sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Tiergarten - 18 - Antifaschistische Aktion

 


- Her zu uns![1] – brada alguém.

Gunther subitamente retoma a consciência. Olhando ao redor, ele se vê em um salão repleto de pessoas. Na parede acima, ele vê a enorme e imponente bandeira escrito Antifaschistische Aktion[2] , que pairava sobre eles como um poderoso estandarte comunista. À sua frente ele vê uma bancada com uma faixa escrito “es libe die rote einheitsfront”[3]. Confuso, ele pensa estar ainda no Palast der Republik.

Ao redor haviam militantes vestidos com roupas antiquadas e boinas de operários. Sentando-se, os presentes tiram as boinas e assistem à reunião. Gunther estava mais atrás e se senta também, tentando compreender onde estava. Duas mulheres conversam atrás dele. Ao olha-las, o rapaz vê uma loira de olhar férreo e uma morena que exalava convicção ideológica. Ambas vestiam boinas, usavam óculos grossos e cachecóis xadrez. A loira diz:

- Muito linda essa Casa de Ópera Filarmônica, não?

- É sim. Aqui eu vi as melhores apresentações de Berlim.

- O que você acha que será decidido no congresso? 

- Espero que uma melhor estratégia para derrotarmos os nazistas e seus aliados burgueses.

A loira concorda.

- Assim espero, camarada.

Então Gunther se lembra. Quando criança, ele estudou sobre os congressos antifascistas do passado. Durante as décadas de 20 e 30, vários grupos paramilitares comunistas surgiram para combater a crescente influência do nazismo na Alemanha. Entre eles estava o social-democrata Reichsbanner Schwarz-Rot-Gold[4], o comunista Roter Frontkämpferbund[5] e o Kampfbund[6], também comunista.

Em 1931, a Kampfbund formou unidades autônomas e descentralizadas chamadas Roter Massenselbstschutz[7]. Em 1932, essas unidades foram absorvidas pelo KPD[8], o principal partido comunista da época, e integradas a um grupo maior e mais famoso, o Antifaschistische Aktion. Os antifascistas, juntamente com os demais grupos paramilitares, realizariam um congresso em uma antiga casa de ópera em Berlim. 

“1932?!”, pensa Gunther. “Então é aqui onde me encontro, no Congresso da Unidade Antifascista de 1932!”.

Na tribuna, um dirigente se levanta e discursa ao público:

- Primeiramente, quero agradecer aos camaradas do Reichsbanner Schwarz-Rot-Gold, do Roter Frontkämpferbund, do Kampfbund e do Roter Massenselbstschutz por se juntarem a nós. – diz ele, referindo-se à absorção dos grupos menores ao KPD – Os nazistas, apoiados pelos porcos burgueses e seu sujo dinheiro capitalista, se espalharam perigosamente pela Alemanha. Juntos somos mais fortes para combater essa praga e defendermos a classe operária de sua inexorável opressão. Devemos proteger o operariado da ganância burguesa, impedindo que nossos camaradas percam seus empregos nas fábricas, nos campos e que sejam expulsos de suas casas por ordens de despejo. Os imperialistas causaram a guerra e a perderam, provocando o desemprego de milhões. Eu vos asseguro que a classe operária não arcará com as consequências de suas ambições!

Então os presentes batem palmas, empolgados com aquela apresentação.

- Camaradas, eu vos apresento o líder do partido e criador da Ação Antifascista: Ernst Thälmann!

Imediatamente Gunther se lembra. Em sua juventude, o rapaz estudou sobre os mais proeminentes comunistas na escola. Thälmann era, talvez, o mais importante revolucionário comunista na Alemanha. Defensor ferrenho da causa, Thälmann ajudou a organizar a Revolta de Hamburgo, onde o Partido Comunista invadiu 17 delegacias de polícia e outras sete em Schleswig-Holstein. Sem o apoio da União Soviética e das demais organizações alemãs, a revolta foi esmagada em apenas três dias. Estima-se que 100 pessoas morreram nos confrontos.

Em 1925, Thälmann torna-se líder do grupo paramilitar Roter Kämpferbund e concorre à presidência da Alemanha, competindo contra Paul von Hindenburg e o infame Adolf Hitler. Ao ser derrotado, em 1928 ele adere à famosa diretriz do VI Congresso da Internacional Comunista, da qual estabelecia o conceito de “classe contra classe”. Com essa diretriz, o KPD esperava desestabilizar o governo social-democrata e trazer os trabalhadores à Revolução.

