Gunther acorda.
Olhando para o seu quarto, ele sente que há algo estranho. A persiana bloqueia
a luz lá fora, encobrindo o interior. Ao olhar para o lado, ele nota que o
telefone não está mais lá. Descobrindo-se, ele se levanta e caminha por seu
apartamento.
O quarto de sua
mãe está vazio, ela o deixou limpo e cuidadosamente organizado. A cozinha exibe
sua habitual escassez, desde alimentos até os pratos e copos. A sala está um
pouco empoeirada, ele teve preguiça demais para varrê-la e abanar as poltronas.
Aproximando-se da
estante, ele se depara com um retrato de seu pai. Vendo um homem loiro e jovem
vestindo boina e suspensórios para as calças, seus olhos se enchem de lágrimas.
Ele então pergunta:
- Pai... Por que
você nos deixou?
Enquanto sofre
com a saudade, Gunther ouve uma sirene soar lá fora. O altíssimo som o assusta
e ele pensa: “essa não é a sirene de ataque nuclear?”.
Passos pesados
são ouvidos no andar de cima, os vizinhos também a ouviram e agora correm para
fora. Confuso, ele não sabe o que fazer. A sirene não para de soar e isso o
apavora, estimulando suas reações instintuais mais primitivas. De impulso, ele
salta sobre a poltrona e dirige-se à porta.
“Dane-se o
treinamento!”, pensa ele ao tentar se lembrar do procedimento em caso de
emergência, ensinado exaustivamente na escola.
Ao abrir a porta,
Gunther se atira para fora e então tem uma terrível surpresa. Como se fosse
teletransportado, ele reaparece de volta em seu quarto. Se perguntando como
veio parar ali, a luz do holofote passa pela persiana, formando listras de luz
nas paredes.
- Mas como...?!
Então a sirene
soa novamente, ecoando em toda Berlim. Assustando-se, ele corre novamente para
a porta, mas ao sair ele tem a mesma surpresa. Gunther reaparece no mesmo
lugar!
A janela estava
bem ali, a persiana balançando suavemente com o vento. Então a luz do holofote
passa novamente, formando listras nas paredes. Ele podia ouvir as pessoas lá
embaixo correndo desesperadas pelas ruas, mas antes que pudesse espiar pela
janela e pedir socorro, a sirene soa novamente.
Gunther atravessa
seu apartamento e, ao abrir a porta, consegue ver a escadaria que o leva para a
rua. Então, ao passar pelo batente, seu corpo é teletransportado milagrosamente
de volta para o seu quarto. Lutando para não perder o controle, ele se
paralisa. “Eu não consigo sair daqui”, assusta-se ele.
Na janela, o
holofote passa lentamente pela persiana, formando listras de luz nas paredes. Antes
que pudesse fazer qualquer coisa, a sirene soa, alta como a trombeta do
Apocalipse. Seu corpo se estremece.
Suas reações são
reduzidas ao estado primitivo do instinto. Gunther não consegue fazer nada a
não ser correr direto para a saída. Mas, assim que põe os pés lá fora, seu
corpo retorna ao seu quarto, parando ao lado da janela cuja persiana forma as
contínuas listras de luz nas paredes.
E então a sirene
toca.
O rapaz não sabe
dizer por que a sirene o assusta tanto. Em plena Guerra Fria, os tanques
americanos e soviéticos apontados uns para os outros no Checkpoint Charlie faziam
de Berlim o estopim da Terceira Guerra Mundial. Após horas e mais horas de
propaganda anticapitalista na escola, a única lembrança que ele guardou foram
os terríveis efeitos das bombas nucleares nas pessoas. Lembrando-se das aulas,
ele dizia para si mesmo: “eu que não quero correr pelas ruas com minha pele
queimada pendurada em meu corpo”.
Saindo de seu
devaneio, ele atravessa seu apartamento e abre a porta de entrada. Mas ao sair,
ele reaparece de volta em seu quarto, onde a luz do holofote passa pela
persiana e forma listras de luz nas paredes. Em seguida a maldita sirene soa.
Colocando as mãos na cabeça, ele se encosta na parede e se desliza até se
sentar no chão.
Em pânico, ele
enche seus pulmões e grita:
- Hilf Mir!!![1]
Os vizinhos nos
andares superiores continuam correndo de um lado ao outro, preparando-se para
fugir. Preocupado em ser deixado para trás, ele grita novamente:
- Socorro!!!
Lá embaixo, os
berlinenses correm pelas ruas, fugindo de um inimigo invisível que, se for
real, queimará a todos até os ossos.
- Socorro, por
favor!!!
Mas, passados
alguns minutos, ele desiste de chama-los.
Agachado de
cabeça baixa no canto do quarto, um som se sobressai entre a correria e o
pânico. Ele ouve o telefone!
