- Her zu uns![1]
– brada alguém.
Gunther subitamente retoma a
consciência. Olhando ao redor, ele se vê em um salão repleto de pessoas. Na parede acima, ele vê a enorme e imponente bandeira escrito Antifaschistische Aktion[2] , que pairava sobre eles como um poderoso estandarte comunista. À sua frente ele vê
uma bancada com uma faixa escrito “es libe die rote einheitsfront”[3].
Confuso, ele pensa estar ainda no Palast der Republik.
Ao redor haviam
militantes vestidos com roupas antiquadas e boinas de operários. Sentando-se,
os presentes tiram as boinas e assistem à reunião. Gunther estava mais atrás e
se senta também, tentando compreender onde estava. Duas mulheres conversam
atrás dele. Ao olha-las, o rapaz vê uma loira de olhar férreo e uma morena que
exalava convicção ideológica. Ambas vestiam boinas, usavam óculos
grossos e cachecóis xadrez. A loira diz:
- Muito linda
essa Casa de Ópera Filarmônica, não?
- É sim. Aqui eu
vi as melhores apresentações de Berlim.
- O que você acha
que será decidido no congresso?
- Espero que uma
melhor estratégia para derrotarmos os nazistas e seus aliados burgueses.
A loira concorda.
- Assim espero,
camarada.
Então Gunther se
lembra. Quando criança, ele estudou sobre os congressos antifascistas do passado.
Durante as décadas de 20 e 30, vários grupos paramilitares comunistas surgiram
para combater a crescente influência do nazismo na Alemanha. Entre eles estava
o social-democrata Reichsbanner Schwarz-Rot-Gold[4],
o comunista Roter Frontkämpferbund[5]
e o Kampfbund[6],
também comunista.
Em 1931, a Kampfbund formou unidades autônomas e descentralizadas chamadas Roter Massenselbstschutz[7]. Em 1932, essas unidades foram absorvidas pelo KPD[8], o principal partido comunista da época, e integradas a um grupo maior e mais famoso, o Antifaschistische Aktion. Os antifascistas, juntamente com os demais grupos paramilitares, realizariam um congresso em uma antiga casa de ópera em Berlim.
“1932?!”, pensa
Gunther. “Então é aqui onde me encontro, no Congresso da Unidade Antifascista
de 1932!”.
Na tribuna, um
dirigente se levanta e discursa ao público:
- Primeiramente, quero agradecer aos camaradas do Reichsbanner Schwarz-Rot-Gold, do Roter
Frontkämpferbund, do Kampfbund e do Roter Massenselbstschutz por se juntarem a
nós. – diz ele, referindo-se à absorção dos grupos menores ao KPD – Os
nazistas, apoiados pelos porcos burgueses e seu sujo dinheiro capitalista, se
espalharam perigosamente pela Alemanha. Juntos somos mais fortes para combater
essa praga e defendermos a classe operária de sua inexorável opressão. Devemos
proteger o operariado da ganância burguesa, impedindo que nossos camaradas percam
seus empregos nas fábricas, nos campos e que sejam expulsos de suas casas por
ordens de despejo. Os imperialistas causaram a guerra e a perderam,
provocando o desemprego de milhões. Eu vos asseguro que a classe operária não
arcará com as consequências de suas ambições!
Então os
presentes batem palmas, empolgados com aquela apresentação.
- Camaradas, eu
vos apresento o líder do partido e criador da Ação Antifascista: Ernst
Thälmann!
Imediatamente
Gunther se lembra. Em sua juventude, o rapaz estudou sobre os mais proeminentes
comunistas na escola. Thälmann era, talvez, o mais importante
revolucionário comunista na Alemanha. Defensor ferrenho da causa, Thälmann
ajudou a organizar a Revolta de Hamburgo, onde o Partido Comunista invadiu 17
delegacias de polícia e outras sete em Schleswig-Holstein. Sem o apoio da
União Soviética e das demais organizações alemãs, a revolta foi
esmagada em apenas três dias. Estima-se que 100 pessoas morreram nos
confrontos.
