quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Liubliana - 27 - Aparição

 


(Imagem do filme Insidious)


No dia seguinte, Tobias encontra a estação vandalizada e danificada. Há uma manifestação no lado de fora; a população protesta o aumento da violência e cobra providências da Gendarmerie. O inspetor entra em seu escritório e se assusta. Uma pedra havia estourado a vidraça e espalhado os estilhaços pela sala. 

Valentim vê a bagunça e, sem se lamentar, prontamente pega os utensílios para a limpeza. Ele se aproxima da janela e ouve a gritaria lá fora. A população enraivecida avançava contra o prédio, fazendo os gendarmes se esforçarem para contê-los.  

Tobias se aproxima para ver também. Lá embaixo, homens e mulheres protestavam suas perdas. Muitos perderam entes queridos e, após longas semanas de espera, nenhuma resposta foi dada da Gendarmerie. Os assassinos estavam soltos e desfrutavam de sua liberdade, enquanto que os familiares pranteavam a morte de seus entes queridos para sempre. Na cidade pairava uma aura de impunidade. Os crimes cometidos não acarretavam castigo algum.

Então apenas uma opção surgia.

A população respondia à violência com violência. Cansados de ver os criminosos ficarem impunes, eles se insurgiam contra aqueles que deveriam protege-los. E para serem ouvidos, a violência era utilizada, pois esta era a única linguagem que eles conheciam.     

Por outro lado, o inspetor via os trabalhos na Gendarmerie. Pilhas e pilhas de pastas se acumulavam na mesa dos inspetores; os gendarmes não estavam dando conta de tantos casos. Lamentando-se, ele sabe que os inspetores não conseguirão atender a todos.

“Maldito Plasma”, pensa ele. Tobias sabe que a substância é a responsável por aquela tragédia. O operariado liublianense, a nobreza austro-húngara e a burguesia inglesa deveriam abandonar aquela fonte. Mas ele sabe que, onde há riqueza e poder, o sangue inocente é apenas uma mera consequência. Pesaroso, ele respira fundo e se lamenta. “Se ao menos eles acreditassem em mim”.

Vinte minutos depois, a sala estava limpa. Tobias trabalha em silêncio em sua mesa, ocupado em seus afazeres. De repente, Valentim entra pela porta trazendo duas xícaras de chá.

Sorrindo, o inspetor diz:

- Muito obrigado, senhor Valentim. Embora eu deva dizer que prefiro café.

Seu assistente se senta em uma cadeira e responde:

- Eu também, mas após a derrota na guerra com os prussianos, tudo ficou muito escasso em Liubliana... E caro também.

Reclinando-se, Valentim bebe tranquilamente.

Um minuto depois, o capitão entra. Com olhar mal-humorado, ele forçosamente os cumprimenta:

- Bom dia, cavalheiros. Espera que estejam gostando da agitação esta manhã.

Tobias responde:

- Bom dia, capitão Vilko.

O capitão joga uma pasta na mesa e diz:

- Não critico os seus conceitos malucos ou seus métodos de trabalho, Hessler, mas não gosto da publicidade que está atraindo para a Gendarmerie. Já bastam esses protestos aí fora!

- Do que está falando, senhor?

- Os jornais estão no meu pescoço, a população está agitada e agora as suas afirmações sobre o Plasma! Todos temem estar caindo em um delírio coletivo de alucinação e violência. Agora cada assombração que os cidadãos veem se torna um motivo para prestarem uma queixa! – exclama ele – Como essa, por exemplo. – o capitão lhe indica a pasta na mesa.

Tobias checa a pasta. Um grupo de cidadãos preocupados vem avistando um fantasma em um convento abandonado nos arredores da cidade.

- Um fantasma? – indaga-se ele – Não poderia ser um mendigo se abrigando no local?

- Dificilmente. – responde Vilko – Por ser abandonado, todos temem que o prédio seja assombrado. Com as frequentes aparições fantasmagóricas, os cidadãos estão com medo e ninguém se atreve a entrar lá.

O inspetor pondera.

- De qualquer forma, eu solicito um destacamento para a minha proteção. É um prédio abandonado, como deve saber. Pode haver marginais vivendo lá dentro.

O capitão ri.

