sábado, 30 de maio de 2020

Tiergarten - 07 - A Rosa, a Voz e a Imaginação



Ao abrir os olhos, Gunther olha ao redor e vê apenas a escuridão. Sua cama flutua na vastidão estígia como um berço entre as estrelas, mas com exceção das estrelas.
A quarta dimensão é algo totalmente incompreensível ao Homem. Sua mente efêmera, limitada pelas três dimensões, não consegue sequer imaginar a transcendência dessa proporção. O universo tridimensional depende da constatação natural de suas propriedades. A luz ilumina, o calor esquenta, o frio esfria... Porém, os mesmos conceitos podem ser aplicados além dessas conhecidas barreiras?
A escuridão ao redor se expande infinitamente, porém a escuridão é a ausência de luz e esse conceito está atrelado à percepção humana do universo tridimensional conhecido. Portanto existe luz e escuridão na quarta dimensão? O rapaz está deitado e então se senta, colocando os pés no chão invisível sob ele. Denota-se que há gravidade, pois seu corpo é atraído para a cama e, apesar da aparência, ele não está flutuando livremente no espaço. Porém, gravidade também é um conceito tridimensional universal conhecido, então seria possível dizer que, na quarta dimensão, existe gravidade?
Gunther olha para si mesmo. Ele vê seu corpo e sua cama. Apesar do escuro, alguma luz sobrenatural ilumina a si, a sua cama e seus cobertores. Ele não sabe quanto tempo esteve dormindo, ou mesmo quanto tempo esteve naquele lugar. Então outra implicação lhe sobrevém como um trovão. Massa e tempo estão diretamente relacionados entre si, pois desde o momento em que a massa é criada, o tempo é criado junto para determinar sua duração. Cessada a existência da massa, o tempo também é destituído e deixa de existir. Mas, avançando através dessas barreiras tridimensionais, pode-se dizer que existe massa e tempo na quarta dimensão?
Ainda sentado, ele olha para sua cama e percebe algo. Naquela vastidão escura, a cama ocupa um singelo espaço. Assim como o tempo, a matéria está intimamente ligada ao espaço, pois a matéria necessita de um plano ou espaço para ocupar. Na quarta dimensão, onde tudo isso é indeterminável e irrelevante, Gunther não sabe mais o que deduzir.
Como um matemático renascentista contemplando as leis físicas de seu próprio universo, o rapaz lentamente leva suas mãos ao encontro uma da outra. Então a surpresa lhe aturde mais uma vez. Ambas as mãos atravessam uma à outra, como se fossem nuvens de vapor colidindo. Temendo ter morrido, ele se pergunta: “eu sou um fantasma?”.
Mas ao se perguntar, sua voz sai alta e clara, avançando ao longe. “Se minha voz existe, então existe o ar para o som se propagar”, constata ele, ávido para descobrir os segredos desse misterioso lugar. Mas tudo parecia estar escondido além de sua imaginação.
“Imaginação!”, exclama ele. O que era a imaginação em um lugar sem forma, aparência e substância como aquele? Inclusive sua mente não podia conceber a quarta dimensão, pois mesmo o ato de imaginar estava atrelado ao universo tridimensional. Era como se matemáticos estivessem tentando ensinar trigonometria a um cachorro, e ele fosse o cachorro. Portanto, o que mais lhe resta? Capturado sem defesas, ele deixa seus parcos alcances mentais guia-lo por aquela estranha existência.  