Em 1925, Thälmann
torna-se líder do grupo paramilitar Roter Kämpferbund e concorre à presidência
da Alemanha, competindo contra Paul von Hindenburg e o infame Adolf Hitler. Ao
ser derrotado, em 1928 ele adere à famosa diretriz do VI Congresso da
Internacional Comunista, da qual estabelecia o conceito de “classe contra
classe”. Com essa diretriz, o KPD esperava desestabilizar o governo
social-democrata e trazer os trabalhadores à Revolução.
Em 1929, Thälmann
participa do “Maio Sangrento”. Partidários do KPD desafiam as autoridades
alemãs após elas proibirem manifestações políticas nas ruas de Berlim. Estima-se
que, durante um curto período de três dias, 33 civis morreram e 200 ficaram
feridas.
Em 1932, ele
novamente concorre à presidência contra Hitler e Hindenburg. Durante as
eleições, o famoso slogan do KPD se populariza: “Um voto para Hindenburg é um
voto para Hitler, e um voto para Hitler é um voto para a guerra”. Apesar de
seus esforços, Thälmann é novamente derrotado, tendo uma redução de 13,2% no
primeiro turno, para 10,2% no segundo.
Frustrado, Thälmann
se radicaliza. Ainda em 1932, ele decide fundar o movimento mundialmente
conhecido por seus atos de violência, vandalismo e confrontos sangrentos com as
autoridades. Ele funda o Antifaschistische Aktion, abreviado “Antifa”.
- Camaradas! –
começa Thälmann – Agradeço a todos os nossos irmãos que continuam conosco, e
também àqueles que abandonaram seus senhores burgueses para se juntarem à nossa
causa revolucionária. Agradeço ao pai da União Soviética, Vladimir Lênin, do
qual conheci pessoalmente, e ao nosso generalíssimo Josef Stalin, o pai dos
povos!
Então as pessoas
empolgadamente o aplaudem. Gunther olha ao redor e se intriga. “As pessoas
aplaudem cheias de orgulho em seu coração!”.
Thälmann
continua:
- Não estamos
apenas sob a ameaça dos nazistas, mas também de um novo inimigo, os
social-fascistas!
Nisso, os
presentes se entreolham, confusos. “Social-facista?”, se perguntam eles. “Do que
ele está falando?”.
- Em 1914, a
monarquia imperialista nos lançou em uma guerra egoísta de interesses
burgueses. Nos colocaram em fronts, irmãos contra irmãos, proletariado contra
proletariado, resultando em uma desastrosa derrota ao preço de milhões de vidas. E hoje a história se repete nessa república falida governada por
militares derrotados e ressentidos. Hindenburg e seus cachorros fascistas querem
colocar novamente a classe operária para se massacrarem no campo de batalha.
Não mais!
A plateia vibra em concordância, apoiando e
aplaudindo Thälmann.
- Camaradas! Os
social-democratas traíram o proletariado! Eles apoiaram os imperialistas na
Grande Guerra, se aliaram à podre burguesia e deram as costas aos ideais marxistas, nos abandonando para lutarmos sozinhos pela Revolução! São hipócritas,
traidores e gananciosos, são os últimos herdeiros da monarquia que tanto nos fez
sofrer. Eles são nossos inimigos, pois se aliam aos fascistas quando é a
classe operária quem deveriam defender! Camaradas, combatam os social-fascistas!
Mais uma vez a
plateia vibra em euforia, extasiados pelo excelente argumento de Thälmann. Gunther
reconhece o discurso, o ativista seguia a diretriz estabelecida no VI Congresso
da Internacional Comunista.
- Classe contra
classe – sussurra ele.
- O que disse,
camarada?
Gunther olha para
o lado. Um homem de paletó surrado, boina operária e braçadeira do KPD fala com
ele. O rapaz responde:
- Perdoe-me. Eu
só estava refletindo.
O homem sorri.
- Sem problemas,
amigo. Muito esclarecedor o discurso do Thälmann, não é? Mas que bela
estratégia! Esse homem é um visionário!
- Estratégia...?
– pergunta ele, ainda distraído.
- Sim. Devemos
combater nosso principal inimigo, os social-democratas!
Gunther assente.
- É verdade.
