domingo, 10 de maio de 2020

Tiergarten - 05 - Anneliese

(Foto da atriz alemã Natassja Kinski)


A Alemanha Oriental era uma potência no esporte. Compulsório nas escolas e universidades, os alemães do leste o praticavam desde cedo e muitos se tornavam carreiristas, competindo em eventos locais e até nas Olimpíadas.
Apesar de ser uma competição entre jovens de no máximo 20 anos, o público ocupava uma parcela considerável da arquibancada. Berlinenses de todas as idades vinham prestigiar seus jovens atletas, além dos pais e mães que incentivavam o talento de seus filhos para que eles pudessem, ultimamente, alcançar uma maior qualidade de vida.   
Parecia haver um acerbo quanto ao esporte entre os alemães do leste, eram demasiadamente interessados em jovens e crianças competindo por medalhas. O esporte era uma sólida fonte de entretenimento na RDA, além de outras distrações mais triviais como a pintura e o xadrez. Diferente do Ocidente, com sua infindável variedade de recreações, como os jogos eletrônicos e a música pop, a RDA não dispunha e nem permitia que seus cidadãos tivessem tal variedade. Qualquer coisa que violasse a norma era convenientemente suprimida, preservando assim a estabilidade do Estado. Desta forma a distração recaía em grande parte no esporte, onde assistir a um bando de adolescentes suarem e se esforçarem por medalhas se tornava uma maneira lícita de escaparem de sua maçante sociedade.
Procurando por uma cadeira próxima às pistas de atletismo, Gunther se espreme entre os empolgados espectadores e se senta. O estádio é vasto e tem milhares de assentos, mas todos se concentram na parte coberta sob a marquise. Ele está no Friedrich-Ludwig-Jahn-Stadion, localizado em Prenzlauer Berg em Berlim. Inicialmente chamado de Berliner Sportpark, oficiais da Alemanha Oriental o rebatizaram, homenageando aquele que é considerado o pai da ginástica na Alemanha.   
Uma hora depois, o evento começa. Gunther vê os jovens da DTSB saudando a bandeira da RDA, acenando para o público e em seguida se preparando para competir. Eles competem em corrida rasante, sobre obstáculos, passe de barras, lançamento de dardos, de discos, salto com vara e nas demais modalidades do atletismo.
Mas havia uma polêmica entre os esportistas da Alemanha Oriental. Em seus rádios e televisores, os berlinenses do leste podiam assistir aos canais do ocidente, e estes transmitiam matérias onde haviam rumores sobre o uso de estimulantes ilegais nos atletas orientais. Porém, apesar das acusações, nada foi comprovado e as premiações foram mantidas.
Ao observar os atletas, o rapaz sente a nostalgia o dominar. Ele mesmo foi um atleta no colégio, competindo em pequenas provas juvenis mais dedicadas à recreação do que à propaganda socialista. Gunther nunca foi um bom atleta, mas quando competia gostava de dar orgulho à sua mãe, que faltava ao trabalho, tão essencial ao seu sustento, para ver seu pequeno filho correr pelas raias em busca do primeiro lugar. A saudade cresce em seu peito, provocando-lhe dor. Sua mãe, tão dedicada e carinhosa, amava a seu filho e sacrificava a si mesmo para vê-lo feliz.
- Mamãe... – sussurra ele, como uma criança.
Talvez seja por essa dependência emocional que ele queira tanto se reencontrar com ela, pois com a morte de seu pai ambos ficaram sozinhos e, diferente dela, Gunther não queria ficar assim.
Apesar de a princípio a competição ser enfadonha, logo ela o entretém e ele passa a torcer pelos jovens atletas. Gunther vibra, assovia e comemora a vitória dos mais talentosos, alegrando-se com aqueles que trarão tanto orgulho ao seu país. O Partido Socialista aproveita o momento para exaltar sua ideologia, enquanto os jovens da DTSB fazem juramentos à Vaterland [1].
Durante a entrega de medalhas, outro grupo aparece para prestigiá-los também. O rapaz vê mulheres ativistas, vestidas similarmente, aproximarem-se do pódio. Ele as reconhece, trata-se da Demokratischer Frauenbund Deutschlands [2], uma organização de massa criada em março de 1947.
Gunther observa que em seus passos elas parecem marchar, transmitindo uma postura altiva e ativista. Ele sabia que a inserção de sua mãe no mercado de trabalho devia-se grande parte à DFD, pois a Alemanha Oriental tinha problemas econômicos e o governo promovia campanhas para que as donas de casa deixassem seus lares e assumissem um emprego permanentemente.
Alguns diziam que a DFD era essencial para as mulheres, outros que ela era insignificante e de pouca expressividade, recebendo o orçamento mais baixo das organizações de massa. Entretanto com sua entrada no Volkskammer, a DFD passou a ter a notoriedade que merecia. Gunther, por outro lado, gostava de pensar que a organização ajudava a seu país, seja para o direito das mulheres ou para engrossar a mão-de-obra cada vez mais escassa devido às fugas em massa de trabalhadores após a construção do muro.
Enquanto pensa no assunto, uma das mulheres prende sua atenção. Gunther vê uma ativista esbelta, de cabelos e olhos castanhos. Ele parece conhece-la e se esforça para recordar. E então a lembrança vem. Uma das membras do DFD era sua conhecida dos tempos de colégio, quando os dois estudavam juntos na mesma escola em Berlim Oriental. A garota foi transferida à sua escola no meio do semestre e, ao vê-la, ele imediatamente se encanta.
