(Imagem do filme Insidious)
No dia seguinte,
Tobias encontra a estação vandalizada e danificada. Há uma manifestação no lado
de fora; a população protesta o aumento da violência e cobra providências da
Gendarmerie. O inspetor entra em seu escritório e se assusta. Uma pedra havia
estourado a vidraça e espalhado os estilhaços pela sala.
Valentim vê a
bagunça e, sem se lamentar, prontamente pega os utensílios para a limpeza. Ele
se aproxima da janela e ouve a gritaria lá fora. A população enraivecida
avançava contra o prédio, fazendo os gendarmes se esforçarem para contê-los.
Tobias se
aproxima para ver também. Lá embaixo, homens e mulheres protestavam suas
perdas. Muitos perderam entes queridos e, após longas semanas de espera,
nenhuma resposta foi dada da Gendarmerie. Os assassinos estavam soltos e desfrutavam
de sua liberdade, enquanto que os familiares pranteavam a morte de seus entes
queridos para sempre. Na cidade pairava uma aura de impunidade. Os crimes
cometidos não acarretavam castigo algum.
Então apenas uma
opção surgia.
A população
respondia à violência com violência. Cansados de ver os criminosos ficarem
impunes, eles se insurgiam contra aqueles que deveriam protege-los. E para
serem ouvidos, a violência era utilizada, pois esta era a única linguagem que eles
conheciam.
Por outro lado, o
inspetor via os trabalhos na Gendarmerie. Pilhas e pilhas de pastas se
acumulavam na mesa dos inspetores; os gendarmes não estavam dando conta de
tantos casos. Lamentando-se, ele sabe que os inspetores não conseguirão atender
a todos.
“Maldito Plasma”,
pensa ele. Tobias sabe que a substância é a responsável por aquela tragédia. O
operariado liublianense, a nobreza austro-húngara e a burguesia inglesa
deveriam abandonar aquela fonte. Mas ele sabe que, onde há riqueza e poder, o
sangue inocente é apenas uma mera consequência. Pesaroso, ele respira fundo e
se lamenta. “Se ao menos eles acreditassem em mim”.
Vinte minutos
depois, a sala estava limpa. Tobias trabalha em silêncio em sua mesa, ocupado
em seus afazeres. De repente, Valentim entra pela porta trazendo duas xícaras
de chá.
Sorrindo, o
inspetor diz:
- Muito obrigado,
senhor Valentim. Embora eu deva dizer que prefiro café.
Seu assistente se
senta em uma cadeira e responde:
- Eu também, mas
após a derrota na guerra com os prussianos, tudo ficou muito escasso em
Liubliana... E caro também.
Reclinando-se,
Valentim bebe tranquilamente.
Um minuto depois,
o capitão entra. Com olhar mal-humorado, ele forçosamente os cumprimenta:
- Bom dia,
cavalheiros. Espera que estejam gostando da agitação esta manhã.
Tobias responde:
- Bom dia, capitão
Vilko.
O capitão joga
uma pasta na mesa e diz:
- Não critico os seus
conceitos malucos ou seus métodos de trabalho, Hessler, mas não gosto da
publicidade que está atraindo para a Gendarmerie. Já bastam esses protestos aí
fora!
- Do que está
falando, senhor?
- Os jornais
estão no meu pescoço, a população está agitada e agora as suas afirmações sobre
o Plasma! Todos temem estar caindo em um delírio coletivo de alucinação e
violência. Agora cada assombração que os cidadãos veem se torna um motivo para
prestarem uma queixa! – exclama ele – Como essa, por exemplo. – o capitão lhe
indica a pasta na mesa.
Tobias checa a
pasta. Um grupo de cidadãos preocupados vem avistando um fantasma em um
convento abandonado nos arredores da cidade.
- Um fantasma? –
indaga-se ele – Não poderia ser um mendigo se abrigando no local?
- Dificilmente. –
responde Vilko – Por ser abandonado, todos temem que o prédio seja assombrado.
Com as frequentes aparições fantasmagóricas, os cidadãos estão com medo e ninguém
se atreve a entrar lá.
O inspetor
pondera.
- De qualquer
forma, eu solicito um destacamento para a minha proteção. É um prédio
abandonado, como deve saber. Pode haver marginais vivendo lá dentro.