- Após lobisomens, golems e possessões demoníacas eu achei que já estava acostumado com isso.

- Ainda não temos certeza do que estamos lidando, capitão. É muito cedo para afirmar se é um caso de atividade paranormal ou não.

Vilko se mantém firme.

- Lamento, mas seu pedido foi negado.

- Por favor, capitão! O senhor não pode me mandar lá sozinho! Pode ser perigoso!

Após sua insistência, o capitão finalmente cede.

- Você poderá levar um.

Ele se espanta.

- Um?!

- Leve o guarda Davud, ele já está familiarizado com vocês. Aliás – continua ele – ele parece gostar deste traste.

O capitão se referia a Valentim.

- O senhor novamente vai colocar um novato para me acompanhar em investigações de alto risco? Davud já se feriu no bairro dos judeus. Ele precisa se recuperar! No momento, preciso de guardas mais experientes!

- Está uma onda de violência lá fora. Por enquanto não posso dispor de meus melhores homens. E também não podíamos supor que havia um Golem de verdade naqueles becos.

Tobias concorda e, sem opções, deixa de insistir.

- Sim, senhor.

Antes de sair pela porta, o capitão diz:

- Só mais uma coisa, inspetor. Você deve ir à noite. Lembre-se que é um fantasma. Eles raramente aparecem de dia.

Imediatamente Tobias arregala os olhos. Ele se sente profundamente desconfortável. Mas então ele responde:

- É claro, senhor.

 

§

 

Dez horas da noite. O inspetor guarda seu velho relógio de bolso e olha pela janela da carruagem. Ali era o bairro da burguesia inglesa.

Valentim observa as casas com fascínio. Desacostumado com qualquer tipo de requinte, ele se fascina ao ver mansões tão luxuosas na pacata Liubliana. Situado nos arredores da cidade, os burgueses se instalaram longe da classe operária, convenientemente afastados dos miseráveis cortiços dos trabalhadores.

As ruas eram organizadas e pavimentadas, e a iluminação pública agraciava os belos chafarizes rodeados de jardins. Valentim vê estátuas de anjos e de exóticos deuses gregos, uma lembrança do passado pagão europeu.

Davud também olha fascinado para as casas ao redor. Crescendo em uma região precária da Bósnia, ele nota algo e se espanta; ele nunca viu tantas casas iluminadas à noite. Em seu saudoso vilarejo agrário, o interior das casas era iluminado por velas e lamparinas. No bairro burguês, entretanto, as casas tinham majestosos lustres no teto, um privilégio das classes dominantes. Assim como Valentim, ele se sentia um plebeu desafortunado e ignorante.  

A carruagem finalmente chega ao destino. Um grupo de trabalhadores os aguardam em frente a uma mansão. Ao descerem do veículo, o grupo os cumprimenta com um cortês “boa noite”. Valentim os observa bem. Ele vê três faxineiras uniformizadas e dois jardineiros. Um mordomo os recebia com altivez e elegância, vestido com finos trajes. Valentim percebe que, com exceção do mordomo, os empregados eram carníolos.

“Eles exploram nossa terra, nos envenenam com esse Plasma e exploram a nossa gente...!”, pensa Valentim. Após o infeliz episódio na fábrica, aumentou seu ressentimento pelos imigrantes ingleses.

- Boa noite, Inspetor Hessler! Queira me acompanhar, por favor. – diz o mordomo.

Tobias assente e, antes que pudessem dar dois passos, os empregados pedem para levar seus casacos.

Ao adentrar a mansão, o grupo vê vários ingleses reunidos na sala de estar. Apesar da língua inglesa, Tobias nota que o assunto é controverso e muitos estavam tensos.

- Ah, Inspetor Hessler! É um prazer recebe-lo em minha residência!

Um burguês se aproxima amigavelmente. Valentim logo nota seu cinismo. O inglês os observa da cabeça aos pés e, com muito esforço, escondia sua repulsa. O inglês estava apenas sendo educado.

- Boa noite, Mr. Carlyle. Obrigado por nos receber.

O inglês cordialmente sorri e Valentim pode ver seus dentes tortos e amarelados. Diferente de seus finos trajes, seus dentes eram feíssimos. Neste momento, ele pensa como a burguesia inglesa era como aquela parábola de Cristo, em que ele acusa os fariseus de serem como os sepulcros limpos e belos por fora, mas cheios de imundície e podridão por dentro.