§

Gunther caminha apressadamente. Ele não sabe mais o que é real ou mesmo se está dentro de alguma realidade. Na verdade, ele não sabe de mais nada. Algo estranho acontece com ele, um sentimento bom que bate forte em seu peito e o deixa extasiado, fazendo-o se esquecer de todo o tormento e desequilíbrio que castiga sua mente.
O rapaz caminha entre dimensões.
O amor é um sentimento forte e bonito, tão intenso que às vezes nos esquecemos da dor. Gunther se apaixonou por Anneliese, uma linda garota de cabelos castanhos e aparência delicada. Ela é modesta ao se vestir e nunca se produz mais do que o necessário. Ela usa óculos de aros finos e o rapaz observa como ela se esforça para enxergar. Sempre que passava, ela o cumprimentava com um sorriso amigável, deixando-o muito feliz. “Como ela é delicada!”, pensa ele.
Até que um dia ele criou coragem e a chamou para conversar. Retornando ao local de reuniões da Liga das Mulheres Democráticas Alemãs, ele a aborda e tenta novamente uma conversa. A surpresa veio com um impacto enorme. Ela era muito mais amigável do que ele pensava, mas falava muitos palavrões! E quanto mais falava, mais palavrões saíam, e com muita naturalidade! A garota disse que tem um irmão mais velho em Dresden, talvez isso explique seu jeito de desbocada. Crescer com a influência de um homem pode dar nisso. Gunther não se importa. Pelo menos ela não era rude ou antipática, e sempre o ouvia quando ele queria falar.
Com o passar dos dias, ele a chama mais vezes, se esforçando para manter a naturalidade e coerência. Tímido como sempre, às vezes ela lhe dava mais atenção do que ele podia suportar e isso o deixava muito acanhado.
O rapaz nunca entendeu como uma garota tão linda e independente quanto ela aceitaria sua amizade, e foi aí que o sentimento cresceu e cresceu. Infelizmente, Gunther era diferente e talvez os dois pudessem estar juntos se ele não fosse um paradoxo dimensional.
Acordando novamente na quarta dimensão, ele se vê em um vasto campo florido de belas rosas vermelhas. O sol brilha intensamente no céu azul de nuvens tão brancas que se assemelhavam às vestes de Cristo. Extasiado por aquele incrível sonho, ou realidade que ele pensava ser um sonho, Gunther se levanta de sua cama e corre por aquele lindo campo.
As rosas são de um vermelho belíssimo e exalam um perfume desigual. Estendendo seus braços, ele deixa suas mãos tocarem-nas, deliciando-se com o paradisíaco momento. Só que há algo que ele não percebe e nem a quarta dimensão pôde desfazer. As rosas têm espinhos.
Após correr pelo campo como uma criança, ele respira fundo e limpa o suor com sua mão. E então ele se espanta. Suas mãos, braços e pernas estão dilacerados pelos afiados espinhos. Um sangue vívido e escarlate se escorre dos profundos cortes, tão vermelho quanto as próprias rosas.
Apesar do horror, os ferimentos não lhe causavam dor alguma. Muito pelo contrário, ele se acalma e até se fascina ao ver algo outrora tão repulsivo e nojento escorrendo livremente pelo seu corpo. “Que beleza...”, sussurra ele ao encantar-se com o distinto vermelho.
Esticando sua mão até a espinhenta roseira, ele rasga mais um pouco sua pele e então alcança a flor desejada. Segurando delicadamente a bela rosa, ele a puxa e então a guarda para si. Olhando fixamente para o horizonte, ele já sabe para quem ele vai lhe dar. 
Então Gunther caminha com uma rosa em sua mão. Empolgado e extasiado pelo sentimento, ele não nota que o caule tem afiados espinhos. Sua mão esquerda a segura e os espinhos rasgam sua pele, perfurando-a através da palma de sua mão. O sangue escorre pela ferida, o mesmo sangue viscoso e quente tão diferente daqueles exibidos nos filmes. “O sangue...” ouve ele repetidamente em sua mente enquanto as gotas caem pelo piso.
Ao ver Anneliese, ele estende seu braço e lhe oferece a flor.
- Para você.
A reação é enérgica e grotesca.
- Afaste isso de mim!
A garota ergue suas mãos e vira seu rosto, sentindo grande repulsão pelo nojento presente. Gunther, ainda com o braço esticado, não entende a reação de sua amada e se entristece, deixando o abatimento se estampar em seu rosto.
Por fim Anneliese se vira e corre, assustada e irritada com a bizarra situação. O rapaz fica parado ali, sem reação ou emoção para enfrentar o momento. Então lágrimas se formam e escorrem de seus olhos, ficando triste e abatido ao ver a garota indo embora.
De volta ao seu apartamento, Gunther enche um copo d´água e coloca a rejeitada flor. Aproximando-se da janela, a mesma que brilha com a luz do holofote durante a noite, ele coloca o copo no espaço do peitoril. Aquele nauseante sangue ainda está ali e se escorre pelo vidro e pela parede.
Sentando-se em sua poltrona, ele acende um cigarro e pensa no ocorrido. Mas... de onde veio o cigarro? Como ele veio parar em sua mão? Mas, cansado demais para pensar a respeito, ele ignora e se deixa fumar.
De repente o telefone toca. Ou não toca, não é mais possível dizer.
- Alô?
- Gunther, sou eu. E então? Deu a rosa para sua amada hoje? Como ela se chama? Anneliese...?
O rapaz reconhece a voz feminina no outro lado da linha.
- Me deixe em paz.
- O amor é um sentimento tão lindo, não acha? As pessoas perdem a razão, se encantam, se apaixonam... e se iludem. Às vezes é tão forte que supera até a dor. E por falar nisso, como está a sua mão?
O rapaz se irrita.
- Quem é você, afinal?!
A voz no outro lado da linha se silencia. Gunther tem a impressão de ouvi-la sorrir.
- Você não devia fumar, Gunther. Isso te faz mal.
- Eu não me importo com o que você fala. Você nem é real. Talvez seja só uma voz ecoando dentro de minha cabeça.
- Tem certeza?
Então o rapaz se confunde.
Em um impulso ele desliga o aparelho. Respirando fundo, ele enxuga o suor de sua testa e então fuma mais um pouco. Pegando novamente o telefone, ele checa se ainda há alguém no outro lado da linha, mas o aparelho está complemente mudo, como se estivesse quebrado. Ele se assusta, estaria ele ficando louco?
De repente uma carta é arrastada por debaixo da porta. Levantando-se, ele a abre rapidamente. Olhando para sua casa, ele a examina, mas não vê ninguém. Parado ali por alguns minutos, ele sente o medo novamente o atormentando. Após a saída de sua mãe, ver seu apartamento escuro e vazio o inquietava. Tremendo, ele fecha a porta de seu quarto lentamente.
Ao abrir a carta, ele lê:
“Gunther, como uma âncora que segura um navio, você vai precisar de mim para não se perder. Realidade, existência ou sonho, não existe consciência fora da dimensão. Você não tem como fugir, o quanto antes aceitar isso melhor.”
O rapaz treme. Virando a folha, o verso está limpo, mas ao virar novamente, o texto havia mudado. A outra mensagem diz:
“E então? Sobre o que você quer falar?”




