quinta-feira, 4 de março de 2021

Tiergarten - 19 - A República de Weimar

 


Sons são ouvidos. Esgueirando-se pela estranha casa, Gunther espia pelas paredes e vê pessoas desconhecidas conversando tranquilamente na cozinha e na sala. O rapaz sente o cheiro agradável de chá. Uma idosa parece preparar o almoço e conversa com uma mulher mais jovem, presumivelmente sua filha. Evitando-as, ele procura a saída caminhando pelas pontas dos pés.

De repente o rapaz ouve o som de crianças se aproximando. Assustado, Gunther abre uma porta aleatória e imediatamente entra. Fechando a porta atrás de si, ele segura a maçaneta, impedindo que alguém entre. Então algo acontece.

- Quem é você?

O rapaz se vira, assustado. Em uma sala escura, alguém sentado em uma poltrona fala com ele. Apesar da escuridão, Gunther enxerga um idoso calvo, de cabelos grisalhos e bigode ligeiramente pontudo atrás de uma mesa. Gunther nota que o homem está ouvindo a um antigo rádio. Ele não sabe o que responder:

- Me desculpe. Eu não sei como vim parar aqui.

O idoso sorri, não acreditando-o.

- Então o Partido Nazista me descobriu e mandou um agente secreto para me matar? Estou lisonjeado.

O rapaz entende que se tratava de um exilado. Imediatamente ele diz:

- Não! Eu não sou um agente! O meu nome é Gunther e eu só quero ir para casa.

- E onde você mora, meu jovem?

- Em Berlim.

O idoso assente, parecendo pensar em algo.

- Você está bem longe de casa, sabia?

O rapaz se intriga. Espiando pela janela, ele vê uma paisagem agradável com torres pontudas e prédios coloridos.

- Onde é que eu estou? – pergunta ele.

- Copenhague.

- O quê?! – espanta-se ele – Meu Deus! Eu preciso ir embora! Eu nem sei como vim parar aqui!

Ignorando-o, o idoso se vira para o seu rádio e diz:

- Shhh! Esse é o momento em que eu proclamo a república.

Aparentemente uma reportagem sobre a Alemanha estava sendo emitida no rádio. Apesar da incompreensível língua dinamarquesa, Gunther consegue entender os discursos em alemão. Uma gravação antiga e bastante ruidosa diz:

“A velha e podre monarquia caiu. Uma nova viverá. Vida longa à República Alemã!”.

Então o rapaz arregala os olhos. Olhando novamente para o idoso à sua frente, ele o pergunta:

- Espere um pouco, por acaso o senhor é Philipp Scheidemann?

O idoso sorri e o responde:

- In Fleisch und Knochen[1]. 

Então Gunther se lembra das aulas de História. Em 9 de novembro de 1918, Scheidemann foi o político que fez o famoso discurso proclamando a república alemã. Entretanto, sua proclamação não tinha autoridade legal, pois constitucionalmente o kaiser ainda ocupava o trono.

Rindo, o velho Scheidemann comenta:

- Após minha proclamação, o Ebert entrou em minha sala, bateu furiosamente em minha mesa e disse: “você não tem o direito de proclamar a República! O que será da Alemanha, uma república ou o que quer que seja, está para a Assembleia Constituinte decidir!”.

Schedeimann falava de Friedrich Ebert, o primeiro chanceler da Alemanha após a derrota na Primeira Guerra Mundial.

O velho se levanta e, virando-se de costas para Gunther, apoia-se na janela. O rapaz tem a impressão de ouvi-lo se lamentar.

- Com licença, herr Scheidemann. Eu realmente preciso ir embora agora.

Ao pegar a maçaneta, o velho o interrompe.

- Você não acha que Platão teria vergonha do que nós, políticos da modernidade, fizemos com o seu conceito de república?

Confuso, o rapaz não o compreende.

- Eu não entendi.

- O que é uma república, meu jovem?

Gunther se enche de dúvidas. Apesar de não ser um ignorante, ele não sabe o que responder.

- Eu não sei.

Olhando novamente para o rapaz, Scheidemann responde:

- República é a junção de duas palavras latinas: res publica, significando “coisa pública”. Essa, por sua vez, tem origem na palavra grega politeia, que exprime a ideia da relação entre os cidadãos, a comunidade e seus direitos em uma cidade ou um Estado. O termo ficou famoso com a famosa obra de Platão, A República, escrita no século 5 a.C. e apreciada até os dias de hoje.

O rapaz se espanta com a resposta de Scheidemann. Seu nível cultural era admirável.

- E então? – pergunta novamente o velho – Você não acha uma vergonha o quanto o conceito platônico foi deformado hoje?

Definitivamente Gunther não sabe o que responder.

- Eu não sei nada sobre esse conceito.