- Perdoe-nos por chama-los tão tarde, inspetor, mas temos um problema que, de maneira muito peculiar, só acontece à noite.

Tobias se impressiona com sua pronúncia fluente do eslavo do sul. Além de rico, ele estava na presença de um homem muito culto à sua frente.

- Não há do que se perdoar, Mr. Carlyle. Estamos aqui para servi-lo.

Então Valentim range os dentes.

- É claro. – assente ele – Me acompanhe, por favor.

O burguês os conduz até a sala de estar. Os outros burgueses, todos mais velhos e de barba branca, os olham com desconfiança.

- Como estávamos falando, estamos com um problema em nossa vizinhança. Há um velho convento abandonado perto daqui. Quando nos mudamos, os liublianenses se recusaram a demoli-lo. Disseram que era mal assombrado. – explica ele – Mas hoje vemos que eles tinham razão. – olhando para seus companheiros, ele diz – Meus amigos podem explicar melhor o caso. Eles não falam o eslavo do sul, infelizmente, mas meu mordomo pode traduzir para os senhores.

Então um homem encostado na lareira olha para eles. O homem pede por mais uísque e o mordomo o serve. Estranhamente Tobias, Valentim e Davud percebem que os burgueses não os oferecem para beber também.

Sem se apresentar, o burguês na lareira explica o ocorrido. Por fim, Tobias entende apenas a última frase.

- ...screams, strange gleams and ghostly sightings at night. We believe it´s a Wraith.

O mordomo traduz:

- Ele diz que se trata de uma Wraith.

- Uma o quê?! – interrompe Valentim.

O inspetor responde:

- Uma Wraith é uma imagem fantasmagórica de alguém vista pouco antes ou até depois de sua morte. O termo é usado em referência a uma pessoa ou coisa de aparência pálida, magra e sem substância, e significa “aparição”. Wraith é um termo muito popular nas ilhas britânicas.  

Apesar de popular na Inglaterra, Valentim mal consegue pronuncia-lo sem se enrolar todo.

- ...and they say the old convent is haunted. Not even the dogs or other animals go there.

O mordomo traduz:

- Ele disse que o convento é assombrado e nem mesmo os animais vão lá.

- The servants refuse to go inside to check the place, no matter how we force them.

- Os empregados se recusam a investigar o local, não importa o quanto os forçamos.

Nesse momento Valentim se irrita. Os ricos não se importam de arriscar a vida dos pobres. Sob o pretexto de paga-los, os ricos não hesitam em envia-los para o perigo, pois para eles as suas vidas vale o ínfimo salário que eles forçosamente os pagam.

Por fim, Carlyle diz:

- Ouvimos que o senhor é especialista em assuntos sobrenaturais. Gostaríamos que o senhor resolvesse o nosso problema, pois tem nos causado muito transtorno e todos temem ter uma Wraith assombrando nossa vizinhança. As crianças não dormem à noite e os empregados estão cada vez mais insubordinados. Nós precisamos da sua ajuda!   

Tobias humildemente o corrige.

- Na verdade, Mr. Carlyle, eu não sou nenhum especialista. Eu apenas tenho algumas teorias de que o Plasma seja o catalisador de eventos sobrenaturais e...

- O senhor será generosamente recompensado. – interrompe ele.

Todos na sala de silenciam. Tobias receberá um incentivo financeiro para resolver o caso. Profissionalmente, ele não pode receber nenhuma vantagem extra, pois além de ilegal, é imoral. Intentando dissuadi-lo, Tobias abre sua boca, mas então algo acontece.

- Considere feito, doutor.

Valentim se intromete e, antes que o inspetor pudesse dizer algo, ele os toca no ombro e os tira dali.

 

§

 

No lado de fora, uma espessa cerração verde se arrasta pelos jardins.