sábado, 23 de maio de 2020

Tiergarten - 06 - Liga das Mulheres Democráticas Alemãs



Dias se passam. Chegando a data esperada, Gunther se dirige ao local de reunião da DFD, próximo à Avenida Alexanderplatz. Ele se depara com um prédio reconstruído, um daqueles revitalizados pela retilínea arquitetura socialista.
Adentrando-o, ele sobe as escadas até encontrar um cartaz colado em uma das portas. Nele está escrito: “Reunião da Liga das Mulheres Democráticas Alemãs. Visitantes são benvindos”. Ao abrir a porta, ele vê um vasto andar cheio de cadeiras e, mais a frente, uma mesa larga onde as membras do DFD discutem suas pautas e proferem seus discursos.
Procurando uma cadeira perto das líderes do movimento, ele se desvia dos visitantes e discretamente se senta. As janelas à sua direita são bem grandes e a luz do dia ilumina o local. Apesar das cortinas balançarem suavemente com o vento, ele nota os ventiladores ligados nas paredes.
Atrás da mesa principal, ele vê retratos de mulheres na parede. Gunther reconhece duas, pois na escola estudou sobre os criadores da Alemanha socialista e alguns de seus movimentos de massa. Tratavam-se de Else Lüders, co-fundadora da DFD e Elli Schimidt, sua primeira presidente.
Algum tempo depois, a reunião se inicia. Primeiramente, as líderes reiteram suas posições políticas, falando de sua importância e seu comprometimento. A DFD lutava pela remoção total das ideias fascistas, pela educação para as mulheres, pelos direitos iguais, pelas condições de vida mais justas, pela educação infantil no espírito do humanismo e da paz, e pela cooperação com o movimento internacional das mulheres. Gunther conhecia seus objetivos, pois os havia lido no panfleto entregue à ele no parque.
Enquanto as membras discursavam sobre as questões atuais, mais visitantes chegavam. O rapaz olhava atentamente para eles, esperando encontrar aquela linda garota que roubou seu coração. Mas ela não estava lá, nem entre os visitantes ou entre as membras. Gunther se frustra.
Na reunião, a presidente exalta a bravura de sua primeira presidente, Elli Schimidt, a antecessora de todas. Schimidt ingressou na Associação Comunista da Juventude Alemã em 1927 e, na década de 30, participou da temida Internacional Comunista. Revolucionária dedicada, Schimidt foi, de 1935 a 46, a única mulher integrante do Partido Comunista Alemão. Finada a guerra, ela retorna à Alemanha em 1945, tornando-se membra do comitê central e, de 46 a 49, chefia as mulheres filiadas ao Partido Unificado da Alemanha Socialista. Em 1949 ela torna-se a primeira presidente do DFD e de 1950 a 54, elege-se ao Volkskammer.
A atual presidente relembra os demais quanto à firme postura de Schimidt. Ela teve coragem ao criticar o próprio partido governante e seu primeiro secretário, Walter Ulbricht. Entretanto, tamanha ousadia teve punição e ela acabou sendo expulsa do comitê central. Devido à sua incansável luta social, Schimidt recebeu três condecorações: a Ordem Patriótica do Mérito, em 1965, o fecho honorário da Ordem Patriótica do Ouro, em 1968 e a Ordem Karl Marx uma década depois em 1978.
“Que mulher!”, admira-se Gunther.
As palestrantes discursavam e alguns visitantes participavam fazendo perguntas. As ativistas discursavam sobre a importância da emancipação das mulheres alemãs e de sua fundamental contribuição não somente à economia, mas ao lado oriental.
Uma hora se passa. As pessoas falavam de questões gerais relacionadas à sociedade socialista e seus objetivos defendidos pela DFD. Política não era seu forte e assistir à uma reunião de ativistas defendendo um sistema ideológico não lhe atraía nenhuma atenção, especialmente quando ele não estava ali para participar daquilo. Preparando-se para ir embora, de repente ele ouve a porta se abrir.
Passando pela porta, a garota de cabelos castanhos entra na sala. Os olhos de Gunther se arregalam. Passando tranquilamente pelos visitantes, seus olhos seguem aquela que faz seu coração disparar na mais sublime euforia que apenas os apaixonados podem sentir. Anneliese se veste com muito recato e seus passos transmitem uma imponência que o faz se hipnotizar. Era como se desde a última vez que se viram ela estivesse mil vezes mais linda.
Ficando três fileiras à frente, a garota segura sua saia e finalmente se senta. De costas para Gunther, ela não nota que ele novamente a observa, irresistivelmente como uma criança bávara diante de uma loja de chocolates.     
Então as palestrantes da mesa a apresentam, dizendo:
- Esta é Anneliese, de nosso escritório na cidade de Dresden. – a garota sorri e se levanta – Ela é responsável pela militância política em defesa da igualdade e dos direitos das mulheres saxônicas.
Os presentes a aplaudem, fazendo-a acenar e sorrir para todos. O rapaz sente seu coração saltar.
- Anneliese, venha aqui à frente, por favor.
A presidente das palestrantes a convida a discursar. A garota caminha até a mesa e, agradecendo, olha para os visitantes e diz:
- Boa tarde. Eu muito tenho lutado politicamente pela educação das mulheres e sua emancipação familiar. Todos sabemos que nosso país sofre constantemente ameaças do imperialismo fascista ocidental. Atraídos pelo materialismo burguês e pelo consumismo desenfreado das chamadas sociedades capitalistas, nossos irmãos alemães têm desertado para além da Cortina de Ferro, decrescendo drasticamente nossa população e prejudicando principalmente a nós, as mulheres.
Gunther se intriga, não encontrando relação nas palavras da garota.
- Vejam as mulheres alemãs do outro lado do muro. Foram esvaziadas intelectualmente pelas benesses luxuosas e tóxicas do capitalismo, tornando-se irrelevantes e inócuas, importando-se apenas com joias e roupas da moda. Foram cegadas por seus senhores patriarcais burgueses, desconhecendo e afastando-se mais e mais de sua fundamental posição social na Alemanha. Nosso movimento, por outro lado, valoriza as mulheres de verdade. Apesar de nossa carência na estética e no entretenimento, nós, as alemãs orientais, temos nossa conscientização política para nos orgulharmos.
Então o rapaz se consterna com as palavras de Anneliese. “Essas mulheres pensam que a politização compensa a divertida e atraente indústria da moda do ocidente”, pensa ele.
- O êxodo populacional prejudicou nosso país, levando inclusive nossas mulheres que contribuem para a existência de nosso povo. Desta forma, para sustentar nossa economia, temos apelado para que as donas de casa abandonem seu jugo matrimonial, tão patriarcal e obsoleto, e assumam sua posição de vanguarda na alfabetização, na qualificação e na força de trabalho, tão necessários ao nosso sistema e nosso futuro.
As alemãs vêm ouvindo esse discurso desde muito antes de seu nascimento. Gunther sabe que a qualificação profissional de sua mãe foi viabilizada graças a ativistas políticas como as da DFD.
- Para combater o veneno ocidental e refrear a deserção em massa, faremos manifestações populares para arregimentar as alemãs e trazê-las para a posição de destaque que elas merecem. Obrigado.
Então a garota agradece e todos aplaudem. A presidente se levanta e, pegando um documento, diz ao público:
- Aqui está nosso agendamento. As manifestações ocorrerão ainda esta semana, lideradas por mim, nossas mesárias e por Anneliese. Contamos com a presença de todos.
Os visitantes novamente aplaudem. Gunther se alegra, agora ele sabia que Anneliese continuaria em Berlim. Entusiasmado, ele se empolga em aplaudir também.
Ao final da reunião, todos se levantam e o rapaz se apressa em direção da garota. Abordando-a, ele a cumprimenta, dizendo:
- Olá, Anneliese.
A garota olha para ele e, sem dar muita importância, sorri, respondendo:
- Olá, camarada. Obrigado por ter vindo.
- Você...
Então vários outros visitantes também aparecem e começam a conversar com ela. Na garganta do rapaz ficam as outras palavras, o restante de sua frase: “se lembra de mim...?”. Alguém a chama e, virando-se, ela vai embora. Gunther não se importa, pois assim como antes, ele a reencontraria de novo. Anotando as datas e horários, ele guarda a agenda da DFD e deixa a reunião.