O capitão ri.
- Após
lobisomens, golems e possessões demoníacas eu achei que já estava acostumado
com isso.
- Ainda não temos
certeza do que estamos lidando, capitão. É muito cedo para afirmar se é um caso
de atividade paranormal ou não.
Vilko se mantém
firme.
- Lamento, mas
seu pedido foi negado.
- Por favor,
capitão! O senhor não pode me mandar lá sozinho! Pode ser perigoso!
Após sua
insistência, o capitão finalmente cede.
- Você poderá
levar um.
Ele se espanta.
- Um?!
- Leve o guarda
Davud, ele já está familiarizado com vocês. Aliás – continua ele – ele parece
gostar deste traste.
O capitão se
referia a Valentim.
- O senhor
novamente vai colocar um novato para me acompanhar em investigações de alto
risco? Davud já se feriu no bairro dos judeus. Ele precisa se recuperar! No
momento, preciso de guardas mais experientes!
- Está uma onda
de violência lá fora. Por enquanto não posso dispor de meus melhores homens. E
também não podíamos supor que havia um Golem de verdade naqueles becos.
Tobias concorda
e, sem opções, deixa de insistir.
- Sim, senhor.
Antes de sair
pela porta, o capitão diz:
- Só mais uma
coisa, inspetor. Você deve ir à noite. Lembre-se que é um fantasma. Eles
raramente aparecem de dia.
Imediatamente
Tobias arregala os olhos. Ele se sente profundamente desconfortável. Mas então ele
responde:
- É claro,
senhor.
§
Dez horas da
noite. O inspetor guarda seu velho relógio de bolso e olha pela janela da
carruagem. Ali era o bairro da burguesia inglesa.
Valentim observa
as casas com fascínio. Desacostumado com qualquer tipo de requinte, ele se
fascina ao ver mansões tão luxuosas na pacata Liubliana. Situado nos arredores
da cidade, os burgueses se instalaram longe da classe operária,
convenientemente afastados dos miseráveis cortiços dos trabalhadores.
As ruas eram
organizadas e pavimentadas, e a iluminação pública agraciava os belos
chafarizes rodeados de jardins. Valentim vê estátuas de anjos e de exóticos deuses
gregos, uma lembrança do passado pagão europeu.
Davud também olha
fascinado para as casas ao redor. Crescendo em uma região precária da Bósnia,
ele nota algo e se espanta; ele nunca viu tantas casas iluminadas à noite. Em
seu saudoso vilarejo agrário, o interior das casas era iluminado por velas e
lamparinas. No bairro burguês, entretanto, as casas tinham majestosos lustres
no teto, um privilégio das classes dominantes. Assim como Valentim, ele se sentia
um plebeu desafortunado e ignorante.
A carruagem
finalmente chega ao destino. Um grupo de trabalhadores os aguardam em frente a
uma mansão. Ao descerem do veículo, o grupo os cumprimenta com um cortês “boa
noite”. Valentim os observa bem. Ele vê três faxineiras uniformizadas e dois
jardineiros. Um mordomo os recebia com altivez e elegância, vestido com finos
trajes. Valentim percebe que, com exceção do mordomo, os empregados eram
carníolos.
“Eles exploram
nossa terra, nos envenenam com esse Plasma e exploram a nossa gente...!”, pensa
Valentim. Após o infeliz episódio na fábrica, aumentou seu ressentimento pelos
imigrantes ingleses.
- Boa noite,
Inspetor Hessler! Queira me acompanhar, por favor. – diz o mordomo.
Tobias assente e,
antes que pudessem dar dois passos, os empregados pedem para levar seus
casacos.
Ao adentrar a
mansão, o grupo vê vários ingleses reunidos na sala de estar. Apesar da língua
inglesa, Tobias nota que o assunto é controverso e muitos estavam tensos.
- Ah, Inspetor
Hessler! É um prazer recebe-lo em minha residência!
Um burguês se
aproxima amigavelmente. Valentim logo nota seu cinismo. O inglês os observa da
cabeça aos pés e, com muito esforço, escondia sua repulsa. O inglês estava
apenas sendo educado.
- Boa noite, Mr.