Tobias está contrariado e desaprova a intromissão de seu assistente. Vantagens ilícitas podem custar o seu emprego. Valentim, porém, não se importa e caminha empolgadamente em direção à carruagem. Davud estava em silêncio e o seguia também, como se aprovasse seu comportamento. Então Tobias nota que havia um ar de liderança em Valentim. Sua ousadia e coragem inspiravam seus companheiros a segui-lo, não importava qual decisão impulsiva ele tomasse. Perto de Valentim, a maior autoridade se sujeitaria, mesmo que fosse a de um rei.

De repente, Davud diz:

- Inspetor Hessler, há algo no arquivo que revele contra o que estamos lidando?

- Pouca coisa, guarda Davud. Apenas lendas urbanas e relatos de vizinhos que testemunharam eventos estranhos. Tudo está na pasta que eu trouxe conosco. Creio ser prudente a lermos antes de partirmos para o convento.

- Quer que eu pegue para o senhor?

- Ah, por favor, guarda! Está no banco da carruagem.

Davud abre a porta e estica o seu braço. Neste momento ele grita, sentindo dores pelo seu corpo.

- Guarda Davud! Você está bem?

- Estou sim, inspetor. Não se preocupe comigo.

Tobias sabe o que houve. Davud estava ferido devido ao encontro com o Golem e ainda se recuperava de seus ferimentos. Semelhante a Tobias e Valentim, que também se feriram em eventos passados, o flagelo do Plasma fazia mais uma vítima.

Abrindo a pasta, o inspetor pendura a lamparina na lateral do veículo e lê os documentos.

- Aqui estão os arquivos que eu encontrei sobre o convento. Nos relatos, todos parecem ser unânimes em um ponto. O convento é assombrado pelo fantasma de uma freira.

- E quem é essa freira? – pergunta Davud.

- Milka Štukelj, uma jovem de dezoito anos que se internou ali há quase dois séculos. Conta a história que ela se envolveu com um margrave, mas este tinha o triplo de sua idade e era comprometido. Cegada pela paixão, ela se entregou ao nobre e, após ser intimamente usada por ele, ele a rejeitou, deixando-a desonrada e despojada de sua pureza. Desiludida, os homens não mais a quiseram e ela foi expulsa de casa, internando-se neste convento. Assim ela conseguiu um abrigo.

- Ora, isso é muito triste! – comente o guarda.

- A história diz que Milka enlouqueceu; a dor da rejeição foi demais para suporta-la. Ela então decide incendiar o convento, para que assim o mundo sentisse a chama do amor não correspondido que queimava em seu coração. Milka morre queimada no incêndio, suicidando-se e condenando sua alma a vagar eternamente nos corredores daquele prédio. – e então ele conclui – E assim ela se torna uma Wraith.        

Com sua maneira sucinta de demonstrar interesse, Valentim pergunta:

- Ela pode ser destruída?

Tobias sorri.

- Na verdade, senhor Valentim, esta é só uma lenda urbana. Não estamos confrontando fantasmas. Ademais, a criminalística não considera assuntos sobrenaturais em sua ciência. Primeiramente, vamos considerar que o prédio está sendo usado como abrigo para marginais. Lembre-se que estamos em um bairro de alto padrão em Liubliana. Há objetos de muito valor nestas mansões. O medo afasta os curiosos e os ladrões podem usar o convento para observar o bairro sem serem incomodados.

Fechando a pasta em suas mãos, Valentim olha para o inspetor e pergunta:

- Então o que estamos esperando?

E assim o grupo de gendarmes parte para o convento abandonado. Cada passo naquele bairro despertava olhos na escuridão, como se os espíritos soubessem que eles iriam perturba-los aquela noite. Os vivos eram invasores no mundo dos mortos e, como tal, deviam ser parados. Os mortos se levantavam, mas, incapazes de agarrarem seus corpos, apenas os sopravam com a cerração mórbida e catalisadora de mundos que sutilmente os esfriava com sua danação.

      

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Liubliana - 26 - O Encontro com Virgem Maria

 


- Valentim! – grita Tobias.

A consciência está em retalhos. A realidade se embaralha em fragmentos aleatórios e se revira. Apesar de desmaiado, Valentim sente que está embriagado sob o efeito de um vinho bem forte. Suas roupas estão ensopadas e grudam em seu corpo. Cacos de vidro caem de sua cabeça. Olhando para o seu peito, ele o vê molhado por um líquido verde e brilhante.