§

Nas semanas posteriores, Gunther passa frequentar as manifestações da DFD. As ativistas gostavam de falar que eram manifestações populares espontâneas, mas todos sabiam que eram sob permissão direta do Comitê Central do Partido Socialista.
A cada manifestação, as mulheres marchavam por diferentes bairros de Berlim. A primeira ocorre no distrito de Mitte, a segunda em Prenzlauer Berg e a terceira em Friedrichshain. As mulheres marchavam à frente, carregando longas faixas e gritando frases de ordem, geralmente enaltecendo a RDA e a Revolução. O rapaz seguia logo atrás, infiltrado entre os demais simpatizantes.
Gunther não entende. A DFD lutava pelo direito das mulheres, mas em suas faixas e cartazes pareciam haver mais propaganda ideológica do que a defesa de seus objetivos. “Talvez estejam conectados”, pensa ele. “Talvez, para atingir seus objetivos de igualdade e emancipação das mulheres, seja necessária a defesa e a manutenção do socialismo”.
Afastando esses pensamentos, ele não se importa. O que lhe interessava naquele momento era estar sempre perto de sua amada. Procurando-a com os olhos, ele a avista à frente da manifestação, carregando a faixa junto das outras mulheres.
Além das manifestações, Gunther também passa a frequentar as reuniões da DFD. Ele faz amizade com várias pessoas e, apesar da interessante rotina entre as ativistas ideológicas, ele começa a ter uma vida “normal”. Anneliese geralmente comparecia às reuniões, mas apesar de nunca ter coragem de falar com ela novamente, simplesmente vê-la era o bastante para motivá-lo a ir.  
Ao voltar para casa, ele até se esquece do telefone. Na verdade, era como se ele nunca tivesse existido. Ao sair de seu apartamento, ele se apressava a comparecer nas reuniões. Às vezes ele parecia ouvir o telefone tocando pouco antes de fechar a porta, mas desinteressado demais para atende-lo, ele simplesmente o ignorava.
A quarta manifestação ocorre no bairro de Lichtenberg. Ela arregimenta vários simpatizantes que, assim como Gunther, comparecem para segui-las pelas ruas de Berlim. Mas mal sabiam eles que o rapaz estava ali por outro motivo.    
Enquanto marchava, alguém se aproxima dele e pergunta:
- Ei, o que esse movimento defende?
- Defende a remoção das ideias fascistas e... – ele hesita, esforçando-se para se lembrar – E a cooperação com o movimento internacional das mulheres.
- Quais?
O rapaz se intriga.
- Quais o quê?
- Quais movimentos, oras. – responde o interpelador.
Gunther não sabe o que responder.
- Bem... o movimento de...
Então uma ativista da DFD aparece e se coloca na conversa. Os dois começam a conversar e ele nota que a mulher tinha total domínio no assunto. Aproveitando a oportunidade, Gunther se retira.
Em outra reunião no prédio próximo à Alexanderplatz, o rapaz perde a noção do tempo e fica até o anoitecer. Escutando sons de trovão no lado de fora, ele finalmente decide que era hora de partir. Despedindo-se de algumas pessoas que ali compareciam, ele dá uma última olhada em Anneliese. Ela conversa tranquilamente e, ao notar que era observada pelo rapaz, ela inexplicavelmente sorri. Os olhos de Gunther se arregalam. Acanhado, ele abaixa sua cabeça e rapidamente deixa a sala.         
Ao sair do prédio, era noite e chovia em Berlim. Mas para Gunther era como se o sol ainda brilhasse. Segurando seu velho guarda-chuva, ele se recusa a abri-lo e caminha alegremente pelas ruas molhadas. Como se estivesse dançando, ele pendura-se em um poste e respira fundo, estufando seu peito com o mais profundo sentimento de amor.
“Cantando na chuva!”, admira-se ele, recordando da icônica cena do filme de 1952. Enquanto avança pelas ruas, a chuva muda radicalmente de aspecto, mas o rapaz, totalmente tomado pelo amor, sequer nota a abrupta mutação da realidade.
As gotas d’água se tornam milhares e milhares de mortíferos projéteis, caindo sobre a cidade e pulverizando os prédios. Eles eram disparados pelas artilharias soviéticas no famoso cerco de Berlim. Então dois homens, vestindo os negros uniformes nazistas com a braçadeira da SS, aparecem atrás dele e, vendo um cidadão inocentemente passando ali, o agarram, dizendo:
- Você está preso por cantar uma degenerante canção judia! Vamos mandá-lo para um campo de concentração!
O homem resiste e grita, argumentando que tal canção ainda não existe.
Em seguida a chuva torna-se ácida e nociva, transformando o ambiente em um purgatório esverdeado e cinzento. Acima, Gunther consegue ver o enorme e monstruoso cogumelo de fumaça elevando-se pelo céu, oriundo da explosão nuclear. Então, atrás dele, aparecem dois homens vestindo fardas cinzas e quepes com o símbolo da Alemanha Oriental. Avistando outro cidadão, que também passava ocasionalmente por ali, eles o agarram, dizendo:
- Você está preso por cantar a uma música burguesa, antirrevolucionária e capitalista! Vamos manda-lo para o Gulag!
O outro homem grita, resistindo e tentando se desvencilhar inutilmente.
Avançando pelas ruas enquanto dança distraidamente pelas poças d’água, Gunther para em frente a uma loja com uma bela vitrine em sua fachada. De repente a vitrine se estoura em centenas de pedaços, apedrejada por vários garotos loiros vestindo uniformes marrons da Sturmabteilung, a infame SA. Em seguida os garotos a vandalizam, escrevendo na parede a palavra “Jude”[1], revivendo o lamentáveis momentos da Kristallnacht[2].
Passando por outra vitrine, comissários soviéticos expulsam um comerciante e sua família de uma loja. Sob os protestos desesperados de seus antigos donos, os soviéticos os acusam de colaboração com os imperialistas do ocidente, argumentando que a propriedade privada era um conceito burguês e reacionário. Por esta razão, eles seriam expropriados e mandados para o Gulag.
Alheio a estes trágicos acontecimentos, ele continua caminhando todo ensopado para casa.
Gunther está feliz, ele sorri alegremente e seu coração bate forte em seu peito. Parando em frente à sua porta, ele procura pela chave quando percebe que o telefone tocava incessantemente lá dentro. Por alguma razão, ele sente medo ao entrar.
Ao abrir a porta, ele encontra seu apartamento todo escuro. O telefone ainda toca, com seu som vindo da escuridão. Ligando a luz, ele pendura suas roupas molhadas ao lado da porta e caminha temerosamente pelo lugar.
Entrando em seu quarto, ele está prestes a ligar a luz quando a luz do holofote passa por sua janela. Ao atravessar a persiana, ele tem a impressão de ver alguém parado ali, sozinho e olhando para ele. Gunther grita, assustando-se. Ligando rapidamente a luz, seu corpo trêmulo e arrepiado se alivia. Não havia ninguém.
Estendendo seu braço, ele atendo o telefone.
- Alô?
- Anneliese.
Gunther não entende. No telefone, não era a voz de uma mulher falando com ele, ao contrário, era a voz de um homem aparentemente mais velho. Tentando encontrar algo racional para chamar aquela voz, ele pergunta:
- “Moça”... é você?
Mas ninguém responde e ele só ouve estática. Confuso, ele se senta na cama e tenta relaxar um pouco. É nesse momento que uma voz surge ao seu lado e, sussurrando em seu ouvido, lhe diz:
“Anneliese”.

