(Foto da atriz alemã Natassja Kinski)
A Alemanha
Oriental era uma potência no esporte. Compulsório nas escolas e universidades,
os alemães do leste o praticavam desde cedo e muitos se tornavam carreiristas,
competindo em eventos locais e até nas Olimpíadas.
Apesar de ser uma
competição entre jovens de no máximo 20 anos, o público ocupava uma parcela
considerável da arquibancada. Berlinenses de todas as idades vinham prestigiar
seus jovens atletas, além dos pais e mães que incentivavam o talento de seus
filhos para que eles pudessem, ultimamente, alcançar uma maior qualidade de
vida.
Parecia haver um
acerbo quanto ao esporte entre os alemães do leste, eram demasiadamente
interessados em jovens e crianças competindo por medalhas. O esporte era uma
sólida fonte de entretenimento na RDA, além de outras distrações mais triviais
como a pintura e o xadrez. Diferente do Ocidente, com sua infindável variedade
de recreações, como os jogos eletrônicos e a música pop, a RDA não dispunha e
nem permitia que seus cidadãos tivessem tal variedade. Qualquer coisa que
violasse a norma era convenientemente suprimida, preservando assim a
estabilidade do Estado. Desta forma a distração recaía em grande parte no
esporte, onde assistir a um bando de adolescentes suarem e se esforçarem por medalhas
se tornava uma maneira lícita de escaparem de sua maçante sociedade.
Procurando por
uma cadeira próxima às pistas de atletismo, Gunther se espreme entre os
empolgados espectadores e se senta. O estádio é vasto e tem milhares de assentos,
mas todos se concentram na parte coberta sob a marquise. Ele está no Friedrich-Ludwig-Jahn-Stadion,
localizado em Prenzlauer Berg em Berlim. Inicialmente chamado de Berliner
Sportpark, oficiais da Alemanha Oriental o rebatizaram, homenageando aquele que
é considerado o pai da ginástica na Alemanha.
Uma hora depois,
o evento começa. Gunther vê os jovens da DTSB saudando a bandeira da RDA,
acenando para o público e em seguida se preparando para competir. Eles competem
em corrida rasante, sobre obstáculos, passe de barras, lançamento de dardos, de
discos, salto com vara e nas demais modalidades do atletismo.
Mas havia uma polêmica entre os esportistas da Alemanha Oriental. Em seus
rádios e televisores, os berlinenses do leste podiam assistir aos canais do
ocidente, e estes transmitiam matérias onde haviam rumores sobre o uso de
estimulantes ilegais nos atletas orientais. Porém, apesar das acusações, nada
foi comprovado e as premiações foram mantidas.
Ao observar os
atletas, o rapaz sente a nostalgia o dominar. Ele mesmo foi um atleta no
colégio, competindo em pequenas provas juvenis mais dedicadas à recreação do
que à propaganda socialista. Gunther nunca foi um bom atleta, mas quando
competia gostava de dar orgulho à sua mãe, que faltava ao trabalho, tão
essencial ao seu sustento, para ver seu pequeno filho correr pelas raias em
busca do primeiro lugar. A saudade cresce em seu peito, provocando-lhe dor. Sua
mãe, tão dedicada e carinhosa, amava a seu filho e sacrificava a si mesmo para
vê-lo feliz.
- Mamãe... –
sussurra ele, como uma criança.
Talvez seja por
essa dependência emocional que ele queira tanto se reencontrar com ela, pois
com a morte de seu pai ambos ficaram sozinhos e, diferente dela, Gunther não queria
ficar assim.
Apesar de a
princípio a competição ser enfadonha, logo ela o entretém e ele passa a torcer
pelos jovens atletas. Gunther vibra, assovia e comemora a vitória dos mais
talentosos, alegrando-se com aqueles que trarão tanto orgulho ao seu país. O
Partido Socialista aproveita o momento para exaltar sua ideologia, enquanto os
jovens da DTSB fazem juramentos à Vaterland [1].
Durante a entrega
de medalhas, outro grupo aparece para prestigiá-los também. O rapaz vê mulheres
ativistas, vestidas similarmente, aproximarem-se do pódio. Ele as reconhece,
trata-se da Demokratischer Frauenbund
Deutschlands [2], uma
organização de massa criada em março de 1947.
Gunther observa
que em seus passos elas parecem marchar, transmitindo uma postura altiva e
ativista. Ele sabia que a inserção de sua mãe no mercado de trabalho devia-se grande parte à DFD, pois a Alemanha Oriental tinha problemas econômicos e o
governo promovia campanhas para que as donas de casa deixassem seus lares e
assumissem um emprego permanentemente.
Alguns diziam que
a DFD era essencial para as mulheres, outros que ela era insignificante e de pouca
expressividade, recebendo o orçamento mais baixo das organizações de massa.