De olhos semicerrados, ele vê a possuída gritar e se debater violentamente na cama. Izak está em pé ao seu lado, aspergindo água benta e recitando preces exorcistas. Madame Meia-noite segura suas pernas, auxiliando o diácono. Tobias, por sua vez, está perplexo e não sabe o que fazer.

- Valentim! – repete ele.

Apesar dos apelos do inspetor, Valentim não consegue se mexer. Estranhamente ele parece ver tudo em velocidade reduzida.

Sem parar o exorcismo, Izak reza:

“Ave, Maria, grátia plena, Dóminus tecum, benedícta tu in muliéribus, et benedictus fructus ventris tui Jesus. Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatóribus, nunc et in hora mortis nostrae. Amém”.

Valentim não entende a prece, mas sabe que é um Ave Maria em latim.

Nesse momento a possuída grita e blasfema incessantemente, proferindo ofensas que nenhum cristão teria coragem de dizer.

Valentim pisca e de repente Tobias está agachado ao seu lado, cuidando dele. A possuída grita e chuta o diácono, ferindo-o. A cafetina tenta socorrê-lo, mas ele a proíbe, dizendo que o ritual deve continuar. Izak recita mais uma vez o Ave Maria, desta vez em idioma conhecido.

“Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, agora e na hora da nossa morte. Amém”.

Ao encerrar a prece sagrada, algo acontece.

Acima, no alto da parede, Valentim vê um quadro de Virgem Maria. Na pintura, ela está de pé sobre as nuvens e há uma auréola sobre sua cabeça; ela está de braços abertos, como se estivesse recebendo os devotos em seu amor de mãe. De repente uma luz muito forte irradia no quarto, ofuscando sua vista e suspendendo-o no tempo. A cama, o diácono, a cafetina, o inspetor e a possuída, todos desaparecem dali. Ao olhar bem, mesmo o quarto se desintegra naquela poderosa luz. Assustado, Valentim teme ter morrido.

Uma neblina branca e suave passa pelo seu corpo; eram nuvens. Seu corpo se regenera e ele se sente curado do forte impacto em sua cabeça. Valentim se levanta lentamente. De repente, alguém aparece diante dele na luz e nas nuvens. A imagem celestial toma forma e se personifica, revelando uma mulher sagrada e venerada por milhões.

Valentim arregala os olhos, tentando ver. A mulher vestia um vestido vermelho e uma capa azul. Ela usava um lenço branco e havia uma auréola em sua cabeça. Então Valentim a reconhece; a pessoa à sua frente era a Virgem Maria, Mãe de Deus.

De pernas trêmulas, ele cai de joelhos e se desaba, perplexo com a cena.

- Mãe...? – sussurra ele.

Lágrimas se formam em seus olhos e ele chora, profundamente emocionado. Com o corpo prostrado e o rosto em terra, ele roga:

- Perdoe-me, Mãe! Eu suplico! Me perdoe...!

Vozes são ouvidas ao fundo; dois homens falavam energicamente em algum lugar no tempo.

“Chamem um médico!”.

Valentim não podia suportar o encontro com Maria. Ele se sente sujo, indigno de estar em sua presença. A presença do pecado maculava sua alma, acusando-o com as mais terríveis injúrias. O arrependimento e o remorso o consomem, fazendo-o suplicar firmemente pelo seu perdão.

Ao fundo, alguém incessantemente reza.

“Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco...”.

Valentim se sentia sujo e mil banhos não poderiam lavá-lo de suas impurezas. De rosto em terra, ele não tem coragem de ao menos olhar para ela.

- Santa Maria, mãe de Deus...! Me perdoe...! – suplica ele.

Irresistivelmente ele chora.

“Ele está alucinando!”, grita alguém.

Com voz telepática, Maria se aproxima e o consola. Valentim está prostrado aos seus pés. Então uma mão invisível acaricia o seu rosto e levanta o seu queixo. Valentim ergue sua cabeça e lágrimas se escorrem por sua barba. À sua frente, Maria lhe lançava um olhar bondoso e carinhoso de mãe.

“Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus...”, reza alguém.