  


[1] Judeu em alemão
[2] Noite dos Cristais

domingo, 10 de maio de 2020

Tiergarten - 05 - Anneliese

(Foto da atriz alemã Natassja Kinski)


A Alemanha Oriental era uma potência no esporte. Compulsório nas escolas e universidades, os alemães do leste o praticavam desde cedo e muitos se tornavam carreiristas, competindo em eventos locais e até nas Olimpíadas.
Apesar de ser uma competição entre jovens de no máximo 20 anos, o público ocupava uma parcela considerável da arquibancada. Berlinenses de todas as idades vinham prestigiar seus jovens atletas, além dos pais e mães que incentivavam o talento de seus filhos para que eles pudessem, ultimamente, alcançar uma maior qualidade de vida.   
Parecia haver um acerbo quanto ao esporte entre os alemães do leste, eram demasiadamente interessados em jovens e crianças competindo por medalhas. O esporte era uma sólida fonte de entretenimento na RDA, além de outras distrações mais triviais como a pintura e o xadrez. Diferente do Ocidente, com sua infindável variedade de recreações, como os jogos eletrônicos e a música pop, a RDA não dispunha e nem permitia que seus cidadãos tivessem tal variedade. Qualquer coisa que violasse a norma era convenientemente suprimida, preservando assim a estabilidade do Estado. Desta forma a distração recaía em grande parte no esporte, onde assistir a um bando de adolescentes suarem e se esforçarem por medalhas se tornava uma maneira lícita de escaparem de sua maçante sociedade.
Procurando por uma cadeira próxima às pistas de atletismo, Gunther se espreme entre os empolgados espectadores e se senta. O estádio é vasto e tem milhares de assentos, mas todos se concentram na parte coberta sob a marquise. Ele está no Friedrich-Ludwig-Jahn-Stadion, localizado em Prenzlauer Berg em Berlim. Inicialmente chamado de Berliner Sportpark, oficiais da Alemanha Oriental o rebatizaram, homenageando aquele que é considerado o pai da ginástica na Alemanha.   
Uma hora depois, o evento começa. Gunther vê os jovens da DTSB saudando a bandeira da RDA, acenando para o público e em seguida se preparando para competir. Eles competem em corrida rasante, sobre obstáculos, passe de barras, lançamento de dardos, de discos, salto com vara e nas demais modalidades do atletismo.
Mas havia uma polêmica entre os esportistas da Alemanha Oriental. Em seus rádios e televisores, os berlinenses do leste podiam assistir aos canais do ocidente, e estes transmitiam matérias onde haviam rumores sobre o uso de estimulantes ilegais nos atletas orientais. Porém, apesar das acusações, nada foi comprovado e as premiações foram mantidas.
Ao observar os atletas, o rapaz sente a nostalgia o dominar. Ele mesmo foi um atleta no colégio, competindo em pequenas provas juvenis mais dedicadas à recreação do que à propaganda socialista. Gunther nunca foi um bom atleta, mas quando competia gostava de dar orgulho à sua mãe, que faltava ao trabalho, tão essencial ao seu sustento, para ver seu pequeno filho correr pelas raias em busca do primeiro lugar. A saudade cresce em seu peito, provocando-lhe dor. Sua mãe, tão dedicada e carinhosa, amava a seu filho e sacrificava a si mesmo para vê-lo feliz.
- Mamãe... – sussurra ele, como uma criança.
Talvez seja por essa dependência emocional que ele queira tanto se reencontrar com ela, pois com a morte de seu pai ambos ficaram sozinhos e, diferente dela, Gunther não queria ficar assim.
Apesar de a princípio a competição ser enfadonha, logo ela o entretém e ele passa a torcer pelos jovens atletas. Gunther vibra, assovia e comemora a vitória dos mais talentosos, alegrando-se com aqueles que trarão tanto orgulho ao seu país. O Partido Socialista aproveita o momento para exaltar sua ideologia, enquanto os jovens da DTSB fazem juramentos à Vaterland [1].
Durante a entrega de medalhas, outro grupo aparece para prestigiá-los também. O rapaz vê mulheres ativistas, vestidas similarmente, aproximarem-se do pódio. Ele as reconhece, trata-se da Demokratischer Frauenbund Deutschlands [2], uma organização de massa criada em março de 1947.
Gunther observa que em seus passos elas parecem marchar, transmitindo uma postura altiva e ativista. Ele sabia que a inserção de sua mãe no mercado de trabalho devia-se grande parte à DFD, pois a Alemanha Oriental tinha problemas econômicos e o governo promovia campanhas para que as donas de casa deixassem seus lares e assumissem um emprego permanentemente.
Alguns diziam que a DFD era essencial para as mulheres, outros que ela era insignificante e de pouca expressividade, recebendo o orçamento mais baixo das organizações de massa. Entretanto com sua entrada no Volkskammer, a DFD passou a ter a notoriedade que merecia. Gunther, por outro lado, gostava de pensar que a organização ajudava a seu país, seja para o direito das mulheres ou para engrossar a mão-de-obra cada vez mais escassa devido às fugas em massa de trabalhadores após a construção do muro.
Enquanto pensa no assunto, uma das mulheres prende sua atenção. Gunther vê uma ativista esbelta, de cabelos e olhos castanhos. Ele parece conhece-la e se esforça para recordar. E então a lembrança vem. Uma das membras do DFD era sua conhecida dos tempos de colégio, quando os dois estudavam juntos na mesma escola em Berlim Oriental. A garota foi transferida à sua escola no meio do semestre e, ao vê-la, ele imediatamente se encanta.
- Mas como ela se chama...? – pergunta-se ele ao encara-la com profundo interesse.
O rapaz se lembra que em sua adolescência ele se apaixonou por ela, mas nunca teve coragem de se declarar. Na verdade, ele nunca nem falou um oi. Ela passava por ele e parecia não notar sua existência, desencorajando-o a tentar qualquer investida ou mesmo se apresentar.
Gunther sempre considerou aquilo uma paixão de adolescente, nunca mais pensando nisso com o fim do colégio. Sua vida era difícil e, lidando com a ausência de seu pai e tendo sua mãe trabalhando para sustenta-los, quem se interessaria por um rapaz solitário e cheio de problemas?
O sentimento retorna, batendo forte em seu coração e dissipando toda a poeira. Ele não entende por que estava sentindo aquilo de novo, mas estava farto de tentar entender as coisas. Naquele momento sua vida se tornara absurda e ele vivia adentrando a quarta dimensão. “Isso é loucura”, pensa ele. “Então por que tentar entender?”.
As competições se encerram. Gunther vê a garota se afastar e se levanta, deixando apressadamente o lugar. Ele se esbarra em alguns espectadores, mas prossegue em seu caminho, se esforçando para não perde-la de vista.
O estádio se situava em um parque do mesmo nome. Saindo do estádio, ele a vê parada no estacionamento, acompanhada das outras mulheres. A garota conversa tranquilamente, sem notar um par de olhos curiosos a observando. Enquanto ele se esgueira, uma das ativistas entregava panfletos para os transeuntes.
Discretamente, o rapaz chegava mais perto e mais perto. Mais um pouco e ele poderia chama-la. Suando e tremendo, ele se aproxima. “Estou quase lá”, pensa ele.
- Com licença? – diz a ativista com os panfletos – O senhor gostaria de pegar um também?
Gunther se assusta. A mulher o chama, fazendo os seus olhos se arregalarem. Controlando-se, ele tenta agir normalmente e acena com a cabeça. Aproveitando a oportunidade, ele pega um panfleto e se aproxima ainda mais do grupo.
No panfleto ele vê as reivindicações da DFD. A organização era membra da Frente Nacional e visava os seguintes objetivos: remoção das ideias fascistas, educação para as mulheres, direitos iguais, condições de vida justas, educação infantil no espírito do humanismo e da paz e cooperação com o movimento internacional das mulheres. Ele vê o pedido de doações e outras coisas fora de seu interesse. Mas, percorrendo com os olhos, ele encontra algo que lhe causa grande euforia. No rodapé havia o local de encontros da organização, um prédio em alguma rua próxima à Alexanderplatz. Ele se felicita.
Ainda disfarçando sua presença ali, a garota olha para ele e gentilmente sorri. Gunther sente seu corpo tremer. Eis a sua chance, não havia tempo a perder, era tudo ou nada. Ele precisava agir!
- G-guten Tag [3]... – cumprimenta ele, gaguejando.
- Boa tarde, camarada. – responde ela, educadamente.
- Eu acho que te conheço de algum lugar. Você é de Berlim?
As outras ativistas olham para ele. Em seguida, elas olha para a garota, parecendo dizer algo com seu olhar. O rapaz se confunde. Atrás de seus semblantes sérios e impávidos elas pareciam sorrir.
Um pouco incomodada ela responde:
- Não, não sou de Berlim. Sou de Dresden.
Gunther se surpreende.
- Dresden?! Não é a capital da Saxônia? – pergunta ele.
A garota lhe faz um olhar entediado, estranhando sua pergunta óbvia. “Meus parabéns, Gunther. Agora ela pensa que você é um ignorante”, pensa ele.
- Sim, a capital da Saxônia e a cidade-natal do nosso primeiro-secretário Walter Ulbricht.
Ao ouvi-la, ele se incomoda. A lembrança do primeiro-secretário, com sua cabeça gigante flutuando no espaço-tempo, ainda o assombra.
- Entendi. – diz ele, pondo sua mão na nuca e abaixando sua cabeça.
Vendo que o rapaz se distraía, a garota pergunta:
- Você disse que me conhecia...?
Retornando, ele responde:
- Ah, sim. Acho que estudamos juntos no mesmo colégio.
- Qual colégio? Aquele em Mitte, próximo ao Walter-Ulbricht-Stadion?
De novo aquele nome. “Meu Deus!”, pensa ele. “Será possível que esse homem está me perseguindo mesmo depois de morto?”.
- Desculpe-me, é que agora eu o chamo de Stadion der Weltjugend [4].
A conversa estava ficando desinteressante e confusa. Ele precisava agir. Então ele pergunta:
- Qual é o seu nome?
Enrolando o cabelo em sua orelha, ela o responde:
- Anneliese.
Sorrindo, o rapaz lhe estende a mão e se apresenta:
- Muito prazer, eu me chamo Gunther.
Os dois balançam as mãos. A garota percebe como ele está tremendo e sua constantemente. Ela pergunta:
- Você está bem?
- Eu... – o rapaz hesita, tentando não gaguejar – Desculpe-me, eu gostaria de saber se vocês se reunirão nesse local especificado no panfleto. É que eu gostaria muito de conhecer as suas pautas.
A garota lhe responde com desinteresse.
- Sim, nos reuniremos lá sim.
- Entendi. – responde ele novamente – Bom, eu tenho de ir agora. Muito obrigado, Anneliese. Tenha uma boa tarde.
Mas antes que ela pudesse respondê-lo, o rapaz lhe dá as costas e vai embora, tremendo como se estivesse ligado no eletrochoque.

