Sons são ouvidos.
Esgueirando-se pela estranha casa, Gunther espia pelas paredes e vê pessoas
desconhecidas conversando tranquilamente na cozinha e na sala. O rapaz sente o
cheiro agradável de chá. Uma idosa parece preparar o almoço e conversa com uma
mulher mais jovem, presumivelmente sua filha. Evitando-as, ele procura a saída
caminhando pelas pontas dos pés.
De repente o
rapaz ouve o som de crianças se aproximando. Assustado, Gunther abre uma porta
aleatória e imediatamente entra. Fechando a porta atrás de si, ele segura a
maçaneta, impedindo que alguém entre. Então algo acontece.
- Quem é você?
O rapaz se vira,
assustado. Em uma sala escura, alguém sentado em uma poltrona fala com ele.
Apesar da escuridão, Gunther enxerga um idoso calvo, de cabelos grisalhos e bigode
ligeiramente pontudo atrás de uma mesa. Gunther nota que o homem está ouvindo a
um antigo rádio. Ele não sabe o que responder:
- Me desculpe. Eu
não sei como vim parar aqui.
O idoso sorri,
não acreditando-o.
- Então o Partido
Nazista me descobriu e mandou um agente secreto para me matar? Estou
lisonjeado.
O rapaz entende
que se tratava de um exilado. Imediatamente ele diz:
- Não! Eu não sou
um agente! O meu nome é Gunther e eu só quero ir para casa.
- E onde você
mora, meu jovem?
- Em Berlim.
O idoso assente,
parecendo pensar em algo.
- Você está bem
longe de casa, sabia?
O rapaz se
intriga. Espiando pela janela, ele vê uma paisagem agradável com torres
pontudas e prédios coloridos.
- Onde é que eu
estou? – pergunta ele.
- Copenhague.
- O quê?! –
espanta-se ele – Meu Deus! Eu preciso ir embora! Eu nem sei como vim parar
aqui!
Ignorando-o, o
idoso se vira para o seu rádio e diz:
- Shhh! Esse é o
momento em que eu proclamo a república.
Aparentemente uma
reportagem sobre a Alemanha estava sendo emitida no rádio. Apesar da
incompreensível língua dinamarquesa, Gunther consegue entender os discursos em
alemão. Uma gravação antiga e bastante ruidosa diz:
“A velha e podre
monarquia caiu. Uma nova viverá. Vida longa à República Alemã!”.
Então o rapaz
arregala os olhos. Olhando novamente para o idoso à sua frente, ele o pergunta:
- Espere um
pouco, por acaso o senhor é Philipp Scheidemann?
O idoso sorri e o
responde:
- In Fleisch und
Knochen[1].
Então Gunther se
lembra das aulas de História. Em 9 de novembro de 1918, Scheidemann foi o
político que fez o famoso discurso proclamando a república alemã. Entretanto,
sua proclamação não tinha autoridade legal, pois constitucionalmente o kaiser
ainda ocupava o trono.
Rindo, o velho
Scheidemann comenta:
- Após minha
proclamação, o Ebert entrou em minha sala, bateu furiosamente em minha mesa e
disse: “você não tem o direito de proclamar a República! O que será da
Alemanha, uma república ou o que quer que seja, está para a Assembleia
Constituinte decidir!”.
Schedeimann
falava de Friedrich Ebert, o primeiro chanceler da Alemanha após a derrota na
Primeira Guerra Mundial.
O velho se
levanta e, virando-se de costas para Gunther, apoia-se na janela. O rapaz tem a
impressão de ouvi-lo se lamentar.
- Com licença, herr
Scheidemann. Eu realmente preciso ir embora agora.
Ao pegar a
maçaneta, o velho o interrompe.
- Você não acha que Platão teria vergonha do que nós, políticos da modernidade, fizemos com o seu conceito de república?
Confuso, o rapaz
não o compreende.
- Eu não entendi.
- O que é uma
república, meu jovem?
Gunther se enche
de dúvidas. Apesar de não ser um ignorante, ele não sabe o que responder.
- Eu não sei.
Olhando novamente
para o rapaz, Scheidemann responde:
- República é a
junção de duas palavras latinas: res publica, significando “coisa
pública”. Essa, por sua vez, tem origem na palavra grega politeia, que
exprime a ideia da relação entre os cidadãos, a comunidade e seus direitos em
uma cidade ou um Estado. O termo ficou famoso com a famosa obra de Platão, A
República, escrita no século 5 a.C. e apreciada até os dias de hoje.
O rapaz se
espanta com a resposta de Scheidemann. Seu nível cultural era admirável.
- E então? – pergunta
novamente o velho – Você não acha uma vergonha o quanto o conceito platônico
foi deformado hoje?
Definitivamente
Gunther não sabe o que responder.
- Eu não sei nada
sobre esse conceito.