De repente Valentim vê um bebê diante de si. A criança esperneava e chorava intensamente, implorando por proteção e cuidado. Os bracinhos e as perninhas finas lhe partem o coração; ele parecia estar muito cansado e faminto. Uma aflição profunda o domina, e ele se pergunta como alguém tem coragem de abandonar um bebê assim.

Maria então toma o bebê em seus braços e o acolhe. Nos braços da suprema Mãe, o frágil bebê se aninha e se acalma.

“Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, agora e na hora da nossa morte. Amém...”.

Uma outra voz exclama:

“O bebê não está respirando! Meu Deus! O bebê não está respirando...!”.

Com o bebê em seus braços, Maria telepaticamente diz para Valentim não desistir de sua busca, porque o dia de se reencontrar com Danica se aproxima. Então um estupor de alegria o domina, tendo suas esperanças finalmente renovadas.     

Então Maria diz adeus. Com olhar agradecido, Valentim também se despede. A Santa Mãe é envolvida por uma ofuscante luz e desaparece, voltando para o Céu. Valentim novamente desmaia, adormecendo em seguida.

E assim a epifania se encerra.

 

§

 

Ao acordar, Valentim se vê no quarto da possuída. Tobias e Izak estão de luto e Madame Meia-noite segura um bebê em seus braços; ele estava morto.

Algo estava diferente. A mulher não estava mais possuída, agora ela estava acordada e descansava na cama.

A mulher estava fraca, mas consciente. O inspetor ouve que Madelaine Smith era o seu nome e se aproxima para consolá-la. Tobias se senta ao seu lado e irresistivelmente a admira; a mulher era uma inglesa muito bonita.

Tobias lhe explica o que aconteceu. Madelaine estava possuída por um demônio, mas Izak bravamente o expulsou. O inspetor lhe revela que ela infelizmente perdeu o bebê durante o exorcismo, e ele jazia morto nos braços de sua amiga. Por fim ele conclui:

- Eu lamento muito.

Madelaine não se entristece. Ao invés, ela diz:

- Inspetor, eu sou uma devota de Virgem Maria e serva do Deus Altíssimo. Tudo acontece por uma razão, desde este trágico acontecimento até o nosso encontro. Se Ele me usou para revelar o mal que existe no mundo, eu fico feliz de ter sido a escolhida.

Um pouco envergonhado, o inspetor diz:

- Eu voltarei para vê-la.

Tobias estava completamente apaixonado. Percebendo seus sentimentos, Madelaine acaricia seu rosto e responde:

- Obrigada.

E então ela repousa na cama.

 

§

 

Na manhã seguinte, Tobias faz o relatório do caso. Na capa da pasta está escrito: “extraoficial”.

Ao contrário do que todos pensaram, o bebê de Madelaine não era sobrenatural; alguém entrou em seu quarto e a engravidou. Como Tobias bem sabe, o Plasma é alucinógeno e a cerração a entorpeceu, incapacitando-a. O suspeito, provavelmente um dos próprios cultistas, se aproveitou de que ela estava indefesa e a possuiu.

O inspetor prometeu procurar o culpado, mas Madame Meia-noite fortemente se opôs; ela não queria a presença da Gendarmerie no Beco das Meretrizes. Tobias se lamenta ao estimar que, muito provavelmente, as investigações serão suspensas por falta de provas e obstruções, fatalmente não dando em nada.

Apoiando-se na mesa, Tobias se lembra de outra coisa. Valentim relatou seu encontro com a Virgem Maria. De maneira fantástica, ele afirmou que Maria havia levado a alma do bebê consigo e que ele estava bem. Pondo a mão nos olhos, o inspetor respira fundo. Ele não acredita em nenhuma palavra do relato. O Plasma provoca alucinação e, por isso, Valentim ficou olhando fixamente para um retrato de Maria na parede enquanto balbuciava e chorava.

Todavia, Tobias afasta esses pensamentos. Ele se regozija ao vê-lo alegre e esperançoso em encontrar a esposa, por isso prefere não lhe dizer nada.    

A violência urbana provocada pelo Plasma fez mais uma vítima. O inspetor está decidido a eliminar esta ameaça, mas para isso precisa de mais provas. Preocupado, ele sabe que precisará trabalhar bastante, mas se tranquiliza ao saber que, com seu inexorável assistente ao seu lado, ele terá a força que precisa para prosseguir.

 

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