Entretanto com sua entrada no Volkskammer, a DFD passou a ter a notoriedade que
merecia. Gunther, por outro lado, gostava de pensar que a organização ajudava a
seu país, seja para o direito das mulheres ou para engrossar a mão-de-obra cada
vez mais escassa devido às fugas em massa de trabalhadores após a construção do
muro.
Enquanto pensa no
assunto, uma das mulheres prende sua atenção. Gunther vê uma ativista esbelta,
de cabelos e olhos castanhos. Ele parece conhece-la e se esforça para recordar.
E então a lembrança vem. Uma das membras do DFD era sua conhecida dos tempos de
colégio, quando os dois estudavam juntos na mesma escola em Berlim Oriental. A
garota foi transferida à sua escola no meio do semestre e, ao vê-la, ele
imediatamente se encanta.
- Mas como ela se
chama...? – pergunta-se ele ao encara-la com profundo interesse.
O rapaz se lembra
que em sua adolescência ele se apaixonou por ela, mas nunca teve coragem de se
declarar. Na verdade, ele nunca nem falou um oi. Ela passava por ele e
parecia não notar sua existência, desencorajando-o a tentar qualquer investida
ou mesmo se apresentar.
Gunther sempre
considerou aquilo uma paixão de adolescente, nunca mais pensando nisso com o
fim do colégio. Sua vida era difícil e, lidando com a ausência de seu pai e
tendo sua mãe trabalhando para sustenta-los, quem se interessaria por um rapaz
solitário e cheio de problemas?
O sentimento
retorna, batendo forte em seu coração e dissipando toda a poeira. Ele não
entende por que estava sentindo aquilo de novo, mas estava farto de tentar
entender as coisas. Naquele momento sua vida se tornara absurda e ele vivia
adentrando a quarta dimensão. “Isso é loucura”, pensa ele. “Então por que
tentar entender?”.
As competições se
encerram. Gunther vê a garota se afastar e se levanta, deixando apressadamente
o lugar. Ele se esbarra em alguns espectadores, mas prossegue em seu caminho,
se esforçando para não perde-la de vista.
O estádio se
situava em um parque do mesmo nome. Saindo do estádio, ele a vê parada no
estacionamento, acompanhada das outras mulheres. A garota conversa
tranquilamente, sem notar um par de olhos curiosos a observando. Enquanto ele
se esgueira, uma das ativistas entregava panfletos para os transeuntes.
Discretamente, o rapaz
chegava mais perto e mais perto. Mais um pouco e ele poderia chama-la. Suando e
tremendo, ele se aproxima. “Estou quase lá”, pensa ele.
- Com licença? –
diz a ativista com os panfletos – O senhor gostaria de pegar um também?
Gunther se
assusta. A mulher o chama, fazendo os seus olhos se arregalarem. Controlando-se,
ele tenta agir normalmente e acena com a cabeça. Aproveitando a oportunidade, ele
pega um panfleto e se aproxima ainda mais do grupo.
No panfleto ele
vê as reivindicações da DFD. A organização era membra da Frente Nacional e visava
os seguintes objetivos: remoção das ideias fascistas, educação para as
mulheres, direitos iguais, condições de vida justas, educação infantil no
espírito do humanismo e da paz e cooperação com o movimento internacional das
mulheres. Ele vê o pedido de doações e outras coisas fora de seu interesse.
Mas, percorrendo com os olhos, ele encontra algo que lhe causa grande euforia.
No rodapé havia o local de encontros da organização, um prédio em alguma rua
próxima à Alexanderplatz. Ele se felicita.
Ainda disfarçando
sua presença ali, a garota olha para ele e gentilmente sorri. Gunther sente seu
corpo tremer. Eis a sua chance, não havia tempo a perder, era tudo ou nada. Ele
precisava agir!
- G-guten Tag [3]...
– cumprimenta ele, gaguejando.
- Boa tarde,
camarada. – responde ela, educadamente.
- Eu acho que te
conheço de algum lugar. Você é de Berlim?
As outras
ativistas olham para ele. Em seguida, elas olha para a garota, parecendo dizer
algo com seu olhar. O rapaz se confunde. Atrás de seus semblantes sérios e
impávidos elas pareciam sorrir.
Um pouco
incomodada ela responde:
- Não, não sou de
Berlim. Sou de Dresden.
Gunther se
surpreende.
- Dresden?! Não é
a capital da Saxônia? – pergunta ele.
A garota lhe faz
um olhar entediado, estranhando sua pergunta óbvia. “Meus parabéns, Gunther.
Agora ela pensa que você é um ignorante”, pensa ele.
- Sim, a capital
da Saxônia e a cidade-natal do nosso primeiro-secretário Walter Ulbricht.
Ao ouvi-la, ele
se incomoda. A lembrança do primeiro-secretário, com sua cabeça gigante
flutuando no espaço-tempo, ainda o assombra.
- Entendi. – diz
ele, pondo sua mão na nuca e abaixando sua cabeça.
Vendo que o rapaz
se distraía, a garota pergunta:
- Você disse que
me conhecia...?