Sentando-se em sua poltrona, o velho calmamente o explica:

- Apesar de platônico, pode-se dizer que o conceito é também socrático, pois é representado de forma dialética. Sócrates, o personagem principal de sua obra, distingue os governantes como metais preciosos, classificando-os como o ouro. Da mesma maneira, os guerreiros como a prata e os produtores como o ferro e o cobre. Para Sócrates, as estruturas sociais são divididas em classes tripartidas, sendo o apetite, o espírito e razão. Os guerreiros seriam o espírito, os produtores o apetite e os governantes a razão. Portanto, os produtores são o apetite, o ferro e o cobre; os guerreiros o espírito e a prata; e os governantes o ouro e a razão. Poderia ocorrer de alguém nascido ouro tiver um filho prata, e um prata tiver um filho ferro e cobre, e assim sucessivamente. Caberiam aos magistrados identificar de qual metal seria cada criança.

Achando aquilo um pouco complexo, ele apenas diz:

- Entendi.

- Mas – prossegue o velho – Platão e Sócrates desprezavam a democracia. Embora muito estimada em nosso tempo, em seus dias era regida pela retórica e persuasão, ao invés da razão e da sabedoria. Sócrates achava melhor que os governantes só fossem admitidos no governo após os 50 anos, pois esses já teriam passado por muitas experiências e teriam a sabedoria que só a idade podia oferecer. Além de uma série de outras limitações, como obrigar os produtores a não serem muito ricos e os guerreiros a serem obrigatoriamente pobres, seu conceito de sociedade ideal não passava de uma utopia.

Scheidemann parece se perder em pensamentos de novo.

Gunther sabe bem o que é uma utopia, pois o próprio comunismo era uma. Mas antes que pudesse comentar algo, o velho continua:

- Fomos ingênuos, idealistas e sonhadores. Elevamos o ideal acima da razão e quase mergulhamos a Alemanha em um abismo de miséria e violência. Maquiavel estava certo, afinal. Como o próprio pensador disse, “é bem mais seguro ser temido do que amado”. Buscamos sermos amados pelo povo, e isso quase nos levou à destruição. Se isso tivesse acontecido, hoje seríamos odiados pelos alemães, não importa o quão bem os fizemos para os livrarem da autoridade do kaiser. Mas resistimos, governando sozinhos, com os comunistas e com o apoio da burguesia...

O velho se refere ao Rat der Volksbeauftragten[2], um governo revolucionário de modelo soviético composto por três membros do SPD, o partido social-democrata, e três do USPD, o partido social-democrata independente, de cunho bolchevique. Ele também cita o apoio burguês para a estabilidade do novo regime com o surgimento dos Freikorps[3] .

Scheidemann ri.

- Que ironia. Fizemos o trabalho sujo da burguesia para conter a Revolução enquanto os revolucionários sujavam toda a Alemanha com suas insurreições. Difícil dizer quem estava mais errado assim.

O rapaz concorda.

- Tem razão.

- Apesar de tudo, nós vencemos no final. Nesse caso “os fins justificaram os meios”, e como Maquiavel disse, “os que vencem, não importa como vençam, nunca conquistam a vergonha”.

Gunther se surpreende com o conhecimento de Scheidemann. Inesperadamente ele pergunta:

- O senhor se orgulha da República de Weimar?

O velho olha para ele, intrigado.

- E o que foi a República de Weimar senão uma tentativa insólita de reerguer a derrotada Alemanha? – pergunta ele – Apesar de minha pretensiosa proclamação, Ebert manteve o título de Império Alemão e promulgou a nova Constituição, aquela elaborada na insignificante e pacata cidade de Weimar.

- Mas por que Weimar? – interessa-se Gunther.

- 1918 foi um ano de grande fervor revolucionário em Berlim. Devido aos tumultos e confrontos de rua, não era seguro formar uma Assembleia Constituinte na cidade. Escolhemos uma cidade calma e afastada, capital de um futuro estado oriundo de oito microestados na região. Em 1920 surgiria a Turíngia, e com ele sua nova capital, Weimar.

Gunther admira o fato de que, devido às tensões do momento, a nova república receberia um nome não oficial que pegaria e seria conhecido no mundo inteiro. “A República de Weimar, fundada pelos social-democratas” pensa ele.

Lembrando-se de algo, o rapaz pergunta:

- Herr Scheidemann, o que é social-democracia.

O velho se intriga, admirando-se do interesse do rapaz.

- Social-democracia é uma ideologia progressista que promove a passagem do sistema capitalista para o socialista sem a necessidade da Revolução. Ela defende a intervenção do Estado na economia, a justiça social, a proteção dos sindicatos, a regulamentação econômica e a distribuição de renda mais igualitária. Essa ideologia defende a democracia, opondo-se tanto ao marxismo, que defende a ditadura do proletariado, quanto o anarquismo, que deseja a abolição completa do Estado. Foi fundado por Ferdinand Lassalle, um teórico socialista alemão, mas de origem judia.