Em 1929, Thälmann participa do “Maio Sangrento”. Partidários do KPD desafiam as autoridades alemãs após elas proibirem manifestações políticas nas ruas de Berlim. Estima-se que, durante um curto período de três dias, 33 civis morreram e 200 ficaram feridas.

Em 1932, ele novamente concorre à presidência contra Hitler e Hindenburg. Durante as eleições, o famoso slogan do KPD se populariza: “Um voto para Hindenburg é um voto para Hitler, e um voto para Hitler é um voto para a guerra”. Apesar de seus esforços, Thälmann é novamente derrotado, tendo uma redução de 13,2% no primeiro turno, para 10,2% no segundo.   

Frustrado, Thälmann se radicaliza. Ainda em 1932, ele decide fundar o movimento mundialmente conhecido por seus atos de violência, vandalismo e confrontos sangrentos com as autoridades. Ele funda o Antifaschistische Aktion, abreviado “Antifa”.

- Camaradas! – começa Thälmann – Agradeço a todos os nossos irmãos que continuam conosco, e também àqueles que abandonaram seus senhores burgueses para se juntarem à nossa causa revolucionária. Agradeço ao pai da União Soviética, Vladimir Lênin, do qual conheci pessoalmente, e ao nosso generalíssimo Josef Stalin, o pai dos povos!

Então as pessoas empolgadamente o aplaudem. Gunther olha ao redor e se intriga. “As pessoas aplaudem cheias de orgulho em seu coração!”.

Thälmann continua:

- Não estamos apenas sob a ameaça dos nazistas, mas também de um novo inimigo, os social-fascistas!

Nisso, os presentes se entreolham, confusos. “Social-facista?”, se perguntam eles. “Do que ele está falando?”.

- Em 1914, a monarquia imperialista nos lançou em uma guerra egoísta de interesses burgueses. Nos colocaram em fronts, irmãos contra irmãos, proletariado contra proletariado, resultando em uma desastrosa derrota ao preço de milhões de vidas. E hoje a história se repete nessa república falida governada por militares derrotados e ressentidos. Hindenburg e seus cachorros fascistas querem colocar novamente a classe operária para se massacrarem no campo de batalha. Não mais!

 A plateia vibra em concordância, apoiando e aplaudindo Thälmann.

- Camaradas! Os social-democratas traíram o proletariado! Eles apoiaram os imperialistas na Grande Guerra, se aliaram à podre burguesia e deram as costas aos ideais marxistas, nos abandonando para lutarmos sozinhos pela Revolução! São hipócritas, traidores e gananciosos, são os últimos herdeiros da monarquia que tanto nos fez sofrer. Eles são nossos inimigos, pois se aliam aos fascistas quando é a classe operária quem deveriam defender! Camaradas, combatam os social-fascistas!

Mais uma vez a plateia vibra em euforia, extasiados pelo excelente argumento de Thälmann. Gunther reconhece o discurso, o ativista seguia a diretriz estabelecida no VI Congresso da Internacional Comunista.  

- Classe contra classe – sussurra ele.

- O que disse, camarada?

Gunther olha para o lado. Um homem de paletó surrado, boina operária e braçadeira do KPD fala com ele. O rapaz responde:

- Perdoe-me. Eu só estava refletindo.

O homem sorri.

- Sem problemas, amigo. Muito esclarecedor o discurso do Thälmann, não é? Mas que bela estratégia! Esse homem é um visionário!

- Estratégia...? – pergunta ele, ainda distraído.

- Sim. Devemos combater nosso principal inimigo, os social-democratas!

Gunther assente.

- É verdade.

Passados alguns segundos, ele se pergunta o que é Social-democracia. Então as mulheres atrás deles chiam, mandando eles ficarem em silêncio. Thälmann continua:

- Hitler será nomeado chanceler na Alemanha! – exclama ele, indignado – Querem a prova da traição social-democrata? Aí está! A nomeação será feita pelo próprio Hindenburg! Por isso eu digo: chega de lutar em eleições democráticas nessa república corrupta! Com Hitler na chancelaria, não existirá mais democracia! Devemos abandonar a legalidade e combater abertamente os nazistas nas ruas! Camaradas, eu vos convoco: resistam a Hitler e expulsem os nazistas do poder!

Thälmann ergue seu punho, desafiante e imponente para cima. A plateia não aplaude, ao invés eles erguem seus punhos também, imitando-o. Alguém grita em meio ao público:

- Viva a Revolução!