Passados alguns
segundos, ele se pergunta o que é Social-democracia. Então as mulheres atrás
deles chiam, mandando eles ficarem em silêncio. Thälmann continua:
- Hitler será nomeado chanceler na Alemanha! – exclama ele, indignado – Querem a prova da
traição social-democrata? Aí está! A nomeação será feita pelo próprio Hindenburg!
Por isso eu digo: chega de lutar em eleições democráticas nessa república
corrupta! Com Hitler na chancelaria, não existirá mais democracia! Devemos
abandonar a legalidade e combater abertamente os nazistas nas ruas! Camaradas,
eu vos convoco: resistam a Hitler e expulsem os nazistas do poder!
Thälmann ergue
seu punho, desafiante e imponente para cima. A plateia não aplaude, ao invés
eles erguem seus punhos também, imitando-o. Alguém grita em meio ao público:
- Viva a
Revolução!
A plateia responde:
“Viva!”.
Outro grita:
- Vida longa ao
camarada Stalin!
“Viva!”.
- Vida longa ao
camarada Thälmann!
“Viva!”.
Então todos
entoam o famoso hino “A Internacional”, tão vigoroso e alto que parecia que o próprio teto ia desabar.
Passado o clamor do momento, Thälmann conclama a todos para se rebelarem e provocarem uma greve geral. As pessoas aceitam decididamente, empenhadas na Revolução.
Ao fundo,
Gunther sente pena deles. Lembrando-se da história, ele sabe que, apesar de
seus esforços, eles novamente fracassariam, sendo em seguida massacrados pelos
nazistas. De fato, até meados de 1935, o KPD foi largamente destruído pelo
governo de Hitler.
- Juntem-se à
Ação Antifascista! – clama Thälmann.
“E quanto a
Thälmann?”, se pergunta Gunther. Em março de 1933, o criador da Ação Antifascista foi preso pela Gestapo, sendo torturado e
confinado na solitária onde permaneceria por longos onze anos. Morreria em
1944, transferido para o campo de concentração de Buchenwald, onde seria
executado por fuzilamento.
“Pobre Thälmann”,
lamenta-se Gunther. “O mesmo homem que hoje os convoca a combater
os nazistas será morto por eles, e seus partidários, presos e executados por aqueles
que eles juraram destruir”.
Mas o mais
doloroso foi a traição. Leal a Stalin e ferrenho defensor da União Soviética, Thalmann foi abandonado pelo ditador e ignorado por seu rival, Walter Ulbricht, enquanto se
amargurava na prisão de Bautzen. Ao descobrir que seus principais aliados na
União Soviética haviam sido exilados e mortos, vítimas das grandes purgas da década de
30, Thälmann se encontrou sozinho, abandonado e esquecido por seu próprio líder,
do qual ele jurou incondicional lealdade, Josef Stalin.
Abatido, lágrimas se escorrem do rosto de Gunther.
- Ei, camarada!
Junte-se a nós na tomada do poder pelos comunistas!
Gunther vê um
jovem de aparentemente dezoito anos falar com ele. “Pobre garoto”, pensa ele.
“Daqui a um mês estará preso ou morto, vítima do radicalismo político que ele
mesmo ajudou a fomentar”. O rapaz sorri e diz:
- Com licença.
Andando pelo
salão, Gunther se dirige à saída. Então algo acontece.
O rapaz vê uma
garota de casaco, saia e cabelos castanhos passar pela multidão. Intrigado, ele
decide ir atrás dela. Os comunistas são muito fanáticos e agressivos, movidos
por puro ódio ideológico. Interrompendo-o, eles exigem que Gunther se
confraternize com eles, dizendo frases de ordem ou trocando abraços.
Desvencilhando-se, o rapaz continua em seu caminho. Então, ao alcançar a
garota, seus olhos se arregalam.
Anneliese
conversa com algumas membras do partido. Parada à sua frente, ela não percebe a
presença do rapaz. Gunther se confunde. Sem conseguir encontrar explicações,
ele pensa: “como isso é possível?!”.
Aproximando-se
lentamente, ele a chama:
- Anneliese...?
A garota se vira
e olha para ele. Seu coração se balança. Ele quase podia sentir o cheiro dos
cabelos dela.
- Pois, não? –
pergunta ela, não reconhecendo o rapaz.
- Você se lembra
de mim?
- O quê? –
intriga-se ela.
