sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Tiergarten - 18 - Antifaschistische Aktion

 


- Her zu uns![1] – brada alguém.

Gunther subitamente retoma a consciência. Olhando ao redor, ele se vê em um salão repleto de pessoas. Na parede acima, ele vê a enorme e imponente bandeira escrito Antifaschistische Aktion[2] , que pairava sobre eles como um poderoso estandarte comunista. À sua frente ele vê uma bancada com uma faixa escrito “es libe die rote einheitsfront”[3]. Confuso, ele pensa estar ainda no Palast der Republik.

Ao redor haviam militantes vestidos com roupas antiquadas e boinas de operários. Sentando-se, os presentes tiram as boinas e assistem à reunião. Gunther estava mais atrás e se senta também, tentando compreender onde estava. Duas mulheres conversam atrás dele. Ao olha-las, o rapaz vê uma loira de olhar férreo e uma morena que exalava convicção ideológica. Ambas vestiam boinas, usavam óculos grossos e cachecóis xadrez. A loira diz:

- Muito linda essa Casa de Ópera Filarmônica, não?

- É sim. Aqui eu vi as melhores apresentações de Berlim.

- O que você acha que será decidido no congresso? 

- Espero que uma melhor estratégia para derrotarmos os nazistas e seus aliados burgueses.

A loira concorda.

- Assim espero, camarada.

Então Gunther se lembra. Quando criança, ele estudou sobre os congressos antifascistas do passado. Durante as décadas de 20 e 30, vários grupos paramilitares comunistas surgiram para combater a crescente influência do nazismo na Alemanha. Entre eles estava o social-democrata Reichsbanner Schwarz-Rot-Gold[4], o comunista Roter Frontkämpferbund[5] e o Kampfbund[6], também comunista.

Em 1931, a Kampfbund formou unidades autônomas e descentralizadas chamadas Roter Massenselbstschutz[7]. Em 1932, essas unidades foram absorvidas pelo KPD[8], o principal partido comunista da época, e integradas a um grupo maior e mais famoso, o Antifaschistische Aktion. Os antifascistas, juntamente com os demais grupos paramilitares, realizariam um congresso em uma antiga casa de ópera em Berlim. 

“1932?!”, pensa Gunther. “Então é aqui onde me encontro, no Congresso da Unidade Antifascista de 1932!”.

Na tribuna, um dirigente se levanta e discursa ao público:

- Primeiramente, quero agradecer aos camaradas do Reichsbanner Schwarz-Rot-Gold, do Roter Frontkämpferbund, do Kampfbund e do Roter Massenselbstschutz por se juntarem a nós. – diz ele, referindo-se à absorção dos grupos menores ao KPD – Os nazistas, apoiados pelos porcos burgueses e seu sujo dinheiro capitalista, se espalharam perigosamente pela Alemanha. Juntos somos mais fortes para combater essa praga e defendermos a classe operária de sua inexorável opressão. Devemos proteger o operariado da ganância burguesa, impedindo que nossos camaradas percam seus empregos nas fábricas, nos campos e que sejam expulsos de suas casas por ordens de despejo. Os imperialistas causaram a guerra e a perderam, provocando o desemprego de milhões. Eu vos asseguro que a classe operária não arcará com as consequências de suas ambições!

Então os presentes batem palmas, empolgados com aquela apresentação.

- Camaradas, eu vos apresento o líder do partido e criador da Ação Antifascista: Ernst Thälmann!

Imediatamente Gunther se lembra. Em sua juventude, o rapaz estudou sobre os mais proeminentes comunistas na escola. Thälmann era, talvez, o mais importante revolucionário comunista na Alemanha. Defensor ferrenho da causa, Thälmann ajudou a organizar a Revolta de Hamburgo, onde o Partido Comunista invadiu 17 delegacias de polícia e outras sete em Schleswig-Holstein. Sem o apoio da União Soviética e das demais organizações alemãs, a revolta foi esmagada em apenas três dias. Estima-se que 100 pessoas morreram nos confrontos.