A plateia responde:

“Viva!”.

Outro grita:

- Vida longa ao camarada Stalin!

“Viva!”.

- Vida longa ao camarada Thälmann!

“Viva!”.

Então todos entoam o famoso hino “A Internacional”, tão vigoroso e alto que parecia que o próprio teto ia desabar.        

Passado o clamor do momento, Thälmann conclama a todos para se rebelarem e provocarem uma greve geral. As pessoas aceitam decididamente, empenhadas na Revolução. 

Ao fundo, Gunther sente pena deles. Lembrando-se da história, ele sabe que, apesar de seus esforços, eles novamente fracassariam, sendo em seguida massacrados pelos nazistas. De fato, até meados de 1935, o KPD foi largamente destruído pelo governo de Hitler.

- Juntem-se à Ação Antifascista! – clama Thälmann.

“E quanto a Thälmann?”, se pergunta Gunther. Em março de 1933, o criador da Ação Antifascista foi preso pela Gestapo, sendo torturado e confinado na solitária onde permaneceria por longos onze anos. Morreria em 1944, transferido para o campo de concentração de Buchenwald, onde seria executado por fuzilamento.

“Pobre Thälmann”, lamenta-se Gunther. “O mesmo homem que hoje os convoca a combater os nazistas será morto por eles, e seus partidários, presos e executados por aqueles que eles juraram destruir”.

Mas o mais doloroso foi a traição. Leal a Stalin e ferrenho defensor da União Soviética, Thalmann foi abandonado pelo ditador e ignorado por seu rival, Walter Ulbricht, enquanto se amargurava na prisão de Bautzen. Ao descobrir que seus principais aliados na União Soviética haviam sido exilados e mortos, vítimas das grandes purgas da década de 30, Thälmann se encontrou sozinho, abandonado e esquecido por seu próprio líder, do qual ele jurou incondicional lealdade, Josef Stalin.

Abatido, lágrimas se escorrem do rosto de Gunther.

- Ei, camarada! Junte-se a nós na tomada do poder pelos comunistas!

Gunther vê um jovem de aparentemente dezoito anos falar com ele. “Pobre garoto”, pensa ele. “Daqui a um mês estará preso ou morto, vítima do radicalismo político que ele mesmo ajudou a fomentar”. O rapaz sorri e diz:

- Com licença.

Andando pelo salão, Gunther se dirige à saída. Então algo acontece.

O rapaz vê uma garota de casaco, saia e cabelos castanhos passar pela multidão. Intrigado, ele decide ir atrás dela. Os comunistas são muito fanáticos e agressivos, movidos por puro ódio ideológico. Interrompendo-o, eles exigem que Gunther se confraternize com eles, dizendo frases de ordem ou trocando abraços. Desvencilhando-se, o rapaz continua em seu caminho. Então, ao alcançar a garota, seus olhos se arregalam.

Anneliese conversa com algumas membras do partido. Parada à sua frente, ela não percebe a presença do rapaz. Gunther se confunde. Sem conseguir encontrar explicações, ele pensa: “como isso é possível?!”.

Aproximando-se lentamente, ele a chama:

- Anneliese...?

A garota se vira e olha para ele. Seu coração se balança. Ele quase podia sentir o cheiro dos cabelos dela.

- Pois, não? – pergunta ela, não reconhecendo o rapaz.

- Você se lembra de mim?

- O quê? – intriga-se ela.

- Quero dizer, você sabe quem eu sou?

A garota se irrita, claramente incomodada com o rapaz. Ela meneia negativamente a cabeça. O rapaz novamente pergunta:

- Como isso é possível?

- Como o que é possível?

- Você. – responde ele – Nós não somos desse tempo e você, principalmente, não deveria estar aqui.

A garota não entende.

- Diga logo o que você quer ou vá embora!

- Anneliese, não! Você não entende! Nós não somos desse tempo. Voltamos ao passado porque, no presente, eu te beijei!

Arregalando os olhos, ela responde:

- Você está me assustando.

Antes que pudesse falar mais, alguém aparece e diz:

- Camaradas! Nós agora vamos atacar uma delegacia de polícia perto daqui. Quem vem conosco?

As mulheres tocam o braço de Anneliese e a convidam para a insurreição. Anneliese rapidamente se voluntaria, com fervor ideológico em sua voz. Ele, porém, insiste.