- Quero dizer,
você sabe quem eu sou?
A garota se
irrita, claramente incomodada com o rapaz. Ela meneia negativamente a cabeça. O
rapaz novamente pergunta:
- Como isso é
possível?
- Como o que é
possível?
- Você. –
responde ele – Nós não somos desse tempo e você, principalmente, não deveria
estar aqui.
A garota não
entende.
- Diga logo o que
você quer ou vá embora!
- Anneliese, não!
Você não entende! Nós não somos desse tempo. Voltamos ao passado porque, no
presente, eu te beijei!
Arregalando os
olhos, ela responde:
- Você está me
assustando.
Antes que pudesse
falar mais, alguém aparece e diz:
- Camaradas! Nós
agora vamos atacar uma delegacia de polícia perto daqui. Quem vem conosco?
As mulheres tocam
o braço de Anneliese e a convidam para a insurreição. Anneliese rapidamente se
voluntaria, com fervor ideológico em sua voz. Ele, porém, insiste.
- Não! Não vá!
Você vai morrer lá fora, eles vão atirar em você!
- Pois que seja!
– exclama ela – Se eu tiver de morrer pela causa, morrerei feliz!
Indignado,
Gunther se irrita.
- O quê?! Causa?
Não diga besteira! Eles todos aqui vão ser presos ou mortos pelos nazistas!
Acredite em mim!
A garota se
intriga.
- Como você sabe?
- Eu
simplesmente sei! Nós não somos desse tempo. Você e eu somos do futuro!
Então a garota
ri. Cinco homens se aproximam e um deles pergunta:
- Ei, moça. Esse
rapaz está te incomodando?
- Sim, está! Ele
está me falando um monte de esquisitice sem sentido. Se ele não for um espião
do partido nazista, ele é só mais um doido varrido...
O homem olha
furiosamente para ele. Estufando o peito, ele o pergunta:
- Você é um
espião?
Gunther sente o
corpo todo tremer. Se ele for acusado de espionagem, ele será linchado ali
dentro.
- Não! – responde
ele, desesperado – Eu sou comunista! Na verdade, eu vim da Alemanha comunista!
Dessa vez é o
homem quem se intriga.
- Você veio da
Alemanha comunista? – sorri ele – Como assim?
- Sim, nós dois
viemos. – Gunther aponta para Anneliese. A garota revira os olhos.
- E onde fica
essa Alemanha comunista, senhor esquisito?
- Não é onde, mas
quando. Veja, eu vou provar.
Inesperadamente o
rapaz segura Anneliese e a beija, para o espanto de todos. Desvencilhando-se,
ela se ira e o estapeia no rosto, fazendo-o tropeçar e cair no salão. Então
todos ao redor gargalham. Aos risos, alguém comenta:
- Olhem só! A sua
queda foi mais estrondosa que a da República de Weimar...!
O rapaz apenas
ouve os risos enquanto massageia seu rosto no chão.
Um homem de
uniforme vermelho se aproxima e diz:
- Telefonema
para... – ele lê o nome em um pedaço de papel – Gunther. Alguém conhece esse tal
de Gunther?
- Sou eu. –
responde ele, envergonhado.
- Telefonema para
o senhor na recepção.
Sob os risos da multidão atrás dele, o rapaz se
levanta e se afasta.
Atendendo ao
antiquado telefone, ele diz:
- Alô?
- Olá, Gunther.
Como está?
Reconhecendo a misteriosa
voz, ele responde:
- Por que está
fazendo isso com ela? Por que a trouxe aqui?
- Ela quem? –
pergunta a voz.
- Anneliese! –
irrita-se ele.
- Não há tempo
para explicar. Você precisa ir.
- Ir para onde? –
pergunta ele.
Então o mundo
desaparece e ele é envolvido em um vórtice rumo a outra dimensão.
[1]
“Venha até nós” em alemão
[2]
Ação Antifascista
[3]
Viva a frente unida vermelha
[4]
Bandeira do Reich preta, vermelha e dourada
[5]
Frente de combate da frente vermelha
[6]
Aliança de luta
[7]
Autoproteção de massa vermelha
[8]
Kommunistische Partei Deutschlands, ou Partido Comunista da Alemanha

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