Gunther se felicita ao aprender algo importantíssimo na história alemã.

Passados alguns segundos, Scheidemann continua:

- Foi o meu desejo que implantássemos o sistema social-democrático no pós-guerra, mas Ebert e eu tivemos muita resistência por parte dos comunistas e dos setores mais conservadores da Alemanha. Ambos queriam rasga-la e toma-la para si. Nós, democratas em essência, não permitimos que isso ocorresse. E então veio o Tratado de Versalhes...

Encolhendo-se em sua poltrona, o velho se lamenta.

- O que aconteceu, senhor Scheidemann?

- Os britânicos, americanos e franceses nos impuseram pesadas compensações de guerra. Sobretudo os franceses, rancorosos desde sua humilhante derrota nas mãos de Bismarck.

Scheidemann refere-se à Guerra Franco-Prussiana de 1870, da qual os alemães venceram os franceses. A França perde a Alsácia-Lorena, tem seu Imperador Napoleão III deposto e encerra seu período conhecido como o Segundo Império, dando início à Terceira República francesa.

O velho continua:

- Ebert, no cargo de presidente provisório, me pediu para formar o primeiro governo democraticamente eleito na Alemanha republicana. Mas quando eu tomei conhecimento das imposições do tratado, aquilo foi demais para mim. Apenas quatro meses após eu assumir o gabinete, eu abdiquei do meu posto de chanceler.

Gunther não se lembra das imposições do Tratado de Versalhes, mas prefere não pergunta-lo. Em tom consolatório, o rapaz diz:

- Tenho certeza que o senhor fez o que pôde.

Amargurado, o velho responde:

- Acho que você é o único que pensa assim.

Então uma notícia estrondosa é emitida no rádio.

“Atenção! A Alemanha Nazista acaba de invadir a Polônia. Eles capturaram a cidade livre de Danzig e marcham em solo polonês rumo à sua capital, Varsóvia. Além da Tchecoslováquia e da região dos Sudetos, essa foi mais uma violação direta do Tratado de Versalhes. Mais detalhes a seguir”.

Nesse momento Gunther percebe. Ele estava em 1º de setembro de 1939.

- O inevitável aconteceu. É o começo do fim. – lamenta-se Scheidemann – O mundo pegará fogo por causa da ambição de um único homem, esse louco chamado Adolf Hitler. Todo o meu trabalho desfeito, todo o meu esforço em vão... Protegemos a frágil república dos comunistas e dos monarquistas, mas não conseguimos protege-la da ascensão do nazismo...! – irrita-se ele, inconformado – Que Deus nos proteja...

Um minuto se passa. Consternado, Gunther diz:

- Herr Scheidemann, se isso servir de consolo, saiba que os nazistas não governarão a Alemanha por muito tempo. A guerra que eles começaram, eles a perderão.

- O quê?

- Sim. Em 1945, daqui a seis anos, a Alemanha perderá a guerra, mas felizmente o mundo se livrará desse câncer chamado Terceiro Reich.

- Do que você está falando, meu jovem?

- Será um período traumático para os alemães, mas a nossa Vaterland[4] se erguerá novamente. Entretanto... – reflete ele – ela será mutilada em duas por dois sistemas sociopolíticos heterogêneos. Os capitalistas e os comunistas.

- Como você sabe?

- Eu vim do futuro, senhor Scheidemann. A Alemanha será reduzida e um terço do seu território será governado pelos comunistas, tornando-se um Estado satélite da União Soviética. Apesar da derrota retumbante, será melhor parar todos nós.

O velho se espanta.

- Mein Gott[5]! Acho isso difícil de acreditar!

- Pois acredite. A Alemanha será ocupada e dividida, mas os nazistas felizmente perderão.

Intrigado, Scheidemann o pergunta:

- Meu jovem, de que ano você é?

O rapaz ia responder quando o telefone toca. Percebendo que ninguém o atendia, o toque alto e ensurdecedor faz ele se irritar. Enfim Gunther pergunta:

- Vocês não vão atender?

Scheidemann não compreende.

- Atender?

- Sim.

Então o toque se multiplica. Gunther agora ouve dezenas de aparelhos tocando.

- Do que você está falando?

- Do telefone, oras!

O som é ensurdecedor. Seus ouvidos começam a doer.

- Meu jovem... – começa Scheidemann – O telefone não está tocando.

O rapaz se espanta. Arregalando os olhos, ele pensa: “como isso é possível?!”.

Então um vórtice temporal aparece. Schedeimann, sua mesa e sua casa desaparecem no redemoinho de imagens. Gunther se assusta. Indefeso e incapaz de resistir, o rapaz é novamente lançado rumo a outra dimensão.

 

 



[1] “Em carne e ossos” em alemão

[2] Conselho dos Encarregados do Povo em alemão

[3] Regimentos livres

[4] Pátria

[5] Meu Deus!

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