Carlyle. Obrigado por nos receber.
O inglês
cordialmente sorri e Valentim pode ver seus dentes tortos e amarelados.
Diferente de seus finos trajes, seus dentes eram feíssimos. Neste momento, ele pensa
como a burguesia inglesa era como aquela parábola de Cristo, em que ele acusa
os fariseus de serem como os sepulcros limpos e belos por fora, mas cheios de
imundície e podridão por dentro.
- Perdoe-nos por
chama-los tão tarde, inspetor, mas temos um problema que, de maneira muito
peculiar, só acontece à noite.
Tobias se
impressiona com sua pronúncia fluente do eslavo do sul. Além de rico, ele
estava na presença de um homem muito culto à sua frente.
- Não há do que
se perdoar, Mr. Carlyle. Estamos aqui para servi-lo.
Então Valentim
range os dentes.
- É claro. –
assente ele – Me acompanhe, por favor.
O burguês os
conduz até a sala de estar. Os outros burgueses, todos mais velhos e de barba
branca, os olham com desconfiança.
- Como estávamos
falando, estamos com um problema em nossa vizinhança. Há um velho convento
abandonado perto daqui. Quando nos mudamos, os liublianenses se recusaram a
demoli-lo. Disseram que era mal assombrado. – explica ele – Mas hoje vemos que
eles tinham razão. – olhando para seus companheiros, ele diz – Meus amigos
podem explicar melhor o caso. Eles não falam o eslavo do sul, infelizmente, mas
meu mordomo pode traduzir para os senhores.
Então um homem
encostado na lareira olha para eles. O homem pede por mais uísque e o mordomo o
serve. Estranhamente Tobias, Valentim e Davud percebem que os burgueses não os
oferecem para beber também.
Sem se
apresentar, o burguês na lareira explica o ocorrido. Por fim, Tobias entende
apenas a última frase.
- ...screams, strange gleams and ghostly
sightings at night. We believe it´s a Wraith.
O mordomo traduz:
- Ele diz que se
trata de uma Wraith.
- Uma o quê?! – interrompe
Valentim.
O inspetor
responde:
- Uma Wraith é uma imagem fantasmagórica de
alguém vista pouco antes ou até depois de sua morte. O termo é usado em
referência a uma pessoa ou coisa de aparência pálida, magra e sem substância, e
significa “aparição”. Wraith é um
termo muito popular nas ilhas britânicas.
Apesar de popular
na Inglaterra, Valentim mal consegue pronuncia-lo sem se enrolar todo.
- ...and they say the old convent is haunted. Not
even the dogs or other animals go there.
O mordomo traduz:
- Ele disse que o
convento é assombrado e nem mesmo os animais vão lá.
- The servants refuse to go inside to check
the place, no matter how we force them.
- Os empregados
se recusam a investigar o local, não importa o quanto os forçamos.
Nesse momento
Valentim se irrita. Os ricos não se importam de arriscar a vida dos pobres. Sob
o pretexto de paga-los, os ricos não hesitam em envia-los para o perigo, pois
para eles as suas vidas vale o ínfimo salário que eles forçosamente os pagam.
Por fim, Carlyle
diz:
- Ouvimos que o
senhor é especialista em assuntos sobrenaturais. Gostaríamos que o senhor
resolvesse o nosso problema, pois tem nos causado muito transtorno e todos
temem ter uma Wraith assombrando
nossa vizinhança. As crianças não dormem à noite e os empregados estão cada vez
mais insubordinados. Nós precisamos da sua ajuda!
Tobias humildemente
o corrige.
- Na verdade, Mr.
Carlyle, eu não sou nenhum especialista. Eu apenas tenho algumas teorias de que
o Plasma seja o catalisador de eventos sobrenaturais e...
- O senhor será
generosamente recompensado. – interrompe ele.
Todos na sala de
silenciam. Tobias receberá um incentivo financeiro para resolver o caso.
Profissionalmente, ele não pode receber nenhuma vantagem extra, pois além de
ilegal, é imoral. Intentando dissuadi-lo, Tobias abre sua boca, mas então algo
acontece.
- Considere feito,
doutor.
Valentim se
intromete e, antes que o inspetor pudesse dizer algo, ele os toca no ombro e os
tira dali.