Em 1925, Thälmann torna-se líder do grupo paramilitar Roter Kämpferbund e concorre à presidência da Alemanha, competindo contra Paul von Hindenburg e o infame Adolf Hitler. Ao ser derrotado, em 1928 ele adere à famosa diretriz do VI Congresso da Internacional Comunista, da qual estabelecia o conceito de “classe contra classe”. Com essa diretriz, o KPD esperava desestabilizar o governo social-democrata e trazer os trabalhadores à Revolução.

Em 1929, Thälmann participa do “Maio Sangrento”. Partidários do KPD desafiam as autoridades alemãs após elas proibirem manifestações políticas nas ruas de Berlim. Estima-se que, durante um curto período de três dias, 33 civis morreram e 200 ficaram feridas.

Em 1932, ele novamente concorre à presidência contra Hitler e Hindenburg. Durante as eleições, o famoso slogan do KPD se populariza: “Um voto para Hindenburg é um voto para Hitler, e um voto para Hitler é um voto para a guerra”. Apesar de seus esforços, Thälmann é novamente derrotado, tendo uma redução de 13,2% no primeiro turno, para 10,2% no segundo.   

Frustrado, Thälmann se radicaliza. Ainda em 1932, ele decide fundar o movimento mundialmente conhecido por seus atos de violência, vandalismo e confrontos sangrentos com as autoridades. Ele funda o Antifaschistische Aktion, abreviado “Antifa”.

- Camaradas! – começa Thälmann – Agradeço a todos os nossos irmãos que continuam conosco, e também àqueles que abandonaram seus senhores burgueses para se juntarem à nossa causa revolucionária. Agradeço ao pai da União Soviética, Vladimir Lênin, do qual conheci pessoalmente, e ao nosso generalíssimo Josef Stalin, o pai dos povos!

Então as pessoas empolgadamente o aplaudem. Gunther olha ao redor e se intriga. “As pessoas aplaudem cheias de orgulho em seu coração!”.

Thälmann continua:

- Não estamos apenas sob a ameaça dos nazistas, mas também de um novo inimigo, os social-fascistas!

Nisso, os presentes se entreolham, confusos. “Social-facista?”, se perguntam eles. “Do que ele está falando?”.

- Em 1914, a monarquia imperialista nos lançou em uma guerra egoísta de interesses burgueses. Nos colocaram em fronts, irmãos contra irmãos, proletariado contra proletariado, resultando em uma desastrosa derrota ao preço de milhões de vidas. E hoje a história se repete nessa república falida governada por militares derrotados e ressentidos. Hindenburg e seus cachorros fascistas querem colocar novamente a classe operária para se massacrarem no campo de batalha. Não mais!

 A plateia vibra em concordância, apoiando e aplaudindo Thälmann.

- Camaradas! Os social-democratas traíram o proletariado! Eles apoiaram os imperialistas na Grande Guerra, se aliaram à podre burguesia e deram as costas aos ideais marxistas, nos abandonando para lutarmos sozinhos pela Revolução! São hipócritas, traidores e gananciosos, são os últimos herdeiros da monarquia que tanto nos fez sofrer. Eles são nossos inimigos, pois se aliam aos fascistas quando é a classe operária quem deveriam defender! Camaradas, combatam os social-fascistas!

Mais uma vez a plateia vibra em euforia, extasiados pelo excelente argumento de Thälmann. Gunther reconhece o discurso, o ativista seguia a diretriz estabelecida no VI Congresso da Internacional Comunista.  

- Classe contra classe – sussurra ele.

- O que disse, camarada?

Gunther olha para o lado. Um homem de paletó surrado, boina operária e braçadeira do KPD fala com ele. O rapaz responde:

- Perdoe-me. Eu só estava refletindo.

O homem sorri.

- Sem problemas, amigo. Muito esclarecedor o discurso do Thälmann, não é? Mas que bela estratégia! Esse homem é um visionário!

- Estratégia...? – pergunta ele, ainda distraído.

- Sim. Devemos combater nosso principal inimigo, os social-democratas!

Gunther assente.

- É verdade.

