sexta-feira, 1 de maio de 2020

Tiergarten - 04 - A Mensagem de Walter Ulbricht



Gunther acorda. Olhando para o seu quarto, ele sente que há algo estranho. A persiana bloqueia a luz lá fora, encobrindo o interior. Ao olhar para o lado, ele nota que o telefone não está mais lá. Descobrindo-se, ele se levanta e caminha por seu apartamento.
O quarto de sua mãe está vazio, ela o deixou limpo e cuidadosamente organizado. A cozinha exibe sua habitual escassez, desde alimentos até os pratos e copos. A sala está um pouco empoeirada, ele teve preguiça demais para varrê-la e abanar as poltronas.       
Aproximando-se da estante, ele se depara com um retrato de seu pai. Vendo um homem loiro e jovem vestindo boina e suspensórios para as calças, seus olhos se enchem de lágrimas. Ele então pergunta:
- Pai... Por que você nos deixou?
Enquanto sofre com a saudade, Gunther ouve uma sirene soar lá fora. O altíssimo som o assusta e ele pensa: “essa não é a sirene de ataque nuclear?”.
Passos pesados são ouvidos no andar de cima, os vizinhos também a ouviram e agora correm para fora. Confuso, ele não sabe o que fazer. A sirene não para de soar e isso o apavora, estimulando suas reações instintuais mais primitivas. De impulso, ele salta sobre a poltrona e dirige-se à porta.
“Dane-se o treinamento!”, pensa ele ao tentar se lembrar do procedimento em caso de emergência, ensinado exaustivamente na escola.
Ao abrir a porta, Gunther se atira para fora e então tem uma terrível surpresa. Como se fosse teletransportado, ele reaparece de volta em seu quarto. Se perguntando como veio parar ali, a luz do holofote passa pela persiana, formando listras de luz nas paredes.
- Mas como...?!
Então a sirene soa novamente, ecoando em toda Berlim. Assustando-se, ele corre novamente para a porta, mas ao sair ele tem a mesma surpresa. Gunther reaparece no mesmo lugar!
A janela estava bem ali, a persiana balançando suavemente com o vento. Então a luz do holofote passa novamente, formando listras nas paredes. Ele podia ouvir as pessoas lá embaixo correndo desesperadas pelas ruas, mas antes que pudesse espiar pela janela e pedir socorro, a sirene soa novamente.
Gunther atravessa seu apartamento e, ao abrir a porta, consegue ver a escadaria que o leva para a rua. Então, ao passar pelo batente, seu corpo é teletransportado milagrosamente de volta para o seu quarto. Lutando para não perder o controle, ele se paralisa. “Eu não consigo sair daqui”, assusta-se ele.
Na janela, o holofote passa lentamente pela persiana, formando listras de luz nas paredes. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, a sirene soa, alta como a trombeta do Apocalipse. Seu corpo se estremece.
Suas reações são reduzidas ao estado primitivo do instinto. Gunther não consegue fazer nada a não ser correr direto para a saída. Mas, assim que põe os pés lá fora, seu corpo retorna ao seu quarto, parando ao lado da janela cuja persiana forma as contínuas listras de luz nas paredes.
E então a sirene toca.
O rapaz não sabe dizer por que a sirene o assusta tanto. Em plena Guerra Fria, os tanques americanos e soviéticos apontados uns para os outros no Checkpoint Charlie faziam de Berlim o estopim da Terceira Guerra Mundial. Após horas e mais horas de propaganda anticapitalista na escola, a única lembrança que ele guardou foram os terríveis efeitos das bombas nucleares nas pessoas. Lembrando-se das aulas, ele dizia para si mesmo: “eu que não quero correr pelas ruas com minha pele queimada pendurada em meu corpo”.      
Saindo de seu devaneio, ele atravessa seu apartamento e abre a porta de entrada. Mas ao sair, ele reaparece de volta em seu quarto, onde a luz do holofote passa pela persiana e forma listras de luz nas paredes. Em seguida a maldita sirene soa. Colocando as mãos na cabeça, ele se encosta na parede e se desliza até se sentar no chão.
Em pânico, ele enche seus pulmões e grita:
- Hilf Mir!!![1]
Os vizinhos nos andares superiores continuam correndo de um lado ao outro, preparando-se para fugir. Preocupado em ser deixado para trás, ele grita novamente:
- Socorro!!!
Lá embaixo, os berlinenses correm pelas ruas, fugindo de um inimigo invisível que, se for real, queimará a todos até os ossos.