Retornando, ele
responde:
- Ah, sim. Acho
que estudamos juntos no mesmo colégio.
- Qual colégio?
Aquele em Mitte, próximo ao Walter-Ulbricht-Stadion?
De novo aquele
nome. “Meu Deus!”, pensa ele. “Será possível que esse homem está me perseguindo
mesmo depois de morto?”.
- Desculpe-me, é
que agora eu o chamo de Stadion der
Weltjugend [4].
A conversa estava
ficando desinteressante e confusa. Ele precisava agir. Então ele pergunta:
- Qual é o seu
nome?
Enrolando o
cabelo em sua orelha, ela o responde:
- Anneliese.
Sorrindo, o rapaz
lhe estende a mão e se apresenta:
- Muito prazer,
eu me chamo Gunther.
Os dois balançam as
mãos. A garota percebe como ele está tremendo e sua constantemente. Ela
pergunta:
- Você está bem?
- Eu... – o rapaz
hesita, tentando não gaguejar – Desculpe-me, eu gostaria de saber se vocês se
reunirão nesse local especificado no panfleto. É que eu gostaria muito de
conhecer as suas pautas.
A garota lhe
responde com desinteresse.
- Sim, nos
reuniremos lá sim.
- Entendi. –
responde ele novamente – Bom, eu tenho de ir agora. Muito obrigado, Anneliese.
Tenha uma boa tarde.
Mas antes que ela
pudesse respondê-lo, o rapaz lhe dá as costas e vai embora, tremendo como se
estivesse ligado no eletrochoque.
§
De volta ao seu
apartamento, Gunther passa o resto do dia pensando em Anneliese. Ele até havia
se esquecido que foi no estádio para observar os atletas. Toda a sua mente se
ocupava em pensar nela agora.
Então o telefone
toca.
- Alô?
- É sério isso,
Gunther? Você está amando?
Reconhecendo a
voz, ele responde:
- Amando? Mas é
claro que não.
- Não minta para
mim. Você está apaixonado.
Envergonhado, o
rapaz se irrita.
- E se eu
estiver? O que você tem a ver com isso?
A voz ri.
- Eu me fascino
com sua ignorância, pelo menos fez que você desistisse do plano absurdo de
atravessar o Muro de Berlim. – mudando de assunto, ela continua – O amor é um
sentimento instável e até volátil em outras dimensões. Devido a essa
instabilidade, será difícil mantê-lo nas camadas temporais. E é com grande lamentação
que eu lhe digo isso: você se tornará um paradoxo dimensional.
As palavras da
voz parecem conter uma lúgubre advertência. O rapaz tenta não se importar.
- Pensei que eu
já fosse.
- Desta vez é
diferente. O amor é um sentimento intenso, forte e indômito no peito do Homem.
– responde ela, referindo-se a toda a humanidade – É como se uma criança
levasse pela coleira um leão.
Sorrindo, ele
brinca.
- Gostei de ser
comparado a um leão.
- Você não
entendeu. O amor é o leão na coleira, e a criança que o leva sou eu.
O rapaz insiste
em não se importar.
- Não precisa se
preocupar comigo.
- Eu preciso te
perguntar uma coisa: você realmente quer isso, Gunther? Você realmente quer
sentir o amor?
Um pouco tímido,
ele responde:
- Acho que isso
não é algo que a gente possa controlar, não é mesmo?
- Então isso é um
sim. – afirma ela.
Respirando fundo,
ele confessa.
- Sim.
- Então eu devo
te alertar uma coisa. Sua vida jamais será a mesma.
Após o alerta, o
rapaz se assusta. Em seguida a voz se silencia e ele só ouve estática.
Desligando o telefone, ele se senta em sua poltrona e tenta relaxar. Respirando
fundo, ele afasta aquelas palavras e sorri, voltando a se lembrar da garota.
- Anneliese... –
sussurra ele, pensando nela.
Enquanto se perde
em pensamentos apaixonados, Gunther não percebe que sua janela vibra, as
cortinas se balançam sem o vento e os móveis saem sozinhos do lugar. Ele estava
ocupado demais, um prazer incessante o dominara e em seu coração havia uma
fogueira incontrolável que era alimentada por um único nome, o de Anneliese.
Pondo a mão em
seu bolso, ele pega o panfleto, mas não percebe que não era a sua mão que o
segurava diante de seus olhos.
- Reunião da DFD,
não é? – indaga-se ele – Eu vou te reencontrar lá.
Em seguida ele
cai no sono, adormecendo na poltrona. Se tivesse ficado acordado por um pouco
mais de tempo, veria que no papel as letras haviam mudado de lugar. O braço
ainda o segura à sua frente e, formando outra frase no panfleto, ela diz:
“Sua vida jamais
será a mesma”.
[1] Pátria em alemão
[2] Liga Democrática das Mulheres Alemãs
[3] Boa tarde em alemão
[4] Estádio da juventude mundial

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