- Mas como ela se chama...? – pergunta-se ele ao encara-la com profundo interesse.
O rapaz se lembra que em sua adolescência ele se apaixonou por ela, mas nunca teve coragem de se declarar. Na verdade, ele nunca nem falou um oi. Ela passava por ele e parecia não notar sua existência, desencorajando-o a tentar qualquer investida ou mesmo se apresentar.
Gunther sempre considerou aquilo uma paixão de adolescente, nunca mais pensando nisso com o fim do colégio. Sua vida era difícil e, lidando com a ausência de seu pai e tendo sua mãe trabalhando para sustenta-los, quem se interessaria por um rapaz solitário e cheio de problemas?
O sentimento retorna, batendo forte em seu coração e dissipando toda a poeira. Ele não entende por que estava sentindo aquilo de novo, mas estava farto de tentar entender as coisas. Naquele momento sua vida se tornara absurda e ele vivia adentrando a quarta dimensão. “Isso é loucura”, pensa ele. “Então por que tentar entender?”.
As competições se encerram. Gunther vê a garota se afastar e se levanta, deixando apressadamente o lugar. Ele se esbarra em alguns espectadores, mas prossegue em seu caminho, se esforçando para não perde-la de vista.
O estádio se situava em um parque do mesmo nome. Saindo do estádio, ele a vê parada no estacionamento, acompanhada das outras mulheres. A garota conversa tranquilamente, sem notar um par de olhos curiosos a observando. Enquanto ele se esgueira, uma das ativistas entregava panfletos para os transeuntes.
Discretamente, o rapaz chegava mais perto e mais perto. Mais um pouco e ele poderia chama-la. Suando e tremendo, ele se aproxima. “Estou quase lá”, pensa ele.
- Com licença? – diz a ativista com os panfletos – O senhor gostaria de pegar um também?
Gunther se assusta. A mulher o chama, fazendo os seus olhos se arregalarem. Controlando-se, ele tenta agir normalmente e acena com a cabeça. Aproveitando a oportunidade, ele pega um panfleto e se aproxima ainda mais do grupo.
No panfleto ele vê as reivindicações da DFD. A organização era membra da Frente Nacional e visava os seguintes objetivos: remoção das ideias fascistas, educação para as mulheres, direitos iguais, condições de vida justas, educação infantil no espírito do humanismo e da paz e cooperação com o movimento internacional das mulheres. Ele vê o pedido de doações e outras coisas fora de seu interesse. Mas, percorrendo com os olhos, ele encontra algo que lhe causa grande euforia. No rodapé havia o local de encontros da organização, um prédio em alguma rua próxima à Alexanderplatz. Ele se felicita.
Ainda disfarçando sua presença ali, a garota olha para ele e gentilmente sorri. Gunther sente seu corpo tremer. Eis a sua chance, não havia tempo a perder, era tudo ou nada. Ele precisava agir!
- G-guten Tag [3]... – cumprimenta ele, gaguejando.
- Boa tarde, camarada. – responde ela, educadamente.
- Eu acho que te conheço de algum lugar. Você é de Berlim?
As outras ativistas olham para ele. Em seguida, elas olha para a garota, parecendo dizer algo com seu olhar. O rapaz se confunde. Atrás de seus semblantes sérios e impávidos elas pareciam sorrir.
Um pouco incomodada ela responde:
- Não, não sou de Berlim. Sou de Dresden.
Gunther se surpreende.
- Dresden?! Não é a capital da Saxônia? – pergunta ele.
A garota lhe faz um olhar entediado, estranhando sua pergunta óbvia. “Meus parabéns, Gunther. Agora ela pensa que você é um ignorante”, pensa ele.
- Sim, a capital da Saxônia e a cidade-natal do nosso primeiro-secretário Walter Ulbricht.
Ao ouvi-la, ele se incomoda. A lembrança do primeiro-secretário, com sua cabeça gigante flutuando no espaço-tempo, ainda o assombra.
- Entendi. – diz ele, pondo sua mão na nuca e abaixando sua cabeça.
Vendo que o rapaz se distraía, a garota pergunta:
- Você disse que me conhecia...?
Retornando, ele responde:
- Ah, sim. Acho que estudamos juntos no mesmo colégio.
- Qual colégio? Aquele em Mitte, próximo ao Walter-Ulbricht-Stadion?
De novo aquele nome. “Meu Deus!”, pensa ele. “Será possível que esse homem está me perseguindo mesmo depois de morto?”.
- Desculpe-me, é que agora eu o chamo de Stadion der Weltjugend [4].
A conversa estava ficando desinteressante e confusa. Ele precisava agir. Então ele pergunta:
- Qual é o seu nome?
Enrolando o cabelo em sua orelha, ela o responde:
- Anneliese.
Sorrindo, o rapaz lhe estende a mão e se apresenta:
- Muito prazer, eu me chamo Gunther.
Os dois balançam as mãos. A garota percebe como ele está tremendo e sua constantemente. Ela pergunta:
- Você está bem?
- Eu... – o rapaz hesita, tentando não gaguejar – Desculpe-me, eu gostaria de saber se vocês se reunirão nesse local especificado no panfleto. É que eu gostaria muito de conhecer as suas pautas.
A garota lhe responde com desinteresse.
- Sim, nos reuniremos lá sim.
- Entendi. – responde ele novamente – Bom, eu tenho de ir agora. Muito obrigado, Anneliese. Tenha uma boa tarde.
Mas antes que ela pudesse respondê-lo, o rapaz lhe dá as costas e vai embora, tremendo como se estivesse ligado no eletrochoque.