- Socorro, por favor!!!
Mas, passados alguns minutos, ele desiste de chama-los.
Agachado de cabeça baixa no canto do quarto, um som se sobressai entre a correria e o pânico. Ele ouve o telefone!
Tentando conter o irracional impulso causado pela terrível sirene, ele se levanta e caminha até a sua cama. Gunther se confunde, ele olha para a pequena mesa, mas o telefone não estava lá. “De onde vem esse som, então?”, pergunta-se ele.
Tocando novamente, o som parece vir de outro lugar. Ele se choca ao perceber que, debaixo dos cobertores, havia outra pessoa deitada ali. O telefone parecia estar com essa misteriosa pessoa, oculta até a cabeça sob os cobertores. Gunther se enche de temor.
Apavorado, ele lentamente se aproxima e, com as mãos tremendo, puxa os cobertores. Um segundo choque se apodera dele ao ver que a cabeça daquela pessoa era o próprio telefone. O rapaz também nota que ela estava vestindo um velho pijama vermelho. “Quem é você?”, pensa ele. Hesitante, ele tenta atende-lo quando a sirene lá fora soa, fazendo-o recuar. Recuperando-se, ele novamente se aproxima e, segurando o receptador, o leva até o rosto.
- Alô...?
- Gunther? Sou eu. Você está bem?
Reconhecendo a voz, ele nunca ficou tão feliz em ouvi-la de novo.
- Me ajude!
- Calma! Eu posso te ajudar, mas antes você precisa me ouvir.
- O que eu faço?
- Para escapar desse loop[2] você precisa me entender primeiro. – a voz pausa por um momento – A saída está em si mesmo.
O rapaz não compreende.
- O quê? O que isso quer dizer?
- Você está em um paradoxo dimensional, o encontro entre a realidade e os sonhos possibilitado pela transmissão constante de ondas eletromagnéticas pela atmosfera. Algumas pessoas são sensíveis a esse fortíssimo sinal, sendo capazes de abrir fendas involuntárias no espaço-tempo, a quarta dimensão se preferir. Mas, como eu disse antes, se elas não tiverem âncoras para as trazerem de volta, ela se perderão entre as camadas dimensionais, como esse limbo do qual você se encontra. Felizmente para você, você é uma dessas pessoas, Gunther.   
Indignado, ele pergunta:
- Felizmente?!
- Faça o que eu digo e você conseguirá sair.
Antes de responder, ele ouve novamente a sirene, atrapalhando-o.
- Como a saída pode estar em mim mesmo? Você quer que eu abra um buraco em meu peito e entre por ele?
A voz é firme ao responder.
- Eu disse que estava aqui para ajudá-lo.
 Irritado, ele desliga o telefone.
Olhando ao redor, ele procura por outra saída em sua casa. Então o holofote passa novamente por sua janela, fazendo as esperadas listras de luz nas paredes. “A janela!”, pensa ele. “Como eu não pensei nela antes?”. Aproximando-se, ele pega a fina corda da persiana e a puxa de uma vez, intentando escapar. Então seus olhos se arregalam de pavor. 
Ao invés de ver o muro e a torre de vigia lá embaixo, Gunther vê uma enorme face do tamanho de seu prédio parada no céu dimensional e olhando para ele. A gigantesca face aparentava ser de um homem velho, calvo, usando cavanhaque e óculos. Ele a reconhece.
- Walter Ulbricht...?!
Ulbricht foi o secretário-geral do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED) na década de 60, governando a Alemanha Oriental e sendo o responsável pela construção do Muro de Berlim.
Encarando-o, Ulbricht ri dele. Enquanto sorri malignamente, o primeiro-secretário lhe fala algo, mas de sua boca sai apenas a incompreensível estática. Gunther não compreende, ao invés de palavras ele ouve apenas aquele irritante ruído. “O que ele está dizendo?”, pergunta-se ele.
Afastando-se da janela, Ulbricht gargalha, aparentando se divertir com o medo do rapaz. Enquanto dá passos confusos para trás, Gunther tropeça na cama e cai sobre a misteriosa pessoa com cabeça de telefone. Estranhamente seu corpo não se choca com aquela aberração e o rapaz tem a sensação de ter caído em algum buraco no meio de seu quarto.  
O limbo torna-se negro como o vale da morte citado na Bíblia. Acima o rapaz vê o teto de seu quarto ficando cada vez mais longe enquanto ele mesmo cai rumo à infinita escuridão. Tendo seu corpo engolido pelas trevas, ele morbidamente se felicita. Aquele sirene altíssima havia ficado para trás.

