Ao abrir os olhos, Gunther olha ao redor e vê apenas a escuridão. Sua cama
flutua na vastidão estígia como um berço entre as estrelas, mas com exceção das
estrelas.
A quarta dimensão é algo totalmente incompreensível ao Homem. Sua mente
efêmera, limitada pelas três dimensões, não consegue sequer imaginar a transcendência
dessa proporção. O universo tridimensional depende da constatação natural de
suas propriedades. A luz ilumina, o calor esquenta, o frio esfria... Porém, os
mesmos conceitos podem ser aplicados além dessas conhecidas barreiras?
A escuridão ao redor se expande infinitamente, porém a escuridão
é a ausência de luz e esse conceito está atrelado à percepção humana do
universo tridimensional conhecido. Portanto existe luz e escuridão na quarta dimensão?
O rapaz está deitado e então se senta, colocando os pés no chão invisível sob
ele. Denota-se que há gravidade, pois seu corpo é atraído para a cama e, apesar
da aparência, ele não está flutuando livremente no espaço. Porém, gravidade
também é um conceito tridimensional universal conhecido, então seria possível dizer
que, na quarta dimensão, existe gravidade?
Gunther olha para si mesmo. Ele vê seu corpo e sua cama. Apesar do
escuro, alguma luz sobrenatural ilumina a si, a sua cama e seus cobertores. Ele
não sabe quanto tempo esteve dormindo, ou mesmo quanto tempo esteve naquele
lugar. Então outra implicação lhe sobrevém como um trovão. Massa e tempo estão diretamente
relacionados entre si, pois desde o momento em que a massa é criada, o tempo é criado
junto para determinar sua duração. Cessada a existência da massa, o tempo também
é destituído e deixa de existir. Mas, avançando através dessas barreiras
tridimensionais, pode-se dizer que existe massa e tempo na quarta dimensão?
Ainda sentado, ele olha para sua cama e percebe algo. Naquela vastidão escura,
a cama ocupa um singelo espaço. Assim como o tempo, a matéria está intimamente
ligada ao espaço, pois a matéria necessita de um plano ou espaço para ocupar. Na
quarta dimensão, onde tudo isso é indeterminável e irrelevante, Gunther não sabe
mais o que deduzir.
Como um matemático renascentista contemplando as leis físicas de seu próprio
universo, o rapaz lentamente leva suas mãos ao encontro uma da outra. Então a
surpresa lhe aturde mais uma vez. Ambas as mãos atravessam uma à outra, como se
fossem nuvens de vapor colidindo. Temendo ter morrido, ele se pergunta: “eu sou
um fantasma?”.
Mas ao se perguntar, sua voz sai alta e clara, avançando ao longe. “Se minha
voz existe, então existe o ar para o som se propagar”, constata ele, ávido para
descobrir os segredos desse misterioso lugar. Mas tudo parecia estar escondido
além de sua imaginação.
“Imaginação!”, exclama ele. O que era a imaginação em um lugar sem
forma, aparência e substância como aquele? Inclusive sua mente não podia
conceber a quarta dimensão, pois mesmo o ato de imaginar estava atrelado ao
universo tridimensional. Era como se matemáticos estivessem tentando ensinar
trigonometria a um cachorro, e ele fosse o cachorro. Portanto, o que mais lhe
resta? Capturado sem defesas, ele deixa seus parcos alcances mentais guia-lo
por aquela estranha existência.
§
Gunther caminha apressadamente. Ele não sabe mais o que é real ou mesmo
se está dentro de alguma realidade. Na verdade, ele não sabe de mais nada. Algo
estranho acontece com ele, um sentimento bom que bate forte em seu peito e o
deixa extasiado, fazendo-o se esquecer de todo o tormento e desequilíbrio que
castiga sua mente.
O rapaz caminha entre dimensões.
O amor é um sentimento forte e bonito, tão intenso que às vezes nos
esquecemos da dor. Gunther se apaixonou por Anneliese, uma linda
garota de cabelos castanhos e aparência delicada. Ela é modesta ao se vestir e
nunca se produz mais do que o necessário. Ela usa óculos de aros finos e o
rapaz observa como ela se esforça para enxergar. Sempre que passava, ela o cumprimentava
com um sorriso amigável, deixando-o muito feliz. “Como ela é delicada!”, pensa
ele.
Até que um dia ele criou coragem e a chamou para conversar. Retornando
ao local de reuniões da Liga das Mulheres Democráticas Alemãs, ele a aborda e
tenta novamente uma conversa. A surpresa veio com um impacto enorme. Ela era
muito mais amigável do que ele pensava, mas falava muitos palavrões! E quanto
mais falava, mais palavrões saíam, e com muita naturalidade! A garota disse que
tem um irmão mais velho em Dresden, talvez isso explique seu jeito de
desbocada. Crescer com a influência de um homem pode dar
nisso. Gunther não se importa. Pelo menos ela não era rude ou
antipática, e sempre o ouvia quando ele queria falar.
Com o passar dos dias, ele a chama mais vezes, se esforçando para manter
a naturalidade e coerência. Tímido como sempre, às vezes ela lhe dava mais
atenção do que ele podia suportar e isso o deixava muito acanhado.
O rapaz nunca entendeu como uma garota tão linda e independente quanto
ela aceitaria sua amizade, e foi aí que o sentimento cresceu e cresceu.
Infelizmente, Gunther era diferente e talvez os dois pudessem estar
juntos se ele não fosse um paradoxo dimensional.