Sentando-se em
sua poltrona, o velho calmamente o explica:
- Apesar de
platônico, pode-se dizer que o conceito é também socrático, pois é representado
de forma dialética. Sócrates, o personagem principal de sua obra, distingue os
governantes como metais preciosos, classificando-os como o ouro. Da mesma maneira,
os guerreiros como a prata e os produtores como o ferro e o cobre. Para
Sócrates, as estruturas sociais são divididas em classes tripartidas, sendo o
apetite, o espírito e razão. Os guerreiros seriam o espírito, os produtores o apetite
e os governantes a razão. Portanto, os produtores são o apetite, o ferro e o
cobre; os guerreiros o espírito e a prata; e os governantes o ouro e a razão.
Poderia ocorrer de alguém nascido ouro tiver um filho prata, e um prata tiver
um filho ferro e cobre, e assim sucessivamente. Caberiam aos magistrados
identificar de qual metal seria cada criança.
Achando aquilo um
pouco complexo, ele apenas diz:
- Entendi.
- Mas – prossegue
o velho – Platão e Sócrates desprezavam a democracia. Embora muito estimada em
nosso tempo, em seus dias era regida pela retórica e persuasão, ao invés da
razão e da sabedoria. Sócrates achava melhor que os governantes só fossem
admitidos no governo após os 50 anos, pois esses já teriam passado por muitas
experiências e teriam a sabedoria que só a idade podia oferecer. Além de uma série
de outras limitações, como obrigar os produtores a não serem muito ricos e os
guerreiros a serem obrigatoriamente pobres, seu conceito de sociedade ideal não
passava de uma utopia.
Scheidemann
parece se perder em pensamentos de novo.
Gunther sabe bem
o que é uma utopia, pois o próprio comunismo era uma. Mas antes que pudesse
comentar algo, o velho continua:
- Fomos ingênuos,
idealistas e sonhadores. Elevamos o ideal acima da razão e quase mergulhamos a
Alemanha em um abismo de miséria e violência. Maquiavel estava certo, afinal.
Como o próprio pensador disse, “é bem mais seguro ser temido do que amado”.
Buscamos sermos amados pelo povo, e isso quase nos levou à destruição. Se isso
tivesse acontecido, hoje seríamos odiados pelos alemães, não importa o quão bem
os fizemos para os livrarem da autoridade do kaiser. Mas resistimos, governando
sozinhos, com os comunistas e com o apoio da burguesia...
O velho se refere
ao Rat der Volksbeauftragten[2],
um governo revolucionário de modelo soviético composto por três membros do SPD,
o partido social-democrata, e três do USPD, o partido social-democrata
independente, de cunho bolchevique. Ele também cita o apoio burguês para a
estabilidade do novo regime com o surgimento dos Freikorps[3]
.
Scheidemann ri.
- Que ironia.
Fizemos o trabalho sujo da burguesia para conter a Revolução enquanto os
revolucionários sujavam toda a Alemanha com suas insurreições. Difícil dizer
quem estava mais errado assim.
O rapaz concorda.
- Tem razão.
- Apesar de tudo,
nós vencemos no final. Nesse caso “os fins justificaram os meios”, e como
Maquiavel disse, “os que vencem, não importa como vençam, nunca conquistam a
vergonha”.
Gunther se
surpreende com o conhecimento de Scheidemann. Inesperadamente ele pergunta:
- O senhor se
orgulha da República de Weimar?
O velho olha para
ele, intrigado.
- E o que foi a
República de Weimar senão uma tentativa insólita de reerguer a derrotada
Alemanha? – pergunta ele – Apesar de minha pretensiosa proclamação, Ebert
manteve o título de Império Alemão e promulgou a nova Constituição, aquela
elaborada na insignificante e pacata cidade de Weimar.
- Mas por que
Weimar? – interessa-se Gunther.
- 1918 foi um ano
de grande fervor revolucionário em Berlim. Devido aos tumultos e confrontos de
rua, não era seguro formar uma Assembleia Constituinte na cidade. Escolhemos
uma cidade calma e afastada, capital de um futuro estado oriundo de oito
microestados na região. Em 1920 surgiria a Turíngia, e com ele sua nova capital,
Weimar.
Gunther admira o
fato de que, devido às tensões do momento, a nova república receberia um nome
não oficial que pegaria e seria conhecido no mundo inteiro. “A República de
Weimar, fundada pelos social-democratas” pensa ele.
Lembrando-se de
algo, o rapaz pergunta:
- Herr
Scheidemann, o que é social-democracia.
O velho se
intriga, admirando-se do interesse do rapaz.
-
Social-democracia é uma ideologia progressista que promove a passagem do
sistema capitalista para o socialista sem a necessidade da Revolução. Ela
defende a intervenção do Estado na economia, a justiça social, a proteção dos
sindicatos, a regulamentação econômica e a distribuição de renda mais
igualitária. Essa ideologia defende a democracia, opondo-se tanto ao marxismo,
que defende a ditadura do proletariado, quanto o anarquismo, que deseja a
abolição completa do Estado. Foi fundado por Ferdinand Lassalle, um teórico
socialista alemão, mas de origem judia.