§

De impulso, Gunther acorda. Tirando os cobertores, ele olha assustado ao redor. Tudo foi um sonho. Respirando fundo, ele se alivia, enxugando o suor de seu rosto. E então ele percebe. Ele estava usando seu velho pijama vermelho.
- É claro! – reconhece ele, jubilosamente – A saída estava em mim mesmo...!
Para sair do loop perdido no meio daquele limbo dimensional, ele precisava “entrar” em si mesmo, pulando em seu corpo sobre a cama. O rapaz se alegra ao perceber que aquilo não era uma charada filosófica maçante, algo sobre alguma busca introspectiva interior.
Levantando-se, Gunther se dirige à sua janela e abre a persiana. Lá embaixo estavam o cinzento muro e a mortífera torre de vigia. Era de manhã e já haviam apagado o holofote, por enquanto ele não faria aquelas sinistras listras de luz nas paredes. Aliviado, Gunther sorri.
De repente ele ouve um ruído na sala. Saindo de seu quarto, ele passa pelo enigmático telefone, mas não lhe dá atenção. O ruído parecia vir de seu velho rádio, mas quem o ligou?
A estática fazia aqueles ruídos engraçados que os americanos usavam em seus filmes de extra-terrestres. Sintonizando as ondas, Gunther tenta encontrar a frequência correta. Uma mensagem vai aparecendo lentamente e, intrigando-se, ele gira cuidadosamente o sintonizador.
Alguns segundos depois, o rapaz ouve a voz de um velho lhe dizer:
- Você nunca poderá deixar Berlim Oriental. Você ficará preso atrás do meu muro para sempre! – e então a voz ri malignamente.
Gunther se assusta. Em seu coração ele sabe que se tratava de Walter Ulbricht falando com ele. Então o telefone toca em seu quarto, fazendo-o pular de susto. Dirigindo-se ao aparelho, ele o atende.
- Alô?
- Gunther, sou eu.
Confuso, ele pergunta:
- O que está acontecendo comigo?
A voz se alegra. Com seu pedido de ajuda, o rapaz estava finalmente começando a entender.
- Apenas lembre-se do que você é agora e da única pessoa que pode te ajudar.
Os dois ficam em silêncio por um instante.
- Como eu faço para isso parar?
A voz é obscura ao responder.
- Isso vai depender de você e do que você quer.
- Eu não entendo.
- Persiga seus objetivos. Vá atrás de seu planos e você vai entender.
E então o silêncio novamente se levanta. Ao ouvir a estática, ele desliga o telefone e se senta em sua cama, passando um tempo ponderando naquelas palavras.
Algo chama sua atenção. Olhando para o gancho na parede ao lado da porta de entrada, ele vê algo no bolso de seu casaco. Levantando-se, ele mexe em sua roupa e encontra um panfleto esportivo. Gunther lê o título, Deutscher Turn und Sportbund. Ele o reconhece, “não é o panfleto que aqueles garotos me deram em Mitte no outro dia?”.
Mais abaixo ele vê a programação dos próximos eventos esportivos em Berlim. Então ele tem uma incrível ideia.
- E se eu me passasse por atleta e, durante algum evento esportivo além da Cortina de Ferro, desertasse para o Ocidente? – pergunta-se ele.
Vendo o calendário no panfleto, ele se informa onde e quando haverá outra competição. Se ele quisesse se passar por atleta, ele teria de se portar como um atleta, e não havia lugar melhor para aprender sobre seus costumes do que em uma reunião de jovens esportistas alemães doutrinados pelo lema “pronto para o trabalho e à defesa da Pátria”.
Ele sorri, aquele era um belo plano, afinal.
Lembrando-se da DTSB, ele deixa escapar um sorriso irônico. Fundado em abril de 1957, sua criação teve a aval dos comunistas mais linha-dura do período pós-guerra na Alemanha, dentre eles o próprio Walter Ulbricht. Stalinista declarado, ele nunca teve vergonha de expor suas radicais convicções políticas, e mesmo assim permitiu a criação de uma organização esportiva benéfica para a sociedade. Ironicamente, essa mesma organização futuramente possibilitaria a fuga de cidadãos do próprio bloco soviético onde ele foi criado.
Gunther se surpreende. Como puderam os comunistas, com seu cínico lema “deve-se parecer democrático, mas nós devemos controlar tudo”, permitirem a criação de algo tão benevolente?  
- Para quem vive relativizando o bem e o mal, eles não parecem tão maus quanto pensamos agora. – comenta ele ao se lembrar de seus ditadores marxistas-leninistas.
Beijando o panfleto em sua mão, ele olha para o céu berlinense e alegremente diz:
- Obrigado, herr Walter Ulbricht!
   
  



[1] Socorro em alemão
[2] Ciclo de repetição em inglês

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