, na fuga, eu acabei me perdendo no espaço. E foi assim que eu vim parar aqui.

O patrulheiro se silencia por um minuto.

- Vamos ter que pedir que nos acompanhe.

Ainda desconfiado, Yang pergunta:

- Para quê?

- Apenas nos acompanhe, por favor.

Yang tenta dar ignição nos motores, mas eles falham.

- Minha nave não está funcionando.

- Nós já sabemos.

Então ele percebe. Ele estava sendo observado o tempo todo. Naves rebocadores aparecem e conectam cabos na fuselagem do Wénzi. Yang se impressiona. Atrás dele havia uma unidade inteira de combate. Em um eventual ataque, ele não teria chance.

Os conectores se magnetizam e ele é puxado pelo espaço. Toda a unidade o acompanha ao seu redor, em uma formação de defesa hostil tanto a um inimigo quanto ao próprio Wénzi.

A escolta avança pelo espaço e Yang é levado involuntariamente no meio deles. Adiante ele vê centenas de milhares de rochas flutuando pelo espaço e então ele reconhece: ele estava no Cinturão de Asteroides.

Na academia de pilotos Yang se lembra de ter estudado sobre o cinturão. Era uma região do Sistema Solar entre as órbitas dos planetas Marte e Júpiter. Lá continham vários asteroides de tamanhos irregulares que, apesar do tamanho, eram menores do que os planetas do sistema. Em média, os asteroides estavam um milhão de quilômetros um do outro e cerca de 60% da massa do cinturão se situava ao redor de quatro asteroides maiores: Ceres, Vesta, Pallas e Hygiea. Apesar de sua extensão, estimava-se que a massa do cinturão era de apenas 3% a da Lua.

Uma voz surge no comunicador.

- Piloto Haisheng. Aqui é o Almirante Jones. Espero que os meus homens tenham te tratado bem.

A outra voz também tinha sotaque estrangeiro.

- Almirante Jones? – pergunta ele – Eu sou seu prisioneiro?

A voz hesita antes de responder.

- Não. Mas antes de te libertar, temos que fazer algumas perguntas.

- Mas que perguntas? Eu estou à deriva aqui! Eu já respondi tudo o que sei!

O almirante parece sorrir. 

- Acalme-se, tenente. Você está em uma zona restrita. Queremos saber como a descobriu e, principalmente, quem te enviou.

- Zona restrita? Do que está falando? O Sistema Solar é administrado diretamente pela República Popular da China! Administrações estrangeiras são exercidas sob a permissão direta de Pequim, e apenas para pesquisa.

Yang não conhece muito os detalhes políticos, mas sabe que as fronteiras do domínio chinês se estendem por todo o Sistema Solar.

A voz responde em tom obscuro:

- Aqui nós não respondemos a Pequim.

A escolta continua levando-o pelo cinturão de asteroides. Ele tenta arduamente ligar o comunicador, mas não havia o menor sinal. Seus misteriosos captores hackearam o equipamento e os desligaram. Contatar Li Fen e o Alto Comando era inútil.

Yang vê aqueles asteroides no espaço. Eles eram compostos de minerais e flutuavam no vácuo. O piloto pensa como aquele emaranhado de rochas era o remanescente de um planeta não formado. De maneira interessante, ele pensa como era necessário uma quantidade imensa de matéria para um planeta se forma, criando sua própria gravidade e vencendo a deriva cósmica do espaço.

Mais naves aparecem e voam ao redor. Naquela região desolada, Yang percebe que não estava sozinho. Algumas tinham canhões e Yang reconhece naves militares. Ele se preocupa, pois teme sofrer um ataque em uma emboscada.

Para sua surpresa, as naves também vão embora e então ele percebe. Tanto a escolta quanto os viajantes habitavam aquela parte do cinturão; todos pertenciam ao mesmo grupo.

O tráfego espacial fica mais intenso. Algumas rochas flutuam de maneira incomum e Yang se intriga. Ao ver melhor, ele percebe que não eram rochas e sim satélites artificiais, ou como o Guoanbi os chamava, satélites espiões. Não importa onde eventuais invasores estivessem, eles seriam detectados por eles.

- Vocês são paramilitares...!

- Paramilitares talvez, mas sobretudo, civis. – corrige a voz.

Yang se distrai com a estranha paisagem; ele deveria estar próximo de um posto espacial muito movimentado, apesar de que ali não deveria haver nenhum. Então a voz comenta:

- É notável como a mitologia grega influenciou o Ocidente. Áreas do conhecimento como a filosofia e a matemática, a física e a biologia, têm origem no vocabulário grego. Também é o caso do relacionamento dos humanos consigo mesmo e com a sociedade, como a ética, a política e a democracia. Os termos técnicos e científicos que deram nome a diferentes teorias filosóficas, muitas derivadas dos mitológicos contos gregos... Herança esta que permaneceu no pensamento ocidental nos influenciando por mais de 3500 anos.

“Nós...?”, pergunta-se Yang.