Tentando conter o
irracional impulso causado pela terrível sirene, ele se levanta e caminha até a sua cama. Gunther se confunde, ele olha para a pequena mesa, mas o telefone não
estava lá. “De onde vem esse som, então?”, pergunta-se ele.
Tocando
novamente, o som parece vir de outro lugar. Ele se choca ao perceber que,
debaixo dos cobertores, havia outra pessoa deitada ali. O telefone
parecia estar com essa misteriosa pessoa, oculta até a cabeça sob os
cobertores. Gunther se enche de temor.
Apavorado, ele
lentamente se aproxima e, com as mãos tremendo, puxa os cobertores. Um segundo
choque se apodera dele ao ver que a cabeça daquela pessoa era o próprio
telefone. O rapaz também nota que ela estava vestindo um velho pijama vermelho.
“Quem é você?”, pensa ele. Hesitante, ele tenta atende-lo quando a sirene lá
fora soa, fazendo-o recuar. Recuperando-se, ele novamente se aproxima e, segurando
o receptador, o leva até o rosto.
- Alô...?
- Gunther? Sou
eu. Você está bem?
Reconhecendo a
voz, ele nunca ficou tão feliz em ouvi-la de novo.
- Me ajude!
- Calma! Eu posso
te ajudar, mas antes você precisa me ouvir.
- O que eu faço?
- Para escapar
desse loop[2] você precisa me entender primeiro. – a voz pausa por um momento – A saída está
em si mesmo.
O rapaz não
compreende.
- O quê? O que
isso quer dizer?
- Você está em um
paradoxo dimensional, o encontro entre a realidade e os sonhos possibilitado
pela transmissão constante de ondas eletromagnéticas pela atmosfera. Algumas
pessoas são sensíveis a esse fortíssimo sinal, sendo capazes de abrir fendas
involuntárias no espaço-tempo, a quarta dimensão se preferir. Mas, como eu
disse antes, se elas não tiverem âncoras para as trazerem de volta, ela se
perderão entre as camadas dimensionais, como esse limbo do qual você se
encontra. Felizmente para você, você é uma dessas pessoas, Gunther.
Indignado, ele pergunta:
- Felizmente?!
- Faça o que eu
digo e você conseguirá sair.
Antes de
responder, ele ouve novamente a sirene, atrapalhando-o.
- Como a saída
pode estar em mim mesmo? Você quer que eu abra um buraco em meu peito e entre
por ele?
A voz é firme ao responder.
- Eu disse que
estava aqui para ajudá-lo.
Irritado, ele desliga o telefone.
Olhando ao redor,
ele procura por outra saída em sua casa. Então o holofote passa novamente por
sua janela, fazendo as esperadas listras de luz nas paredes. “A janela!”, pensa
ele. “Como eu não pensei nela antes?”. Aproximando-se, ele pega a fina corda da
persiana e a puxa de uma vez, intentando escapar. Então seus olhos se arregalam
de pavor.
Ao invés de ver o
muro e a torre de vigia lá embaixo, Gunther vê uma enorme face do tamanho de
seu prédio parada no céu dimensional e olhando para ele. A gigantesca face
aparentava ser de um homem velho, calvo, usando cavanhaque e óculos. Ele a
reconhece.
- Walter
Ulbricht...?!
Ulbricht foi o secretário-geral
do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED) na década de 60, governando a
Alemanha Oriental e sendo o responsável pela construção do Muro de Berlim.
Encarando-o,
Ulbricht ri dele. Enquanto sorri malignamente, o primeiro-secretário lhe fala
algo, mas de sua boca sai apenas a incompreensível estática. Gunther não
compreende, ao invés de palavras ele ouve apenas aquele irritante ruído. “O que
ele está dizendo?”, pergunta-se ele.
Afastando-se da
janela, Ulbricht gargalha, aparentando se divertir com o medo do rapaz.
Enquanto dá passos confusos para trás, Gunther tropeça na cama e cai sobre a misteriosa
pessoa com cabeça de telefone. Estranhamente seu corpo não se choca com aquela
aberração e o rapaz tem a sensação de ter caído em algum buraco no meio de seu
quarto.
O limbo torna-se
negro como o vale da morte citado na Bíblia. Acima o rapaz vê o teto de seu
quarto ficando cada vez mais longe enquanto ele mesmo cai rumo à infinita
escuridão. Tendo seu corpo engolido pelas trevas, ele morbidamente se felicita.
Aquele sirene altíssima havia ficado para trás.
§
De impulso,
Gunther acorda. Tirando os cobertores, ele olha assustado ao redor. Tudo foi um
sonho. Respirando fundo, ele se alivia, enxugando o suor de seu rosto. E então
ele percebe. Ele estava usando seu velho pijama vermelho.