- Não! Não vá! Você vai morrer lá fora, eles vão atirar em você!

- Pois que seja! – exclama ela – Se eu tiver de morrer pela causa, morrerei feliz!

Indignado, Gunther se irrita.

- O quê?! Causa? Não diga besteira! Eles todos aqui vão ser presos ou mortos pelos nazistas! Acredite em mim!

A garota se intriga.

- Como você sabe?

- Eu simplesmente sei! Nós não somos desse tempo. Você e eu somos do futuro!

Então a garota ri. Cinco homens se aproximam e um deles pergunta:

- Ei, moça. Esse rapaz está te incomodando?

- Sim, está! Ele está me falando um monte de esquisitice sem sentido. Se ele não for um espião do partido nazista, ele é só mais um doido varrido...

O homem olha furiosamente para ele. Estufando o peito, ele o pergunta:

- Você é um espião?

Gunther sente o corpo todo tremer. Se ele for acusado de espionagem, ele será linchado ali dentro.

- Não! – responde ele, desesperado – Eu sou comunista! Na verdade, eu vim da Alemanha comunista!

Dessa vez é o homem quem se intriga.

- Você veio da Alemanha comunista? – sorri ele – Como assim?

- Sim, nós dois viemos. – Gunther aponta para Anneliese. A garota revira os olhos.

- E onde fica essa Alemanha comunista, senhor esquisito?

- Não é onde, mas quando. Veja, eu vou provar.

Inesperadamente o rapaz segura Anneliese e a beija, para o espanto de todos. Desvencilhando-se, ela se ira e o estapeia no rosto, fazendo-o tropeçar e cair no salão. Então todos ao redor gargalham. Aos risos, alguém comenta:

- Olhem só! A sua queda foi mais estrondosa que a da República de Weimar...!

O rapaz apenas ouve os risos enquanto massageia seu rosto no chão.

Um homem de uniforme vermelho se aproxima e diz:

- Telefonema para... – ele lê o nome em um pedaço de papel – Gunther. Alguém conhece esse tal de Gunther?

- Sou eu. – responde ele, envergonhado.

- Telefonema para o senhor na recepção.

Sob os risos da multidão atrás dele, o rapaz se levanta e se afasta.

Atendendo ao antiquado telefone, ele diz:

- Alô?

- Olá, Gunther. Como está?

Reconhecendo a misteriosa voz, ele responde:

- Por que está fazendo isso com ela? Por que a trouxe aqui?

- Ela quem? – pergunta a voz.

- Anneliese! – irrita-se ele.

- Não há tempo para explicar. Você precisa ir.

- Ir para onde? – pergunta ele.

Então o mundo desaparece e ele é envolvido em um vórtice rumo a outra dimensão.

 

 

 



[1] “Venha até nós” em alemão

[2] Ação Antifascista

[3] Viva a frente unida vermelha

[4] Bandeira do Reich preta, vermelha e dourada

[5] Frente de combate da frente vermelha

[6] Aliança de luta

[7] Autoproteção de massa vermelha

[8] Kommunistische Partei Deutschlands, ou Partido Comunista da Alemanha

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Tiergarten - 17 - Palast der Republik

 


O rapaz acorda com um grito. Seu corpo estava todo suado e ele ofega constantemente. Passando a mão em seu peito, ele tenta encontrar o buraco da bala, mas não havia nada. Ele se confunde. Instantes atrás ele acabara de ser fuzilado por membros da SS, mas ao checar seu peito, ele não encontra nenhum ferimento. Entretanto, a dor explodia em seu tórax.

Enxugando o suor de sua testa, Gunther se convence de que foi só um sonho. Olhando ao redor, ele vê seu quarto escuro iluminado intermitentemente pelo holofote em sua janela. Era noite em Berlim. Algo o incomoda em seu braço. Verificando-o, ele encontra a braçadeira com o símbolo da suástica sobre seu cotovelo. Arrancando-a, ele a atira para longe.

Gunther respira fundo. Então outra coisa o incomoda. O apartamento estava com um cheiro forte de cigarro. “Impossível!”, pensa ele. “Eu não fumo!”. Levantando-se, ele caminha pelo quarto e enxerga a braçadeira nazista ao lado de outros objetos dos quais ele jamais vira ali. O rapaz encontra um elmo prussiano e um escudo medieval. “Relíquias do primeiro e segundo reich”, reconhece ele.