§

De volta ao seu apartamento, Gunther passa o resto do dia pensando em Anneliese. Ele até havia se esquecido que foi no estádio para observar os atletas. Toda a sua mente se ocupava em pensar nela agora.
Então o telefone toca.
- Alô?
- É sério isso, Gunther? Você está amando?
Reconhecendo a voz, ele responde:
- Amando? Mas é claro que não.
- Não minta para mim. Você está apaixonado.
Envergonhado, o rapaz se irrita.
- E se eu estiver? O que você tem a ver com isso?
A voz ri.
- Eu me fascino com sua ignorância, pelo menos fez que você desistisse do plano absurdo de atravessar o Muro de Berlim. – mudando de assunto, ela continua – O amor é um sentimento instável e até volátil em outras dimensões. Devido a essa instabilidade, será difícil mantê-lo nas camadas temporais. E é com grande lamentação que eu lhe digo isso: você se tornará um paradoxo dimensional.
As palavras da voz parecem conter uma lúgubre advertência. O rapaz tenta não se importar.
- Pensei que eu já fosse.  
- Desta vez é diferente. O amor é um sentimento intenso, forte e indômito no peito do Homem. – responde ela, referindo-se a toda a humanidade – É como se uma criança levasse pela coleira um leão.
Sorrindo, ele brinca.
- Gostei de ser comparado a um leão.
- Você não entendeu. O amor é o leão na coleira, e a criança que o leva sou eu.
O rapaz insiste em não se importar.    
- Não precisa se preocupar comigo.
- Eu preciso te perguntar uma coisa: você realmente quer isso, Gunther? Você realmente quer sentir o amor?
Um pouco tímido, ele responde:
- Acho que isso não é algo que a gente possa controlar, não é mesmo?
- Então isso é um sim. – afirma ela.
Respirando fundo, ele confessa.
- Sim.
- Então eu devo te alertar uma coisa. Sua vida jamais será a mesma.
Após o alerta, o rapaz se assusta. Em seguida a voz se silencia e ele só ouve estática. Desligando o telefone, ele se senta em sua poltrona e tenta relaxar. Respirando fundo, ele afasta aquelas palavras e sorri, voltando a se lembrar da garota.
- Anneliese... – sussurra ele, pensando nela.
Enquanto se perde em pensamentos apaixonados, Gunther não percebe que sua janela vibra, as cortinas se balançam sem o vento e os móveis saem sozinhos do lugar. Ele estava ocupado demais, um prazer incessante o dominara e em seu coração havia uma fogueira incontrolável que era alimentada por um único nome, o de Anneliese.
Pondo a mão em seu bolso, ele pega o panfleto, mas não percebe que não era a sua mão que o segurava diante de seus olhos.
- Reunião da DFD, não é? – indaga-se ele – Eu vou te reencontrar lá.
Em seguida ele cai no sono, adormecendo na poltrona. Se tivesse ficado acordado por um pouco mais de tempo, veria que no papel as letras haviam mudado de lugar. O braço ainda o segura à sua frente e, formando outra frase no panfleto, ela diz:
“Sua vida jamais será a mesma”.  