Passados alguns segundos, ele se pergunta o que é Social-democracia. Então as mulheres atrás deles chiam, mandando eles ficarem em silêncio. Thälmann continua:

- Hitler será nomeado chanceler na Alemanha! – exclama ele, indignado – Querem a prova da traição social-democrata? Aí está! A nomeação será feita pelo próprio Hindenburg! Por isso eu digo: chega de lutar em eleições democráticas nessa república corrupta! Com Hitler na chancelaria, não existirá mais democracia! Devemos abandonar a legalidade e combater abertamente os nazistas nas ruas! Camaradas, eu vos convoco: resistam a Hitler e expulsem os nazistas do poder!

Thälmann ergue seu punho, desafiante e imponente para cima. A plateia não aplaude, ao invés eles erguem seus punhos também, imitando-o. Alguém grita em meio ao público:

- Viva a Revolução!

A plateia responde:

“Viva!”.

Outro grita:

- Vida longa ao camarada Stalin!

“Viva!”.

- Vida longa ao camarada Thälmann!

“Viva!”.

Então todos entoam o famoso hino “A Internacional”, tão vigoroso e alto que parecia que o próprio teto ia desabar.        

Passado o clamor do momento, Thälmann conclama a todos para se rebelarem e provocarem uma greve geral. As pessoas aceitam decididamente, empenhadas na Revolução. 

Ao fundo, Gunther sente pena deles. Lembrando-se da história, ele sabe que, apesar de seus esforços, eles novamente fracassariam, sendo em seguida massacrados pelos nazistas. De fato, até meados de 1935, o KPD foi largamente destruído pelo governo de Hitler.

- Juntem-se à Ação Antifascista! – clama Thälmann.

“E quanto a Thälmann?”, se pergunta Gunther. Em março de 1933, o criador da Ação Antifascista foi preso pela Gestapo, sendo torturado e confinado na solitária onde permaneceria por longos onze anos. Morreria em 1944, transferido para o campo de concentração de Buchenwald, onde seria executado por fuzilamento.

“Pobre Thälmann”, lamenta-se Gunther. “O mesmo homem que hoje os convoca a combater os nazistas será morto por eles, e seus partidários, presos e executados por aqueles que eles juraram destruir”.

Mas o mais doloroso foi a traição. Leal a Stalin e ferrenho defensor da União Soviética, Thalmann foi abandonado pelo ditador e ignorado por seu rival, Walter Ulbricht, enquanto se amargurava na prisão de Bautzen. Ao descobrir que seus principais aliados na União Soviética haviam sido exilados e mortos, vítimas das grandes purgas da década de 30, Thälmann se encontrou sozinho, abandonado e esquecido por seu próprio líder, do qual ele jurou incondicional lealdade, Josef Stalin.

Abatido, lágrimas se escorrem do rosto de Gunther.

- Ei, camarada! Junte-se a nós na tomada do poder pelos comunistas!

Gunther vê um jovem de aparentemente dezoito anos falar com ele. “Pobre garoto”, pensa ele. “Daqui a um mês estará preso ou morto, vítima do radicalismo político que ele mesmo ajudou a fomentar”. O rapaz sorri e diz:

- Com licença.

Andando pelo salão, Gunther se dirige à saída. Então algo acontece.

O rapaz vê uma garota de casaco, saia e cabelos castanhos passar pela multidão. Intrigado, ele decide ir atrás dela. Os comunistas são muito fanáticos e agressivos, movidos por puro ódio ideológico. Interrompendo-o, eles exigem que Gunther se confraternize com eles, dizendo frases de ordem ou trocando abraços. Desvencilhando-se, o rapaz continua em seu caminho. Então, ao alcançar a garota, seus olhos se arregalam.

Anneliese conversa com algumas membras do partido. Parada à sua frente, ela não percebe a presença do rapaz. Gunther se confunde. Sem conseguir encontrar explicações, ele pensa: “como isso é possível?!”.

Aproximando-se lentamente, ele a chama:

- Anneliese...?

A garota se vira e olha para ele. Seu coração se balança. Ele quase podia sentir o cheiro dos cabelos dela.

- Pois, não? – pergunta ela, não reconhecendo o rapaz.

- Você se lembra de mim?