- É claro! –
reconhece ele, jubilosamente – A saída estava em mim mesmo...!
Para sair do loop
perdido no meio daquele limbo dimensional, ele precisava “entrar” em si mesmo,
pulando em seu corpo sobre a cama. O rapaz se alegra ao perceber que aquilo não
era uma charada filosófica maçante, algo sobre alguma busca introspectiva interior.
Levantando-se,
Gunther se dirige à sua janela e abre a persiana. Lá embaixo estavam o cinzento
muro e a mortífera torre de vigia. Era de manhã e já haviam apagado o holofote,
por enquanto ele não faria aquelas sinistras listras de luz nas paredes.
Aliviado, Gunther sorri.
De repente ele
ouve um ruído na sala. Saindo de seu quarto, ele passa pelo enigmático
telefone, mas não lhe dá atenção. O ruído parecia vir de seu velho rádio, mas
quem o ligou?
A estática fazia
aqueles ruídos engraçados que os americanos usavam em seus filmes de extra-terrestres.
Sintonizando as ondas, Gunther tenta encontrar a frequência correta. Uma
mensagem vai aparecendo lentamente e, intrigando-se, ele gira cuidadosamente o
sintonizador.
Alguns segundos
depois, o rapaz ouve a voz de um velho lhe dizer:
- Você nunca
poderá deixar Berlim Oriental. Você ficará preso atrás do meu muro para sempre!
– e então a voz ri malignamente.
Gunther se
assusta. Em seu coração ele sabe que se tratava de Walter Ulbricht falando com
ele. Então o telefone toca em seu quarto, fazendo-o pular de susto. Dirigindo-se
ao aparelho, ele o atende.
- Alô?
- Gunther, sou
eu.
Confuso, ele
pergunta:
- O que está acontecendo
comigo?
A voz se alegra.
Com seu pedido de ajuda, o rapaz estava finalmente começando a entender.
- Apenas
lembre-se do que você é agora e da única pessoa que pode te ajudar.
Os dois ficam em
silêncio por um instante.
- Como eu faço
para isso parar?
A voz é obscura
ao responder.
- Isso vai
depender de você e do que você quer.
- Eu não entendo.
- Persiga seus
objetivos. Vá atrás de seu planos e você vai entender.
E então o
silêncio novamente se levanta. Ao ouvir a estática, ele desliga o telefone e se
senta em sua cama, passando um tempo ponderando naquelas palavras.
Algo chama sua
atenção. Olhando para o gancho na parede ao lado da porta de entrada, ele vê
algo no bolso de seu casaco. Levantando-se, ele mexe em sua roupa e encontra um
panfleto esportivo. Gunther lê o título, Deutscher
Turn und Sportbund. Ele o reconhece, “não é o panfleto que aqueles garotos
me deram em Mitte no outro dia?”.
Mais abaixo ele
vê a programação dos próximos eventos esportivos em Berlim. Então ele tem uma
incrível ideia.
- E se eu me
passasse por atleta e, durante algum evento esportivo além da Cortina de Ferro,
desertasse para o Ocidente? – pergunta-se ele.
Vendo o
calendário no panfleto, ele se informa onde e quando haverá outra competição.
Se ele quisesse se passar por atleta, ele teria de se portar como um atleta, e
não havia lugar melhor para aprender sobre seus costumes do que em uma reunião
de jovens esportistas alemães doutrinados pelo lema “pronto para o trabalho e à
defesa da Pátria”.
Ele sorri, aquele
era um belo plano, afinal.
Lembrando-se da
DTSB, ele deixa escapar um sorriso irônico. Fundado em abril de 1957, sua
criação teve a aval dos comunistas mais linha-dura do período pós-guerra na
Alemanha, dentre eles o próprio Walter Ulbricht. Stalinista declarado, ele
nunca teve vergonha de expor suas radicais convicções políticas, e mesmo assim
permitiu a criação de uma organização esportiva benéfica para a sociedade.
Ironicamente, essa mesma organização futuramente possibilitaria a fuga de
cidadãos do próprio bloco soviético onde ele foi criado.
Gunther se
surpreende. Como puderam os comunistas, com seu cínico lema “deve-se parecer
democrático, mas nós devemos controlar tudo”, permitirem a criação de algo tão
benevolente?
- Para quem vive
relativizando o bem e o mal, eles não parecem tão maus quanto pensamos agora. –
comenta ele ao se lembrar de seus ditadores marxistas-leninistas.
Beijando o
panfleto em sua mão, ele olha para o céu berlinense e alegremente diz:
- Obrigado, herr Walter Ulbricht!
[1]
Socorro em alemão
[2]
Ciclo de repetição em inglês

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