  



[1] Pátria em alemão
[2] Liga Democrática das Mulheres Alemãs
[3] Boa tarde em alemão
[4] Estádio da juventude mundial

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Tiergarten - 04 - A Mensagem de Walter Ulbricht



Gunther acorda. Olhando para o seu quarto, ele sente que há algo estranho. A persiana bloqueia a luz lá fora, encobrindo o interior. Ao olhar para o lado, ele nota que o telefone não está mais lá. Descobrindo-se, ele se levanta e caminha por seu apartamento.
O quarto de sua mãe está vazio, ela o deixou limpo e cuidadosamente organizado. A cozinha exibe sua habitual escassez, desde alimentos até os pratos e copos. A sala está um pouco empoeirada, ele teve preguiça demais para varrê-la e abanar as poltronas.       
Aproximando-se da estante, ele se depara com um retrato de seu pai. Vendo um homem loiro e jovem vestindo boina e suspensórios para as calças, seus olhos se enchem de lágrimas. Ele então pergunta:
- Pai... Por que você nos deixou?
Enquanto sofre com a saudade, Gunther ouve uma sirene soar lá fora. O altíssimo som o assusta e ele pensa: “essa não é a sirene de ataque nuclear?”.
Passos pesados são ouvidos no andar de cima, os vizinhos também a ouviram e agora correm para fora. Confuso, ele não sabe o que fazer. A sirene não para de soar e isso o apavora, estimulando suas reações instintuais mais primitivas. De impulso, ele salta sobre a poltrona e dirige-se à porta.
“Dane-se o treinamento!”, pensa ele ao tentar se lembrar do procedimento em caso de emergência, ensinado exaustivamente na escola.
Ao abrir a porta, Gunther se atira para fora e então tem uma terrível surpresa. Como se fosse teletransportado, ele reaparece de volta em seu quarto. Se perguntando como veio parar ali, a luz do holofote passa pela persiana, formando listras de luz nas paredes.
- Mas como...?!
Então a sirene soa novamente, ecoando em toda Berlim. Assustando-se, ele corre novamente para a porta, mas ao sair ele tem a mesma surpresa. Gunther reaparece no mesmo lugar!
A janela estava bem ali, a persiana balançando suavemente com o vento. Então a luz do holofote passa novamente, formando listras nas paredes. Ele podia ouvir as pessoas lá embaixo correndo desesperadas pelas ruas, mas antes que pudesse espiar pela janela e pedir socorro, a sirene soa novamente.
Gunther atravessa seu apartamento e, ao abrir a porta, consegue ver a escadaria que o leva para a rua. Então, ao passar pelo batente, seu corpo é teletransportado milagrosamente de volta para o seu quarto. Lutando para não perder o controle, ele se paralisa. “Eu não consigo sair daqui”, assusta-se ele.
Na janela, o holofote passa lentamente pela persiana, formando listras de luz nas paredes. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, a sirene soa, alta como a trombeta do Apocalipse. Seu corpo se estremece.
Suas reações são reduzidas ao estado primitivo do instinto. Gunther não consegue fazer nada a não ser correr direto para a saída. Mas, assim que põe os pés lá fora, seu corpo retorna ao seu quarto, parando ao lado da janela cuja persiana forma as contínuas listras de luz nas paredes.
E então a sirene toca.
O rapaz não sabe dizer por que a sirene o assusta tanto. Em plena Guerra Fria, os tanques americanos e soviéticos apontados uns para os outros no Checkpoint Charlie faziam de Berlim o estopim da Terceira Guerra Mundial. Após horas e mais horas de propaganda anticapitalista na escola, a única lembrança que ele guardou foram os terríveis efeitos das bombas nucleares nas pessoas. Lembrando-se das aulas, ele dizia para si mesmo: “eu que não quero correr pelas ruas com minha pele queimada pendurada em meu corpo”.      
Saindo de seu devaneio, ele atravessa seu apartamento e abre a porta de entrada. Mas ao sair, ele reaparece de volta em seu quarto, onde a luz do holofote passa pela persiana e forma listras de luz nas paredes. Em seguida a maldita sirene soa. Colocando as mãos na cabeça, ele se encosta na parede e se desliza até se sentar no chão.
Em pânico, ele enche seus pulmões e grita:
- Hilf Mir!!![1]
Os vizinhos nos andares superiores continuam correndo de um lado ao outro, preparando-se para fugir. Preocupado em ser deixado para trás, ele grita novamente:
- Socorro!!!
Lá embaixo, os berlinenses correm pelas ruas, fugindo de um inimigo invisível que, se for real, queimará a todos até os ossos.
- Socorro, por favor!!!
Mas, passados alguns minutos, ele desiste de chama-los.
Agachado de cabeça baixa no canto do quarto, um som se sobressai entre a correria e o pânico. Ele ouve o telefone!
Tentando conter o irracional impulso causado pela terrível sirene, ele se levanta e caminha até a sua cama. Gunther se confunde, ele olha para a pequena mesa, mas o telefone não estava lá. “De onde vem esse som, então?”, pergunta-se ele.
Tocando novamente, o som parece vir de outro lugar. Ele se choca ao perceber que, debaixo dos cobertores, havia outra pessoa deitada ali. O telefone parecia estar com essa misteriosa pessoa, oculta até a cabeça sob os cobertores. Gunther se enche de temor.
Apavorado, ele lentamente se aproxima e, com as mãos tremendo, puxa os cobertores. Um segundo choque se apodera dele ao ver que a cabeça daquela pessoa era o próprio telefone. O rapaz também nota que ela estava vestindo um velho pijama vermelho. “Quem é você?”, pensa ele. Hesitante, ele tenta atende-lo quando a sirene lá fora soa, fazendo-o recuar. Recuperando-se, ele novamente se aproxima e, segurando o receptador, o leva até o rosto.
- Alô...?
- Gunther? Sou eu. Você está bem?
Reconhecendo a voz, ele nunca ficou tão feliz em ouvi-la de novo.
- Me ajude!
- Calma! Eu posso te ajudar, mas antes você precisa me ouvir.
- O que eu faço?
- Para escapar desse loop[2] você precisa me entender primeiro. – a voz pausa por um momento – A saída está em si mesmo.
O rapaz não compreende.
- O quê? O que isso quer dizer?
- Você está em um paradoxo dimensional, o encontro entre a realidade e os sonhos possibilitado pela transmissão constante de ondas eletromagnéticas pela atmosfera. Algumas pessoas são sensíveis a esse fortíssimo sinal, sendo capazes de abrir fendas involuntárias no espaço-tempo, a quarta dimensão se preferir. Mas, como eu disse antes, se elas não tiverem âncoras para as trazerem de volta, ela se perderão entre as camadas dimensionais, como esse limbo do qual você se encontra. Felizmente para você, você é uma dessas pessoas, Gunther.   
Indignado, ele pergunta:
- Felizmente?!
- Faça o que eu digo e você conseguirá sair.
Antes de responder, ele ouve novamente a sirene, atrapalhando-o.
- Como a saída pode estar em mim mesmo? Você quer que eu abra um buraco em meu peito e entre por ele?
A voz é firme ao responder.
- Eu disse que estava aqui para ajudá-lo.
 Irritado, ele desliga o telefone.
Olhando ao redor, ele procura por outra saída em sua casa. Então o holofote passa novamente por sua janela, fazendo as esperadas listras de luz nas paredes. “A janela!”, pensa ele. “Como eu não pensei nela antes?”. Aproximando-se, ele pega a fina corda da persiana e a puxa de uma vez, intentando escapar. Então seus olhos se arregalam de pavor. 
Ao invés de ver o muro e a torre de vigia lá embaixo, Gunther vê uma enorme face do tamanho de seu prédio parada no céu dimensional e olhando para ele. A gigantesca face aparentava ser de um homem velho, calvo, usando cavanhaque e óculos. Ele a reconhece.
- Walter Ulbricht...?!
Ulbricht foi o secretário-geral do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED) na década de 60, governando a Alemanha Oriental e sendo o responsável pela construção do Muro de Berlim.
Encarando-o, Ulbricht ri dele. Enquanto sorri malignamente, o primeiro-secretário lhe fala algo, mas de sua boca sai apenas a incompreensível estática. Gunther não compreende, ao invés de palavras ele ouve apenas aquele irritante ruído. “O que ele está dizendo?”, pergunta-se ele.
Afastando-se da janela, Ulbricht gargalha, aparentando se divertir com o medo do rapaz. Enquanto dá passos confusos para trás, Gunther tropeça na cama e cai sobre a misteriosa pessoa com cabeça de telefone. Estranhamente seu corpo não se choca com aquela aberração e o rapaz tem a sensação de ter caído em algum buraco no meio de seu quarto.  
O limbo torna-se negro como o vale da morte citado na Bíblia. Acima o rapaz vê o teto de seu quarto ficando cada vez mais longe enquanto ele mesmo cai rumo à infinita escuridão. Tendo seu corpo engolido pelas trevas, ele morbidamente se felicita. Aquele sirene altíssima havia ficado para trás.