- O quê? – intriga-se ela.

- Quero dizer, você sabe quem eu sou?

A garota se irrita, claramente incomodada com o rapaz. Ela meneia negativamente a cabeça. O rapaz novamente pergunta:

- Como isso é possível?

- Como o que é possível?

- Você. – responde ele – Nós não somos desse tempo e você, principalmente, não deveria estar aqui.

A garota não entende.

- Diga logo o que você quer ou vá embora!

- Anneliese, não! Você não entende! Nós não somos desse tempo. Voltamos ao passado porque, no presente, eu te beijei!

Arregalando os olhos, ela responde:

- Você está me assustando.

Antes que pudesse falar mais, alguém aparece e diz:

- Camaradas! Nós agora vamos atacar uma delegacia de polícia perto daqui. Quem vem conosco?

As mulheres tocam o braço de Anneliese e a convidam para a insurreição. Anneliese rapidamente se voluntaria, com fervor ideológico em sua voz. Ele, porém, insiste.

- Não! Não vá! Você vai morrer lá fora, eles vão atirar em você!

- Pois que seja! – exclama ela – Se eu tiver de morrer pela causa, morrerei feliz!

Indignado, Gunther se irrita.

- O quê?! Causa? Não diga besteira! Eles todos aqui vão ser presos ou mortos pelos nazistas! Acredite em mim!

A garota se intriga.

- Como você sabe?

- Eu simplesmente sei! Nós não somos desse tempo. Você e eu somos do futuro!

Então a garota ri. Cinco homens se aproximam e um deles pergunta:

- Ei, moça. Esse rapaz está te incomodando?

- Sim, está! Ele está me falando um monte de esquisitice sem sentido. Se ele não for um espião do partido nazista, ele é só mais um doido varrido...

O homem olha furiosamente para ele. Estufando o peito, ele o pergunta:

- Você é um espião?

Gunther sente o corpo todo tremer. Se ele for acusado de espionagem, ele será linchado ali dentro.

- Não! – responde ele, desesperado – Eu sou comunista! Na verdade, eu vim da Alemanha comunista!

Dessa vez é o homem quem se intriga.

- Você veio da Alemanha comunista? – sorri ele – Como assim?

- Sim, nós dois viemos. – Gunther aponta para Anneliese. A garota revira os olhos.

- E onde fica essa Alemanha comunista, senhor esquisito?

- Não é onde, mas quando. Veja, eu vou provar.

Inesperadamente o rapaz segura Anneliese e a beija, para o espanto de todos. Desvencilhando-se, ela se ira e o estapeia no rosto, fazendo-o tropeçar e cair no salão. Então todos ao redor gargalham. Aos risos, alguém comenta:

- Olhem só! A sua queda foi mais estrondosa que a da República de Weimar...!

O rapaz apenas ouve os risos enquanto massageia seu rosto no chão.

Um homem de uniforme vermelho se aproxima e diz:

- Telefonema para... – ele lê o nome em um pedaço de papel – Gunther. Alguém conhece esse tal de Gunther?

- Sou eu. – responde ele, envergonhado.

- Telefonema para o senhor na recepção.

Sob os risos da multidão atrás dele, o rapaz se levanta e se afasta.

Atendendo ao antiquado telefone, ele diz:

- Alô?

- Olá, Gunther. Como está?

Reconhecendo a misteriosa voz, ele responde:

- Por que está fazendo isso com ela? Por que a trouxe aqui?

- Ela quem? – pergunta a voz.

- Anneliese! – irrita-se ele.

- Não há tempo para explicar. Você precisa ir.

- Ir para onde? – pergunta ele.

Então o mundo desaparece e ele é envolvido em um vórtice rumo a outra dimensão.

 

 

 



[1] “Venha até nós” em alemão

[2] Ação Antifascista

[3] Viva a frente unida vermelha

[4] Bandeira do Reich preta, vermelha e dourada

[5] Frente de combate da frente vermelha

[6] Aliança de luta

[7] Autoproteção de massa vermelha

[8] Kommunistische Partei Deutschlands, ou Partido Comunista da Alemanha

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