Gunther se
felicita ao aprender algo importantíssimo na história alemã.
Passados alguns
segundos, Scheidemann continua:
- Foi o meu
desejo que implantássemos o sistema social-democrático no pós-guerra,
mas Ebert e eu tivemos muita resistência por parte dos comunistas e dos
setores mais conservadores da Alemanha. Ambos queriam rasga-la e
toma-la para si. Nós, democratas em essência, não permitimos que isso ocorresse. E
então veio o Tratado de Versalhes...
Encolhendo-se em
sua poltrona, o velho se lamenta.
- O que
aconteceu, senhor Scheidemann?
- Os britânicos,
americanos e franceses nos impuseram pesadas compensações de guerra. Sobretudo
os franceses, rancorosos desde sua humilhante derrota nas mãos de Bismarck.
Scheidemann
refere-se à Guerra Franco-Prussiana de 1870, da qual os alemães venceram os
franceses. A França perde a Alsácia-Lorena, tem seu Imperador Napoleão III
deposto e encerra seu período conhecido como o Segundo Império, dando início à
Terceira República francesa.
O velho continua:
- Ebert, no cargo
de presidente provisório, me pediu para formar o primeiro governo
democraticamente eleito na Alemanha republicana. Mas quando eu tomei
conhecimento das imposições do tratado, aquilo foi demais para mim. Apenas
quatro meses após eu assumir o gabinete, eu abdiquei do meu posto de chanceler.
Gunther não se
lembra das imposições do Tratado de Versalhes, mas prefere não pergunta-lo. Em
tom consolatório, o rapaz diz:
- Tenho certeza
que o senhor fez o que pôde.
Amargurado, o
velho responde:
- Acho que você é
o único que pensa assim.
Então uma notícia
estrondosa é emitida no rádio.
“Atenção! A
Alemanha Nazista acaba de invadir a Polônia. Eles capturaram a cidade livre de
Danzig e marcham em solo polonês rumo à sua capital, Varsóvia. Além da
Tchecoslováquia e da região dos Sudetos, essa foi mais uma violação direta do
Tratado de Versalhes. Mais detalhes a seguir”.
Nesse momento
Gunther percebe. Ele estava em 1º de setembro de 1939.
- O inevitável
aconteceu. É o começo do fim. – lamenta-se Scheidemann – O mundo pegará fogo por
causa da ambição de um único homem, esse louco chamado Adolf Hitler. Todo o meu
trabalho desfeito, todo o meu esforço em vão... Protegemos a frágil república
dos comunistas e dos monarquistas, mas não conseguimos protege-la da ascensão do nazismo...! – irrita-se ele, inconformado – Que Deus nos proteja...
Um minuto se
passa. Consternado, Gunther diz:
- Herr Scheidemann,
se isso servir de consolo, saiba que os nazistas não governarão a Alemanha por
muito tempo. A guerra que eles começaram, eles a perderão.
- O quê?
- Sim. Em 1945,
daqui a seis anos, a Alemanha perderá a guerra, mas felizmente o mundo se livrará desse câncer
chamado Terceiro Reich.
- Do que você está
falando, meu jovem?
- Será um período
traumático para os alemães, mas a nossa Vaterland[4]
se erguerá novamente. Entretanto... – reflete ele – ela será mutilada em duas
por dois sistemas sociopolíticos heterogêneos. Os capitalistas e os comunistas.
- Como você sabe?
- Eu vim do futuro,
senhor Scheidemann. A Alemanha será reduzida e um terço do seu território será
governado pelos comunistas, tornando-se um Estado satélite da União Soviética. Apesar
da derrota retumbante, será melhor parar todos nós.
O velho se
espanta.
- Mein Gott[5]!
Acho isso difícil de acreditar!
- Pois acredite. A
Alemanha será ocupada e dividida, mas os nazistas felizmente perderão.
Intrigado,
Scheidemann o pergunta:
- Meu jovem, de
que ano você é?
O rapaz ia
responder quando o telefone toca. Percebendo que ninguém o atendia, o toque alto e ensurdecedor faz ele se irritar. Enfim Gunther pergunta:
- Vocês não vão atender?
Scheidemann não compreende.
- Atender?
- Sim.
Então o toque se
multiplica. Gunther agora ouve dezenas de aparelhos tocando.
- Do que você está
falando?
- Do telefone,
oras!
O som é
ensurdecedor. Seus ouvidos começam a doer.
- Meu jovem... –
começa Scheidemann – O telefone não está tocando.
O rapaz se espanta.
Arregalando os olhos, ele pensa: “como isso é possível?!”.
Então um vórtice temporal
aparece. Schedeimann, sua mesa e sua casa desaparecem no redemoinho de imagens.
Gunther se assusta. Indefeso e incapaz de resistir, o rapaz é novamente lançado
rumo a outra dimensão.

Nenhum comentário:
Postar um comentário