Ainda investigando a origem da fumaça, ele se aproxima da janela e sobe a persiana. Gunther tem uma grande surpresa. Sobre o peitoril, ele encontra um cigarro aceso. Virando-se, ele se dirige até a porta do quarto e, irritado, pergunta:

- Tem alguém aí?!

Mas o apartamento apenas lhe devolve o silêncio sinistro da madrugada. Sem coragem para investiga-lo, ele simplesmente fecha a porta, preferindo ficar escondido lá dentro.

Voltando à janela, ele pega o cigarro e o examina em suas mãos. Estranhamente o cigarro não se consumia, permanecendo em seu estado completo. Então Gunther sente o súbito desejo de experimenta-lo. “Afinal”, pensa ele, “eu tenho quase trinta anos e já sou responsável por minhas escolhas”.

O rapaz puxa a fumaça, prende-a em seus pulmões e então a solta. Imediatamente ele tosse, expelindo-a com dificuldade de sua garganta ardente. Gunther tenta de novo. Mais uma vez ele tosse, sentindo já o sabor da fumaça em seus dentes e sua língua. Irritado, ele diz:

- Quer saber? Dane-se essa porcaria!

Abrindo a janela, ele vê o Muro de Berlim abaixo. Colocando-o entre os dedos, ele o atira para longe. Então algo estranho acontece.

Entre seu prédio e o muro interno havia uma passagem escura que raramente recebia iluminação. O governo comunista aplicava o pouco de energia que a Alemanha Oriental produzia para iluminar apenas o muro, deixando os cidadãos comuns com um racionamento forçado de energia. Enquanto a faixa da morte era fortemente iluminada, abaixo a escuridão era completa e mesmo Gunther, residente daquele prédio, se sentia inseguro ao passear ali à noite.

O cigarro voa pelo ar e se dirige à passagem escura. Então, pouco antes de chegar ao chão, o cigarro para no ar e permanece levitando na escuridão. O rapaz se intriga, pois podia ver claramente a luz tênue de sua ponta parada no ar. Em seguida a luz se intensifica como se alguém estivesse fumando-o e a fumaça é liberada pelo ar. Gunther arregala os olhos.

Alguém fuma o cigarro lá embaixo e, apesar do brilho ficar mais forte a cada tragada, não era possível ver a figura humana fumando-o. Passados alguns minutos, o cigarro se esgota e então é lançado ao chão. Observando atentamente de sua janela, o rapaz está perplexo com a situação.

Passos são ouvidos e a figura desconhecida caminha pela escura passagem. No final da calçada há um poste de iluminação e, se a pessoa passar por ali, Gunther poderá vê-lo e até identifica-lo possivelmente. Mas, para o assombro de Gunther, os passos alcançam a parte iluminada e não havia ninguém. O rapaz se apavora.

Voltando para a cama, Gunther se esconde embaixo de sua coberta e treme até conseguir dormir.

 

§

 

No dia seguinte, Gunther passeia pela Marx-Engels-Platz. Ele soube que haveriam eventos no Palast der Republik[1] e decide visita-lo naquela tarde.

Passando pelo estacionamento, ele vislumbra o magnífico palácio. Inaugurado em 1976, o rapaz era ainda uma criança quando foi aberto ao público. Os comunistas, em seu apetite voraz por desconstruir tudo o que remetia ao velho Estado burguês, renomearam a antiga praça de Schloßplatz[2] para Marx-Engels-Platz, em seguida demolindo o antigo palácio, sede da família real prussiana, e construindo o atual Palast der Republik em seu lugar.

Projetado para promover a interação entre o povo e a cultura, o grandioso palácio continha restaurantes, pistas de boliche, discotecas, exposições, sorveterias, salas de leitura, bibliotecas e seus dois maiores destaques, o Grande e o Pequeno Hall.

O Grande Hall foi projetado para sediar os principais eventos culturais não apenas da cidade, mas de toda a Alemanha Oriental. Em formato hexagonal, o palco podia ser elevado para diferentes realizações, variando sua superfície de 170 a 1000 m2. Com pavimentos giratórios, tetos falsos e paredes flexíveis, a acomodação do público passava de 1000 a 4500 lugares. Ali eram recebidos artistas e celebridades internacionais.

O Pequeno Hall sediava a Volkskammer, o parlamento da RDA. O rapaz se fascinava com a ideia de que, em um lugar tão próximo do público, fossem tomadas as mais importantes decisões governamentais que influenciariam toda a população. Apesar da importância do local, o rapaz nunca teve a oportunidade de conhece-lo.