- E então surgiram os romanos. O império romano dominou por séculos a Grécia, política e militarmente, mas se adaptou aos modelos gregos culturalmente. Nem mesmo a queda do império romano no séc. V, e a ascensão do cristianismo na Idade Média, foram o suficiente para derrubar a influência dos gregos. No séc. XV, a mitologia grega ganhou novamente força com o surgimento do Renascentismo.

O piloto, sendo um natural do oriente, não estava entendendo muito do que o almirante estava falando.

- As obras de Homero, conhecidas como a "Ilíada" e a "Odisseia", e a de Hesíodo, "Teogonia", serviram de fonte para a origem do imaginário ocidental. Essas três obras podem ser consideradas as fontes básicas para o conhecimento da mitologia grega. A "Teogonia" narra a origem dos deuses. A "Ilíada" e a "Odisseia" tratam de aventuras de heróis, respectivamente Aquiles e Odisseu, acompanhadas da participação dos deuses em ambas as narrativas. E entre os famosos mitos narrados pelos antigos gregos, o meu preferido é o de Belerofonte.

Neste momento a voz assume um novo tom.

- Filho do deus Poseidon, Belerofonte foi enviado por Lobates, rei de Lídia, para matar Quimera, um terrível monstro que soltava fogo pela boca e pelo nariz. Em Corinto, o vidente Polyeidos lhe revela que ele precisaria do auxílio do mítico cavalo Pégaso para derrotar o monstro. Enquanto dormia no templo de Atena, a deusa lhe aparece em sonho e lhe entrega a rédea de ouro, necessária para domar o animal. Então, montado sobre o Pégaso, Belerofonte parte em busca de Quimera para confronta-lo.

O piloto não conhecia aquele mito e não entende por que o almirante estava lhe contando aquilo.

- Quimera era uma grande besta que possuía cabeça de leão e corpo de cabra. Em sua cauda havia uma cabeça de dragão. Com sua lança, Belerofonte mata o terrível monstro e, assim, se torna vitorioso.

O tráfego espacial se intensifica ao seu redor.

- Orgulhoso deste e de outros feitos, Belerofonte decide voar até o Monte Olimpo montado em seu cavalo Pégaso. Zeus, ofendido por sua ousadia, envia um vespa para picar o cavalo, causando a queda de Belerofonte dos céus.

Yang pode ver que um enorme asteroide se aproxima.

- O fim de Belerofonte é controverso. Algumas narrativas dizem que, após a queda, ele morreu. Outros dizem que ele caiu sobre espinhos e se tornou cego. Por último, conta-se que ele se tornou um mendigo aleijado, procurando pelo Pégaso pelo resto de sua vida.

Luzes parecem indicar o caminho, como uma via espacial.

- Este mito me fascina porque os Estados Unidos, assim como Belerofonte, realizou grandes feitos enquanto existiram. Ambos ascenderam ao topo e, movidos pela arrogância, tentaram se tornar “deuses” do mundo. E ambos caíram. – lamenta-se ele.

O piloto nota que o asteroide era incomum, pois tinha um longo formato cilíndrico e as espaçonaves sumiam em sua superfície.

- Mas as vida não é um mito, tenente. E eu tenho a esperança de que os Estados Unidos recuperarão seu glorioso Pégaso e derrotarão esse terrível Quimera que hoje governa a Terra.

O asteroide se aproxima perigosamente. Mais um pouco e ele e toda a escolta se espatifarão contra a superfície. Mas então toda superfície desaparece e, de repente, Yang se vê no meio de uma colossal estação espacial no meio do Cinturão de Asteroides.    

Yang vê milhares de letreiros de neon espalhados por vias espaciais dentro da estação. Ele vê nomes de fast-foods famosos, estúdios de cinema, filmes, propagandas de produtos, e várias outras coisas sendo transmitidas em enormes telões.  

Espaçonaves arrojadas aparecem ao seu lado, tão belas que mais se pareciam carros esportivos do século 21. O piloto se impressiona. 

Em seguida passam espaçonaves policiais, com suas giratórias luzes coloridas. Linhas de metrô interligam um setor ao outro da estação, com seus vagões cheios de passageiros. Espaçonaves amarelas voam de um lado ao outro; Yang reconhece táxis. Milhares de pessoas passeavam nas vias públicas, fazendo compras, tirando fotos e se divertindo. Os setores tinham nomes de famosas cidades americanas, como Nova Iorque, Los Angeles, São Francisco e Houston.  

A estação pulsava com vida e energia. O ambiente alegre e colorido era contagiante. Yang não pode fazer nada a não ser se deixar envolver por aquela animação.

Extasiado, Yang percebe. O sonho americano não havia morrido.

A escolta atravessa uma barreira de Kinect e aporta em uma doca de pouso. A cabine do Wénzi se abre sozinha e militares armados levam Yang pelo hangar. Ao longe ele vê cinco homens; um era o oficial da estação e os outros quatro eram seus seguranças. O piloto se aproxima e vê um homem alto e negro aguardando-o; ele vestia uma requintada farda branca.  

Ao se aproximar, o oficial lhe estende a mão e diz:

- Olá, Tenente. Bem-vindo a Belerofonte.

 

 

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