§

De impulso, Gunther acorda. Tirando os cobertores, ele olha assustado ao redor. Tudo foi um sonho. Respirando fundo, ele se alivia, enxugando o suor de seu rosto. E então ele percebe. Ele estava usando seu velho pijama vermelho.
- É claro! – reconhece ele, jubilosamente – A saída estava em mim mesmo...!
Para sair do loop perdido no meio daquele limbo dimensional, ele precisava “entrar” em si mesmo, pulando em seu corpo sobre a cama. O rapaz se alegra ao perceber que aquilo não era uma charada filosófica maçante, algo sobre alguma busca introspectiva interior.
Levantando-se, Gunther se dirige à sua janela e abre a persiana. Lá embaixo estavam o cinzento muro e a mortífera torre de vigia. Era de manhã e já haviam apagado o holofote, por enquanto ele não faria aquelas sinistras listras de luz nas paredes. Aliviado, Gunther sorri.
De repente ele ouve um ruído na sala. Saindo de seu quarto, ele passa pelo enigmático telefone, mas não lhe dá atenção. O ruído parecia vir de seu velho rádio, mas quem o ligou?
A estática fazia aqueles ruídos engraçados que os americanos usavam em seus filmes de extra-terrestres. Sintonizando as ondas, Gunther tenta encontrar a frequência correta. Uma mensagem vai aparecendo lentamente e, intrigando-se, ele gira cuidadosamente o sintonizador.
Alguns segundos depois, o rapaz ouve a voz de um velho lhe dizer:
- Você nunca poderá deixar Berlim Oriental. Você ficará preso atrás do meu muro para sempre! – e então a voz ri malignamente.
Gunther se assusta. Em seu coração ele sabe que se tratava de Walter Ulbricht falando com ele. Então o telefone toca em seu quarto, fazendo-o pular de susto. Dirigindo-se ao aparelho, ele o atende.
- Alô?
- Gunther, sou eu.
Confuso, ele pergunta:
- O que está acontecendo comigo?
A voz se alegra. Com seu pedido de ajuda, o rapaz estava finalmente começando a entender.
- Apenas lembre-se do que você é agora e da única pessoa que pode te ajudar.
Os dois ficam em silêncio por um instante.
- Como eu faço para isso parar?
A voz é obscura ao responder.
- Isso vai depender de você e do que você quer.
- Eu não entendo.
- Persiga seus objetivos. Vá atrás de seu planos e você vai entender.
E então o silêncio novamente se levanta. Ao ouvir a estática, ele desliga o telefone e se senta em sua cama, passando um tempo ponderando naquelas palavras.
Algo chama sua atenção. Olhando para o gancho na parede ao lado da porta de entrada, ele vê algo no bolso de seu casaco. Levantando-se, ele mexe em sua roupa e encontra um panfleto esportivo. Gunther lê o título, Deutscher Turn und Sportbund. Ele o reconhece, “não é o panfleto que aqueles garotos me deram em Mitte no outro dia?”.
Mais abaixo ele vê a programação dos próximos eventos esportivos em Berlim. Então ele tem uma incrível ideia.
- E se eu me passasse por atleta e, durante algum evento esportivo além da Cortina de Ferro, desertasse para o Ocidente? – pergunta-se ele.
Vendo o calendário no panfleto, ele se informa onde e quando haverá outra competição. Se ele quisesse se passar por atleta, ele teria de se portar como um atleta, e não havia lugar melhor para aprender sobre seus costumes do que em uma reunião de jovens esportistas alemães doutrinados pelo lema “pronto para o trabalho e à defesa da Pátria”.
Ele sorri, aquele era um belo plano, afinal.
Lembrando-se da DTSB, ele deixa escapar um sorriso irônico. Fundado em abril de 1957, sua criação teve a aval dos comunistas mais linha-dura do período pós-guerra na Alemanha, dentre eles o próprio Walter Ulbricht. Stalinista declarado, ele nunca teve vergonha de expor suas radicais convicções políticas, e mesmo assim permitiu a criação de uma organização esportiva benéfica para a sociedade. Ironicamente, essa mesma organização futuramente possibilitaria a fuga de cidadãos do próprio bloco soviético onde ele foi criado.
Gunther se surpreende. Como puderam os comunistas, com seu cínico lema “deve-se parecer democrático, mas nós devemos controlar tudo”, permitirem a criação de algo tão benevolente?  
- Para quem vive relativizando o bem e o mal, eles não parecem tão maus quanto pensamos agora. – comenta ele ao se lembrar de seus ditadores marxistas-leninistas.
Beijando o panfleto em sua mão, ele olha para o céu berlinense e alegremente diz:
- Obrigado, herr Walter Ulbricht!
   
  



[1] Socorro em alemão
[2] Ciclo de repetição em inglês

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...