Ainda parado em frente ao palácio, Gunther olha para a fachada. Apesar de não ser comunista, ele não pode deixar de sentir orgulho cívico ao ver o brasão da RDA na entrada.

“O socialismo alemão”, pensa ele ao ver o brasão. “O martelo e o compasso, uma adaptação da foice e o martelo soviéticos... Vocês conseguiram, senhores russos. Finalmente conseguiram transformar uma nação industrializada e desenvolvida em uma nação socialista. Lênin, herdeiro da subdesenvolvida e camponesa Rússia, sentiria orgulho”.

- É um belo edifício, não?

Alguém interrompe sua reflexão. Ao olhar para o lado, ele vê um rapaz jovem sorrindo. Ele tinha a pele bronzeada, câmera fotográfica em seu pescoço e roupas tropicais e pouco comuns na RDA. Gunther responde:

- É sim.

- Se eu soubesse que era assim tão lindo, eu o teria conhecido antes. Valeu a pena esperar.

Gunther nota que o jovem falava com dificuldade a língua alemã.

- É verdade.

- Me chamo Luiz Carlos. Muito prazer.

O jovem lhe estende a mão e Gunther o cumprimenta. Ele estava fazendo muitos amigos ultimamente.

- Eu sou Gunther.

- Bem, eu preciso ir agora. Auf wiedersehen, herr Gunther!

Apressando-se, o jovem vai embora. Olhando para ele por um minuto, o rapaz finalmente sussurra: “Que nome estranho...!”, mas não lhe dá muita importância.

Ao chegar à entrada, o rapaz contempla o belíssimo interior. No teto haviam centenas de lâmpadas, dispostas circularmente como uma obra de arte. Ele nota o piso de mármore branco e as escadas rolantes para os pisos superiores. Muitos berlinenses passeavam ali, com amigos ou com a família. Gunther fica feliz em saber que, apesar da severa diferença de qualidade de vida com o ocidente, o alemão oriental também poderia ter acesso à cultura e ao entretenimento.

Crianças corriam pelo salão. Namorados conversavam enquanto tomavam sorvete e os pais observavam seus filhos brincarem ao longe. Passando pelos restaurantes, o rapaz vê os fregueses comendo deliciosas refeições. As pistas de boliche divertiam os amigos e familiares, competindo amistosamente enquanto aproveitavam suas folgas. Ouvindo batidas ao longe, Gunther avista os jovens dançando e se divertindo nas animadas discotecas.  

Um cartaz lhe chama a atenção. Nele está escrito que no pequeno hall está havendo uma palestra sobre a Internacional Comunista. A palestra era não oficial e destinada ao conhecimento cultural do movimento operário do século 20. Abaixo ele lê o nome dos grupos participantes, na maioria pequenos e de pouca importância.

Caminhando pelo palácio, ele chega à sede do parlamento. Lá ele contempla um belo salão com a bancada da presidência, duas alas com numerosos assentos e um vasto mezanino. Na parede adiante ele vê novamente o brasão da RDA, o compasso e o martelo imponentemente sobre o ambiente. Gunther se surpreende com a beleza da Volkskammer.

Os assentos eram ocupados por estudantes e ativistas enquanto que a bancada era ocupada pelos líderes dos movimentos sociais. Gunther vê várias faixas penduradas nas mesas, nelas estavam escritos os nomes dos grupos e frases famosas dos principais comunistas. Em uma faixa maior ele lê: “A Internacional Comunista”.

Sentando-se, ele ouve um professor discursar. A Internacional Comunista era comumente chamada de Kommintern pelos principais organizadores e ideólogos, mas ao contrário do que muitos pensavam, ela não se tratava da primeira, mas da Terceira Internacional Comunista.

Houveram duas anteriores. A primeira foi fundada no ano de 1864 em Londres pelo próprio Karl Marx, junto de seu amigo e colaborador Friedrich Engels. Naquele tempo se chamava Associação Internacional dos Trabalhadores e durou até 1876.   

A Segunda Internacional surgiu em 1899, desta vez em Paris, promovida por Friedrich Engels seis anos após a morte de Karl Marx. A segunda durou até 1916, já durante a Primeira Guerra Mundial. Porém, com as divergências entre os socialistas reformistas, apoiadores de seus respectivos governos e da guerra, e os revolucionários, apoiadores da união internacional operária e contrária a guerra, a Segunda Internacional falhou ao desencadear uma onda de revoluções.