§
No lado de fora,
uma espessa cerração verde se arrasta pelos jardins.
Tobias está
contrariado e desaprova a intromissão de seu assistente. Vantagens ilícitas
podem custar o seu emprego. Valentim, porém, não se importa e caminha empolgadamente
em direção à carruagem. Davud estava em silêncio e o seguia também, como se
aprovasse seu comportamento. Então Tobias nota que havia um ar de liderança em
Valentim. Sua ousadia e coragem inspiravam seus companheiros a segui-lo, não
importava qual decisão impulsiva ele tomasse. Perto de Valentim, a maior
autoridade se sujeitaria, mesmo que fosse a de um rei.
De repente, Davud
diz:
- Inspetor
Hessler, há algo no arquivo que revele contra o que estamos lidando?
- Pouca coisa,
guarda Davud. Apenas lendas urbanas e relatos de vizinhos que testemunharam
eventos estranhos. Tudo está na pasta que eu trouxe conosco. Creio ser prudente
a lermos antes de partirmos para o convento.
- Quer que eu
pegue para o senhor?
- Ah, por favor,
guarda! Está no banco da carruagem.
Davud abre a
porta e estica o seu braço. Neste momento ele grita, sentindo dores pelo seu corpo.
- Guarda Davud!
Você está bem?
- Estou sim,
inspetor. Não se preocupe comigo.
Tobias sabe o que
houve. Davud estava ferido devido ao encontro com o Golem e ainda se recuperava
de seus ferimentos. Semelhante a Tobias e Valentim, que também se feriram em
eventos passados, o flagelo do Plasma fazia mais uma vítima.
Abrindo a pasta,
o inspetor pendura a lamparina na lateral do veículo e lê os documentos.
- Aqui estão os
arquivos que eu encontrei sobre o convento. Nos relatos, todos parecem ser
unânimes em um ponto. O convento é assombrado pelo fantasma de uma freira.
- E quem é essa
freira? – pergunta Davud.
- Milka Štukelj,
uma jovem de dezoito anos que se internou ali há quase dois séculos. Conta a
história que ela se envolveu com um margrave, mas este tinha o triplo de sua
idade e era comprometido. Cegada pela paixão, ela se entregou ao nobre e, após
ser intimamente usada por ele, ele a rejeitou, deixando-a desonrada e despojada
de sua pureza. Desiludida, os homens não mais a quiseram e ela foi expulsa de
casa, internando-se neste convento. Assim ela conseguiu um abrigo.
- Ora, isso é muito
triste! – comente o guarda.
- A história diz
que Milka enlouqueceu; a dor da rejeição foi demais para suporta-la. Ela então
decide incendiar o convento, para que assim o mundo sentisse a chama do amor
não correspondido que queimava em seu coração. Milka morre queimada no
incêndio, suicidando-se e condenando sua alma a vagar eternamente nos
corredores daquele prédio. – e então ele conclui – E assim ela se torna uma Wraith.
Com sua maneira
sucinta de demonstrar interesse, Valentim pergunta:
- Ela pode ser
destruída?
Tobias sorri.
- Na verdade,
senhor Valentim, esta é só uma lenda urbana. Não estamos confrontando
fantasmas. Ademais, a criminalística não considera assuntos sobrenaturais em
sua ciência. Primeiramente, vamos considerar que o prédio está sendo usado como
abrigo para marginais. Lembre-se que estamos em um bairro de alto padrão em
Liubliana. Há objetos de muito valor nestas mansões. O medo afasta os curiosos
e os ladrões podem usar o convento para observar o bairro sem serem incomodados.
Fechando a pasta em
suas mãos, Valentim olha para o inspetor e pergunta:
- Então o que
estamos esperando?
E assim o grupo
de gendarmes parte para o convento abandonado. Cada passo naquele bairro
despertava olhos na escuridão, como se os espíritos soubessem que eles iriam
perturba-los aquela noite. Os vivos eram invasores no mundo dos mortos e, como
tal, deviam ser parados. Os mortos se levantavam, mas, incapazes de agarrarem seus corpos, apenas os sopravam com a cerração mórbida e catalisadora de mundos
que sutilmente os esfriava com sua danação.

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