§

De volta ao seu apartamento, Gunther passa o resto do dia pensando em Anneliese. Ele até havia se esquecido que foi no estádio para observar os atletas. Toda a sua mente se ocupava em pensar nela agora.
Então o telefone toca.
- Alô?
- É sério isso, Gunther? Você está amando?
Reconhecendo a voz, ele responde:
- Amando? Mas é claro que não.
- Não minta para mim. Você está apaixonado.
Envergonhado, o rapaz se irrita.
- E se eu estiver? O que você tem a ver com isso?
A voz ri.
- Eu me fascino com sua ignorância, pelo menos fez que você desistisse do plano absurdo de atravessar o Muro de Berlim. – mudando de assunto, ela continua – O amor é um sentimento instável e até volátil em outras dimensões. Devido a essa instabilidade, será difícil mantê-lo nas camadas temporais. E é com grande lamentação que eu lhe digo isso: você se tornará um paradoxo dimensional.
As palavras da voz parecem conter uma lúgubre advertência. O rapaz tenta não se importar.
- Pensei que eu já fosse.  
- Desta vez é diferente. O amor é um sentimento intenso, forte e indômito no peito do Homem. – responde ela, referindo-se a toda a humanidade – É como se uma criança levasse pela coleira um leão.
Sorrindo, ele brinca.
- Gostei de ser comparado a um leão.
- Você não entendeu. O amor é o leão na coleira, e a criança que o leva sou eu.
O rapaz insiste em não se importar.    
- Não precisa se preocupar comigo.
- Eu preciso te perguntar uma coisa: você realmente quer isso, Gunther? Você realmente quer sentir o amor?
Um pouco tímido, ele responde:
- Acho que isso não é algo que a gente possa controlar, não é mesmo?
- Então isso é um sim. – afirma ela.
Respirando fundo, ele confessa.
- Sim.
- Então eu devo te alertar uma coisa. Sua vida jamais será a mesma.
Após o alerta, o rapaz se assusta. Em seguida a voz se silencia e ele só ouve estática. Desligando o telefone, ele se senta em sua poltrona e tenta relaxar. Respirando fundo, ele afasta aquelas palavras e sorri, voltando a se lembrar da garota.
- Anneliese... – sussurra ele, pensando nela.
Enquanto se perde em pensamentos apaixonados, Gunther não percebe que sua janela vibra, as cortinas se balançam sem o vento e os móveis saem sozinhos do lugar. Ele estava ocupado demais, um prazer incessante o dominara e em seu coração havia uma fogueira incontrolável que era alimentada por um único nome, o de Anneliese.
Pondo a mão em seu bolso, ele pega o panfleto, mas não percebe que não era a sua mão que o segurava diante de seus olhos.
- Reunião da DFD, não é? – indaga-se ele – Eu vou te reencontrar lá.
Em seguida ele cai no sono, adormecendo na poltrona. Se tivesse ficado acordado por um pouco mais de tempo, veria que no papel as letras haviam mudado de lugar. O braço ainda o segura à sua frente e, formando outra frase no panfleto, ela diz:
“Sua vida jamais será a mesma”.  

  



[1] Pátria em alemão
[2] Liga Democrática das Mulheres Alemãs
[3] Boa tarde em alemão
[4] Estádio da juventude mundial

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