A última e mais famosa Internacional foi criada em 1919, na cidade de Petrogrado, pelo próprio pai da revolução russa, Vladimir Lênin. A Terceira Internacional duraria longos 24 anos, com sete reuniões ao longo de sua existência até ser dissolvida por Josef Stalin.

Gunther se surpreende com o número de congressos realizados durante sua existência. Ele ouve que, a princípio, a Terceira Internacional procurava combater os elementos contrarrevolucionários dentro da própria Rússia, encerrar a guerra civil e consolidar o poder dos Sovietes. 

Mais tarde, durante o sexto congresso, a Terceira Internacional estabelece o conceito de “classe contra classe”, onde os membros propunham uma oposição irreconciliável com os social-democratas, uma facção mais branda e reformista do socialismo. O rapaz ouve que o sexto congresso tinha como objetivo fomentar a revolução nos países desenvolvidos, principalmente na Alemanha, espalhando-a pelo resto do ocidente.

- Ah, a Alemanha... – sussurra ele – Sempre no palco dos maiores eventos mundiais...

Enquanto o professor fala, Gunther vê que em uma das faixas está escrito “Liga das Mulheres Democráticas da Alemanha”. Imediatamente ele se anima, pois sua amada Anneliese poderia estar presente também.

“Mas onde?”, pensa ele, esticando seu pescoço para olhar a todos.

O professor diz que os contrarrevolucionários, também conhecidos como reacionários, são cães traidores a serviço da burguesia fascista. Ele os acusa ferozmente de serem exploradores da classe operária, julgando aceitável submete-los a campos de trabalhos forçados, prisões e fuzilamentos. “Sem misericórdia!”, vocifera ele, enfim.

“Isso já ocorreu antes” pensa Gunther. “Milhões foram deportados para trabalharem até a morte nos infames Gulags”. A abreviação de Administração Central dos Campos em russo, os gulags foram o túmulo dos inimigos do Estado soviético, culpados ou não por traição. Apesar do passado negro da Alemanha Nazista, seus campos de concentração e o Holocausto foram inspirados na deportação e extermínio em massa dos elementos indesejáveis praticados na Rússia. Ver ainda hoje um professor defender a deportação e o fuzilamento de seres humanos prova que o comunismo está muito longe de se afastar das práticas nazistas.

“De fato, os nazistas foram à União Soviética para aprenderem com os comunistas como construírem seus próprios campos”, reflete ele. Ao ver seu país inserido entre duas ideologias genocidas, ele se lamenta.

O professor volta a citar a história da Terceira Internacional. Ele informa que os comunistas foram os principais opositores da ascensão nazista na década de 30. Gunther se surpreende ao saber que, apesar das irreconciliáveis ideologias, o principal inimigo dos comunistas alemães não foram os nazistas e sim os social-democratas, dos quais governavam a Alemanha desde sua derrota na Primeira Guerra Mundial.

“Ora, essa!”, pensa ele. “Então a luta dos comunistas não era apenas contra os racistas arruaceiros de Hitler, mas contra todo o Estado Alemão”. Enquanto pensa a respeito, ele percebe que ambos os comunistas e nazistas eram subversivos, mas os primeiros demoraram um pouco mais para chegar ao poder. “Tiveram que esperar a devastação da Segunda Guerra”, lamenta-se ele.

O professor pede uma pausa e todos se levantam um pouco. Enquanto alguns descansam e vão ao banheiro, Gunther percorre discretamente o salão. As pessoas conversam, riem e caminham de um lado ao outro, ocupadas com seus assuntos. O rapaz está de costas quando uma voz inconfundível é ouvida atrás dele.

Gunther se vira impulsivamente, mas não tão rapidamente para não perder seu disfarce. Esquivando-se dos estudantes, ele se depara com a garota à sua frente. Ele exulta em alegria e seu coração dispara.

Anneliese se vestia com seu usual vestido até os joelhos e um singelo casaco. Ele repara em seus lindos cabelos castanhos. Olhando-a da cabeça aos pés, ele nota seu irresistível jeito feminino. Com as duas mãos, a garota segurava sua bolsa à frente de seu corpo como se transmitisse charme e classe aos interlocutores.

Aproximando-se, ele tenta controlar o estupor de emoções em sua mente. Timidez, nervosismo, medo, carência... tudo ao mesmo tempo. Ele sua constantemente, seu coração parece que vai sair pela boca. “Meu Deus...”, pensa ele. “Quando que essa sensação vai parar?”.