Acordando novamente na quarta dimensão, ele se vê em um vasto campo
florido de belas rosas vermelhas. O sol brilha intensamente no céu azul de
nuvens tão brancas que se assemelhavam às vestes de Cristo. Extasiado por
aquele incrível sonho, ou realidade que ele pensava ser um sonho, Gunther se
levanta de sua cama e corre por aquele lindo campo.
As rosas são de um vermelho belíssimo e exalam um perfume desigual. Estendendo
seus braços, ele deixa suas mãos tocarem-nas, deliciando-se com o paradisíaco momento.
Só que há algo que ele não percebe e nem a quarta dimensão pôde desfazer. As rosas
têm espinhos.
Após correr pelo campo como uma criança, ele respira fundo e
limpa o suor com sua mão. E então ele se espanta. Suas mãos, braços e pernas estão
dilacerados pelos afiados espinhos. Um sangue vívido e escarlate se escorre dos
profundos cortes, tão vermelho quanto as próprias rosas.
Apesar do horror, os ferimentos não lhe causavam dor alguma. Muito pelo
contrário, ele se acalma e até se fascina ao ver algo outrora tão repulsivo e
nojento escorrendo livremente pelo seu corpo. “Que beleza...”, sussurra ele ao
encantar-se com o distinto vermelho.
Esticando sua mão até a espinhenta roseira, ele rasga mais um pouco sua
pele e então alcança a flor desejada. Segurando delicadamente a bela rosa, ele
a puxa e então a guarda para si. Olhando fixamente para o horizonte, ele já
sabe para quem ele vai lhe dar.
Então Gunther caminha com uma rosa em sua mão. Empolgado e
extasiado pelo sentimento, ele não nota que o caule tem afiados espinhos. Sua mão
esquerda a segura e os espinhos rasgam sua pele, perfurando-a através da palma
de sua mão. O sangue escorre pela ferida, o mesmo sangue viscoso e quente tão
diferente daqueles exibidos nos filmes. “O sangue...” ouve ele repetidamente em
sua mente enquanto as gotas caem pelo piso.
Ao ver Anneliese, ele estende seu braço e lhe oferece a flor.
- Para você.
A reação é enérgica e grotesca.
- Afaste isso de mim!
A garota ergue suas mãos e vira seu rosto, sentindo grande repulsão pelo
nojento presente. Gunther, ainda com o braço esticado, não entende a
reação de sua amada e se entristece, deixando o abatimento se estampar em seu
rosto.
Por fim Anneliese se vira e corre, assustada e irritada com a bizarra situação.
O rapaz fica parado ali, sem reação ou emoção para enfrentar o momento. Então
lágrimas se formam e escorrem de seus olhos, ficando triste e abatido ao ver a garota
indo embora.
De volta ao seu apartamento, Gunther enche um copo d´água e
coloca a rejeitada flor. Aproximando-se da janela, a mesma que brilha com a luz
do holofote durante a noite, ele coloca o copo no espaço do peitoril. Aquele nauseante sangue ainda está ali e se escorre pelo vidro e pela parede.
Sentando-se em sua poltrona, ele acende um cigarro e pensa no ocorrido. Mas...
de onde veio o cigarro? Como ele veio parar em sua mão? Mas, cansado demais para
pensar a respeito, ele ignora e se deixa fumar.
De repente o telefone toca. Ou não toca, não é mais possível dizer.
- Alô?
- Gunther, sou eu. E então? Deu a rosa para sua amada hoje? Como
ela se chama? Anneliese...?
O rapaz reconhece a voz feminina no outro lado da linha.
- Me deixe em paz.
- O amor é um sentimento tão lindo, não acha? As pessoas perdem a razão,
se encantam, se apaixonam... e se iludem. Às vezes é tão forte que supera até a
dor. E por falar nisso, como está a sua mão?
O rapaz se irrita.
- Quem é você, afinal?!
A voz no outro lado da linha se silencia. Gunther tem a
impressão de ouvi-la sorrir.
- Você não devia fumar, Gunther. Isso te faz mal.
- Eu não me importo com o que você fala. Você nem é real. Talvez seja só
uma voz ecoando dentro de minha cabeça.
- Tem certeza?
Então o rapaz se confunde.
Em um impulso ele desliga o aparelho. Respirando fundo, ele enxuga o
suor de sua testa e então fuma mais um pouco. Pegando novamente o telefone, ele
checa se ainda há alguém no outro lado da linha, mas o aparelho está
complemente mudo, como se estivesse quebrado. Ele se assusta, estaria ele
ficando louco?
De repente uma carta é arrastada por debaixo da porta. Levantando-se, ele
a abre rapidamente. Olhando para sua casa, ele a examina, mas não vê ninguém. Parado
ali por alguns minutos, ele sente o medo novamente o atormentando. Após a saída
de sua mãe, ver seu apartamento escuro e vazio o inquietava. Tremendo, ele
fecha a porta de seu quarto lentamente.
Ao abrir a carta, ele lê:
“Gunther, como uma âncora que segura um navio, você vai precisar de mim
para não se perder. Realidade, existência ou sonho, não existe consciência fora
da dimensão. Você não tem como fugir, o quanto antes aceitar isso melhor.”
O rapaz treme. Virando a folha, o verso está limpo, mas ao virar
novamente, o texto havia mudado. A outra mensagem diz:
“E então? Sobre o que você quer falar?”