Abrindo sua boca, ele diz:

- Anneliese...?

A garota se vira e, arregalando os olhos, responde:

- Gunther?!

- Tudo bem?

Anneliese está perplexa, claramente desconfortável com a presença do rapaz.

- O que você quer?

A pergunta da garota foi curta e direta. Ela parecia estar acusando-o de segui-la.

- Eu... – ele olha ao redor, procurando algo para falar – vim assistir à palestra sobre a Internacional Comunista.

Ao ouvi-lo, um jovem estudante entra na conversa. 

- Mas que bom, meu irmão! Então você é um simpatizante de nossa causa revolucionária! Muito prazer em recebe-lo!

Em seguida o estudante começa a falar sem parar sobre a importância da revolução comunista. Enquanto ele fala, Gunther e Anneliese se entreolham em silêncio. A garota estava totalmente irritada com sua presença ali.

- Não se enganem, camaradas! O fascismo não está derrotado, na verdade ele se esconde na burguesia que sustenta o podre sistema capitalista no ocidente. Devemos enfrentar o fascismo. Mais ainda, devemos nos tornar Antifascistas! Junte-se a nós, camarada! Faça como a camarada Anneliese!

O estudante sorri empolgadamente. Gunther se intriga.

- Anneliese faz parte de um grupo antifascista? – interessa-se ele.

- Sim, faz! Na verdade, ela acabou de se voluntariar para espalharmos a mensagem anti-burguesa por toda a RDA com a gente. Não é verdade, camarada?

A garota arregala os olhos, parecendo repreender o inocente estudante com o olhar.

- Ora, eu adoraria! – responde Gunther – Na verdade, eu sempre odiei os fascistas nazi burgueses das democracias neoliberais do ocidente... – improvisa ele, quase em zombaria.

- Isso é ótimo! – alegra-se o jovem – Deixe-me anotar o seu nome em minha prancheta. Quando meu professor terminar seu discurso, organizaremos mais palestras e partiremos para doutrinar o país. E lembre-se: os antifascistas do passado lutaram com armas e bombas pela revolução. Hoje lutamos com ideias e inteligência... Por enquanto. Nunca confiem em um ocidental burguês. Até mais, camaradas!

O rapaz informa seu nome. Então o estudante agradece, se vira e vai embora. Gunther sorri, olhando alegremente para Anneliese em seguida. Ela estava vermelha de ódio.

- Parece que somos companheiros na luta pelo antifascismo, Anneliese. Ou melhor, camaradas.

Anneliese meneia negativamente a cabeça.

- Como você é patético.

Sem se importar, ele responde:

- Por que você é tão má assim? Eu só estou lutando pelo meu país.

A garota lhe faz um olhar de indignação e o rapaz sente vontade de beijar o pescoço dela.

- Você vem aqui por pura vadiagem, debocha de nossa causa política e afirma defender o nosso país?! Eu deveria denuncia-lo por assédio!

Gunther cinicamente discorda com a cabeça. Apesar dela só ter falado verdades, ele estava adorando conversar com ela.

- Vadiagem? E os ativistas políticos são “tão” trabalhadores... – ironiza ele – Me responda uma coisa: quantas toneladas de grãos, minérios de carvão ou peças de metalurgia vocês produziram esse mês para a Alemanha?

Anneliese se avilta. Ela nunca trabalhou em uma fábrica em toda sua vida. Indignada, ela é enfática ao responder:

- Pois fique você sabendo que nosso trabalho é burocrático e político! Nós e apenas nós representamos os interesses dos trabalhadores alemães!

- Sim, trabalhadores que não trabalham, burocratas que não produzem...

Perdendo a classe, a garota se enfurece ao responde-lo:

- Você é um sabotador e um fascista!

Imediatamente ele retruca:

- E você é o amor da minha vida! Te amo!

Aproximando-se, ele segura seu quadril e seu pescoço e a beija.

Nesse momento, o rapaz ouve o som de centenas de telefones tocando ao mesmo tempo. Estranhamente, com o toque ensurdecedor dos aparelhos, a luz parecia se apagar. Obstinado, ele só queria beija-la o máximo de tempo que conseguisse. Mas o tempo não parou e tampouco avançou normalmente.

Novamente, o tempo voltava para trás.

 



[1] Palácio da República em alemão

[2] Praça do Palácio

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